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História

A simpatia e a garra do líder dos Leões da Vila

História de: Valter dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/06/2018

Sinopse

Valter dos Santos, filho de pais imigrantes de Inhambupe, Bahia, nasce em 25 de março de 1967 em São Paulo. Conta em sua história sobre as brincadeiras de criança em uma São Paulo ainda em desenvolvimento, sua responsabilidade de ser o mais velho de oito irmãos e do como se tornou o balconista carismático da padaria Nova Leão e presidente do time de futebolistas de salão da Leões da Vila. Uma história repleta de diversão, muito pela pessoa que é, mas também com muita garra e paixão pela profissão, as pessoas que encontra, o futebol e, principalmente, pela sua família, da qual se orgulha muito.

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História completa

P/1 – Boa tarde, Valter.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Então, pra começar a nossa entrevista, eu peço para você dizer o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Meu nome é Valter dos Santos. Nasci em São Paulo. Nasci em São Paulo, dia 25/03/67.

 

P/1 – E sua família é da onde?

 

R – Meus pais... Meus pais são da Bahia, da cidade de Inhambupe.

 

P/1 – E seus avós?

 

R – Meus avós também são de lá.

 

P/1 – Também?

 

R – Todos.

 

P/1 – Que que seus avós faziam lá na Bahia?

 

R – Meus avós eram... Trabalhavam numa fazenda porque, antigamente, lá na Bahia, há uns anos atrás, tinha aqueles fazendeiros, então tinha vários empregados. E minha avó e meu avô trabalhavam lá. Trabalharam muitos e muitos anos, até que um dia minha vó viu que lá, praticamente, ela não iria sair daquilo e ela resolveu vir para São Paulo. Só que veio ela e o marido e deixaram os filhos lá. Inclusive um dos filhos que é meu pai, ele veio de trem. Ele veio só com a roupa do corpo.

 

P/1 – Mas ele ficou lá, também, na fazenda? Ele nasceu na fazenda?

 

R – Ele nasceu na fazenda. Mas aí, a irmã dela tinha uma casa fora da fazenda, perto, aí ele ficou lá alguns meses. Aí, quando minha vó viu que, mais ou menos, ela tava estabilizada, aí ela mandou ele vir. Só que financeiramente não tinha dinheiro. Aí conversou com um amigo que ela tinha, intermediários, assim, e aí meu pai veio de trem.

 

P/1 – De trem de lá da...

 

R – Da Bahia pra São Paulo.

 

P/1 – E os outros irmãos?

 

R – Depois, aí, meu pai começou a trabalhar de carreto. Porque, antigamente, você trabalhava na feira de carreto, que tinha essas madames, então, praticamente, final de semana, dia de feira, você tirava um dinheiro razoável. Meu pai foi “ajuntando” até que ele juntou um dinheiro para mandar buscar o irmão dele.

 

P/1 – Então, mas... Ah, tá! Tinha o seu pai e mais um irmão, é isso?

 

R – Mais um irmão.

 

P/1 – E a sua mãe também trabalhava aqui?

 

R – Minha mãe, quando veio, aí ela trabalhava de doméstica. Depois, aí, meu pai... Depois, assim, eles já se conheciam lá. Só que ele veio primeiro, depois de alguns meses, aí ela resolveu vir também. Moravam, acho que a dez minutos um do outro, aí... Eles namoravam lá, aí ele pediu pra vir e, aí, casaram aqui.

 

P/1 – E aí eles foram morar aonde?

 

R – Eles moraram muitos anos na Favela do Vergueiro. A Favela do Vergueiro foi uma das maiores favelas que teve em São Paulo: tinha campo de futebol, tinha tudo. Eu saí de lá... Eu morei dois anos na favela. Dois anos. Meu pai conta histórias...

 

P/1 – Você nasceu lá?

 

R – Nasci, praticamente, nasci lá. Morei lá dois anos. Nasci no Hospital Pérola Byington.

 

P/1 – Sei.

 

R – Aí, depois fomos... Nasci em 67, morei até 69, lá na Favela do Vergueiro. Depois, em 69, eu fui pra hoje onde eu moro. Assim, da onde eu morava, da casa do meu pai, quando eu mudei pra onde eu moro hoje são quatro minutos; então, praticamente é no mesmo bairro: Jardim Luz, Americanópolis. Então de 69 até hoje, eu moro lá.

 

P/1 – Em Americanópolis?

 

R – Em Americanópolis.

 

P/1 – Então você passou sua infância lá?

 

R – Ah, eu tive uma infância que eu acho que poucos... Eu falo pros meus filhos, que às vezes: “Ah, vocês não deviam fazer isso...” Mas eu era terrível. Terrível no bom sentido. Na escola eu nunca tive, assim, a professora falar: “Ah, Valter você fez isso.” Nada! Mas eu fora, eu era uma pestinha. Peste no bom sentido. Antigamente, a infância era legal: você saia em turminha, quatro, cinco, você aprontava, mas hoje já não. Ah, eu gostava de entrar em boca de bueiro. Como eu gostava de entrar debaixo... Ficar no esgoto. Eu falava: “Meu Deus...”

 

P/1 – Como assim?

 

R – Não tinha as bocas de bueiro? Aquelas bocas maiores de esgoto? Entrava ali. Só que um dia, quase... Nós tínhamos ali em sete, oito, nós entramos, ficamos lá, ficava horas e horas.  Entrava numa rua para sair em outra.

 

P/1 – (risos).

 

R – E fomos pegos pela chuva, pelo temporal. Nossa! Não morremos aquele dia porque eu acho que Deus existe mesmo. Pessoa falar que, às vezes, duvida de Deus, eu acho que ele mesmo tá duvidando dele mesmo.

 

P/1 – Você tinha quantos anos quando aconteceu isso?

 

R – Ah, eu tinha uns dez, 11... Dez pra 11 anos. Só que nós “era” uma turma assim, aonde tava a gente, sempre tava aqueles 11. Sempre. Então, aí, os pais: “Cadê Valter? Cadê não sei quem? Cadê Wanderley? Cadê Wagner?” Nós “era” em cinco irmãos e tinha mais os primos e amigos. Aí, temporal, aí conseguimos cair num poço, que vai juntando água, o que foi a nossa salvação. Nós começamos a berrar, aí alguém passou e ouviu a voz. Aí chamou... Nossa! Aquele dia! Olha... Pai não sabia se chorava, se batia... A gente mesmo... Depois que nós saímos daquela aventura...

 

P/1 – Você falou que tinha cinco irmãos?

 

R - Isso. Mas, graças a Deus, eu acho que eu não me arrependo não. Que a nossa infância... Era uma infância difícil porque onde eu morava, quando eu mudei, em 69, pra esse lugar, demorou muitos anos pra desenvolver. Quando eu mudei pra essa rua onde a gente mora hoje, praticamente tinham duas casas na rua. Então, praticamente, o resto era só fazenda, sítio, mas eu era super-feliz

 

P/1 – E lá, seu pai também fazia carreto, nesse bairro?

 

R – Aí ele arrumou um emprego como metalúrgico. Ficou muitos anos até que houve um problema de coluna, de hérnia de disco, aí ele foi trabalhando menos, chegou um ponto que o médico aposentou ele. Porque ele operou, não deu certo, aí ele ficou na Caixa muitos anos, depois aposentou. Eu hoje estou com 40, o meu pai está com 59.

 

P/1 – Então, e aí além dessa lembrança que você tem de brincar na rua, com essa turma, com seus irmãos, fala um pouco como era a sua casa.

