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História

A Secretária e seus Conselhos

História de: Zélia Ianello Pereira Fonseca
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/04/2013

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História completa

P/1 -  A senhora poderia falar o seu nome completo pra gente só para fazer a claquete?
R -  Pois não, Zélia Ianello Pereira da Fonseca
P/1 -  A senhora nasceu em que cidade?
R -  Borborema, Estado de São Paulo, mas fui criada em São Paulo.
P/1 -  Qual a idade da senhora ou a data do seu aniversário?
R -  (risos) Eu sou capricórnio, 5 de janeiro o ano nem pro padre. (risos)
P/1 -  Está certo então, vou continuar aqui preenchendo essa ficha de cadastro do depoimento e depois a parte dela a gente vai desenvolver um pouco alguns temas. 
P/1 -  A senhora poderia repetir a data do seu aniversário? O ano, não, mas, dia e mês?
R -  Já falei, 5 de janeiro. Capricórnio. (risos)
P/1 -  O pai da senhora?
R -  Falecido.
P/1 -  O nome dele?
R -  Antônio Ianello.
P/1 -  Data de nascimento dele?
R – Olha, deixa ver se eu me lembro? 3 de janeiro, dois dias antes do meu, 1912.
P/1 -  Onde ele nasceu?
R -  Ele nasceu em Boa Esperança.
P/1 -  Boa Esperança. Em São Paulo?
R -  Isso.
P/1 -  E qual era a atividade do seu pai?
R -  Meu pai, ele era comerciante, ele tinha um bar/restaurante no interior e ele era piloto, ele tinha um avião, ele dava aulas, era um instrutor de aviação. Gostava muito, se dedicava muito a essa prática... era instrutor de aviação e a cidade Ibitinga, não sei se você conhece, Ibitinga, terra do bordado, né, e ele dava aulas lá e participava de competições, assim, aéreas em São Carlos, não sei o que mais? Acrobacias aéreas, ele era muito famoso na época.
P/1 -  E quando isso, assim, a... 
R - Mais ou menos o ano?
P/1 - Assim, a década, a aviação estava no início, né?
R -  Deixa me ver... 50, 45 ou 50, deixa eu ver, que ele fazia isso né, mais ou menos 50, por aí.
P/1 -  Era uma coisa que era incomum?
R -  Realmente, é não era muito incomum, mas ele realmente...
P/1 -  Hoje?
R -  Hoje é corriqueiro, né, fazer isso aí, tem esquadrilha da fumaça, esses negócios... mas naquele tempo era outro tipo de apresentação, as acrobacias eram diferentes, entende, eram de loopings, os famosos loopings né, que chamava, na época eu era criança mas eu me lembro bem, começo de ano 45/50 por aí que ele fazia mais assim, né, e fazia muito sucesso o meu pai, ele nasceu mesmo pra... até o dia que houve um acidente, aí ele parou completamente. Ele tinha um avião dele mesmo, o avião ficou... mas graças a Deus não aconteceu nada assim de grave, né, machucou-se tal, mas... Depois ele parou com a aviação, e se dedicou só comércio, representações, aí já não tinha mais o bar/restaurante lógico, na época, né, depois ele dedicou-se a representações de firmas, representante, publicidade, fazia muito publicidade.
P/1 -  Esse acidente, Dona Zélia...
R -  Acidente com avião.
P/1 -  Mas, foi durante uma exibição?
R -  Não, não foi uma viagem normal. Eu ia muito assim, como eu morava em São Paulo quando era criança, eu ia para o interior com ele, só nós dois no avião, era um teco-teco, né, e nós íamos muito, eu era pequenininha, mas eu me lembro direitinho, ia muito com ele, sempre gostei muito quase fui aeromoça. (riso). Quase, tirei carteira inclusive para ser aeromoça na VASP, eu e minha irmã. A minha irmã ficou durante 6 anos como aeromoça na VASP. Na época eu tinha 19 anos, 18 ou 19, como eu era menor de 21 anos, tive que ir ao Rio, lá no Ministério da Aviação, para conseguir uma autorização para o pai assinar, entende, esse negócio todo. E aconteceu um caso... posso contar, um caso pitoresco? (risos) Eu na viagem, a minha irmã já era aeromoça, já tinha começado que ela era mais velha, e eu conheci o co-piloto de avião, (risos) então, foi assim um não sei, uma atração mútua, assim, uma amor a primeira vista, um rapaz lindo, 23 anos, ele então deixou o comando na mão do comandante e falou  “Ó, hoje eu não vou comandar nada, arrumei uma garota aqui, uma gata.” E nós fomos a viajem toda assim, tal... marcamos encontro... E você sabe que nem chegou a se concretizar, nem o primeiro encontro, porque nós tínhamos marcado... como ele tinha vários vôos, então ele marcou uma folga, que seria dali a uma semana, parece-me, e daí quatro dias a minha irmã chegou, assim, com uma cara meio assustada, e eu estava apaixonada  pelo rapaz, acredita em amor à primeira vista? Impressionante e ele por mim, né, uma gracinha! Aí ela chegou e disse: “Ai, meu Deus, você viu na televisão, no jornal alguma coisa sobre o acidente da VASP?” Eu disse: “Não”, realmente eu não tinha visto nada. “Pois é, o avião explodiu no ar, entende, e ele estava no avião”, o rapaz, o nome dele era Pablo, também descendente de italiano como eu, né, Pablo. Nossa, aquilo foi um choque, quer dizer, então eu fiquei completamente assim desmotivada de ser aeromoça. Com um rapaz lindo daquele, 23 anos, praticamente foi enterrado numa caixa de sapato, que era só cinzas, né, então eu realmente não quis nada, mas de jeito nenhum e minha irmã continuou, foi durante 6 anos, aí  partir pra outra, né? E comecei assim, como auxiliar de escritório, até chegar a secretária executiva, né, secretariado...
P/1 -  Isso, mas calma!
R -  Tá, esse foi um fato relacionado com meu pai, né? Porque eu e minha irmão nós puxamos, entende... gostar de aviação, gostar de avião...
P/1 -  Pois é, eu gostaria de... eu ia fazer justamente uma pergunta nesse sentido. Numa época... 40 anos atrás, a aviação não estava tão desenvolvida, como que a mãe, a sua mãe... com o seu pai, a filha pequena viajando de avião, ela não tinha medo?
R -  Não, realmente não, nunca tivemos medo, tanto que eu, eu não fui ser aeromoça, não quis ser, renunciei, mas, viajava assim, com a minha irmã pra lá e pra cá, que ela era aeromoça, andava assim, para o Rio, pra Tupã, que tinha família em Tupã, entende, nós íamos assim... pra, que mais... Curitiba, eu ia com ela. Viagens assim eu fazia, mas assim, de uma forma de trabalho, todo dia, entende, encarar assim como forma de trabalho... aí já pensava no garoto, né? (risos) Ai, realmente não.
P/1 -  Então, continuando aqui, voltando a ficha. O nome da sua mãe?
R -  Paulina Passos Ianello.
P/1 -  A data de nascimento dela?
R -  É 25 de março, mesma idade do meu pai, 1902.
P/1 -  Ela nasceu?
R -  Minha mãe nasceu... você sabe que eu não lembro, acho que foi em Borborema. O pai dela era fazendeiro, eles tinham uma fazenda.
P/1 -  E atividade dela, trabalhava, dona de casa?
R -  Não, não. Não, ela ajudava o meu pai no restaurante.
P/1 -  Quantos irmãos, irmãs a senhora teve?
R -  Olha, eu tenho... nós somos em três, um faleceu há uns 7 anos parece. Há 7 anos eu perdi meu irmão mais velho, né, agora eu tenho uma irmã que morou até na Europa, né, ela morava em São Paulo, fomos criadas em São Paulo, moramos muito tempo em São Paulo, e ela ficou morando 3 anos na Europa, conheceu todos os países ali perto de Portugal. Itália, Espanha, Inglaterra. Mas, você sabe que ela ficou tão assustada com violência, não violência lá, violência aqui, que ela então retornou a terra natal, aliás, ela é de Ibitinga, mas ela está morando em Borborema. Porque ela e o marido achavam que  já tá na hora, ele aposentou-se, na hora de descansar, né, então ela mora na... só nós duas. A mais velha.
P/1 -  Agora vamos falar um pouco da sua família? A senhora é casada, foi casada?
R -  Fui, fui casada. Sou viúva, meu marido morreu com 40 anos. Teve uma doença incurável, câncer, né, e ele era um dos chefões aí da Sabesp, por isso que eu vim para cá, porque ele veio trabalhar aqui na Sabesp. Nós morávamos em São Paulo, meus filhos nasceram em São Paulo. Ele veio assumir um cargo assim, relevante aí na Sabesp, então nós mudamos para Santos por causa disso. Aí ele morreu, aqui, né,  ele era Sérgio Geraldo Pereira da Fonseca.
