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História

A saga de uma mãe pela cura para o filho

História de: Ana Cristina de Oliveira Lino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2004

Sinopse

Ana nasceu em 24 de dezembro de 1974 em Gama, DF. Atualmente mora na cidade de Uberlândia. Em um projeto dedicado aos 25 anos do InCor (Instituto do Coração), nos conta um pouco sobre como foi a descoberta de que seu filho, Lucas, nasceu com um tipo de sopro e seu tratamento, urgente, só conseguiria ser realizado em São Paulo. Ana fala de sua saga para encontrar lugar aqui e sobre sua experiência de mãe em um hospital, rodeada por sofrimento e longe de casa. Traz também sobre como o Serviço de Psicologia Hospitalar, os médicos do InCor e a ajuda do SEPACO a ajudaram a lidar com toda essa situação e a harmonizar a relação com seu filho.

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História completa

P/1 – Por favor, seu nome completo, data de nascimento e local de nascimento.

 

R – Meu nome é Ana Cristina de Oliveira Lino, tenho 24 anos, nasci em 24 de dezembro de 1974, em Brasília.

 

P/1 – Local de nascimento, onde você nasceu?

 

R – Nasci em Brasília.

 

P/1 - Brasília. Brasília mesmo?

 

R - É Gama, Gama, DF, que é um município de Brasília.

 

P/1 - E seus pais o que eles faziam? Fazem? O nome deles?

 

R – O nome da minha mãe é Maria José de Oliveira Lima, minha mãe é do lar, sempre ficou em casa. Meu pai mexe em obras. Sempre mexeu com obras. Tanto em Brasília como pra Minas.

 

P/1 – Você sabe a origem da sua família, de onde ela veio, seus avós, como é que surgiu assim? Da parte materna, parte paterna...?

 

R – Olha, minha mãe, o que ela fala é que ela teve uma avó que veio da época dos escravos ainda, que no caso era minha bisavó, que ela lembra de ela falar pra ela também. O que eu sei dela é só isso, assim, às vezes que ela comenta. O meu pai eu não sei bem a origem dele não. É Fortaleza, Ceará, a gente nunca foi lá passear, pra conhecer essas...

 

P/1 – Vocês nunca foram? Sabe se tem família?

 

R – Tem, tem família. Minha avó ainda mora lá. Meu avô morreu há pouco tempo, mas minha avó ainda mora lá.

 

P/1 – E você nasceu em Brasília e se criou lá, até que idade?

 

R – Até sete anos só que eu fiquei em Brasília. Depois, fui lá pra Minas, quer dizer que eu sou mais mineira, que tem bastante tempo que eu moro em Minas.

 

P/1 – Em Minas. E em Brasília você tem alguma lembrança assim de infância, como é que era brincar por lá...?

 

R – Tenho.

 

P/1 – ...O quê que você fazia por lá? Você lembra disso?

 

R – Lembro, lembro. Que estudava até no Jardim, costumava fugir porque eu não gostava de estudar, chorava, criança tem essas coisas. Minha mãe sempre levava e depois ela acabou me tirando. Enfim, me lembro que era uma casona grande...

 

P/1 – Você lembra da casa? Como é que ela era?

 

R – Lembro. Era bem espaçosa, tinha até uns barraquinhos assim. Minha mãe alugava para o pessoal, a gente brincava muito com os meninos que moravam lá também... Essa casa... Eles falavam que era um pouco mal assombrada.  Não sei se era. Não sei se era assim. Mas a gente sempre acredita. Menino fantasia muito. Eu gostava muito de morar lá. Tinha bastante amiguinho, gostava bastante de morar nessa casa. E foi a única casa que eu tenho lembrança, pois logo a gente mudou pra Minas. E essa casa era nossa mesmo. Mas logo vendeu e a gente foi embora morar em Minas Gerais.

 

P/1 – E você foi pra Minas por quê?

 

R – Porque faltou emprego para o meu pai lá em Brasília e ele conseguiu arrumar em Minas. Foi e ficou lá um tempo e depois levou a família. Alugou a casa e a gente foi morar em Minas.

 

P/1 – E como é que foi? Você lembra como estava chegando? Foi para Uberlândia que vocês foram?

 

R – Não, eu fui para o Prata. Depois é que fui para Uberlândia.

 

P/1 – E você lembra como foi essa mudança?

 

R – Lembro, sim, é um impacto, né? Porque você está acostumada num lugar e de repente você chega no outro, mas logo a gente já se adaptou. Eu gostei muito de morar lá no Prata, uma cidadezinha  pequena, todo o mundo se conhece, é muito bom morar lá. Eu fiquei lá até a idade de 12 anos.

 

P/1 – Até os 12 anos?

 

R – Até os 12 anos. Depois que eu fui para Uberlândia.

 

P/1 – Você estudou lá?

 

R – Estudei.

 

P/1 – Em Prata e em Brasília? Você começou estudando em Brasília...

 

R – É. Comecei fazendo o pré e a primeira série em Brasília. Depois, logo fui para o Prata e quando cheguei lá eu fiz até a sexta série. Logo eu já fui para Uberlândia.

 

P/1 – Para Uberlândia? E Uberlândia, como é que é? Como é que é a cidade?

 

R – Ah, eu gosto muito de Uberlândia. Uberlândia é muito pacata. Em vista daqui de São Paulo, bom, eu ainda estou conhecendo, não conheço bem, mas o pouco que eu andei aqui... Lá é muito assim, não tem essas coisas assim de trânsito muito congestionado, é uma cidade mais limpa. Eu gosto muito de Uberlândia. Eu acho lá muito calmo e tranquilo. Eu não trocaria lá nem por Brasília mais.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É, eu gosto muito de morar lá.

 

P/1 – Porque depois você chegou a voltar para Brasília?

 

R – Foi, quando eu fiquei grávida da minha menina, fiquei em Brasília quatro meses só.

 

P/1 – Quatro meses?

 

R - É, aí depois a gente voltou pra Uberlândia de novo.

 

P/1 – Não aguentou?

 

R – Não, não acostumo mais com outra cidade, sei lá, porque lá é pacato. É uma cidade mais calma. Não é tão calma também. Mas, também, é mais calma do que essas outras cidades grandes.

 

P/1 – Sim, entendi. E seus pais, como é que é o ambiente familiar na sua casa, seus irmãos, como é que é? Quem tinha mais autoridade, seu pai, sua mãe, como é que era isso?

