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História

A primeira corrida de aço inox

História de: Saulo Fernando Tárcia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Infância e adolescência em Belo Horizonte. Curso Superior na Escola de Minas em Ouro Preto. Passagem pela Companhia Brasileira de Alumínio em Sorocaba. Ingresso na Acesita. Inovações na companhia. Metodologia japonesa. Produção de aço inoxidável. Mineração. Fundação Gorceix.


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História completa

 

R – Saulo Fernando Tárcia. Nasci em Belo Horizonte, 23 de maio de 1939.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Francisco Fernando Tárcia, e Helena Tárcia.

 

P/1 – E o que é que eles faziam Seu Saulo?

 

R – Papai era açougueiro. Papai era açougueiro, tinha um açougue no Mercado Municipal de Belo Horizonte. E mamãe era de casa, fazia muito doce, vendia doce e enfeites para festas de aniversário, essas coisas assim. Em casa. Ela gostava muito de fazer serviço em casa. 

 

P/1 – E os irmãos? O senhor tinha irmãos?

 

R – Meu irmão fez Engenharia Geológica aqui em Ouro Preto. Formou aqui. E outro irmão é comerciante em Belo Horizonte. Está lá até hoje. E o meu irmão está aposentado já. Aposentou na Vale. Trabalhou na Vale e aposentou.

 

P/2 – Então o senhor tem três?

 

R – Éramos três. Eu e mais dois irmãos.

 

P/1 – E como é que era a convivência assim de vocês quando crianças? Vocês ajudavam no açougue? Como é que era essa convivência da casa?

 

R – Não, ajudávamos, levava almoço para o papai e ele almoçava no serviço. Então mamãe fazia a marmita e a gente revezava, cada vez um levava lá. Eu era o que mais levava porque era o mais novo, e os mais velhos empurravam para mim porque eles não tinham muita vontade de ir não. (riso) 

 

P/1 – (riso) 

 

R – E quando eu ia para lá que tinha folga eu ficava no caixa dando troco. Ajudando ele lá, dando troco. Mas mexer com a carne mesmo nós não mexíamos muito porque nós éramos pequenos. Eu só saí de lá para vir estudar em Ouro Preto com dezoito anos. Papai ainda estava no açougue. E depois ele se afastou, adoeceu, faleceu e meu irmão assumiu o açougue. O comerciante assumiu o açougue. No Mercado Municipal, aquele Mercado Municipal. 

 

P/2 – Vocês se deslocavam de que bairro? Que vocês moravam em Belo Horizonte?

R – Morava no Bairro de Lourdes. Ali na Marília de Dirceu quase esquina com Contorno. Não tinha movimento nenhum, não tinha nada lá. (riso) Jogava futebol na rua, ali na pracinha Marília de Dirceu. Você conhece lá, né? 

 

P/2 – Conheço.

 

R – Jogava futebol, andava de patins na rua. Hoje, né, hoje não pode nem chegar lá. Não dá nem para parar, nem estacionar carro. 

 

P/1 – Fica difícil?

 

R – Difícil.

 

P/1 – Ô Seu Saulo, e costumes religiosos, tinha? Vocês frequentavam a igreja?

 

R – Frequentei a igreja até mais ou menos, porque eu estudei em colégio estadual. Então não tinha religião como curso obrigatório. E aí a gente vai afastando da igreja. Não frequentava não. Frequentei talvez até assim doze anos, treze anos. Mamãe fazia a gente ir para a igreja, aqui na Igreja Santo Antônio, né? (riso) Ia lá. Mas tive experiência assim que não foi agradável. A turma, turma de rapazes que sai no fim de semana, né, tivemos dois colegas que começaram a participar de uma igreja lá, com o frei, igreja de frei. Que os freis lá na Serra. E virou a cabeça deles, os meninos ficaram meio bilolado com esse negócio de religião. Não queria sair mais para a Serra, não ia para gafieira, não ia para cabaré. Esse negócio não podia, né? Então a gente assim teve uma experiência, eu acho: “Puxa vida, esse negócio de igreja (riso) não é bom para o futuro da gente não”. 

 

P/1 – (risos) 

 

R – (riso) Mas não vinculamos mais, eu acho que é por causa do colégio estadual.

 

P/2 – Era o Estadual Central?

 

R – O Colégio Estadual ele, eu fiz até a quarta série lá onde hoje é o Fórum. Na Augusto de Lima, né? E depois mudou ali perto de casa, ali no Lourdes. Mas o colégio era muito bom. Era colégio estadual na minha época, antigamente era o melhor colégio de Belo Horizonte. Hoje dizem que o colégio público está muito ruim. É uma pena, porque realmente professores fantásticos. Professores que marcaram história em Belo Horizonte. O Guto Oliveira, Mário de Oliveira, sabe? O professor Donar (?). Um negócio extraordinário era o colégio. Então eu fiz quatro anos lá no Augusto de Lima e três anos ali perto de casa no Lourdes. Onde que hoje é o Central, né? 

 

P/2 – É, Central Estadual.

 

R – Central.

 

P/1 – Aquele lá?

 

P/2 – É. E os amigos do colégio? Como é que era a turma?

 

R – Ah, o meu melhor amigo eu perdi tem quatro anos. Morreu em São Paulo, problema de fígado, sabe? Eu saía só com ele. Era eu e ele. Quer dizer, tinha uma turminha, mas sobrava eu e ele para ficar até mais tarde. Mas era assim: era fim de semana, né? Porque estudava demais. Colégio Estadual muito puxado. Fim de semana, e nas férias também fim de semana porque eu frequentava muito o Minas Tênis. Perto de casa, né? Então eu participava do basquete e natação do Minas. Então eu tinha esse compromisso com o Minas até quatro, cinco horas da tarde. Nas férias, depois disso era eu e Joel. Saía para a rua, para a gandaia, né? (riso)

 

P/2 – (riso) 

 

R – Belo Horizonte era muito bom. Vocês perderam.

 

P/2 – (risos) 

 

R – Vocês deviam ter nascido antes. Era uma maravilha porque, olha, eu saía às vezes à noite assim, três, quatro horas da manhã, vinha a pé para casa. De Santa Efigênia até Lourdes a pé, sem problema nenhum. Às vezes com o Joel, às vezes sozinho. Cada um ia para um lado. Com a namorada, uma menina, uma coisa assim. Fantástico. Hoje... mas Belo Horizonte é gostoso demais ainda, né? 

 

P/1 – Eu queria que o senhor falasse um pouquinho do Minas. Tinha festinha? Bailinho? Como é que era?

 

R – Tinha de Carnaval. E depois tinha uma hora dançante lá, nos domingos. O, mas não era, eu não frequentava muito não. Essa hora dançante não. No domingo era mais ou o futebol, assistindo o futebol, ou então saía com a turma. Hora dançante no Minas era mais assim quando tinha alguma menina envolvida, alguma coisa assim. Ali no Minas I, né? Não tinha o outro, só tinha o Minas I.

 

P/2 – Da Rua da Bahia?

 

R – Da Rua da Bahia, aquela sedezinha. Então era ali. Minas era muito bom. Passava o dia inteiro no Minas. O dia inteirinho. Pescava…

 

P/2 – Jogando basquete?

