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História

A primeira representante da Avon

História de: Ângela Maria Rocco Prates da Fonseca
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/06/2020

Sinopse

Nasceu em São Paulo. Começou a trabalhar aos 17 anos. Em 62 foi trabalhar na Avon. Recebeu um prêmio com 25 anos de empresa. Foi a primeira representante da Avon. Casada, com três filhos. Mora em São Sebastião.

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História completa

P – Bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P – Vamos começar com a senhora falando o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R –  Ângela Maria Rocco Prates da Fonseca. Nasci em São Paulo, em 1933. É isso?

 

P – Isso, exatamente. E, dona  Ângela, o que é que a senhora faz hoje? Qual a sua atividade?

 

R – Hoje eu moro na praia, em São Sebastião, numa praia que é muito linda. Tenho uma pequena pousada lá. E sou vendedora de palmito. Eu aprendi a vender com a Avon e vendo até hoje.

 

P – Qual o nome dos seus pais?

 

R – Ana Guerra Rocco e Roco Rocco. São italianos, por isso.

 

P – Qual era a atividade profissional deles?

 

R – Meu pai era cabeleireiro, e minha mãe prendas domésticas.

 

P – E seu pai era cabeleireiro onde, em que local?

 

R – Não Barão de Itapetininga, na Casa Cosatto. E ele atendia em casa, uma nata da sociedade. Porque ele cortava cabelo muito bem. E meu avô queria que ele fosse dentista, sabe, essas profissões mais, mas ele fugia. Ele era pequeno ainda, tal, mas, e havia os cabeleireiros lá na Itália ainda, cortar cabelo. E ele que lançou o corte a lá garçonne, isso não é da época de vocês, a lá garçonne no Brasil. É corte à navalha. Então ele se saiu muito bem.

 

P – Então seus pais eram da Itália?

 

R – Da Itália.

 

P – E a senhora sabe que região da Itália?

 

R – Sei, era perto de Salerno. 

 

P – Os dois.

 

R – A mamãe era da Sicília. Porque tem Palermo, que é a capital da Sicília, mas meu pai era de Salerno e minha mãe da Sicília.

 

P – E eles se conheceram aqui.

 

R – Aqui.

 

P – E com quantos anos eles vieram para cá, a senhora sabe?

 

R – A mamãe deve ter vindo, porque a mamãe foi artista até os 17 anos. E vocês querem que eu conte?

 

P – Claro.

 

R – E meu pai foi assistir o espetáculo dela, que ela era bailarina clássica. E o que aconteceu que ele se apaixonou. E não quis que a minha mãe continuasse viagem. Porque ela trabalhava para a companhia onde meu avô era gerente. E ela nasceu no teatro. Então quando o meu pai se apaixonou a família, minhas tias, minha avó não, naquela época artista era assim, não era bem, não tinha respeito pelo artista. Não é como hoje. E meu tio foi verificar no navio como, porque eles iam e voltavam para Montevidéu, para Buenos Aires, como era o procedimento da minha mãe para poder casar com meu pai. E ele ficou encantado, porque ela era como uma, como se diz? Um biscuizinho da companhia, porque ela nasceu no palco. E aí meu pai se apaixonou e ela não voltou mais. Ele arrumou um emprego para o meu avô, que era gerente da Companhia Vitale. E eu estou assim sabendo porque há pouco tempo eu olhei o álbum dela e os recortes de jornal. Então foi assim, meu avô ficou em São Paulo, porque arrumaram um emprego para ele no Teatro Santana, dentro da linha de teatro. E aí minha mãe começou a trabalhar com prendas domésticas em casa. Só isso.

 

P – A senhora tem irmãos?

 

R – Tenho, mas já falecidos. Da minha, do meu, como se diz? Dos meus parentes da minha geração todos já morreram. Só fiquei eu. Eu sou a raspa de tacho mesmo. Até na morte. (risos)

 

P – Tá bom. Vamos falar um pouco da sua infância. Onde a senhora morava?

 

R – Eu morava na Água Branca, onde era a Sears, depois de muitos anos abriram a Sears. E era aquele miolo da Água Branca que eu comecei a trabalhar. Que eles deram aquele setor para mim, porque o setor era aonde você morava. Então eu fazia toda aquela área: Germaine Bouchard, Costa Junior, Avenida Antártica, que agora mudou muita coisa, lógico. Mas era, o meu setor era lá, onde eu nasci. Quer dizer, nasci não, eu fui acho que com dois, três anos para lá. 

 

P – Lá para a Água Branca.

 

R – Lá para a Água Branca.

 

P – E a senhora lembra como era lá quando a senhora era criança? A sua casa, como era o cotidiano da família?

 

R – Lembro. Lembro sim. Eu tive uma infância assim com muito amor da minha família. Porque meus dois irmãos eram bem mais velhos do que eu. E eu, como digo, sou raspa de tacho. Meus irmãos já morreram, e também já estou com 75. Então, imagina, eles já deviam estar com 100 anos. (riso) Mas eu tive uma infância rodeada com muito amor, dos meus irmãos, dos meus pais. Nunca eu fiquei de castigo. Nunca. Eu me punha de castigo porque eu falava: "Por que só eu não fico de castigo?" Então eu fechava a porta do quarto, ficava recortando figurinha, sabe, fazendo as coisas. Minhas amigas iam me chamar eu falava: "Não posso sair, estou de castigo." Minha mãe nem sabia que eu fazia essas jogadas. Porque eu queria ser igual às pessoas. Como eu nasci depois de 12 anos do meu irmão, meu pai já era um senhor. Porque ele casou com uma diferença muito grande da mamãe, 13 anos parece. E então eu fui criada assim, feito um biscuizinho, entende? Para você imaginar que eu nunca fiquei de castigo, então era uma coisa. Uma coisa que eu me lembro tão bem é, eu tinha uma amiga que o pai era dono de padaria. E eu adorava aquela Goiabada Peixe. Se eu pedisse para o meu pai ele comprava a caixa, mas eu não pedia. Eu não era muito de pedir as coisas. É engraçado, até hoje eu não peço, se eu quero alguma coisa eu vou e faço. Então o que eu fazia? Eu fazia troca. Pode contar essas coisas? Eu fazia troca de mussarela que o papai comprava, aquela mussarela deliciosa numa casa lá na Praça da Sé, Argenzio, que foi muito famosa em laticínios. E ele comprava e eu trocava. Eu dava uma mussarela para ela, ela dava uma fatia de goiabada para mim. E foram coisas que me marcaram. E o pai tinha essa padaria, e na época, que era no Largo das Perdizes, e na época de quermesse eu ficava vendendo doce para ele. Adorava. Sabe assim na padaria. Você vê que é um instinto mesmo de venda, né? Eu sempre gostei, desde pequena. Eu nunca gostei muito de brincar com boneca. Eu enchia uns vidrinhos de água e punha tinta vermelha, tinha azul, e dizia que eu que tinha fabricado aquilo, entende? Então a minha vida era para ser vendedora mesmo.