 

R – Nós morávamos... Casa de tijolo não existia. Nós morávamos num barraco, mas num barraco, você olhava pro chão, dava para ver o seu rosto. Nós encerávamos todos os dias. Todos os dias tinha que encerar. Então, meu pai saía para trabalhar, nós, em cinco... Oito irmãos porque era cinco irmãos e três irmãs. A família foi crescendo. Cada ano era um. Então, aí a família foi crescendo, eu era o mais velho e sempre o mais velho tinha que cuidar dos irmãos. Aí, eu perguntava... Tinha dias que eu sentia falta da minha mãe. Falava: “Ô pai, ô vó, onde tá minha mãe?” “Sua mãe foi buscar um irmão que a cegonha vai trazer.” Aí, nessa de cegonha foi muito tempo. Hoje, pega um menino, vai fazer 11 anos, às vezes eu quero falar e ele: “Ah, pai, eu já sei muita coisa.” E eu até com certa idade – eu falo pra eles – até com certa idade era a cegonha. Ah, a cegonha... Eu ia prá fora, ficava olhando... Hoje, a mulher vai dar à luz, se é normal, com dois dias, três dias ela está em casa. Minha mãe ficava uma semana. Caramba! Quando pensava que não, chegava a minha mãe. E eu sempre naquela: “Ah, a cegonha...” Vim realmente a descobrir, mesmo, parece que tinha uns 15 anos.

 

P/1 – E como é que era isso, você o mais velho, com oito irmãos, como é que você cuidava deles.

 

R – Eu cuidava...

 

P/1 – O que você fazia?

 

R – Meu pai saía para trabalhar. Nós não tínhamos água encanada. Eu que tinha que... Nós “tinha” um poço, mais ou menos, uns dez metros de profundidade, eu puxava. Com mais ou menos sete anos e meio eu já tomava conta deles. Aí eu comprava pão e leite, deixava eles lá: “Fica aí que eu vou comprar pão e leite.” Comprava pão... Antigamente, você chegava num barzinho, falava: “Me dá meio metro de pão e meio litro de leite.” Ainda peguei... Aí chegava em casa, já fazia, era um que queria tomar leite com Nescau e chá mate. Eu fazia, dava o café pra todos. Depois, o meu pai fez um banquinho da altura do fogão, mais ou menos da altura que eu alcançasse o fogão pra ver a panela. Eu fazia arroz, fazia tudo, dava comida pra todos.

 

P/1 – Meu Deus!

 

R – É, então, hoje, assim, o meu exemplo, com tudo o que eu fui, o meu filho mais velho é idêntico a tudo o que eu fui, quando eu era pequeno, ele é. Ele com quatro anos, um dia deixei ele na casa do meu pai, ele falou: “Pai, eu não quero... Eu prefiro ficar só.” Porque eu e minha esposa trabalhávamos – e eu estava desempregado – e eu arrumei um serviço que era no horário das 11 às 7. Então ele entrava na escola 11 horas e saía às 3 horas e minha esposa chegava às 5. Daí, eu falei: “E agora?” Aí eu conversei com ele, mas teve azar que no primeiro dia que eu deixei ele teve um temporal e acabou a luz. Com quatro horas. Daí eu fiz o desenho do pai, da mãe e tudo, falei: “Olha, qualquer coisa, você liga.” Já tinha preparado ele. Daí, o telefone toca. O meu patrão falou: “É seu filho.” “Pai, eu tô com medo que acabou a luz.” E eu tava com dois dias de serviço. O patrão falou: “Não posso deixar você ir embora.” Aí a minha esposa, nessa de enchente, era pra chegar às quatro horas – era uma hora que ele ficava sozinho – e ela só conseguiu chegar às 8 e a luz chegou às 7 horas. Aí fui preparando ele, explicando: “Não pai, pode me deixar.” Daí ele hoje é que cuida da casa, que leva o caçula pra escola, que busca, e depois leva pra outra escola e depois ele vai pra escola. Com 11 anos ele faz tudo isso. Por isso que eu acho que os filhos são o que você... O pai e a mãe é o espelho pros filhos. Não adianta eu querer cobrar alguma coisa de vocês se eu sou canalha. Não adianta. Eu acho que, às vezes, fulano seguiu o caminho errado. Eu acho que se você conversa, eu acho que a pessoa só segue se quiser.

 

P/1 – Então, vamos voltar lá pra você com seus irmãos. Aí você cuidava e tal, mas você ia pra escola, eles iam pra escola, como é que era a vida...?

 

R – Aí eu ia pra escola. Eu estudava a uns 800 metros de casa. Então, aí tinha uma vizinha, e aí depois, eu com uns oito, sete anos, meu irmão com seis, eu explicava pra ele, deixava tudo pronto, ia pra escola – ficava três horas na escola, naquele tempo – aí, quando eu chegava, ele já tinha feito mais ou menos tudo, o resto aí eu ia cuidando. Aí, depois, eu ajudava muito minha mãe. Minha mãe, assim carinho não tinha tempo porque “era” filhos e filhos; minha mãe teve oito, a irmã dela, teve uma que teve dez filhos. Então, a vida era complicada.

 

P/1 – Mas e na escola? Como é que era? Você gostava? Que lembrança você tem da escola?

 

R – Ah, na escola... Eu nunca mais me esqueço que no meu primeiro dia de aula, eu falei pra professora: “Professora, eu quero ir ao banheiro.” Ela falou: “Agora não.” “Professora, eu tô muito apertado. Eu vou fazer xixi na roupa.” Ela falou: “Agora não.” Falei: “Então, eu vou fazer perto da mesa.” Ela falou: “Você não tem coragem de fazer.” “Eu tenho, eu tô apertado.” Eu fui, fiz perto da mesa. Ela falou: “Mas você fez mesmo.” Eu falei: “Mas eu pedi pra senhora.” Eu falei: “Eu tenho sete anos, mas eu acho que ninguém tem o direito de falar ‘não, você não vai no banheiro’.” Aí ela falou pra minha mãe – contou a versão dela, né? – e o meu pai, assim... Meu pai sempre foi muito rigoroso. Eu levei uma surra que, olha, até hoje, eu com 40 anos, eu falo pro meu menino, nossa, como fosse hoje, assim. Tem dias que eu penso, falo: “Meu Deus...” Meu pai não deu chance de eu me defender. Simplesmente, a professora falou pra minha mãe, a minha mãe falou pro meu pai. Meu pai não deu chance de eu me defender. E hoje em dia... Depois de anos, eu falei pra ele: “O senhor não me deu uma chance pra ‘mim se’ defender.” Eu acho que todo mundo tem o direito de se defender. Mas eu não guardei mágoa, não.

 

P/1 – E aí você ficou nessa escola...?

 

R – Fiquei nessa escola uns quatro anos. Depois eu mudei pra outra escola e aí foi bem complicado...

