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História

A primeira impressão é a que fica

História de: Valter Luis Caldana Junior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Descendente de uma família italiana, Valter cresceu na cidade de Ribeirão Preto, no interior do Estado de São Paulo. Lá, viveu em um bairro que era uma espécie de comunidade italiana. Mais tarde, ainda na infância, mudou-se para a capital, do que tem lembranças muito fortes. Seu pai era jornalista, sua mãe professora. Ele prestou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) na Universidade de São Paulo (USP) e viveu intensamente os anos da abertura política do país. Estava nas fundações do Partido dos Trabalhadores (PT). Sua carreira profissional, mais tarde, desenvolveu-se na Arquitetura, como professor e organizador de projetos e exposições.

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História completa

P/1 – Valter você pode falar o seu nome, o local e a data de nascimento.


R – Valter Luis Caldana Júnior, mais comumente Valter Caldana. Nasci em Ribeirão Preto no dia 18 de abril de 1962. 


P/1 – Os seus pais são de Ribeirão Preto?


R – Os meus pais são de Ribeirão Preto, a família toda é de Ribeirão Preto, na geração anterior a minha e na geração anterior é toda da Itália.


P/1 – Então os seus avós são italianos?


R – Os meus avós são todos italianos.


P/1 – Você sabe quando que eles vieram para o Brasil?


R – Sei.


P/1 – Avós por parte de pai ou de mãe?


R– De mãe e de pai, todos são italianos. Conheço mais as histórias da família da mãe do que do pai, mas a história é uma história bonita até. A italianada da minha família veio para o Brasil primeiro no final do século dezenove, 1890, e já foram para região de Ribeirão. Ribeirão tinha uma fazenda do Schmidt, um alemão, onde hoje é o campus da Faculdade de Medicina e enfim, já tinha um processo de imigração desde essa época, eles vieram. Já tinham ido para Ribeirão e voltaram para a Itália, não se adaptaram a Ribeirão, não sei exatamente porque voltaram… E voltaram a se estabelecer na cidadezinha italiana. Depois, na Primeira Guerra, perderam tudo de novo, se é que tinham alguma coisa. Terminada a Primeira Guerra em 1920, alguma coisa assim, não tinha mais jeito na Itália e eles voltaram pro Brasil, voltaram para Ribeirão e aí foram se estabelecendo lá.


P/1 – O que que eles faziam em Ribeirão?


R – Bom, aí de tudo um pouco né, mas a família italiana é uma coisa que é virótica né? Família italiana vai crescendo, é um conceito de família muito largo, mas o eixo central da minha família: o meu bisavô, pai da minha avó, era carroceiro; as mulheres eram do lar, obviamente, elas cuidavam da família e cuidavam da educação das crianças; o meu bisavô pai do meu avô já não veio para o Brasil porque morreu na Itália; o meu avô veio, eles foram trabalhar na fazenda onde ficaram meses, pouco tempo, o meu avô era operário da Antártica. Ribeirão é uma cidade que cresceu muito em torno de uma fábrica da Antártica, tem uma coisa um pouco Mooca sabe? É muito parecido, o bairro em que eu cresci em Ribeirão é uma espécie de Mooca porque é um bairro absolutamente italiano, em todos os aspectos como a Mooca, que tem a fábrica da Antártica que regia inclusive o ciclo vital do bairro, porque o apito da fábrica era o ciclo vital do bairro, todo mundo que morava no bairro trabalhava na Antártica e o meu avô era operário da Antártica. A minha avó cuidava da casa, morreu cedo, a minha mãe perdeu a mãe muito cedo e aí o meu avô casou de novo e aí também cuidava da casa, enfim, era uma estrutura familiar convencional, normal, sem grandes...


P/1 – Aí o seu pai nasceu? A sua mãe né?


R – A minha mãe, porque esse é o lado todo da minha mãe, pois é, aí a minha mãe nasceu lá em Ribeirão… E é uma coisa interessante porque isso tem a ver com o aspecto cultural local, nas famílias italianas você tem duas posições distintas. Você tem uma posição que acredita que tem que estudar e você tem uma posição que acha que não precisa estudar e na minha família você tem as duas coisas. A minha mãe estava de um lado em que ela tinha que estudar, então, a minha mãe, o irmão dela e mais alguns primos deles, são de uma geração que ascendeu socialmente e culturalmente através do estudo porque tinham que estudar desde criança. Eles tem outros primos nesta geração que esse valor não era o valor cotidiano maior, então você tem aí um momento de diferenciação, essa questão do estudo é muito importante. Essa questão do estudo é muito importante nas populações imigrantes a questão do estudo é sempre muito importante, em todas as colônias né? Italiana, espanhola, japonesa, judaica, é sempre muito claro e isso sempre foi uma questão bem colocada, enfim, aí é isso, aí depois nasci eu, que beleza, fui o primeiro neto, o primeiro filho (risos)...


P/1 – E único?


R – Fui filho único por muito tempo.


P/1 – Me fala uma coisa, como é que o seu pai e a sua mãe se conheceram, você sabe? 


R – Ah, imagino que na faculdade… O meu pai biológico e a minha mãe se separaram, se casaram e se separaram muito rapidamente e a minha mãe se casou de novo. Então sempre que eu falar “o meu pai”, vai ser quem é o meu padrasto na verdade. O meu pai biológico… Se conheceram na faculdade, mas rapidamente se separaram, enfim, não foi um casamento duradouro.


P/1 – E você não teve contato com ele?


R– Muito pouco, são contatos muito esporádicos, porque como houve o segundo casamento, eu mudei para São Paulo, a família toda mudou para São Paulo você tem outra estruturação né?!


P/1 – Quando você nasceu você ficou quanto tempo em Ribeirão?


R – Eu morei em Ribeirão até os sete anos, oito anos, eu morei em Ribeirão...


P/1 – Você lembra como é que era a sua casa lá?


R – Lembro, adoro.


P/1 – Como é que era a casa?


R – Ah, eu morei em duas casas em Ribeirão, são casas típicas… Eu morei em uma casa, ela inclusive não tem recuo frontal, ela tem alpendre, a janela do quarto dá na calçada, é uma coisa bem gostosa, é uma relação com a cidade muito boa, muito intensa, não tem muita intermediação com a relação com a cidade e você está dormindo no quarto e as pessoas estão passando na calçada ali, parede e meia, é muito bom. Eu morei em casas muito movimentadas porque essa coisa da família foi sempre muito presente, então, como eu disse, o conceito de família é muito grande. Eu me lembro, a minha família como todo família italiana é matriarcal e a matriarca da família era a minha avó, na verdade é uma tia-avó, mas com quem eu morei um tempo em Ribeirão e então a casa dela era o elemento articulador de todas as relações familiares. Todos os primos, aí os primos iam casando e então as mulheres dos primos passam a ser primas né? Aí eles passam a ter filhos, então, os filhos dos primos são primos também (risos), aí os tios, aí não sei o que. Então, chegou uma época em que eu ia para Ribeirão e eu saía com a minha avó para ir pro centro, para fazer qualquer coisa, enfim e era um inferno porque ela parava a cada dez metros para cumprimentar alguém, me apresentar, para me re-apresentar: “Ah, esse é o Júnior e tal” e eu: “Ah, como vai, não sei o que”, aí terminada a conversa a gente andava mais um pouco eu falava: “Quem é?” “Ah, é sua prima” “Como minha prima?” “Não, é sua prima porque ela é casada com não sei quem”. Então a casa era sempre uma coisa muito agregadora, muito articuladora, eu tenho uma boa relação com casas apesar de hoje morar sozinho, mas eu tenho uma relação com casa muito em função dessa história. 


P/1 – E quem exercia a autoridade era a sua mãe? Você falou matriarcal, quem que exercia a autoridade em casa?


R – Não, a vida inteira eu sempre fui mandado por mulheres, disso eu não tenho a menor dúvida, o mundo é mandado por mulheres e eu não concebo o mundo de outro jeito, enfim. (risos) Quem mandava era essa minha avó, cujo o apelido era “Tia Nega”, tinha o olho azul e o apelido era “Tia Nega” (risos). Por isso que eu acho que essas discussões hoje em dia de chamar não sei quem de não sei o que, eu acho um pouco… Mas enfim, ela era a matriarca e ela articulava muitas famílias, muitos núcleos familiares se articulavam em torno dela e ela era feirante, ela trabalhava na feira, tinha uma banca de roupa e tinha outros irmãos que eram feirantes, enfim. E depois dela, hoje, bom, nosso núcleo familiar é absolutamente matriarcal, quem manda é a minha mãe e isso não se discute, há coisas na vida que não se discutem, mas se a minha mãe morasse ainda hoje em Ribeirão e se nós estivéssemos seguido a mesma toada certamente ela seria a matriarca, porque ela articula coisas das famílias em Ribeirão até hoje mesmo estando aqui em São Paulo. Imagina, estamos aqui há cinquenta anos, quarenta anos, então é uma coisa interessante. As estruturas familiares são muito repetitivas, essa história que eu estou contando vale para milhares de pessoas, né?


P/1 – Como é que era o bairro, o lugar onde você morava?


R– Ah, então, a Vila Tibério era isso: um bairro essencialmente residencial, um casario térreo que se construiu nas décadas de vinte, trinta e quarenta, era um bairro periférico. Ribeirão tinha o centro, o centro ficava em uma pequena colina que é a colina central da cidade, embaixo você tinha um dos ribeirões, porque são dois na verdade, a linha do trem e a porteira e para trás da linha do trem você tem o bairro, a periferia. Naquele caso, geograficamente, era uma periferia que ficava a novecentos metros do centro (risos), ou seja, não é o que nós chamamos de periferia hoje em São Paulo, mas o fato é que era depois da linha do trem, então era bairro, era vila, para quem é do interior isso é muito familiar, você tem o centro que é a cidade e você tem a vila, é o bairro, é o periférico não é? E do outro lado do rio e do outro lado da linha era onde tinha a fábrica da Antártica, e onde se desenvolveu esse bairro que se chama Vila Tibério que é um bairro, insisto, muito semelhante a Mooca. É um bairro de baixíssima densidade, casario térreo, bons terrenos, todos eles com bons quintais, quando eu estou falando bons eu estou falando sempre alguma coisa como os seus dez por trinta e casas que tem aí portanto algo em torno sempre de duzentos e cinquenta metros, duzentos metros, ou seja, são casas sempre muito confortáveis, de modo geral são casas em que a sala é um espaço reservado e tudo acontece na cozinha e no quintal. É a cozinha que é o grande elemento articulador e não a sala e tem muito a ver com vila mesmo. Era um ambiente extremamente familiar, porque a apropriação da cidade que você consegue ter em um ambiente desse é privilegiadíssimo, então, para você ter uma idéia, uma coisa que é fantástica, naquele momento a gente jogava muito bola na rua, mas isso acontecia aqui em São Paulo também, se passasse um carro correndo na rua com a gente jogando bola a gente gritava: “A rua é pública”, imagina? A gente enfrentava o carro, a gente xingava o motorista, porque isso é uma apropriação da cidade que se perdeu há muito pouco tempo (isso é uma coisa que eu faço um esforço enorme para explicar para os meus alunos que para uma cidade, vinte e cinco anos é um suspiro e faz só vinte e cinco anos que isso aconteceu em São Paulo, por exemplo, em todas as cidades, em Ribeirão mesmo e que isso é recuperável), mas enfim, isso é outra discussão… Voltando a essa questão da Vila Tibério, então, era isso, quer dizer, a gente brincava na rua o dia inteiro ou na casa de alguém...  