P/1 -  Qual a data de casamento?
R -  Data de casamento é 25 de julho (PAUSA) de 60.
P/1 - 60. E ele nasceu quando?
R -  O meu marido? Gemeniano, 6 de junho.
P/1 - 6 de junho?
R - Junho, 6/6. O ano?
P/1 -  Isso.
R -  38.
P/1 -  Ele era de São Paulo?
R -  Itapira, ele nasceu em Itapira, mas ele... o meu marido fez um curso, fez um curso externo, interessa? Assim o que ele fazia.? Primeiramente ele formou-se em Educação Física em Bauru, e ele foi...  participou muito de atividades esportivas, fora. Ganhou vários troféus como saltos ornamentais, assim, de natação, ganhou no xadrez, salto em altura, extensão, esses negócios todos. Foi um grande esportista. Jogos abertos no interior, ainda tem?
P/1 -  Tem.
R - Tem, então, ele participava na época e ele ganhou muito... nossa! Em casa o que tem de troféu e medalha dele! (risos) Depois em São Paulo, ele foi... ele estudou... fez engenharia, né, engenheiro e depois fez pós graduação na Getúlio Vargas. Defendeu tese, é doutor mesmo. Depois ele trabalhou na Cosipa, depois nós fomos para Pindamonhanga, que ele foi dirigir uma fábrica em Pinda, depois é que nós fomos pra Santos e aqui... e aqui ele morreu, ele não tinha me 40,tinha uns 39, 39 ou 40, bem jovem, mas ele era uma pessoa muito... estudava muito, não parava de estudar. Ele ia fazer Direito, 1 ano antes de morrer ele tinha resolvido fazer Direito também. Ele queria fazer tudo! (risos) Ele gostava de estudar, né, tinha muitos cursos, Ah! fez Escola Superior de Guerra. Ele foi escolhido na Sabesp, ele que foi escolhido pra fazer Escola Superior de Guerra, ADESG.
P/1 -  E filhos?
R -  Os filhos, bom, veio o Marcos Ricardo.
P/1 -  O mais velho?
R -  O mais velho, Marcos Ricardo Pereira da Fonseca. (riso)
P/1 -  A data de nascimento dele?
R -  26 de março (PAUSA) de 61. Ele tem uma loja em Fortaleza, e é músico também. Ele tem uma loja de discos e ele é guitarrista, sempre teve banda aqui em Santos, quando ele morava aqui sempre teve banda. Músico também, toca guitarra, compõe, toca um pouco de teclado, canta, tinha uma banda aqui. O nome artístico dele era Hanstein.
P/1 -  Hanstein? 
R -  É, com H, Hanstein nome artístico. A moça, é cantora, pianista, compositora, né, Márcia, o nome artístico é Bonnie com 2 n, Bonnie.
P/1 -  Mas o nome dela é Márcia...
R -  Christina, com h, Pereira da Fonseca.
P/1 -  O nome artístico?
R -  Bonnie. B o 2 enes i e. Que nem Bonnie e Clyde.(risos) 
P/1 -  Os filhos saíram pra música, então?
R -  Os dois são músicos, ela é compositora, pianista e cantora. Ela começou a tocar piano com... não tinha nem 7 anos. Com oito ela já compunha. 
P/1 -  Interessante. E ela está aqui em Santos ainda?
R -  Olha ela está, agora que ela está começando a retornar, porque ela teve filho, né, então o menino deu trabalho quando ele era pequeno, mas ela, em São Paulo ela cantava com outro marido, ex marido, ele era guitarrista e também compositor e fazia os arranjos da dupla e eles cantavam em lugares assim, Gallery, Leopoldo , Anexo da Vacon, cantaram no Aeroanta, só lugares assim, né, e aí gravaram um CD, Bonnie e Jimmy. As músicas muito bonitas, foi aí que ela ganhou o prêmio Sharp como revelação de música feminina de música pop do ano, 93. E continuou, e fazendo uma temporada em Florianópolis, né, eles já estavam assim, com a relação um pouco estremecida e ela conheceu esse atual marido dela, que é o pai do meu neto, ele é uruguaio.
P/1 -  É músico também?
R -  Não.
P/1 -  Não é do ramo? (risos)
R -  O ex marido só, ficaram 10 anos juntos, né, garotinho .
P/1 -  Agora ela está retornando, ela vai começar a cantar sábado aqui na Estação do Chope das 8 as 10, começando a retornar, né, à música, aí eu tomo conta do... (risos) Bambã, eu chamo ele de Bambã, porque ele tudo pá na cabeça da gente. (risos)
P/1 -  E como é o nome dele?
R -  Tem... vai fazer 2 anos, então já viu, né?
P/1 -  E como é o nome dele?
R -  Francis, igual ao pai, Francis. O nome do Frank Sinatra, né, o neto, meu neto, Francis.
P/1 -  Ficou faltando a senhora dar...
R -  Está na  Márcia ainda, né?
P/1 -  Isso, a data de aniversário dela.
R -  26/12/63.
P/1 -  26 é um número é, ambos os filhos. (risos) E o terceiro filho da senhora? A senhora tem mais um filho?
R -  É o Marcos Ricardo.
P/1 -  São só dois?
R -  E a Márcia, epa, um casal completa a família, né? (risos)
P/1 -  Eu tinha entendido que a senhora tinha entendido que tinha mais...
R -  Não, não, são os dois só.
P/1 -  Então já foi. Vamos passar agora para a sua formação escolar. A senhora estudou? Como é que foi?
R -  Olha eu fiz, em São Paulo, né, eu fiz segundo grau, colegial, naquele tempo, né, depois eu fiz 2 anos de psicologia, né, parei. Eu trabalhava muito, comecei trabalhar, e trabalhava muito nas coisas, e depois eu trabalhei...  a gente...   sei lá desanimei um pouquinho e então depois eu parei. Aí comecei a trabalhar como secretária, quer o nome da firma, não? Não precisa, né? 
P/1 -  Vou, daqui a pouco vamos chegar lá. 
R -  É,  eu comecei a trabalhar e continuei trabalhando.
P/1 -  A senhora tem religião?
R -  Espiritualista.
P/1 -  Espiritualista, está jóia. Atividade profissional?
R -  Secretária executiva.
P/1 -  Agora sim, agora eu quero, desde o primeiro emprego até hoje?
R -  Eu vou falar os principais, né? (risos). Olha eu trabalhei, como secretária, numa firma americana quando ela veio para o Brasil Hyster do Brasil, é de guindastes e tratores, agora deve estar na Avenida João Dias, onde estão as fábricas, né, Hyster do Brasil, eu vou falar as principais. Laboratórios Lepetit, conhece? Laboratórios Lepetit é lá na Vila Mariana, agora eu não sei onde é. Depois eu parei uns anos, quando depois nasceu a minha filha aí eu parei uns anos de trabalhar. Depois que meu marido morreu, a necessidade obrigou, né, aí eu voltei a trabalhar, aqui no Santos.
P/1 -  E aqui agora no Santos?
R -  E aqui estou quase 20 anos.
P/2 -  Agora, o tempo que a senhora trabalhou em cada uma delas, assim, em todas elas como secretária?
R -  É.
P/2 -  Na Hyster?
R -  Secretária do encarregado do Departamento Pessoal e Contabilidade.
P/2 -  Mas é de que período?
R -  Ah, o período na Hyster? Deixa eu ver. Acho que foi 59 a 63, ou 62, 62.
P/2 -  Ano do Bi. (risos)
R -  É mesmo, a partida do futebol, heim? No Lepetit fiquei só 1 ano, depois a menina nasceu.
P/2 -  Tá, isso em 60...
R -  63, né 62, 63.
P/2 -  No Santos?
R -  No Santos eu entrei em 80, primeiro de setembro de 80, daqui há quase 20 anos, né?
P/2 -  Eu falei do Bi em 62, agora eu coloco 70 aqui, porque é o ano do Tri. (risos)
R -  62 não foi Bi, você diz o Santos? Foi campeão. Ah, você está dizendo da seleção? Ah, seleção. Você quer os nomes dos presidentes que eu tive? (riso)
P/1 -  Não.
R -  Com quem comecei e com quem estou. Tanto presidente...
P/2 -  Não, mas aí já vai ser uma conversa, não vai ser tanto a em cima do papel.
R -  Vai acabar a fita, heim?
P/1 -  A senhora já morou... Localidades em que a senhora já morou? A senhora já morou em Borborema...
R -  Onde eu morei, Borborema, lá que eu nasci, depois São Paulo, na maior parte do tempo estudei, me casei, tive filhos, tudo lá, né? Pindamonhangaba, Santos.
