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História

A sensação de ser mãe não tem preço

História de: Lusilene dos Santos Farias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/10/2014

Sinopse

Lusilene foi uma adolescente moleca e começou a namorar mais tarde do que a maioria das amigas. A gravidez inesperada aos 16 anos foi o marco a partir do qual precisou amadurecer rapidamente e ingressar com todas as responsabilidades na vida adulta.

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História completa

Lusilene dos Santos Farias, eu nasci em Xique-Xique, Bahia, no dia dois de maio de 1985.

Minha mãe se chama Lúcia Maria dos Santos Farias, e pelo que ela conta trabalhou sempre na roça. Minha mãe não tem estudos, não sabe ler, nem escrever, apenas sabe assinar o próprio nome. E meu pai se chama Jarison Pereira dos Santos, e o ramo que ele leva desde que a gente veio pra São Paulo, há 25 anos, é de ajudante em empresas que fazem entregas de bebidas. Então, ele carrega aquelas caixas de bebidas nas costas, mesmo sendo tão pequenininho, é essa função que ele sabe fazer.

Aqui em São Paulo, meu pai veio primeiro pra procurar emprego, minha mãe ficou com medo de ele não voltar, ela com seis filhos, ela ficou com medo de ele não voltar. Na verdade, seis não, cinco filhos. Ela resolveu vir atrás dele por medo de ele deixá-la lá abandonada. Ela veio sem saber ler e escrever, com cinco filhos. Pediu ajuda e veio. E a gente morava num quarto superpequeno, que mais chovia fora do que dentro. Era um cortiço, na verdade. Lá fora tinha um tanque pra todo mundo lavar roupa. O mesmo tanque que lavava roupa, lavava louça, muito sofrido. E aqui em São Paulo, minha mãe ainda teve mais os três filhos, isso no início, então foi bem sofrido. Depois fomos pra onde a gente mora atualmente, até hoje, nesses anos todos. E aí minha tia cedeu um terreno, na verdade a gente tinha uma casa enorme. Como eu costumo falar, era um barraco-mansão. Era de madeira, não era de alvenaria, mas era enorme, então tinha um espaço supergrande. É isso que eu me lembro. E ali tinha papagaio, tinha pato, uma vez meu pai trocou uma bicicleta por um cabrito (risos). E aí a gente tinha essa convivência com os animaizinhos pra lembrar um pouquinho lá do tempo acho que dele, que eles viviam na roça e convivem com os animais, então trazer um pouquinho disso pra cidade grande.

As brincadeiras de infância eram muitas que hoje, inclusive, não se brincam mais. Então, era brincadeira de roda, brincadeira de casinha mesmo, aquela coisa de menina, de fazer bolinho de lama, de fazer concurso de beleza. E as brincadeiras com os amigos mesmo, de se interagir, de fazer um jogo onde vai ter equipes, onde vai se dividir. Então, tinha não só o esconde-esconde, a gente tinha o pega-pega, e a gente queria fazer o esconde-esconde com o último salva todos, que aquele se escondia pra brincadeira não terminar, pra demorar mais tempo pra gente brincar. A gente usava objetos pra fazer as brincadeiras. Então, essa coisa de realmente aproveitar o que tem. De criar brinquedos, então fantoche com meia, a gente fazia a comidinha, a gente fazia às vezes com plantas e às vezes com comidinha de verdade, então uma pegava um pouquinho do feijão, a outra um pouquinho do arroz, fazia aquela fogueirinha de lenha e ali a gente brincava de cozinhar, na verdade. Brincava de cozinhar. Então, ajudava a vizinha a plantar, depois ia colher e depois assar o milho na fogueira. Pegar uma blusa de frio, fazer uma dobradura na qual parecia um bebê. Eu, pelo menos, quando eu via brinquedo na garagem das pessoas, por ser tão pobre, eu achava que as pessoas não queriam aqueles brinquedos, pra mim estavam realmente jogados no lixo. E pra brincar, um irmão achava a cabeça do boneco, o outro achava o corpinho, então a gente montava pra dizer que tinha uma boneca. Mas quando não tinha, isso não era motivo pra não se divertir, pra não realmente brincar.

Como eu sempre fui a menor da turma de acordo com a idade, a minha mãe não quis me colocar na escola porque achava que eu era muito pequena. Então ela falava: “Eu não vou colocar a minha filha misturada com esse monte de gente grande”. E acabei não entrando na escola com sete anos de idade. Quando completei oito anos de idade, não achamos vaga, eu entrei na escola com nove anos de idade. Mas eu recuperei o tempo perdido, porque todos que entraram a minha frente repetiram de ano. Eu sempre fui uma pessoa que eu nunca tirei nota vermelha, cheguei fases a não faltar na escola por anos seguidos, mas porque eu queria, não porque eu tinha algum motivo a mais, falar: “Não, minha mãe não me manda, meu pai...”. Ou: “Eu quero ser diferente”. Era um instinto meu. E hoje eu cobro muito da minha filha isso. Você tem que ter a vontade de estudar, não adianta eu mandar ou questionar. Então, eu fui por força de vontade.

Eu fui despertar para o adolescente, eu já tava com 15 anos. Parei de brincar quando realmente despertei aquela coisa do apaixonar, pelo meu marido, que era amigo de infância, sentava perto dele pra ver defeitos. Todas queriam ele, menos eu. E aí quando eu comecei a despertar isso. E aos 16 anos eu engravidei e uma semana de eu completar 17, eu virei mãe. Então, eu falo que eu não tive adolescência.