P/1 – Do que vocês brincavam, além de bola?


R – De tudo, mocinho e bandido, muita coisa de bang-bang, faroeste. A Vila Tibério em Ribeirão Preto na década de 1960 tinha três cinemas, isso é uma coisa louca, cinema de bairro que também é uma coisa que se perdeu, hoje os cinemas que estão lá, os salões viraram loja de sapato e igreja Universal, enfim… Então, a gente ia à matinê no domingo e durante a semana ficava brincando dos personagens do filme, Durango Kid, Jerônimo, brincava-se muito disso, brincava-se muito de carrinho, brincava-se muito de bolinha de gude, um jogo que todas as mães e avós odiavam chamado finca (risos)... 


P/1 – O que é finca?


R – Finca é um jogo perigosíssimo, que você só pode fazer onde tem terra. É o seguinte: você tem que pegar uma lâmina ou uma faca velha, sempre é velha, por isso que é mais perigoso, ainda pelo menos se fosse nova era limpa (risos), você faz um determinado roteiro no chão, como se fosse uma amarelinha, e você tem que fincar a lâmina no chão naquele lugar certo e isso dá o ponto, aí você caminha, aí você vai para aquele pedaço, pega o negócio e finca, por isso que chama finca, de fincar no chão (risos). E obviamente as mães não davam acesso a facas, então, a gente improvisava a faca com qualquer lâmina cortante que se encontrasse na rua, no lixo, imagina o perigo né? O perigo de furar o pé, cortar a mão e ainda pegar tétano, quer dizer, imagina? Uma coisa gravíssima, mas jogava-se muito finca, bolinha de gude e outro jogo que em Ribeirão chamava bets que é um nome inglês, mas que aqui em São Paulo chama taco que é um jogo que você põe um “tripézinho” de palito de sorvete ou de graveto, é um beisebol mega simplificado, eu fui até atropelado jogando bets... 


P/1 – É mesmo?


R – Por um ônibus, é.


P/1 – Lá em Ribeirão? Como é que foi?


R – Lá em Ribeirão, na porta da casa da minha avó. Ah, a bola foi, eu fui e o ônibus veio (risos) foi uma...


P/1 – Mas chegou a te pegar?


R– É, chegou, mas não aconteceu nada porque eu sou grande (risos), não, não é por isso não, na verdade o motorista do ônibus foi fantástico, ele não estava correndo, ele conseguiu brecar o ônibus a tempo, enfim, foi tudo direitinho, aí o motorista queria me matar, ele desceu do ônibus e ele queria me bater (risos), então, o grande perigo na verdade...


P/1 – Ele quis te bater?


R – Queria, ele foi atrás de mim, foi uma cena hilária: eu ainda assustadíssimo e o motorista desceu do ônibus já me xingando, assim, histérico, imagina? Coitado do cara, década de 1960, isso devia ser no máximo 1970, sei lá, atropelar uma criança em um bairro seria uma tragédia impagável, entendeu? E a culpa era toda minha, não tinha a menor dúvida (risos), aí o motorista desceu do ônibus e queria me aplicar um corretivo e eu tive que sair correndo, mas enfim, acontece, coitado.


P/1 – E você ia à escola já? Você entrou com quantos anos?


R – Em Ribeirão? Então, em Ribeirão eu fiz o jardim da infância na Escola Estadual Sinhá Junqueira, aí logo mudei para São Paulo, então, o primeiro ano primário eu já fiz aqui em São Paulo porque eu mudei para cá com sete anos, justamente mudei para cá na idade escolar mesmo, a minha mãe veio e...


P/1 – O seu pai fazia o que lá?


R – Ele é jornalista, lá e aqui, enfim.


P/1 – Ele trabalhava para algum jornal lá?


R – Lá em Ribeirão? Trabalhou, trabalhou para um jornal chamado “A Cidade”, que existe até hoje, ele tinha uma coluna chamada Coluna do Povão e aqui em São Paulo depois ele trabalhava, bom ele fez de tudo, trabalhou na Editora Abril, na “Realidade” que era uma revista bem bacana da época.


P/1 – O que que era o Povão?


R– A Coluna do Povão? Era uma coluna, sei lá, ele falava mal de Deus, de todo mundo provavelmente, falava do governo, mal certamente, o meu pai ele é um homem muito radical, ele sempre foi muito mais radical do que eu, por exemplo, ele é muito firme nas posições, ele é um crítico muito ácido do sistema e muito culto, então, naquele momento eu imagino que a coluna dele fosse bem sobre as questões políticas da época que eram, enfim, estamos falando de plena ditadura, pré e pós AI5, então é um momento muito delicado.


P/1 – Se discutia política na sua casa?


R – O tempo inteiro, isso é uma presença e é uma coisa interessante porque era uma presença nas casas brasileiras, depois da ditadura, particularmente na década de 1970, é que se perdeu esse hábito, mas se discutia política na minha casa, mas na casa dos meus coleguinhas também.


P/1 – E o seu pai defendia algum partido?


R – Ah, vários, todos da oposição sempre, não partido exatamente, mas sempre na oposição a ditadura, sempre no campo democrático, enfim, naquele momento de esquerda, hoje esquerda ainda, eu acho que hoje ele é mais de esquerda ainda do que era naquele momento. 


P/1 – E educação religiosa?


R – Então, quando eu vim para São Paulo, bom, educação religiosa lá em Ribeirão dentro de casa sempre houve, você dizer que é de uma família italiana significa você dizer também que você é de uma família católica.


P/1 – Mas rezava?


R – Não, não com esse nível de liturgia, até porque o sincretismo se estabelece sempre, eu tinha tia que era espírita, era católica, mas era espírita, espírita era kardecista, a outra era médium, a outra não sei o que, ou seja... 


P/1 – Tinha médium?


R–... Tem, sempre tem (risos), imagina! Não falta nada, o importante na vida é não faltar nada, mas então, o sincretismo sempre esteve presente, claro, mas aí alguém se casava com alguém que era protestante também já rolava aquela: “Ah, ela casou com não sei quem, mas ele é protestante”, mas eu pensava: “Bom, mas o outro é espírita” (risos), ou seja, onde é que está a questão? E não tinha problema nenhum mesmo, isso é uma coisa maravilhosa no Brasil. Mas enfim, a educação religiosa sempre existiu e quando eu mudei para São Paulo, em casa essa questão religiosa ficou menor, porque no núcleo familiar, mãe, pai, enfim, a questão religiosa era menos presente, eles eram mais jovens, mais década de 1960. Em compensação eu fui estudar em uma escola que apesar de pública, era fortemente influenciada por padres e aí, enfim, fiz primeira comunhão, toda a parte bíblica, bastante bem feita, ali na Igreja Nossa Senhora de Fátima. Eu curto muito até hoje essa idéia geral de ter feito lá, de ter estudado lá, enfim, eu ainda não fui para Fátima, mas na próxima ida para Portugal eu vou dar um jeito de ir.


P/1 – Por que que os seus pais mudaram para São Paulo?


R – Ah, Ribeirão ficou pequeno para eles, não dava, certamente não tinha o tipo de atividade de interesse deles, de objetivos, não havia condição, foi uma coisa natural naquele momento...


P/1 – Mas eles já tinham trabalho, seu pai, sua mãe?


R – Já, a minha mãe antes de vir para São Paulo já tinha ido trabalhar em Brasília, aí teve o golpe e ela voltou para Ribeirão e aí veio para São Paulo.


P/1 – A sua mãe é o que mesmo?


R – Naquele momento, ela já fez muita coisa, mas ela sempre foi dada a educação, sempre foi professora de alguma coisa. Mas ficar em Ribeirão naquele momento, final da década de 1960… Esse movimento de jovens, jovens saírem do interior e virem para São Paulo ou Rio, era um movimento constante, era quase uma regra para estudar, para trabalhar, para arrumar outros empregos, isso foi um movimento… Teve até uma novela do Mário Prata que retratou isso muito bem, chamava “Estúpido Cupido”, que retratou esse momento bastante...


P/1 – Peculiar né?!


R – É, bem peculiar, enfim… Então vieram para trabalhar.


P/1 – Mas tinha alguma coisa certa ou eles iam ver se dava?


R – Não, tinha, a minha mãe foi professora do SESI por muito tempo e o motivo pelo qual eu estudei no SESI aqui, logo que eu vim para São Paulo, lá no Nossa Senhora de Fátima, mas, enfim, foram transferências mesmo.


P/1 – Você era filho único até então?


R – Fui filho único até 1973.


P/1 – E quando você chegou a São Paulo qual foi a sua primeira impressão?


R – Você sabe que a minha primeira impressão de São Paulo foi bem bacana? Porque me impressionou muito a cidade, o artefato cidade. Me impressionaram muito os prédios, porque como Ribeirão era uma cidade baixa, tinha dois ou três prédios quando eu ribeirão-pretano de convivência mesmo né? Então, eu fazia uma coisa fascinante, que era o seguinte: eu ficava no banco de trás do carro deitado com a cabeça no vidro de trás para ver a cidade deitado, com isso os prédios passavam em uma perspectiva distorcida e eu achava isso o máximo porque aí os prédios se mexiam e eu ficava delirando com aqueles prédios (risos), todos eles viravam personagens para mim. Então, a entrada em São Paulo para mim sempre foi muito significativa, porque a gente chegava pela Anhanguera e você começava a ver aquele monte de prédios ao longe e você começa a penetrar naquele universo que para mim, que era do interior, aquilo que era o mato. Então, assim, eu estava indo pro mato, eu estava indo para “sabe-se Deus o quê” e isso era fantástico. Eu comecei a vir a São Paulo, porque a minha mãe mudou para São Paulo e eu ainda fiquei em Ribeirão, ela mudou para se organizar, para organizar a casa, esse tipo de coisa, e eu fiquei em Ribeirão, até porque eu estava na escola, jardim da infância, aquela coisa toda, mas eu vinha toda hora, então, eu viajei muito Ribeirão – São Paulo desde muito pequeno e depois São Paulo – Ribeirão até os dezesseis, dezessete anos. Então, a chegada em São Paulo sempre foi muito significativa e para mim sempre muito emocionante, muito feliz, eu me apaixonei sempre por São Paulo, me apaixonei por São Paulo desde sempre e quando eu mudei, mudei já para pinheiros, eu sou super pinheirense e... 


P/1 – Mas qual que foi o primeiro bairro que vocês chegaram?


R – Pinheiros. Então, já mudei para Pinheiros...  


P/1 – Em que lugar?


R – Na Rua Cônego e era onde eu jogava bola, onde eu...