P/2 -  A senhora participa de algum tipo de associação? Tem alguma atividade associativa, seja ela qual for, desde sindicato até clube que a senhora for sócia?
R -  Não, não, quando meu marido era vivo, nos éramos sócios, né, de clubes. O Santos Golfe Clube, ele gostava de jogar golfe.
P/2 -  O Santos Golfe Clube, a senhora lembra que época?
R -  75 por aí. Depois que ele... depois ele faleceu, perdi o pique. (risos) Não sou sócia de nenhum. Não dá tempo, né, porque quando ele morreu eu fiquei com dois adolescentes numa situação, né? Meu marido era do tipo que só pensava no dia de hoje, no dia atual, sempre morávamos em apartamento de alto luxo, um por andar, carro de último tipo, ganhava muito bem. Não pensava no futuro, porque era jovem era um tipo atlético de 1 metro e 85, um tipão, tanto que ele ganhou todos aqueles jogos e competições esportivas. Então uma pessoa assim nunca pensa que pode acontecer uma doença, assim, súbita, né, não pensa, né? Então quando ele morreu, fiquei perdida, né, com dois adolescentes, que eu voltei a trabalhar.
P/2 -  A senhora tem atividades de lazer?
R -  Atividades de lazer? Televisão, (risos) eu tenho TV a cabo, então assisto filmes, filmes, filmes... Filmes legendados só, né, dublado eu não assisto. É televisão e passear, né, praia, gosto demais, praia, passear, shopping, saio muito, né, com o netinho então, né? Nós vamos aqui, lá no shopping, Mc Donald, esses negócios todos. Passeios né, passeios ao ar livre, gosto muito de passeios, praia e televisão, não saio à noite, só televisão.
P/2 -  Tá jóia, então agora queremos ouvir as histórias.
R -  Do lado profissional, no Santos Futebol Clube? (risos) Quando eu entrei aqui, era o Doutor Esmeraldo Tarqüinio, lá na sala tem o nome dele, uma pessoa maravilhosa, tanto que... enfim trabalhando com as gerações, né, agora, o filho dele, é o segundo secretário da mesa. O doutor Esmeraldo Tarqüinio era o presidente na época do Conselho e da Diretoria era o Rubens Quintas Ovalle, também um super presidente quando eu entrei aqui. Depois ele foi eleito, o Rubens Quintas, foi eleito, mas daí ele renunciou no meio do mandato, aí foi Ernesto Vieira pra lá, e aqui era o Vicente Fernandes Cassione, um advogado muito ilustre, muito famoso da cidade, aliás, deputado, era ex deputado, né?
P/1 -  Só uma coisinha Dona Zélia, desculpe interromper, a senhora...
R -  Não à vontade.
P/1 -  Mas  pra gente não adiantar muito, né, a senhora disse que começou a trabalhar por causa do falecimento do seu marido, né... 
R -  É, retornei ao trabalho.
P/1 -  É retornou ao trabalho, isso mesmo. E como é que foi, como é que a senhora veio pro Santos. (risos) A senhora falou por alto, assim, mas conta esse história direito? (risos)
R -  Foi interessante, foi assim: eu comecei a procurar emprego, né, e no jornal estava escrito, “Precisa-se de secretária-executiva, dinâmica e tal, né, e tratar lá na Ponta da Praia.”  “Ai meu Deus do céu, Ponta da Praia!” E eu morava ali no, perto do Canal Dois na praia, na Avenida da Praia mesmo, perto do canal dois. Bom, tomei o ônibus e fui, né, chego lá era uma tipo fábrica, fabricazinha de chocolate, eu vi lá uma fábrica de chocolate. Uma fila imensa de jovens, né, e eu já coroinha, né, (risos) Eu vi aquelas jovens e falei:  “Ah, eu não vou ter chance”, ainda mais que fazia tempo que eu não trabalhava, né, aí o rapaz que ele falou assim: “Teste de português”, de datilografia, teste de secretária, né, e aí ele disse: ... Não, ele me chamou: “Tem que ser você, é você, você foi a escolhida.” É, pra mim foi gratificante, né, das jovens todas eu fui a escolhida, aí eu disse: “É pra trabalhar aqui?” Porque eu achei assim, um lugar tão insignificante para uma secretária executiva, aí ele disse: “Não, é no Santos Futebol Clube, eu sou membro da mesa do conselho”. Ele era o primeiro secretário da mesa, do Esmeraldo Tarqüinio, Carlos Eduardo Sérgio da Cunha, agora ele mora em São Paulo. “Só que você vai passar pelo vice-presidente que é o Michel (Calazans?), é um despachante, ali em São Francisco, na cidade. “Passa só por ele e tal...” aí fui entrevistada e ele gostou de mim modéstia à parte, né, “Você é a pessoa que nós estamos procurando e tal...” e fui contratada, né, aí... (risos) Pasma, eu disse: “Onde fica o Santos Futebol Clube?” (risos) Aí ele disse: “Não sabe?” Aí eu falei: “Não”, “Você não torce pro Santos?” “Não, sou palmeirense, sou italiana”. (risos) Vou falar a verdade. Aí ele disse: “Agora você vai virar santista, heim?” Eu falei: “Ah, logicamente... né, com a convivência, e depois convivência com esses jogadores todos aí, fiquei adorando, né? Mas assim, eu disse: “Aonde fica o Santos?” Aí falou  “Você mora aonde?” “Você toma o ônibus tal, desce em frente... um ponto antes da Beneficiência Portuguesa, aí você já vê, Santos Futebol Clube.” Aí eu fui, né, fui no segundo andar, nos bancos de madeira, é tudo diferente, aqui, tudo velho, sentei no banco de madeira e fiquei lá esperando, aí chegou o Carlos Eduardo e pediu para uma moça me apresentar pra turminha, né, do Santos, aí me trouxeram pra cá pro Conselho. Nossa, o Conselho caia aos pedaços, né? Quando cheguei aqui quase peguei a minha bolsa e voltei. Velho, caindo aos pedaços. Ah não. Para cada presidente eu pedia uma reforma. Vê como tá bonito, esse salão. Aí fui pedindo, pedindo... era realmente...  estava muito feio este Conselho, velho sabe. Aí fui reformando (PAUSA)
P/2 -  Então a senhora estava contando como foi sua chegada aqui no Conselho?
R -  É, foi meio desanimadora para o meu gosto, porque lá em São Paulo trabalhei em firmas americanas, né, a Lepetit italiana e a Hyster americana, então, aquilo bem organizado, né, bem mobiliado, aqui estava tudo... Coitadinho do Conselho, ele estava mesmo feio, né? Agora tá lindo, né? Aí quando veio o Vicente Cassione, eu pedi pra ele se podia reformar o salão, que estava feio, as colunas todas caindo... aí fui trabalhar 3 meses lá no segundo andar, não é não, 2 meses, pra reformar o Conselho... o salão, foi reformado, puseram novo piso, não tinha nada a disso, por favor, faça o negócio, com Cassione, Vicente Cassione, mandou reformar, aí ficou bem bonitinho. Cartão de visita, né, do clube,  o salão do Conselho, os troféus, né? Vicente Cassione renunciou no meio do mandato, aí veio Florival Barletta o pai do meu atual presidente que eu falei pra você, eu fico trabalhando todas as gerações, (risos) agora eu trabalho com o filho, né, e o filho do Barlettinha que é o presidente, também é conselheiro, trabalhei com três gerações. Bom depois do Cassione, Florival Barletta, que é uma pessoa maravilhosa, aliás todos eles, eu me dava bem com todos. Tenho um gênio... já deu para perceber, né, então, eu sou alegre, carinhosa principalmente, o Conselho... diz que eu sou a namorada do Conselho, beijo todo mundo, em 300 velhinhos fico molhada dentro da reunião. (risos) Beijo todo mundo, eu sou muito beijoqueira, a raça, né, italiana, então, depois do Florival Barletta, veio Ernesto Vieira da Silva, muito bom, eu me dei com todos, são todos meus amigos. A vantagem, a minha vantagem, por exemplo, sobre a Darcy, sobre a secretária da presidência, é que, quando vem pra presidência já é meu amigo há anos, porque para ser presidente do Conselho tem que ser conselheiro, agora, ela não pra ser presidente da Diretoria, aí vem uma pessoa que às vezes ela nem conhece, até ela se adaptar, então, pra mim é mais fácil a adaptação porque já é meu amigo, tanto é que eu chamo eles todos de vocês, não chamo ninguém de senhor, são todos meus amigos, para o presidente, você. (risos) É presidente... você, assim. Então foi Ernesto Vieira depois, né, depois de Ernesto Vieira, veio Otávio Alves Adegas, advogado também, muito brilhante aqui em Santos, muito bom, maravilhoso. Otávio... nesse tempo era triênio, 3 anos, agora é biênio. Passou a biênio quando veio dr. Miltom Teixeira, em 89. O Otávio foi de 86 a 89, em 89, o Otávio saiu e veio o Miltom Teixeira. Aí fez dois mandatos.
