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A relação com o governo

História de: José (Zezito) Lima dos Santos
Autor: Coleção Alagados
Publicado em: 11/08/2020

Sinopse

Zezito narra sobre os tempos em que atuava como representante a nível comunitário do Conder [Companhia de Desenvolvimento humano do Estado da Bahia], uma empresa do governo do Estado, cuja Igreja de Alagados está inserida numa área de sua administração. Nas reuniões, conta sobre questionar os assistentes sociais sobre a falta de serviços prestados, em oposição ao grande empenho do trabalho social realizado pela Igreja.

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História completa

Se sinta honrada em ter vindo aqui, porque você vem para aqui, você vem com uma expressão da Graça divina, porque o que você está fazendo aqui, escutando nós, isso para nós é uma riqueza muito grande. Porque às vezes eu sento muito em mesa redonda, entre aspas, de gente muito grande. Mas eu fico até.. tem horas que me dá vontade de dar uma pancada neles. Mas eu dou sempre. Dentro daquela, na diplomacia, eu solto umas que eles quieta, baixa a temperatura! Então quando a gente chega nesses lugares e começa a colocar as coisas bem explícitas, eles entendem que não é mais um Zé qualquer, eles tem que mudar o termo de expressão. Eu vou dizer, aqui está um caso que eles me escolheram pra ser representante de uma empresa do governo a nível comunitário, voluntário, não era para ganhar nada. Só você representar. Não sei se você já ouviu falar em Conder [Companhia de Desenvolvimento humano do Estado da Bahia]? É uma empresa do Governo do Estado. Faz obra em todo o Estado da Bahia. Obra pública e aqui tinha um trabalho, nos Alagados onde está a igreja, ela está inserida na área que é administrada pela CONDER. E aí, eu trabalhando com eles muitos anos eu parei um pouco pra pensar com eles. Todo mês a gente tinha uma reunião. Todo mês. Era 4, 5 assistente social nos ouvindo. Mas eu já.. prático, bastante prático na coisa, como aquele advogado criminalista que entende tudo de criminalidade e que está exercendo uma ação. Eu falei um dia, eu representando um conselho de segurança. Você vai ver isso em papel, em documento. Eu falei em segurança e tal, ai eu criticando.. eu digo: "- Bom, eu acho que nós estamos fazendo a coisa errada. Todos os meses aqui reunidos e vocês assistentes sociais nos defendendo muito bem, vocês atendem muito bem e tudo, agora o poder de decisão não está na mão de vocês. Eu conheço muito bem, muito bem isso ai. Eu conheço muito bem que eu sou preparado, sou diplomado nisso, eu sei que o poder de decisão não está na mão de vocês. Então seria bom que nós convidássemos, através de vocês, o representante do governo da secretaria aqui. Ai no que resultou? Aprovou. Eu vou resumir bastante. No próximo mês já tinha dois.Ai pá, pá, pá, pá, pá, aí quando eles chegaram ai nós soltamos mesmo, ai eu soltei mais ainda. No segundo mês vieram uma equipe. Uns mangandões, tudo cheio de anéis, os gestores da Conder e vieram grande, nesse dia eu fiz a minha festa. Nesse dia eu fiz a festa. Exatamente eu fui com documento, diploma, na pasta, na mão, no colo. Aí eles começaram a falar, eu disse:"- Olha, chegou a minha vez. Nós falamos de segurança, falamos de problema de marginalidade, de tudo, mas precisamos de um trabalho social.” Aí eu peguei pesado, peguei na doença. Um trabalho social não é feito na comunidade! Eu conheço a geografia do bairro tal, bairro tal, interligado a Maçaranduba, Jardim Cruzeiro, Uruguai, toda essa periferia cheia de jovens assim tudo vulnerado. Não tem uma escola de capacitação, eles não tem condições! Uns estudam, outros não estudam, não tem nada! Ai eles olharam assim eu falei: "- Eles ficam próximo à droga e cadê o trabalho social? Nós só temos aqui um trabalho social - eu falei bem claro - da igreja e alguma associação, algumas entidades." Ai eu coloquei: "- Eu sou da paróquia de Alagados e tal, lá existe isso, isso, existem tantos jovens, tantas crianças na catequese.." Mas rapaz! Ai toquei mesmo, ai tremeu na área. Eu disse: "- Existe esse trabalho que nós fazemos. Ai eu repeti a história que eu contei, nós já colocamos tantos jovens.. Cadê que o governo? Não temos. Ai eu disse: "- Me identifique um trabalho de uma ação social do governo aqui na nossa área". Eles estavam para me escutar. Ai foi que.. aí teve um chefão que dizia: "- Ah mas o Presidente Lula lançou para o Brasil um.." Eu tinha passado pelo concurso, não foi concurso, foi um treinamento muito grande, eu com o diploma no colo, ele foi cair na besteira de dizer isso. "- Ah ele lançou 11 bilhões para a segurança do Brasil". Ai eu disse: "- Ah doutor muito bem, um dinheiro bom, alto né?" Eu disse: "- Doutor, um rio nasce numa área com muita água, ele pega o leito dele e vai se abrindo, tal, caudaloso, muita água, um leito muito forte de água! E adiante ele vai encontrando a seca, a terra árida, ai o que é que a água faz? Vai diminuindo não é?" Ele disse: "- É". Ai ele caiu bonitinho: "- E quando chega adiante, lá na África não tem rio que nasce e depois sempre desaparece?" "- Ah sim também". "- É os 11 bilhões de reais que vai para a segurança, quando for somado isso ai, tirar algum acordo e tal, que for arrumar as coisinhas, que não foi para tal lugar, não sobra nada e acabou, fica por isso ai mesmo." Rapaz eles ficaram assim parados comigo sem entender nada, eu me identifiquei antes. A carência da comunidade, e a dimensão social do governo, a carência da comunidade não é atingida nada. Não foi nada atingida a carência da comunidade em nada. Quem atinge somos nós da igreja que corre atrás. Nós não temos jovens? O problema aqui é muito alto em jovens (...) Porque eles estão muito envolvidos na droga, porque não trabalha, não estuda mais, não são estimulados, esse trabalho é complicado, isso é um problema sério. Então eles acham os fornecedores e eles ganham dinheiro com isso. Não tem um curso de capacitação, a não ser que a igreja, não sei se você viu. O Governo não oferece. Aqui, essa área aqui é muito grande, você não viu nada ainda. Quando você vê emenda aqui Maçaranduba, Jardim Cruzeiro isso tudo que você vê é um mundo. Então você não vê um trabalho de capacitação pra jovem. Ele vai pra onde? Para onde que ele vai? Pra terra nenhuma. Ele vai se envolver com a bebida, com a droga. Tem pessoas carentes aqui que hoje numa hora dessas nem tomou café e nem sabe que horas vai tomar, porque não tem condições. Isso é que não tem, um trabalho na linha social né? O que nós fazemos aqui na igreja é o mínimo, quase nada. Ainda tem pessoas que não tem nem a água e nem a luz.

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