 

P – Então a sua brincadeira preferida era vender coisas.

 

R – Vender coisas. E tinha uma boneca - mas era de papelão - onde as roupinhas eram com recortes e você, então eu adorava vestir aquela boneca. Porque eu trocava de roupa toda hora nela. Mas era só aquela de papelão. Essas bonecas assim de louça eu não gostava. Mas se eu quisesse eu teria, porque eu te digo, eu fui tratada assim a pão-de-ló. Depois a vida tirou todo esse pão-de-ló. Que a gente teve uma vida muito complicada.

 

P – E a senhora lembra como era o bairro?

 

R – era um bairro muito bom. Muito bom porque tinha uma vizinhança ótima. Você jogava barrabol na rua com as amigas. Você brincava de mocinho e bandido, era muito bom. As vizinhas, a vizinhança toda a gente, do nível da gente, porque a nossa rua era uma rua boa. Não que nosso nível é superior, não é isso que eu quero dizer. Mas era mais ou menos todos mesmo, da mesma educação, estudávamos todas no mesmo colégio. Então foi muito bom. É uma época muito boa na minha vida. Depois eu fui estudar no Colégio Santa Marcelina, e logo depois eu comecei a namorar meu marido. Então as freiras não queriam que ele fosse me buscar, ele me esperava na esquina. Então eu fugia e ia namorar. (risos) Aí, nós namoramos seis anos. Eu tinha 14 anos, imagina.

 

P – A senhora falou que brincava na rua. Como que era o nome dessa brincadeira?

 

R – Barrabol, queimado.

 

P – Como era?

 

R – Queimado era uma delícia. E todo mundo queria que eu ficasse no time deles, porque eu era pequena e era magrinha, então a bola não me pegava. Então, e eu era muito ágil, e eu era muito ágil, então todos queriam que eu ficasse do lado delas. Eu adorava, era uma brincadeira maravilhosa. Toda tarde a gente brincava. E, engraçado, eu olhava para baixo na minha rua, passava o trem lá embaixo. Tem a Avenida Francisco Matarazzo hoje, sempre teve, que era Avenida Água Branca, e atrás passava o trem. E eu falava assim: "Por que é que lá não é o mar? Por que é que lá não é o mar?" Eu sempre gostei muito de mar. E quando eu ia para Santos eu ia só com meu pai. Então, ás vezes, nós estávamos deitados eu falava: "Pai, estou querendo tomar um sorvete lá no alemão." Ele se vestia, nós tomávamos o bonde, e ia tomar sorvete. Então para você ver como eu fui mimada. Eu até falo, às vezes, meu Deus do céu, do jeito que eu fui mimada eu não devia ter aceitado a vida como ela se apresentou para mim. Que nós perdemos tudo, e eu tive que trabalhar. Foi aí que eu comecei a trabalhar no Avon. Então não é fácil, assim, você mudar de uma vida tão cheia de, de fartura, graças a Deus. E de repente você fica sem nada. E fui parar num quarto de empregada da mamãe. Porque não tinha lugar na casa dela. Porque meu irmão estava lá, meu outro irmão estava lá. E eu voltei da fazenda, que eu morei em fazenda, sem nada. E aí? Já com o Padu, esse que está na fotografia pequenininho. E aí eu comecei a trabalhar, logo depois, no Avon. Eles me chamaram. A minha cunhada sabia que precisavam lá de mexer em arquivo, esse tipo de coisa. Ela me chamou e eu fui trabalhar lá. Mas eu não sei se está tendo muita seqüência, tá? 

 

P – Não se preocupe com isso. (risos)

 

R – Tá bom. Eu pulo de um, pulo de um ponto...

 

P – Não precisa se preocupar com isso.

 

R – Tá bom.

 

P – Mas vamos falar mais um pouco da sua infância: quais as memórias marcantes que a senhora tem dessa época?

 

R – (riso) Eu tinha um coelhinho de madeira, eu amava aquele coelhinho. Então quando chovia eu punha ele na correnteza assim, para ele tomar banho. E depois eu ficava passeando com ele na sarjeta. Pegava o coelhinho e ficava passeando. E muitas vezes, depois de tantas coisas que aconteceram na minha vida, eu falava: "Que saudades do meu coelhinho." Eu não me preocupava com nada, era só puxar o coelhinho, (riso) entende? Foram coisas que eu gravei. Porque esses momentos assim, eu brinquei muito no Parque da Água Branca, que era pertinho da minha casa. Lá hoje, até hoje é um lugar bonito. Nós brincávamos muito lá no Parque da Água Branca, que era assim, bem pertinho. E o que mais que eu posso falar da minha infância? É que foi assim desde as minhas tias, meus irmãos, meu pai, minha mãe, muito amor. E é isso que dá força na vida da gente para trabalhar, que eu trabalho até hoje. Eu fui criada assim. Então isso me ajudou na vida adulta. 