P/1 – Como é que era?


R– Então, na Cônego eu morava no primeiro quarteirão, entre a Cardeal e a Teodoro e era uma rua linda porque naquele tempo, finados… Primeiro que naquele tempo as pessoas iam ao cemitério. Como as pessoas iam ao cemitério e a rua é a porta do Cemitério São Paulo, o quarteirão inteiro, era uma floricultura ao lado da outra, tanto é que eu trabalhei naquelas floriculturas todas, a gente, molecada ficava na calçada e ia para dentro das floriculturas, porque eu era amigo dos filhos dos donos da floriculturas que estavam ali também, moravam por ali, enfim, éramos todos amigos e a gente ficava lá dentro da floricultura fazendo rosa velha ficar nova, ajudando a fazer arranjo para casamento e enterro, esse tipo de coisa, corbelha, enfim...


P/1 – Você fazia corbelha?


R – Ô, fui um grande fazedor de corbelha. 


P/1 – Como você fazia corbelha?


R – Ah, como você tinha que escolher as piores flores, todo o refugo (risos) e aí tem uma técnica de despetalar com algum critério, que você faz parecer um botão, é bem bacana e tem sentido, porque vai jogar fora mesmo, já ia jogar fora, então, é um reaproveitamento, hoje seria chamado de reciclagem… Mas, de qualquer forma, eu morava aqui em Pinheiros e Pinheiros era o meu território, era o meu espaço, era o meu lugar, enfim, é até hoje, eu moro até hoje.


P/1 – Onde você foi estudar?


R – Na Nossa Senhora de Fátima que é ali na Avenida Doutor Arnaldo onde tem a torre da TV Cultura que, aliás, demoliram ali a escola, pelo o que eu soube, agora, no fim do ano passado, fiquei bem chateado, mas eu estudava ali. Então, com isso eu tive uma infância muito centrada aqui em Pinheiros, onde eu jogava bola na rua, andava de bicicleta na rua, ou seja, há quarenta anos atrás, que eu insisto, para uma cidade é muito pouco tempo… E também no Sumaré, porque lá na escola eu tinha muitos amigos do Sumaré, ali no eixo da Avenida Alfonso Bovero que foi um lugar onde eu convivi muito também, Alfonso Bovero, Apinagés, enfim, Caiubi, Tv Tupi, onde hoje é a MTV… Então, a gente ficava brincando na rua, eu jogava bola na Alfonso Bovero, para você ter uma idéia! E ali moravam todos os artistas da TV Tupi, ali em volta, então, era uma maravilha porque você ficava brincando na rua, aí passava a Eva Wilma, descia a Joana Fomm, aí passava o Silvio Santos, era uma diversão, aí todo mundo: “Olha lá”. Era uma cidade que se construía né? A cidade de São Paulo que nós conhecemos hoje estava se construindo naquele tempo, então, as relações ainda eram duplas, você tinha a relação da cidade pequena com a cidade grande, era bem bom. Na verdade, quando eu saí de Ribeirão e vim para São Paulo, que era a questão, houve um choque? Claro que sim, porque São Paulo já era uma cidade, São Paulo era uma cidade enorme, Ribeirão ainda era uma cidade pequena, mas São Paulo era uma cidade enorme. Porém extremamente acolhedora e eu tive uma oportunidade muito boa de chegar em uma idade em que eu consegui ser paulistano, porque eu fui descobrindo coisas da vida e da cidade simultaneamente, então, por exemplo, eu andava de bicicleta na rua, mas eu tinha território demarcado pela mãe, então eu não podia atravessar a rua de bicicleta, quando eu ganhei, eu tinha que estar sempre na mesma calçada, ou seja, o meu percurso era Cônego Eugênio Leite, Teodoro Sampaio, Francisco Leitão, Cardeal Arcoverde e Cônego Eugênio Leite (risos)... Não podia atravessar a rua, por exemplo, eu não podia ir para o outro lado da Cônego, eu tinha que ficar sempre do lado da calçada onde eu morava, enfim. Isso na vida de um menino, vocês não fazem idéia do que é, porque isso é uma prisão, é como se tivessem colocado grades em volta da cidade e assim, as crianças ganham bicicleta no mesmo natal, há uma coincidência de idades, é uma coisa bacana, então a gente ficava de comboio andando (risos) até que um, um dia falava: “Ah, vamos atravessar” e andava do outro lado e aí se um podia atravessar a Cônego, o quadrilátero já aumentava porque aí então, já tinham as calçadas do outro lado e eu só atravessava em frente de casa. Ou seja, essa conquista do território é fantástica e naquele tempo estavam abrindo a Henrique Schaumann, estava em obras porque estavam demolindo as casas da desapropriação, então esse era o limite, esse era intransponível, a Henrique Schaumann era a fronteira total, nem pensar, até porque estava em obras, era perigoso, então, a gente só podia ir para baixo. O dia que eu cheguei na Pedroso de Moraes de bicicleta, eu lembro até hoje porque eu tive que atravessar umas seis ou sete ruas, é uma coisa louca, agora, sabe o que eu lamento muito? É que hoje se um moleque de oito, nove, dez anos, que era a idade que eu tinha, for andar de bicicleta na Teodoro Sampaio não sobrevive dez metros né, coitado, não vai, não cabe, não tem espaço para ele, imagina? Isso é uma pena, os urbanistas precisam dar jeito nisso.


R – Estávamos falando de?


P/1 – Estávamos em Pinheiros na...


R– Estávamos em Pinheiros na vitória da bicicleta, olha só que lembrança gostosa? Então, e é isso, eu tive essa chance na transição Ribeirão – São Paulo de ser o momento da minha vida de conquistas, de crescimento, sete, oito, nove, dez anos e então, não foi um choque, assim, tão grande, quer dizer...


P/1 – E o seu pai estava trabalhando onde nesse momento?


R – Acho que trabalhava na “Realidade”, que foi uma revista bem bacana, bem importante, e a minha mãe trabalhava no SESI, dava aula no SESI, enfim, foi uma transição difícil, claro, mas suave sobre esse aspecto. Eu fui primeiro para uma escola aqui de Pinheiros chamada Godofredo Furtado, que fica ao lado de onde era o Clube do Choro, está lá até hoje, mas ali eu não me adaptei muito bem… Em uma semana eu acho que eu briguei umas três vezes e eu não era muito briguento, mas enfim, aí eu acho que a minha mãe ficou meio preocupada e me tirou de lá e me botou na Nossa Senhora de Fátima que foi bárbaro, o SESI é bárbaro, o sistema S é bárbaro, eles não fazem nada errado, é uma coisa impressionante. O SESC, o SESI, o SENAI, eu adoro e o SESC, enfim, não temo que falar e o SESI também e eu estudei lá até a quarta série e foi muito bom. E aí essa questão da religião, então, lá era do SESI, ou seja, era absolutamente leigo, laico, mas os padres tinham uma influência forte, claro, as professoras todas catolicíssimas, então eu mesmo fiz de livre e espontânea pressão (risos), não, brincadeira, de livre e espontânea vontade eu fiz primeira comunhão, fiz catecismo… Então, eu tive uma formação católica apostólica romana naquele instante bastante sólida também, e fiz primeira comunhão lá na mesma turma. Na primeira comunhão tinha uma menina chamada Patrícia Aires, que eu não sei que fim levou...

P/1 – Filha do Percy Aires?


R – Não sei, mas ela era atriz mirim...


P/1 – Ela era atriz fez o meu Pedacinho de Chão, filha da Ângela Lima...


R – Não e também a Pequena Órfã...


P/1 –  A Pequena Órfã, filha do Percy Aires. 


R – Era uma sensação o fato de que a Patrícia Aires estava fazendo primeira comunhão e tal.


P/1 – Fez a primeira comunhão com você?


R– Eu lembro que era uma coisa, eu tenho essa lembrança assim, porque era ali do lado da TV, era do lado da emissora, eu nem sei, essa moça é atriz ainda? Enfim, eu sei que ela era um sucesso nacional, ela era o equivalente, sei lá, do que era a Sandy até um tempo atrás, isso era remarcável na época. Mas enfim, foi uma primeira comunhão muito boa porque eles eram franciscanos, alguns eram franciscanos, não sei se todos, mas alguns, e os franciscanos têm uma visão muito bonita da religião, então foi bom e o catecismo foi uma época muito boa, tem época na vida para fazer as coisas né, essa é uma época adequada, então foi gostoso. De lá eu saí e fui estudar em um colégio do estado que também foi essencial na minha vida, na minha formação, por outros motivos, mas enfim, que foi o Fernão Dias aqui em Pinheiros, aí eu fiz da quinta série até a oitava no Fernão Dias que foi genial, foi muito bom, isso foi uma sorte, um privilégio, eu posso dizer que eu peguei a raspa de tacho do grande momento do ginásio do Estado. Eu tive professores no ginásio maravilhosos, assim, os antigos, a minha professora de biologia, se eu não me engano chamava dona Emeri, era uma sapeense, era uma senhora já às vésperas de se aposentar, talvez até já devesse estar aposentada, mas insistia; eu tive uma professora de desenho fantástica que nunca vou poder dizer para ela que isso aconteceu, mas certamente eu sou arquiteto em parte por influência dela, chamava dona Geralda. Na verdade, (risos) a gente tinha que ficar desenhando faixa grega decorativa, letra e etc., mas tinha uma outra professora, a dona Geralda era gorda, enorme e brava que dava até medo e tinha uma outra, que eu vou cometer agora uma injustiça de não lembrar o nome, que era magrinha, singela, do outro ano, mas elas eram professoras de desenho geniais, elas davam desenho geométrico e me influenciaram muito. Eu tive aula com um professor de história da arte, o cara era da Academia Paulista de Letras, chamava Paulo, era poeta, mas enfim, eu tive um curso com ele, eu estou falando do Colégio do Estado Fernão Dias, eu tive um curso com ele de História da Arte/ História da Civilização da Mesopotâmia até o século vinte, que eu nunca mais tive com a mesma qualidade, ou seja, a escola tinha laboratórios, tinha professor de química, tudo isso em um colégio do Estado, no ginásio do estado, foi um privilégio porque logo depois começou a degringolar e enfim, eu sei que o Fernão Dias hoje continua uma escola de boa qualidade no contexto geral do ensino público, mas a gente tem sempre que lembrar que o ensino público é vital para existência do país da gente e eu falo sempre com muito orgulho, que tanto o SESI quanto o ginásio estadual foram marcantes para a minha formação. No colegial, aí já certamente antevendo problemas eu fui estudar em um colégio particular que também foi uma experiência ótima, que é o Bandeirantes e depois fiz FAU, fiz USP.


P/1 – Vamos voltar e aí na adolescência o que você fazia, quais eram os programas?


R – Ah, a parte confessável? Não, na verdade eu tive uma adolescência muito intensa... 


P/1 – Você teve um irmão nesse período?


R – Tive em 1973, tenho ele até hoje.


P/1 – Aí em 1973 ele nasceu?


R – Nasceu, é um super irmão...


P/1 – Qual é o nome dele?


