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História

A professora coração de ouro: missões cumpridas

História de: Maria Aparecida Pereira de Castro Augusto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2019

Sinopse

Maria Vanusa, a filha de Wanda, foi tida como morta aos oito meses. Voltou à vida, talvez num milagre ainda por explicar. Recebeu novo registro: Maria Aparecida, em agradecimento à Padroeira. Criada como adotiva, um dia conheceu a mãe e a sua verdadeira história: seu pai era o tio que a criava, com a santa da mulher. Estranhamente, assim como ela fora acolhida pela tia, amada como filha, em que pese o pecado envolvido, também sua vida pautou-se pelo acolhimento, por ajudar, fazer o bem, amar: a irmã autista; o pai cego; os deficientes que foram colocados em seu caminho. Com ênfase para Pietra, elemento-chave de seu trabalho, a missão que Deus lhe entregou e que ela, com competência e dedicação, soube cumprir. A menina surdocega que ela levou a se comunicar com o mundo. E, por fim, acolheu o seu prêmio maior: os filhos gêmeos que adotou e que tanto bem lhe fizeram.

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História completa

A história da minha vida começa, na verdade, antes do meu nascimento. Contempla um episódio inusitado. Dele resultou até a troca do meu nome. Sou fruto de um incesto: meu pai era meu tio-avô. Tio da minha mãe. Grávida, restou à minha mãe refugiar-se na casa da avó, na Bahia. E lá eu nasci. Numa vila de nome Crenhenhem, histórica, tombada. Chamaram-me Maria Vanusa. O documento do batismo o atesta. Ocorre que, estando eu com oito meses, minha mãe se enfia num pau de arara e vai para São Paulo. No meio da viagem, eu tenho um ataque de alguma coisa e, supostamente, morro. Catalepsia? Simples desmaio? Até hoje não se sabe. O fato é que providenciaram lá o documento para me enterrar naquela lonjura. Salvou-me um tio, que não concordou e me trouxe para sepultar em São Paulo. Nesse ínterim, eu, milagrosamente, volto a mim. Depois do susto, a constatação: eu estava oficialmente morta. Solução: registrar de novo. Aí surgiu a Maria Aparecida, em homenagem à Padroeira.

 

Mas eu vim fadada a surpreender: minha mãe me deixa, enrolada como uma trouxa de roupa suja, na porta da casa do meu pai - ou meu tio-avô. E minha tia-avó, a mulher dele, me acolhe e me cria como filha. Não como filha do pecado do marido, mas como filha amada, cuidada e acarinhada. Uma criança a quem ela amou incondicionalmente. Tanto que dizia:

 

A gente tem que ver o hoje. O amor é uma coisa de agora, não é uma coisa de ontem e nem de amanhã. O amor é neste momento.

 

Mas, se minha mãe adotiva - dona Neném - me amou sem reservas e sem se ater às circunstâncias, por muitos outros eu fui julgada, condenada, discriminada, pessoas cruéis que se referiam a mim como “trouxa de roupa suja” e que apostavam que eu também erraria, também pecaria, para poderem apontar o dedo: “Olha, igualzinho à mãe dela”. Muitos anos mais tarde, minha mãe Neném calou a boca de todas essas pessoas. Ao comentar a reforma que eu mandara fazer na casa dela, disse com orgulho: ”Pois é, foi a minha trouxinha de roupa suja que me deu”.

 

Até os 12 anos eu imaginava ter sido adotada por dona Neném e o marido. Um dia aparece, do nada, a minha mãe biológica. Grávida e disposta a morar por perto para ter contato comigo: “Sou tua mãe”, ela disse num repente. Aproximou-se, minha mãe adotiva não a impediu de me ver, de conviver, de se aproximar, mas eu jamais consegui ter com ela uma relação de filha e mãe. No máximo, de amiga. Nunca consegui, por exemplo, chamá-la de mãe. Mãe era minha mãe adotiva. Mas depois me arrependi por negar-lhe maior proximidade, maior afeto talvez - assim como um dia ela chegou na minha vida, do nada, também um dia ela se foi: morreu em um acidente de carro. Deixou a minha irmã, autista, com seis anos de idade. Desta, sim, eu havia me aproximado e muito. O meu bibelô. Por quem eu sempre tive uma afeição especial, e que mais tarde alfabetizei plenamente e, de certa forma, preparei para a vida, apesar de sua deficiência. Com 17 anos fui emancipada para assumir a Joice como sua tutora legal. Para criá-la, educá-la e amá-la.

