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A Senhora S

História de: Remisson Aniceto
Autor: Remisson Aniceto
Publicado em: 16/06/2020

Sinopse

A Senhora S é o nome fictício de uma vizinha do meu prédio em São Paulo. Já aos oitenta anos, morava sozinha em um minúsculo apartamento, abandonada pelos familiares, até que resolveram colocá-la em uma casa para idosos, onde também não a visitavam, até a sua morte.

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História completa

Nos últimos anos tenho sido vítima de um gradativo esquecimento até das coisas mais simples do dia a dia. Deixo aqui um bom exemplo para ilustrar tal situação: ao terminar de coar o café da manhã antes de sair para a lida, esqueço a chama do fogão acesa. Por duas vezes somente neste ano minha esposa telefonou para o meu trabalho me participando deste fato, demonstrando na voz um misto de ira pelo desperdício de gás e preocupação com um possível incêndio. Imagino que ela também estivesse, ambas as vezes, preocupada com a minha saúde mental. Eu poderia descrever uma série de outras falhas da minha mente, coisas que, apesar de eu nunca ter tido uma memória prodigiosa, acreditava que jamais aconteceriam comigo. E estes episódios, antes esporádicos, vão tomando uma proporção que começa realmente a me preocupar. Se antes eu me considerava blindado e até caçoava do esquecimento dos outros, agora percebo que este mal não acomete apenas os mais idosos. Se bem que não sou mais um jovenzinho… Outro dia fui ao supermercado, que fica do lado de casa, comprar uma lâmpada. Quando eu ainda estava na porta da sala, minha esposa pediu-me que comprasse pão e manteiga. "Escreva para não esquecer”, disse. Ora esta, três itens! Não hei de esquecer, não há como esquecer, pensei. Pois não é que comprei o pão e a manteiga e cheguei em casa sem a lâmpada, que era o meu objetivo principal quando decidi ir ao supermercado? Outra vez fui comprar apenas quatro itens, não anotei, esqueci um e tive que ligar do supermercado para a minha esposa e perguntar o que era mesmo que ela havia pedido. Antes, circulei por toda a loja investigando gôndolas e prateleiras, imaginando que ao ver o produto eu me lembraria, mas nada. E olha que cheguei a pegar a embalagem como o produto enquanto rodava pela loja. Mas, para além das explicações da medicina sobre a amnésia e outros diversos tipos de apagões mentais, atualmente as pessoas tomam atitudes que “provocam estes apagões”, que podem ser fatais ou deixar sequelas irreversíveis. O celular é um destes provocadores de esquecimentos. Nós dirigimos nossos automóveis e andamos pelas ruas com fones de ouvido e nos desligamos de tudo ao redor, como se estivéssemos sós dentro da multidão. Ouvindo músicas, vendo tv, atendendo a uma ligação sem nem tocar no aparelho, escrevendo nas redes sociais, rindo sozinhos como loucos, esbarramos nas pessoas, tropeçamos, caímos, ficamos cegos, mudos e surdos. Agindo como autômatos, provocamos e sofremos atropelamentos e somos alvos de roubos e xingamentos dos quais muitas vezes nem nos damos conta, pelo total descuido que nos invade. Voltando ao esquecimento patológico, lembro que de tempos em tempos faço visitas a uma casa de repouso onde está a Senhora S, que morava no apartamento ao lado do meu. Octogenária, morava sozinha e hoje está bem debilitada fisicamente, mas o que mais me preocupa é o seu estado mental. Ela, uma italiana antes tão falante e muito bem humorada, vai mostrando-se a cada visita mais amarga — creio que amargurada talvez seja o termo mais adequado à sua atual condição — e profundamente melancólica. Choraminga que os parentes não a visitam, que a abandonaram. Percebo que a memória dela aos poucos vai maldosamente se esgueirando. Algumas vezes ainda mostra certos resquícios de memória antiga e indaga vagamente da sua casa e fala das irmãs, porém em seguida reclama que seu pai, sua mãe e sua filha nunca mais foram vê-la. Sei que seus pais morreram há muitos anos e ela nunca teve filhos. A Senhora S em certos momentos ainda se esforça para engatar alguns diálogos, porém engasga a cada três ou quatro palavras e tenta, impaciente, retomar a conversa mas raramente consegue. Então, com dificuldade, pragueja: “Cáspita… puxa… caramba!!!.. olha como está a minha cabeça!”