R – Fabiano, queridíssimo...


P/1 – Então, você é nove anos mais velho do que ele?


R – Onze anos.


P/1 – Onze anos.


R – Onze anos, exatamente onze anos, aliás, essa é uma discussão entre eu e ele porque eu sou do dia dezoito e ele é do dia quinze, então, na conta dele eu sou dez anos mais velho do que ele e alguns meses, é uma brincadeira familiar, eu sou onze anos mais velho do que ele. Ele nasceu em 1973 e foi um acontecimento, porque imagina, eu já era grandinho, eu já tinha onze anos, ou seja, eu já tinha todos os hábitos, as benesses de ser filho único, eu fui filho único por onze anos, de certa forma o meu irmão também foi porque como eu já era onze anos mais velho, então acabou acontecendo essa disparidade, hoje somos bons amigos, mas é engraçado você ter tanta diferença de idade, há momentos em que a gente está muito unidos e há momentos em que os interesses são muito separados, são muito diferentes. Então ele teve a trajetória dele, a individualidade dele e hoje já nos reencontramos, somos grandes amigos, não tem, assim, (risos) é chato falar isso, mas o tempo vai passando e a diferença de idade diminui (risos), onze em cinquenta é quase nada né? Onze em dezoito é tudo, enfim, é interessante, mas lá atrás, então, na adolescência? A adolescência foi assim, vou te dizer, tem ainda muito a ver com relação a Ribeirão, então, eu vim para cá com sete anos, fiz o primário aqui, isso foi uma outra chance, uma outra oportunidade que eu tive muito boa que foi o seguinte, dos sete anos, todo o período do primário, no último dia de aula, teve a ocasião de eu já levar a malinha para a escola, eu saía da escola, ia para a rodoviária, tomava o ônibus, ia para Ribeirão, ficava as férias inteiras em Ribeirão e naquele tempo férias era de verdade, não é essa enganação que é hoje em dia, vinte dias, tinha três meses de férias, isso era férias entendeu? E eu ficava as férias inteiras em Ribeirão e eu voltava de Ribeirão para São Paulo na véspera do primeiro dia de aula, isso significa que eu tive, por isso que eu digo que foi uma oportunidade, foi uma chance, eu tive a oportunidade de ter uma vida dupla, de capital e interior, então, eu vivi as qualidades de estar em São Paulo, isso dos sete até os quinze anos, dezesseis anos, eu vivi as qualidades de estar em São Paulo com as qualidades de um meninão do interior, ou seja, eu continuava brincando na rua, eu continuava tendo a turma, eu continuava participando das intrigas, eu tinha namoradinhas lá, quando começou a época de namoradinhas, eu tinha namoradinhas e paixõezinhas lá, paixõezinhas aqui, sintonias diferentes e como há sintonias distintas e como há ritos distintos, liturgias distintas, eu tive essa oportunidade de conviver intensamente com as duas, ou seja, então, eu nunca deixei de ser um menino do interior e gosto demais disso, eu falo disso até hoje, eu sou rigorosamente do interior, mas também não deixei de ter uma formação paulistana e uma adolescência paulistana naquilo que tem de melhor em uma adolescência paulistana, que é indiscutivelmente a vida cultural, a efervescência cultural e política da cidade. Então, eu aproveitei demais as duas coisas do sete aos quinze anos, a minha vida era essa de realmente frequentar, ficar demais em Ribeirão, grandes amigos, turma mesmo, por quê? Porque naquele momento Ribeirão era uma cidade florescente e uma cidade boêmia, então é uma cidade onde você vai dormir às seis horas da manhã e passa a noite batendo papo, papos muito saudáveis, porque é uma cidade de estudantes. A faculdade de medicina moldou muito Ribeirão e já naquele momento, década de 1980, 1970, Ribeirão já era um núcleo universitário, então, você tinha uma cadeia alimentar estudantil, todas as idades e todo mundo andando junto na rua de madrugada se encontrando, isso era muito bom. E eu me aproveitei muito disso lá, e me aproveitei muito aqui em São Paulo de tudo o que São Paulo oferecia. Cine Bijou, que era um cinema que menor de idade podia assistir qualquer filme, ali na Praça Roosevelt, tinha duas salas, enfim, Cineclubes. Em um determinado momento comecei a participar de política, política partidária e política estudantil...


P/1 – Qual partido?


R – Ah, MDB né? Só tinha o MDB naquela época...


P/1 – Ainda não tinha...


R – Era anos 1970 ainda, a primeira campanha eleitoral que eu participei foi em 1974, eu tinha doze anos, 1974, 1975, que foi enfim, depois 1976, depois 1978, aí já bastante intensamente. Então, a minha adolescência foi muito rica porque ela teve esse dois lados, teve uma coisa muito marcante na minha vida, também uma experiência marcante, eu comecei a estudar francês muito cedo, eu comecei a estudar francês com sete anos de idade, logo que eu mudei para São Paulo imediatamente...


P/1 – Você foi fazer aula?


R – Eu estudava na Aliança Francesa...


P/1 – Por que francês? Sua mãe?


R– Sei lá porque francês, mas sim, a decisão certamente não foi minha, mas eu gostava, eu acho que foi uma coisa que eu devo ter manifestado algum interesse, não sei, vou perguntar quando eu chegar em casa por quê francês (risos) e não inglês, por que aliança e não cultura… Mas talvez, alguma coisa aí deu lógica, anti americana, não sei (risos), não faço idéia. Mas enfim, eu comecei a estudar francês muito cedo e eu fui para França quando eu tinha treze anos, eu fui para França e fiquei na França por uns quatro meses sozinho, sem os pais. Fiquei na casa de amigos brasileiros e franceses, isso foi muito marcante na minha vida porque imagina, um meninão de treze anos sozinho na França gozando de uma plena liberdade, falando outra língua, em outro país, tendo que descobrir coisas, até porque a relação dos europeus com as crianças e os adolescentes é bem diferente da nossa e a minha mãe não sabia, graças a Deus porque se ela soubesse eu acho que não teria jamais deixado eu ir… Que é de largar, eles largam e eu percebi isso rápido, (risos) claro que eu percebi rápido, então, foi uma maravilha entendeu? Assim, foi realmente muito marcante na minha vida porque a minha mãe me mandou para lá em casa de amigos, eu acho que ela achava que haveria um cuidado que seria o cuidado que ela daria, imagina, eu fui super bem cuidado, claro, eu tenho uma segunda mãe francesa, já morreu, chamada Nina, que foi quem me recebeu e que é uma paixão, enfim, que era amiga da minha mãe, é óbvio que ela cuidou de mim, me monitorou o tempo inteiro, mas de um jeito francês, de um jeito europeu que é “se vira”. Não era aquela coisa, meninão, filho único, com avó, tia, tio e foi muito marcante para mim, foi um período muito gostoso e assim, uma coisa que vale contextualizar é que uma viagem internacional naquele momento era uma cerimônia que envolvia, enfim, era uma cerimônia, hoje eu tento contar isso para os meus alunos, eles ficam me olhando com aquela cara, porque hoje você vai para o aeroporto e vai embora, acabou, naquele tempo você tinha que passar meses preparando, envolvia a família, a avó chorava, as pessoas iam te levar ao aeroporto, iam certo, a família inteira ia te levar no aeroporto, era uma coisa impressionante, você via que às vezes vinte pessoas, e a gente levava os amigos no aeroporto mesmo, década de 1980. Eu já na faculdade me lembro, eu tenho um grande amigo da época, português, ele ia para Portugal e a gente ia levar o cara no aeroporto, imagina, que coisa, como mudou… E eu sei que eu fui em pleno 1975, “ditadurassa”, eu fui para lá, fiquei quatro meses, foi muito bom, foi muito importante e marcou muito a minha adolescência, sobretudo a face paulistana da minha adolescência e foi um momento de transição, no retorno eu já comecei a ir menos para Ribeirão, porque aí já havia outros interesses mais paulistanos, aí dali um pouco eu comecei com uma atividade cultural e política mais intensa em São Paulo, então, enfim, eu comecei a ter uma vida mais paulistana mesmo, mas esse momento da adolescência ribeirão-pretana foi muito bom.


P/1 – Quando você teve a sua primeira namorada?


R – Com ela sabendo ou sem ela saber?


P/1 – Sem ela saber e depois ela sabendo?


R – Sem ela saber, foi cedo, eu fui muito namorador desde cedo (risos)...


P/1 – Como é que era a primeira que você lembra?


R –  Acho que com sete aninhos, assim...


P/1 – Quem que era ela?


R – Não, eu fui apaixonado com menos do que isso, eu era apaixonado por uma menininha lá em Ribeirão, mas, assim, que foi paixão mesmo, de lamber o chão que ela pisava, foi aqui na Nossa Senhora de Fátima, acho, a primeira que eu lembro ela chamava Ana Maria.


P/1 – Como é que foi?


R– Ah, não foi né? Ela nunca soube (risos), por isso que eu perguntei, mas ela foi a minha namorada intensa mesmo, assim, a gente estava no primeiro ano primário, a gente ia juntos na perua, você não sabe o que era aquilo, você não sabe o que era aquilo, as manobras que eu fazia para sentar ao lado dela, o que que era aquilo meu Deus do céu, que paixão! Eu quero uma dessa de volta… Mas foi a Ana Maria, essa foi a primeira “paixãozassa” que eu me lembre. Agora, com ela sabendo demorou, você sabe que assim, eu já nem lembro direito, mas acho que foi, ah, eu diria que oficialmente assim, se tivesse demarcar foi aqui no Fernão, uma moça japonesa, inclusive, de pegar na mão. A gente ir na biblioteca Mário de Andrade de mão dada, ela era tímida, mas peguei na mão, então, já está valendo, já conta, contato físico já estabelecido. Ela chamava Mariza, eu acho que foi ela talvez, eu devo estar cometendo alguma injustiça, mas enfim, mas aí eu já tinha... 


P/1 – Você gostava de escutar som?


R – Muito, muito, ouvia música todo tempo, algumas coisas eu fiz demais na vida, por isso eu não faço mais hoje tanto, ouvir música e ir a cinema, por exemplo, eu ouvia muito música, sempre gostei...


P/1 – Do que você gostava?


R – Ah, sempre gostei demais de música popular brasileira, demais e sempre gostei muito e depois rapidamente me encantei por rock and roll, eu sempre gostei demais de rock, naquele momento e depois como todo mundo da minha idade, eu me apaixonei por rock progressivo e como todo mundo que gosta de rock progressivo em algum momento abriu a cabeça e foi entender o que é música clássica e erudita e perceber que é muito bom e depois se apaixona por jazz e fica, aí é a essência, então não tem mais, mas o meu percurso de música é esse, assim, começou com música. Lá em Ribeirão, obviamente… Ah, tem uma parte disso que é muito importante, que assim, eu convivi muito com discos, desde pequeno, e com música sertaneja, entre outras coisas porque eu tinha um tio que era compositor de música sertaneja e tinha loja de discos em Ribeirão, então, as duplas iam para lá e como ele era compositor também, meio boêmio e tudo mais, havia uma certa relação e havia um certo convívio com a música sertaneja, não essa que a gente conhece hoje, mas com a antiga, com aquela da época, então, a música sertaneja e os programas de rádio foram muito importantes na minha primeira infância, eu cheguei a ir, pagar mico em programa de rádio, de cantor mirim, enfim...


