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História

A real grandeza

Sinopse

Tania Vera da Silva Araújo Vicente nasceu no Rio de Janeiro em 23 de junho de 1950. Descendente de portugueses e espanhóis onde as famílias dos seus avós se estabeleceram no centro da cidade do Rio de Janeiro. Seus pais iniciaram a vida no centro e depois se mudaram para o bairro de Botafogo. O sustento de sua família vinha do restaurante de seu pai em frente a Academia Brasileira de Letra.  Passou a infância na Rua São Clemente onde brincava em casa e na rua com a irmã mais nova. Estudou a princípio em colégio particular e depois, no segundo grau, passou para o Colégio Público no turno da noite na Rua Marechal Floriano no Centro. Depois conseguiu transferência para o Colégio André Maurois, na Gávea, onde concluiu os estudos. 

Quando acabou o colégio não tinha idade para fazer prova para faculdade, então passou um ano estudando no cursinho.

Por influência dos funcionários do IBGE que frequentavam o restaurante do seu pai começou a cursar Economia na Universidade Federal Fluminense - UFRJ e Estatística na Escola Nacional de Ciências Estatísticas -ENCE. Se formou nas duas faculdades. 

No terceiro ano de faculdade, um colega da ENCE conseguiu estágio em FURNAS na área de recrutamento e seleção como estagiária de estatística. 

No último ano, na faculdade de economia, fez um curso de informática dado pela IBM.

Ficou um ano e meio como estagiária, e foi efetivada como administrativo em dezembro de 1972. 

Se candidatou a vaga de estatístico na Diretoria de Suprimentos, sendo requisitada para trabalhar na Assessoria da Diretoria, que consolidava os relatórios da Empresa. 

Passando do cargo de administrativo para estatístico. 

Nessa área trabalhou por 15 anos com diversos dados, normas, manuais e relatórios e acabou migrando para o cargo de economista. Conheceu o segundo marido nessa diretoria.

Em 1986, teve sua primeira oportunidade de ocupar um cargo de chefia na Fundação Real Grandeza na Divisão de Seguros. Permaneceu por quatro anos enfrentando diversos desafios impostos pela economia do país e pela informatização do setor. 

No Governo Collor, retorna a FURNAS e assume a Assessoria de Recursos Humanos. Durante esse período, implantou o primeiro plano de demissão voluntário da empresa. 

Nos anos 90, foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Diretora de Benefícios na Fundação Real Grandeza, onde permaneceu por 4 anos. 

Retorna a Furnas, para Diretoria de Administração como Assessora da Diretoria.

Quando o Dr. Luiz Laércio Simões Machado assumiu a presidência de Furnas, foi convidada para o cargo de Assessor da Presidência. 

Trabalhou com o controle dos projetos culturais apoiados pela Lei Rouanet.

Aposentou em 2002, após 30 anos de trabalhos prestados à FURNAS, atuou como conselheira fiscal na Após-Furnas e depois foi eleita como Presidente da Associação por dois mandatos.  

Hoje atua como Conselheira eleita pelos aposentados na Fundação Real Grandeza.

Tania Vera é casada com José Elton Tavares de Oliveira e é mãe de Fernanda.


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História completa

Um pequeno excerto sobre a vida de Tânia Vera

A Fundação Real Grandeza funcionava com empregados de FURNAS que eram cedidos para a fundação. E esse foi meu primeiro cargo de chefia, indicada por FURNAS, empregada de FURNAS, cedida para a Fundação para ser chefe da Divisão de Seguros, em 1986.  Foi uma loucura também.

 

A minha mãe nos ensinou a ler, escrever, os números, as primeiras coisas, antes de ir para o colégio, em casa, desde pequenas. Quando fui para o primeiro ano do colégio, para aprender, para ser alfabetizada, eu já era. Eu cheguei no primeiro ano do Colégio Princesa Isabel e a professora falou: “Olha, não tem o que fazer com ela aqui no primeiro ano, ela vai para o segundo”. O problema é que meu aniversário é em junho, então eu fiquei muito adiantada, eu fui para o segundo ano porque não tinha como me manter no primeiro se eu já sabia ler e escrever. As crianças não sabiam nada disso, e eu ainda tinha noções de soma, subtração, tinha noções de matemática. 

