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História

A primeira mão estendida

História de: Ana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2019

Sinopse

Ana nasceu em uma cidade do interior do nordeste e, desde jovem, trabalhou para ajudar a mãe com as despesas de casa após o falecimento de seu pai. Empenhada a superar suas dificuldades, decide cursar administração, ainda que mais velha, realizando jornadas cansativas para manter seus estudos. Após se mudar para a capital, passa a trabalhar em diversas empresas no setor administrativo, até que encontra seu trabalho atual em um instituto preocupado em questões de inclusão social e desenvolvimento. Nessa nova etapa, passa a selecionar jovens que também sofreram dificuldades,criando novas oportunidades.

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História completa

Meu nome é Ana. Meu pai já faleceu, mas ele era motorista e montador de móveis. Minha mãe é professora do primário e funcionária pública. Eu gostava de fazer coisas de criança, na verdade, mas como a minha mãe trabalhava e éramos uma família que não tinha tantos recursos, eu cuidava da casa e via muito TV. Meu grande sonho era me formar em Direito, na época, quando eu tinha até uns dez anos. Com quinze eu comecei a trabalhar e fui me apaixonando por outras coisas, de repente me apaixonei por Administração, que é no que eu sou formada hoje.

 

O meu primeiro emprego foi mais motivado pela necessidade. Eu tinha perdido meu pai com dez anos, e era minha mãe que mantinha a nossa casa. Chegamos a passar necessidade no início, depois nos reestruturamos mas, mesmo assim, era difícil para uma adolescente querer ter alguma coisa e não ter. Eu precisava trabalhar para poder ter alguma coisa. E eu comecei a trabalhar como secretária de uma escola de informática. Foi muito importante esse período, que foi o contato que eu tive com informática nessa época.

 

Nada foi fácil. Eu sou do interior, não morava na capital do estado. Eu sou de uma cidade pequena onde a fonte de renda que tinha era carcinicultura, canaviais. Comecei a faculdade com vinte e três anos. Eu queria ter começado mais cedo, mas infelizmente não deu. Foi um processo muito complexo. Primeiro, porque quando eu decidi fazer faculdade, eu ainda morava no interior, então eu fiquei dois anos indo e vindo. Eu acordava às cinco da manhã e só chegava em casa uma hora da manhã. Foi um período muito cansativo, mas eu resolvi me dedicar porque eu queria algo melhor para mim. 

 

Quando eu decidi vir para a capital, eu comecei primeiro a procurar emprego. Trabalhei numa empresa multinacional, trabalhei para uma franqueada, passei um ano e sete meses lá, e depois vim para cá, onde trabalho hoje, e vou completar já quatro anos. Quando eu vim para a capital não conhecia nada, não conhecia ninguém, não tinha muitos amigos daqui, então foi um desafio. Hoje eu conheço todo o estado, que foi outro grande desafio. Minha vida foi movida por desafios e acredito também por sorte, porque acho que a gente encontra pessoas boas que acreditam no potencial da gente e querem investir.

 

Hoje eu faço processo seletivo daqui do Instituto e gosto muito de falar como foi o meu ingresso aqui. Eu fiz o processo seletivo e foi muito interessante, foi um processo repleto de vivências e a gente. Ele terminou umas oito horas da noite e eu recebi a notícia de que eu tinha ficado. Fiquei muito feliz e com muito receio porque, como eu disse, era um desafio. Hoje eu amo o que eu faço. Hoje a nossa empresa, é uma das cento e cinquenta melhores empresas para se trabalhar no Brasil. Acho que a vida foi encaminhando para que tudo desse certo.

 

Aqui cuidamos de todos os subsistemas de RH aqui na ponta, processo seletivo, benefícios, desligamentos, contratação nas cotas tanto de jovens quanto de portadores de necessidade. Operacionalizamos programas de crédito voltados para microempreendedores e à área rural. O objetivo do instituto é a geração de renda, o trabalho social, parcerias com órgãos como universidades federais, a comunidade, a questão do meio ambiente. Fazemos todo um trabalho para que a pessoa tenha condições, primeiro, de viver. Trabalhamos com a área de cultura e de inclusão socioeconômica.