A gravidez veio... Realmente, assim, é bom ser criança, é bom não ter essa malícia do mundo no sentido de... Malícia no sentido de fazer as coisas com outros sentidos, com pensamentos já mais negativo ou destrutivo. Então, eu era realmente mais infantilizada. É bom ser inocente. O bom da criança é ser inocente, mas, infelizmente, a inocência demais, ela acaba causando curiosidade demais. Então, acabei engravidando... Claro, eu sabia do ato que eu estava fazendo, qual era o ato, mas ao mesmo tempo, não tive explicação nenhuma em casa. Das amigas, a explicação que tinha era muito realista. Então, pra mim que tinha um pensamento de criança, você vir falar de algo tão realista, que chegava assustar, é a mesma coisa de eu pegar uma criança que gosta de brincar de boneca e realmente falar o sexo da forma que ele é explícito, eu vou assustar aquela criança de alguma forma. Então, pra mim era daquela maneira que eu ouvia como as amigas contavam. Era algo muito grosseiro, então eu preferia não ouvir. Acabei não aprendendo nada. O que eu aprendi foi com a vida, então pela curiosidade. Por que ele fica assim e eu não? O que será que ele tá sentindo que eu não sinto? Então, eu deixava avançar um pouquinho mais pra ver se eu ia sentir o que ele tava sentindo. A primeira transa, os dois usaram camisinha, porque os dois virgens. Na segunda, resolvemos não usar porque achamos que ele não perdeu a virgindade. Foi quando eu engravidei. Eu engravidei pela inexperiência. E aí eu esperei dois meses pra ter certeza que eu tava grávida. Quando eu tava com o exame na mão, sempre muito magrinha, a barriga muito retinha, aí eu fui mostrar pra minha irmã. Ela falou: “Para de ficar se difamando. Isso é mentira”. Tá bom. Fui contar pra minha sogra. “Esse papel é falso. Onde que essa menina... Imagina, gente, ela é uma criança.” Porque todo mundo me via como aquela menina doce, meiguinha, toda tímida, envergonhada, que mal olhava no rosto das pessoas.

Porque o pensamento da minha mãe era: ela age como criança, ela tem o corpo de criança. Acho que nem minha mãe percebeu que eu já tava com os meus 16 anos. E como uma moça de 16 anos não virou mulher ainda? Não conversava, não tinha diálogo. Minha irmã sabia porque a gente dormia no mesmo quarto. Então, não tive explicação nenhuma. E aí minha sogra viúva, tem um filho mais velho, sentaram minha sogra, meu cunhado, eu, meu marido, minha mãe, meu pai e minha irmã. E do mesmo jeito que meu pai entrou, ele saiu, calado. Então, assim, eu não levei bronca, eu não levei conselho, absolutamente nada. Então, eu me senti rejeitada nesse sentido de... É como se fosse um trapo que você pegasse e falasse: “Ah, pode levar, não vai fazer falta”. E aí eu comecei a conviver mais na casa da minha sogra. Então, ia pra escola com ele, de mão dada, tudo, ia pra escola. E quando eu voltava da escola, já ficava na casa da minha sogra, na mesma rua. Eu não lembro exatamente quando foi que eu levei as minhas coisas pra lá, passei a dormir lá. Eu não lembro exatamente desse momento, mas eu já devia estar em torno do quinto mês de gestação. E aí então quem me levou pra ter filho foi minha sogra, quem cuidou de mim e ajudava a cuidar da minha filha era minha sogra. Tanto que quando minha filha chorava, ela pegava dos meus braços e eu ia atrás igual a uma bobinha: “Mas me dá, que é meu. Eu tenho que olhar, eu tenho que ver o que ela tá sentindo, não você”. Mas pra ela é uma criança cuidando de outra criança, não tem condições. Daí foi meu apoio, foi meu chão. Foi a minha sogra, a minha estrutura. Assim, eu lavava a louça com muita raiva porque minha irmã me obrigava, não porque minha mãe me ensinou. Então, se eu sou o que eu sou hoje, se eu sou mãe, mulher, se eu sei lavar, passar, cozinhar, não foi minha mãe que me ensinou, foi a vida, foi minha sogra.

A minha filha se chama Letícia Gabriele. Dois nomes, porque eu nunca gostei de Lucilene, virou Lusilene, piorou. Então, eu coloquei dois nomes pra ela ter essa opção de escolher. Então é Letícia Grabriele, ela vai fazer 12 anos o mês que vem. É uma mocinha, quase da minha altura, já usando os meus saltos altos, as minhas roupas, dando palpite nas minhas coisas, fala: “Ai mãe, isso tá brega, isso não tá” (risos). Mas a sensação realmente de ser mãe é... Não tem preço, você chegar estressado de um lugar, de repente ver aquele sorriso banguelo, como se você fosse algo tão precioso, que ela tá esperando há tanto tempo e vir, correr pra te dar um abraço de felicidade, como se não te visse há muito tempo.

Hoje o meu foco maior é ser mãe novamente, cuidar desse novo ser que vem vindo aí, que não conheço, mas que já causa um turbilhão de sentimentos. Inicialmente, focar na família. Como a gente teve essa perda recente da minha sogra, não tá tão bem estruturada ainda a minha família. Então, eu preciso reestruturar a minha família novamente, pra depois tomar um rumo, pensar em mim, falar: “O que eu quero pra mim?”. Eu queria muito voltar a estudar. Assim, eu tenho muita vontade de fazer curso de espanhol. Queria muito aprender o espanhol. Às vezes até em casa, eu cheguei a estudar um pouquinho em casa e tudo. E como minha filha já tá entrando também nessa fase, aí ela fazendo um curso, eu posso fazer um junto, porque a gente acaba usando em casa, treinando e ninguém vai esquecer. Eu pensei em fazer curso primeiro. E como eu tô agora em casa, prendada, inventando milhões de receitas e aproveitando tudo, eu pensei em fazer Gastronomia.

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