 

R – Sempre foi o pai e a mãe, os dois juntos, sempre tinha aquela mesma autoridade. Os irmãos. Até hoje ainda sinto muita falta daquela coisa que a gente tinha em casa com os irmãos, conversava, brincava, tinha as briguinhas, mesmo, de irmão, né, mas era aquela coisa gostosa, estava todo mundo ali junto. Sinto muita falta de gente dentro de casa. Porque sempre foi muito irmão... Sempre tinha colega do meu irmão, colega da minha irmã, sempre estava lá em casa, e depois que você casa fica só assim, só o marido e os filhos, some muito... Porque eles moram em Brasília, só eu que moro em Uberlândia. Então eu sinto muita falta da família. Aquele carinho da família. Que só a família dele que mora lá. A minha mesmo mora em Brasília.

 

P/1 – Seu pai e sua mãe também voltaram para Brasília?

 

R – Voltaram, voltaram para Brasília. Só eu fiquei lá em Uberlândia. Eu já estava namorando e aí acabei ficando, entende? Sinto muita falta desse ar familiar, aquela casa cheia, enfim, foi assim que eu fui acostumada. De domingo minhas tias iam, almoçavam em casa, era aquela coisa, aquele carinho, aquela coisa, as brincadeiras, sei lá, eu sinto muita falta disso. Mas, apesar de tudo, eu gosto muito de Uberlândia. Eu acho muito bom ficar lá.

 

P/1 – Ficar por Uberlândia?

 

R – É. Acho as coisas mais fáceis.

 

P/1 – Seu primeiro emprego foi em Uberlândia.

 

R – Foi em Uberlândia.

 

P/1 – Qual foi?

 

R - Na Cooperativa do Banco do Brasil. Trabalhei lá um ano e sete meses. Mais ou menos.

 

P/1 – Como era esse trabalho?

 

R – Ah, eu gostava muito. Tinha dia de fazer hora extra, essas coisas, a gente ia até de madrugada, mas era aquela coisa de o grupo gostar do que fazia, sabe? O pessoal, o chefe, era todo mundo muito bom. Saí mesmo assim, sei lá, coisa de adolescência. Estava cansada, queria férias e eles naquela época não podiam me dar, foi coisa assim de adolescente, coisa sem juízo. Eu logo pedi conta e saí. Depois fiquei um bom tempo sem trabalhar. Só trabalhei na Rodoviária, seis meses, mas depois fiquei sem trabalhar. Logo já engravidei do Lucas e fiquei sem trabalhar devido ao problema com que ele nasceu. Ele nasceu com sopro e então tive que parar de trabalhar pra cuidar dele. Era uma criança que precisava de cuidados. Não que ele fosse uma criança doente. Que ele nunca apresentou sintomas. Mas precisava sempre de cuidados. Aí fiquei mais pra ele. Depois engravidei novamente. Custei a engravidar da outra porque eu fiquei traumatizada devido a ele ter nascido com problema e logo pensei que a outra também poderia nascer. Eu a tive depois de quatro anos. Ela nasceu e depois disso ele fez cirurgia. Nós estamos tratando aqui no InCor [Instituto do Coração]. Já tem mais ou menos um ano e seis meses que eu estou pelejando aqui no InCor. Então resolvi arrumar um emprego porque quando eu vim ele já estava, diz que estava tudo bem, colocou marca-passo, e estava bem. Logo depois eu arrumei um emprego, ele foi, bateu, aí tive que voltar e ficar aqui de novo.

 

P/1 – Entendi. E a sua adolescência em Uberlândia como é que foi? O que é que você fazia na adolescência, como é que era lá?

 

R – A minha adolescência? A minha adolescência foi uma adolescência rebelde. (risos). Que eu era bem rebelde. Minha mãe falava as coisas e eu não gostava de ouvir. Eu achava que eu sabia tudo do mundo. Mas não sabia nada! Então, ela falava: “Ah, Cristina, você não pode sair e chegar uma hora dessas, é perigoso”. Eu teimava... Outra vez ela falava: “Final de semana você não vai sair”. Eu pulava a janela e saía escondido. Quando ela me via já estava era chegando... Nossa! Foi uma adolescência muito rebelde. Porque eu achava que eu conhecia o mundo, mas não conhecia. O mundo tem muito segredo pra gente aprender, né? Muita coisa ainda. E eu achava que não, achava que eu tinha que curtir tudo naquele momento, que eu tinha que viver tudo naquele momento. Assim, eu só nunca me envolvi com drogas. Drogas, eu nunca me envolvi não. Mas eu... Eu bebia com as colegas, saía e me divertia. Eu gosto muito de dançar. É uma coisa que eu gosto até hoje, mas agora já... Maneirou. Mas eu gostava muito de ir pra boate dançar, então eu chegava sempre assim altas horas, ela ficava muito brava, ela e meu pai, às vezes acontecia de eu apanhar, mas não adiantava. No outro final de semana tava eu ali de novo querendo a mesma coisa.

 

P/1 – Você teve alguma educação religiosa? Alguma coisa assim?

 

R – Sim, meus pais são católicos. Eles sempre frequentaram a igreja católica até fizeram cursilho, essas coisas tudo de católico mesmo. Mas eu mesma não, eu não sou. Frequento também, mas não sou assim aquela católica, sabe? Eu sou muito pelo lado do espiritismo, sabe assim? Eu acredito muito em reencarnação, essas coisas, eu acredito essas coisas que os espíritas falam muito.

 

P/1 – Você já foi em Centro [Espírita]? Essas coisas?

 

R – Já, já vi palestra, fui no centro pra ouvir palestra, essas coisas que eles falam lá. Já fui.

 

P/1 – E o seu primeiro namorado? Você lembra do seu primeiro namorado, não?

 

R – Eu tive meu primeiro namorado com 15 anos.

 

P/1 – Com 15 anos?

 

P/1 – É. Foi assim, um namoro assim, só aquela coisa, ele ficava insistindo pra namorar e eu não queria. Minha mãe gostava, mas logo descobria que não era boa pessoa, sabe, que já tinha passado assim, e eu também não sabia, eu conheci assim naquele instante, depois eu fui conhecendo aos poucos e aí minha mãe já não queria, e quando ficou proibido, aí que eu queria. Foi uma confusão, minha mãe teve que me mandar pra Brasília, fiquei lá uns quatro meses. Voltei mentindo que não queria mais, só pra voltar, né, coisa de adolescente. Ela ficou com dó, me mandou voltar, mas aí ela jogou comigo. Falou: ”Ah, vou casar vocês, já que vocês se gostam mesmo, vou casar.” E eu com 15 anos, falei: “Ah, eu não vou casar não”. Foi quando eu desisti dele de vez... Não quis. Quando ela falou em casamento... E aí já comecei a curtir e sair para dançar com as amigas. Já não quis mais saber de namorar. Aí logo depois arrumei um namorado onde eu trabalhava. Na Cooperativa. Foi um ano e seis meses que fiquei com ele. Mas também logo eu já saí de lá, enfim, nós já perdemos o contato e também já não estava dando certo. Foi quando eu conheci o pai do Lucas.

 

P/1 – Você conheceu ele onde?