 

R – É, eu tinha, participava, que eu disputava o basquete, né, e disputava a natação. Isso até dezesseis anos. Depois eu afastei porque estava atrapalhando o estudo. Sabe, eu tinha que terminar o Ginásio para vir para Ouro Preto. Então disputei basquete e natação pelo Minas até dezesseis anos, depois parei. 

 

P/1 – E assim, já era um objetivo do senhor estudar aqui em Ouro Preto? Como é que isso foi se formando?

 

R – Não, mais do meu irmão que gostava. Ele se interessou pela Geologia. E Geologia só tinha nessa época em Ouro Preto. Então ele falava em vir para cá e me chamou. E eu vim mais pela Engenharia Metalúrgica, Engenharia de Minas. Também estava um pouco ligada a dele. Então eu fiz Minas e Metalurgia aqui, enquanto ele fazia Geologia. Moramos os dois em república. Ele saiu um ano antes de mim. Porque o curso dele era de quatro anos, o meu era de cinco, né? Então vim com ele, tudo. Na realidade sair de casa foi bom, mas eu acho que teria sido melhor se eu tivesse ficado em Belo Horizonte. Se o curso tivesse sido lá. Não tem nada não, mas eu gosto muito de Belo Horizonte. Eu acho Belo Horizonte cidade sensacional. 

 

P/2 – Mas o senhor voltava para lá final de semana? Ficava aqui? Como é que era? 

 

R – A gente, no princípio a gente ia nos primeiros semestres, a gente ia todo fim de semana. Depois passou a ir uma vez por mês. (riso) Aí quando dava assim de três em três meses. Depois uma vez por semestre. Mamãe vinha aqui também, né? Papai vinha, então a gente tinha, é muito pertinho. Parece que está em casa, então a gente não se desloca muito porque logo faz turma aqui também. E turma em Ouro Preto é um caso sério. Então naquela época…

 

P/1 – Conta como era naquela época. (riso) 

 

R – (riso) Não, mas eu também vim para cá, logo com um ano aqui eu comecei a namorar. Hoje é a minha mulher, né? Eu comecei a namorar, então, mas eu já estava já quieto na vida já. Quando eu vim para cá eu já não, sabe? Mas o pessoal fazia muita bagunça. 

 

P/1 – Já tinha essa coisa da república ter um nome?

 

R – Tinha. Mas república da Escola de Minas, porque naquela época só tinha a Escola de Minas e a Escola de Farmácia. Mas as repúblicas eram poucas. As repúblicas públicas da escola. Eu fiquei em república particular. Ela tinha um nome sim. Tinha os mesmos critérios para admitir, fazia trote. Essas coisas assim com os colegas para introduzir e para ver a aceitação deles mesmo pela turma da república. Isso tinha sim. Era, não tinha o que tem hoje, essa liberalidade. Não tinha. Muita farra não existia. Fazer assim, levar bebida e fazer a festa dentro da república isso era, não era comum, não. Isso era muito raro. Negócio de boate então não existia. Isso veio com a abertura.

 

P/2 – Como que era o nome da república do senhor?

 

R – Eu morei na república Chupeta. Chamava Chupeta. Na Rua São José, hoje. Hoje ela tem o nome acho que de Lindo Amor. Ela hoje é da universidade. A universidade comprou.

 

P/1 – Olha só. E para ir para Belo Horizonte ia de…

 

R – De ônibus.

 

P/1 – Ônibus? Já era de ônibus. 

 

R – Inclusive quando eu vim para cá estudar, que eu fazia o CPOR [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva], né? Então, em princípio, eu ia de fim de semana. Meu segundo ano de CPOR eu estava aqui. E fiz até, aqui era a Quarta Companhia de Comunicação. O CPOR teve aqui um, passou um mês aqui. Então eu fiz o treinamento aqui na Quarta Companhia de Comunicação. Era fácil. A Comunicação era muito fácil. Como é hoje. Então ônibus para lá, ônibus para cá. Duas horas, o mesmo tempo. Hoje é duas horas também que vocês levaram?

 

P/2 – É uma hora e pouco. 

 

P/1 – Quase isso.

 

P/2 – Quase. 

 

R – É, então parou menos. Para em Itabirito?

 

P/2 – Para em Itabirito e para em Cachoeira. 

 

R – Entrou dentro de Itabirito?

 

P/2 – Entra na rodoviária.

 

R – Ah, não, a rodoviária agora é do lado de fora.

 

P/2 – É do lado de fora. (riso) 

 

R – É porque naquele tempo era do lado de dentro. Ele entrava. Talvez a diferença. 

 

P/2 – A volta toda.

 

P/1 – E ter vindo assim morar em uma cidade histórica? O senhor, como é que é?

 

R – Ó, a cidade de Ouro Preto é bucólica, é linda, sabe? Mas ela é poluída, por turista. É muito ruim turista. Não, é, ó, ele ocupa o espaço de quem mora na cidade. Quem é de Ouro Preto só vê ocupado pelo turista e na realidade essa gente não lucra nada com isso. Com turismo. Eu gosto do turista quando vem grupo de aluno. Eu acho lindo os meninos virem aprender. Quando vem grupo de estudante, assim. Mas assim, encher? Então esse negócio de 12 de outubro, Carnaval, sabe, Festival de Inverno, isso, o ouropretano da cidade, a gente não gosta não. Não é, incomoda. A cidade não é preparada.

 

P/2 – Não tem infraestrutura.

 

R – Ainda mais que a gente vive enfiando na cabeça da gente campanhas que tem que tem que aumentar o turismo, tem que aumentar o turismo. Que é a maior fonte de renda do mundo hoje. Que é a maior fonte de renda. Nada, a renda de Ouro Preto o turismo representa três por cento da arrecadação municipal. Três por cento. Fazem campanha aqui adoidado de Sebrae, de Fiemg, da Associação Comercial. Realmente o turismo, incomoda. Então é cidade boa, bucólica, bonita, interessante. Ela fazia…

 

P/2 – É linda.

 

R – ...ela é linda. Nossa, Ouro Preto à noite então, você andar com ela vazia. É muito bonita. É sim. A rua de São José é linda, em um dia normal é bonito. 

 

P/2 – Mas na época que o senhor veio para cá não tinha um turismo assim tão…

 

R – Não, quando eu vim para estudar não. Quando eu vim para estudar era tranquilo isso aqui. Tinha Carnaval na Rua de São José. Footing, era baile. Era o Carnaval de rua seguido de baile em clube. Agora não, agora o Carnaval é bagunça. O ouropretano mesmo não vai. O povo de Ouro Preto mesmo não…

 

P/1 – E sair da casa em Belo Horizonte e vir morar em república? Como é que foi essa mudança assim? 

 

R – Não, para mim não, eu estava com o irmão, né? Eu estava com irmão. E não senti não. Não senti não. Não sei se porque a gente é só homem, mamãe também criou a gente com muita liberdade. Porque eu com doze anos já tinha a chave de casa. Saía à noite, ela fazia questão que o homem saísse de casa. (riso) Para juntar com turma para passear. E naquele tempo era tranquilo mesmo. Não, problema de tóxico eu nunca conheci na minha vida. Eu nem sabia o que é que era maconha. Isso não existia. Hoje, maconha é o de menos, né? (riso) 

 

P/1 – (risos) 

 

P/2 – Exatamente.