 

P – E da escola, a senhora lembra da escola?

 

R – Lembro. Eu sempre fui...

 

P – Aonde que a senhora estudou?

 

R – ...uma das últimas da classe. Porque eu me dava com todas as meninas. Desde a primeira até a última. Mas eu não gostava muito de estudar. Então eu era muito folienta, entende? Eu queria brincar e, enfim, quando acabou o ginásio a minha cunhada, Maria Helena, ela ia muito para a Europa com a minha sogra, ela falou: " Ângela, vai lá fazer minha matrícula." Para você ter uma ideia, no Colégio Santa Marcelina, quando a irmã me viu ela falou: "O que é que você está fazendo aqui?" (riso) Achando que eu ia fazer matrícula para mim para fazer ou o clássico ou, era clássico, você sabe qual era o outro curso daquela época?

 

P – Era científico?

 

R – Científico e clássico. E eu fui fazer a matrícula para ela, mas a irmã quando me viu: "O quê você está fazendo aqui?" Eu falei: "Fica tranquila, que eu não vou voltar, porque a senhora sabe como é que é." Mas eu me formei, logicamente, e já namorava o Raul. Então no colégio era aquele negócio, queria sair rápido para encontrar com ele. Porque era menina, 14 anos, né?

 

P – Então a senhora estudou no Santa Marcelina.

 

R – No Santa Marcelina. 

 

P – Sempre, desde sempre.

 

R – Desde sempre. 

 

P – Até o clássico?

 

R – Não, eu não fiz.

 

P – Não fez o clássico.

 

R – Eu parei, quem fez o clássico foi a Maria Helena, que foi a redatora do Avon. 

 

P – E então vamos lá. A senhora falou que começou a trabalhar com 14 anos?

 

R – Não, eu comecei a namorar o Raul com 14 anos. Trabalhar eu comecei a trabalhar com 17 anos. Eu era solteira ainda. E foi uma época que meu pai faleceu, e meu irmão não tinha a estrutura que meu pai tinha. Então ele me chamou e falou: "Olha, você vai precisar trabalhar." Eu falei: "Mas eu não sei fazer nada." Aí a irmã da minha cunhada, ela trabalhava Companhia Cícero Prado Celulose. E lá na, lá é Campos Elíseos. Então eu fui trabalhar lá. E logo depois eu passei para ser a secretária do diretor. Que eu fui fazer curso na Remington de bater máquina, enfim, eu quis dar um passo para a frente lá dentro do emprego. Mas depois eu já estava namorando firme meu sogro me convidou para ir trabalhar na firma deles. Aí eu trabalhava, lidava com arquivo, mas não foi bem assim um trabalho. Porque eu era a futura nora dele, né? Então era aquele paparico todo. Mas minha sogra não queria o casamento, mas meu sogro gostava muito de mim. A minha sogra não queria, imagina. 

 

P – E em quais outros lugares a senhora trabalhou?

 

R – Eu trabalhei na Companhia Cícero Prado, eu acho que depois eu já fui para o Avon.

 

P – Já foi para a Avon.

 

R – É, porque eu me casei, logo depois eu fui morar na fazenda. Aí meu sogro pediu para nós hipotecarmos a fazenda, que ele devia para o banco. Porque ele teve uma época muito boa na vida. Ele que fez o loteamento todo do aeroporto. Então ele ganhou bastante dinheiro. De repente, minha filha, perdeu tudo, tudo. Inclusive Maria Helena foi para Princeton pela desilusão que eles tiveram, a família, de ver meu sogro perder tudo. E ele pediu para a gente hipotecar a fazenda. E eu e o Raul mocinhos, eu tinha o Padu pequenininho, devia ter o que? Uns 23, 24 anos, ele pediu se a gente hipotecava a fazenda. Mas nós não sabíamos que ele estava nessa situação. Que a fazenda era nossa, em Itu. Então a Estrada do Oeste, aquela avenida, não é estrada, é estrada mesmo que vai para o interior, para Itu, para os outros lugares, eu acho que Sorocaba, passa na porta da minha fazenda. Então nós perdemos tudo. Aí que eu tive que voltar para São Paulo. A Maria Helena foi trabalhar em Princeton, ficou dois anos lá. E quando a Avon abriu ela falou: " Ângela, você não quer trabalhar no..." Foi meu primeiro emprego. Foi. Ser representante Avon. Depois é que eu fui para outros lugares, para outros trabalhos.

 

P – Como que a senhora conheceu seu marido? 

 

R – Na igreja. Ele era coroinha. E a gente ia à missa, eu ficava olhando para ele, ele para mim. E aí foi.

 

P – Como é que é o nome dele?

 

R – Raul Cláudio Prates da Fonseca. E a minha sogra, como eles são de família assim, tradicionais, brasileiros, tal, ela não queria o casamento porque eu era filha de italiano. E minha mãe tinha sido artista, porque eu contei, eu não vejo vergonha nenhuma. Então ela falava: "Nossa, imagina meu filho quatrocentão - porque  eles eram metidos assim, quatrocentão - casar com a filha de italiano?" Você sabe que naquela época o italiano era posto meio de lado assim. Mas depois ela aceitou.

 

P – E a senhora tem filhos, né?

 

R – Três. 

 

P – Três filhos. Fala um pouquinho deles.