Eu fui para o segundo ano e assim sempre fiquei muito na frente, e eu era a menorzinha da sala. E depois, quando chegou o segundo grau, quando acabou o colégio, eu não podia fazer prova para faculdade porque eu não tinha idade, então eu fiz um ano inteiro de cursinho para somente depois poder fazer a prova para a faculdade. 

Meu pai teve que bancar o cursinho, que era pago. E para qual carreira eu fui? 

Meu pai tinha um restaurante, que tinha esses cursinhos em cima, no centro da cidade. E lá tinha também o Instituto Brasileiro de Geografia, o IBGE, e o pessoal almoçava com frequência no restaurante. Eu sempre fui muito boa na parte de matemática, exatas, e eu queria ser professora, até os 14 anos minha meta era ser professora. Queria ser professora, mas felizmente, e graças a Deus, não deu certo. 

Eu fiz concurso para o Instituto de Educação, que era na Tijuca, que era o lugar aonde você ia para se formar em licenciatura, mas não passei em conhecimentos gerais. Passei em português, matemática, mas conhecimentos gerais eu não passei. 

Eu fiquei tão desencantada, que não quis fazer de novo, e fui fazer o tal científico. Isso foi com 14 anos, mais ou menos. Só que aí no científico, o que eu ia fazer? Ia ser professora de matemática de faculdade? E nisso, meu pai conversando com uma das pessoas que frequentava o restaurante dele, do pessoal do IBGE... “Mas se a sua filha gosta tanto de matemática, por que ela não vai fazer estatística?” Imagina? Isso era em 1969, o pessoal nem sabia o que significava isso. Bom, eu falei: “Tudo bem, vou fazer estatística, me convenci”. Naquela época, já estava começando essa coisa de não ter tanto emprego disponível, já não era mais assim, acabar uma faculdade e já arrumar um emprego, já havia uma dificuldade para arrumar estágio, e no estágio nem todo mundo ficava depois dele.

Fato é que que eu comecei a achar que estatística era uma profissão muito específica e que eu só iria poder trabalhar no IBGE ou em alguma coisa do governo, então, eu resolvi fazer três vestibulares diferentes: fiz a prova de administração para Fundação Getúlio Vargas, que era em Botafogo, fiz a prova de economia para a UFRJ, a universidade federal, que era na Urca, e fiz a prova de estatística, para a Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. Duas delas eram gratuitas, a federal e a ENC, e a Fundação Getúlio Vargas era paga. 

Passei nas três, mas a FGV ficou pelo caminho porque eu não tinha dinheiro para pagá-la. Optei por fazer economia na UFRJ pela manhã numa época em que diziam que iriam mudar para o fundão. Até hoje está lá, não mudou, e eu já tenho mais de 40 anos de formada. E fiz a noite a ENC, que era no centro da cidade, no bairro de Fátima, que era na Rua André qualquer coisa, que agora não me lembro, ao lado do bairro de Fátima. 

A minha meta era fazer o primeiro ano das duas e ver em qual curso que eu me adaptava melhor. Ver em qual deles eu sentiria mais vontade de fazer. Também não deu certo. Fiz os quatro anos e me formei nas duas.

 Foram quatro anos duros. Sete horas da manhã eu já estava lá na Urca, meu pai me levava de carro, me deixava lá, e eu voltava de ônibus, chegava em casa, comia rapidinho. Fazia curso de inglês, duas vezes por semana de tarde, ia a pé para o curso de inglês, voltava, fazia o IBEU, Instituto Brasileiro dos Estados Unidos, também em Botafogo. E de noite, pegava um ônibus na Voluntários da Pátria, socada, porque era no horário que estava todo mundo saindo do trabalho, às vezes ia em pé, encostada na porta, para poder chegar; quando chegava no centro da cidade você tinha que passar a roleta rápido porque caso contrário depois não conseguia saltar no ponto. E ainda andava um pedação até chegar na faculdade!

No terceiro ano da faculdade, eu comecei a procurar estágio. Na faculdade de ciências e estatísticas, tinha um colega que me disse: “Ah, você está procurando estágio? Eu trabalho em FURNAS”. “Gente, FURNAS agora está do lado da minha casa, eu moro na São Clemente, FURNAS está na Real Grandeza, eu posso ir a pé”. “Você quer tentar fazer um estágio lá?” “Claro, estou botando currículo em tudo que é canto!”