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque era longe de casa e tinha uma turma complicada, uma turma da pesada que tomava lanche. Sabe aquela turminha? E o caminho que eu fazia tinha que sempre passar no meio de uma estrada, com mato, sempre que eu passava tomava meu lanche, tinha dia que tomava o meu óculos, touca. Frio... Antigamente... Hoje, em São Paulo, as pessoas falam: “Faz frio em São Paulo.” Não. Fazia frio nos anos 70. Nos anos 70, eu acho que São Paulo da garoa era três meses de inverno, era três meses de garoa e frio. Hoje, a gente tem uma semana de frio, tá todo mundo morrendo. Mas depois, aí, eu consegui – eu estudei, eu acho, dois anos lá – mas depois eu consegui mudar pra outra escola, aí consegui fazer amigos, aí consegui formar uma turminha, com aquela turma ninguém sempre mexia. Sempre. Eu nunca bebi, nunca fumei, então, essa turminha, eu falava: “Olha, se vocês bebem, fumam, eu não quero fazer parte.” Porque eu acho qualquer um de nós, é tão bom quando a polícia para: “Encosta aí.” “Ah, não sei o quê...” E vai embora. Mas quando você está errado... Até hoje...

 

P/1 – E vocês se divertiam como?

 

R – Ah, a gente, sempre tinha aquela turminha, a gente brincava, brincava de esconde-esconde. Você ia brincar de esconde-esconde, a pessoa que procurava ficava mais de duas horas procurando.

 

P/1 – (risos)

 

R – A gente, às vezes... Quando a gente ia pra cantina, sempre tinha... Era o meu dia de pagar; eu tinha que bancar os 11, entendeu?

 

P/1 – Como... O quê que é isso? Como assim, é “dia de pagar”? Cada um...

 

R – Porque cada dia, suponhamos, eu queria salgadinho, outros queriam... Então, hoje é meu dia, eu pagava tudo.

 

P/1 – Pra todo mundo?

 

R – É. Como é que eu pagava? Porque eu nas horas vagas, eu vendia papelão, catava papelão, e engraxava sapatos.  E hoje, a senhora pode ver, que hoje você fala pra um filho: “Ah, eu vou fazer...” “Não.” Mas eu não me arrependo, não.

 

P/1 – Mas os outros do grupo faziam bico, assim?

 

R – Faziam. Sempre faziam. A gente, da onde todos nós morávamos, da estação Jabaquara dava 20 minutos a pé. Então, a gente ia pra estação do Jabaquara, no Terminal Jabaquara e lá se “encontrávamos” e cada um... Nós se “encontrava” 9 horas da manhã e nós “marcava”: “Uma hora todo mundo aqui de volta.” Enquanto não chegasse o último, nós não “ia” embora. A gente ia junto e voltava junto. “Ó, o que que deu?” Aí nós “dava” uma quantidade pras mães, sempre,: “Ó, mãe, o que tem é isso.” Daí falava: “Então fica com a metade e me dá metade.” Sempre foi assim.

 

P/1 – E aí vocês faziam uma vaquinha...

 

R – Isso. Aí fazia uma vaquinha. Chegava na cantina da escola: “Valter, hoje é seu dia.” “Tá bom.” Nunca me esqueço, a da cantina, ela chamava Dona Conceição. Ela falava: “Hummm, vocês hoje... Valter, hoje é seu dia, né?”, aí a gente falava assim: “Que vocês querem?” Principalmente, quando era meu dia: “A gente quer sanduíche de mortadela.” Aí pagava. Mas depois, graças a Deus, que no outro dia, o que nós “gastava” naquele dia, no outro dia, a gente ganhava em dobro. A gente já tinha clientes bons: “Ah, é o Valter.” A gente engraxava sapatos e quando pensava que não, naquela hora a gente já tava com dinheiro pra nós e pra mãe. Eu sempre ajudei os meus pais.

 

P/1 – Mas você ia engraxar sapatos aonde? Na rua ou tinha um lugar?

 

R – Na rua. A gente andava na rua, via a pessoa no ponto: “Seu Pedro, o senhor quer engraxar o sapato hoje?” Nós “ia” no barzinho, às vezes, na padaria. Tinha uma padaria perto do Terminal Jabaquara, então, às vezes, as pessoas tava almoçando, pedia autorização: “A gente pode ver quem quer engraxar?” “Pode.” Eu acho que você olha pra pessoa e você vê a índole da pessoa. Depois, eu fui crescendo, cheguei aos 13 anos. Aí, falei pro meu pai: “Ah, eu quero trabalhar.” Um amigo do meu pai arrumou um serviço pra mim, de trabalhar de silk-screen, fazer faixas. Faixas, letreiros. Eu trabalhei um ano. Depois, eu falei: “Ah, eu quero outra coisa. Esse não é meu dom, não. Meu dom é lidar com público.” Aí um amigo dele falou: “Ó Valter, seu filho tá afim de trabalhar? Tenho um amigo meu que tá precisando pessoas que embalem pães de cachorro-quente e pão de hambúrguer. Só que é 3, 4 mil pães por dia.” Tinha os quatro padeiros que “fazia” os pães e nós “tinha” que esperar esfriar duas horas, depois, correr pra embalar. Todos os dias. Aí, eu falei: “Ah, eu vou.” Só que eu fui já... Eu falei: “Eu vou, mas o meu sonho eu vou realizar. Que é comer um sanduíche de mortadela com umas dez, 12 fatias de mortadela.” Quando chegou o primeiro dia, o cara falou: “Valter, o que que você quer almoçar?” “Ah, você não imagina! Eu quero um sanduíche de mortadela. Você faz assim com bastante fatias, umas 12, dez fatias.” E o cara fez. Aí, ele falou: “E o refrigerante?” Antigamente, o refrigerante da moda ou era a Tubaína, ou Gini, aquelas garrafinhas verdes. Eu falei: “Ah, eu quero uma Gini”. Eu acho que foi um dos dias mais “feliz” da minha vida. Eu falei: “Nossa, realizei o meu sonho.” Aí, eu fui crescendo...

 

P/1 – Mas era numa padaria?

 

R – Numa padaria. No Jabaquara. Hoje, inclusive, é uma farmácia. Eu trabalhei lá um bom tempo, aí um dia faltou uma pessoa na copa, aí a padaria falou: “Quem que a gente ‘vamos’ pôr? Ô Valter, você tá afim de sair lá do fundo da padaria e vir pra frente?” Falei: “Tô.” Chegou um cliente, aí, eu “bom dia, bom dia!”, todo assim meio acanhado: “Bom dia!” Ele falou: “Dá pra você fazer um Bauru?” Falei: “Eu vou ser sincero: eu não sei. Se você me ensinar, eu prometo que eu faço.” “Tá, tá.” O cara me ensinou: “Olha, põe o presunto, deixa dar uma passadinha, põe o queijo, o tomate, o orégano e azeite.” “Nossa! Como é fácil.” Aí, desse dia pra cá, aí, eu fui gostando, gostando, já tô há 25 anos nesse ramo.

 

P/1 – Mas nesse período você trabalhava e estudava ou você tinha parado de estudar?