P/2 -  E por que essa mudança, de triênio pra biênio?
R -  Estatutária. Eles acharam... a comissão de estatuto... o nosso Conselho tem três comissões permanentes, que é: Estatuto, que cuida dessa parte, né, dos estatutos do clube, Comissão Fiscal, que analisa logicamente as contas, fiscaliza todas as contas da Diretoria e tal, né, traz pro Conselho, dá parecer a balanços e previsão orçamentárias, esse negócio todo, e tem a Comissão de Inquérito e Sindicância. Essa Comissão de Inquérito e Sindicância é que trabalha com processos que ocorrem contra conselheiros e associados. E trabalhei muito com a Comissão de Inquérito, muitas... exaustivamente, nossa. Na gestão do Dr. Edmon Atique, bom não cheguei ainda lá, quando eu chegar te digo. Depois do Milton Teixeira, ele foi reeleito, então foi dois mandatos consecutivos, 4 anos, biênio, né? Aí veio o Dr. Edmon, que hoje é secretário da saúde, né, aqui em Santos. O Dr. Edmon Atique também fez dois mandatos, 4 anos, excelente presidente também. E com todos eles foram fazendo as reformas, cada um fazia uma coisa, certo, um pouquinho, veio abriu essa sala, eu estava sonhando com essa sala aí ao lado há 18 anos, consegui, né, abri a sala, agora com o presidente Barletta, o Dr. Samir é uma pessoa incrível, né, sempre dá o maior apoio ao Conselho e esse engenheiro que está aí também, Luiz Fernando Pavarela, é uma sumidade. Então consegui abrir essa sala, que vai ser a sala de reuniões, foi com esse presidente Barletta, né. O Dr. Atique também fez muito.
P/2 -  A senhora disse que trabalhou muito na época com essa comissão fiscal, como? Na época do Atique foi isso?
R -  Como, não entendi?
P/2 -  Foi na gestão do Atique, que a senhora trabalhou muito próximo a essa comissão fiscal?
R -  Inquérito e Sindicância. Na gestão do Dr. Atique houve muito processos. O Dr. Paulo José de Azevedo Bonavides, que já foi delegado aqui em Santos, durante muitos anos, uma pessoa muito conhecida, assim, uma ilustre figura, tanto que é o presidente da Academia Santista de Letras, atualmente, né, ele é um crânio. Ele é o presidente da Comissão de Inquérito e Sindicância, ainda é, passa o mandato e ele é reeleito, ele é excelente, ele e os membros dele, logicamente, né, porque a Comissão é constituída de seis membros, três titulares e três suplentes, mas todos participam, os seis membros. E houve muitos processos, e nós ficávamos, assim, a noite aqui, porque eu fazia a escrivã, né, no computador tomando depoimento. A medida que eles iam fazendo depoimento, e eu ia digitando, né? Então a Comissão trabalhou muito, durante a gestão do Dr. Atique, teve muitos processos.
P/2 -  E esses processos eram de que natureza?
R -  Olha, processos é de natureza às vezes, assim, inofensivas, sabe, quando uma pessoa ofende outra e a outra se queixa e aí escreve pro Conselho, e nós temos que averiguar os fatos. E o queixoso faz o rol das testemunhas e a gente convoca para ouvir, e também para viagens ao exterior, dos processos, né, de viagens para o exterior, prestação de contas, viagens de excursões. Excursões ao Japão, excursão... Alemanha, teve processos assim também, de ordem, assim, profissional, vamos dizer assim, excursões do time, né? E também fizemos processos de ordem, assim, ofensivas, por exemplo, pessoas que se sente ofendida e escreve para o presidente do Conselho, o presidente em, logicamente, se tratando de conselheiros, logicamente, quando é conselheiro que você pode, então, logicamente abrir um processo e chamar os depoentes, né? E nós trabalhávamos aí à noite, às vezes ficávamos até 11 horas, meia noite, nós ficávamos... a comissão de inquérito trabalhou bastante na gestão do Dr. Atique. Trabalhei em todas, mas, mais na gestão do Dr. Atique, houve muitos processos. Agora, está mais calmo, por enquanto, né, está mais calmo, tudo em paz, tá correndo tudo em paz, tudo tranqüilo. Graças a Deus o clube está uma harmonia, e, principalmente harmonia de poderes. Porque aqui, houve época, quando eu entrei, que não havia muita harmonia de poderes, assim, entrava em choque o Legislativo com o Executivo, entende? Agora não, agora há uma harmonia total porque o presidente da Diretoria dá o maior apoio para o presidente do Conselho, e é uma amizade, assim, sincera mesmo, sabe, posso dizer pra você sinceramente, uma amizade sincera, não há falsidade de nenhuma parte, os dois, assim, são amicíssimos e um apoia o outro. O Legislativo apoia a Diretoria, logicamente, se tiver alguma coisa, mas não houve nada, né, até agora. E a Diretoria, tudo que o Conselho solicita, ela atende, então é uma harmonia de poderes, isso é muito, muito interessante.
P/2 -  A senhora diria que essa harmonia de poderes ajuda o clube?
R -  Mas é claro.
P/2 -  Como?
R -  Não, ajuda, porque sabe o que acontece? Fica o ambiente... quando não há harmonia de poderes, quando os poderes se chocam, entende, que já houve, eu não vou citar nomes, lógico, que logicamente é anti ético, mas, eu vi há muitos anos passados que, aqui entrava em choque, o Executivo entrava em choque com o Conselho, e vice-versa, então cria um ambiente, entende, ruim, quer dizer pra convivência, a convivência fica péssima, e eu ficava no meio, porque o presidente da Diretoria solicitava uma coisa aqui, e o Conselho não deixava atender. Agora veja, se eu não tivesse jogo de cintura, quer dizer eles pagam o salário pra Diretoria, né, então, eu tive que ter jogo de cintura pra contornar a situação. Eu atendi sem que o outro soubesse, porque, fazendo a coisa assim, com diplomacia, né, e inteligentemente, modéstia à parte, e com jogo de cintura como se diz na gíria, porque senão é impossível, mas agora, há muito tempo que não existe isso, graças a Deus, há muito tempo, muitos anos, há muitos anos que foi isso, foi só no começo em que eu entrei aqui, que houve choque, agora com essa harmonia de poderes, como eu já tive em choque de poderes, eu sei a diferença. E por incrível que pareça, essa é uma coisa, assim, hã...como é que eu posso dizer pra você... quando não... o Legislativo e o Executivo, entende, não entra, assim, quer dizer não há um consenso entre os dois, sem aquela amizade, aquela... chegar a um denominador comum, então o ambiente fica realmente intolerável, não tem condições. Inclusive a imprensa explora, como explorou no passado. Explorou muito brigas de presidente do Conselho e presidente da Diretoria, como exploraram.
P/2 -  A senhora tem algum caso para ilustra pra gente, do uso que a imprensa faz dessas situações?
R -  De choques de poderes que a imprensa explorou?
P/2 -  É que ela tenha...
R -  Não tem, não tem, infelizmente não. Mas o que eu digo pra você, que atualmente, essa Diretoria nesse Conselho realmente... é uma coisa... eu nunca vi tanta harmonia, tanto... assim, sabe, caminhar para a paz, uma paz. A paz, logicamente há uns anos atrás, até Milton Teixeira também, era o filho dele o presidente, quer dizer, maravilha, né? Pai e filho, uma coisa maravilhosa. O Edmon Atique com o presidente também... que era Edmon Atique, Marcelo Teixeira, também foi presidente, depois foi... na Diretoria também teve bastante presidência, né, também nunca houve choque de poderes, digo, logo no começo, quando eu entrei aqui, depois, entende, isso mais ou menos alguns anos, né?
P/2 -  Eu queria fazer uma pergunta pra senhora, agora mudando um pouco de assunto. A senhora chegou em 80 e em 84 o Santos ganhou desse último time do Palmeiras, que não ganhou mais nada até agora.
R -  Ah, realmente, é eu só vi ganhar um campeonato paulista...
P/2 -  Como que foi isso?
R -  78, Ah, tem até um fato pitoresco a esse respeito.
