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História

A sensibilidade e a inteligência feminina como um diferencial

História de: Luciana Fuschini Nave
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/01/2021

Sinopse

História de sua mãe. Relação com mãe e irmão. A escolha de seu nome foi feita pelo seu irmão. Brincadeiras de infância. Escola de freiras. Descoberta de uma mulher com uma natureza questionadora. Sequestro aos dezoito anos que a motivou a tornar-se policial. Faculdade de Direito. Concurso público. Maternidade. Primeira Delegada mulher de Santos. Investigações e operações policiais marcantes e transformadoras. Trabalho no Porto de Santos. Coordenadora da Cesportos.

História completa

Sei, sei a história [do meu nome]. Foi meu irmão. Meu irmão tem seis anos de diferença, ele é mais velho e ele chegou pra minha mãe falou assim: “Eu gostaria de ter uma irmã”, ela falou: “Mas a gente não pode escolher se é filho ou filha, né? É o que papai do céu mandar”, ele falou: “Não, eu sei que vai ser uma menina e o nome dela é Luciana”, ela falou: “Não, mas não é assim”, ele falou: “É mãe, pode acreditar em mim, a Luciana vem”, e ele que falava, me chamava de Luciana, então quando a minha mãe engravidou, ela falou: “Vou tentar”, minha mãe engravidou, e veio a Luciana. Ele falou: “Eu não falei?” É como se ele já soubesse. Ele sempre me chamou, porque foi ele que escolheu, foi o meu irmão.

 

Memórias de infância de polícia [eu] não [tenho], mas eu sofri um sequestro aos dezoito anos que me fez decidir ser polícia. Então esse foi o momento que eu falei: “Não, acho que eu quero…”

 

Eu tinha dezoito anos, estava namorando há duas semanas e foi a primeira vez que meus pais me deixaram ficar sozinha, e eu fui sair… Mas eu tinha hora pra chegar em casa, meu pai era muito rígido, então eu tinha uma hora para chegar em casa, que era meia-noite. E tinha um louco maníaco que já estava me monitorando - e eu não sabia - já há um tempo, e ele conhecia os meus horários, então quando o meu namorado foi me deixar na porta de casa a meia-noite em ponto, ele chegou e rendeu a gente no carro com uma arma e entrou no carro e levou. Levou… Eu estava com uma máscara no rosto, ficou ameaçando. Levou a gente pro Porto (risos), era uma casa abandonada, nos fundos de uma casa abandonada. 

 

Aquilo ali lançou uma semente, aquilo lançou a primeira semente, eu falei: “Puxa...”, eu fui para polícia, fui para delegacia, a coisa da investigação, eu falei: “Eu acho que tem alguma coisa ali…” e foi uma semente só. E aí eu prestei concurso quando eu tinha… Logo depois que eu me formei, foi com 22 para 23, e eu prestei o concurso e eu passei com 23 anos, mas eu fui assumir eu tinha quase trinta.

 

Só que nessa época que eu fui chamada, quando eu prestei eu era recém-formada, solteira. Quando me chamaram eu estava com um bebê de dez meses, a minha primeira filha com dez meses e me chamaram para a Academia de Polícia, no momento que eu estava totalmente despreparada para ir para uma Academia de Polícia, porque imagina, você com um bebê de dez meses, minha primeira filha, tinha acabado… Acho que eu odeio Brasília, eu tenho uma coisa com Brasília que eu não gosto muito de lá, porque eu fiquei com essa experiência negativa de ter que ir para lá e largar a minha filha aqui. Quase eu não fui, foi por um triz, foi minha mãe que chegou para mim e falou: “Você vai”, eu falei: “Não vou”. A minha mãe foi lá e falou: “Você vai, porque você está pensando isso agora, mas um dia quando a sua filha te pedir as coisas ou que você quiser proporcionar outras coisas para ela e você não puder porque você abriu mão disso… Um dia ela vai falar: ‘Mas porque você não foi, mãe?’”. Ela falou: “Vai, vai porque você vai poder dar uma vida melhor para sua filha”. Com essas palavras eu fui.

 

Foi difícil, porque assim, eu entrei numa época… Na Delegacia de Santos não tinha nenhuma mulher, não tinha nenhuma delegada, até era um pessoal muito da antiga, sabe? Uma fase antiga, pessoal com outra mentalidade. E eu entrei, a única mulher. Aí assim, eu sofri algumas resistências, eu percebia.

 

[Os homens me tratavam] com um certo receio assim, meio que observando. Não facilitaram muito a minha vida, não facilitaram, acho até que dificultaram um pouco, mas tudo muito de forma subliminar, nada muito ostensivo, mas a gente percebe nas entrelinhas que talvez você cause um desconforto no início, porque tudo que é novo… Talvez nem fosse de propósito, sabe? “Ah, porque é mulher…”, não sei. Talvez porque é um elemento novo, porque é algo diferente para eles, estavam acostumados com alguma coisa né? Você causa um desconforto quando você entra num ambiente novo, era diferente para eles, era diferente para mim, mas hoje a gente convive... Claro, não são mais as mesmas pessoas, mudou tudo, entrou uma leva nova, são pessoas com outra mentalidade, é outra polícia que tem hoje, já modificou tudo. Hoje tem uma mentalidade bem diferente, o pessoal já está muito mais avançado, isso já está meio caminho superado. Talvez você tenha que ter algumas posturas um pouco mais duras às vezes, mas aos poucos você vai conquistando o seu espaço. Mas talvez seja um pouco mais difícil do que um colega que tenha a mesma coisa, mesma… Só que seja homem. Algumas profissões, por serem eminentemente masculinas - talvez no inconsciente das pessoas, não sei o que é, mas por tradicionalmente serem assim - acho que causa assim um desconforto, que depois se supera, quando te conhece bem e as coisas fluem, mas tem aquele primeiro…