 

R – Trabalhava e estudava. Trabalhava na parte da manhã, eu saía de casa às 5 e meia, entrava no serviço às 7 horas, – mas era longe – saía do serviço às 6 horas, chegava na escola às 7 e 5. E só podia entrar até às 7 horas. Um dia, a diretora falou: “Você não vai entrar.” Eu falei: “Eu vou entrar.” Falei pra ela: “Se a senhora não me deixar entrar, eu vou procurar os meus direitos. Vou na Delegacia do Ensino. Porque eu expliquei pra senhora: eu saio 6 horas, mas até pegar ônibus...” E chegava completamente exausto, né? Aí, ela falou: “Tudo bem.” Nesse dia que ela não quis deixar, eu tinha prova, eu falei: “Eu vou entrar.” Entrei, ela falou: “Tudo bem, você vai entrar hoje.” No outro dia, eu fui na Delegacia do Ensino, procurei os meus direitos, disse: “É assim, assim...”, me deram um papel: “Entrega pra diretora.” Aí, eu podia entrar até às 7 e 15. Aí, foi acumulando o cansaço, porque eu trabalhava muito. Eu trabalhava muito. Eu sempre fui dedicado ao serviço, ao trabalho. Então, chegava cansado, às vezes, tinha prova, eu ficava estudando até 3, 4 horas da manhã, dormia até umas 5 e pouco e levantava. Mas fui vencendo, vencendo. Tinha dias que as pessoas iam pro recreio, voltava, e eu lá, dormindo. Eu conseguia ver a aula legal até a segunda, terceira aula; na quarta, quinta, já não tinha mais jeito. Aí, um dia falei: “Ah, vou parar.”, dei uma parada. Aí um tempo, um ano, pra dar uma...  Quando eu voltei, falei: “Agora eu vou.” Depois, quando eu tava indo bem, me envolvi com uma moça. Aí falei: “Ah, encontrei a mulher da minha vida.” Acho que foi um dos piores momentos, eu acho que o pior momento que um ser humano... No começo “era” mil maravilhas, quando estava eu e ela. A partir do momento que eu acho que eu fui morar perto da mãe dela, a minha vida de alegria virou um inferno. Acabamos tendo uma filha, que hoje ela tá com 20, aí, certo dia eu olhei pra ela... Eu já chegava e já não tinha mais clima. Aí um dia, olhei pra ela, pra menina... A menina tinha – nunca me esqueço – tinha 40 dias de vida. Olhei pra menina e pra ela, três horas da manhã, falei: “Eu vou embora.” Fui embora. Com 40 anos foi a decisão mais certa que eu tomei na minha vida.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Eu acho que se eu tivesse com ela hoje, se eu tivesse insistido, eu acho que eu estaria preso ou estaria morto. Porque chegou a uma relação, sabe? Eu acho que muitos homens, às vezes: “Ah, se matam...” Não. Você tem que ter personalidade e falar: “Eu vou vencer e vou começar minha vida de novo.” Aí eu fiquei uns dias: “Pra onde que eu vou?”. Peguei, fiquei uns dias dormindo na rua e eu tinha um amigo que ele falava assim: “Ah, Valter fica aqui e tal.” Eu ia na casa dele, tomava banho e a seguir andava, dormia na calçada. Até que um dia – eu trabalhava na Mourato Coelho – até que um dia, eu conheci, hoje, quem é minha esposa. Na brincadeira: “Nossa, você tem um sorriso encantador, hein?” Aí, depois nessa brincadeira, aí começamos...

 

P/1 – Onde você conheceu ela?

 

R – Eu conheci ela aqui na Mourato Coelho, em Pinheiros.

 

P/1 – Mas, assim, na rua... Aonde?

 

R – Na padaria, que ela era cliente. Falei: “Nossa, você tem um sorriso, hein?” Aí, passou. Depois um amigo meu falou: “Ah, tô sentindo cheiro de casamento.” Aí passou uns dez dias, ela veio, eu falei: “Vamos, assim, comer alguma coisa?” Ela falou: “Vamos.” Aí eles me encheram o saco, né? “Ah, Valter, é casamento mesmo.” Eu falava: “Que nada! Vocês estão...” Depois, assim, com... Eu contei pra ela: “Realmente, olha, a minha vida é assim, assim. Eu tenho uma filha, eu morava junto com uma pessoa. Você me dá um tempo pra ‘mim’ resolver essas coisas?” Ela falou: “Tudo bem, eu dou um tempo.” Esperou um ano, depois, começamos a namorar firme, ficamos noivos; em um ano, ficamos noivos e casamos. E agora, dia 20 de novembro, eu acho que foi um momento... Eu acho que todo homem queria tá nesse dia: 20 de novembro há 15 anos atrás, porque eu acho que foi um momento, assim...

 

P/1 – Você casou?

 

R – Ah, eu casei. Cartório, igreja e tudo.

 

P/1 – E como foi o dia do seu casamento?

 

R – Ah, foi... Caiu num sábado. Aí, minhas cunhadas... Minha esposa é mineira, da cidade de Januária, então ela... Aí “veio” as irmãs – que eu não conhecia. Aí, as irmãs... Que lá eles fazem muita criação de galinhas, porcos, essas coisas. Trouxeram galinhas. Mataram galinhas, trouxeram na caixa de isopor, trouxeram linguiça. Então, nesse dia... Só no almoço, tinha 110 pessoas. Só no almoço. E, assim... Aí chegou o dia, na semana do casamento: “O que que vamos fazer?” E eu tinha conhecimento, o leiteiro falou: “Valter, te dou duas caixas de leite.” O cara aqui de freezer: “Eu te dou queijo.” O outro... Praticamente, eu não gastei nada no casamento. Ganhei sapato, ganhei roupa, ganhei tudo. Eu sempre fui querido até hoje. Então, todo mundo falava: “Nossa! E a festa?” Aí, um cara da Brahma, que era meu amigo, ele falou: “Valter, te dou oito caixas de cerveja.” O outro: “Te dou dinheiro.” Então, praticamente, festa, tudo. Os caras falaram: “Olha, Valter, a única coisa pra você, só a noiva.” (risos) Pronto, o resto ganhei tudo. Aí fizeram lista... Olha, o que eu ganhei de presente, que eu acho que... Olha, graças a Deus, não... E assim, eu falo pra minha esposa; cada dia, eu falo: “Olha, você e meus filhos são tudo.” Eu acho que a família... Eu acho que, seja qualquer pessoa que não tenha família, ele não é ninguém. E eu sou assim: minha família, quando eu falo da minha família, meus filhos, quando eu falo dos meus filhos, da minha esposa... Que eu acho que hoje é difícil, a vida a dois, eu acho que você fala... E eu que convivo dia-a-dia com as pessoas, atendendo, você percebe que hoje as pessoas são “infeliz”. Só que elas são “infeliz”, mas elas também não buscam, não buscam a felicidade. Acho que a partir do momento que eu sou casado com a senhora, não deu certo, você tem que ser sincero: “Olha, fulana, não deu certo.” Vai ficar sofrendo até morrer? Não adianta.

 

P/1 – Então, você casou, e você morou nesse mesmo bairro, perto de seus pais?

 

R – Casei, acabei morando a um quilômetro e meio dos meus pais. Então, praticamente, eu, dos filhos, praticamente sou o único ainda, que moro, assim, hoje eu moro a cinco minutos dos meus pais. Então, praticamente, eu nunca abandonei. Meus irmãos tem um que mora em Itaqua [Itaquaquecetuba], outro que mora em Americana, outro que mora em Parelheiros, então, também, sempre distantes. Então, a gente se encontra, mesmo, é principalmente Natal e Ano-Novo que se encontra a família toda. Mas...

 

P/1 – E aí você tava trabalhando aonde, mesmo?

 

R – Eu tava trabalhando na Mourato Coelho, aqui em Pinheiros. Depois eu acabei, por muitos anos, aí acabei ficando desempregado.

 

P/1 – Peraí, um pouquinho. Lá, você trabalhava fazendo o que, mesmo?

 

R – Aonde?

 

P/1 – Na Mourato Coelho?

 

R – Eu trabalhava atendendo: balconista, copeiro, fazia lanche...

 

P/1 – Aonde?

 

R – Aonde precisava, eu tava.

 

P/1 – Mas era numa padaria?

