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História

A redenção da comunidade na agricultura familiar

História de: Maria da Natividade de Oliveira Morais (Cecéu)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/11/2014

Sinopse

Maria da Natividade de Oliveira Moraes, mais popularmente conhecida por Cecéu, nasceu em 08/09/1960, no Município de Conceição de Coité. Filha de agricultores, sempre viveu da agricultura, assim como o marido. Presidente da Associação Comunitária de Onça, vem junto com a sua familia trabalhando nos ultimos anos com a producao mandioca e seus derivados (beijo e biscoitos), e polpas de frutas, fornecendo para a merenda escolar do municipio. Parte da producao é vendida nas feiras locais e nas feiras promovidas pela rede de economia solidaria da região. 

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História completa

Meu nome é Maria da Natividade de Oliveira Moraes, mas popularmente conhecida por Cecéu. Eu nasci aqui mesmo, no Município de Conceição de Coité, no dia 8 de setembro de 1960.

Meus pais é Carlos de Oliveira Carneiro e Raquel Coleta de Oliveira. Eles eram trabalhadores também da agricultura familiar, são trabalhadores rurais, hoje já são aposentados, eu também sou filha e também sou uma delas que sou trabalhadora também rural, sou considerada, moro em fazenda. Mas hoje a gente tem esse trabalho voltado na agricultura familiar, porque já veio uma geração dos nossos pais, avós, então foi criada, assim, uma estrutura que a família foram todas criadas na roça e vive hoje nos povoados, todo mundo desenvolvendo o seu trabalho na agricultura familiar.

Todos em casa ajudavam, todos trabalhavam pra poder ajudar na alimentação da casa, que antigamente era mais dificuldade, a gente enfrentava mais dificuldade do que hoje. Hoje a gente já tem mais uma estrutura, devido às capacitações que a gente teve, assim, sobre o trabalho mesmo da roça, a gente teve uma capacitação voltada diretamente, como a gente produzir e viver melhor. Então foi através dessas capacitações, que a gente teve apoio também da CAR, do SEBRAE e da Agricultura, do Secretário da Agricultura do nosso município, que era o Renato, que deu todo o suporte pra os produtores se capacitar, pra não tá plantando e colhendo só pra fazer a farinha da mandioca, e sim aproveitando todos os derivados que era extraído da mandioca. Que hoje é ela que a gente usa pra gente fazer o biju, a farinha de tapioca, o biscoito de goma, então até o que tem, eu falei até num instante, que a gente aproveita até a matéria prima, que é as folhas, os troços, a raiz, a madeira dela, pra fazer ração pra animal.

A gente plantava mandioca, milho, feijão, melancia, abóbora, tudo que a nossa terra aqui produzia a gente plantava pra colheita, só que a gente plantava só pra comer, não tinha aquele, aquela estrutura, dizer: “Não, vamos também ter uma renda extra aproveitando o que sobra”. Então às vezes perdia na roça, a gente não tinha essa estrutura, esse conhecimento de o que plantava, o que tinha de sobra vender pra ter um dinheiro extra pra viver melhor, com mais dignidade dentro de casa. Às vezes perdia e você passava até dificuldade de outras questões, de comprar outras alimentação que a gente não produzia.

Na época ninguém vendia, foi o que eu comentei num instante ali, a gente não vendia nada, só produzia pra comer, só pra casa, entendeu? E hoje não, hoje, depois disso, como eu falei, foi que a gente começou a ter esses cursos: “Não, temos que viver melhor, com dignidade”. Aquilo que a gente não produz, se a gente vender o que a gente produz, a gente pode arrecadar mais um fundo pra tá se alimentando melhor, viver com mais dignidade, ter uma casa mais tranquila, mais arrumada, que antigamente as casas era mais, assim, de taipa, era de adobo de barro, era, não tinha, hoje, as construções que a gente vê hoje. Hoje todo mundo já tem uma casa digna, já vive com mais tranquilidade, mas antes não era assim.

Na infância o nosso lazer era muito mais gostoso do que hoje, que hoje não tem esse lazer, que antigamente era uma cultura, era brinquedo de roda, era samba brasileiro, que ia os pais, os tios, levava a família toda, ia pra igreja. Andava até três quilômetros de pé, quatro, pra poder não perder uma festa religiosa, uma festa junina, sempre tinha na região, era brinquedo de roda, como eu falei, era, deixa eu ver, fogueira de cair, que botava um bocado de brinquedinho lá pras crianças ir lá tirar depois naquela festa. Então era uma festa, um lazer tranquilo entre as famílias, reunia os avós, os pais, os filhos, os primos, sobrinhos, amigos e todo mundo se reunia ali, passava a noite brincando. E a gente cantava, e ali um cantava, um outro cantava, outro e aí ia passando o tempo, isso vencia tardinha, noite e a gente nem se preocupava, então era um período, assim, muito alegre, muito tranquilo pra gente viver aqui na região.