Acabei sendo chamada para ir lá, fui entrevistada pelo Superintendente de Recursos Humanos da época e fui trabalhar como estagiária de estatística, mas ainda não em Botafogo. Havia um monte de pedaços soltos da empresa pelo centro da cidade, ainda não estava tudo mudado para Botafogo. 

Esse foi meu primeiro contato com FURNAS.

Eu fui trabalhar na Avenida Rio Branco, 151, na área de recrutamento e seleção, como estagiária de estatística fazendo testes. Aplicavam-se muitos testes nas pessoas que estavam sendo recrutadas, e eu fazia parte de estatística para dizer se fulano era bom, se não era, se ia passar, aprovado, aprovado com restrição, não aprovado. Nos testes que eram feitos, eu que fazia toda a modelagem da parte estatística disso. 

Trabalhei ali um ano e meio como estagiária. E estava naquele ritmo: era faculdade de economia de manhã, estágio no centro da cidade à tarde e à noite faculdade de estatística. Lembro que para sair da faculdade de estatística, a Rua Riachuelo descia a ladeira da faculdade, e eu tinha um pouco de medo, já não descia pela calçada porque ficavam uns carros parados e eu ficava com medo de alguém me pegar, como mulher. Eu descia pelo meio da rua, uma rua sem saída, e descia sempre com alguém. Mas depois eu ficava sozinha no ponto do ônibus, e lá tinha prostituição, também tinha carro parando, buzinando para mim... Eu com os livros, ficava meio com medo, mas ia para casa e mamãe estava lá me esperando com um pratinho pronto, em cima de uma panela com água fervendo, não tinha micro-ondas, que esquentava o prato pronto do jantar. 

Era uma loucura e foi assim um ano e meio. 

Tive muita ajuda do meu pai, que me levava para a faculdade de manhã e, quando eu saia do estágio, ele saia do trabalho no centro da cidade e me pegava ali na Rio Branco para me levar para a faculdade. Só depois à noite que eu vinha de ônibus. Foi uma luta boa, e perto do que ele enfrentou, para mim foi pouco.

Desenho de um círculo

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Minha mãe, ela não pôde fazer tudo o que quis, por exemplo, ela queria ter trabalhado, então ela sempre colocou na cabeça de nós duas, eu e minha irmã, que nós tínhamos que ser independentes. “Vocês não podem depender de marido, vocês têm que estudar, vocês têm que ser independentes.” 

Ela era muito dependente e não era fácil mudar. E na minha geração, eu acho que foi uma conjugação de fatores, primeiro, ter independência do seu corpo, com a pílula, porque a mulher era destinada a ser mãe e as tarefas da sociedade estavam muito bem divididas. O homem ia para a rua arrumar o dinheiro e a mulher ficava em casa, tomava conta dos filhos, e ia envelhecendo, e a que estava mais nova tomava conta dos mais velhos. O zelo sobre a casa e sua rotina ficava totalmente a cargo das mulheres. 

Depois os homens também passaram a precisar de que as mulheres trabalhassem, porque os salários foram diminuindo e um homem assalariado já não conseguia mais levar para família tudo o que precisava. Acho que foi uma conjugação de fatores que permitiu minha geração ter mais liberdade, conquistas e independência.



Desenho de um círculo

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Eu sempre trabalhei em suplementos e comecei em RH, como estagiária. Na minha área, eu era a única estagiária de estatística, mas já tinha várias psicólogas. Quando acabava o estágio, quando se formava, permaneciam um dentre cinco, e eu precisava trabalhar, meu pai e minha mãe já não tinham muito dinheiro, eu era a mais velha, então, o que aconteceu? 

Quando eu comecei a chegar ao fim da linha da faculdade, eu não sabia se FURNAS ia ficar comigo. Na ocasião, a Faculdade de Economia promoveu um curso de informática, na verdade, era de programação dado pela IBM, dentro da faculdade. Tinha que prestar uma prova e eles iam preparar essas pessoas para trabalhar depois no Instituto Brasileiro de Informática do IBGE, claro, quem passasse. Era ao lado da Mangueira, agora já acabou, até derrubaram aquilo lá. E eu me meti nessa, para variar. O que eu fazia? Eu matava uma aula para estudar para outra, tinha estágio em FURNAS, matava aula de manhã para fazer o curso de manhã, era uma loucura, porque o curso era aula todo dia, e toda sexta-feira tinha prova. Era realmente uma doideira!