 

R – Numa padaria. Sempre padaria, agora. Depois eu acabei ficando desempregado. Eu tava há muitos anos... Aí a ficha demorou a cair e nessa da ficha demorar a cair um dia minha esposa falou: “Eu tô grávida.” E eu desempregado. Falava: “Meu Deus, e agora?” Desempregado, nunca me esqueço! Aí, faltava um mês, não tinha uma peça de roupa, porque ela trabalhava...

 

P/1 – Ela trabalhava no quê?

 

R – Ela trabalhava de doméstica. Ela sustentava a casa e tudo. Eu acho que ela, nesse momento, eu acho que ela... Deus dava força pra ela e ela me dava força, pra mim, porque, eu acho que um homem desempregado, ele não é ninguém. Você não consegue... Você sempre acha que você sempre está inferior a qualquer coisa. Como que você é o alicerce da casa e você deixa de ser? É difícil. E a barriga foi crescendo, crescendo, e eu pelo meu conhecimento, deixei muitas amizades, e um dia, um amigo me ligou: “Valter, você tá afim de trabalhar?” “Ah, eu tô precisando. É o que eu mais preciso.” Aí, ele falou: “Olha, vai lá na padaria, onde que é a Nova Leão, fala com o Carlos, ele já sabe tudo da sua história. Chega lá, ele vai ver se realmente...” Ele me ligou na sexta, à noite, eu liguei no sábado, de manhã cedinho, falou: “Então, vem na segunda-feira.” Eu fui na segunda-feira, conversei com ele, e eu preocupado, falei: “Ah, tem que dar certo.” Porque já tava quase perto da esposa ganhar e nada de roupa. Não tinha nada de roupa. Eu falei: “Meu Deus, e agora? Mas, vai dar certo.” Aí, saí de casa, com aquela fé, falei: “Ah, eu vou tranquilo, quem sabe...” Aí falei: “Quero falar com o Seu Carlos, com o Carlos” Aí a irmã dele falou: “Ele já vem.” Aí: “Meu nome é Valter” “Ah, você que é o Valter.” Falei: “Eu estava há muitos anos, 17 anos e oito meses assim. Então, eu já tô um tempo desempregado, quero que o senhor me dê dois dias, três dias no máximo, eu não quero salário, eu não quero nada. Com três dias a gente conversa e o senhor analisa meu serviço.” Aí ele falou: “Então faz o seguinte: você descansa terça-feira, na quarta, você vem.” Dá aquela quebradeira na ansiedade: “Ah, mas não...” Ele falou: “Não, vem na quarta que é melhor.” Sabe aquela? Ah, eu já quero... Aí chegou o grande dia, na quarta-feira, fui, você fica meio acanhado, você pode ser um profissional e tanto, mas o primeiro dia, você não conhece, então você fica meio... Mas daí eu acabei indo, depois, com dois dias ele me chamou, falou: “A vaga é sua. Você não tem que provar nada pra ninguém. Você sabe.” E eu, graças a Deus, a partir do momento em que eu entro no serviço, eu entro pra vencer. E eu procuro ser o melhor em tudo. É o que eu passo pro meu filho: “Nós ‘pode’ trabalhar com 50, mas você sempre tem que procurar ser o melhor, mas nunca querer atropelar as pessoas: o melhor no bom sentido.” Então, eu... Se a senhora vai lá hoje na padaria, eu senti que faltou algo pra mim, amanhã, pode ter certeza, que eu me cobro. Então, por isso que eu acho que eu sou um vencedor.

 

P/1 – E hoje você trabalha no que, lá? Quê que você faz lá?

 

R – Hoje eu atendo o telefone, eu faço tudo, lido com o público, a senhora vai lá fazer o pedido, eu que dou atenção; a senhora quer saber de um bolo, eu que explico. Então, eu tenho um público e faço. E, assim, e agradeço a cada dia as pessoas, a cada amizade que eu conquisto e a cada cliente, porque você indo lá... Eu acho que todos deveriam pensar assim: a senhora, além de ser uma cliente, a senhora passa a ser uma amiga. Então, lá na padaria, a gente se cobra muito isso: vocês deixam de ser cliente e passam a ser “nosso amigo”. Então, não tem como eu enganar a senhora. Então vai a filha, vai nora, sempre vai a família. Ás vezes, a senhora liga, eu falo: “Oi, Dona Sônia, tudo bem? Como vai a família, como vai o maridão?” Então, isso acaba se tornando um laço forte. Então, as pessoas já ligam pra lá e falam: “Ah, que quero falar com o Valter. Ah, quero falar com o Valter...” E eu falei pro dono da padaria: “A partir do momento... O dia que o senhor falar pra mim, Valter você não tem essa liberdade, assim de...” Eu falei pra ele: “Eu tiro o meu avental e vou embora.” Eu acho que cada ser humano tem um dom. E eu tenho o dom de lidar com as pessoas, seja qualquer pessoa. Cada pessoa eu sei como tratar: senhorita, senhora, mocinha. Cada pessoa. Tem pessoas que, tem moças, às vezes, você percebe, tá de baixo-astral, aí eu falo: “Ei, mas hoje você tá de baixo-astral. O que que é isso? O Valter não está aqui pra te alegrar?” A pessoa acaba saindo feliz, acaba contando no outro dia, ela acaba contando: “Olha, Valter, eu não tô legal, assim...” Então, você acaba dando conselho. Eu acho que hoje eu sou tudo.

 

P/1 – Você lembra de alguma situação, de alguma pessoa especial que... Enfim, com cliente, alguma lembrança...?

 

R – É sempre assim. Sempre tem pessoas que, às vezes, cliente: “Ai, Valter, eu hoje eu posso conversar com você?” Aí ela acaba contando a vida dela, que é infeliz, que tá com o marido por tá. Aí você acaba conversando, falando: “Olha, só quem pode tomar essa decisão, é só você. Eu acho que certas coisas na vida, é só a gente. Só a gente pode tomar essa decisão.” E eu procuro ser atencioso com todos. E mesmo assim, mesmo assim, você não consegue agradar todos. E eu assim, eu me sinto muito mal que, às vezes, tem pessoas que falam assim: “Não, eu não quero ser atendido por você.” Então, você se sente... Porque você nunca pode julgar as pessoas sem você dar uma chance. Acontece muito, mas eu procuro tirar de letra. Hoje mesmo, vim, levantei, falei: “O dia vai ser muito bom e eu quero chegar lá na entrevista tranquilo.” Eu acho que todos nós “tem” que tá preparado para qualquer tipo de situação. Aí, eu sempre quando eu ando, a minha família, Deus e minha família andam junto comigo. Sempre. Minha família...

 

(Troca de CD)

 

P/1 – Valter, você, pelo jeito, você gosta muito mesmo de trabalhar com o público, com a frente, com o público. E com seus colegas de trabalho? Como é? Como é a sua vida lá com eles, o que vocês fazem?

 

R – A vida é “meia” complicada. Por exemplo, as pessoas – seja em qualquer atividade, qualquer atividade de serviço – as pessoas nunca admitem. Às vezes, as pessoas não conseguem, não sabem que cada um tem que ocupar o seu espaço. Então, às vezes o que me atrapalha, as pessoas tem um pouco de inveja do dom que eu tenho...

 

P/1 – De qual dom?