. E repete que quer morrer, que não serve pra mais nada. Então lhe peço para observar o estado de uma senhora de olhar vago, que anda incansavelmente o tempo inteiro pra lá e pra cá dentro do pátio, segurando firmemente uma bolsa, como se dissesse: “deixem-me sair daqui”; aponto-lhe um senhor que grita a todo momento e de cuja boca escorre constantemente uma viscosa baba; falo de outros internos que não andam e nem falam mais, porém ela não se convence que ainda está melhor do que todos eles. Segundo os neurologistas, o simples esquecimento, aquele que quase todo mundo tem, pode ter origem na falta de atenção. O patológico, apesar de não ter cura, pode ser amenizado com drogas que retardam os seus sintomas. A depressão, o sono insuficiente, a ansiedade, as anemias nos fazem diminuir a percepção e esquecer de determinadas atividades. Tomar alguns medicamentos controlados por longos períodos também pode desencadear a perda parcial da memória. Mas acredito, pelas minhas observações, pois não sei se foram realizados nela os exames e acompanhamentos adequados, que a Senhora S apresenta há bastante tempo alguns sintomas do Mal de Alzheimer. Ainda assim, conheço pessoas jovens e aparentemente saudáveis mas que, pelas suas atitudes descabidas, já se mostram mais dementes do que ela nos seus mais de 80 anos. Porém o maior mal da Senhora S é a solidão, o abandono da família. Ela também parece não ter outros amigos — em raríssimas ocasiões vi alguém ir visitá-la no seu apartamento, nem mesmo algum parente. Agora na casa de repouso muito menos. Ela nem soube que seu apartamento foi vendido por uma sobrinha que tomou a frente de tudo que era da tia. Fico impaciente se meus compromissos impedem-me de visitá-la mais amiúde e quando apareço seus olhos adquirem um brilho novo, ela levanta com dificuldade do sofá na sala onde ficam dezenas de idosos e me abraça. A alegria que me invade não tem tamanho. — Ah! Você veio! Que bom! — e me abraça novamente e me beija o rosto, pegando minha mão e convidando para irmos sentar lá fora no jardim. Ali permaneço até o término do horário de visita, com ela comendo bolo ou algum doce que minha esposa faz especialmente pra ela. Às vezes caminhamos lentamente de mãos dadas por entre as mesas dos demais internos e os parentes e amigos que foram visitá-los. Há muitos tipos de esquecimento, mas o pior de todos, o que mais danifica o mundo é fingir esquecer. Fingir que não temos nada com os problemas que nos rodeiam, fingir que não somos responsáveis pelas crianças, idosos e animais abandonados, fazer de conta que nada temos a ver com a preservação do meio ambiente, fingir — como os políticos — que não fomos escolhidos para trabalhar pela melhoria da condição humana e não apenas a nossa condição econômica, fingir que se apropriar do bem alheio não é roubar, fingir e afirmar categoricamente, com todas as provas em contrário, que não são nossos os milhões depositados nas contas abertas em nosso nome nos bancos do exterior. Voltando à Senhora S, que é quem mais me interessa agora, apesar da dificuldade do nosso diálogo, ainda conseguimos nos entender e espero que a capacidade espacial e a memória dela fiquem preservadas por muito tempo. Não sei como eu me sentirei no dia em que for visitá-la e ela não se recordar mais de mim. Mais triste ainda será o dia em que eu tocar a campainha da casa de repouso e a enfermeira me disser que a Senhora S já não está mais ali. Penso que esquecer pode ser bom. Ninguém deveria sofrer com a lembrança de um estupro, uma mãe não deveria sofrer ao recordar a morte do seu filho, a humanidade não precisaria lembrar os horrores de tantas inúteis guerras. Por outro lado, lembrar das coisas ruins pode sim nos transformar para melhor, nos fazer aprender, nos fortalecer para seguir pelos caminhos do bem. Sou grande admirador do escritor alemão Bertolt Brecht, que escreveu o poema Elogio do Esquecimento: “Bom é o esquecimento! Senão como se afastaria o filho da mãe que o amamentou?… Para a velha casa mudam-se os novos moradores. Se os que a construíram ainda lá vivessem a casa seria pequena demais. Como se levantaria pela manhã o homem sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro? Como se ergueria pela sétima vez aquele derrubado seis vezes para lavrar o chão pedregoso, voar o céu perigoso? A fraqueza da memória dá força ao homem”.

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