P/2 -  Imagine, mas em 84 ganhou o campeonato paulista, foi o único que eu vi, né, depois eu não tive mais esse prazer... (risos) de título brasileiro, né, porque no exterior ele ganhou. Mesmo aqui torneio Rio-São Paulo. Esse campeonato paulista, foi 84 o último, né? E os troféus desses... são bem parecidos, são praticamente idênticos, né, os troféus 83, 84. Então quando ele ganhou o título em 84, o primeiro secretário na época, infelizmente falecido, Milton Ribo , disse: “Zélia, eu acho que vou levar esse troféu, porque não... pra trazer na volta, nós vamos disputar o Rio- São Paulo, e como se fosse em 84, porque praticamente é igual. Ai eu disse: “Ai meu Deus do céu, e se acontecer alguma coisa com esse troféu?”, eu tenho um luxo com os troféus, né, depois de tantos anos a gente cria amor, até com os troféus, né, (risos) até com os troféus, até com coisas materiais. Então, mas ele disse: “Não, não tem perigo...”, acho que eu fiquei tão assustada com o troféu, (risos) veio num caminhão de bombeiros, né, em 78, mas é, demonstrando isso em 84, porque ele não estava pronto lá o de 84, acho que era isso, eu não lembro. E ele, foi batendo em árvores, bateu no túnel. Minha Virgem Maria, ele chegou aqui, o troféu, uma sanfona. Mas você sabe que eu chorei, chorei, quando eu vi o troféu naquele estado, aí eu falei: “E agora, eu quero esse troféu exatamente como ele saiu daqui.”  (risos) Aí mandamos pra São Paulo pra restaurar. Ficou perfeito, né, foi o que aconteceu, olha que coisa! Porque os troféus eles são praticamente... algumas, lógico, pequenas diferenças, mas você no alto de um caminhão de bombeiros, você não vai distinguir esses pequenos detalhes, não vai distinguir, lógico, então você olha assim e diz: “É o troféu real, é o troféu de 84”.
P/2 -  O Santos comemorou o título de 84, com o de 78? Foi isso?
R -  É o de 78 foi fazer o papel de 84, isso, mas acontece que é muito... você viu a altura? Em cima do caminhão de bombeiros ele foi batendo...
P/2 -  Nesse túnel aqui?
R -  Acho que bateu nesse túnel, bateu nas árvores, quando ele chegou aqui, coitado, virou sanfona, e eu chorei. Chorei realmente porque eu adoro o Santos. O Santos pra mim é a continuação do meu lar.
P/1 -  Isso é interessante, dona Zélia, porque, no começo do nosso papo aqui a senhora disse que nem era santista, não sabia nem onde ficava o Santos.
R -  Não era mesmo, nem... mas você acha que em 20 anos você não pega amor?
P/1 -  Conta como é que foi isso, esse, pegar amor? 
R - É uma vida, né? Não, você sabe que é impressionante... é interessante, porque quando eu... eu fui pegando amor nas pessoas, que trabalhavam, pelos diretores, né, diretores, presidentes e a turminha toda aí, os conselheiros principalmente, né? 300 conselheiros. E os jogadores, naquela época a gente tinha mais amizade com os jogadores, a gente cruzava muito com os jogadores, no elevador. Agora... eles treinavam aqui, e tudo né, agora eles ficam no CT. Eu não conheço nenhum jogador, atual, principalmente. Naquele tempo, Nossa Senhora, olha os jogadores , o Rodolfo Rodrigues, era assim, o Rodolfo eu que recepcionei o Rodolfo e o Giovanni. As duas primeiras pessoas que eles conheceram do Santos, fui eu. Porque o empresário trouxe no Conselho. O Rodolfo foi assim: Trouxeram o Rodolfo, em 84, Milton Teixeira, né, então o empresário dele falou: “Olha Zélia, esse é o novo goleiro do Santos, dá um apoio aí porque ele está quase desmaiando de cansaço, tá morto”. Aí eu liguei o ar condicionado, dei um suco de laranja que eu tinha na geladeira, para o Rodolfo é alto, né, o Rodolfo, comprido, então eu peguei os módulos, juntei os módulos, falei: “Agora você vai tirar uma soneca, vai dormir.” E ele dormiu aqui no Conselho, umas 2 horas, e ele pegou assim, um carinho, não sei... depois sentiu um carinho por mim impressionante, sei lá... recepção que eu fiz com ele e tal, né? Naquele tempo era diferente, dava-se para o jogador, assim... O Marola, nossa, assim o Marola, uma coisa impressionante o Marola, incrível também, foi um goleiro, né? E o Pita, João Paulo, é, o Milton Batata, aquela turminha, sabe, Ah, sei lá viu, tinha... fui pegando amor naquela molecada, viu? Eles eram demais, me beijavam, me abraçavam, e sei lá, fui pegando amor, sabia o nome dos jogadores, na Diretoria, nos conselheiros. Todo dia que... eu trabalhava o dia todo, fazia período integral. Dia todo aqui em Santos, né, não é como agora que eu entro só depois do almoço e fico à noite. A hora que precisar eu fico, né? Mas, eu acho que foi isso. Acho que eu respondi a sua pergunta, né? Nem pensei mais no palmeiras.(risos)
P/2 -  Foi uma troca?
R -  Que coisa, eu virei santista, assim, acho que em 1 mês, 2 meses eu já era santista. Impressionante, tanto que meu neto, bom ele vai ter opção quando ele tiver idade suficiente pra isso, mas ele... uniforminho do Santos, chapeuzinho, você viu ali, né, na foto? 
P/2 -  É dona Zélia, a senhora falou...
P/1 -  Espera um pouquinho só, e o Giovanni? O Giovanni foi agora, recente...
R -  É o Giovanni, foi assim, é interessante. O Tavares trouxe o Giovanni aqui e disse: “Zélia, esse aqui é um rapaz que eu estou trazendo pro Santos...” eu falei: “Nossa, que belo tipo, alto, né... você vai ser goleiro?” “Não, não eu jogo...” não sei que posição, porque eu não entendo muito de futebol, né? Eu disse: “Olha, mas você, não sei... a minha intuição...”, porque eu  modéstia à parte, sou muito intuitiva, e eu acho que é do signo capricorniano, é o decanato, né, e eu disse: “Você vai ser... acho que você vai ser um jogador famoso.” Aí ele sentou, assim pertinho da mesa no móvel, de cabecinha baixa, “Ah, obrigado.” Eu disse: “Levanta a cabeça, como é teu nome?”  “Giovanni.” “Giovanni, levanta a cabeça, você vai ser jogador famoso!” Tímido, mas tímido, impressionante. Eu disse: “Olha, eu vou te dar um beijo de boa sorte.” Dei um beijo nele, né, de boa sorte pra ele. E falei assim: “Tudo indica, não sei, uma coisa dentro de mim, que diz que você vai ser famoso!” Aí o Tavares falou: “Deus te ouça”, aí ele falou assim: “Muito obrigado, muito obrigado.” De cabecinha baixa, que coisa, né?
P/2 -  E aí?
R -  Aí, meu velho, o sucesso virou a cabeça, ele passava por mim... não me conhecia.
P/1 -  Ah é, teve isso? Essa mudança?
R -  O sucesso, infelizmente... engraçado, não sei como é que pode  acontecer, não digo a maioria das pessoas, mas uma grande parte das pessoas, o sucesso sobe à cabeça, né? E eu, realmente, como estou acostumada, estou acostumada com a política aqui de clube de futebol, depois de 20 anos, né, mas eu achei estranho, que puxa, eu, né, dei tanto incentivo pra ele e tudo, não era pra ele... pelo menos dizer: “Oi, tudo bem?” Só isso seria o suficiente. Não só a mim, imprensa, a imprensa também.
P/1 -  O que eu gostaria de perguntar e o Walmir foi muito feliz em lembrar do Giovanni porque calha bem o que eu queria perguntar anteriormente. A senhora falou que recepcionou tanto o Rodolfo Rodrigues quanto o Giovanni, imagino que outros jogadores também. Como que é essa relação do jogador com o Conselho? Como é que se faz, como é que se dá o processo de contratação de um jogador?
R -  O Conselho não. O Conselho não tem nada a ver com contratação. Esse é um ato único e exclusivo da Diretoria, a contratação de jogadores. O jogador, praticamente não tem relação nenhuma com o Conselho. A não ser, um caso... não me lembro no momento, mas acho que nunca houve, mas pode acontecer, se ele pode levar ao conhecimento, se acontecer alguma coisa que ele queira que seja investigada, mas nunca houve. Quer dizer, relacionamento jogador/Conselho, não existe é jogador/Diretoria. Entendeu? É isso aí. Agora, recepção, assim de ir ao Conselho, foram só esses dois, os outros, eu, assim, sabe como é que é, aquela amizade... olha, tanto o João Paulo... João Paulo, encontro sempre ali perto da minha casa e o como é que chama... o João Paulo, Pita não vi mais. Ah, e aquele que outro dia eu nem reconheci, porque ele está tão diferente, engordou, eu gostava muito dele também, aquele bonitão, como é o nome dele meu Deus do céu, é tanto jogador que passou, né,  e de todos os jogadores que já passaram. (riso) Ai você sabe que eu não... o Toninho Carlos também, tinha muita amizade, você se lembra dele?