 

R – De lidar com as pessoas. Suponhamos, “chega” dez pessoas; as dez “pergunta” de mim. As dez... Então as pessoas falam: “Como ele pode ser assim? O quê que ele tem que a gente não tem?” Mas eu tiro isso de letra. Procuro fazer meu serviço, daqui, dali. De vez em quando tem discussão de trabalho: “Ah, você podia ter não sei o quê, podia...” Mas isso é discussão de serviço. Passou, duas horas, volta ao normal, e no outro dia estamos prontos pra vencer. Mas eu procuro sempre... Assim, eu acho que, principalmente, com a ideia de montar o time de futebol, eu acho que hoje uniu muito mais.

 

P/1 – Então, conta um pouco a história do time, porque a gente não sabe, como foi isso, quem faz parte...

 

R – Há um ano atrás, tinha um amigo da gente, que trabalhava com a gente, chamava Zé Carlos. E ele, na brincadeira, sabe aquela... Nós correndo, era meio-dia, hora de almoço todo mundo correndo, um atropelando o outro, e ele falou: “Olha, gente, porque que a gente ‘tamos’ correndo aqui, porque que a gente não ‘vamos’ brincar, montar um time de futebol?” “Vamos, vamos” Aí: “E a quadra?” Aí, falamos: “Então, vamos montar.” “Fulano, você tá afim de jogar?” “Tá, tá, tá.” Então conseguimos montar lá oito ou nove pessoas. Aí, falamos: “E agora? E a quadra?” A gente trabalha a 800 metros do Batalhão da Polícia: “Aí, vamos lá falar com o Batalhão.” Fomos lá, falamos com o chefe: “Olha, nós somos da Padaria Nova Leão, nós estamos querendo brincar durante a semana, final de semana. É duas ou três horas de bola.” “Tá bom.” Aí, começamos. Na primeira semana foi todo mundo; na segunda, um não podia ir porque não sei o quê, que tinha que buscar o filho na escola; o outro, não dava porque a mulher não deixava... É, porque o cara deixou de fazer certas obrigações. Eu mesmo... Nós ‘ia’ toda quarta. Eu mesmo falei: “Na quarta é complicado pra ‘mim’ ir, porque eu tenho filho pequeno e que busco ele na escola.” “Tá bom.” Aí entenderam. Aí, na brincadeira, foi dando um mês, dois meses, e nós indo. Chegou um dia: “E agora? A gente precisa comprar um uniforme para ficar mais sólido, né?” “Então como nós vamos fazer?” Aí, marcamos um jogo contra a Padaria Pioneira. Aí, nós “tinha” uma cliente, amiga, nós falamos com ela, ela falou: “Eu tenho o jogo de uniforme do time do meu filho; eu posso emprestar.” E ela emprestou. O nome dela é Denise, ela emprestou e ela hoje é a madrinha do time. Depois ela sempre emprestou duas, três vezes. Conseguimos com a ajuda do Seu Pontes, que é o dono da padaria, a metade de um financiamento. E o resto conseguimos com a ajuda nossa e de clientes. Bancamos e chegou o grande dia do uniforme: fomos buscar. Aí, de lá pra cá, foi passando quatro, cinco meses, nós com o uniforme, aí eu tenho conhecimento, falei com o vendedor da Sadia, da Aurora, Perdigão, conseguimos redes, bolas. E sempre quando a gente tá precisando de alguma coisa, a gente consegue: “Valter, vai falar...” Aí, um dia, eles falaram: “Olha, Valter, como você consegue tudo, eu acho que não é justo. Vamos fazer uma eleição pra presidente.” (risos) E eu ganhei disparado: “Eu acho que você é a pessoa, não tem como falar – não, vamos pôr outro. Porque você gosta, você ama o que faz.” Um dia ele me falou: “Você é diferenciado mesmo. Às vezes, a gente quer a inveja, mas você é diferenciado.” E sempre a humildade, eu nunca deixo a humildade. Aí eu fui, consegui falar com um, com outro. A gente já jogou com o Mercado América, com casa de frutas. Então, praticamente, no bairro, não tem um time que hoje ganhe da gente.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Aí, começamos – eu com o conhecimento – descobri quem fazia parte do jornal do bairro. Falamos com ela. Ela falou: “Tudo bem, me interessei, vou fazer a matéria.” Ela foi, fez a matéria, inclusive eu até trouxe o jornal, tá com a Ana. Aí, o time, depois dessa matéria, o time... Sabe? Foi uma matéria... Pessoas que ligam pra saber o quê que a gente precisa. Aí, eu falei: “Olha, gente, tô com uma idéia aqui. Nós vamos formar um ano de time, vamos fazer um festivalzinho, só que vamos ver se a gente um uniforme novo e patrocínio.” Aí, falei com um cliente. Falei com um, falei com outro: “Olha, vamos ver.” Foi dezembro, dezembro pra janeiro: “Ah, deixa passar as Festas.” Aí, conversando... Certo dia, indo embora, encontrei um cliente, contando a história, ele falou: “Eu sei a pessoa exata que pode te ajudar. É meu irmão.” Falei: “Quem é seu irmão?” Ele falou: “Mas ele vai lá sempre e tal.” E eu: “Quem é?” Aí, depois de uma semana, eu descobri quem era. Que eu fui: “Quem é fulano de tal? Quem é?” Aí, um me falou: “É, é esse que você atende...” Aí, falei com ele: “Olha, o time vai fazer um ano, nós ‘tamo’ lutando pelo segundo uniforme do time. As cores é o uniforme vermelho, vermelho e branco. Predomina o vermelho...” Daí, falou: “O que você precisa? Do uniforme? Eu banco o uniforme.” Aí, já bancou o uniforme, já fui lá... Então, ele tem um comércio, só que ele deu o uniforme, foi lá na loja e pagou. E a gente em homenagem a ele, de todos nós, falamos, fomos lá na loja, falamos com um dos funcionários, pegamos um cartãozinho, mandamos fazer ele como patrocinador, em homenagem a ele. Aí, falamos com outro, também, ele ajudou. Falamos com uma cliente também ela... E quando fomos ver, no final, o uniforme era mil reais e já tinha mil e trezentos. Aí o uniforme já ta pronto, dia 23, que é sábado agora, a gente ‘vamos’ fazer uma festa em homenagem a um ano do time: tem quatro times disputando troféu e bola; o time que for campeão vai levar uma bola e um troféu. E a gente tá assim. E a gente, quando entra a semana, a gente já fala: “Ah, e tem o jogo”. Cada dia, a gente não tendo cliente, não tendo ninguém, a gente aproveita para falar um pouquinho de futebol. (risos) Então fica sempre aquela ansiedade de chegar o sábado. Pra nós, depois da padaria, o dia mais importante é o sábado. E aí, como que nós vamos fazer pra jogar dia de sábado? Como chegar nas mulheres? Aí, eu falei pra minha esposa: “Olha, eu trabalho, nós vamos começar a jogar dia de sábado.” Ela falou: “Você pode ir. Porque...” Ela falou: “Você trabalha a semana toda e eu acho que eu não tenho o direito de tirar o que você gosta.” Aí, todos nós... Praticamente, já tem torcedoras que acompanham a gente, aonde a gente vá; a gente vai jogar no Embu, aonde a gente vai jogar sempre tem torcedoras fiéis que nunca abandonam a gente. (risos) Por isso que eu acho que nós, o time, a padaria e o time, a gente ‘se’ formou uma família.  Acho que é tudo. Dia de sábado começa às 14 e 30 até às 5, 5 e meia; quando é horário de verão vai até às 6. Agora vai até umas 5, por causa desse horário, a gente tá indo...