 

É difícil, é difícil [conciliar trabalho e família], mas eu tenho os meus pais aqui, né? Eu sou da cidade, então fica um pouco mais fácil. Quando você tem família, fica mais fácil. Mas hoje você imagina que eu tenho três filhas, um marido, trabalho diversificado, delegacia, na Cesportos, é sempre um desafio, mas dá, a gente conseguia, está todo mundo aí bem-criado, está tudo certo. Mas não é fácil não. 

 

Ah, no Porto você… É engraçado porque acaba ficando comum, eu digo assim: “A gente não pode achar que isso é comum”, mas na verdade a gente pega mais ou menos meia tonelada de cocaína por semana no Porto.

O trabalho da Polícia Federal como um todo [no Porto] é de investigação e os inquéritos, e aí você investiga a partir de alguma informação e aí você chega a um determinado contêiner, em determinada investigação, ou você chega através da Receita Federal, por causa dos contêineres que são escaneados. Eles agora… Todos os contêineres com destino a Europa, África, estão sendo escaneados, o destino de exportação, porque a cocaína sai daqui, ele vem por terra, pelos países da América do Sul e ela vai para os outros países, principalmente Europa, vai via Porto de Santos, por outros Portos, mas principalmente pelo Porto de Santos. Com a intensificação da legislação e a gente ficando em cima, investigação, eles perderam muito dinheiro, então eles começaram a migrar para outros Portos, mas mesmo assim aqui ainda é bem forte o tráfico, no Porto de Santos. 

 

[No Porto de Santos], então, eu trabalho na Polícia Federal, existe uma comissão que eu coordeno, é o Órgão colegiado, que é coordenado pela Polícia Federal, então é uma Comissão de Segurança Pública nos Portos, Terminais e Vias Navegáveis, então o que é? Como se fosse o Secretário de Segurança Pública, só que dos Portos, só que é um Órgão colegiado, então a gente cuida da segurança dos Portos, segurança pública. Isso é uma coisa que é feita a mais e a parte da minha profissão, então o que eu faço hoje? Tenho alguns inquéritos e sou Chefe do Núcleo de Imigração e Passaporte na Delegacia de Santos, e além disso eu sou a coordenadora da Cesportos, que cuida da Segurança Pública dos Portos, que me absorve… Que é algo feito em paralelo, sem remuneração, é de atividade pública, mas me toma quase o mesmo tempo dá… Então assim, é quase uma jornada dupla, porque a gente cuida da segurança de todos os Terminais, a certificação ISPS-CODE, que é o Código de Certificação Internacional de Segurança dos Portos, depois de onze de setembro foi exigido nos Estados Unidos, tem uma história toda, enfim. Mas a gente fiscaliza, analisa todos os estudos de avaliações de risco e segurança de cada terminal, são 55 Terminais, então assim, é um trabalho insano, as reuniões… É tudo junto. Por isso que eu falo, a jornada é dupla, tripla, filhos, marido, Cesportos, delegacia, é uma toada forte. Mas então, a gente cuida da segurança pública dos portos, então você está sempre envolvida com essa área do tráfico, né? Porque uma das funções da Cesportos é justamente coibir, prevenir os tráficos de drogas dos Portos, então a gente trabalha nisso. Mas nós temos um núcleo de inteligência na Delegacia, que cuida quase que 90% dos casos de tráficos, que é vocacionado pro tráfico, pro combate ao tráfico.

 

E a minha profissão [como Delegada] me impacta muito como ser humano no sentido de você pegar as pessoas nos extremos. Você entra muito na intimidade, então se você não tiver sensibilidade, se você não tiver psicologia pra lidar com isso, ou lidar com grau de estresse muito elevado... Você lida meio com a vida como ela é, você vê as pessoas em situações muito extremas, então você começa a conhecer o outro lado do ser humano, bom, ruim, mas você conhece o ser humano no extremo. 

 

[É interessante porque] todos [os casos] te modificam de certa maneira, você é impactado sempre de alguma maneira, sempre tem uma transformação, cada história de vida que você encontra, e eu sempre tento conhecer um pouco da história da pessoa, não é um número, é um ser humano, então você tem que conhecer, tem que olhar através, né? Então assim, quando você olha a pessoa como um ser humano, muitas coisas se transformam, e eu acho que mais do que transformar, transforma a gente. O tempo todo tem coisas que impactam você. Foi o que eu falei, na minha profissão você lida muito com o extremo do ser humano, então se você estiver aberta para aprender alguma coisa ou se você quiser fazer alguma coisa diferente, você tem espaço ali, é só querer.

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