 

R – Olha, o mais velho estudou em várias escolas. Me deu muito trabalho, muito. E acabou nem se formando. Esse foi o mais velho. Hoje ele mora em Búzios. Ele teve quatro mulheres. Foi casado a primeira vez, casado mesmo na igreja, tal. Ela teve o meu neto, que por sinal morreu aos 23 anos num desastre horroroso. Mas depois ele se separou e aí veio, ele casou, espera um pouquinho, com quem mesmo? Com a Zita, outra mulher dele. Aí separou foi para Búzios, que estava muito sem estrutura e aí ele foi para Búzios. Lá ele conheceu uma moça, aí ficou com ela. Não casou, ficou com ela. Depois conheceu outra, saiu daquela e foi para outra. E agora eu tenho um neto dele com três anos. Esse é o mais velho. O segundo, o Ricardo, a minha cunhada deu para ele uma bateria pequena quando ele tinha que idade? Acho que ele tinha uns oito anos. Até hoje eu ouço bateria todo dia. Todos os dias. Na minha casa aqui em São Paulo, depois que eu comprei uma casa eu falava: "Qualquer dia esse teto vai cair." Porque ele foi aumentando a bateria, foi aumentando, nem Pink Floyd tinha a bateria dele, enorme, (riso) metade do quarto a bateria dele. (riso) É verdade. Ele toca até hoje. Tem 45 anos. E eu ouço todo dia a bateria. Quer dizer, eu não ouço mais, né? Porque já faz parte do, do todo da casa. (riso) Porque ele mora comigo até hoje. Ele foi, ele estudou, trabalhou em banco a noite, fez o Exército, se formou no Mackenzie de biólogo. E hoje ele não conseguiu o emprego como biólogo porque  nós tivemos que mudar para São Sebastião. Eu tive que mudar porque  meu marido perdeu o emprego e aí eu não tinha mais tanta força para trabalhar, por causa dessas dores que eu tenho. Então abrimos a pousadinha lá. E ele nos acompanhou. Porque ele foi para os Estados Unidos, se separou, e agora está lá comigo. Agora tem uma parte dessas separações que eu acho muito boa: eu sou amiga de todas as minhas noras, ex-noras. Eu tenho sete. Três filhos com sete noras. (riso) Tá bom essa? E o meu menor, que ficou casado 17 anos, que é uma paixão, ele agora se separou. E eu gosto dela, entende? E agora, ela tinha um geninho difícil, e depois que eles se separaram ela ficou muito mais minha amiga porque  ela viu que eu gosto da pessoa dela e não gosto dela porque  ela é casada com meu filho. Eu gosto da pessoa dela. E de todas elas. Eu me dou com todas. Eu acho gostoso isso. Vai a atual, vai a passada, às vezes vão almoçar. E vai a que está com ele agora, a outra, a outra que ele morou nos Estados Unidos vem, fica na minha casa. Então é muito bom esse relacionamento do segundo. E o primeiro, e o último, que eu estou falando agora, o Sérgio, ele casou ficou 17 anos casado. E agora está morando em São Sebastião. Se separou e está namorando uma japonesa. Eu peço para ele ter um filho, por favor, para ele me dar um neto. Porque vai ser mestiço, né? E, geralmente, o mestiço é muito engraçadinho, né? É isso.

 

P – Tá.

 

R – Que mais você quer?

 

P – O que a senhora gosta de fazer nas suas horas de lazer, dona  Ângela?

 

R – Eu cuido muito do jardim lá. Eu tenho, eu estou tendo a oportunidade de ver passarinho cantar, muitos. Eu tenho uma árvore, que foi até um amigo nosso que deu, desse tamanhinho hoje. É uma pitangueira que é o local, como se fosse um viveiro, mas aberto. Então a gente põe água para os passarinhos, pão para os passarinhos. Então aquilo fica lotado de passarinho. E é um dos momentos gostosos da minha vida de lazer. Assisto minhas novelinhas lá. Leio. E gosto muito de ler. E vendo palmito aqui em São Paulo.

 

P – Então agora vamos falar da Avon, tá bom?

 

R – Hum, hum.

 

P – A senhora lembra quando começou a trabalhar na Avon? Como que a senhora chegou na Avon? Que época foi isso?

 

R – Eu acho que foi em 62. Quando abriu a Avon que eu fui trabalhar lá no, como é que chama, no, em Santo Amaro. Que era um galpão enorme coberto de zinco. E eu fui ser, mexer com arquivos. Que é que é? Eu nem sei. E minha cunhada quando chegou dos Estados Unidos, que ela trabalhou em Princeton, quando ela chegou dos Estados Unidos ela veio transferida para cá. Porque ela queria vir, porque  ela estava com muitas saudades e tal. Eles falaram: "Bom, nós estamos abrindo o Avon lá em São Paulo. Se você quiser ir para lá você já vai." Então ela saiu de lá e veio para cá. E aí eu estava precisando de dinheiro, porque  perdemos tudo. E aí foi: "Como é que vai? Onde é que eu vou trabalhar?" Eu não quis estudar muito, só fiz um ginásio, né? Aí ela falou: "Você vem trabalhar comigo." E eu fui trabalhar no Avon, e logo depois eles começaram a fazer a propaganda com as supervisoras. E as supervisoras eles pegaram a nata de São Paulo. A minha era a Deise de Almeida Prado, você imagina. Era assim um nível muito bom. E ela formou um grupo e eu fui incluída neste grupo. E aí que eu comecei a trabalhar. Eu cuidava bastante do Avon. Por exemplo, fim de ano o Avon não mandava nada, era só em caixas, eu tinha que tirar. Mas eu fazia todos os pacotes de presente. Então eu tive verdadeiros amigos no Avon. Inclusive comprei minha casa, porque  eu vendia para o diretor da Caixa Econômica, e a família gostava muito de mim. Arrumei uma casa para a nora que queria sair de perto da sogra, eu arrumei uma casa para ela. Eu sempre gostei dessas coisas de poder ajudar, sabe? E ela ficou muito agradecida. Então quando eu consegui alugar uma casinha, primeiro, eu consegui alugar essa casa, foi aí que eu comecei a trabalhar no Avon, ela, ela falou: " Ângela, quando a minha filha tirar nota boa nós vamos lá na Caixa Econômica que o meu sogro - que era Gumercindo Fleury - vai te dar um empréstimo que você está precisando." Porque o dono da minha casa que eu morava morreu. Eu falei: "E agora? Para onde é que a gente vai?" Que era uma casinha pequenininha. "E agora?" Aí ela pegou falou: "Vamos lá que ele vai te dar um empréstimo." Aí nós fomos lá, a menina tinha tirado nota boa, ele estava eufórico, né? E eu falei: "Seu Gumercindo, eu estou precisando de um favor seu, do empréstimo." Ele disse: "De quanto?" Eu falei: "O máximo que o senhor puder me dar." Assim em 15 dias saiu meu empréstimo na Caixa Econômica. Ele era diretor, né? Então foi aí que nós fomos procurar casa, tal. Porque eu falei: "Ao invés de pagar aluguel a gente passa, pega o empréstimo da Caixa, paga a Caixa e você tem o que é seu." E foi aí que eu comecei. Espera um pouquinho, desculpe. Por que é que eu estou te falando isso?" 