 

R – Eu conheci ele na rua. Na rua de casa, tudo através de uma amiga. Aí a gente começou a conversar e começamos a namorar. Minha mãe ainda morava lá em Minas. Logo depois minha mãe mudou. Foi quando eu fiquei na casa dessa colega e namorando ele. Depois engravidei do Lucas, foi aquela gravidez perturbada. Eu estava grávida de três meses e a gente não estava dando certo, eu não sabia que estava grávida ainda, aí ele arrumou uma namorada. Uma amiga mais velha, uma mulher assim mais independente, mais vivida do que eu, porque eu tinha 18 anos quando engravidei do Lucas. Então eu fiquei muito chateada porque pra minha vida tudo era ele. Perdê-lo assim; vê-lo com outra pessoa, eu fiquei muito perturbada na gravidez do Lucas. Muito nervosa. Foi quando eu fui pra Brasília tentar morar com a minha mãe. Não deu certo. É que eu não queria ficar lá, parece que eu queria vê-lo, queria ficar perto dele, não sei. Eu queria ficar na cidade onde ele estava. Aí fui morar com esta minha colega. Enfim, mas também não deu certo. Os pais desta minha amiga foram falar com o pai do Lucas, foi quando eu fui morar na casa dele. Mas aquela gravidez me perturbava, porque eu estava morando na casa dele e ele saía, chegava às 5 horas da manhã, e então eu ficava chateada. E isso passava também pra criança... Aí logo o Lucas nasceu. Ele não estava mais com essa moça, não deu certo também, e parece que o Lucas nascendo nós fomos se aproximando e a gente foi morar junto.

 

P/1 – Você fez algum tipo de exame, pré-natal?

 

R – Fiz, fiz o pré-natal do Lucas. Mas nunca me falaram que ele poderia nascer assim. Que eu sei que eu era muito nervosa, com três meses para quatro meses eu comecei a ter um sangramento. Aí o médico falou não, é coisa de gravidez, você deve ter feito algum esforço, alguma coisa assim. E também eu caí de uma Mobilete, eu estava de três meses e não sabia que estava grávida. Foi quando eu não sabia. Depois eu fiz os exames e eu fiquei sabendo que estava grávida. Já tinha tomado essa queda, machuquei bastante. Joelho, assim. Foi onde que ocasionou esse sangramento. Eu falei pra eles, mas ele disse que não, não tinha alterado nada. Aí continuei tranquila. Com seis meses deu sangramento de novo. Pediram-me ultrassom pra ver. Mas disse que a criança estava normal. Aí passou um mês, o Lucas nasceu. Com sete meses. Ele é prematuro. Aí ele nasceu com esse sopro. Que é a CIA [Comunicação Inter-atrial ou Inter-auricular], CIB, que deu nele é uma má formação de válvulas. Continuei tratando dele lá em Uberlândia.

 

P/1 – O tratamento começou mesmo em Uberlândia?

 

R – É. E a gente estava esperando para fazer. Vamos esperar ele ficar mais velho pra poder fazer essa cirurgia. Então já começou a minha vida a ficar perturbada. Eu não era uma pessoa nervosa. Era uma pessoa até calma, gostava muito de curtir, igual eu falei. Comecei a ficar nervosa devido ao nascimento do Lucas, devido à gravidez, já no começo da gravidez. E fiquei só por conta dele. Aí eles falaram: “Vamos esperar mais para poder fazer essa cirurgia.” Eu tinha medo, também. Acho que a mãe tem medo de entregar o filho, né, sem saber se ele vai voltar, porque acontece muito, enfim... Nós ficamos esperando devido o médico ter pedido para esperar, para dar um tempo para ele ficar mais. Aí nada de acontecer essa cirurgia. Aí eu peguei e resolvi fazer tudo particular pra ver se realmente ele tinha aquele problema, porque ele é uma criança que nunca arroxeou, que nunca cansou, ele ativo demais, custoso até de mandar parar. Aí levei no particular, a gente gastou, aí, e o médico falou: “Olha, mãe, eu vou te aconselhar. Seu filho tem que fazer uma cirurgia, tem que ser urgente, o coração dele está bem grande, inchou bastante. Eu só te aconselho a procurar o hospital de São Paulo, é o único hospital que eu aconselho de você colocar o seu filho nas mãos deles. Outros lugares como Belo Horizonte, Brasília, nada.” Porque em Brasília tem o Hospital de Base que faz essa cirurgia cardíaca. Aí foi quando eu vim, por conta própria. Tentei, com o Lucas, com a cara e a coragem. Só nós dois.

 

P/1 – Foi lá que te aconselharam?

 

R – Foi.

 

P/2 – Esse médico chegou a falar o nome do InCor e mandou você vir pra São Paulo, só...?

 

R – Foi, ele disse que era muito difícil conseguir, que ele podia até tentar pra mim, mas que era muito difícil conseguir. Que talvez se eu viesse pra cá era mais fácil de eu conseguir. Chegar com o Lucas aqui, porque eles já olhavam, né, naquela época que tinha triagem, que agora não tem, é pelo telefone. Que era mais fácil passar, porque eles já viam o problema dele e já matriculavam ele aqui, e foi o que eu fiz. Vim com a cara e a coragem, com o Lucas, o passei na triagem e começaram a matricular ele e já... Não demorou muito. Logo já comecei a fazer os exames do Lucas, e logo já me chamaram pra fazer cirurgia, que já viram que o caso dele era grave. Até um médico daqui falou coisa pra mim, que Deus me livre. Falou que isso era caso de levar o pai, a mãe e os médicos tudo pra delegacia, que essa criança não podia chegar a idade, que eles não sabem nem como ele chegou a idade que chegou com esse problema, que o anjo da guarda era muito forte. Porque estava bem avançado o problema nele. O coração já estava bem inchado.

 

P/1 – Quando o primeiro médico comentou com você ele explicou qual era o problema?

 

R – O Lucas nasceu com o problema. Foi assim. Fiz parto normal. Logo que tiraram ele já viram que ele não era normal. Era um buraquinho. Como ele nasceu prematuro, não formou direito e ele nasceu com um buraquinho. Aí logo correram e não me contaram o problema dele. Não me contaram direitinho não, só me explicaram que o caso dele era de cirurgia. Eu, como não entendo problema de coração, nunca entendi de doença, eu não sabia que o problema dele era grave e que precisava mesmo fazer uma cirurgia urgente. Eu achei assim que... Igual tinha muita gente que falava que sopro com o tempo fecha. “Ah, o meu teve sopro e com o tempo fechou.” Então eu achei que podia ir esperando, esperando, e eu nunca procurei uma coisa particular rápido ou então mesmo vir aqui para São Paulo. Sempre fui deixando, adiando, achando que com o tempo fechava, ou que mais tarde podia fazer uma cirurgia, e eu não sabia que o caso dele era urgente. E o caso dele era urgente.