 

R – Nem é problema hoje. Mas naquela época não existia, né, não existia assalto, não existia essas coisas.

 

P/1 – Ô Seu Saulo, e como que vocês se vestiam assim? Tinha uma moda? O que é que vocês usavam? Que aqui era muito frio…

 

R – Não, era roupa de hoje. Igualzinho. Igualzinho. Do homem não mudou nada. Nós somos muito quadrados, não somos? Mulher é que é danada, né? 

 

P/1, P/2 – (risos) 

 

R – Aliás, eu não sei, eu vejo as mulheres com a barriga de fora, não faz frio não? 

 

P/1 – (risos) 

 

R – Não faz frio? Vocês usam assim aquele negócio curtinho? Eu fiquei esperando chegar o inverno, falei assim: “Gente, chegar o inverno as meninas vão ter que descer essas blusas, né?”. 

 

P/1 – (risos) 

 

R – Mas não é possível, assim mesmo aqui em Ouro Preto as meninas ficam com a barriga e as costas de fora aqui. É moda, mulher é danada. Mulher é impressionante como é que ela se entrega…

 

P/2 – Fica escrava da moda. (risos)

 

R – ...como é que ela se entrega mesmo para ser assim, para chamar a atenção, né?

 

P/1 – É.

 

R – E é bonitinho. Não deixa de ser. É bonitinho.

 

P/2 – Depende da barriga.

 

R – É, depende demais.

 

P/1 – E tinham meninas que frequentavam a Escola de Minas? 

 

R – Tinha o quê?

 

P/1 – Meninas que frequentavam, que eram estudantes?

 

R – Tinha, tinha moça já, tinha moça. Na minha turma, na minha turma não tinha não. 

 

P/1 – Não?

 

R – Não, minha turma era só homem. Mas tinha algumas moças sim. Tinha moça até na Geologia, no colégio do meu irmão. Muito poucas mesmo. 

 

P/2 – Mas as moças de Ouro Preto não faziam faculdade, estudavam onde?

 

R – Farmácia.

 

P/2 – Fazia Farmácia?

 

R – Farmácia. Farmácia e esse curso para professora. Como é? De Formação?

 

P/2 – Normal?

 

R – Curso Normal. Não tinha não…

 

P/2 – A sua esposa foi estudar em Belo Horizonte, Jornalismo?

 

R – Não, a minha esposa fez, ela fez Jornalismo Provisionado. Ela é daqui. E ela gosta muito de História. Então ela saiu daqui pesquisando história do Vale do Aço. Ela viajou muito, saiu muito pelo interior, sabe? E ela escrevia para jornal lá. Ela escrevia desde, nós fomos em 1964, né? Desde de 1968 que ela escrevia para jornal. Depois fez um jornal lá. Tinha um periódico lá, mensal. E pesquisava História. Fim de semana da gente era, sabe, nos arredores lá. Ela tinha uma carta do bispo que permitia a ela pegar qualquer igreja, qualquer documento. Dom Lara, Dom Lélis Lara está lá até hoje eu acho. E então a gente saía para as igrejas. Saía fazendo entrevista. Tem um monte de fita de entrevista. Tem um monte de coisa.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Ih, ela tem do Vale do Aço, ela tem história adoidado. E, mas ela então já estava já, porque o fundador de lá, né, o Antonio Dias, ele saiu daqui. É o mesmo Antônio Dias que esteve aqui, participou da fundação de Ouro Preto. Tem até um bairro com o nome dele. Ele foi para lá e fundou na cidade de Antônio Dias, desbravou aquela região. Junto com Guido Marlièri, apareceu Guido Marlièri que era um militar, teve lá. E ela então, para conhecer a história de lá, ela já voltou, ela já voltava a pesquisar em Ouro Preto. E quando foi mais ou menos 1988, é em 1988 ela já estava envolvida até com política. Que ela gosta muito de política. Tem um irmão aqui que mexe com política. Ela já estava envolvida com política, já vinha ajudar na campanha aqui. E os meus filhos tinham saído, então eu comecei a fazer o programa de vir para Ouro Preto como, né, como fim de carreira. Aí ela veio em 1990, eu consegui transferir para Belo Horizonte pela Acesita. Ela veio em 1990 para cá e eu estava em Belo Horizonte. Eu vinha toda semana. Aí não é aquele negócio, não ia não. (riso) Toda semana eu ia. (riso) Fiquei eu e a Lorena, minha filha, lá em Belo Horizonte. Trabalhei na Acesita, dois anos, aí o Rinaldo da Usiminas me convidou. O Rinaldo formou comigo, era meu colega e nós tínhamos muito relacionamento. Ele me convidou, ele sabia que eu queria vir para Ouro Preto. Abriu uma vaga na Fundação Gorceix, doutor Amaro Lanari Júnior, aí é o Júnior, fundador da Usiminas, procurando. Ele me indicou. O doutor Amaro me entrevistou, então eu vim para a Gorceix emprestado. Emprestado pela Acesita. Eu, quer dizer, eu ia sair da Acesita para vir para cá. Ai o doutor Amaro pediu que eu viesse emprestado para ajudar a Fundação, né, com o salário.

 

P/2 – Tá.

 

R – Então a Acesita me emprestou. O Rinaldo teve uma interferência muito grande. Precisou até da Dorothea Werneck entrar, porque a Acesita era estatal. Emprestando para uma entidade privada. Que era a Fundação Gorceix, é privada. Então não podia, tinha que ter ordem do ministro. E a Dorothea Werneck em um Congresso em Belo Horizonte, o Rinaldo nos reuniu em um, eu e ela em um quarto lá, em um canto lá dentro do seminário (riso), o Rinaldo falou com ela. Ela falou: “Então você me manda o processo lá que eu concordo”. Por isso eu vim para a Acesita emprestado, para a Gorceix, né? Aí a Gorceix foi vendida. O Rigotto chamou lá o doutor Amaro, me chamou e falou: “Olha, não dá mais. Ou você volta para cá ou então...”. Aí eu falei: “Não, eu desligo, né?”. 

 

P/1, P/2 – (risos) 

 

R – Mas meu tempo, minha vida da Acesita foi maravilhosa. Eu não, enfim, né? Aí (riso), aí emociona, né? 

 

P/1 – É. (risos) É porque são trajetórias assim muito complexas, né?

 

R – Não, foi bom demais. Foi muito tempo lá, foi vinte e oito anos na empresa. E gostei demais. Foi todo mundo lá, muito amigo. Uma empresa que não criava inimizade, não tinha grupo, sabe? Não tinha partição. Não tem isso que ou você é de uma turma, você é de outra. Não. Todo mundo era muito bem tratado. Um coleguismo muito grande. Uma inter-relação muito grande entre os funcionários de menor nível hierárquico, nível superior. Participavam até de escola de samba juntos, sabe?

 

P/2 – Ah, é?

 

R – É. Eu cito isso porque na Usiminas não. Na Usiminas havia uma partição até por bairro. Lá tem o Castelo. O engenheiro não podia participar de escola de samba. Não podia entrar em movimento que tinha funcionário de nível mais baixo. É o critério deles, né? Não critico. Mas na Acesita isso trouxe um relacionamento muito grande. Uma amizade muito grande. Muita gente boa. Sou apaixonado na Acesita.

