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História

A sabedoria rural na saúde pública

História de: Jair Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2005

Sinopse

Jair conta pro Museu da Pessoa a história de sua vida. Agente Comunitário de Saúde, conta sobre as origens de sua família, uma tragédia envolvendo seu irmão, o seu casamento. Traz também sobre o começo de seu trabalho como Agente Comunitário, sua relação com a população, a fabricação de xaropes de ervas medicinais e muitas outras histórias de uma profissão que dedica seu tempo e cuidado para a saúde de toda a comunidade.

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História completa

Nasci em 17 de junho de 1971, em Vila Manchinha, vila do município de Três de Maio, aqui no oeste do Rio Grande do Sul. Meus avós por pai são Reinaldo Estevão Pereira e a finada nona Rosa Pereira, nascidos em Três de Maio também. Lá eles tinham terras, poucas mas tinham – uns 8 hectares –, onde plantavam soja, milho, feijão e o que desse para sobreviver; mas um sobreviver meio sofrido... Os pais da minha mãe eram Francisco e Albina. Só conheci o finado nono, ela só por fotografia e, que me lembre, eram também de lá de Três de Maio. Também tinham um pouco de terra, que até hoje está lá com um tio solteiro... Em Manchinha, bem nos fundos da nossa terra, tinha um riacho; a comunidade era uma vila pequena, com salão de festas, a igreja, a escolinha e uma vizinhança de chácaras. Meu pai cresceu ali e só saiu quando foi servir o quartel, em Santo Ângelo; depois, trabalhou numa olaria fabricando potes, na Vila Consulata, onde conheceu minha mãe e se casaram. Ele então voltou para Manchinha, comprou um cantinho de terra e tinha lá uma junta de bois... Nasceu meu irmão mais velho, eu e o mais novo e já éramos em cinco na família quando, conversa vai, conversa vem, meu pai acabou comprando terras aqui em Santo Augusto, na colônia de Passo da Lage, onde vivemos até hoje... Pagou em Passo da Lage um pouquinho mais barato e pôde conseguir mais terra; se não me engano, vendeu 15 hectares e comprou 21. Algum tempo depois, o tempo correu bem, a plantação também e ele conseguiu comprar mais 12 hectares, fechou os 33 que temos hoje. Quando viemos para Passo da Lage, lembro que ficou aquela saudade dos parentes lá de Três de Maio; mas agora este lugar não troco por nada... Passo da Lage é uma vilinha também e, naquele tempo que chegamos, tinha uma igrejinha feita de madeira, um salãozinho, uma copinha, tudo pequeno. Só mais tarde construíram o salão de festas e a igreja nova de alvenaria; graças a Deus, hoje já temos escola até a quarta série, área de lazer com campo de bocha, campo de futebol, quadra de esportes. Quando chegamos, um vizinho nosso veio ajudar a descarregar a mudança e pôr tudo dentro de casa. A distância de nossa casa até a vila era de uns dois quilômetros. Daquele tempo em que eu cheguei até hoje, o número de moradores diminuiu. Umas 50 famílias foram embora; a maioria dos meninos que cresceram comigo foi para a cidade longe buscando uma melhora de vida, um ganho por mês. Estão em Porto Alegre, trabalham em fábricas. Fiquei porque a gente é muito agarrado com o pai e a mãe, crescemos os três irmãos sempre muito juntos... Sabe como é que é piá: briga, depois passa e está junto, que nem cachorrinho novo. Fomos vivendo nossa vida e um dia comecei a namorar uma vizinha da mesma vila do Passo da Lage. Conheci ela nos bailes, seguiu um namoro que durou uns dois anos e pouco. A gente tinha planos de se casar, mas ela engravidou e isso apurou o casamento um pouco. Graças a Deus, até hoje só tem felicidade lá em casa e já vamos para cinco anos de casados. Comprei uma casa bem no centro da vila, em frente ao salão de festas, com luz, água, tudo instalado; tem um açude com peixes em frente, um lugar muito lindo. Continuei trabalhando com meu pai: tinha três vaquinhas de leite para poder tirar um troco por mês e plantava um canto de 3 hectares com soja, dava para sobreviver... Tivemos um piá cheio de saúde e depois surgiu a oportunidade do PACS. Antes de eu casar, já tinha uma agente de saúde lá na comunidade, que fazia a parte de enfermagem. Ela tinha aparelho para verificar pressão, termômetro e até dava algum medicamento; mas depois ela casou, largou o emprego e foi embora para Porto Alegre. Fiquei