P/1 -  Não.
R -  Eucássio, não.
P/1 -  Eu sou sãopaulino, né?
R -  Não esse aí realmente, não lembro o nome.
P/1 -  Não tem importância.
R -  Sei que eu encontro de vez em quando, da minha... daquela época, que a gente tinha mais amizades com os jogadores, tinha mais oportunidades de conhecer, técnicos principalmente, também técnicos.
P/1 -  Técnicos. Que técnicos que a senhora teve mais contato, assim, teve alguma passagem, Serginho Chulapa?
R -  Ah, um encanto. (risos) Sérgio até hoje quando ele me vê ele me agarra, me beija... (risos) Mas olha, uma pessoa assim... temperamento extrovertido, né, assim, bacana, legal pra caramba, viu. Serginho é um encanto. Sérgio, Formiga...técnicos, né? Ai meu Deus, foram tantos que eu não lembro... Vamos falar os últimos, né? Luxemburgo, né? O Leão, por incrível que pareça eu não conheço ele pessoalmente. Eu não tenho a oportunidade de ir ao CT, né, e ele não vem ao Conselho.
P/2 -  Como a senhora vê esse distanciamento, agora com o time passando a treinar no CT, como que a senhora vê esse distanciamento dos jogadores com os funcionários do clube? Isso é uma coisa benéfica, prejudicial de alguma maneira... eu queria que a senhora desse uma opinião, que falasse um pouco disso?
R -  Olha, eu não sei se beneficia o estado emocional, ou psicológico do jogador ter um relacionamento com funcionários... pra eles eu acho não quer dizer nada. Eu acho que eles tem mais que se preocupar com a torcida, não é. Eu não acho que a amizade entre o funcionário e o jogador, possa, entende, possa assim valorizá-lo... alguma coisa, ou beneficiar em alguma coisa, eu não acho. Naquele tempo era diferente porque nós convivíamos aqui, treinavam aqui, vinham muito aqui, então nós... essa convivência, esse encontro no elevador, principalmente no elevador, não é, ou pela escada, ou lá em cima no segundo andar, quando eu ia à Diretoria, eu ia muito à Diretoria naquele tempo, então eu dava de encontro ao o jogador, então era diferente, né, mas, agora não acho que influa, não acho que tenha influência, eu acho que mais é com a torcida. Eu gosto quando eles saem e está lá todo mundo, esperando, pedindo autógrafo... isso pra eles deve ser gratificante, né? Agora com os funcionários em si, olha no momento, acho que não há assim, muito relacionamento funcionário com jogador talvez com quem... com aqueles funcionários que tem mais contato com eles, né, contrato, por exemplo Departamento de Futebol Profissional, não é, a Darcy, lá, secretária da Diretoria que tem contato com eles, com os jogadores, Tesouraria, né, onde eles recebem os salários. Agora, os outros departamentos e o Conselho principalmente, eles quase não vinham aqui, o Pelé vinha muito aqui no Conselho, mas agora faz tempo que não vem, sempre tirava fotografia aqui, né, e era muito carinhoso também comigo, assim, nós tínhamos muita amizade, depois ele... faz tempo que eu não vejo, passou a ministro, ficou muito ocupado, se afastou do Santos, né? Mas ele é uma pessoa muito bacana, não tenho queixa.
P/2 - E agora, voltando a falar um pouco da senhora. A senhora já recebeu homenagens aqui?
R -  Já, muitas. Recebi muitas homenagens, principalmente em reuniões, nossa eles falam... as atas aí... (risos). Graças a Deus, o que eu acho gratificante mesmo, realmente, é que eu me dou, me dou realmente, eu trabalho, se precisar de mim até meia noite, 1 hora, eu fico. Eu trabalho na Assembléia, das oito da manhã... a Assembléia Geral, votação do Conselho, eu trabalho das oito da manhã às oito da noite, entendeu,  paro só uns 20 minutos para almoçar, trabalho com a maior boa vontade, porque eu amo isso aqui, entende? Agora, me perdi... eu estava falando sobre? Ah sim,  essas homenagens, então tudo isso que eu faço, faço com amor, sem ter obrigação, mesmo eu estando ganhando pra isso, mas há pessoas mecanicamente, automaticamente, eu não, eu trabalho com amor, e todo o meu trabalho... meu trabalho é como diz as mesas do Conselho, dizem que tem carinho, tudo que eu faço é com carinho. Então, as pessoas, os presidentes e os conselheiros, me elogiam muito durante a reunião... eles me elogiam muito sempre trazem ramalhete de flores, né, você viu aquela foto que está ali? Foi uma homenagem do primeiro secretário do Conselho, na gestão do Edmon Atique, deve ter sido no ano de 95,96 por aí, é deve ter sido  há uns 3 anos, 4 anos, e ele então, eles estavam lá... acho que foi a eleição da Diretoria, foi a eleição do Samir, parece-me, eleição da primeira do Samir, porque ele está no segundo mandato. Aí ele disse: “Não, eu queria prestar... depois de tudo que já se disse sobre ela...”, que o presidente já tinha me elogiado, o presidente do Conselho..., “Mas eu quero prestar uma homenagem...”, e ele escondeu o urso, né, atrás, assim, e eu não estava nem aí, “Uma homenagem a essa ilustre figura, aqui, que todo mundo conhece, todo mundo ama, né, e que...”, como é que ele disse, ele disse de uma maneira tão engraçada, ele disse assim: “Ah, porque ela é a razão de viver do Conselho Deliberativo do Santos Futebol Clube.”(risos) Eu achei interessante, a simplicidade das palavras, mas, o que ele colocou nelas, né, o sentimento que ele colocou. Eu era a razão de viver do Conselho. Eu achei aquilo tão lindo, não? Você não acha lindo falar uma coisa dessa? Eu estou chamando e eu estava aqui dentro escutando: êh , uma bagunça, né, “quem é?” (risos) todo mundo, aquela intimidade, né? “Vem aqui menina, estamos chamando você” Eu chego lá. “Vem aqui” , aí ele: “O urso”, você viu, né? “Esse urso é uma homenagem do Santos, né, esse peixe aqui um urso branco, branco e preto e tal, está na foto ali, e aí me abraçam, me beijam, e aí os conselheiros. (risos) Tinha mais de... quase 300 homens aplaudindo... isso é gratificante, então, você trabalha realmente com amor, com carinho. Por quê? Porque você é recompensada. Porque às vezes você se dá, você se mata, a pessoa não reconhece, não é verdade?
P/2 -  É verdade, agora, eu queria fazer... a senhora disse que são quase 300 conselheiros, tem alguma mulher?
R -  Olha, não tem, não há nada que impeça uma mulher de se candidatar, entende, ao cargo de conselheiro, mas tivemos uma vez, mas acho que ela sentiu-se tão assim, não sei, meio deslocada, meio fora do ar... (riso), tivemos uma vez conselheira, mas ela não conseguiu se adaptar, não conseguiu. Ela trabalhava até, na prefeitura, entende, isso é um... acho que foi há 10 anos atrás. Não deu certo, ela não conseguiu se adaptar, e pediu demissão. Única vez que teve conselheira nesses últimos 20 anos. Eu acho que foi a única vez que teve conselheira, que nunca houve. Não é, porque elas ficam, assim, um pouco tímidas, né?
P/2 -  É diferente.
R -  Quase 300 homens. Eu não, né, porque eu estou trabalhando, pra mim eles são como meus pais, meus tios, assim, irmãos.
P/1 -  A senhora disse, que nada impede de... Vai acabar a fita acho que vai ter que...
R -  Acabou? (PAUSA)
P/1 -  Vamos lá? Então, a senhora estava dizendo que diz os estatutos do clube, nada impede que uma mulher se candidate, que não faz qualquer tipo de restrição a sexo, então, aproveitando esse...
R -  Exatamente.
P/2 -  ... Aliás, eu gostaria de dizer o seguinte: que segundo o Devanei, cronista esportivo aqui da cidade de Santos, ganhou vários prêmios, tudo, o Santos foi o primeiro clube, pelo menos no Brasil, a admitir associadas, mulheres, porque as mulheres não eram nem permitidas, a associação de mulheres.
R -  Eu não sabia, desconhecia esse papo.
P/2 -  Parece que foi em 1917. Ainda naquela época ele abre as portas à associação de mulheres, e começa a ter assim muitas mulheres se associando ao clube, que eram só homens que se associavam, então...
