Busca avançada



Criar

História

A realização pela dança

História de: Cidinha Cândido
Autor:
Publicado em: 21/02/2022

Sinopse

Maria Aparecida Cândido Victorino de França nasceu em 28 de setembro de 1965 em Barra Bonita. Começou atrabalhar cedo, com 7 anos. Desde pequena se encantava pela dança. Fez educação física, abriu uma academia e sempre participou e fomentou a arte e a dança na cidade, promovendo festivais e intercâmbio internacional para os alunos. Criou como o projeto Novos Talentos, que dá bolsa a estudantes que não tem como pagar o curso. Tem uma filha que mora na Alemanha e trabalha com dança. Está como secretária da cultura.

Tags

História completa

Comecei a trabalhar com sete anos. Meus irmãos sempre foram para a roça com os meus pais, eu já peguei outra época. Na rua em que eu morava tinha uma senhora de idade que precisava de companhia, eu ajudava a pôr a mesa, lavava os pratos… era meio que uma companhia. Depois disso nunca mais parei de trabalhar.

Eu gostava muito de dançar, ficava muito feliz quando podia ir para algum lugar onde tivesse música. Minhas amigas só queriam saber de paqueras, e eu só queria dançar a noite inteira. Naquela época era muito diferente, todo mundo se encontrava nos clubes da cidade. Tinha o Vila Nova, em que eu fui menos, só quando a minha irmã mais velha deixava. Eu chorava, e minha mãe falava: “se você não levar, você não vai”. E ela ficava muito brava, mas era obrigada a me levar. Já no Clube da ABB foram momentos muito bons, porque eu já tinha a idade, com quinze, dezesseis, eu já podia ir aos domingos.

Quando eu tinha nove anos, foi a primeira vez que assisti a um espetáculo de dança. Lembro que fiquei sentada olhando e fiquei apaixonada por aquilo, na época a minha mãe cortava cana… Eu queria muito fazer dança, mas meus pais não tinham condições.

Anos depois, quando quis fazer um curso de dança, tive que provar a importância disso. Meu pai teve outra educação, para ele, como é até hoje para a maioria, dança não é serviço, poderia trabalhar em qualquer área, mas não nisso. E a minha mãe, com todo o jeitinho dela, brigava. Lembro do primeiro curso que teve em Poços, tinha uma convenção e eu queria muito ir, ela pediu escondido dinheiro emprestado da vizinha e falou: “Para estudar, vai!”, e me ajudava, para o bem a omitir um pouquinho as coisas do meu pai.

A trajetória da dança, nunca tive dúvida do que eu gostaria de fazer por nenhum segundo, nunca me imaginei fazendo outra coisa. Comecei a dar aula no salão da Cohab, eu tinha turma de dança, de ginástica, e, quando nós fazíamos alguns exercício que deitava no chão, a gente olhava para o teto, via os buraco e caía muito carvão na época por causa das usinas, o corte de cana, a queima… A gente fazia aula comendo carvão, mas todo mundo feliz ninguém ligava, até que fecharam o salão.

Nessa época eu estava me separando. Fui morar numa casinha na Cohab com a minha filha, Tamires, e comecei a construir uma sala aqui no fundo. Foi pai, irmão, tio, sobrinho, fizemos um mutirão e conseguimos construir uma sala de aula no fundo. Depois eu quis fazer mais uma sala. Todo mundo falou, “você é doida, não cabe mais nada aqui”, e fui quebrando em volta da minha sala e fazendo salas de aula. Quando eu vi, estava com a minha filha morando em dois cômodos. No meio da escola, a gente baixava o colchão à noite para dormir, porque era a sala, eu subia e tinha a cozinha e o banheiro. 

A academia cresceu e fui morar na Nova Barra. Imaginei uma piscina ali. Mais uma vez me chamaram de louca, mas conseguimos fazer a piscina e ampliamos o nosso espaço. Então eu tinha sala de dança, tinha a parte da musculação e tinha a parte hepática. A minha realização e a minha vida foram dentro da academia. 

Consegui ter os meus próprios projetos, de poder atender os alunos gratuitamente, aí vem aquela história, eu sempre tive muita ajuda, então é a minha maneira de retribuir. Eu comecei o meu projeto Novos Talentos, que dura até hoje, e os meus primeiros alunos que foram alunos bolsistas 80% deles estão na área. 

Também organizei o festival Encontro de Danças. Quatro cidades e cinquenta bailarinos participaram, depois nos tornamos ponto de cultura. Foram doze anos do primeiro projeto para o Projeto Cultural e Artístico. Aí consegui reunir um espaço dança, música, teatro, feira de artesanato, gastronomia. Tivemos 1 600 artistas, um público de 7 500 pessoas durante os três dias de evento junto com as feiras, e nós tivemos o nosso primeiro convite para intercâmbio no exterior.

No último ano, tinha uma jurada da Alemanha que falou, “após o evento quero uma reunião com você”. Achei que era para dar o feedback geral do evento, mas ela falou “quero saber de você se há interesse, qual é a possibilidade de nós fazermos uma parceria e de linkarmos esse evento com o festival da Croácia”. Fiquei sem resposta, e falei: “Meu Deus, que oportunidade é essa!”.  Porque foi a coisa mais linda que eu vi em relação a um festival de dança. 

Fomos para a Croácia, no ano seguinte, fizeram a seleção dos trabalhos, nós voltamos com uma caravana de 75 pessoas, brasileiros que dançaram, arrasaram e eu recebi o título de embaixatriz no Brasil. Eram 36 países e no ano seguinte voltamos e fomos convidados a abrir o evento. Aquele povo reverenciava os brasileiros e de lá saíram excelentes profissionais.

Hoje estou como secretária de Cultura e continuo atuando na área da arte e da dança. Busco fazer eventos com o máximo de diversidade cultural, e um aprecia a arte do outro e acaba agregando. Eu gosto de pôr a feira, de pôr artesanato, produtos artísticos, gosto que tenha música, teatro… é de extrema importância. Às vezes nem todo mundo gosta, mas quero que o esporte, a saúde e a educação estejam presentes, porque é uma forma da gente envolver as famílias, de comprometê-las, de fazer com que se sintam importantes, que fazem parte de tudo aquilo e que o artista local seja valorizado. Pra mim a cultura e a educação caminham juntas, não tem como, uma sem a outra, a cultura é a identidade de um povo.

Eu recebi, tive a oportunidade, então vou proporcionar isso para alguém, e assim a gente conseguiu continuar com esse trabalho de apoio, de parceria e de pessoas realmente comprometidas e apaixonadas pela arte. A gente conseguiu atravessar o oceano, levar os bailarinos para o exterior, para Croácia, para Alemanha, tem bailarinos formados lá, bailarinos no Brasil, trabalhando na TV, ministrando cursos em grandes companhias de São Paulo, e quando olho isso acredito que valeu a pena todo o esforço.

Quando a gente fala em arte, em cultura, as pessoas riem, você tem que provar a todo momento a importância disso. Quando tive a oportunidade de ir para a Alemanha, vi o quanto a arte é valorizada lá. O quanto eles são respeitados. E meu sonho é trazer um pouco disso para o Brasil. A gente não pode fazer por todos, mas por aqueles que estão à minha volta e querem fazer, a gente vai lutar. 

Eu sempre procurei fazer dos problemas degraus para a gente crescer, nunca fiquei focada no problema, foco na solução. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+