 

P – Porque eu perguntei.

 

R – Eu sei. (riso) Mas que eu cheguei nesse ponto? Jesus.

 

P – Porque a senhora começou a trabalhar na Avon nessa época.

 

R – Ah, foi isso, foi isso. Você perguntou: "Que época que você começou a trabalhar?" 

 

P – Isso. (riso)

 

R – E aí eu comecei, né? Batendo de porta em porta. Não tinha ainda o dim-dom. Então eu fui com a cara e coragem. E minha mãe não queria que eu fosse trabalhar batendo nas portas. "Minha filha, vão bater a porta na sua cara." porque  ninguém conhecia esse método de venda de porta em porta. Foi o Avon que lançou. Mas olha, eu consegui grandes amigos. Grandes amigos, eu tenho amigos até hoje da época que eu vendia Avon.

 

P – A senhora lembra da primeira vez que a senhora saiu para vender como foi?

 

R – Lembro.

 

P – Como foi?

 

R – Veio o gerente dos Estados Unidos, e quis sair comigo para saber como é que eu fazia para vender. Se eu estava certa, se eu estava errada. Aí eu tinha uma amiga que morava perto lá da casa, eu falei: "Zélia, eu vou tocar a campainha na tua casa, você faça o favor de comprar alguma coisa. Depois eu elimino o pedido (riso) se for preciso. Mas você vai comprar. Eu vou chegar, você vai me receber, que eu estou com uma pessoa que eu nunca vi na vida. E que não fala português. Mas vai ver o meu estilo de venda." com aquelas sacolinhas pretas, você abria, tal. E ela e a sogra me receberam como se, entendeu? Logicamente ele eu acho que percebeu. Mas foi ótimo. Foi a primeira vez que eu saí vendendo Avon. E aí eu vendi um batom, que foi nessa carta que ele fala, que foi o primeiro batom do Brasil que entrou para o Avon. Não, eu quero me beliscar inteira se eu joguei essa carta. (risos) Mas, paciência, eu nunca podia imaginar que vocês iam me chamar.

 

P – Não tem problema. Vamos continuar falando.

 

R – Tá bom.

 

P – E a senhora já tinha ouvido falar da Avon antes?

 

R – Por causa da minha cunhada.

 

P – Certo.

 

R – Que eu fui trabalhar lá. Antes, antes não. Quer dizer, ela me chamou, falou: " Ângela, você quer vir trabalhar aqui?" Aí que eu fui. Que a gente tomava aquele, aquela Perua da Praça do Correio, e nós chegávamos na Avon. Aí eu trabalhei lá acho que foi um ano, mais ou menos. 

 

P – Lá na João Dias?

 

R – Lá na João Dias. Onde é a Avon hoje, né? Acho que eles nem saíram de lá. E minha cunhada também trabalhava lá, eu comecei a trabalhar. Aí fui logo selecionada para ser representante.

 

P – Certo. E quando a senhora chegou lá na João Dias, qual foi a primeira impressão que a senhora teve da empresa?

 

R – Uma empresa que estava começando. Assim, sem grandes proporções de assustar um pouco. Achei que estava começando e eu comecei com eles. E que eu me honro, eu tenho uma honra de ter trabalhado para o Avon. Porque foi com você que eu falei na época quando eu vi aquelas colônias que lançaram? Agora é uma colônia com nome francês? Eu acho, eu falei: "Nem todo mundo pode comprar um perfume francês." E ele, é o último lançamento deles.

 

P – Lacroix.

 

R – Lacroix. E isso, quando eu vi a propaganda eu falei para o Raul, vocês não tinham, acho que já tinham falado comigo, eu falei: "Benzão, olha como o Avon progrediu. Ele agora fez uma colônia que abrange as pessoas que não podem comprar um perfume francês." E o, eu não sei eu não conheço o perfume, deve ser muito bom. E eu te digo, repito, que foi para mim um privilégio eu trabalhar no Avon. Foi muito bom. Eu não estou fazendo média não. Porque eu tenho pessoas que estão ligadas a mim por causa do Avon. Então, e faz tempo, né?

 

P – É verdade. Então conta...

 

R – A primeira impressão, então, foi essa.

 

P – Conta para a gente como foi esse seu processo de vendas. A senhora começou a trabalhar, provavelmente, em 1961. Como que era nessa época vender? Esse sistema de porta em porta, quais eram as dificuldades que a senhora enfrentou?