P/1 -  Então, a senhora disse que nada impede, e também mencionou que nada impede de se candidatar ao Conselho, então eu gostaria que a senhora explicasse um pouco mais do funcionamento do Conselho, como é que são escolhidos os conselheiros? Quem pode se candidatar? Como funciona o Conselho enfim?
R -  Bom, o Conselho, você deve saber, o Conselho Deliberativo, é órgão soberano do clube, mandatário em suas decisões, quer dizer, é a autoridade maior do clube, o Conselho, órgão Legislativo, não é? Não é que ele fica fiscalizando os atos da Diretoria, não é isso, logicamente tudo que a Diretoria... tem que passar pelo crivo do Conselho, todos né, não compra e venda de jogadores que isso é atitude do presidente do clube. Mas, em muitos casos de, por exemplo, para vender um patrimônio, terá que passar pelo Conselho. Os conselheiros, é o plenário, o plenário é soberano, ele que decide, entendeu, o balanço, a previsão orçamentária, você vai... no ano seguinte, o balanço geral do ano que passou, e então quer dizer que o Conselho, é que julga, é que toma decisão, que aprova ou não, né? Então a Comissão Fiscal dá o parecer, uma comissão que é eleita pelo Conselho, né? Para ser conselheiro, tem que ser maior que 21 anos, não de sexo, mas, como eu já disse antes, só houve uma vez uma conselheira, uma candidata a conselheira. Tem que ter 5 anos no quadro associativo, ininterrupto, maior de 21 anos, brasileiro, pode se candidatar, por exemplo: agora no fim do ano já vai ter eleição, entendeu, pro Conselho, né? Geralmente tem uma reformulação, uma mudança,  a não ser os efetivos, os efetivos são aqueles natos efetivos, nós temos:  sete natos, né, uma parte de efetivos tem que ter no mínimo metade do Conselho pelo menos tem que ser constituído por sócios eleitos. E os efetivos são aqueles que já cumpriram cinco mandatos consecutivos, ou 10 anos ininterruptos, no caso que era triênio, então a gente pôs assim, foi colocado no estatuto assim. Então pode se candidatar, normalmente começa-se em agosto, já começa a formação de chapas.

P/1 -  Certo. São chapas então que se formam?
R -  É, hã... às vezes são duas, né, chapas que concorrem e às vezes é uma só. Sendo chapa única, mas assim mesmo tem que ter votação, é obrigado... é obrigatória a votação, dentro da assembléia, mesmo sendo uma chapa tem que ter votação. É estatutário, né, se forem duas chapas, então serão numeradas, né, um... chapa um e chapa dois. Normalmente o presidente dessa chapa vai ser fulano, presidente da outra é... para o associado... quem vota pro Conselho é o associado, agora quem vota pra Diretoria, em janeiro, vai ser janeiro de 2000, aí sim, aí é o Conselho é que elege, o presidente da Diretoria, o vice-presidente da Diretoria e as três comissões permanentes do Conselho, que é: Estatuto, Inquérito e Sindicância e Fiscal, então é o Conselho que elege, juntamente com o presidente e o vice da Diretoria são as três comissões. Em dezembro, após a assembléia, 10 dias após a assembléia, nós fazemos a reunião pra mesa do conselho, às vezes tem duas, então há votação... escrutínio secreto, coloco as urnas, faço a listagem em ordem alfabética, distribuo aos conselheiros, né, em filas e aí eles votam naquela mesa, que eles logicamente escolheram, fazem uma opção, mas na última eleição foi só uma chapa, mas já houve casos de duas chapas, tanto que, uma vez ocorreu um caso muito... que pra mim foi uma correria, porque, eu pedi até que se mudasse o estatuto, porque no...diz assim: a eleição para os membros dos integrantes da mesa, pode ser feito até na hora do item. Então, o conselheiro chegou trazendo a chapa assim, na hora do item. Então, quer dizer que aí eu tive que correr e parar a reunião, pra fazer as urnas, arrumar as urnas, agora não, agora eu deixo tudo pronto, deixo... não custa nada, de repente aparece um candidato pra mesa do conselho. Agora, chapa de conselheiros, às vezes há duas  né, às vezes é uma só, depende, aí o coordenador... então é assim: é formada uma comissão, não é, o coordenador da chapa forma uma comissão de 10, 12 pessoas, e aí eles formam a chapa, os efetivos, são natos efetivos são aqueles que permanecem. E os eleitos, aí eles vão vendo, né, eles escolhem tal, mudam, muda algum, então eles escolhem e tem mais 50 suplentes, que vão substituindo aqueles que vão... porque é estatutária, morte, muita coisa, né, demissão. Então tem 50 conselheiros suplentes, também, são 350 ao todo.
P/2 -  E a senhora falou em mudar os estatutos, como é o processo de mudança de estatutos, é uma coisa simples, é uma coisa complicada, dá briga?
R -  Não, briga não, discussões, assim, construtivas, né, briga não... não há briga. A comissão do estatuto realmente, é uma árdua tarefa, né, mudar os estatutos. Já foi mudado desde que eu estou aqui, eu acho que já houve umas três mudanças. Não muda tanto também, não é, agora eles vão fazer adaptação à Lei Pelé. Tem que adaptar à Lei Pelé, clube-empresa, né? Então a comissão do estatuto vai trabalhar mesmo, trabalhar bastante. Porque tem que fazer a adaptação, né, o estatuto é Lei Pelé, aí não sei... aí realmente a comissão vai ter trabalho mesmo. Essa comissão de estatuto é o Sr. Ernesto Viera da Silva que é o presidente.
P/2 -  Certo. E como os conselheiros estão vendo a Lei Pelé, essa mudança, assim, estão favoráveis?
R - Olha, eu realmente não posso opinar muito, porque eu não entendo muito não, sabe? Sei que o clube vai se transformar em uma empresa, né? Agora eu não sei se vai ser benéfico ou não, porque eu realmente eu não sei que vantagem que vai trazer, que desvantagem. Eu não vou opinar num terreno que não é meu, numa área que não é minha, né, mas pode ser até que seja interessante, né?
P/1 -  Mas e os conselheiros, os conselheiros estão...
R -  Não, eles ainda não se manifestaram quanto a isso. Não houve manifestação, falou-se, né, que a comissão ia fazer esse trabalho, modificar os estatutos, adaptando-os a Lei Pelé. Mas ainda não houve discussão sobre isso, né, não entrou, assim, em pauta. Mas quando entrar, logicamente, que há muitas controvérsias, né, e muitas opiniões, sabe, polêmicas. Uns concordam outros não, né? Então quer dizer...
P/2 -  Como todo debate político.
R -  Não é? Lógico, não há uma concordância geral, tem um que vai lá no microfone, e fala, e as atas que eu faço, né? As atas que eu faço, é conselheiro que fala que eu vou te contar. (risos) E vai um, e vai outro, e vai um, e vai outro. Mas olha, realmente a tese sobre isso foi interessante porque um conselheiro aí que as atas nunca foram tão bem feitas, porque eu realmente eu faço uma ata  circunstanciadas, não faço ata resumida. Quando você vê a ata, logicamente, claro que eu não vou falar... não vou colocar tudo que o conselheiro... teria que ser repetitivo, se repete, então eu coloco a essência do que ele diz... mas não tiro, entende, o sentido eu coloco. Então as atas são bem circunstanciadas, as atas, né? Então há discussões, há discussões paralelas às vezes e tal, mas tudo se transforma na maior harmonia. Se transforma na maior harmonia. O Conselho é muito unido, sabe, e respeita muito a mesa e o presidente aqui... aliás todos os presidentes foram, realmente, bons assim, todos conduziram muito bem as reuniões. Olha, não tenho queixa, todos os presidentes pra mim... desde Esmeraldo Tarqüinio... todos EsmeraldoTarqüinio, Vicente Cassione, Florival Barletta, Ernesto Vieira, Otávio Adegas, Miltom Teixeira, Edmon Atique, agora o Florival Barletta,  Florival Amaro Barletta, que é filho do... não é? Todos, olha, sem exceção, todos souberam conduzir bem a reunião, não houve queixas, ótimos presidentes, ótimos. E os da Diretoria, também, excelentes.
P/2 -  Agora eu vou fazer uma pergunta. A senhora fica aqui na sala do Conselho, os troféus estão aqui. Tem alguma passagem curiosa, assim, com relação aos troféus, que estão aqui na sala do Conselho, atualmente, que vão vir a ficar no Museu do Santos, ou onde quer que seja?