 

Meu pai havia ficado cego e eu, mais do que nunca, precisava trabalhar. Resultado: minha mãe, dona Neném, foi quem, na prática, criou a minha irmã. Com a Joice então, ela passou a criar quatro meninas, inclusive eu, sem nunca ter conseguido ser mãe. Curiosamente, na dinâmica da minha vida, a minha própria trajetória pessoal foi moldando a minha vida profissional. Fiz Artes e fiz Arte Terapia. Trabalhei com autista (irmã), com deficiente visual (pai) e com deficientes auditivos (monitoria-faculdade). Não podia ser coincidência. Eu estava sendo preparada. Então, eu pretendia uma monitoria, acabou surgindo outra, que exigiu mais de mim: o curso de libras, que me preparou melhor ainda.

 

Recordo-me de que, criança, queria ser jornalista. Achava que escrever era a forma de expor meus sentimentos: até hoje acredito que no que a gente escreve está a alma da gente.

 

Acabei fazendo Artes e virei professora. Parece que identifiquei a magia do ensinar quando alfabetizei a minha irmã autista. E aí, até entrar para a faculdade, a minha vida girou em torno desse objetivo - tanto que fui a décima quinta colocada - e depois, sair da faculdade, formada no sentido de portadora do conhecimento. Mas foi um período conturbado e de sacrifícios: de ordem material, afetiva, emocional, uma carga de responsabilidades enormes, a relação com minha mãe biológica, sua perda repentina. Então, eu me resumia a estudo; trabalho; estágio; cuidar da Joice, acompanhando sua deficiência, sua capacidade de superação; atender o meu pai em sua cegueira, mesmo sem ele merecer - ele era frio, distante, violento com todas nós. E aí, é de se perguntar: e eu?

 

Eu encontrei o cara perfeito - paciente, queria namorar, noivar, casar, amigo, companheiro, estudioso como eu, um temperamento oposto ao do meu pai. Aí me permiti realizações de ordem pessoal, sentimental, amorosa, e até sexual - eu era até então meio que assexuada. Ou seja, casei-me, fui mãe. Em que pese esse aspecto da maternidade ter sido extremamente traumático: um único sucesso em seis gestações de alto risco, que me custou, inclusive, uma depressão profunda. Mas me trouxe, também, o meu único filho biológico, hoje com 14 anos. E a decisão de adotar: um casal de gêmeos, com apenas 17 dias.

 

No campo profissional, tenho sido feliz e realizada: Prêmio Paulo Freire, Prêmio Territórios Sensoriais Tomie Ohtake e Professora Giz de Ouro. Mas, sem dúvida, a realização maior foi ter encontrado a Pietra. Assim como a Joice, minha irmã autista, é um capítulo à parte, a Pietra é um desafio, um aprendizado, a síntese do meu trabalho e dos meus sonhos como profissional. Considero a Pietra um chamado, uma missão que, para muitos, já avançou o suficiente, mas que eu sinto que ainda existe o que fazer, o que caminhar com ela para considerá-la missão cumprida. Porque eu sinto que ela tem possibilidade de ir além, de chegar à Universidade, se assim desejar. E pelo menos como profissional, eu só vou considerar a missão cumprida quando ela estiver alfabetizada em braile e quando ela puder ir para o ensino médio aprendendo conceitos, como todas as outras crianças.

 

E a Pietra foi o momento-chave da minha profissão. Eu sinto como se tudo o que eu tivesse vivido no decorrer da minha história com a minha irmã; com o meu pai; lá na Bienal com os surdos, tudo desembocou na Pietra. (...) Eu vou estar com ela até o nono ano como guia intérprete e professora mediadora. (...) Ensinar uma garota surdo-cega, sem comunicação nenhuma, para mim foi o maior presente, a maior oportunidade que Deus me deu.

 

Agora, é preciso reconhecer tudo o que já foi feito, porque eu peguei essa menina, há dois anos, com onze anos, sem que ela estabelecesse qualquer contato com o mundo exterior - ela não se vestia sozinha, não ia ao banheiro sozinha, e hoje ela vai… Ela começou a dar respostas, a aprender o mundo, a exteriorizar suas necessidades e seus sentimentos. Eu a levo a eventos, jogos, capoeira, música, Pinacoteca. E ela tem 200 palavras em libras tátil, ela se comunica comigo e ela se comunica com a família.

 

Então, o meu foco profissional hoje é a Pietra. E eu sonho, é óbvio, com o crescimento saudável dos meus filhos. Não apenas que eles se formem e sejam felizes, mas que façam diferença no mundo, tenham caráter, sejam pessoas de bem.


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