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A professora inventadora de modas...

História de: Ynah de Souza Nascimento
Autor: Ynah de Souza Nascimento
Publicado em: 06/03/2010

História completa

Iniciei, oficialmente, minhas atividades docentes, no ano de 1976, na Escola Estadual Caetano Belloni, no município de São João de Meriti, baixada fluminense. Exatamente em 16 de junho, mediante um concurso público, comecei a dar aulas para oito turmas de 5ª série. Quem já ouviu falar dessa região sabe como são precárias as condições de vida das pessoas que lá vivem. E o espaço em que se localiza a escola não é diferente. A maioria da população, oriunda da região nordestina do Brasil, aglomera-se em favelas, vivendo todo o tipo de dificuldade. As injustiças sociais são o “feijão-com-arroz” dessas pessoas. A violência é sua mais constante companheira. Recebi uma educação modesta – afinal, meu pai, o único a trabalhar, era sargento da Marinha e sustentava uma família com seis pessoas. No entanto, nunca passamos fome ou algum tipo de privação. Embora eu tenha trabalhado para poder cursar a Faculdade de Letras da UFRJ. Claro que eu ficava invejando as vitrines com roupas bonitas, sem poder comprá-las e, durante um bom tempo, meu sonho de consumo na escola era merendar um cachorro-quente... Mas fome eu conheci nessa escola. Tanto que a merenda era servida antes das aulas, para que os alunos pudessem prestar atenção às aulas... Alunos e escola carentes, mas professores dispostos a trabalhar e alunos desejosos de aprender. Tínhamos tudo para levar adiante um trabalho diferente. E assim eu fiz ao aceitar o convite do professor de História – Clóvis – para participar da montagem da peça “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto. Nem precisa dizer que o texto tinha tudo a ver com a nossa comunidade – filhos, na sua maioria, de retirantes nordestinos que haviam abandonado suas terras em busca de vida melhor. A peça seria feita pelos alunos e apresentada às famílias no encerramento do ano. Havia um teatro na Igreja da Matriz de São João de Meriti e o padre emprestava o espaço para nossa “companhia”. Eram muitos ensaios, claro que fora do horário de aula. E um dia eu escutei uma “pérola” de uma colega que dava aulas na 2ª série. Ele me perguntou: - Quantos anos você tem de magistério? Envergonhada de dizer que não tinha nem um ano, eu respondi: - Quase um ano E ela, imediatamente, acrescentou: - Quero ver quando você tiver 10 anos de sala de aula, como eu, se você ainda vai inventar novidades para os alunos... Não me lembro o nome da colega, mas nunca me esqueci desse comentário dela. Apenas gostaria que hoje, passados 28 anos, o episódio servisse para reflexão de todos aqueles professores que estão sempre “inventando moda”. Esse texto foi uma das maneiras que encontrei para mostrar que independente do lugar, salário e experiência profissional sempre vai haver algum professor inventador de modas... Graças a Deus (História escrita em 4 de março de 2004, enviada ao Museu da Pessoa em março de 2010)
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