 

P/1- E você pegou o ônibus, veio pra São Paulo...

 

R – Foi. Eu não conhecia São Paulo, fui conhecer São Paulo agora através da doença dele. Eu não conhecia nada aqui, nada, nada. Peguei o Lucas com a cara e a coragem e vim para São Paulo.

 

P/1 – Você tinha algum lugar para ficar?

 

R – Não tinha, não tinha nada.

 

P/1 – Como é que foi isso, como é que você conseguiu esse...?

 

R – Aí, eu vim para o InCor e logo a Laís já arrumou um lugar... Não. Eu fiquei na casa de um conhecido, não bem aqui em São Paulo. Eu fiquei em Jacareí, porque tinha uma conhecida. Nem conhecia há muito tempo, ela era namorada do irmão do pai do Lucas, ela ofereceu pra eu ficar na casa dela pra tratar dele. Então eu vinha, ficava lá em Jacareí e vinha tratar do Lucas. E na cirurgia não teve jeito de eu voltar. Foi quando a Marisa arrumou uma associação pra eu ficar. Lá nós comemos, tomamos banho e dormimos. Quando cheguei aqui não conhecia nada, vim sozinha pra cá. Nem com essa conhecida. Ela não veio, não dava pra ela vir. Vim sozinha para o Hospital das Clínicas, fui perguntando, o pessoal ia me informando. Eu peguei ônibus. Só que o ônibus só me parou uns dois pontos a mais. Com criança é difícil, com criança e mala. Aí falei, não pego mais o ônibus aqui. E peguei metrô, que é mais fácil pra andar do que ônibus. Quando congestiona fica aquele trânsito parado. O pessoal foi me explicando, aqui não é muito difícil achar. Têm pessoas que explicam, tem muita placa, você indo para o lugar certo e encontrando as pessoas certas você chega. Aí cheguei no Hospital das Clínicas, passei na triagem e a médica falou, realmente o caso dele é grave, já matricularam ele, já passaram pra fazer uma série de exames e, logo, foi em setembro do ano passado. Em dezembro eu fiz os últimos exames dele e fiquei aguardando a cirurgia e em abril me chamaram. Ele fez a cirurgia cardíaca no dia 17 de abril, e devido a essa cirurgia os batimentos dele ficaram só 60. Aí ele teve que usar um marca-passo externo 15 dias, foi um sofrimento pra mim. Nossa, uma loucura. Porque ele é muito esperto, eu não dou conta de segurar ele, e aquele marca-passo não pode bater, né, e nem os fiozinhos, que são uma coisa bem fina mesmo.  E ele é muito esperto e eu sempre tomando aquele cuidado com ele. Aí nós ficamos no [Hospital] SEPACO [Serviço Social da Indústria de Papel, Papelão e Cortiça do Estado de São Paulo], que é também aqui do Incor. Marca-passo só coloca aqui mesmo. Então nós viemos pra cá, depois de acho que sete dias. Eles colocaram pra dentro o marca-passo dele. Mas isso ele já tinha arrebentado um fio num sábado, cheguei aqui na sexta. Mas, como eu fui pra associação dormir, então lá cada mãe tem obrigação de fazer uma limpeza. Então, eu demorei mais, eu cheguei aqui já eram umas nove horas, e ele falou:  “Mãe, eu fui brincar e puxei o fio.” Aí eu já comecei a achar estranho.  Aí o menino já foi perdendo a cor, já foi, sabe, diminuindo, aí corri e chamei os médicos, falei que o meu filho não estava bom, e aí ele chamou, já veio todo o mundo correndo, e já estava mesmo caindo a frequência dele. Mas logo o Doutor Fabiano, um médico ótimo, ótimo mesmo, ele é até de Uberlândia também, ele já detectou que estava... Não conseguiram ver, mas depois ele viu que um fiozinho do marca-passo tinha arrebentado. E depois o Doutor Itamar, que já logo colocou esse marca-passo dele pra dentro, não no dia. Na segunda-feira colocou o marca-passo pra dentro, é um ótimo médico também, gosto muito dele, acho que é uma equipe ótima de médico aqui no InCor. Eles tratam a gente muito bem. Devido também à cirurgia eles são assim, sabe, igual o médico de Uberlândia falou. Só aqui mesmo especialista pra mexer com essa parte de coração. Colocou, me explicou e o Lucas estava ótimo. Eu estive aqui a última vez foi dia 7 de junho. Eles tinham marcado pra eu voltar em novembro, tanto que o Lucas estava bem, mesmo, não tinha nada. Aí ele vai, me toma uma queda, e bateu esse marca-passo. Aí fez aquele hematoma. Eu acho que não foi só uma queda. Ele devia estar vindo batendo já vários dias, coisinha leve, mas como essa foi mais forte, criou um hematoma. Aí eles tentaram  ver se deixava tomar antibiótico pra ver se desinflamava. Mas não conseguiu. Aí tiraram o marca-passo pra fora e estão curando a infecção. Só que agora está demorando, já tem um mês, né, porque o eletrodo dele não é daqui, parece que é da Alemanha, da Espanha, um negócio assim. Então não chegou e parece que vai demorar muito pra vir. Não sei se vão colocar outro provisório, ou se vão esperar esse mesmo chegar.

 

P/2 – Por enquanto está com o provisório?

 

R – Sim.

 

P/2 – É externo?

 

R – Não. É o dele mesmo, só que outro eletrodo. Mas é o dele mesmo que deixaram. Fora, assim, pregado. O aparelho é muito pequeno. Não é como aquele outro que era um radião, externo... Aquele... Ai, nossa Senhora, Deus me livre! Aí eu estou esperando, né. Mas eu acho que o InCor faz uma coisa muito boa. Colocar psicologia para as mães. Porque é muito estressante você ficar num hospital. Você está acostumada com a sua casa, um ambiente totalmente... E chega aqui você só vê doença. O pessoal chorando... Eu acho que ajuda muito as psicólogas. Eu era muito nervosa com o Lucas. Não tinha paciência devido a essa atividade dele. Ele gosta muito de brincar e eu fico com medo de ele cair, bater esse marca-passo. Então eu fico bem agitada com ele também. Aí é quando eu já perco a paciência com ele e não pode. A gente tem que conversar e explicar pra criança... Que no caso dele, ele não sabe que o cortaram. Por que enfiou esse marca-passo nele e agora ele não pode brincar como ele brincava antigamente. Eu não entendia isso. Devido à psicóloga conversar comigo eu comecei a entender também e passar pra ele. E parece que o ambiente entre nós dois deu uma melhorada. Eu estou mais calma com ele, ele está mais calmo comigo, eu não tento podar ele tanto, mas explico pra ele: “Ó, filho, você está com o marca-passo porque o seu coração não tem as batidas, então, você precisa dele pra viver... Então você tem que me ajudar, olhar o marca-passo pra não bater e pra não dar problema, pra você não ficar doente.” Mas isso eu fui aprendendo com as psicólogas. Eu não conhecia psicóloga. Fui conhecer aqui no InCor.