P/1 – Você foi?


R – É claro, há poucos micos que eu já não paguei na vida.


P/1 – Você cantando?


R – Claro, sem dúvida...


P/1 – Ah, você vai cantar alguma coisa, o que você cantava?


R– Imagina, de jeito nenhum.


P/1 – Nem um pedaço?


R – Não, não lembro nem do que era, eu só me lembro da cena de eu indo cantar no programa de rádio (risos), eu sempre fui muito curioso, o motivo pelo qual eu estou aqui, assim, eu sempre fui extremamente curioso...


P/1 – Se você não viesse eu ia ficar de mal de você...


R – É também (risos) mas eu sempre quis entender como as coisas acontecem, como elas funcionam, então, essa coisa de acumular experiência para mim é uma coisa vital, então, por exemplo: “Ah, você topa ir a um programa de rádio cantar uma música?” “Eu topo”, porque eu quero ver como é que é um programa de rádio, enfim, “Você topa ir dar entrevista no Museu da Pessoa?” “Eu topo” eu quero saber como é (risos), enfim, é um coisa, e com essa minha curiosidade eu já fiz coisas legais e já paguei mico também, óbvio, não tem dúvida. Mas enfim, essa coisa da música sertaneja foi importante porque essa musicalidade do interior paulista esteve presente desde muito pequeno, mas tinha também uma outra coisa chamada Beatles, que eu tinha primos mais velhos, eu tinha seis anos, cinco anos e os meus primos tinham quinze, eu tenho uma geração de primos que é mais velho do que eu, mas nós convivíamos todos na mesma casa e eles ouviam Beatles e Jovem Guarda, então, isso também me influenciou, é claro, não só influenciou, mas me formou. Aí aqui em São Paulo eu fui descobrindo a MPB dentro de casa, depois como eu disse rock progressivo, música clássica… Eu tive uma professora de música, até eu postei uma homenagem para ela no Facebook na reabertura do Municipal, eu tive uma professora de música no Fernão Dias que pegava a gente pelo menos uma vez por mês, senão a cada quinze dias, levava no domingo de manhã no Municipal para assistir o concerto da juventude, chamava dona Léia. Foi fantástico, isso ajudou demais, hoje inclusive eu sou amigo, a vida me aproximou de parentes, de sobrinhas da dona Léia, enfim, tudo mais, e eu não me canso de falar assim, eu não sou um conhecedor de música, mas eu sou um grande ouvidor de música e devo muito a ela. Foi muito bom, então, essa parte da música, foi isso. A adolescência foi isso, tiveram essas questões, essa viagem para França foi muito marcante, essa estadia...


P/1 – Você tinha algum desejo ou os seus pais para que você seguisse alguma carreira?


R – Eu queria ser motorista de caminhão (risos), era a minha paixão, porque há algumas diferenças entre um menino do interior e o menino da capital, o menino da capital ele quer ser piloto de avião e o menino do interior quer ser motorista de caminhão, é uma questão de horizonte (risos)... Não, os meus pais nunca me pressionaram para ser nada, meu pai é moderno, não tinha essa, a minha avó, não, ela não me pressionava, ela só dizia assim: “Essa noite eu sonhei com você de branco, você estava tão bonito” (risos)... Você não sabe o que são as matriarcas da minha família, ela falava assim porque ela tinha, em um determinado momento ela já estava ficando velha, então, tinha problema disso, tinha problema daquilo: “Se um dia você for médico eu sei que você vai me curar” (risos), imagina? Mas ninguém nunca me pressionou para nada a não ser ela fazendo esse cerimonial (risos). Mas você sabe que por conta disso e por conta até de “vamos ver né”, quando eu estava no colegial eu fui, nem me lembro quem organizou isso, eu fui passar uma semana em uma escola de medicina lá e fui para Bragança Paulista (risos), você vê é curiosidade, então, surgiu uma oportunidade: “Pô, vamos lá para Bragança, que não sei quem está estudando lá, vamos ficar uma semana lá na faculdade”; “Pô, vamos já, vamos ver como é uma escola de medicina” e foi fantástico porque foi, assim, a primeira vista mesmo, não havia a menor possibilidade de eu ser médico, a menor possibilidade, nada me aproximaria daquilo, ou seja, foi ótimo porque isso me tranquilizou muito, eu nunca tive essa dúvida, “Será que você quer ser médico?”. Não queria ser médico, então, um dia eu voltei da viagem, liguei para a minha avó e falei: “Ó, roupa branca só no réveillon mesmo (risos) porque não vai ter como”, mas nunca houve pressão dos meus pais, nunca. 


P/1 – E como é que você...


R – Como é que eu virei arquiteto?


P/1 – É, você fez o colégio no Bandeirantes?


R– Eu fiz colégio no Bandeirantes. Não, então, na verdade essa história é ela é bem contável, ela é bem passo a passo porque o que acontece é o seguinte: eu estava no ginásio, como eu disse, eu fui muito influenciado por essas professoras de Desenho, por esse professor de História da Arte, eu sempre fui apaixonado por História, então, eu tive também no ginásio eu tive professoras de História e de Educação Moral e Cívica, pasmem, muito boa, a Educação Moral e Cívica era uma disciplina que foi um tiro no pé da ditadura, porque a ditadura fez a disciplina obrigatória com um objetivo, e a onde caia na mão de professores bons a disciplina era bárbara… E em geral ficou na mão dos professores de Geografia e História. E aqui no Fernão eu tive uma professora bárbara, que era também professora de História. Enfim, mais o professor de História da Arte e isso fez com que eu me aproximasse muito da idéia não do desenho, porque eu não sou um grande desenhista, mas da idéia do projeto, então, eu passei a ter uma relação com a cidade, com o projeto, com o ato de projetar muito próxima e aí como um bom meninão, eu desenhava, um garotão de época, a indústria automobilística efervescendo, eu desenhava carro, então, eu tinha cadernos de desenho em que eu ficava desenhando carros, ônibus, caminhão, eu desenhava montes, famílias de desenhos de carros e aí fui terminando o ginásio, quinta à oitava. Eu em princípio ia estudar no colégio Equipe, havia uma certa… Enfim, um caminho natural: ou eu ficava no Fernão que tinha que fazer o vestibulinho, como de fato fiz, ou eu ia para o Equipe, mas aí como eu desenhava carro, por algum motivo eu descobri, eu soube que o melhor lugar para projetar carros, aviões, etc., era o ITA e eu encanei na oitava série que eu queria ser projetista de carro, avião, enfim e pressionei os meus pais que já que eu queria fazer ITA, lá na frente, eu tinha que fazer um colégio bom de exatas, pressionei e acabei fazendo o vestibulinho no Porto Seguro e no Bandeirantes, o que foi um certo desgosto familiar porque eu sei que no Fernão eu não ia pagar nada, no Equipe ia pagar pouco e havia bolsa, uma relação qualquer de amizade, e no Bandeirantes não (risos), nem no Porto Seguro, enfim. Mas aí eu prestei o tal vestibulinho e passei no Bandeirantes e a pressão foi grande, fui fazer Bandeirantes porque eu queria fazer ITA. Então, eu fui para o colegial já decidido que eu queria fazer ITA porque eu queria projetar carros, automóveis e caminhões e ao longo do colegial, para a minha sorte, eu descobri, quer dizer, nada contra o ITA, ao contrário, eu tenho amigos que fizeram e enfim, são muito felizes, mas eu descobri no colegial uma coisa um pouco mais sofisticada, que a minha paixão não eram os carros ou os aviões, mas era projetar, ou seja, eu consegui no colegial sintetizar a idéia do projeto que é difícil, foi uma sorte que eu tive, isso muito ajudado por um grupo de amigos, porque no Bandeirantes não tinha humanas, eram exatas ou biológicas. E tinha um grupinho subversivo, do qual eu fazia parte, que queria fazer arquitetura, e aí foi o momento então que eu descobri e também porque eu tinha uma quedinha por uma menina que já ia fazer arquitetura também, é claro que isso tudo influencia, uma quedinha não, eu tinha uma paixão! E aí enfim, mas eu descobri a idéia do projeto... 


P/1 – Foi no Bandeirantes?


R – Foi no Bandeirantes. E aí eu desisti do ITA, no segundo colegial e eu falei: “Não, então não, eu quero fazer projeto, não vou passar o resto da vida fazendo engenharia” porque aí também no Bandeirantes eu tomei contato muito próximo com o cotidiano da engenharia, ou seja, e fui paulatinamente descobrindo que projeto quem faz é arquiteto, projeto amplo senso quem faz é arquiteto, aí eu fui fazer LA, a tal da Linguagem Arquitetônica, enfim, no próprio colégio. Éramos um grupo muito unido e tínhamos um jornal na escola, ou seja, tudo se mistura, porque eu já tinha uma trajetória de política estudantil, que já tinha começado lá no ginásio, uma vida cultural intensa, Federação do Cine Clube, então, as coisas todas se misturam e aí eu descobri que o lugar que eu ia misturar isso tudo era fazendo arquitetura e não fazendo engenharia aeronáutica, a tempo.


P/1 – Aí você descobriu a tempo.


R – Aí eu descobri a tempo, foi muito bom e eu sou um privilegiado, obviamente, porque você fazer o que gosta ou você descobrir uma coisa que você gosta nesse momento da adolescência é ganhar na loto. Porque é um massacre o que se faz, o nosso sistema educacional, nosso ocidental, não é só aqui no Brasil… Se bem que o oriental também, porque eu andei vendo umas reportagens aí que mais alucinantes até do que os nossos, mas enfim… Você fazer um adolescente, você triturar um adolescente desse modo para tomar uma decisão para os próximos quarenta, cinquenta anos não é brincadeira. Mas foi muito bom, então, eu descobri essa coisa do projeto, essa idéia do projeto e que isso me agradava, a questão estratégica era uma questão que me seduzia e eu não precisava fazer ITA para isso e obviamente naquele momento ainda de ditadura, porque nós estamos falando pré anistia, 1977, 1978, naquele momento eu também comecei a perceber que talvez eu não fosse exatamente o perfil do aluno que o ITA queria. Dada, como eu disse, essa vida, esse engajamento político que eu já tinha e que me foi muito importante a vida toda e do qual eu me orgulho muito. Então, eu descobri a arquitetura porque eu não conhecia, eu sou de um tempo do repertório em que você tinha a figura do engenheiro arquiteto, que é uma figura que efetivamente é do início do século passado e tal, não é do repertório da minha família, do meu ambiente familiar, arquiteto, eu fui conhecer arquiteto de verdade, acho que o primeira arquiteto de verdade que eu fui conhecer foi quando eu fui fazer LA no colégio, enfim… Então foi uma descoberta mesmo para mim, foi muito bom, foi muito legal.