Era roda de samba, as mulheres faziam a roda brincando e tinha o samba, que os homens iam lá sambar e fazia, que era o samba brasileiro chamado, boi roubado, que juntava as famílias tudo pra fazer o trabalho de roça, juntava homens, mulheres, as crianças, uns cozinhando, outros trabalhando, outros plantando. Então era trabalho de mutirão, que se fazia muito naquela época, então é uma história, assim, muito voltada à nossa cultura, ao nosso trabalho aqui na região.

A escola já era mais difícil pra, como a época de hoje, que a gente tinha que ir andando pra Juazeirinho, nove quilômetros, a gente ia de pé e voltava de pé meio dia, quem estudava à tarde saía daqui 12 horas pra chegar uma da tarde pra ir pra escola, saía de lá cinco e meia, chegava aqui seis e meia. Às vezes os pais iam encontrar a gente na estrada com medo porque já tava escuro. No tempo que a gente ia pra Juazeirinho o que a gente ganhava era as roças, porque andava muita boiada na estrada e a gente tinha medo desses gados solto que tinha, a gente saltava a cerca, uma porção de gente, de homem, mulheres, pra poder fugir dos animais que tavam solto na estrada. E uma dessas idas, um dia o boi saltou a roça e a gente foi se esconder dentro de velada que tinha na estrada pra o boi não pegar e a gente deitado e o boi lá cheirando o povo tudo, e a gente tudo gritando, pedindo socorro.

 

A gente estudava até a quinta série, que era, complementava o primeiro, já começava no colégio na sexta série. De lá pra cá a gente, muito depois de já uma certa idade voltaram a estudar, eu não voltei a estudar, fiquei como estava porque logo comecei a trabalhar, casei jovem na época, com 17 anos, com 18 anos eu já era mãe da minha primeira filha, hoje eu já tenho uma filha com 36 anos. Meu esposo é Manuel, Manuel Fernandes Carrero Moraes.

Eu acostumada a trabalhar com a minha família, de ter o meu dinheirinho, pra chegar lá, ficar parada, dependendo só do que o marido ganhava. Veio logo uma filha, logo em seguida, com um ano depois de casada já nasceu a primeira filha, eu disse: “Não, tá na hora de eu voltar pra casa, aqui não dá certo pra gente”, aí, como ele era um esposo, assim, que graças a Deus sempre foi um bom esposo, sempre ele concorda com a gente, a gente senta, conversa, tem diálogo, aí ele concordou que a gente viesse embora. Aí a gente veio pra casa dos meus pais, moramos um ano com meu pai e minha mãe, aí fomos construindo, até que a gente construiu o nosso lar e fomos pra nossa casa, aí onde eu vivo até hoje lá (risos).

A gente trabalhava, a gente limpava mandioca, trabalhava de enxada mesmo, era homem, mulher, criança, todo mundo trabalhava. Depois foi que começou a gente com esse trabalho da agricultura, começou a trabalhar vendendo beiju, capitando tudo que tinha da região, mudando a estrutura, o nosso salário já é garantido trabalhando na nossa própria casa.

A história começou depois da fundação da associação, de lá pra cá a gente foi vendo que a gente tinha que mudar e aí foi onde a gente foi buscar apoio nos governos estadual, municipal, federal, uma estrutura pra gente ter um curso de capacitação pra capacitar os homens, que eles não queriam mudar a cabeça de plantar mandioca só pra farinha e sim aproveitar também o que tinha dela, que era pra apoiar, pra ter outra renda. E ai depois desses cursos que a gente buscou através da associação e criamos grupos, que a gente foi criando uma imagem assim, de ganhar mais o que era antes. Eles foram tomando gosto do trabalho: “Não, tá dando certo, deu certo com a família de Cecéu, deu com a de Veronice, deu a de fulano, de ciclano, de José, de Maria, então vamos também acatar isso”. Aí cada um foi acatando e hoje todo mundo vive com mais dignidade, o dobro, o triplo, vamos dizer o triplo, três vezes mais do que o que vivia antes.

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