 Resultado: eu passei no curso para trabalhar no IBI e FURNAS também me segurou para trabalhar, mas com uma ressalva: “Não tem o cargo de estatístico aqui, você vai entrar como uma assistente administrativa”. 

Na época, eu estava namorando meu primeiro marido, que trabalhava numa multinacional, lá na PRICE, uma empresa de auditoria grande e que não tinha tempo para nada. Pensei: “Cara, se eu for me meter em informática, programação, sem horário para nada, a gente não vai mais se encontrar”. Então, eu só fiquei em FURNAS. E por quê? Pela comodidade. Pela maior tranquilidade, por ser um emprego com horário, por ser perto de casa, isso, enquanto eu não tinha casado. Porque eu entrei no estágio em julho de 1971 e fui efetivada em dezembro de 72. Passei um ano e meio como estagiária naquela loucura! E muitos colegas de estatística ficaram falando para ir para o IBI, que eu iria ganhar mais, que eu não estava nem em um cargo de nível superior... Mas eu não fui! E depois, anos mais tarde, outras colegas que foram para o IBI vieram trabalhar em informática em FURNAS.

Foi assim que eu fiquei em FURNAS. 

Eu fiquei na área de recrutamento e seleção e fui efetivada em dezembro de 1972 num cargo administrativo que não era nem de nível superior. Só que lá, todas as vagas eu via, né? E um dia me apareceu uma vaga de estatístico. Falei: “Opa! “Quero me candidatar!”. Falei para o meu chefe, mas ele logo esmoreceu o entusiasmo: “Não, essa vaga aqui você não vai conseguir, esse homem aqui...” Era para o assistente do diretor, que era como se fosse... Naquela época, os diretores, eles trabalhavam para fora da empresa, para a parte mais política, e existia um assistente executivo em cada diretoria, e ele era o diretor para dentro, ele que tocava todos os trabalhos com os superintendentes, ele que dava as ordens. 

Havia, então, uma necessidade de um estatístico para a Diretoria de Suprimentos. Eu vi a vaga, falei com meu chefe que eu queria, e o meu chefe só faltou dizer para mim: “Você é muito novinha, esse homem é uma fera, não vai nem olhar para você”. Mas eu fui! Fui entrevistada pelo Doutor Hélio Maurício, assistente executivo da Diretoria de Suprimentos, e voltei. E nada.

Não tinha um retorno de nada. 

Meu chefe: “Não te avisei!” Bom, um belo dia, o homem ligou lá para baixo e falou assim: “Eu quero a Tânia a partir de amanhã”. Caraca! Foi uma loucura! E aí eu fui trabalhar numa assessoria da Diretoria de Suprimentos, substituindo um engenheiro que estava se aposentando, e que era responsável pelos relatórios que consolidavam todas as informações da diretoria! E também informações externas, caso a diretoria tivesse que mandar para consolidar junto à presidência e depois mandar para os órgãos externos. 

Parte de todos esses dados dessa assessoria iria ficar comigo, e foi assim que eu fui parar lá como estatística. Em FURNAS tinham apenas dois estatísticos, eu e o Roberto Ricardo, que eu já conhecia do recrutamento e seleção. 

Eu fiquei trabalhando lá com o estatístico, mas nós nunca tínhamos vez na hora de ter um aumento salarial, fazer um reajuste de tabela, porque só tinha duas pessoas e FURNAS chegou a ter 10 mil empregados. Hoje, está com 3.000, 2.600, 2.700, uma coisa assim. Até que uma hora eu falei: “Ah não”! E comecei a trabalhar com o orçamento nessa assessoria, consolidar orçamento, comecei com normas, todas as normas que qualquer órgão debaixo da diretoria fazia, comecei a trabalhar nessa área toda. Eu passei para economia. Passei para economista, troquei de cargo, aumentei as minhas atividades e fiquei por lá. 

Eu fiquei nessa assessoria de diretoria por 15 anos. E tive a minha primeira chance como chefe, minha primeira chefia. 