 

P/1 – Tinha uma união grande assim das áreas?

 

R – Muita, muita mesmo. Muita união entre, tinha o clube frequentado por todo mundo. Muito, sabe, todo mundo se ajudava. Não entrava um, não tive um aborrecimento lá. Não teve nada, nada na Acesita que me trouxesse uma lembrança ruim, pelo contrário.

 

P/1 – Que bom. E falando então de Acesita, né? Como é que se dá assim, essa saída da Escola de Minas e o primeiro emprego? 

 

R – Não, eu fui na realidade, eu saí para a Escola de Minas indicado para ir trabalhar na Companhia Brasileira de Alumínio em Sorocaba. Sabe, lá em Alumínio. Uma cidadezinha…

 

P/1 – A CBA?

 

R – A CBA. Conhece?

 

P/1 – Conheço. Eu fiz esse tipo de trabalho lá já.

 

R – É?

 

P/1 – Han han.

 

R – De Antônio Ermírio de Moraes, né?

 

P/1 – Isso, isso.

 

R – Naquele tempo era José Ermírio de Moraes…

 

P/1 – Seu José, o senador.

 

R – ...do Grupo Votorantim. Então eu fui para lá e cheguei lá eu estava casado já. Eu casei no último ano. Eu casei em fevereiro, meu filho nasceu em novembro. Aí eu fui, combinei em Belo Horizonte com o Figueirôa, que era o superintendente, estava em Belo Horizonte. Combinei tudo para ir para lá. Cheguei lá com o menino, tudo. Eles já tinham a casa arrumada com alguns móveis tudo direitinho. Quando eu estava lá, quinze dias depois chegou minha mudança. Que eu já tinha casa aqui. Chegou minha mudança, mas eu achei que o alumínio não ia me dar muito futuro não. Eu achei que não ia, não ia ter muito futuro porque havia duas grandes empresas de alumínio, a Alcan e a CBA. Então eu combinei com Cristina, eu falei: “Não, vamos tentar outra coisa em Minas”. Pedi para sair. Quando eu pedi para sair, saiu a revolução de 1964. 31 de maio, né, assim?

 

P/2 – Nossa Senhora.

 

P/1 – 31 de março. 

 

R – De março, né, de março. Eu pedi, no dia seguinte saiu a revolução. Não tinha ônibus, não tinha nada. Nem tinha nem como me pagar. Fecharam a caixa, deu uma confusão danada. E eu não tinha dinheiro.

 

P/1 – Nossa.

 

R – Aí eu vendi, tinha um menino, né? Eu vendi um monte de garrafa que eu tinha lá (riso) casco, vendi o casco e tal para juntar para comprar um leite para ele e sanduíche para mim, para a Cristina. Passei um dia e meio assim, até que eles abriram o caixa, me pagaram. Abriram os ônibus também, a linha de ônibus. Porque fechou, o negócio foi feio. Eu vim embora. Chegando aqui…

 

P/1 – Deixa eu só perguntar uma coisa: fora essa questão da revolução tinha alguma coisa de ser uma fábrica mais estratégica?

 

R – Não, a fábrica, o Antônio Ermírio de Moraes é um grupo fantástico. Ele ia lá, o Antônio Ermírio, ele passava lá toda semana. Eram quarenta e três fábricas na época, tudo do tamanho daqui. Da CBA. Um monstro. E ela fantástica, faz muito melhor do que essa daqui, da Alcan daqui. Moderníssima. Mas eles tinham assim, eles tinham um conceito de trabalhar muito com pessoal de nível técnico. Sabe, ele, eu era se não me engano segundo engenheiro lá. As chefias eram de nível técnico. Então não havia assim uma área de pesquisa naquela época, né?

 

P/1 – Tá.

 

R – Foi uma avaliação que eu fiz também, talvez errada. Não quer dizer, né? Estava novo, vinte e três anos, vinte e quatro anos. Não tinha ainda aquela ideia de universidade, de pesquisa, de conhecimento. Eu fiz uma avaliação assim e resolvi mudar para cá. Mas uma avaliação errada da época. Não estou reclamando não, mas uma avaliação errada. Porque depois eu conheci o grupo. Então, o José Ermírio de Moraes era vivo. E ele e o Antônio Ermírio era superintendente geral, ele corria de todas elas. Ele todo dia estava em uma. Ele tem, tinha empresa até em Sobral, no Ceará. Ele é fantástico. O grupo é... Aí ele faleceu, veio o Antônio Ermírio de Moraes assumir. Mas, depois que eu conheci mesmo, eu vi que eu, conheci a potencialidade do grupo, eu vi que eu não estava mal lá. Eu podia de ter continuado lá que faria uma bonita carreira. Mesmo porque ele tinha empresa até no ramo da siderurgia mesmo. Metalurgia. Mas foi uma avaliação que eu fiz.

 

P/1 – Mas estava longe de Minas.

 

R – Hein?

 

P/1 – Estava longe de Minas? (riso) 

 

R – Estava longe de Minas, né, também tem isso. Talvez isso tenha pesado. Muito longe, muito difícil de vir. Aliás, no período que eu estive lá, nesses três meses e pouco eu não vim aqui nenhuma vez, não dava. Aí eu vim para Belo Horizonte e me apresentei na Acesita e na Usiminas. Me apresentei, naquela época era muito bom emprego, né? Me apresentei em uma quinta-feira, na segunda-feira a Acesita me chamou. Me chamou, eu fui de aviãozinho. Eles tinham um teco-teco de lona, descia ao lado da onde a laminação de barras hoje, era um campo de aviação. Desci lá, fui recebido pelo diretor, doutor Albuquerque. O doutor Renato era o chefe geral da usina. Eram os dois formados aqui. Naquela época todo mundo era formado em Ouro Preto. (riso) Ele correu a usina todinha comigo. Então eu optei por ficar lá. Quando eu cheguei em Belo Horizonte, tinha um convite da Usiminas. Mas eu nem quis ir, nem quis ver. E falei com Cristina, a Cristina gostava de pescaria, falei que ali tinha muito lugar para pescar. 

 

P/2 – (riso) 

 

R – (riso) Comprei uns negócios, a vara. Eu tenho até hoje a caixinha que eu comprei com o anzol lá. Nunca pescamos. (riso) 

 

P/1 – (risos) 

 

R – Piracicaba não dá nada, né? Aí foi, mas fomos de avião, sabe, no teco-teco. Deixaram a gente lá. Fizeram a mudança da gente. Tinha uma casa lá para a gente. A recepção foi, naquela época a Acesita era fechada. A cidade pertencia toda à usina. Você já sabe, né? 

 

P/2 – Hum, hum.

 

R – E…

 

P/1 – Mas o senhor pode ir contando isso daí, para a gente é bom.

 

R – Mas o armazém você comprava, descontava em folha. As lojas lá você comprava em folha. Até colchão você comprava e descontava na folha de pagamento. Cidade toda fechadinha. Já era permitida a bebida.

 

P/2 – Não era Timóteo? 

 

R – Timóteo era, não Timóteo ainda não tinha emancipado. Aliás emancipou em 1964 se não me engano. Pouco tempo depois que eu cheguei. Eu acho que é 64, né, Timóteo.

 

P/2 – A gente depois vê.