 

P/1 – Você não conhecia?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Tinha alguma imagem? Achava que era alguma coisa?

 

R - Nem imaginava o que era. Fui conhecer aqui mesmo. Devido ao problema do Lucas sempre tem uma psicóloga conversando, acompanhando seu problema. Acho que é muito bom. Ela explica e você aprende até a ter mais calma com o seu filho, conversar, porque eu acho que uma conversa é tudo. E eu não entendia. Para mim, gritar com ele, danar com ele não resolvia e ele ficava agressivo comigo. E ele achava que eu não gostava dele, que era uma bruxa. Na cabeça dele você fica parecendo uma bruxa, né. E eu gostei bastante da psicologia, principalmente da Flávia, tenho bastante afinidade pra conversar com ela, eu acho que ela também tem as coisas, dá certinho. A gente explica uma coisa, enfim, explica uma coisa pra ela e dá certinho naquele fundamento que eu quero entender. Eu acho que foi muito bom essa psicologia que fizeram aqui agora no InCor. Já tem bastante tempo.

 

P/1- É, 25 anos...

 

R – Mas eu fui conhecer agora, que foi só agora que eu entrei aqui. (risos)

 

P/2 – Bom, ele fez a cirurgia em abril e você foi atendida também?

 

R – Fui. Fui. Acho que foi Gabriela. Só que não deu muito tempo porque eu não fiquei bastante tempo aqui no Incor. Foi uma coisa rápida, assim como falei pra vocês. Eu fiquei lá no SEPACO, não foi bem aqui. Agora faz um que eu já estou aqui. Então estou conhecendo mais a Flávia, não sei, mas parece que desta vez fiquei bem mais calma. Quando eu preciso e acho que já estou passando dos limites, eu falo: “Flávia, vamos conversar um pouquinho?”. Aí ela vai, conversa, me explica e é ótimo. É ótimo mesmo, até pra eu me entender. Que eu era muito confusa em relação a essa cirurgia dele, essas coisas, e ela conversando comigo eu passei a entender. Mas... O que foi que colocaram nele, como é que é o procedimento, uma coisa assim, o que é um hospital, com as outras mães, também, eu tento às vezes passar para as outras mães. Às vezes a mãe está estressada, eu digo: ”Não, não é assim”. “Ah, eu não quero saber de psicóloga, já estou cansada de conversar com psicóloga”. Não é, eu acho que você tem que entender. Conversar com ela. Às vezes a mãe está chegando agora, não conversou ainda com a psicóloga pra entender. Eu gostei muito. Parece que me alivia, ela também já fala umas coisas pra eu entender, eu gostei bastante.

 

P/1 – Como foi o primeiro contato, foi com a Flávia?

 

R – Não, foi da outra vez, com a Gabriela. Mas como foi uma coisa muito rápida, não deu bem pra eu entender. Com a Flávia, o primeiro contato, aí ela começou, né: “Ai me fala de você”. Eu falei que o Lucas estava muito agressivo, aí ela falou não, é que ele não entende. Ele não era uma criança que brincava. Ele não tinha limites porque ele nunca foi de arroxear. Ele brincava de tudo, fazia de tudo, podia de tudo. Sempre foi uma criança muito ativa. Aí ela disse que eu precisava entender, porque ele estava achando que cortaram ele, realmente, agora colocaram esse marca-passo, ele não entende o que é que colocaram dentro dele, ele está achando que todo o mundo está judiando dele. Inclusive fala: “Vocês estão fazendo maldade comigo.” Mas na verdade não é isso, estão apenas fazendo curativo nele. Não entende. E ela falou que eu tenho que explicar isso pra ele, que ele fez essa cirurgia, que ele precisava, o coração dele precisava, e que devido a essa cirurgia colocou o marca-passo. Ele tem dois corações. O dele e o marca-passo. O marca-passo ajuda o coração. E precisa explicar pra ele que ele precisa aprender a viver. E devido isso aí eu fui conversando com o Lucas, e o Lucas realmente mudou bastante. Porque ele era bem agressivo. Tinha hora que ele ficava muito nervoso comigo, me jogava as coisa, com raiva, e agora ele, agora parece que tem alguma afinidade devido a essas conversas que eu tive com a Flávia, mudei bastante com o Lucas, e o Lucas comigo, porque ela acompanha o Lucas também.

 

P/1 – Ela acompanha o Lucas também?

 

