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História

A rainha da “Viloteca”

História de: Andreia Abud
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/09/2017

Sinopse

Uma memória de infância marca até hoje a vida da paulistana Andreia Abud. Da casa em que cresceu, no bairro de Santana, ela se lembra de um quartinho especial, onde passava horas brincando com as bonecas e se sentia no melhor lugar do mundo. O apelido que, quando criança, ela deu a esse cantinho – “Viloteca” – acabou virando sinônimo de lar: é também assim que seu marido e seus dois filhos chamam a residência da família. Formada em Publicidade, Andreia conta como seguiu os passos profissionais de seu saudoso pai e como lutou para dar início à carreira independentemente da boa fama que, graças a ele, seu sobrenome já tinha no mercado. Ela também fala dos desafios de atuar com uma companhia global no mercado brasileiro de uma multinacional e de conciliar a agitada profissão com sua amada “Viloteca”.  

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História completa

Meu nome é Andreia Maria Abud, tenho 44 anos, nasci em São Paulo. A gente morava numa rua, numa ladeira com muitas pessoas amigas. A minha mãe e eu, a gente conserva amizade com algumas pessoas dessa rua até hoje. Da casa, eu lembro de um quintalzinho pequeno, com um chão amarelo e preto de quadradinhos. E eu me lembro de pessoas ali muito amigas. Santana é um bairro meio de interior, tinha muito aquela coisa de se deixar a porta aberta, sair, entrar na casa de um, de outro.

 

Eu adorava brincar na rua, mas nem sempre minha mãe deixava, porque eu era uma das mais novas ali. Eu brincava de queimada, eu brincava na “viloteca”, de tocar a campainha das casas dos vizinhos e sair correndo, eu brincava de boneca. Mas os momentos mais felizes pra mim eram mesmo na “viloteca”. A “viloteca” era um lugar em que eu ia quando eu era pequena. Eu me lembro muito bem das pessoas me perguntarem: “Andreia, o que é a ‘viloteca’?” E eu falava: “‘Viloteca’ é a ‘viloteca’.” Eu não entendia por que as pessoas não sabiam o que era “viloteca”. Minha mãe falava: “É discoteca?” Eu falava: “Não, é ‘viloteca’.” “É biblioteca?” “Não, mãe, é ‘viloteca’.” E era um lugar em que eu ia quando eu era pequena, um lugar nessa casa, um quartinho onde eu brincava com as minhas bonecas, onde me sentia muito bem.

 

Um dia, o meu marido veio com um texto em que ele descreveu a “viloteca”, exatamente o que era a “viloteca”. É um texto muito lindo, eu não sei nem dizer, mas ele diz que a “viloteca” é um lugar que tem muitas cores, que tem muitos cheiros, que tudo cheira a fruta, que toca a música que a gente quer, que tem muito respeito, que tem muita alegria. É um texto muito bonito. E no final ele diz que esse lugar tem uma rainha e aí ele me chama de rainha da “viloteca”, e eu chamo ele de rei da “viloteca”, e as crianças são os príncipes da “viloteca” (risos). As pessoas podem achar que é tudo meio doido lá em casa, mas os meus filhos, por exemplo, têm muito claro o que é a “viloteca”. Então, vai na casa da Andreia e do Alê? Não: “Nós vamos pra ‘viloteca’.”

 

Eu admiro muito a história do meu pai, porque ele era publicitário, e eu sou mídia. Meu pai era mídia, só que naquela época não existia faculdade de Propaganda. Meu pai estudou até o terceiro colegial. E ele soube de uma vaga de mídia, que ele não sabia o que era, mas ele precisava trabalhar. Ele foi se candidatar pra essa vaga e quem o atendeu foi o Rodolfo Lima Martensen, na agência Lintas, que perguntou se ele sabia fazer conta, se ele sabia... Ele falou que ele sabia tudo. Seu Rodolfo Lima Martensen entregou pra ele um bolo de papel e falou: “Tá aqui, então vai lá e faz.” Ele contava que ficou com aquilo na mão. “Você não sabe fazer, né?” Ele falou: “Não, não sei, mas se você me ensinar, eu aprendo.” Aí, o meu pai virou um pupilo de um grande nome da propaganda, e ele foi mídia até morrer.

 

O meu pai fundou o grupo de mídia no Brasil, é uma pessoa que foi muito conhecida nessa área de mídia. E eu me lembro, quando era pequena, de ir à agência com meu pai. E o meu pai tinha a conta da Colgate na época, e eu vim, depois de muitos anos, a também trabalhar na Colgate.

 

Quando eu era pequena, eu queria ser faxineira, porque eu achava o máximo quando via a faxineira na casa da minha mãe, fazendo as coisas, e que ela se arrumava pra ir embora. Eu achava superbacana. A minha mãe falava: “Você tem certeza? Será que você quer ser faxineira mesmo?” Eu falava que eu queria. Depois, eu quis fazer Medicina uma época, quis ser veterinária. Eu acho que foi lá para o final mesmo, para os 16, 17 anos, que eu quis ser publicitária.

 

Na faculdade, as pessoas olhavam pra mim e falavam: “Para a Andreia vai ser fácil entrar numa agência por causa do pai.” O que eu fiz? Fui trabalhar em marketing, só que não era o que eu gostava, eu gostava de mídia, porque eu gostava mesmo e gosto até hoje, eu amo o que eu faço. Foi aos 24 anos, quando o meu pai morreu, que eu falei: “E daí que ele também é mídia? Eu também vou ser. Ele me inspirou, mas eu vou procurar um emprego nessa área.” Eu larguei marketing e fui ser mídia.

 

Meu marido era muito meu amigo, era meu melhor amigo. Trabalhava na mesma agência que a minha. Eu já tinha o Cauê, meu filho. Ele tinha nove meses quando eu me separei e logo depois eu comecei a namorar com o meu marido. Ele era um amigo querido e um dia chegou pra mim e falou que já me amava, que não era só meu amigo.

 

Um dia, o Cauê tinha dormido, a gente foi assistir a um filme. Ele abriu o DVD, falou: “Vamos assistir?” “Vamos.” Eu me sentei na sala, e aparece ele no vídeo, contando um pouco da nossa história. E ele me pede em casamento no vídeo e dá um pause. Ele fala assim: “Se você aceitar, abre esse armário aqui embaixo da televisão.” Eu abri o armário, lá dentro tinha uma caixinha que tinha a aliança, que a nossa aliança é de “mokume gane”, e tinha um calendário. Isso foi em dezembro, e o calendário só ia até março do outro ano. O calendário era pra eu marcar já a data naquela hora, eu não podia marcar depois (risos).

 

Nós nos casamos na praia. A gente fechou uma pousada pé na areia, só fomos nós e família, tinha 20 pessoas, minhas irmãs, meus cunhados, meus sobrinhos, as irmãs dele, pai e mãe. Eu entrei com o Cauê no colo, ficamos com o Cauê o casamento inteiro no colo. Foi um casamento de almas, que a gente fala. A gente estava descalço e foi assim. Depois, foi todo mundo para o mar, a gente pôs um barquinho pra Iemanjá, e foi o casamento da minha vida.

 

Eu não pensava em ser mãe, não era uma coisa que eu tinha como meta, só que é uma coisa indescritível na sua vida. Impressionante o quanto aquilo te vira do avesso. Eu acho que, quantos filhos eu tiver, tantos filhos vão me virar do avesso.

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