P/1 – E aí você fez cursinho ou entrou direto?


R – Não, fiz cursinho. 


P/1 – Onde você fez?


R – Ah, quem fez um colegial intenso como o meu não entra direto, eu fiz no Anglo, na verdade no terceiro colegial eu tive uma vida social muito intensa, uma vida política, eu estudava que nem um cachorro, eu não era o melhor aluno, mas eu era bom aluno, eu estudava em um colégio em que não cabiam alunos médios, então isso não tinha, mas eu tinha uma vida social muito intensa, um grupo de amigos muito queridos e uma atividade política muito forte.


P/1 – Qual que era a sua atividade social, o que você fazia?


R– Ah, era festa, não era festa, era uma vida agregaria, então, a gente ia para casa de alguém, ficava ouvindo música e conversando, enfim e mudando o mundo, reformando o mundo...


P/1 – E bebendo? Bebia também?


R – Bebendo, bebia bastante, bebia bem, mas não usava droga, nunca usei, não usava, mesmo maconha, tinham amigos que usavam muito, mas não era life motive, não era o que nos unia, cerveja sim, tomávamos muitas, aliás, eu tomo muitas, bom hoje eu não bebo há mais de dez anos… Mas eu tomei muita cerveja, desde os treze anos, em Ribeirão se bebe cerveja às onze horas da manhã, é a cidade do chopp. Então a cerveja sempre foi um elemento articulador, muita cerveja e era o que a gente fazia, tomava muita cerveja, muita… É muito saudável, é o pão líquido! E conversava demais, quem fumava saía, fumava, dava um tapa, voltava, não tinha problema, sem grande dificuldade, mas não era a nossa fissura. E era muita conversa, muita, muito sonho, foi muito saudável, sobre esse aspecto, eu tinha um grupo de amigos muito legal e que sonhava muito, sonhávamos muito e olha, é gostoso dizer que a gente se reúne, se encontra e claro, a taxa de realização dos sonhos é boa, não integral, nem poderia ser, se não teria graça, mas enfim, as coisas deram certo, não há muita desvio.


P/1 – Aí no cursinho você falou: “Vou entrar na USP”?


R – No cursinho eu falei: “Vou entrar na USP”.


P/1 – Era a sua única opção?


R – A única opção, foi o único vestibular que eu fiz, eu nunca fiz nenhum outro.


P/1 – Aí você prestou e passou?


R – No cursinho sim, no terceiro colegial eu já tinha também prestado só para a USP, eu morava perto, era do lado, era de graça, tirando a época do Bandeirantes eu estudei em escola pública a vida inteira, me era natural, a minha mãe a essa altura já era também professora lá, eu tinha amigos que já estudavam lá...


P/1 – Já era professora na USP?


R– É.


P/1 – Na educação?


R – Não, nesse momento na ECA, eu tinha amigos que já estudavam na FAU, amigos do colegial, lembra que eu tinha um grupinho lá do LA, dos arquitetos, dos subversivos? Eu não passei no vestibular, mas eles passaram (risos), enfim e eles já estudavam na escola, eu queria reencontrá-los, então, fui muito focado. No colegial eu já tinha só prestado para USP e no cursinho também, no cursinho eu reconheço, com uma ponta de orgulho, que foi uma decisão corajosa, e cuja decisão o apoio do meu pai foi absolutamente decisivo porque chegou uma hora que eu amarelei. Você está no cursinho, todo mundo que fez cursinho sabe o que é um ambiente de cursinho e assim, você se inscreve em tudo, porque chega uma hora em que o delírio é passar, você tem que passar em algum lugar, qualquer que seja e as pessoas vão se inscrevendo e fazem maratonas de vestibular, viajam, enfim. E eu um dia cheguei para o meu pai e fui pedir dinheiro para fazer inscrição no Mackenzie, que na verdade eu tinha decidido que tudo bem, que eu não ia prestar muitas, mas eu ia prestar as clássicas, as boas, Mackenzie e na época Santos era a boa, então, eu ia prestar Mackenzie, Santos e USP. E eu fui pedir dinheiro para me inscrever no Mackenzie e ele falou: ”Ah, mas por quê que você vai prestar Mackenzie?”, eu falei: “Ué porque eu estou fazendo cursinho (risos) e eu tenho que entrar na faculdade, não está no script?” e ele falou: “Não mas, você não falou que queria fazer na FAU com os seus amigos?” “Claro, mas né (risos)? E aí né?!” ele falou: “Não, então, você vai prestar na FAU, não precisa prestar no Mackenzie” “Você tem certeza?” aí ele falou: “Eu tenho e você tem?” (risos), eu falei: “Eu tenho” “Então tá”, ou seja, ele foi absolutamente decisivo...


P/1 – Vai nessa.


R – E fui e deu certo, enfim, uma hora ia dar né?!


P/1 – Quando você entrou...


R – Ah, eu fiquei muito feliz, muito feliz, foi um dos dias marcantes, foi um desejo porque no terceiro colegial eu tive, agora eu não lembro, no terceiro colegial? Acho que foi no cursinho, foi no cursinho porque o massacre do cursinho é muito grande, eu cheguei a pensar em fazer jornalismo ou direito ao invés de fazer arquitetura, primeiro porque eu gosto, são duas carreiras que eu acho lindas e acho que teria me dado bem com elas, eu gostaria, enfim, não me seria um fardo e eu acho que era mais fácil na época o vestibular, então, eu cheguei a pensar em falar: “Ah, eu acho que eu vou fazer jornalismo e tal”... Também nessa época o meu pai foi bem firme, mesmo sendo jornalista e eu acho que ele ficou todo felizinho quando eu disse: “Ah, quem sabe eu vou fazer jornalismo”, ele foi bem durão: “É muito bacana ser jornalista sim, mas você queria ser arquiteto”. Aí eu falei: “Tá, tá bom (risos), sim senhor, tá bom, eu continuo querendo”. Os meus pais sempre foram muito apoiadores nas decisões tomadas, e eles também, isso eu acho muito positivo, em compensação eles sempre foram muito cobradores das decisões tomadas, então, assim: “Você decida o que você quiser, mas decida e uma vez decidido, está decidido”, ou seja, bastante linear, isso ajudou muito o meu irmão e eu porque simplifica, não dá muita margem para ficar batendo cabeça, isso é bom.


P/1 – E  como é que foi na USP?


R – Ah, foi muito bom.


P/1 – Como foi a sua chegada lá na FAU?


R– Ah, a minha chegada? A minha chegada naquele templo, que é aquele prédio, é uma chegada em que você chega pequeninho, você chega miúdo, mas como eu já tinha alguns amigos que já tinham entrado no ano anterior e aí amigos de amigos, enfim, aí a gente vai fazendo amizade. A faculdade de arquitetura da USP é uma experiência de vida muito forte, muito marcante. Porque você passa o dia dentro do prédio, é uma faculdade de período integral, você passa o dia dentro do prédio, você estabelece relações de amizade e de inimizade muito intensas, que vão pautando a sua vida. Ela é muito equipada, ela tem a biblioteca, ela tem os laboratórios e ela tem uns espaços de convivência muito generosos. Então, é um momento em que você tem uma vida agregaria muito forte, muito intensa na vida dessa adolescência e pós- adolescência. E o prédio é todo desenhado para isso, e o curso é um curso muito bonito, independente da profissão arquitetura, assim como o curso de direito, o curso de arquitetura é um curso muito bonito. Eu diria que há três cursos que são muito bonitos: Filosofia, Arquitetura e Direito. Porque são conhecimentos humanos basilares, então é muito bonito, porque você faz o curso de arquitetura você está lidando com arte o tempo todo, você está lidando com história, você está lidando com civilização, como antropologia… Para quem quer se aprofundar um pouco mais, você está lidando com economia, você está lidando com tecnologia, com planejamento, estratégia e enfim, você descobre a cidade que é a grande explosão de conhecimento humano. Então, o curso é muito bonito e você está em um momento gregário, então, é tudo muito intenso, estudar na USP lá no Campus, lá na fazendinha, é uma coisa muito específica, porque você fica isolado da cidade, então, você tem essa… A diferença do Mackenzie, por exemplo, que é onde hoje eu convivo intensamente, que é o campus central, é outra experiência fascinante, quer dizer, porque aí o campus é a cidade, você está no ônibus, você está no táxi... 


P/1 – No centro?


R – Você está no epicentro, é outra experiência né? Lá na USP não, lá na USP, no Campus você está isolado da cidade, você está lá dentro, é um microcosmo onde você reproduz todas as relações, inclusive, todas as neuroses, esquizofrenia da sociedade está tudo ali dentro, é uma coisa. Agora, foi muito intensa a minha vida universitária, foi muito intensa porque como eu já fazia política lá atrás, desde o colegial, política estudantil e muito mais, também isso já facilitou muito a minha entrada...


P/1 – Aí era 1982?


R – Era 1980, 1981. Então, a política estudantil na universidade foi apenas a continuação De uma política estudantil que eu já fazia no movimento secundarista, com um breve ato do ano do cursinho que eu tive o juízo de me afastar um pouco...


P/1 – Mas é o que, reunião de diretório?


R – Tudo o que você possa imaginar.


P/1 – E MDB ou já estava indo para o PT?


R – Não, eu nunca fui do PT.


P/1 – Você ficou no MDB?


R– Eu fiquei no MDB...


P/1 – Em 1980 você começou no PT né?


R – Foi, eu participei de tudo que diga respeito ao processo de fundação do PT. Na pré-fundação, toda a movimentação de 1979, na Greve de 1979 eu trabalhei lá com o sindicato, era dos comitês de apoio e do fundo de greve, tudo o que você possa imaginar que fosse lícito ou ilegal naquele momento eu participei em maior ou menor grau. Nunca fui um herói, mas sempre fui um, digamos assim, um operário da causa. Sempre tive uma presença constante, isso foi muito importante para mim a vida inteira, enfim, isso sempre pautou a minha formação e tudo mais. Então lá nessa época da faculdade foi tudo muito bom, tudo muito intenso, porque de 1981 a 1985 o Brasil viveu um momento muito especial, que foi o momento de profunda esperança com o fim da ditadura, ou seja, a campanha das Diretas Já, a idéia de que já estamos derrubando a ditadura, a ditadura está acabando etc. e tal… Isso em termos de Brasil, associado a um momento sublime no Estado de São Paulo que se deve a uma série de fatores, mas um homem chamado André Franco Montoro, que fez um governo fantástico no Estado incorporando a juventude no governo, o governo Montoro foi um momento absolutamente especial no Brasil, no Estado de São Paulo e então se viveu quatro ou cinco anos ali, no Brasil, de grande efervescência, de grande esperança, uma energia construtiva muito forte no ar, muito grande e eu peguei isso tudo dentro da universidade, ou seja, com todo o tempo do mundo a minha disposição e isso foi muito bom.


P/1 – Era integral o curso?