R – Acompanha. E ela me falou que nas brincadeiras dele ele se mostra tranquilo no hospital, e realmente é mesmo, que está tudo bem com ele. E ele só fica meio agressivo porque tem horas que começam a podar ele. E aí realmente ele fica mesmo. Mas eu já estou explicando pra ele: “Filho, ó, você vai ter que me ajudar a olhar esse marca-passo, porque se você bater esse marca-passo de novo vai ficar difícil, nós vamos ter que voltar pra tudo isso de novo, fazer curativo, né?” E parece que ele está entendendo. Que ele é uma criança muito inteligente. Não é porque é meu filho, não. Mas você sabendo levar ele, parece que é com carinho que você tem que levar. Eu achava que não. Que danando com ele, brigando, era o ideal. Aí a Flávia me ajudou muito nisso. E outras coisas também. A gravidez eu contei que foi problemática devido à convivência com o meu marido, que a gente não convive assim muito bem, a gente briga muito, e ela estava me explicando pra mim. Se brigar na frente do Lucas tente explicar pra ele o porquê. Que adultos de vez em quando discutem. E o Lucas também, devido ele ver essa agressividade nossa, não de briga, mas de conversar alto um com o outro às vezes, ele também vai sendo influenciado na cabecinha dele. E ele então me explicou muita coisa que me foi muito bom. Eu acho que foi ótimo. Eu tenho vontade de melhorar, sabe. Que eu sou muito nervosa. Eu tenho vontade de mudar esse meu jeito. E ela me explicando as coisas assim eu estou caminhando, tentando entender, e parece que eu estou ficando mais calma. Porque eu sou agressiva. Qualquer coisinha eu estouro e começo a falar alto. E eu não era assim. Devido à gravidez do Lucas ficou e não saiu. E também depois da cirurgia dele parece que eu fiquei mais. Que quando a minha menina nasceu, foi uma gravidez calma. Muito gostosa, e com o Lucas, eu punha pra passar a mão na minha barriga e já começava a pôr ele pra ficar bem com a irmãzinha. Eu tinha um carinho com ela, que com o Lucas eu nunca fui assim, sempre agressiva, que o Lucas chorou muito, até os quatro anos. E não deixava eu dormir à noite direito, era chorãozinho, mas devido o problema dele, coitadinho. E eu não sabia. Esta aí uma coisa que eu acho que devia os médicos ter passado pra mim. Eu achava que o choro dele era manha. E não era. Agora, aqui no InCor que eu fui saber que o choro dele era devido ao coração. Ele suava bastante, eu não sabia que aquilo ali era porque estava descompensando o coração. Aqui eu fui saber de tudo isso. E com ela, não. Eu tinha aquela calma. Eu não tive calma com ele, coitadinho, não pude curtir ele nenê, que eu era bem nervosa, e vou tentar curtir pelo menos ela que nasceu e passar para os dois essa minha calma. O meu filho, depois da cirurgia que ele colocou marca-passo, eu comecei a ficar bem estressada. Nem com ela mais eu já não tenho muita paciência. E ela é novinha, precisa de mim. O Lucas precisa de mim. Quero ser uma pessoa mais calma pra tratar meus filhos. Porque a gente tem que ter carinho com eles. Porque se não, eles vão crescer agressivos. Vai chegar um adulto que não vai... E eu estava conversando com a Flávia.: “Se tivesse um jeito de eu ter um tratamento, alguma coisa pra eu ficar mais calma, pra cuidar dos meninos, né, cuidar de mim também, que não adianta ficar nervosa, que eu mesmo também já acabo ficando doente.” Até ela falou pra mim se conseguia lá em Uberlândia isso. Que eu falei pra ela, eu quero. Porque eu achei tão bom conversar com a psicóloga, porque você muda. Você tenta ajudar. Até eu já comecei assim a querer entender as outras pessoas também. Que de tanto conversar com a Flávia eu acho que também, conversando com outras pessoas, vendo o problema delas, a gente pode até tentar ajudar, né. Até estava falando que futuramente eu quero tentar... Voltar a estudar, até Psicologia mesmo, eu estava conversando isso com ela. Eu tenho isso comigo. Mas isso já vem desde quando eu estudava. No colégio as meninas vinham com um problema... Mas eu não sabia. Agora que eu fui entender, né. As meninas vinham com um problema e eu tentava conversar com elas: “Não, não é assim, você tem que ir pra esse lado...” Enfim, sem saber eu já era assim. Eu achei uma coisa muito boa, é muito bom continuar esse programa de psicologia aqui no InCor. Ajuda muito. Pelo menos eu, bastante. Eu quero procurar cada vez mais melhorar.

 

P/1 – Você quer continuar isso?

 

R - Eu quero. Tanto que eu achei bom, eu fiquei outra pessoa, mais calma. Que eu estava bem estressada, transtornada mesmo com esse negócio do Lucas. Eu também não entendia esse negócio do marca-passo dele. Eu também comecei a ficar agressiva. E devido a Flávia conversar comigo, eu já estou começando a entender. Acho que tenho que ficar aqui mais um mês, comecei a ficar nervosa, e logo já ia lá na Flávia... E parece que é melhor, mesmo. Eu achei muito bom.

 

P/1 – Onde acontecem os encontros com a psicóloga? Nos mais variados lugares, ou tem um lugar que você sempre senta com ela e tal?

 

R – Não...

 

P/1 – Como é que é isso?

 

R – Depende do lugar. Eu estou sempre ali no sétimo andar é mais perto do Lucas. A gente conversa mesmo ali, no sétimo.

 

P/1 – E o ambiente do hospital te deixa estressada?... O fato de estar num hospital? O ambiente todo te incomoda?

 

R – Olha, não vou negar não. Incomoda. Deixa-me estressada um pouco... Você olha pra um lado, é só doença. Olha pro outro, é uma mãe sofrendo, não é fácil. Você sofre junto. Estressa muito. Você vê: Tem casos de a criança subir boa e de repente descer correndo pra UTI. Igual um caso que aconteceu lá no SED. Eu estou com muita dó dessa mãe.  Que a criança subiu, estava boa, aí já desceu pra UTI, parece que o caso dela é grave, que está com uma infecção bem alterada, caso bem grave, mesmo. A mãe até que é muito forte, mesmo, que é aquela coisa que é desesperadora. Então, você sempre vê isso no hospital. É gente doente, chorando, preocupada, é estressante. Então tem que ter mesmo psicóloga pra conversar, que você relaxa bastante. Por mim eu já estava em casa, mas eu tenho que esperar o Lucas. Acho que psicóloga é uma coisa ótima. Eu era uma pessoa que não tinha comunicação. Até com a minha mãe. E ela vinha me explicar o problema, eu logo já alterava com a minha mãe, e dizia que ela não entendia o problema. Era aquela coisa. Acho que me ajudou bastante até em casa, o relacionamento com o marido. Vinha conversar comigo eu já vinha com dez pedras na mão, que ele também sofre. Aqui que eu fui entender também que ele também está sofrendo. Não é somente eu que sofro. Então devido a essas conversas que eu tive com a Flávia que eu estou começando a entender até os meus problemas pessoais mesmo.

 

P/1 – Seu marido ou companheiro está em Uberlândia ou ele está aqui?

 

R – Não, ele ficou, ele não veio ainda. Nós estamos bem apertado. Como falei, a gente veio com a cara e a coragem. Então gastou bastante com o Lucas, essas coisas, e ele ficou lá pra trabalhar, né?

 

P/1 – A Laísa ficou lá também?

 

R - Ficou com a minha sogra. Que aqui não tem jeito, tem que ficar dedicado mais ao Lucas, não tem como trazer ela. Mas dá saudade. Tem hora que dá assim aquela vontade de ir embora. Igual agora. Fiquei sabendo que vou ficar mais um mês, eu vou hoje pra lá e vou voltar segunda de manhã. Pra eu ver ela... Pôr umas coisas em ordem, trazer, porque eu vim pensando que eu ia ficar só três dias, desta vez... E já estou aqui um mês. Vou buscar coisas que estão faltando, matar a saudade dela, enfim, ele disse que vem depois. Mas não sei se vai dar porque, como falei, ele trabalha por conta. É pintor, então de vez em quando pega um carro, alguma coisa assim, aí não tem como vim.

 

P/3 – O Lucas também conversa com pessoas da psicologia, tem esse contato?

 

R - Tem. A Flávia é que cuida dele, ela conversa muito. Ela fala que ele é uma criança muito ativa, que ele demonstra nos brinquedos que ele está tranquilo aqui no hospital. Só quem está estressada é a mãe. (risos) Ele se dá bem, todo o mundo gosta dele. Médico... Tem médico que desce lá da emergência onde eu dei entrada quando cheguei e vai lá vê-lo. Sempre está ganhando presente por causa de ser uma criança que chama a atenção. Ele conversa com todo o mundo, ele canta, então fica todo o mundo encantado. E é a Flávia que está acompanhando ele.