 

P/1 – Quem são os outros times que vão participar desse campeonato?

 

R – Um é o time do bairro, que são os veteranos, que, antigamente, fazia parte do Leão do Morro; o outro vai vir de lá do Embu, que é de um amigo meu, nós já trabalhamos juntos há muitos anos, e o time deles é uma família: quando vem lá do Embu vêm quatro carros, homens e mulheres. Vêm as mulheres e os maridos e eu tenho conhecimento, então, quando vem é: “Valter pra lá, Valter pra cá...” Quando elas vem pra cá, que eu tô, elas esquecem dos maridos: “Ai, não, hoje nós vamos conversar com o Valter.” Aí eles já falam: “Ih, com o Valter, eu nem, pode...” Precisa ver quando eu vou na casa delas! Faz a sobremesa, liga pra saber a sobremesa que eu quero. Então, eu graças a Deus, cada dia que passa, eu sinto orgulho de mim mesmo por eu ser querido assim. Eu acho que você não conquista nada por acaso. Eu acho que tudo na vida você tem um dom e você tem aquela...

 

P/1 – Como chama o time, mesmo?

 

R – O time é Leão... ih, esqueci

 

P/2 – (risos)

 

R – Leões da Vila.

 

P/1 – Leões da Vila? Quem deu esse nome?

 

R – Todos nós... Nós fizemos uma enquete para ver qual o nome: Real Madrid... (risos) Agora, hoje, praticamente nós somos imbatíveis: em um ano de time nós temos duas derrotas no currículo. Então, todo sábado... No sábado que não tem jogo, assim, a gente faz jogo-treino. Aí, um dia, tiveram a idéia de fazer o jogo, entre nós mesmos, entre baianos e cearenses. Inclusive, nesse dia, eu até não tava que eu tive um problema, eu até não tava, mas falou que foi emocionante. Nós ‘tamo’ até pretendendo, depois que passar esse... A gente tem jogo marcado, nós estamos em fevereiro, eu acho que até março, abril, jogo marcado. Depois a gente até quer fazer... Inclusive, no dia 23, vai o jornal do bairro fazer outra matéria; vai fazer outra matéria de novo. Então, a gente assim... Eu acho que, olha, eu, eu acho que de Deus eu não espero mais nada...

 

P/1 – E vocês tem um técnico?

 

R – A gente procura... Eu acho que cada um procura dar uma opinião e a gente escuta. Quando eu não tô, eu além de ser o goleiro, quando eu tô fora eu procuro sempre orientar. Porque eu acompanho futebol há muitos anos, eu gosto, eu acompanho o futebol. Desde que eu... Há 30 e poucos anos. Então, eu sei muito. Antigamente, eu acompanhava o futebol que você via jogadores fantásticos. Eu falo pra eles que eu vi o Ademir da Guia jogar, vi Rivellino. Eu peguei o Pelé no finalzinho, mas eu vi jogadores. Hoje, a senhora vê uns cabeças-de-bagre, aí que não... Com contrato milionário, você fala: “Não, não é possível!” Então, treinadores somos nós 16. A opinião, a gente sempre procura ouvir todos pra tomar aquela decisão sensata. Nós nunca tomamos a decisão: “Eu vou tomar a decisão sozinho.” Aí, eu tive a idéia, falei assim: “Então, o seguinte...” Mais uma idéia: “Ah, então, vamos fazer o seguinte: todo dia 20, eu quero cinco reais de cada um...”

 

P/1 – Quanto?

 

R – Cinco reais. Pega o nome de todos jogadores e marca assim – meu nome, suponhamos, Valter – e marca embaixo chuteira. Põe lá os papeizinhos, o que for sorteado o nome, e tá escrito chuteira embaixo, ele ganha a chuteira do mês. Eu acho que essas idéias... Você com cinco reais, você ganha a sua chuteira. Então, eu acho que é assim.

 

P/1 – Hoje vocês já tem os 11? Onze jogadores?

 

R – Nós estamos em 16. São 14, 13 da padaria e três de fora. Mas os três de fora são da família; fazem parte mesmo. Nós vamos deixar passar aí... Nosso objetivo agora é ver se consegue o patrocínio pro agasalho do time. Porque eu acho que você nunca deve pensar baixo. E pelo conhecimento, você sendo sincero, você consegue tudo na vida. Eu acho que você tem que ser sincero, honesto, seja pra qualquer tipo de situação, porque, às vezes, se eu sou sincero com a senhora, a senhora fala: “Pô, ele tá sendo sincero, eu vou ajudar.” Então, eu acho que eu... Eu hoje, eu acho que eu com 40 anos, eu agradeço todo dia a Deus... Minha família tá sempre... Deus de um lado, a minha família de outro. E sempre... Tem dia, tem dia que você tá chateado, você fala: “Ah, não sei o quê...” Mas faz parte da vida. Se gente, às vezes... Sempre quando eu penso que eu tô, às vezes, eu dou uma olhadinha – não precisa olhar muito – só dá uma olhadinha, só um pouquinho de lado, que você vê que você tá, olha, tá de bem com a vida.

 

P/1 – E faz tempo que você tá, então, aqui... Você não mora aqui, mas faz tempo que você trabalha...?

 

R – Ah, 20 e poucos anos. Aonde eu passo: “Valter, não sei o quê...” Senhoras, crianças... Eu conheci crianças de colo que foram crescendo, adolescência, hoje vão: “Ai, Valter...” E o segredo que elas falam pra mim: “Valter, todas querem descobrir o segredo porque que eu nunca fico...” Eu sempre... Tem pessoas que falam que me conheceram há 25 anos atrás e eu tô do mesmo jeito, eu não mudei nada. Eu falo: “São vocês, meninas.” Senhoras, pessoas idosas. Eu tive, assim, duas pessoas, três pessoas que acho que pra mim que... Duas foram e uma ainda tá viva. Uma é que morava... As duas “morava” de frente; uma chamava Isaura...

 

P/1 – De frente da onde?

 

R – De frente a padaria onde eu morava. Uma chamava Isaura e a outra Dona Maria. A mãe dela, pra ter ideia, ela queria saber o quê que eu gostava. Se eu falava: “Ah, eu gosto de camarão.” Ela falava assim, ela tinha 80 e poucos anos, então ela queria que eu fosse no restaurante com ela. Só que uma pessoa idosa, bem debilitada, ela me dava o dinheiro, falava: “Você vai comprar o camarão...” E sempre ela fazia questão, às vezes, de atravessar a rua pra ir lá me beijar todos os dias. A mãe. E a filha, quando eu estive desempregado, eu acho que ela, pra mim foi, assim, a pessoa que me ajudou muito. E a outra é a Dona Lourdes, que a Dona Lourdes foi que através dela que eu consegui o emprego. E a outra pessoa que trabalhava comigo era a Cileuse. A Cileuse, até hoje, ela me... Eu ligo um dia sim, um dia não. Nós estamos na amizade já de dez anos, eu sempre vou na casa dela, ela vai na minha casa. É uma pessoa que como fosse uma mãe. Eu acho que qualquer pessoa no mundo queria ter uma mãe, uma mãezona. Ela é uma mãe, amiga, então, eu acho...

 

P/1 – Você conheceu todas elas aqui no bairro?