 

R – Olha, nem sempre eu procurava, a primeira coisa, ia arrumada. Porque isso é muito importante para você entrar na casa das pessoas.  Então é uma pessoa que está arrumada, você naquela época, você podia abrir a porta para qualquer pessoa. Porque eu era qualquer pessoa, tá certo? Não tinha propaganda ainda. Então só a Zélia que me recebeu porque  era minha amiga, mas do resto eu bati muito nas portas. E nem sempre, nem sempre, a pessoa nunca tinha ouvido falar, porque  depois que saiu o dim-dom já ficou mais fácil. Falava: "Eu sou do Avon, do dim-dom, a senhora pode me receber que eu tenho uns produtos lindos? São produtos americanos, a matéria-prima é toda americana. Enfim, é uma inovação de venda, por isso que eu estou batendo na sua porta." E aí foi. Foi muito assim, eu tive sorte também. Porque eu morava num bairro relativamente bom, onde as pessoas já me conheciam. Muitas pessoas me conheciam desde pequena, mas as mais velhas, né, que compravam menos. Porque antigamente o velho não era metido, ele não comprava muita coisa. (riso) A velha de hoje é metida, mas antigamente não era. Ai, meu Deus do céu, é assim mesmo. (risos) E antigamente o velho não punha creme. Punha? Não punha. Eu vi a mamãe com 40 e poucos anos, ela ficou viúva cedo, eu falava: "Engraçado, a mamãe é velha." Com 40 e poucos anos. Vocês não tem essa ideia de velho mais assim? E agora você não vê velho, velho. Velho, velho é 80 anos. Não que eu queira defender a minha classe, entendeu? (riso) É porque  eu  não sinto essa velhice tão pesada como era antigamente. Eu olhava para a mamãe já de cabelinho branco. Eu estou toda branca. Se eu deixar vou ficar igual, mas não vou deixar. Então é isso.

 

P – Tá ótimo, dona  Ângela. A senhora falou que tinha muitos produtos, né?

 

R – Tinha.

 

P – Que produtos assim que marcaram mais a senhora?

 

R – Que mais saía? A Colônia Rosa Silvestre vendia bem. Porque era um tipo lavanda. Depois tinha o Sachê Rosa Silvestre. Eu vendia, era sachê, batom. Não era blush antigamente. 

 

P – Ruge.

 

R – Ruge. Era ruge. Xampu eu acho que não tinha naquela época, no início. Então colônias. As colônias sempre, até para presente, fim de ano. Ah, eu ficava muito feliz de fazer os pacotes, e já entregava os pacotes prontos. Então isso também cativava para o teu trabalho no ano seguinte. Era uma, era um, como se diz? Um marketing de vendas. Saber que vinha tudo arrumadinho, com lacinho. Eu sempre gostei dessas coisas, desde mocinha mesmo. Então eu dava toda a atenção, não tinha hora para trabalhar. Se mandasse trabalhar de noite eu ia: "Ah, eu só posso te receber a noite." Eu ia de noite. E meu marido foi assim um companheirão nesse tempo. Porque ele não achava ruim. Porque ele também podia achar ruim, porque  eu batia nas portas. Não sabia aonde ia entrar. Mas era tão sem maldade as coisas naquela época que nem ele tinha, vamos supor, ciúmes, vamos supor. Porque eu era engraçadinha, tudo, ia arrumadinha. Procurava ficar o mais bem arrumada possível. Mas ele também não tinha, e isso me ajudou também, né? Porque se não existe a compreensão dele, ia me quebrar um pouco.

 

P – Vamos... (falha na gravação) ...produto?

 

R – Eu não estou lembrando, mas eu acho que não tinha muito essa exigência não. Porque se tivesse eu teria gravado mais. Aquilo era uma rotina. Vendeu, entregou, pagou. E era aquela rotina. Tem uma amiga, essa que é minha amiga até hoje, ela estava grávida e eu vendi para ela a Colônia Topázio.ela falou que ela não pode ouvir falar o nome, que ela estava grávida. E eu usava muito a Colônia Topázio, Toque de Amor, e ela falou: "Ai,  Ângela, eu não posso ouvir falar no Topázio porque  eu vomitava muito." Porque ela estava grávida. E sabe, a mulher grávida tem mil probleminhas. E ela disse que...

 

P – Ela ficava enjoada.

 

R – Ficava enjoada. Mas eu acho que foi só, viu? O resto, eles aceitaram bem a Avon. Tanto é que eu ganhei esses prêmios, essa joinhas, que eles me deram.

 

P – É? Quais prêmios que a senhora ganhou? Conta pra gente.

 

R – Eu ganhei, da maior venda do grupo. Então eles deram essa, era uma estrelinha com brilhante e com a volta toda de ouro. Uma correntinha. Está lá na fotografia. E...

 

P – Esse era prêmio de venda?

 

R – Prêmio de venda, era prêmio de venda.

 

P – Eles tinham uns prêmios também de aniversários, né? De tempos que a pessoa estava na empresa. A senhora recebeu algum desses? Tempo de casa?

 

R – Eu acho que sim, mas não eram assim tão chamativo às vezes. Me mandavam alguns produtos que ficava, que era presente para mim, mas o que mais marcou foram as joinhas. E eu estava vendo neste catálogo que eu trouxe, que sortearam também carro, isso eu não lembro.

 

P – É, deve ter sido mais tarde.

 

R – Pode ter sido, mas está neste catálogo.

 

P – Deixa eu perguntar uma coisa, a senhora está falando das fotos, a senhora trouxe uma foto da senhora recebendo um prêmio, aquela que está o Vinicius Bueno. Aquele prêmio, que prêmio é?

 

R – Era uma caixa com todos os produtos do Avon.

 

P – Mas qual era o motivo da premiação?

 

R – De 25 anos do Avon, e por eu ter sido a primeira representante. Então foi num teatro e, não me lembro qual, e eles me chamaram no palco para falar que eu fui a primeira representante. Eu era moça, né, naquela foto, há 25 anos atrás. E eu fiquei bem feliz com o prêmio que eu...

 

P – A senhora não vendia mais Avon naquela época que a senhora foi chamada para esse prêmio?

 

R – Não. 

 

P – Tá bom, era essa a dúvida que eu tinha. Tá ótimo. Então a senhora recebeu esses dois prêmios que eram as jóias, né?