Meu marido foi meu chefe nesses 15 anos. Na época, ainda não era meu marido, claro, não trabalhava com meu marido, não existe isso. Mas ele saiu da chefia e foi para outra diretoria. O meu primeiro chefe depois dele foi o Luiz Fernando Bergamini de Sá, que também saiu para ser diretor da Fundação Real Grandeza. Na diretoria da Fundação existia uma divisão de seguros, e como ele me conhecia, já tinha trabalhado comigo e queria mudar o chefe de lá, ele me ofereceu para ser a chefe da Divisão de Seguros, que era dentro da Fundação Real Grandeza. 

A Fundação Real Grandeza funcionava com empregados de FURNAS que eram cedidos para a fundação. E esse foi meu primeiro cargo de chefia, indicada por FURNAS, empregada de FURNAS, cedida para a Fundação para ser chefe da Divisão de Seguros, em 1986. 

Foi uma loucura também.

Tenho passagens, assim, muito estranhas. Lembro que eu cheguei lá no primeiro dia e eles também tinham mudado de local. Todos os móveis estavam no centro da sala, os empregados todos de braços cruzados esperando e o meu diretor me apresentando: “Essa daqui é sua nova chefa”. Fechou a porta e tchau! 

Eu não conhecia as pessoas, não sabia no que cada um trabalhava, e as pessoas, os empregados ficavam me perguntando: “Onde bota a mesa?” “Bota o que aonde?” Foi maluquice! Mas graças a Deus me saí muito bem. Falei: “Atendimento ao público? Quem é atendimento para trás, vamo bora”! “Seguro de vida para cá!”; “Seguro de veículo para lá!” “Seguro de não sei o que para cá”. E fomos indo. 

Eu passei nesse cargo quase quatro anos, e foi um período muito difícil, porque as condições de trabalho eram ruins, não era naqueles prédios bonitos de FURNAS, era num sobrado lá, numa parte antiga. Uma inflação de 80% ao mês! Não tem ideia do que significa isso! Sem nada, nem um valor acoplado ao índice que pudesse ter uma correção automática disso. Era 80% de inflação, um seguro que as pessoas seguravam seus carros num valor. Imagina se o carro era roubado? No mês seguinte era menos 80% do valor do carro. As pessoas só faltavam me bater, tudo na mão, nada automatizado. E você tinha empréstimo para comprar carro, era uma loucura, foi realmente uma fase muito brava. 

Minha filha nasceu em 86, um pouco depois. E foi muito difícil para mim, porque a gente tinha que ir... Mas foi um aprendizado, se eu passei por isso aqui eu passo por qualquer coisa. E realmente, eu passei quatro anos ali, eu implantei computador, o microcomputador, porque o de grande porte era uma loucura, você tinha que ficar na fila para fazer um sistema de grande porte. Eu lá, com a água no pescoço, morrendo! Então consegui um microcomputador que não estava sendo muito usado na divisão do lado, falei com esse meu diretor: “Não, não tem condição!” E consegui colocar pelo menos apólice de seguro de veículos, que tinha essa renovação de valores absurda, e eu consegui...  

Teve várias passagens ali, passagens de greve e precisando virar... Depois passamos o sistema para o computador grande de FURNAS. E de greve, ter que ir lá para pegar os pedidos de seguro, que estavam sendo emitidos pelo computador, e conversar com o sindicato para poder entrar, para pegar os pedidos para levar para seguradora, para fazer não sei o quê, para rodar a apólice. Trabalhar até uma, duas horas da manhã, então, foi uma fase difícil, principalmente porque depois eu também estava com uma filha de dois anos. Quase perdi minha voz porque trabalhava em cima das oficinas de FURNAS. Teve várias passagens, mas valeu!

 

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A cultura da empresa nos anos 70? Muita hierarquia. 

Eu me lembro que eu fiquei um ano e meio no centro da cidade, era mais tranquilo, mas tinha todo um código a ser seguido, por exemplo, uma mulher não trabalhava de calça comprida, era sapatinho de salto, meinha fina, o comprimento da saia lá para baixo do joelho, no joelho, no máximo. Os homens que trabalhavam de calça comprida. 

Depois houve a mudança do centro da cidade para Botafogo, mas não passei para os blocos, primeiro passei por uma estrutura que dava lá para a Rua São João Batista, uma estrutura pequena, onde era o recrutamento de seleção. Eu fui para os blocos quando eu virei estatística, quando fui para a assessoria.  Fui parar no décimo andar. 