 

R – E Timóteo emancipou. Mas a sede era Timóteo. Mas Timóteo era desse tamanhozinho. Acesita era que dominava ali. Tudo, tudo pertencia à Acesita, as casas. Depois eu acho que perto de 1970 que eles começaram a vender. Então eu comprei a minha casa lá, muito facilitada. A casa, praticamente a gente ganhou a casa. Eu tinha feito, apareceu o Fundo de Garantia. Antigamente não tinha Fundo de Garantia, vocês não lembram disso não. (riso) Mas não tinha não. Você adquiria estabilidade com dez anos de empresa. E a estabilidade, você só podia ser dispensado por justa causa e tinha indenização em dobro. Então, quando saiu o Fundo de Garantia, que foi em 1966, 67, eu optei pelo Fundo de Garantia. Fiquei então com o crédito dos anos anteriores, né?

 

P/1 – Ah.

 

R – De três, quatro anos anteriores. Quando venderam as casas, eles pegaram esse crédito da gente para o pagamento da casa. Eles enrolaram lá, a casa saiu. Um preço muito baixo. Eles queriam realmente passar para o funcionário.

 

P/2 – O que é que o senhor falou a respeito da bebida? Que era proibido?

 

R – Não, nessa época já não era mais. Podia entrar bebida lá. Mas até pouco tempo de chegar eles não admitiam entrar bebida. Não vendia bebida alcoólica. A pessoa atravessava o rio para ir beber em Cachoeira, em Coronel Fabriciano.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É, você precisa conhecer. Isso daí o Doutor Albuquerque vai contar para vocês, mas era. Ia beber e a turma atravessava. Às vezes faziam escondido, né? No bar. Era uma balsa, não tinha ponte.

 

P/1 – Ah, tinha que ir de balsa ainda?

 

R – De balsa, atravessava de balsa.

 

P/2 – Que perigo, hein? Voltar de fogo. (riso) 

 

R – É. Era, e trazia escondido. Isso tem. Isso eles contam. Escondido, e levava para casa e tudo. Mas a Acesita para mim então começou assim. Eu optei por lá, não foi nem a Usiminas, que teria sido também. Mas a Acesita é muito melhor que a Usiminas. Para trabalhar. Eu acho. (riso) 

 

P/1 – (risos) 

 

R – Mas a Usiminas estava se formando. Inaugurou, acho que naquele 1964 mesmo. Eu entrei na Acesita para a Aciaria.

 

P/1 – Aciaria.

 

R – É. Fui o décimo terceiro engenheiro dentro da Acesita.

 

P/1 – Que ano que era mais ou menos?

 

R – 1964.

 

P/1 – 1964.

 

R – Maio de 1964. Aí, porque o chefe da Aciaria, o Antônio Pimenta, irmão do José Luiz Pimenta.

 

P/1 – Ah.

 

P/2 – É Antônio, ele chama Antônio. 

 

R – É, Antônio Pimenta. Ele era o chefe da Aciaria, e a Aciaria, de aços especiais, ela estava muito na mão de supervisores muito hábeis, mas práticos. Então temperatura, era temperatura do aço era no olho. Conforme o brilho do metal líquido. A composição química do carbono era por, vazava no chão assim, dependendo da faísca que soltava, que aquilo é carbono queimando, sabe? Se estava no ponto ou se não estava. Quer dizer, é muito na prática. Uma habilidade enorme que eles tinham. Uma habilidade enorme mesmo. Mas muito preso à prática e naturalmente que levava a muito erro. Erro de temperatura, erro de composição química. Com desvio alto e não aceitável na época. Quer dizer, que quanto maior o desvio menor é o lucro da empresa. E o Pimenta então teve a ideia de colocar junto deles a parte acadêmica. O conhecimento acadêmico, a teoria da coisa. E mesmo porque uma mudança de espírito para aceitar mais inovações. Para você ter ideia, a gente tinha dificuldade de introduzir com eles o uso do pirômetro. Você enfiava um, mergulhava um aparelho no banho líquido e ele dava a temperatura. Certinha. Então não precisava ser no erro. 

 

P/2 – Deixa resistência?

 

R – Eles não aceitavam. Eles não, porque... Aí o Pimenta começou a contratar e eu fui então o primeiro engenheiro a fazer turno. Fiz um ano e pouco de turno lá. Junto com o supervisor dos práticos. 

 

P/1 – Que é que é fazer turno?

 

R – Ó, fazer turno, primeiro o seguinte, naquela época você trabalhava sete dias, folgava no oitavo. Trabalhava oito horas em um turno. Sete às quinze durante sete dias e folgava no oitavo. Então você tinha um crédito de um sétimo. Porque normalmente é trabalhar seis e folga no sétimo. Você tinha um crédito de sete em sete semanas, você tinha sete sétimos de crédito. Então você tinha, somavam a uma folga, você tinha dois dias de folga. E isso coincidia com sábado e domingo. Era uma chamada folga de oitenta. Você saía às vinte e três horas de sexta e voltava às quinze horas de segunda-feira. De sete em sete semanas. Mas a troca de turno na idade que eu tinha não faz diferença muito. Trabalhava sete dias, de sete às quinze depois folgava um dia. Trabalhava sete dias de quinze às vinte e três, folgava um dia, depois sete dias de vinte e três às sete da coisa. 

 

P/1 – Nossa.

 

R – Não folgava. Porque a agitação lá dentro é muito grande. Em uma aciaria a agitação é muito grande. O movimento é muito grande. Passa bem a noite, sabe, e para mim não fez diferença não. Depois saía do turno, não, junto de mim começaram a entrar técnicos. E vieram mais engenheiros também. Aí vieram mais engenheiros. Eu com um ano e pouco saí. Teve um técnico muito extraordinário. Geraldo Enio de Almeida. Trabalhou comigo junto. Teve uma reação dos supervisores, sabe, teve uma reação mesmo. Uns, metade não aceitou, metade aceitava. E no princípio foi difícil conviver assim. Eles faziam, testavam a gente, forçavam a gente a tomar decisões. Exatamente para mostrar o valor dele que já era esperado. Antônio Pimenta já esperava isso. Mas foi assim que a gente conseguiu introduzir tecnologia nova. Mas tecnologias até mesmo, entrou automação. Até mesmo de medir a temperatura, de mandar amostra para o laboratório para analisar quanto realmente tinha de carbono. Eles, como eles tinham essa prática e era uma experiência deles que a gente não conseguia assimilar de uma hora para a outra, eles então faziam uso disso. Então eu entrei no turno, passei para técnicos, para outros engenheiros. Saí do turno e comecei a fazer carreira no expediente normal da, a gente trabalhava no sábado, terrível. 

 

P/1 – (risos) 

 

R – Depois que a gente sai, depois que não tem mais sábado, passa a trabalhar quarenta horas por semana, a gente vê o que é que é trabalhar quarenta e oito, quarenta e quatro, sabe? Mas sábado trabalhava de sete ao meio-dia. Saía de lá, ia para o clube. Já chegava no clube depois de meio-dia. Não dava.