 

R – Todas elas no bairro. Às vezes, eu tô indo, encontro assim: “Ah, Valter, tá indo pro Metrô?” Me leva no Metrô. As senhoras. Eu falo: “Ah, e o maridão?” Elas falam: “Ah, Valter, o maridão, com você...” Então, eu me sinto, assim, orgulhoso. O que mais um ser humano quer da vida? Ter o carinho da família; ter o carinho dos amigos, das pessoas. Eu acho que qualquer ser humano queria passar por isso. Eu acho que eu não tenho nada a reclamar. Tenho que agradecer muito, muito, muito mesmo, a Deus e a família. Eu acho que, a partir do momento, eu acho que o mundo só vai começar a melhorar a partir do momento que as pessoas começarem a identificar famílias e, assim, a palavra compaixão. Eu acho que não existe mais. A palavra compaixão, eu acho que a pessoa se torna um pouco mais sensível no mês de dezembro, que é o mês do Natal. Por que não o ano todo? Todos os dias? Eu acho que a pessoa passa por mim, não olha, acho que não é assim. Um bom dia, eu acho que se você falar um bom dia, não vai tirar um pedaço. Eu acho que passa, por dia, de manhã, das 6 até às 2 horas, eu acho que “passa” mais de mil pessoas na padaria. Todas que eu atendo é bom dia e sempre: “Fulana, você hoje não tá bem” “Menina, hoje você tá linda...” Sempre. Eu sempre tenho... Aí, chega umas com as cores de blusa verde, eu falo: “Você, que cor bonita, essa cor de abacate, hein?” Sempre, entendeu? E elas acabam, todas acabam saindo felizes, senhoras, às vezes chegam aquelas pessoas invocadas: “Bom dia, tudo bem?” Eu acho que não tem... Você quebra aquele gelo, aquela... E a pessoa depois acaba falando: “É, Valter, você, realmente, é predestinado.” E eu... Até que chegou, eu acho que muito mais, eu tô muito mais feliz de tá aqui com vocês. Eu acho que eu nunca pensei que um dia... A gente sempre pensa, mas eu acho que eu nunca pensei de tá aqui. Ó, me sinto como se “tivesse” na minha casa.

 

P/1 – Como foi dar essa entrevista, prá você?

 

R – Ah, pra mim, eu acho que foi fantástico! Vocês, eu acho, que, sabe, dão segurança. Eu acho que o que sai de dentro de nós, eu acho que tem que ser espontâneo. Eu acho que a pessoa não tem que se preparar. Não. Tudo, tudo, eu acho que tudo na vida tem que ser natural. Tem que ser espontâneo. O que vem de dentro... E eu acho que cada um tem um dom e um sexto sentido, e eu tenho... Porque eu acho que cada um de nós não usa um terço, um por cento do que o nosso cérebro libera pra gente. Eu, graças a Deus, eu procuro... Eu fui dormir tranquilo. Falei: “Minha entrevista vai ser como eu estivesse com aqueles 11 amigos.” Assim, brincando, contando piada, ou quando a gente tá jogando bola. Eu tô jogando bola com eles, aí, eles... Eu, termina o jogo, eu falo pra eles: “Ó, meninos, eu tô indo embora porque a minha família me espera.” Eles gostam de tomar cervejinha. Eles falam: “Valter, mas...” “Não, a minha alegria, eu tô com vocês. Acabou o jogo, minha família me espera.” A coisa que eu tenho mais medo, todo dia falo pra minha esposa – tá ficando violento – é um dia, eu sair pra trabalhar e não poder voltar, acontecer alguma coisa no caminho e eu não ver minha família. Eu acho que nesse dia, pra mim, eu acho que... Mas por isso que Deus... Eu acho que a partir do momento que Deus... Você pra acreditar em Deus, você não precisa tá em igrejas, sabe? Eu vou na igreja uma vez por mês ou a cada dois meses, mas eu acho que o que eu tenho aqui dentro, o que eu tenho aqui dentro, eu acho que eu não devo nada pra ninguém. Ando na rua, agradeço, cada passo, cada vitória, então eu acho que eu sou feliz no que faço, sou feliz no amor, sou feliz por ter os meus dois filhos que cada dia quando eu chego, que olho, principalmente quando eu saio de manhã, que “tão” dormindo, assim, eu olho, falo: “São meus.” Minha esposa, minha esposa acho que pra mim ela é tudo. Ela é... Não é a minha metade, eu acho que ela é tudo. Eu falo pra ela, todos os dias, eu acho que o dia que Deus falar – Deus o livre! – ela vai primeiro, é difícil. Eu acho que a palavra amor, eu acho que se existe amor, eu... Se há paixão, eu sou um deles. Todo dia eu falo pra ela, e sempre, eu acho que as pessoas que casam... Eu acho que todo dia você tem que falar alguma coisa: “Hoje você tá bonita, hoje você tá gostosa.” Eu acho que isso acaba incentivando a vida a dois. Então eu acho que cada dia... Eu gosto de ler muito, eu procuro ler, eu procuro sempre prestar atenção. Então, às vezes, você vai ajuntando. Que eu acho que você escuta dela, da senhora, do rapaz, então você acaba formando. As pessoas que falam: “Ah, eu acho que casamento pode ser assim, assim, ou a vida, falar com os filhos...” Então, eu acho que dela eu só tenho a dizer que ela, pra mim, é uma deusa e meus filhos são uns heróis, pra mim. Eu acho que pra eles... Eu tenho certeza, se perguntar pra eles, vão dizer eu sou um paizão. Ah, eu me emociono mesmo quando falo deles. E assim, feliz, eu sou feliz no amor, feliz no trabalho, no esporte, agora, a gente brincando, acho que deu pra perceber que eu sou feliz mesmo. Tem dias que você tem, você fala: “Ah...” Mas você não pensa não. Não pensa não que Deus sabe o que faz. Hoje, pode ter certeza, hoje é um dos dias, também, felizes pra mim; feliz mesmo. Um dia eu quero olhar no CD, falar... Sabe, você olhar você mesmo, daqui 20, 30 anos, meus filhos olharem, falar: “Esse foi meu pai.” Acho que é tão bom, né, você falar, meu pai, meu paizão. Então, por isso que eu falo pra eles: “Vocês só vão entender o que o seu pai fala, o dia que vocês ‘serem’ pais; vocês só vão entender o que o pai fala pra mãe, o dia que vocês ‘serem’ maridos.” Porque eu acho que você só vai crescendo conforme a sua situação. Então eu acho que hoje a vida a dois... A partir do momento em que você casa serve pra todos e pra todas. A palavra compreensão, vamos compreender, vamos ouvir. A mulher não tá naqueles dias, não tá legal, procure... Aí que ela, eu acho, que ela quer uma atenção, um carinho. Tem pessoas que não. Já pensou você casar com um bêbado e ver que chega... Faz a comida e ele joga. Dá vontade... E aí? É complicado, né? O Valter, hoje, eu tô me sentido realizado.

 

P/1 – Que bom!

 

R – Assim, com você, Sônia...

 

P/1 – Lau.

 

R – Laura, e...

 

Operador – Adilson.

 

R – Adilson. Eu acho que qualquer um que vir aqui, pode ter certeza de que eu vou falar muito bem pros meninos. Sabe que aquela: Quem vai primeiro? O Valter mesmo...

 

P/1 – Que bom que você gostou? Quer falar alguma pergunta?

 

P/2 – Não

 

P/1 – Então, muito obrigada, hein? Por esse momento, dar essa história linda pro Museu da Pessoa. Muito bom você estar aqui. Muito bom te ouvir.

 

R – Tá, muito obrigado!

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