R – Era integral, e vivíamos o curso integralmente. Então, dentro da faculdade eu fui tudo o que você possa imaginar, eu fui presidente do grêmio, eu fui presidente do GFAU, ganhei eleição, perdi eleição, perdi eleição por dois votos, ganhei eleição por um voto ou vice e versa, fui do DCE, fui da UEE, participei da reconstrução da UNE com o famoso congresso da UNE de São Bernardo, lá na Vera Cruz, quando a UNE foi construída lá estávamos, ou seja, foi uma vida muito intensa, muito marcada por esse período, foi tudo muito querido.


P/1 – E os amigos da faculdade?


R – Alguns são meus amigos até hoje, assim, são os meus amigos até hoje de convívio cotidiano, alguns dão aula comigo inclusive.


P/1 – Que matéria que você gostava mesmo, assim? Foi tipo, show?


R – Ah, na faculdade? Não, na faculdade aí a paixão já era plena...


P/1 – Era por tudo?


R– Tudo, claro, projeto porque projeto é projeto não é? Mas na faculdade, por exemplo, eu descobri a maravilha da cidade, eu descobri o planejamento urbano, descobri o design, mergulhei no design, trabalhei com isso depois de formado. Nesse aspecto eu sou muito inquieto, eu trabalhei em todos os campos que a arquitetura permite, eu trabalhei com design por anos, trabalhei com planejamento urbano, eu trabalho até hoje, há anos, fiz mestrado em planejamento urbano, fiz doutorado em projeto, trabalho com projeto, tenho escritório, enfim. 


P/1 – Que professor te marcou mais assim? Ah, pelo jeito são vários.


R – Ah, não, isso é fácil, tem um professor chamado Rodrigo Lefevre, já morto, morreu em um acidente trágico na África, mas que é um sujeito extremamente marcante na minha trajetória; outro chamado João Matrezan que é um grande arquiteto, está vivo até hoje, produzindo, ainda é professor; Júlio Katinsky, grande arquiteto, um dos homens mais cultos que eu conheci, Rui Gama, já falecido, um grande sujeito, profundo conhecedor das técnicas e de uma generosidade fantástica; Vilanova Artigas, eu tive o privilégio de fazer uma disciplina com ele no retorno dele na FAU e tive o privilégio de conviver com ele em ocasiões e em situações...


R – Então, do que estávamos falando?


P/1 – Da entrada no Mackenzie.


R – Hum, muito bem. Então, foi isso, eu saí da UNESP, que foi uma experiência muito boa e terminei o meu mestrado, isso foi em 1994, eu saí da UNESP em 1993, em 1994 eu terminei o meu mestrado que eu levei sete anos para fazer, um recorde. Eu bati dois recordes com o meu mestrado, isso é digno de nota. O primeiro eu bati na entrada, que se eu não me engano na época eu fui o mestrando mais novo que entrou, porque não era comum como hoje o recém formado fazer mestrado. E eu entrei eu acho que com seis meses de formado, então, foi um recorde, hoje isso é super comum, não é nada de outro mundo, é uma coisa bem conjuntural, mas aí eu bati um outro recorde (risos), porque eu usei todo o prazo possível e imaginável, então eu levei exatos sete anos para entregar o meu mestrado. O que foi muito importante para mim, porque eu passei por todos os momentos da relação de um mestrando com o seu trabalho acadêmico, os momentos de paixão, de amor, de indiferença, de ódio, de mais profundo desprezo, da insegurança, tudo, o que foi muito bom. Por isso que eu defendo ainda hoje, sete anos, eu confesso que eu exagerei, mas essa história de fazer mestrado em dois anos, como hoje o sistema pede, eu acho um equívoco, porque tritura, é uma tarefa, e o trabalho acadêmico não pode jamais ser uma tarefa, o trabalho acadêmico é uma coisa que precisa de fermentação. Cerveja tem um tempo para ficar boa, vinho tem um tempo para ficar bom, whisky tem um tempo para ficar bom, as coisas não são assim, um livro tem um tempo para ficar bom e um trabalho acadêmico então, nem se fale… E eu sei que eu exagerei um pouco, eu acho que eu bati o recorde ao contrário porque eu levei sete anos para fazer o mestrado, mas aí eu terminei e aí me deu saudade de dar aula, eu estava um pouco incomodado… Porque tem uma história interessante também que é assim: como eu comecei a dar aula, nunca me passou pela cabeça ser professor, e eu tinha o meu escritório com esses sócios que eu fiz ainda dentro da faculdade, depois me formei, continuei no escritório e obviamente como todo bom grupo de rock and roll a gente se desentendeu e eu saí, “Vou ter uma carreira solo” e assim foi feito. Fui trabalhar sozinho e obviamente eu não tinha cliente (risos), não tinha nada, só tinha eu, na verdade a minha carreira solo era solo mesmo, ela literalmente solo, inclusive, solo porque eu não tinha cadeira para sentar, enfim, era assim no solo. Teve um cliente, ele era cliente do escritório onde eu era sócio, que chamava-se “A Cinco – Arquitetos e Associados” e ele ligou lá: “Ah, eu queria falar com o Valter” aí falaram: “O Valtão saiu, ele não é mais sócio” ele falou: “Se vocês não se incomodam porque eu queria fazer com ele o trabalho” “Tá, tudo bem” deram o meu número e ele me ligou, chamava Milton, foi o meu primeiro cliente solo, Milton Fugiwara, ele nem sabe, eu nunca mais vi o Milton, ele nem sabe disso, aí o Milton ele me procurou e eu falei: “Ah, pô, claro, Milton vamos retomar aquele projeto. Sim, tal, agora eu estou trabalhando sozinho, não tem problema, eu vou aí na tua casa” e ele falou: “Não, não, eu estou de férias, eu vou aí no escritório” marcamos, tipo amanhã, eu falei: “Ah, que bacana, legal, vem sim”. Porque eu tinha alugado um… Eu tinha tentando ficar em casa, eu morava com os meus pais, ficou impossível porque começaram a me pedir para saber o que era para fazer de almoço, bife, eu falei: ”Não, não vai dar certo esse negócio”. Aí eu fui para o ateliê de um amigo, Delbuque, é meu compadre até hoje, meu amigo, amicíssimo, enfim e ele tinha um ateliezinho na Matias Aires em cima da Violeta. Ele com a Adriana Consorte, se eu não me engano, que é fotógrafa, ele que é arquiteto, publicitário, designer e eu, lembro que me arrumaram um cantinho ali, esse era o meu escritório, como ele e a Adriana, a Adriana fotografava, quando ela tinha que fotografar a gente tinha que sair fora porque ela fotografava nus, modelos, tinha que sair fora. Ele só ia a noite, então de dia eu ficava sozinho, sozinho mesmo, era solo, não tinha o que fazer, aí tinha uma dentista ao lado, Cecília, minha amiga até hoje, que também estava começando a carreira solo e ela não tinha cliente, então a gente ficava batendo papo o dia inteiro, ela dentista e eu arquiteto (risos), mas enfim. Aí o Milton resolveu que queria ir ao meu escritório, eu falei: “Ah, que legal, tal” desliguei o telefone, olhei em volta não tinha cadeira. Só tinha uma cadeira, porque nunca se precisou de duas e eu falei: “Pronto, o que eu vou fazer agora (risos)? Agora eu tenho cliente e não tenho cadeira né?!”. Aí eu liguei pro meu pai correndo, fui até ele para pegar um cheque, parei em uma dessas lojas e comprei essas cadeiras de plástico preto que empilha, cadeira de boteco, esse desenho sueco clássico, que me escapa o nome agora, eu comprei quatro, já comprei logo quatro né? Já tinha o que usar, eu falei: “Ufa, agora já posso fazer a reunião, só falta ele trazer as filhas também porque aí eu estou perdido (risos)”. Mas por sorte não, veio só ele e a mulher, enfim, foi o meu primeiro cliente solo. Mas de qualquer forma eu falei isso porque eu estava nessa situação e eu descobri, como eu sou um pouco indisciplinado para leituras, eu percebi rapidamente, já no outro escritório que eu ia mergulhar nesse mundo profissional e que eu ia parar de estudar, que eu ia parar de ler. E aí eu fui fazer disciplinas na pós-graduação da faculdade por isso, foi exatamente por isso porque eu falei: “Se eu não tiver uma obrigação, eu não vou mais estudar, como eu sou apaixonado pela profissão, eu vou mergulhar nisso aqui e vai ser um processo que vai me encurtar horizontes”, eu tive essa percepção e fui. Estava na pós-graduação, eu entrando, totalmente neófito, já lá fazia a disciplina com uma aluna doutoranda, uma professora muito experiente chamada Eliana Comin, professora da USP até hoje, professora da FAU até hoje. E no final do semestre eu tinha recém saído do meu escritório, da minha sociedade antiga, eu estava nesse escritório que não tinha cadeira e que não tinha o que fazer e ela falou: “A professora entrou de licença (qualquer coisa assim) você não quer terminar o semestre comigo, é na mesma disciplina que eu dou aula, planejamento urbano?” eu falei: “Imagina, você está louca, não faça isso (risos)” – “Não, é só um mês e meio e tal, não sei o que” enfim, fui, uma história clássica, fui e nunca mais parei, continuei dando aula até hoje.


P/1 – Sempre da mesma disciplina?


R – Não, então, comecei dando aula de planejamento urbano e tal, depois passei a dar aula de projeto.


P/1 – E quando é que você virou diretor?


R– Da faculdade? Agora há pouco, há quatro anos atrás, eu estou no quarto ano do mandato, na verdade eu terminei um mandato, um ano, depois agora mais um mandato de três anos.


P/1 – Por que você decidiu ser diretor?


R – Ah, porque tinha projetos para implantar, na verdade eu comecei isso, eu fui vice-diretor da escola, por muito tempo, eu fui vice-diretor duas vezes, eu fui vice-diretor de um diretor chamado Carlão, Carlos Alonso, que é um grande diretor da faculdade. Eu fui vice-diretor dele e coordenador de um determinado projeto pedagógico por incumbência dele e depois fui vice-diretor da professora Nádia que é uma querida amiga também, que na época tivemos uma disputa eleitoral fortíssima, mas acabei me tornado vice-diretor dela e coordenador do curso de arquitetura, também continuando esse projeto, terminado o mandato da Nádia eu assumi a diretoria, fui eleito diretor, eleito e escolhido diretor. Estamos terminando de implantar esse projeto, ou seja, então, basicamente é ligado a projeto.


P/1 – Qual foi o principal projeto, mais marcante que você acha que você fez nesse tempo no Mackenzie?


R – Ah, foram duas coisas importantes que eu acredito que eu fiz junto com a nossa equipe de trabalho, a primeira é que nós fizemos uma reformulação no espaço físico da escola, dando protagonismo para bibliotecas e laboratórios, o que nessa primeira metade do século vinte e um vão ser dois elementos muito importantes no processo de ensino e aprendizado de todas as disciplinas, de todas as matérias, mas particularmente na arquitetura. Isso foi muito importante. E uma outra coisa muito importante que a gente vem fazendo nesses dez anos todos em que a gente está administrando a escola é tornar a escola um ambiente acadêmico mais amplo, da graduação até a pós-graduação, ou seja, então, hoje a gente tem uma graduação muito forte, a gente tem uma pós-graduação muito forte e o diálogo entre os dois é cada vez melhor, ainda não é o melhor possível, mas o diálogo cada vez melhor. E uma terceira coisa que foi muito importante que a gente conseguiu fazer, foi que hoje o nosso aluno é recebido na escola com uma estrutura que o auxilia a romper com o que eu tenho chamado de “visão colegial do mundo” que está embestilizando demais a nossa... 