 

P/3 – E ele faz algum comentário sobre as conversas com a Flávia?

 

R – Não... Não faz. Por isso que quando ele conversa com ela eu procuro ficar longe. Quando ele está brincando na recreação eu procuro ficar longe pra dar espaço pra ele. Pra ele não sentir assim que, é o que eu falei. Eu prendia muito ele. E isso o perturbava. Ele ficava agressivo comigo até nas brincadeiras e eu procurei deixar ele mais livre, ficar mais relaxado, pra não sentir que eu estou perto querendo trancar ele. Ele não comenta comigo o que ele conversa com a Flávia não. E eu pergunto pra Flávia e ela às vezes me comenta as coisas dele. Mas ele, não. Ele me fala outras coisas. “Oi, mãe, isso aqui, o que é que eu ganhei, mãe” Conversou assim, assado, as meninas lá da brincadeira. Mas o que a Flávia fala com ele, ele não conversa comigo não.

 

P/1 – Qual a imagem que você ficou do InCor, o que você vê do InCor?

 

R – Olha, a primeira vez que eu estive aqui achei horroroso. Tudo pra mim foi horroroso. Assim, não é que aqui é feio, sentido assim, não. Mas porque você trazer um filho seu pra cirurgia e sem saber se ele vai voltar ou não... Tudo aqui é doença, e isso aqui pra mim era o fim do mundo. Mas agora eu já estou começando a habituar, acho que eu tenho que levantar as mãos para o céu e agradecer o meu encaixe aqui. Os médicos são ótimos, acho a equipe de médicos muito boa, muito atencioso, pessoal daqui trabalha muito bem mesmo, educados, os médicos, aqui é tudo muito explicado, eles não escondem nada, por isso que eu gosto daqui. Eu não gosto que me escondam nada, igual me esconderam esse tempo todo, eu fico chateada porque eu até devia já ter entendido o problema e o Lucas até podia ter feito essa cirurgia, não estar nem dependente de marca-passo, não chegar o problema assim tão grave como chegou. Então prefiro que me conta tudo. Quando se está correndo risco, me fale, assim como, o Doutor Itamar me falou: "Mãe, não vou negar, realmente seu filho está correndo risco, ele está com uma infecção, isso pode subir para o coração. É marca-passo, é uma coisa... do coração.” Eu gosto assim, que me fale. Eu fiquei meio chateada, triste porque é um filho seu. Você sabe que está correndo risco. Aí ele me explicou. Agora estou começando a achar bom. Tenho que agradecer... Tem hora que dá aquela estressada. Ah, esse lugar, não aguento mais. Porque não é só a casa. A comida aqui você tem que comer o que eles servem. Na sua casa você está acostumada a fazer o que você gosta, comida do seu jeito... Mas eu acho aqui, nossa! Eu estava falando para as meninas. O café da manhã dos meninos é coisa muito chique, assim, quem é pobre não está acostumada com isso, eles tem, nossa... O tratamento aqui é muito bom. Nutricionista, você conversa com ela, ela tenta estar ali agradando para a criança estar comendo. Acho que a equipe de enfermeira, médico, psicólogo, acho muito bom.

 

P/1 – Tem uma equipe presente, sempre perto, tal.

 

R - Tem hora que a enfermeira está ocupada. Mas a mãe também está perturbando, tem hora que elas dá uma assim... Mas, sempre que você pergunta, eles estão sempre lhe informando a coisa certa. Ninguém aqui esconde nada. Mesmo se seu filho estiver correndo risco, for caso de morte, como é o caso dessa mãe que eu estava contando pra vocês que está lá também na associação. Eles já falaram pra ela que o caso do filho dela é caso de risco. Eles não deram mais ou menos 48 horas. A criança está aí, tentando, evoluindo, já fez três cirurgias... Então eles não escondem realmente o que está acontecendo. Eu acho que tem que ser assim. Não adianta você ficar com dó da mãe e não querer contar, pois se depois vier a acontecer alguma coisa a mãe toma aquele choque. Acho que tem mesmo que ir preparando a mãe pra tudo o que vier. E a gente vai fazendo amizade com as enfermeiras, médicos, e até a Flávia, às vezes eu peço um favorzinho pra ela, na área dela, e ela tenta me ajudar. Acho que é muito bom. Tem que agradecer mesmo quem consegue entrar aqui.

 

P/1 - E essa associação. Como funciona?

 

R – Ela funciona assim. Para as mães de fora que vem pra cá e realmente não tem onde ficar, enfim, mães que não têm parentes e que também não tem condições financeiras pra poder ficar num hotel. Eles colocam a mãe lá e tem de tudo. Almoço, se você precisar sabonete, toalha, cobertor, tudo isso é fornecido lá. Então é uma casa muito grande, tem muitos afazeres. E toda a mãe tem a obrigação de fazer alguma coisa pra sempre manter a casa limpinha também. As coisas em ordem. E eles recebem doações. Comida é doação. Também sabonete, tudo, é doações. Então, quando eu vim da outra vez a casa era alugada. Não sei se é o doutor Miguel também esse negócio da associação. Aí eles conseguiram comprar uma casa agora. E mudaram tudo, precisa ver que gracinha que é lá. Beliche, a cozinha bem arrumada, ganharam fogão novo, tudo, tudo, tudo, novinho. Até pra criança transplantada tem uns negócios, uns chuveirinhos bem baixos, tem vaso pequenininhos pra criança, é tudo muito bom. A assistente social lá é muito boa, procura te ajudar nas mínimas coisas. Eu falei pra ela que eu comecei a trabalhar há uns 30 dias. Na verdade eu estava com medo de perder o emprego, pois eu vim com o Lucas pra cá e eu não sabia que ia acontecer esse acidente todo. E, com isso, ela me falou que ia escrever uma carta, tentar até telefonar lá pra ver se conseguia... Tudo pra eu não perder o emprego, porque a gente está apertado, é uma crise e a gente precisa trabalhar. Ela falou que ia tentar ajudar. Acho tudo muito bom. Nossa. Que seria de mim se não tivesse tudo isso aqui em São Paulo? Eu estou aqui com a cara e com a coragem, com uma criança de cinco anos com um problema... E se não tivesse isso aqui, não sei o que seria. Aqui tem tudo o que de tipo de mãe. Do Peru, Chile, Bolívia, vai tudo pra associação quando não tem onde ficar.

 

P/1 – Vocês conversam entrem vocês?