 

P/1 – (risos) 

 

R – Mas foi um período muito, realmente, aí foi a minha formação. Na Aciaria, fiz a primeira corrida de aço inoxidável, foi no forno elétrico número um. De cinco e meia tonelada. Ele era de sete toneladas. O aço inoxidável muito difícil de fazer. Nós tivemos apoio de Carlos (Pasergio?), foi um engenheiro que a Acesita contratou na época. Teve, veio junto com o doutor Hellbrugge, foi o superintendente. Um sujeito fantástico. Um rompedor, ele era austríaco. Participou da criação da invenção do LD. Convertedor LD, o Hellbrugge.

 

P/1 – Ah, ele chegou a vir para cá?

 

R – Ele foi, esteve na Acesita, introduziu muita coisa lá. Ele fez um, eu acho que assim, quem entrou introduziu práticas operacionais e que mudou a face da Acesita foi esse Hellbrugge.

 

P/2 – Que ano que ele, de que ano que ele ficou aqui?

 

R – Isso eu acho que foi em 1968. Acho que foi em 1968, o Hellbrugge. Você tem que ver essa data lá, o Carlos (Pasergio?). A primeira corrida do forno elétrico número um. Eu tinha até um copinho de amostra, eu devo ter ainda lá em casa. Porque o aço inoxidável vai em uma temperatura que pirômetro não mede. Pirômetro, ainda mais na época, o pirômetro não media. Então era na prática mesmo. Ele sobe perto de dois mil graus. Você tem que ter um controle de composição química muito grande. E o forno, se você não tomar cuidado, ele tem uma abóbada, o forno elétrico, é tão quente e brilha tanto que derrete a abóbada. Então o forno era de sete e meia toneladas, mas para ele suportar aumentamos o revestimento refratário dele. Ele foi carregado com cinco e meia toneladas. Dois lingotes de 2,3 toneladas. E fizemos a corrida lá com a cobertura do Doutor (Pasergio?). Ele é que nos, a corrida saiu bonitinha, direito no lingote, tudo direitinho. Foi a primeira corrida no forno elétrico número 1 da aciaria. A data eu não lembro, mas deve ter sido aí em 1968, 69. Naquela época a Acesita fazia chapas de aço ao silício, mas chapa de dois por um. Ela não tinha laminador contínuo, sabe?

 

P/2 – Sei.

 

R – Era chapa vai e volta. Muito braçal. E então não fazia inoxidável, não tinha preparação para inoxidável. O inoxidável ia para fazer barras. Barra redonda, quadrada, sextavada. De bitola de uma polegada até seis, sete polegadas. Esse começo nosso do inoxidável foi com lingote para produção de barras de aço inoxidável.

 

P/2 – O senhor já, quando o senhor entrou já fazia essas barras?

 

R – Não.

 

P/2 – Não. 

 

R – Quando eu entrei não. Foi essa primeira corrida que foi mais ou menos acho que em 1968, 1969 com o Doutor (Pasergio?), Carlos (Pasergio?). E até o Carlos (Pasergio?) foi um negócio, você falou em religião, né? O Carlos (Pasergio?) desbitolou com o negócio de religião, rapaz? 

 

P/1, P/2 – (risos) 

 

R – (riso) Ele saiu de lá, só, voltou para São Paulo. Era um cara formidável. Formidável. Ele e o Hellbrugge, sabe, eram sujeitos formidáveis. Ele saiu de lá foi para São Paulo, fez Direito, entrou em uma religião lá. Desbitolou o sujeito. Montou um sítio, vivia rezando e levando, o sujeito, eu acho, ele desbitolou. Eu acho que ele até faleceu. Eu acho que ele desbitolou. Religião é perigoso, né, se não for levado…

 

P/1 – É complicado. 

 

R – É, se for muito fanatismo, né?

 

P/2 – E quantos anos que o Hellbrugge ficou lá, o senhor sabe?

 

R – O Hellbrugge eu acho que ficou três anos, até entrar a diretoria do doutor Amaro Lanari Guatimosim, junto com o vice-presidente. Então ele começou a incomodar o pessoal porque ele queria muita autoridade, sabe?

 

P/2 – ______

 

R – Ele era, se você souber a mudança que ele fez na produção de um aço ao silício, que era um aço dos mais caros que vendia lá na época. Esse aço ao silício vinha em metal líquido do alto-forno. Passava em um convertedor Bessemer antigo, e do convertedor Bessemer ia para o forno elétrico. No forno, ele ficava quatro horas gastando energia elétrica, gastando refratário para fazer composição. Adicionava o silício, era dois, dois e meio, três por cento de silício dependendo da finalidade dele, né? E aí vazava em lingote. Ele chegou lá, ele introduziu o seguinte processo: do alto-forno vinha o gusa líquido, entrava no convertedor Bessemer, ia direto para lingote. Ele convenceu os clientes a aceitar o aço vindo direto do convertedor Bessemer para lingote. Porque o aço com o convertedor Bessemer tinha o fósforo alto. O conteúdo de fósforo dele, em torno de 0,150 era alto pela especificação que a Acesita vendia. Ela vendia 0,04. Ele saía do alto-forno com 0,150. Em vez de ser 0,04 era 0,15 que saía de lá. E ele, então, convenceu o cliente que aquilo não era prejudicial para o aço. Fez um, isso deu uma economia fantástica. Porque só de você saltar a aciaria elétrica já há economia de energia elétrica, de refratário, de tempo, de rendimento já é uma coisa. E a outra: você liberava o forno elétrico para fazer outro tipo de aço.

 

P/1 – Ah.

 

R – Você liberava o forno elétrico. Ele dobrou a produção da aciaria. O Hellbrugge, sabe? Dobrou. E ele era um sujeito. Aí veio o seguinte: o lingote da aciaria, a gente tirava na aciaria e ele ia para a laminação. Chegava lá frio, ia no carro descoberto e tudo mais. Ele equipou a linha e insistiu, e fez política junto, e treinamento de pessoal. Então o lingote ia em cima de carro, dentro da lingoteira mesmo para a laminação. Quando tirava, ele estava vermelhinho. Botava no forno, com duas horas ele estava em condição de ser laminado. Enquanto que ele frio, às vezes, o aço tinha até que aquecer devagar para não trincar. E ele chegando quente lá... Quer dizer, é um sujeito que veio com um conhecimento, ele tinha experiência, né?

 

P/1 – Ele era bravo?

 

R – Hein?

 

P/1 – Ele era bravo?

 

R – Ele não era bravo não, ele era muito justo. Agora, ele era rigoroso. Eu tive um colega que não tinha assim, não tinha jeito para aciaria. Aciaria é um negócio violento. Ele não tinha muito jeito para aciaria e vivia muito parado com a mão no bolso. 

 

P/2 – (riso) 

 

R – O Hellbrugge não aguentava ele não. Ai, Seu Hellbrugge não tinha paciência com ele não, coitado. Até que ele saiu, tirou para outra área. (Pasergio?) era fantástico. (Pasergio?) muito conhecimento da Vale, da Villares. Ele trabalhou na Villares, sabe? Então ele levou muito conhecimento que ele tinha da Villares. E a Villares era, na época, era o top de usina de aços especiais, era a Villares. 

 

P/1 – E a Acesita estava no segundo lugar?

 

R – A Acesita estava em um bom lugar na aços especiais. Em segundo lugar, realmente, em aço inoxidável ela estava em segundo lugar. Ela estava começando. A Villares tinha mais produção. Agora, em aço de ligados para a indústria automobilística, a Acesita tinha aço ao silício que ela era exclusiva. Só, até hoje no Brasil ela é exclusiva do aço ao silício. Aço ao silício é núcleo de motor, sabe aquele que roda? E de transformadores também. Esses transformadores grandes aí são feitos com aço ao silício. 