 

R – É, você vê que são dois tipos de foto, né? Eu devo ter recebido em alguns meses uma, depois outra. Não sei bem. Mas eu vendia bem. É também o nível, viu, de pessoas que eram lá daquele bairro. E era um nível umas casas boas. Hoje você passa lá, a minha rua ainda continua. A minha casinha lá, a casa que foi da minha mãe continua lá. Mas, por exemplo, nas ruas transversais lá, muito prédio, demoliram. Então fizeram prédios. Mas é uma das poucas, poucos bairros que você vê menos prédios. Tem muitas casas lá, quando eu passo eu falo: "Benzão, eu entrava nessa, nessa, nessa," Eram todos meus clientes. Uma ou outra que não fazia questão de comprar nada. Mas era bem pouca gente.

 

P – Como, deixa eu ver o que eu vou perguntar para a senhora. Esse fato da Avon ela dar emprego para as mulheres desde o princípio, desde a década de 60, como que a senhora avalia esse pioneirismo da empresa?

 

R – Muito positivo. E só poderia ser mulher mesmo. Porque o homem não vai entrar numa casa com a facilidade que entra uma mulher. Primeiro pela inibição dele, que o homem é mais inibido do que a mulher, né? E segundo que é uma novidade que veio dos Estados Unidos. Então se adaptou muito bem ao Brasil. 

 

P – Porque naquela época as mulheres não tinham muito campo de trabalho, né?

 

R – Não, também não. Eu tinha uma freguesa que ela depois falou: " Ângela, será que eu posso vender para a minha cunhada, tal e tal?" Eu falei: "Você faz o pedido que eu tiro em meu nome." Aí eu entrega para ela, ela me pagava, mas não eram muitas aquela época. Ela não tinha muito jeito, era uma italianona. E ela vendia para a família. Eu falava: "Tá bom, tudo é lucro. Tanto para a Avon como para mim." E eu abri essa exceção para a dona Ida, nunca mais esqueço. E eu só tive ela. Eu  não tinha assim, sabe, eu não formei grupos de venda. Porque eu tinha a minha supervisora e eu era representante, só.

 

P – E como a senhora vê a atuação da Avon no Brasil? Como a senhora disse, né, quando falou do perfume. 

 

R – Atuação?

 

P – Hoje a Avon no Brasil, como a senhora acha que está?

 

R – Eu acho que cresceu demais o Avon. Por isso que eu digo, para mim é uma honra ter trabalhado numa firma que veio assim, logicamente tinha o Avon de lá, de Princeton. Mas aqui no Brasil entrou assim tão de repente que foi muito bem aceita. Foi muito bem aceita essa maneira de venda, né? Agora parece que é a Natura, é a Natura que faz também essa venda, né? Que copiou da gente. (risos)

 

P – Exatamente. (risos) E na sua opinião qual é a importância da Avon para a história dos cosméticos? Com essa inovações que ela tem, como a senhora vê isso?

 

R – Nossa, eu vejo como um progresso de uma sabedoria de marketing sensacional. Eu vejo isso.

 

P – E o que é que a senhora acha da Avon estar resgatando a história dela com esse projeto, através desses depoimentos?

 

R – Eu acho que é uma maneira de incentivar as que estão começando. Porque nós que fomos as primeiras, que você deve ter entrevistado outras também, nós somos um exemplo. Porque nós estamos aqui falando bem daquilo que nós trabalhamos. E te digo, eu tenho  honra de ter trabalhado na Avon. Quando eu vejo, tanto é que eu falei, acho que foi com você, foi com você que eu falei no telefone? Eu falei com duas, né? Quando eu vi a propaganda eu falei para o Raul: "Que coisa bonita, que gente de visão. E com produtos, com matéria-prima muito selecionada." E eu ouvi falar agora que o  produto Avon, eu uso muito Payot, por incrível que pareça, porque  a minha esteticista, que eu vou de vez em quando, ela é da Payot. E agora eu queria passar para os cremes do Avon, porque  diz que é muito melhor que o Payot. Mas como ela é, então eu vou dizer que eu tive essa entrevista, entre parênteses, só nós, e que eu ganhei um creme. Não é para, pelo amor de Deus, não estou pedindo nada. Por isso que eu vou mudar. Porque se eu falar para ela que eu vou comprar ela vai ficar muito triste comigo. Porque eu faço limpeza de pele com ela ha 30 anos. Porque é tudo 30 anos assim. Cabeleireiro 30 anos, (riso) engraçadinho. Está aí olhando assim, ela fala: "Essa mulher é louca." (risos)

 

P – Mulheres. Tá certo, dona  Ângela. Para finalizar então...

 

R – Ai, que pena. Estou me sentindo a própria artista.

 

P – E o que é que a senhora achou de ter vindo dar essa entrevista, participar desse projeto?

 

R – Nossa. Eu fiquei  muito honrada de vocês lembrarem de mim. E acho um projeto que vai estar, vai galgar muitos degraus. Eu acho que é um projeto bonito. Eu gostaria de ir no museu mesmo, né? Que aonde é? É aqui?

 

P – Ainda não está pronto.

 

R – Então, por favor me telefonem lá para São Sebastião que eu venho para ver esse projeto tão lindo que vocês estão lançando. É o Museu...

 

P – Eles ainda estão pensando em montar. Mas quando estiver pronto eu falo para a senhora, tá bom?

 

R – Fala para mim, que eu vou ter muito prazer em ver, tá bom? E quem sabe lá eu vou me ver, porque  alguma foto vai ficar boa. Aí você vai por lá, se é que vai. Tá bom?

 

P – A senhora quer deixar uma mensagem para as revendedoras que ainda estão trabalhando, para as que ainda vão chegar? A senhora como a primeira teve toda essa experiência com a empresa.