Em cada andar de FURNAS tinha uma diretoria, e naquela diretoria tinha o diretor, as assessorias mais próximas ficavam com ele, e os outros ficavam nos outros blocos. Tinha o serviço de garçom, trazendo cafezinho. Dentro do bloco A havia um elevador só para diretores, assistentes e níveis de superintendente, que era abaixo do diretor. Abaixo do diretor você tinha um assistente executivo, que era quase que um diretor e tinha os superintendentes, eles podiam pegar aquele elevador. 

No último andar também tinha um restaurante, só para esse mesmo grupo, diretores e para as pessoas que vinham para reuniões, que eram convidados para almoçar. Nós chamávamos esse restaurante de “chão de estrelas”, e a gente tinha o nosso bandejão no subsolo.

 Com o tempo, isso foi mudando.  O primeiro a perder foi o elevador, muito chefe começou a dizer “eu não vou nesse elevador, eu vou no normal”. E por último foi o restaurante, que demorou bastante para sair. 

FURNAS tinha setor, depois, acima, era divisão, depois era departamento, depois superintendente e o diretor. Tinha essa escala de graduação. Depois foi tudo encolhendo. 

E outra coisa: quando FURNAS tinha 10 mil pessoas, nós tínhamos só 1000 mulheres, hoje são 20%. Eu fiz essa pesquisa outro dia, mulheres no balanço de FURNAS. E assim, na época, os cargos eram na biblioteca, copa, cargo de chefia era praticamente nenhum. Chefia da biblioteca, chefia de documentação, mas não mais que isso. 

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Era um ambiente bem mais masculino, e a gente ouvia falar, hoje chamamos de assédio, mas na época não se chamava isso. Quando a pessoa era assediada, quando alguma mulher era assediada, simplesmente tentava mudar de lugar, saia fora! Mas existia! Esses casos sempre existiram, sempre existiram. Não comigo, graças a Deus eu não tive isso. Mas você via que na hora que vinha uma chefia, ninguém pensava numa mulher, era como se fosse privativo de homens. E eu até acho que eu quebrei um pouco esse paradigma porque fui ser chefe de divisão na Fundação Real Grandeza. 

Quando veio o governo Collor, houve uma alteração de diretor em FURNAS - como toda vez que muda o governo - e um dos diretores era um colega da financeira, o Gilber, que eu tinha ajudado a fazer uma tese. Quando ele virou diretor, ele quis fazer uma composição da diretoria e me chamou, junto com outras pessoas. Nós o ajudamos na construção dessa nova diretoria e eu fiquei sendo chefe, sai da divisão da Fundação Real Grandeza, voltei para FURNAS e assumi uma chefia de uma assessoria de recursos humanos. Que também foi uma pedreira!

Quer dizer, saí de uma pedreira de um jeito e fui parar numa outra pedreira. 

Eu fiquei um ano e meio na época do Collor, quando nós tivemos a meta de demitir mais de 2.000 pessoas. E era minha assessoria que ia lá em Brasília, eu que ia escutar aquelas barbaridades e voltar tendo que executar. Foram muitas noites sem dormir, tentando resistir a esse golpe o mais possível, mas dentro da obrigatoriedade de cumprir porque é uma empresa do governo, tem que cumprir as determinações, sabendo que aquilo não podia ser daquele jeito. 

Foi uma fase duríssima também, que às vezes a gente pensava... Em todos os meus cargos de chefia, foi a primeira vez que eu tive oportunidade de fazer equipe, que eu consegui fazer a minha equipe, porque era uma assessoria nova. Uma assessoria que tudo que não era pessoal, não era treinamento, não era desenvolvimento, caía comigo. Foi uma assessoria que fez o primeiro plano de demissão incentivada de FURNAS, lá nos anos 91. 

Eu consegui formar uma boa equipe, mas era uma loucura. Às vezes, chegava 17:00 horas da tarde, todo mundo pronto para ir embora, 17:30, 18:00, ligava o diretor e dizia assim: “Segura todo mundo aí que está chegando um fax de Brasília, vai trocar tudo, vai trocar não sei quantas informações para amanhã.” E a gente virava a noite lá.