 

P/2 – Esse de rua, né?

 

R – É, esse de rua. Então ela era a única produtora como é até hoje, de aço ao silício.

 

P/1 – Deixa eu só salvar aqui para.

 

(pausa)

 

P/1 – Vamos lá.

 

R – Mas o Doutor Hellbrugge entrou na Acesita com contrato vinculado à produção, à venda, sabe?

 

P/2 – Hum, hum.

 

R – À venda. Quanto mais vendesse, mais ele ganhava.

 

P/2 – Ele tinha participação.

 

R – Tinha participação. Salário, não era, era em função, ele crescia de acordo que crescesse a venda. E ele cresceu muito. E entrou uma nova diretoria do Doutor Amaro e aquilo tinha que ter um fim, que estava já demais, né? E ele se, eles começaram a interferir nele lá, a sede ainda era no Rio de Janeiro, interferir nele e ele aí se indispôs, pediu para sair. E saiu. Aí já chegou ao fim mesmo.

 

P/1 – Ô Doutor Saulo, qual que foi, e assim, teve alguma emoção, reação do grupo quando saiu essa primeira corrida do aço? Que é que…

 

R – Ó, teve uma farra depois, né? O Carlos (Pasergio?) levou a gente para tomar cerveja. (riso) 

 

P/1 – (risos) 

 

R – Teve uma, agora, a sensação lá dentro foi mais assim como se a gente estivesse mudando. Porque o aço inoxidável, pela característica que ele tem, pela beleza que ele tem e pela dificuldade que ele tem de fazer, ele é um tabu, sabe? Então, a usina quando produz um aço inoxidável, ele cria um status. Então nós engenheiros da Acesita mudamos de status. É, uai, nós já produzimos aço inoxidável. 

 

P/2 – O mais especial.

 

R – É. Então aciaria, porque dentro de uma usina a aciaria é o xodó, né? Primeiro, é onde realmente está a maior tecnologia, está na produção do aço. O aço, ele saiu bem da aciaria, para a frente não tem muita dificuldade não. Agora, dentro da aciaria é que ele tem que ter uma qualidade interna e a quantidade de defeito que pode surgir, sabe? De um processamento mal feito na aciaria é muito grande. Então a aciaria, a tecnologia de aciaria é uma coisa fantástica. A tecnologia de aciaria de aços especiais é um negócio fantástico. Então isso deu muito orgulho para a gente, né? Produzir aço inoxidável.

 

P/2 – O silício de grão orientado, tem uma tecnologia mais complicada ainda que o inox, não é? O senhor me corrige se eu estiver errada.

 

R – Não, não. O silício de grão tem uma composição química de exigência maior e também é complexo. Mas ele não é bonito igual o aço inoxidável. Ele é um aço que depois vai sumir. Ele vai entrar dentro de um transformador, quer dizer, ele tem lá seu charmezinho, sabe? (riso) 

 

P/2 – (riso) 

 

R – Mas o inoxidável é bonito.

 

P/2 – Por que é que ele é bonito?

 

R – O inoxidável é bonito, ele brilha. Ele dá um polimento, ele dá um acabamento. Ele não enferruja. Ele é lindo. (riso) 

 

P/1 – (risos) 

 

R – É, uai, ele é lindo. E isso dá um orgulho muito grande para um aciarista fazer um aço assim. É um aço que vai ficar exposto. Ele não vai ficar guardado dentro de uma caixa igual fica o transformador, não. O aço que você faz, igual o inoxidável, ele vai para a mesa, ele vai servir de, né?

 

P/1 – Hum, hum.

 

R – Ele deixa uma marca sua lá, né? Ele é bonito. Eu tenho muita coisa de inoxidável. Porque a gente que fez. Agora, o aço silício que é complexo, é realmente. Mas o aço inoxidável custa muito mais caro. (riso) O preço dele é maior, ele é mais rico. Ele é mais bonito. O silício também é bonzinho, sabe?

 

P/2 – O senhor poderia descrever então para a gente a…

 

P/1 – Etapa.

 

P/2 – É, o nascimento do silício todo, do silício não, do inox todo para a gente?

 

R – Do inox começou assim, com Carlos (Pasergio?), Hellbrugge, começamos a fazer. A laminar os lingotes e com uma certa dificuldade até realmente desenvolver a prática padrão. Já tínhamos uma produção razoável de inoxidável quando a Acesita fez o grande pulo da vida dela, que foi uma assistência técnica junto com os japoneses. O grupo Nippon/Daido. E nessas alturas ele já tinha trocado um convertedor Bessemer que eu acho que vocês nunca ouviram falar.

 

P/2 – Não, já.

 

R – Que é um, é?

 

P/2 – Já ouvimos falar. (riso) 

 

R – Um convertedor que, pura história, fantástico. Porque ele faz o gusa, que vocês devem saber, 4% de carbono. Com impurezas. O Bessemer transforma em aço, que tem 0,01% de carbono, com o uso do ar. O ar soprando, o oxigênio do ar é que oxida o carbono, abaixa o carbono e faz o aço. O aço ou silício. Esse aço que com o Hellbrugge passou para o convertedor, ele tinha saído de carbono 4,5% para 0,03, 0,02. Quer dizer, é uma quantidade infinitésima de carbono dentro do convertedor Bessemer. Usando um ar comprimido. Mas junto com o ar vêm impurezas. O fato de ele soprar e sugar aquela chama para cima, porque o ar, a chama sai, né? Inviabiliza-te de você trabalhar mais o aço. Aí veio então o convertedor LD, que é de Linz-Donawitz na Áustria, cujo um dos inventores era o doutor Hellbrugge que esteve na Acesita. Participou a invenção do processo, do LD. O LD, ele solta oxigênio puro. Ele não tem o nitrogênio do ar. Ele tem um controle de oxidação nesse trabalho do banho melhor. Então, aí veio a evolução maior. Então começou. O LD entrou na Acesita em 1971, o pequeno. Entrou no lugar do convertedor, do Bessemer, né? Aí foi outra mudança tecnológica na Acesita. Aí acabou o problema de fazer o aço de baixa qualidade e, por que é que nós estamos falando nisso mesmo?

 

P/2 – Porque eu pedi para o senhor contar o nascimento do inox.

 

R – Do inox.

 

P/2 – Isso.

 

R – Do inoxidável.

 

P/2 – Isso, do inoxidável.