 

Quem nos trouxe o ViraVida foi nossa presidente, que se interessou pelo projeto. Sabemos que eles têm um acompanhamento, que eu acho muito importante, pelos psicólogos. Se temos algum problema com um jovem, eles fazem um trabalho muito assertivo, de ir à casa do jovem, conversar com ele, conversar com a família. E também dão uma oportunidade de capacitação para que essas pessoas possam ser introduzidas no mercado. E além da questão do mercado, que eu acho que não é tão diferencial, há a inclusão à vida, de passar a conviver com pessoas que te respeitam, que tenham cuidado. O cuidado que a gente tem que ter com as pessoas também parte muito da nossa filosofia, o respeito à vida.Nossa missão dentro do Instituto é fazer a inclusão socioeconômica das pessoas, então nossa presidente promoveu a parceria porque também achou que era muito parecido, apesar de a gente falar de microcréditos, de metas e de programas. Tem um ditado que diz que existe uma pessoa em casa e outra no trabalho, mas o indivíduo não tem como se separar. Se ele não tá atingindo uma demanda, a gente procura saber o que realmente tá afetando, tentar ajudar.

 

Trabalhando em conjunto com o ViraVida, percebemos que eles são jovens fragilizados, observando qualquer palavra ou de qualquer brincadeira que a gente faça. De certa forma, meio que trabalhamos no escuro porque a gente não sabe a moléstia. A gente trabalha com pessoas que, até onde a gente sabe, não tiveram nenhum problema passado de agressão, seja ela física ou mental. A gente pelo menos não sabe. Então temos brincadeiras, a gente brinca com um, brinca com outro, até pela questão da própria intimidade. Então foi importante saber disso para que também nos policiassem para com eles e fazê-los realmente se sentissem acolhidos, parte do trabalho, parte daquela família. Somos mais do que colegas de trabalho, nós somos amigos, parceiros, estamos juntos uns dos outros. 

 

O processo seletivo é super tranquilo, ele conta com a supervisão da psicóloga do projeto, então é um momento que temos. Ele não tem dinâmica, é só uma entrevista. Como eu gosto de dizer a eles, é um momento de bate-papo, é uma conversa onde eles vão conhecer um pouco da empresa e nós vamos tentar conhecê-los melhor, para não criar um clima muito tenso, uma obrigação excessiva de que tem que passar.

 

Aqui dentro, eles têm o sonho de crescer. Eu acho que existe uma imagem, uma coisa de ser alguém, que eles falam. Eles já são alguém, sempre dizemos isso a eles. Mas eles querem estudar, ter um trabalho fixo, carteira assinada, ser bem sucedidos no que fazem. Eles têm essa expectativa de crescimento e de felicidade, de serem felizes. Eu acho que passa muito essa ideia de ser feliz. Alguns até dizem que aqui eles encontram isso. E o que queremos desses jovens é que eles sejam pessoas felizes, porque sabemos que quando a gente está bem, tudo está bem. Quando se está mal, parece que as coisas não dão certo. Então a expectativa que temos é que eles sejam felizes. A partir do momento em que eles tiverem essa felicidade, eles serão pessoas melhores e trabalhadores melhores. E pra gente, do lado de cá… Acho que a mudança está mais no nosso pensamento. Passamos a ser pessoas melhores, aprendemos a lidar com isso.

 

Eu percebo que o projeto foi alguém que estendeu a mão, a primeira mão que foi estendida e que está junto no sentido financeiro, no sentido de conversar e de melhora profissional. Eu sinto que o Projeto ViraVida é isso para eles, a primeira mão que foi estendida, a primeira oportunidade que foi dada. Nessa globalização não pensamos. Um recurso muito escasso é tempo. Às vezes a gente não quer perder tempo em ouvir, treinar, ensinar, mas quando paramos, começamos a entender que esse tempo não foi perdido. Pelo contrário, ele foi ganho, porque ganhamos pessoas. Pessoas que vão dar o seu melhor, pessoas que acreditam no que fazem são profissionais comprometidos e felizes, independente de qualquer área que seja, pessoal ou profissional.

 

Consigo, aqui, reviver o que eu vivi e saber que essas pessoas, esses jovens, vão ser pessoas gratas, assim como eu sou grata a quem me deu uma oportunidade. Eu vou fazer parte da história de alguém. Posso até no futuro, quando eu ficar bem mais velhinha, não lembrar, mas eu vou fazer parte da história de alguém. Esse é o conceito de ser importante ou até mesmo de ser imortal: ser sempre lembrado por alguém. Isso não tem preço, não tem dinheiro no mundo que pague saber que alguém é grato a você. O maior aprendizado é perceber que todo mundo tem dificuldade na vida e passa por coisas que não são boas, mas que se dá uma oportunidade de seguir em frente. Tem uma frase que diz assim: “Você pode até cair, ou você pode até passar por uma situação difícil, mas o que vai dizer se você vai prosseguir, se você vai se dar bem na vida, é o que você escolhe. Você vai escolher ficar caído no chão ou você vai preferir seguir em frente?” E eles nos ensinam isso, seguem em frente. Acho que essa é a maior lição que a gente aprende: não desistir. 

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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