sabendo do PACS porque foi avisado pelo rádio da cidade que ia começar o Programa e iam selecionar um agente comunitário de saúde para Passo da Lage. Até combinei com a minha mulher: “Vamos lutar por essa aí, porque é um ganho e um jeito de a gente ajudar esse povo.” Eu tinha jogado futebol e estava com o pé machucado, quando viemos em cinco lá da comunidade para fazer o teste. Um pessoal de Porto Alegre fez a seleção e, uma semana depois, anunciaram o resultado: Jair Pereira, para Passo da Lage. Para mim foi uma felicidade... Em seguida, tive dois meses de treinamento e disseram como começaria o trabalho: “Vocês vão fazer a identificação do pessoal, cadastrar as famílias.” Então eu cadastrei 98 casas, tudo feito a cavalo, porque nos deram um prazo. Às vezes tu tinha que voltar debaixo de chuva e chegava em casa molhado, mas não desisti. Depois do cadastramento, a gente foi se entrosando com o povo, ia contando como era o Programa, como seria o nosso trabalho. Depois de um certo tempo, melhorou mais ainda, porque ganhamos as bicicletas e ficou muito bom... Não é fácil o trabalho, porque algumas casas ficam longe da vila mais de 3 quilômetros. Com 19 anos morando na comunidade, eu já conhecia todo mundo e sempre fui muito bem dado, graças a Deus. O pessoal recebe a gente muito bem, sempre naquela esperança: “Lá vem o agente, vamos ver o que ele tem de bom para trazer para nós.” As pessoas te contam os problemas delas e, se tiver jeito, tu encaminha. Alguns casos, o agente de saúde acompanha. Eu cansei de acompanhar pacientes fora de hora de trabalho, porque o pessoal procura a gente não interessa a hora... Eu atendo, vou até a casa deles e se é caso de doença encaminho para o Posto de Saúde. Quando é um caso mais fácil, a gente costuma indicar também algum remédio caseiro. Por exemplo, a gente aprendeu a fazer a pomada e o xarope caseiro, que leva 25 qualidades de ervas, e tem sido um sucesso... Marco um dia, no salão da vila, e às vezes reunimos 10, 15 pessoas para fazer os remédios. Fazemos uma pomada, que é indicada para todo tipo de ferida: unheiro, picada de mosquito, frieiras, e fazemos um xarope para gripe e bronquite. A receita desse xarope é a seguinte: tu põe numa panela cravo e canela a gosto, um quilo de açúcar, uma garrafa de vinho de uva puro e coração de banana, que é a ponta do cacho da banana, picada igual repolho. Ferve por 45 minutos, deixa 4 horas de molho, coa e está pronto. Tem também o xarope pra gripe, o de 25 ervas; nesse vai marcela, poejinho, cidreira, morinha de espinho – que dá na beirada dos rios –, trassage e várias outras, até atingir as 25 ervas. Ensino esses remédios porque praticamente 50% dos que moram ali não têm dinheiro pra comprar remédio e precisam da ajuda do Posto de Saúde. Mas eles gostam muito desse xarope e dá resultado... No nosso trabalho, a gente também acompanha as gestantes, pra saber se estão com as vacinas em dia, com o pré-natal feito. Nessa parte, a gente no início pensava: “Como é que eu vou chegar e perguntar para uma mulher quando foi a última menstruação, essas coisas... Mas depois não foi difícil, porque elas já sabem que vou para aquele fim. A saúde das crianças a gente olha com cuidado, fazendo a pesagem mensal de todas elas para ver se não tem algum caso de desnutrição. Tenho lá sete casos de criança desnutridas, mas são filhos de moradores novos que chegaram... Nestes casos, a gente orienta a mãe sobre como alimentar a criança para ganhar peso e encaminha o caso para a nutricionista, no Posto de Saúde em Santo Augusto. As mães antes eram um pouco desleixadas; agora dá para ver que estão com atenção nos filhos... Outro problema de saúde que temos lá na comunidade e está difícil de resolver é o alcoolismo, porque as pessoas não aceitam o encaminhamento para o Posto de Saúde. Temos casos de pessoas com pressão alta, mas estas estão sendo medicadas e têm acompanhamento do médico... Os problemas são muitos, muitas famílias e a gente não vence estar nos dias certos nas casas: um dia sai para um lado, outro sai para o outro e tem os dias de curso, de treinamento, de orientação. Mas eu sempre fico preocupado, querendo saber se tem algum problema de doença numa casa que, por algum motivo, não deu para eu ir visitar. Gosto de ver as coisas resolvidas...

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