 

R – Eu gostaria de deixar uma mensagem para as jovens, para as senhoras que trabalham nesse, como se diz, nessa técnica. Hoje não é mais nova, porque  são 50 anos, mas tem muita gente que está iniciando: que a luta e a meta de vida, porque  eu trabalhava por causa de uma meta, é muito importante. E o todo da pessoa. Você tem que se dar, você tem que fazer as coisas com amor. Porque quando as coisas são feitas com amor e com respeito, são as duas palavras básicas na vida, você obtém o sucesso. E, na época, eu obtive esse, essa recompensa do Avon. É luta e respeitar e amar aonde trabalha. Que eu acho que é isso a melhor maneira de você retribuir a confiança que a firma deposita em você. Porque a firma está depositando confiança em você. Então é uma maneira de você retribuir, não é mesmo? Acho que é isso que eu tenho para falar para vocês, tá bom?

 

P – Tá bom. A senhora quer falar mais alguma coisa?

 

R – O que eu poderia...

 

P – De alguma coisa que eu não perguntei da sua história com a Avon?

 

R – Eu acho que... Ah, do meu filho, que o médico mandou eu parar porque  eu estava de oito meses, com aquele barrigão levando a sacolinha na mão, né? E os produtos. Aí meu médico chegou falou assim: "Você vai ter esse filho na rua." Eu falei: "Imagina." " Ângela, você vai ter esse filho na rua." Porque eu tive os três filhos parto natural. Então, de fato, eu fui para a maternidade, em duas horas nasceu o meu filho. Então o médico sabia que eu tinha essa facilidade. E ele via eu carregando peso então eu poderia ter tido o filho na rua mesmo. Pelo amor de Deus. (risos) Porque até o finalzinho eu trabalhei. E depois com criança pequena, eu já tinha outro, aí eu parei. E, ah, e uma pessoa que eu vendia Avon para ela, ela foi, bateu lá em casa, ela nem sabia que eu estava morando lá depois, por causa de uma torneira. Que a minha casa era muito limpinha. E eu passava sapólio, que nem existe mais agora, é Vim, na torneira. E ela viu aquela torneira tão linda, bem dourada ela tocou. Quando eu abri ela falou: "Nossa,  ngela, e o Avon?" Eu falei: "Não, agora eu não estou vendendo mais, porque eu tive o Ricardo. Mas em compensação eu..." Ela falou: "E você não quer vir trabalhar comigo?" Eu falei: "Mas eu estou com as crianças." "Não, eu tenho uma butique aqui em cima, e eu gostaria que você fosse. Leva as suas amigas, que eu te dou 10%." E foi assim que eu comecei a trabalhar com moda. Aí depois logo me chamaram para uma vaga na Core. Aí lá eu trabalhei com roupa, com moda, 40 anos. Então eu sempre amei mesmo o que eu fiz. E eu acho que isso é muito importante. E você vê, agora eu vendo palmito. Olha que decadência? (riso) Era primeiro o Avon, hoje, a maravilha, depois Core, e mais três, quatro firmas. E agora vendo palmito. Que é a única coisa que você entrega e não tem problema. Porque a roupa a cliente te chama, quer trocar. É botão que some, você tem que ir na fábrica pegar, entregar. Tem que morar aqui. Agora, palmito não. E é muito bom mesmo. O meu irmão vê, está há 20 anos conosco esse fornecedor. Então o meu irmão vendia, depois ele morreu. Ficou para o meu filho. Meu filho foi para os Estados Unidos, ficou lá dois anos e meio. Eu falei: "Puxa, que judiação perder essa boca." Aí eu peguei, comecei a vender para as minhas freguesas, e hoje eu vendo para bastante gente. Pessoas amigas e freguesas. E vou entregar nas casas. Não tem hora, não tem nada. Domingo. O tempo que eu estou aqui eu vou entregar palmito. Que é uma maneira de eu ganhar mais um dinheirinho. Porque aposentadoria, meu filho... Vocês são moços comecem a fazer aposentadoria, como é que é? Previdência Privada. O dinheirinho que vocês tem que ter é na Previdência, esse é o conselho que eu estou dando para os jovens. Porque agora eu estou sentindo na pele o que é o INPS. Muito triste. Meu INPS vai todo para remédio. É na época que você mais precisa ele diminui. O seu Lula, eu não estou fazendo campanha contra ele não, mas ele diminui dos velhos para dar cesta básica para o jovem votar nele. Então você vê que é tudo farinha do mesmo saco. Eu já estou de política até aqui, e não tenho mais confiança nenhuma. E sinto agora na pele. Trabalhar tantos anos, né? Você vê, meu marido pagou durante anos sobre o máximo, que ele trabalhava em firmas. Mas trabalhava lá no Pará, no Mato Grosso, tal. Abrindo fazenda para as firmas, hoje ele tem dois mil e pouco de aposentadoria. Pagando sobre o máximo. Você acha que dois velhos podem viver com dois mil e pouco? Se não tem outra renda? E nós não temos. A minha renda eu pus na minha casa. Aqui e lá. Então você não vive. Faça Previdência Privada, que vocês vão ter uma velhice mais tranquila.

 

P – Tá certo, dona   Ângela.

 

R – Essa é a mensagem que eu deixo para vocês. (risos)

 

P – Obrigada pelo conselho.

 

R – É porque  eu estou sentindo na pele. Eu falo isso para os meus filhos: "Ah, mãe, mas precisa pagar muito alto." "Começa pagando mais baixo. A hora que você puder vai lá e ponha um pouquinho mais. Mas tenha como meta isso, meu Deus do céu." como a gente está sentindo o Brasil difícil, mas tudo bem.

 

P – Tá bom.

 

R – Então tá, dona  Ângela. 

 

P – Então vamos encerrar?

 

R – Vamos.

 

P – Então em nome da Avon e do Museu da Pessoa, nós agradecemos a sua entrevista. 

 

R – Eu é que agradeço estar aqui com vocês e poder dizer alguma coisa. Tá bom?

 

P – Obrigada.

 

R – Nada.

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