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História

A saga de um caipira

História de: Domingos da Fonseca Sobrinho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/02/2009

Sinopse

Domingos da Fonseca Sobrinho é mestre Griô do Ponto de Cultura Cultura para o Desenvolvimento, na comunidade de Canafístula em Arapiraca, (AL). Ele é contador de histórias e também autor de sua autobiografia intitulada A saga de um caipira. Para ele não há adjetivo para dizer da importância desse trabalho como a Ação Griô. “É isso que vai nos possibilitar resgatar todos nossos usos e costumes que estavam esquecidos entendeu?” Mestre Domingos conta sua experiência em ir às escolas de Arapiraca ensinar a tocar o instrumento que aprendeu sozinho a dedilhar. De sua inseparável parceira, mestre Domingos relata que é difícil de se desligar. “Continuo tocando, nunca desisti e não desistirei, eu não deixarei uma sanfona enquanto vida tiver e se puder levá-la depois de morto eu levarei, eu gosto, eu faço porque gosto!”

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História completa

Ah, às vezes eu conto uma história pouco verdadeira e ficam duvidando da minha afirmativa! Quem quiser acreditar, tem toda liberdade de discordar: eu resolvi ir para São Paulo tentar a sorte. Lá, em 1971, nada de  arrumar emprego, estava uma situação um pouco difícil e fiquei desempregado. Com o apoio dos meus amigos, nunca me faltou nada e felizmente consegui passar num concurso para carteiro e comecei a trabalhar no dia 1 de dezembro de  1971. Imagine só, uma pessoa que saiu do interior de Alagoas chegar em São Paulo e trabalhar como carteiro numa cidade daquele tamanho! Não foi fácil! Trabalhei em diversos bairros, começando pelo Brás: Tatuapé, Água Rasa, Vila Diva, Mooca. Conheci trabalhando como carteiro. Por diversas vezes eu me sentei no meio-fio, debaixo de uma árvore e dizia: “Meu Deus, o que foi que eu vim fazer aqui em São Paulo?” Por pouco, por muito pouco eu não retornei a Alagoas.

 

Deixei uma namorada na minha terra e namoramos durante oito anos por correspondência. Passado os oito anos, voltei para me casar com ela. Quando eu retornei de férias e assumi de a função de inspetor no Correios, sofri um assalto e fui espancado covardemente por dois bandidos, fiquei com medo de São Paulo e resolvi pedir transferência para Alagoas. Entrei com esse pedido no mês de julho e no mês de outubro eu já recebi a informação de que Brasília havia deferido o meu requerimento! Imagine só quando eu recebi a informação de que eu poderia retornar para Alagoas como funcionário dos Correios! Confesso a vocês quando me foi dito o meu requerimento havia sido deferido, eu estava numa sala reservada para os inspetores, datilografando um relatório, que na época não existia computadores ainda, eu simplesmente não me contive e chorei de alegria, de felicidade, de contentamento, eu não tive outra alternativa senão chorar de alegria, pois estava voltando para a minha terra! E essa é a minha história, saindo de Coruripe, passando por São Paulo, por Maceió e chegando a Arapiraca. Nesse meio tempo nos casamos, isso em junho de 78, e tivemos três filhas! Só deu mulher lá em casa!

 

Ah, nesse tempo todo eu nunca parei de tocar. Com nove anos de idade eu comecei a tocar meu primeiro instrumento, que foi um cavaquinho, presente do meu pai. Facilmente aprendi tocar cavaquinho. Ele viu que eu tinha facilidade para música e também comprou uma sanfona! Não demorou muito e eu facilmente aprendi a tocar, não demorou muito aprendi a tocar sozinho! Nunca fui a uma escola e aprendi a tocar sanfona sozinho. Com 12 anos eu já tocava em baile naquela época, naqueles forrós no pé de serra!

 

Continuo tocando até hoje, nunca desisti e não desistirei, eu não deixarei a sanfona enquanto vida tiver e se puder levá-la depois de morto eu levarei, eu gosto, eu faço porque gosto! Em Arapiraca, logo que chegamos, criamos um grupinho de cinco pessoas e a gente participa de eventos, quando as pessoas nos convidam, entendeu, nós tocamos em igreja, nós tocamos em aniversário, confraternizações, das mais diversas naturezas, até em velório já tocamos! Jabá boys é o nome do grupo. A gente toca quase todos os gêneros musicais, infelizmente não tivemos a oportunidade de gravar ainda um CD, embora já tivéssemos ensaiado pra isso, mas não chegou o momento, mas a gente participa com uma certa frequência de eventos!

 

Essa minha aproximação com o Ponto de Cultura sempre existiu!  Eu sempre participei dos movimentos de Canafístula, que é onde fica o Ponto de Cultura, tocando em pastorinho, tocando em Reisado, tocando na missa, participando de festas da comunidade, festa da padroeira, tudo que era movimento que acontecia ali eu estava envolvido. Quando surgiu a ideia de mandar projetos para o Ministério da Cultura, tomaram a iniciativa de incluir meu nome. Estavam tão confiante que sequer me avisaram antes! O projeto foi aprovado e só então fiquei sabendo que estava fazendo parte do Ponto de Cultura como mestre Griô. Depois de tudo aprovado, sequer me foi dito antes, tamanha confiança que o pessoal tem em mim e eu fiquei profundamente agradecido por isso! É aquela história: a gente conta e acredita quem quiser, coisa de caçador!

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