P/1 – Completamente, de que maneira?


R – Com a fragmentação do conhecimento.


P/1 – Para ser recebido de que maneira?


R – Com a desfragmentação do conhecimento, o nível de fragmentação do conhecimento hoje no nível colegial é doentio, é fragmentação e sonegação, hoje o colegial não dá mais a quantidade de informação e conhecimento que nós tivemos. Por exemplo, você não tem geometria no colegial adequadamente, você não tem história adequadamente, você não tem filosofia adequadamente, veja, eu não estou me referindo ao colegial público, eu estou me referindo ao colegial privado também. Então, há um excesso de fragmentação, há uma leitura discutível do construtivismo e há uma deficiência no volume de conhecimento que é apresentado ao aluno, o aluno chega à universidade, que é o universo, ele chega com uma visão colegial de mundo, ou seja, ele chega inseguro, ele chega desadaptado ao ambiente, porque ele vem de um ambiente de hiper proteção, então, ele não conhece a cidade, ele não sabe se locomover, ele não conhece o território, ele não fez aquela voltinha de bicicleta, isso é grave, isso é muito grave e ele enxerga tudo fragmentado. Então, nós fizemos um belíssimo projeto, introduzindo uma disciplina chamada “Arquitetura e Cultura Contemporânea: a expressão e representação”, onde nós diminuímos o número de disciplinas exatamente para esse aluno entender que ele está em um novo ambiente, ele está em uma nova liturgia, em uma nova rotina e em uma nova percepção do que seja o mundo. Ele terá uma nova relação com o mundo que é uma relação biunívoca, é uma relação que ele dá e ele tira, ele não só tira, ele devolve. Isso é muito difícil porque, para a nossa surpresa, as gerações mais novas tem a energia da juventude, isso sempre terão, mas elas são mais conservadoras, elas são mais apegadas a sua zona de conforto do que as gerações, (não estou falando da nossa, não estou falando da minha, não é esse tipo de saudosismo, ao contrário), do que gerações de dez anos atrás, por exemplo, que eram muito mais desapegadas da sua zona de conforto, se arriscavam mais… Nós estamos vivendo um momento em que a juventude tem energia, mas ela não foca a energia no risco, ao contrário, ela foca a energia na sedimentação da sua zona de segurança e isso tem um nome, chama-se conservadorismo né? 


P/1 – Qual que é a sua relação com o IAB?


R– Hoje é uma relação distante de sócio, de amigo e amigo das pessoas que estão lá, mas eu fui diretor e conselheiro do IAB durante quase vinte anos, foi uma relação muito forte até 2006, de 1986 a 2006 eu tive uma relação muito forte com o IAB. Por causa do IAB e em nome do IAB, com o CREA também. Depois eu larguei isso tudo, não tinha mais projetos que me empolgassem nessa relação, eu me distanciei, continuo um sócio amigo e depois me reaproximei para fazer a bienal de arquitetura do ano passado.


P/1 – Como é que foi o convite para você fazer a bienal?


R – Foi um convite interessante, a diretoria do IAB me convidou porque como eu tenho uma vivência, além da vivência do escritório, uma vivência acadêmica e dirijo uma escola importante e havia lá uma série de cismas internos na corporação. Eu acabei sendo uma figura que possibilitou reconstruir diálogos, porque o ambiente acadêmico ele é muito propício a isso. Como eu tenho essa vinculação com o ambiente acadêmico, eu acabei podendo. E tinha uma história de vinte anos na entidade, eu acabei podendo auxiliar no diálogo, a construir pontes entre grupos que não vinham se falando, enfim, por problemas políticos conjunturais, isso foi uma das coisas que deu certo. As pessoas se reencontraram, começaram a conversar de novo, enfim, tanto é que hoje tem uma nova diretoria lá que é quase de consenso e tudo mais, as coisas estão indo bem, o IAB está renascendo, está bem bonito, está bem bom. 


P/1 – E aí quando você recebeu o convite você ficou surpreso?


R – Fiquei surpreso, fiquei bem surpreso aliás, porque é super importante isso, é institucionalmente muito importante. Mas, como eu disse, eu sou curioso, eu aceitei, hesitei um pouco, confesso, porque eu sabia do trabalho que iria dar porque eu já tinha acompanhado outros curadores que fizeram trabalhos fantásticos, mas eu vi o trabalho que eles tiveram e enfim, hesitei um pouco, consultei a minha sócia, que obviamente arcou com boa parte dessa responsabilidade, em toda essa trajetória ela esteve sempre muito presente, ela autorizou e aí eu aceitei. Foi um projeto pecúlio que eu fiz com amigos, com meia dúzia de amigos, dez, doze, quinze amigos, porque enfrentamos toda a falta de recursos possível e imaginável, mas fizemos realmente com muita transparência, muita dedicação, lealdade… A minha sócia Regina, a Mila, Valtinho, enfim, o Emerson, a equipe do IAB, Maria Eugênia, o John, Diana, ou seja, foi uma coisa muito presente, foi muito bom, foi muito desgastante, mas foi muito bom.


P/1 – Como é que você escolheu o tema?


R – Ah, foi uma profissão de fé. Porque o tema era “Arquitetura para todos: construindo cidadania”, é uma coisa que eu acredito, é uma coisa em que hoje eu tenho claro que foi o motivo pelo qual eu resolvi ser arquiteto. Porque o arquiteto tem o privilégio de desenhar os espaços da cidadania, os espaços onde o cidadão se realiza enquanto ser humano e isso é uma coisa fantástica, isso é uma coisa lindíssima você ter essa oportunidade. Outro dia inauguraram um hospital que foi projeto nosso, coisa de dez dias atrás. Eu sempre fui à inauguração, você vê a expressão de orgulho dos cidadãos daquela cidade, é uma cidade pequena, Campo Limpo Paulista, e você saber que você foi o sujeito que sintetizou aquele desejo em um desenho e deu forma em matéria naquilo que é deles, não é meu, é meu o desenho, mas o esforço e a energia é deles e através do meu desejo essa energia pode se organizar, se é uma energia que está dispersa ela pode se organizar, isso é muito bonito, isso é construir cidadania, isso construir a possibilidade de o ser humano ser, o espaço dele ser, então, o tema saiu disso, eu acredito nisso.


P/1 – E como é que foi a avaliação na bienal?


R – Do público interno foi ruim, ruim não, nota cinco, enfim porque foi uma bienal não dirigida ao público interno, então eu não mimei a corporação, ao contrário, eu acho até que eu tratei um pouco mal, mas pro público externo ela teve uma repercussão fantástica, que era exatamente a intenção do projeto, desde reportagem em cadeia nacional, no Jornal Nacional, até um fluxo de público onde nós conseguimos mais de, sei lá, mais de 80% do público era público não arquiteto, não especializado, ou seja, nós conseguimos dialogar com a sociedade, isso foi um sucesso fantástico, você ver a expressão das pessoas descobrindo que a cidade é delas e entendendo que são elas que fazem a cidade, não tem preço, é muito legal. E cada vez mais eu insisto nisso, cada vez mais a sociedade está descobrindo que a arquitetura e o urbanismo lhe é importante, só que os arquitetos agora precisam explicar para a sociedade que são eles que fazem a arquitetura e o urbanismo. São dois passos, os arquitetos não estão sendo capazes de fazer isso, há uma certa dificuldade e eu acho que a bienal veio no sentido de tentar auxiliar, a confirmar a idéia de que a arquitetura e o urbanismo é de todos e para todos e auxiliar na idéia de que as pessoas entendam, aprendam e enfim, convivam com o fato de que arquitetura e urbanismo é feita por arquitetos.


P/1 – Se você, olhando para trás na sua trajetória de vida, se você pudesse mudar alguma coisa você mudaria?


R– Ah, claro.


P/1 – O quê?


R – Não sei, mas com certeza, mas não o essencial, mas eu cometi muitos erros, é que hoje nós falamos de coisas que deram certo, mas não, mudaria, certamente. Teria viajado mais, eu viajo muito, mas eu viajaria ainda mais, durante um momento da minha vida eu pensei em fazer Instituto Rio Branco e ser diplomata, de vez em quando eu fico pensando se eu não devia ter feito isso mesmo, muito em função das viagens (risos), não exatamente da diplomacia, mas eu acho muito bonito essa coisa das relações internacionais e tal, mas um pouco que nem a idéia do jornalismo...


P/1 – Você casou?


R – Não, não nunca casei, mas, enfim, mudaria uma coisa ou outra, na essência eu não tenho arrependimentos não, ao contrário, eu acho que estou em um momento de cinquenta anos, então, tem muito balanço sendo feito e tudo mais, mas, por exemplo, eu cuidaria melhor da saúde, eu cuidaria um pouco melhor de algumas coisas, viajaria mais, leria mais coisas descompromissadas, a minha leitura é sempre muito profissional, muito de estudo, então, eu acho que isso são coisas que inclusive eu tenho tentado fazer, retomar alguns prazeres, enfim… Mas essencialmente não, eu faço o que eu gosto e é por isso que eu faço tanto, eu gosto, é um privilégio isso, então eu tenho que exercer esse privilégio. 


P/1 – Qual é o seu maior sonho?


R – Viajar muito...


P/1 – Eu sabia que você ia falar (risos).


R – Viajar muito (risos), do ponto de vista pessoal. Agora, eu tenho um grande sonho, eu tenho mesmo um grande sonho que é a gente conseguir ter uma sociedade que não tenha que ter medo das suas crianças, eu acho que isso é...


P/1 – Medo das suas?


R– Crianças.


P/1 – Como assim?


R – É uma grande vergonha uma sociedade que tem medo de uma criança no farol, não há sétima economia do mundo, primeira economia do mundo, enquanto a gente não corrigir isso, enquanto não tiver escola boa e todo mundo dentro dessa escola boa, o resto é discurso bobo, não dá, nós somos uma sociedade que tem medo de criança, você está a noite aparece uma criança de onze anos você fecha o vidro, você fica tenso, o que é isso? Enquanto a gente não resolver isso, o resto é discurso. É esse sonho eu tenho: todo mundo dentro da escola, mas isso não depende só de mim (risos).


P/1 – O que você achou da experiência de estar contando a sua história de vida aqui para o Museu da Pessoa?


R – É, eu gostei, achei muito boa. Bom, eu acho essa ideia fantástica, eu conheço o projeto faz tempo e sempre fui apaixonado por ele, mas gostei muito, foi muito bom, eu consegui, eu acho, não entusiasmar excessivamente, mas eu achei bem gostoso, eu fiquei bem entusiasmado, foi bom.


P/1 – Obrigada.


R – Eu que agradeço. 

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