Foi uma fase dura, depois disso, o próprio Gilber me tirou dessa assessoria e fez uma proposta para a diretoria de FURNAS, para eu ser uma das diretoras da Fundação. E eu fui. Acho que nos anos 90, comecinho de 90, fui Diretora de Benefício na Fundação Real Grandeza, indicada por FURNAS. A primeira mulher na diretoria da Fundação. 

E aí eu pegava de tudo. Pegava plano de saúde, empréstimos, seguros, pegava também toda a parte de assistentes sociais de FURNAS pelo Brasil inteiro, professores de educação física que tinham nas Vilas, menos previdência. 

As vilas, no início, elas eram muito afastadas da cidade, então, para as pessoas irem para lá trabalhar, você tinha que criar toda uma infraestrutura. Você dava casa, clube, tinha assistente social, médicos, tinha que ter tudo, porque a cidade era longe. Com o tempo tudo isso foi se desfazendo porque as cidades foram se aproximando das vilas, o governo foi cada vez mais saindo fora, as estatais foram sendo cobradas por baixar custos. Do tipo, não precisa mais da casa, não precisa ter clube, os associados que paguem. Mas lá atrás não era assim, do Collor para cá, foi desmobilizando tudo. 

Na época do Collor foi feito um PDV, um Plano de Desligamento Voluntário, que atingiu os aposentados ou aposentáveis, não era para qualquer empregado, era para os aposentados e os aposentáveis. Quanto mais tempo você faltasse para cumprir os requisitos da fundação, você ganhava lá um dinheirinho. Se você estava pleno para poder se aposentar pela Fundação Real Grandeza, você não ia ganhar nada, um pouco, por ser demitido. Cumpria-se a regra.

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A Fundação da Real Grandeza na verdade é um fundo de pensão. O que é isso? Ela foi criada por FURNAS lá nos anos 70, para ficar com parte da previdência de seus empregados, ou seja, para que os empregados não só recebessem o benefício do INSS, mas também uma complementação. Os funcionários contribuíam a vida inteira, e FURNAS também contribuía com uma parcela igual para esse fundo de pensão, para quando eles preenchessem todos os requisitos de aposentadoria, um deles é se aposentar pelo INSS, eles estariam aptos a pedir um benefício de complementação de aposentadoria da Fundação Real Grandeza. 

Ela é uma entidade muito importante, ela tem 12 mil aposentados, 12 mil famílias, e ainda temos o pessoal que está na ativa em FURNAS, mais 3.000 pessoas ainda contribuindo. A Fundação paga aposentadoria para mais de 12 mil famílias e também administra um plano de saúde de autogestão próprio. 

Isso foi feito em todas as grandes estatais, tem a Previ no Banco do Brasil, a Petros na Petrobrás, você tem a Funcef da Caixa Econômica Federal. Porque lá atrás, para você manter um profissional qualificado, quando FURNAS estava no crescimento, construindo usinas, não sei o quê, você tinha que conviver com a iniciativa privada roubando toda hora alguém. Ou você dava salários muito altos ou você tinha que dar benefício. Um modo de segurar os empregados era dar o benefício de previdência e de saúde, pois o sistema público já estava começando a não aguentar a fornecer um serviço de qualidade. 

 

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Quando eu estava em FURNAS, não havia uma política da empresa para incentivar a entrada e o crescimento das mulheres, não foi uma mudança de cultura. No meu caso, eu simplesmente conhecia o diretor que me indicou, um colega que já conhecia meu trabalho depois de anos.

Hoje, não, a gente vê as políticas, isso não existia. Hoje, você vê políticas para cota racial, políticas voltadas às mulheres, LGBT. Não foi uma decisão de FURNAS, nós vamos começar a colocar mulheres nos cargos gerenciais, não, não foi. Mas foi assim, concurso. As mulheres começaram a passar nos concursos, estágios, as mulheres começaram a chegar lá nos estágios. Por quê? Porque elas começaram a chegar nas universidades. É a mesma coisa do deficiente, por que que o deficiente não entra? Ele não entra porque não tem estrutura nenhuma para a educação. Como é que um deficiente que não tem transporte próprio vai chegar no lugar? Agora pode ser. O mundo está mudando, agora nós vamos mudar, a tecnologia, essa pandemia, deu uma sacudida. E deu uma sacudida para melhor, um mundo melhor. 


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