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História

A rua lusitana do Brás

História de: Claudio Ferranda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2016

Sinopse

Em sua entrevista, Claudio Ferranda conta a história de como conheceu a Zona Cerealista indo vender soda cáustica para os comerciantes da região. Então, faz uma panorama em que explica o surgimento do comércio da Rua Paula Souza, demarca os maiores produtos e vendedores, além de falar sobre a ascensão dos supermercados. Ao final, fala das chances da Zona Cerealista em se reinventar e sobre seus sonhos para o futuro.

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História completa

eu nome é Claudio Ferranda, nacionalidade italiana, nasci na Itália em três de maio de 1939 às nove horas da manhã. Comecei a trabalhar com 18 anos e tinha que trabalhar pra pagar a faculdade. E trabalhava. E o mundo da Paula Souza naquela época era não um mundo de fantasia, era um mundo de realidade aonde basicamente uma grande maioria portugueses e uma minoria, menor um pouco, de italianos fundaram um centro de comércio que abastecia quase que praticamente o Brasil inteiro de todas as necessidades que eram pedidas na ocasião. Isso ia desde arame farpado à soda cáustica pra fazer sabões, a alimentos, roupas e sapatos. O movimento que Paula Souza tinha 60, 50 anos atrás era alguma coisa como extraordinário. Os principais comerciantes naquela época era o Martins, que era uma das maiores casas atacadistas, e tinha lojas e casas praticamente espalhadas por todo o sudoeste do Estado de São Paulo e entrava em Minas Gerais, etc. Outro que também era grandioso na época era o Veríssimo, que era a segunda casa maior, não vou fizer quem era maior e quem era menor, todas eram grandes casas. Pastorinho era a rigor a terceira. Alô Brasil a quarta. A Catarinense do João Aloisio Momisso devia ser a quinta. Depois vinha o Dias, que era um sobrinho do Pastorinho, que tinha as Casas Olímpia, Olímpia que é o nome da esposa dele. Várias casas atacadistas, depois viraram casas atacadistas e supermercados. O Sutti Neto também, que tinha basicamente casas em Franca e não me recordo de outros lugares, mas todos eles compravam tudo, de um lápis a uma borracha, de um arame farpado a uma soda cáustica e todos alimentos, roupas, etc, que você pode imaginar. Essas eram as grandes dentro da Paula Souza. E depois tinha os pequenos que compravam e tinham uma ou duas casas atacadistas, que nem o Mendes, Supermercados Mendes, mas antes disso tinham casas atacadistas porque naquela época não se falava em supermercado. Você entrava num armazém, que era a casa atacadista, e tinha de tudo lá, no interior o centro de compras era São Paulo. Tinha um balcão, tipicamente um balcão português, como se fosse de mármore, e ele ficava lá sentado, levantava, te cumprimentava. Do balcão pra cá fazia-se o negócio e o resto era um depósito. E tinha os seus auxiliares de compra, contabilidade, tudo lá misturado mas de lado e o resto era armazém que ia e entrava mercadoria, saía mercadoria. Isso é mais ou menos uma pintura do que tinha, completamente diferente da Santa Rosa. A Santa Rosa era mais importadora de queijos, vinhos e cebolas e batatas, basicamente. Tinha outras coisas, mas essa era a grande concentração de Santa Rosa há 50 anos, 60 anos. Acho que dei uma pintura das coisas. Muitos negócios que se faziam na Paula Souza eram feitos no bigode. Isso significava que era o meu nome, comprei e resolvia. Cebola, batata, arroz, feijão, tudo o que era necessário para abastecer as suas casas que revendiam, eram casas atacadistas naquela época, que revendiam tudo o que você pode imaginar, de sapatos a band-aid, tudo, tudo era comprado e abastecido porque tinham que abastecer cidades do interior, pequenas, médias e grandes. Então tinha que realmente comprar tudo, compravam de A a Z tudo o que era necessário. Frutas, enlatados, importados, cereais, ou seja, tudo era abastecido, eles compravam e abasteciam. Algumas coisas pra cidade de São Paulo também, mas as grandes casas atacadistas compravam para abastecer o resto do Brasil. Eram no atacadão. Faziam importações, pra você ter ideia, importavam alimentos em latas, atum em lata, queijos, tudo era importado, vinha e era revendido por eles. O arame farpado era importado normalmente dos Estados Unidos, que era o tipo Motto que não me recordo, eram três fios, quatro fios, com tantos espinhos, etc., eram importados dos Estados Unidos e revendidos no Brasil. Tudo o que você possa imaginar que era para abastecer uma cidade a Paula Souza, naquela época, fazia importações e supria. E tinha pequenos importadores que importavam determinadas especificamente e vendia para eles. Por exemplo, D. W. Albaneze era uma empresa que importava basicamente de tudo e revendia para os grandes atacadistas, se especializava em determinadas áreas. O D. W. Albaneze era o Walter Albaneze e Euclides Carli. Euclides Carli hoje é vice-presidente da Federação do Comércio. São esses atacadistas que eu falei, e os grandes importadores. Importavam, realmente, quantidades bastante fortes. Para o Brasil de 50 ou 60 anos atrás. Basicamente o alimento sempre foi o forte da Paula Souza, ou seja, gêneros de primeira necessidade são sempre de consumo praticamente obrigatório e imediato. Uma calça você pode deixar pra comprar no mês que vem, mas o alimento você não pode deixar para comprar na semana que vem. Então alimento realmente era o forte deles.

Não é uma coincidência a maioria da Paula Souza ser portuguesa. Chegava o tio e montava o negócio dele e, Portugal há 60 anos estava com uma condição econômica muito débil, muito fraca, etc. Então ele chamava o sobrinho pra vir ajudar e esse sobrinho vinha, trabalhava quatro, cinco anos com o tio, ou com o irmão, mas basicamente eram tios e sobrinhos que trabalhavam, que era os homens de confiança dele. Então ele pegava um sobrinho, jogava numa casa atacadista no interior, pegava o outro sobrinho e jogava numa casa assim e depois de quatro, cinco anos ele faz o próprio negócio. E dessa maneira é que você tinha naquela época, na Paula Souza, basicamente você tinha uma grande, uma grande influência portuguesa na zona atacadista. Você tem o Martins, o Veríssimo, o Dias, eram todos, todos, todos de origem portuguesa e muito ligados familiarmente, inclusive um Martins casava com um Veríssimo, etc., porque era uma batota, se conheciam e mantinham o poder dessa maneira.

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