 

R – Conversamos sim, tentamos passar o problema e enquanto isso, uma outra mãe fala o problema do filho, a outra fica com dó ou às vezes fica chateada. Criança chega aqui no Incor e não está tão bem, enfim, a gente procura ajudar... Nossa família está vivendo... Sabe uma família... E quando uma vai embora a gente fica feliz que ela está feliz de ir embora. A criança pegou alta, está tudo bom... Tem hora que quando uma  está estressada, fica triste, todas ficam tristes também, sabe. Eu acho bom lá na associação. Só que tem hora que você pensa: não é a minha casa... O ser humano não é perfeito. Tem hora que você se revolta. Mas aí a gente pensa. Tem gente que tem caso pior, e a gente tem que agradecer. Agora aquele frio que estava fazendo aqui em São Paulo, se você não tivesse nem uma casa, um cobertor... Porque não é todo o dia que você pode ficar no hospital. Não tem um chuveiro pra você poder ficar aqui. E tem mesmo que ir pra associação. Achei muito bom. E se cada vez for melhorando, cada vez mais doação, melhor ainda. Que tem muita mãe que precisa realmente. No meu caso. Eu já vim, já gastei bastante, já não tem mais o que gastar. Pra mim, então, foi a melhor coisa.

 

P/2 – Quantas mães estão...?

 

R – Olha, isso varia. Porque tem mãe que chega e que sai. Ao todo nós estávamos em doze mães. Agora já foi embora duas. Está chegando mais... Sempre cheio. Só que a gente tem que agendar pra ela saber se tem cama ou não. Quando não tem, a Laís, assistente social, arruma na pensão. Aí o hospital paga a diária. Porque não é um espaço muito grande. Tem muita gente doente, muita mãe vem com problema de coração. Às vezes não há vagas. Então a Laís arruma na pensão e que o hospital paga. Na associação, não. É doação. A casa é nossa mesmo.

 

P/1 – E você vem pra cá todo o dia?

 

R – Venho. Fico com o Lucas até umas nove horas, pra ele tomar um lanche. Aí vou embora. Chego aqui todo o dia oito de manhã e vou embora às nove horas, todo o dia. Fico sempre o tempo todo com ele. Porque no hospital pra ele também não é fácil. Não ter nem eu do lado dele... Eu acho isso muito bom, é bom também o fato deles permitirem a mãe ficar. Porque a criança se sente muito sozinha. Eu sempre que estou brincando com ele. Porque o Lucas é assim. Se não tentar fazer ele comer, ele gosta tanto de brincar, que ele esquece até de comer. Acho que é bom ficar com ele até as refeições. Parece que ele se recupera mais rápido. Todo o mundo fala que o Lucas é muito rápido de se recuperar. E eu também sempre estou forçando ele comer verdura, essas coisas importantes que precisa comer... Ele é uma criança, nossa, vocês precisam conhecer pra ver como é que é a pecinha. (risos).

 

P/1 – E agora o seu projeto é voltar pra Uberlândia...

 

R – Olha, eu queria... porque minha sogra me ajuda bastante. Ela falou que ajudaria a olhar o Lucas. Eu queria chegar e continuar trabalhando. Trabalhar também é uma terapia muito boa. Porque ficar só com criança em casa estressa muito, você vê faltar as coisas... Não digo assim coisa de comer, mas você não vive só de comida. E... Faltar as coisas, você fica muito nervosa, pensava assim, poxa, eu não sou aleijada, tenho saúde, vontade de trabalhar e não poder trabalhar era ruim. Então, trabalhando fora também dei uma bastante melhorada. Porque eu sempre chegava tinha mais carinho com os meninos, sabia que eu também estava ajudando, é muito importante. Eu queria continuar trabalhando. Mas não sei se devido eu fiquei esse tempo todo aqui, eu estava num contrato de experiência... Mas se não der, eu espero o Lucas ficar bom até o final do ano e aí eu pretendo trabalhar. No ano que vem eu pretendo estudar. Ou trabalhar ou estudar. Porque eu quero dar conta de formar. Nem que for quando eu estiver velhinha, mas eu quero. Sempre tive vontade. Parei mesmo porque eu tive o Lucas.

 

P/1 – Quer fazer uma faculdade?

 

R – Talvez faculdade. Não sei bem o que eu quero ainda. Estou pensando em fazer Psicologia, que foi o que mexeu bastante comigo, mas, não sei. Só pra frente mesmo. O meu projeto é esse, o Lucas ficar bom é toda a minha vontade. E aí poder levar minha vida pra frente, porque senão vou ficar assim, sempre revoltada. Não vivo, só vegeto, é o que eu tenho mania de falar. Eu queria voltar, sim. Ou trabalhar ou estudar. Porque pra quem tem casa e filho é meio difícil conciliar as duas coisas.

 

P/1 – E quando você está descansando, o que você gosta de fazer?

 

R – Gosto muito de ver filme. Alugava muita fita pra eu ver filme, essas coisas, e ler, também eu gosto. Porque aí você está sempre descobrindo coisas novas. Gosto bastante de ler.

 

P/1 – Que tipo de filme você gosta?

 

R – É variado. Não tem aquele específico assim que eu gosto de ver. Eu gosto de terror, romance, eu sou uma mulher romântica. (risos) Só não gosto de comédia. Não acho graça em comédia. Não sei por que o pessoal ri tanto. Mas outras vezes nem é comédia e eu estou rindo.

 

P/1 – E você tem um grande sonho?

 

R – Tenho um grande sonho. Como estava falando pra vocês. Eu pretendo voltar a estudar, quero me formar, ter uma profissão e ser independente. Não nasci pra depender. Sempre trabalhei. Meu primeiro emprego, mesmo, mas não fichado, foi com 11 anos, eu estudava e de manhã limpava a casa de uma conhecida da minha mãe. Aí já comecei a ter aquela independência, sabe. E daí comecei a trabalhar sempre de doméstica. Depois é que fui trabalhar numa firma, com 16 anos. Então tinha aquela independência. Minha mãe falava, ela pensava que eu ia deixar pra ter filhos muito depois. Que eu ia ser uma pessoa independente. Sempre gostei de estudar, nunca tomei bomba. Minhas notas eram ótimas, na escola então eu tenho esse sonho. Eu tenho vontade, quando o Lucas estiver melhorzinho, minha filha estiver mais crescidinha, minha vida estiver mais controlada, eu quero sim, voltar a estudar e ver se eu dou conta de ser uma pessoa independente. Ter um emprego bom pra manter as coisas direitinhas. Eu tenho essa vontade de progredir na vida. Não de ficar rica. Eu não tenho essa vontade. Não. Quero ter um empreguinho bom, ganhar bem, e ter aquela profissão. Saber que eu sou útil em alguma coisa.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que você gostaria de falar...

 

R – Não, acho que já falamos tudo...

 

P/1 – O que você achou de falar sobre isso...

 

R – Quando me falaram fiquei meio assim, achei estressante. Mas acho que foi bastante descontraído, me senti num bate-papo mesmo, achei legal. Fiquei meio assim no começo. Será que vou falar alguma coisa errada, será... Mas eu gostei da entrevista.

 

P/1 – Foi ótimo. Obrigado.

 

Fim da entrevista

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