R -  Passagem curiosa? Teve uma passagem, assim, medrosa. É, realmente eu tinha um troféu, aliás eu não sei se vocês conhecem, que eu não tenho ouro aqui, que eu não quero ser assassinada, né, por causa de ouro... de troféu, então... se bem que agora está bem controlado, tem uma portaria, mas, isso aí é coisa de que... talvez 5 anos que tem essa portaria, por aí. Mas durante todo esse tempo... eu pedi pra colocar o portão de ferro, aí todo mundo gostou e colocou lá pra cima, né, porque... foi depois que aconteceu esse negócio com o rapaz. Era completamente aberto, tudo aberto, então as pessoas chegavam e ia subindo a escada, não tinha portaria nenhuma, não tinha nada, subia direto. E eu notei que tinha um rapaz, que todo dia vinha aquele horário e ficava em frente do Troféu Itália. Como Troféu Itália? É mármore de carrara, letras e placas de ouro, eu colocava ele atrás, escondido com bastante troféu na frente, mas o ladrão conhece ouro, até escondido, né. E esse moço vinha todo dia, ficava aqui, todo dia, até que... e eu trabalhava sozinha, não tinha secretária naquele tempo. Trabalhei muito tempo sozinha, fazendo tudo, aí o rapaz... eu, sabe quando mexe naquela, fechadurinha ali, sabe quando você abre e faz tec. Aí eu saí e ele estava tentando abrir a vitrine, eu falei... Ah, eu estou sem coragem, na hora, né, não tem coragem... “O que você está mexendo aqui, não pode mexer na vitrine não, o senhor pode olhas os troféus, mas por favor, não mexa na vitrine.” Aí ele ficou meio assim, né, e aí o que teve, eu falei pro presidente, liguei pra ele e falei: “Eu vou fazer uma comunicação interna.” e pedi pra tirar esse troféu daqui, e guardar no cofre, porque eu não vou ficar... tem um rapaz que vem todo dia, fica olhando esse troféu e hoje tentou arrombar, o Troféu Itália. Aí eu fiz uma comunicação e mandei lá pra cima, né? Agora... porque a Bola de Ouro tá, né, também lá, são os dois troféus de ouro. São só os dois de ouro, não tem mais nada.
P/2 -  Qual é a história dessa Bola de Ouro?
R -  A história da Bola de Ouro, pelo menos foi o que os conselheiros me contaram, né, (risos) disse que ia ter o campeonato paulista. A maioria das pessoas pensa que a Bola de Ouro é o troféu do Bi, né, troféu mundial. Não é nada disso. Troféu do Bi, é aquela réplica que eu mandei fazer, porque posse transitória, então eu peguei uma foto e baseei para fazer o troféu. Agora, a de Bola de Ouro era um campeonato paulista, agora eu não sei, não lembro o ano, isso eu não lembro, né, não sei, não era do meu tempo, acho que de 56, não sei, parece-me que é cinqüenta e pouco. E ia jogar o primeiro jogo para decidir, quem ia ser campeão paulista. Ia jogar o Santos e o Palmeiras, então, tinha uns italianos chamados Irmãos Dori... “Ah, porque o Palmeiras vai ser campeão, o palmeiras...”, então, eles mandaram fazer uma bola de ouro pra dar pro Palmeiras, porque o Palmeiras ia ser campeão. Eles certos de que o Palmeiras ia ser o campeão paulista do ano. Aí o Santos foi o campeão, não teve jeito, a Bola de Ouro teve que ir para o Santos. Ah, mas isso foi uma beleza, não foi, quer dizer, você já pensou a cara dos italianos. 
P/2 -  E a senhora enquanto ex palmeirense? (risos)
R -  Não adianta, agora nem... você sabe que por incrível que pareça... eu não tenho nada contra o Palmeiras até, eu não gosto do Corinthians, né, (risos) ai meu Deus, o Corinthians... o Corinthians é nosso arqui inimigo, não é?
P/1 -  Maior torcida brasileira, né, a anti corintiana.
R -  São Paulo também, corintiano às vezes vem aí, eu até brinco, né, “corintiano aqui não entra”, brinco, brincadeira, né, mas eu não gosto mesmo do Corinthians, não gosto mesmo. Agora, é impressionante, a minha mudança de opinião a respeito de um time, né, como eu me apaixonei pelo Santos, né? Acho que é o tempo...
P/2 -  Sinal, que se envolveu.
R -  Eu me envolvi, me envolvi muito, tinha muita amizade com as pessoas, e eu fui me envolvendo, me envolvendo, fui pegando amor, e como eu já disse antes, aqui pra mim é continuação da minha casa. Porque eu passo a maior parte... né, eu chego aqui por volta, entre uma e meia e 2 horas, às vezes até 1 hora, e fico até a hora que eles precisarem. Reunião do Conselho, fico até meia noite. E quando tem processos, nós trabalhamos à noite depois das 8 horas, porque daí fica tranqüilo e os depoentes só podem vir prestar seu depoimento depois de sair do trabalho, né, então a gente tem que aguardar, a gente trabalha à noite. Mas, eu... tudo o que eu faço eu gosto, é interessante porque, até º. conhece o Celso Correia? Ele tem uma coluna na Tribuna, escreve na...como é que chama a coluna dele... (PAUSA) é uma coluna que... eu sou a maior fã do Celso Correia, agora me escapou, e ele escreve... e ele... eu disse pra ele, né... eu sempre falo no telefone com ele, ele é um amor de pessoa, sabe, uma fofoquinha do Santos, né, na coluna dele, é um espetáculo, e eu disse pra ele que quando eu me aposentar, aliás, eu já me aposentei e continuo, quando eu parar de trabalhar, eu vou escrever um livro, memórias, sobre esses 20 anos, ou mais, né, espero que seja mais, porque eu não pretendo sair, meu tempo no Santos Futebol Clube, então ele escreveu assim: Zélia, secretária do Conselho do Santos, após se aposentar, pretende escrever um livro de memórias sobre todos esses anos que esteve a frente do órgão legislativo do clube, certamente terá muita coisa que contar. (risos) Bonitinho, né, escreveu na Tribuna, na coluna dele lá, ele é ótimo.
P/1 -  Ele não está errado. (risos)
R -  É eu pretendo sim, porque eu sempre gostei muito de escrever, entende, e quando eu parar de trabalhar, fazer o quê, né, eu vou escrever, vou escrever um livro de memórias, não precisa ser publicado, só pra minha satisfação, (risos) né, para os meus netos,  meus filhos, deixar uma lembrança aqui para os meus filhos, meus netos... (risos). Nada desabonador, porque eu não tenho absolutamente nada contra ninguém, você sabe que eu nunca briguei com uma pessoa aqui do Santos, nunca, durante 20 anos, nem com colega, nem com diretor, nem com mesa do conselho, nunca briguei... eu não brigo, meu temperamento, sabe como é que é, né, carinhoso... sou carinhosa, logicamente quando eu não gosto de alguma coisa eu falo, né? Também eu não, sou... como se diz, quando a pessoa faz: pisa, pisa, pisa... não tenho sangue de barata, né, que eles falam, sangue de barata não tenho porque sou italiana. Então, mas eu falo, falo educadamente, com diplomacia para não ferir, e aí a pessoa entende, aos gritos que não se resolve nada, né, então você fala, assim, com jeitinho, o jeitinho brasileiro, né? Eu gosto muito daqui, gosto mesmo, só vou parar de trabalhar mesmo quando eu não tiver mais saúde, né, mas espero que ainda Deus me dê muita saúde pra continuar.
P/2 -  Esperamos.
R -  Mais alguma pergunta interessante?
P/2 -  Não, eu queria fazer uma última pergunta, então pra finalizar. Como que a senhora está se sentindo aqui, sendo entrevistada pela equipe de pesquisadores, então...
R -  Bom, vocês são maravilhosos, né, vocês são uns encantos, uns gatinhos, lindos de morrer. É tão interessante não, ser entrevistada por gente bonita. (risos) Vocês são uns amores, eu conheci, Você eu conheço há uns meses, né, Walmir. Agora você?
P/1 -  Fábio.
R -  Fábio, então, tive o prazer em te conhecer, hoje, mas já gostei de você imediatamente. Foi uma simpatia imediata por ele. Eu gostei muito da entrevista, eu acho que valeu a pena, vocês conheceram um pouco de mim, conheceram um pouco do Conselho do Santos, né, e sempre é interessante a gente às vezes... não tem idéia de como funciona uma coisa, esclarece, esclarece um pouco as pessoas, então quer dizer que, foi muito boa... adorei, agradeço a deferência, né, de vocês me escolherem, de ser entrevistada, não mereço tanto. (risos) Então, realmente eu agradeço, e foi uma gentileza e uma atenção, fora do comum, gostei bastante. Muito obrigada mesmo pela atenção.
P/1 -  Imagine, nós é que agradecemos demais, nós é que agradecemos. (risos)
R -  Tá bom.

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