 

R – Bom. Com o convertedor LD, liberou-se os fornos elétricos, foram liberados para fazer os aços especiais da linha normal da coisa. Aí então a Acesita resolveu entrar no aço inoxidável. Que foi com a entrada do Doutor (Pasergio?), do Carlos (Pasergio?) e do doutor Hellbrugge lá. Começamos a fazer o aço inoxidável no forno elétrico número um. Tinha de sete e meia toneladas que ele fazia dois lingotes, fazia de cinco toneladas. Depois passamos para o forno mais alto de cinco, seis toneladas. Porque tem um tipo de aço inoxidável que é só o cromo, sabe, é aço ligado ao cromo. Para faca. Talheres. Ele só tem cromo. Então ele tem 2% de cromo, ele é mais fácil, ele exige uma temperatura mais baixa. Ele não exige temperatura tão alta. Então, esse, nós começamos a fazer nos fornos grandes. Então tinha duas linhas, esse de cromo sem níquel e o molibdênio no forno grande e os outros no forninho pequeno. Aí então veio o outro grande desenvolvimento que foi um conversor para fazer o aço inoxidável. Igual hoje você vê falar no LD, que pega o gusa do alto-forno e faz um aço comum aí de baixo carbono, o conversor que foi introduzido na coisa pegava um metal líquido no forno elétrico de inoxidável, impuro com contaminações, com carbono alto e ele transformava isso através do uso de oxigênio e argônio. Com o uso de oxigênio e argônio que ele fazia o aço inoxidável. Então ficou o seguinte, o inox, o forno elétrico fazia um inox assim: fundia a sua carga, que era sucata mais ferroliga e trabalhava essa sucata. Enfiava oxigênio para combinar com o carbono, para eliminar o carbono, fazia adição de liga e tal e coisa. Então eram seis horas de processamento. Três horas e meia fundindo e duas horas e meia processando. Quando entrou o convertedor LD, ele passou a fazer o processamento. Então o forno elétrico fundia, derramava e levava para ele. E ele em quarenta minutos fazia a corrida. Então a produção subiu muito. A qualidade subiu muito, porque ele era um convertedor trabalhado com argônio que diminuía a pressão dos gases, então ele era mais puro. E a produção subiu porque os fornos elétricos passaram só a fundir a sucata. Fundia a sucata, entornava líquido, levava para o convertedor, em quarenta minutos ele estava pronto. Fazia o lingote. Deu para entender assim? Essa foi a segunda evolução. A primeira evolução então foi no forninho pequeno. Que era de sete e meia tonelada, nós fazíamos cinco toneladas e meia. A segunda foi já fazer em forno grande. A terceira foi entrar a AOD que o forno grande só fundia e passava para ali. E a quarta evolução então foi a laminação nova de bobinas. Está lá hoje, de chapa contínua. Que então entrou o aço plano, que o consumo é muito maior. Mercado muito melhor. Sem concorrente. E aí então ficou o AOD produzindo para o lingotamento contínuo que faz aquelas placas que vai bobina, e hoje já tem até um outro forno lá que eu nem conheço. Esse aí veio depois que eu saí. O forno da aciaria nova. 

 

P/2 – E o senhor citou rapidinho a entrada do japoneses.

 

R – Ah, japoneses…

 

P/2 – A vinda do japonês para cá.

 

R – ...olha, ele entrou lá, quando foi em 1971, né? Essa data vocês têm aí. O José Pimenta deve ter falado. O José Luiz Pimenta tem a cabeça para esses negócios.

 

P/2 – Pode só contar.

 

R – Ele era, fazia inter-relação usina e o japonês.

 

P/2 – É ele? Ele foi na primeira missão.

 

R – Importante. O José Luiz Pimenta foi muito importante para a Acesita dentro dessa introdução de tecnologia. Compraram do japonês, essa coisa, né? Ele era elemento de ligação. Ele era do Controle de Qualidade, né?

 

P/2 – Hum.

 

R – O irmão dele era o Antônio Pimenta que era o chefe da Aciaria. Depois foi superintendente lá. Já trabalhei com ele. Mas a entrada do japonês lá trouxe para nós assim, disciplina. Disciplina. Principalmente disciplina. Você fazer sempre o mesmo trabalho, quando você mudar alguma coisa você anotar, sabe? Porque a acresceu demais com isso, demais. Inclusive ela, ela chegou a ter um, chegou a um ponto na qualidade de especiais, de aços especiais, era superior aqui dentro do Brasil exatamente por causa da prática do japonês. Que, primeiro o seguinte, eles trabalham em equipe. Então todo mundo que já era amigo lá dentro, na Acesita, tinha que ser mais amigo ainda. Porque conversava mais, reunia mais. Participava mais, participava dos erros. Se envolvia mais em problemas em equipe, trabalhava em equipe. Aceitava erro dos outros. Eles, sabe, a gente aprende isso com o japonês. Que a gente também pode errar, né? E erra. Vai errar. E com eles essa metodologia levou a Acesita a desenvolver processos até próprios. Primeiro porque o brasileiro é muito criativo. Solução de problema é através do brasileiro mesmo.

 

P/2 – (riso) 

 

R – É, uai. E isso foi muito importante nesta hora da Acesita. Formação de equipe trabalho em conjunto e solução de problema pessoal próprio. Das equipes próprias. Valorizava o empregado, de nível de instrução mais baixa. Valorizavam mesmo. Participava dos grupos de trabalho. Isso foi o que o japonês ensinou para a gente. Ele se prendia em que fazer com que a gente trabalhasse. Todo mundo seguia uma prática padrão. Fazia, obrigava a gente a escrever o que é que deveria ser feito, o processo. E obrigava a gente a escrever quando saía fora do processo. Agora, quando saía fora do processo, também não punia não. Porque esse é o grande problema, né?

 

P/2 – Hum, hum.

 

R – Você receber uma instrução, não cumprir a instrução e esconder. Às vezes você tem que fugir fora da instrução. E se você tem uma administração que não aceita as suas ponderações, do seu problema de turno, à noite. Aquela problemada toda, né? Não, o pessoal escrevia. Quando saía fora, ele escrevia por que é que ele escrevia isso. Porque também eles ensinaram que conforme fosse o problema que vocês notavam havia uma contrapartida na frente que podia se aproveitar o aço em função de você ter escrito aquilo. Por exemplo, mudar o cliente. Por exemplo, mudar o cliente. Não produzir o aço daquela dimensão que o cliente pediu. Porque o aço não estará com qualidade porque aqui houve uma impropriedade. Então você anotava aqui: “Ó, esse aço saiu com uma temperatura fria”. Com a temperatura fria existe uma probabilidade muito grande de ficar inclusões de material refratário dentro dele. Então ele era na, antes de ser laminado a programação mudava de cliente. Mudava para cliente de aços não especiais. Era contramedida na frente em função de uma informação que você tinha a liberdade de informar que você errou, sabe, você errava sem problema: “Deu errado o nosso processo. Deu errado nisso. A temperatura saiu mais baixa. Caiu um pedaço de refratário dentro da panela. Uma coisa assim”. E essa foi a mentalidade que o japonês. E o pessoal da Acesita já muito dócil, muito amigo, né? Um pessoal que viveu tudo em comunidade ali, todo mundo junto. Lá não teve, lá o bairro era assim: aquele pessoal que trabalhava, que tinha que atender a usina à  noite – seja de que nível de escolaridade fosse – ficava todo mundo em um bairro perto da usina. Diferente da Usiminas que fez bairro por classe social. Também na época deles a evolução já era diferente. Já era maior. Mas ali, que a Acesita é de 1944, a Usiminas é de 1963, por aí assim, 1962. Mas ali então concentrava, o pessoal administrativo era um bairro mais afastado. Porque tinha tempo de chegar no serviço, né?

 

P/2 – (riso) 

 

R – Não era importante, né? (risos) 

 

P/1 – (risos) 

 

R – Para qualquer hora. O pessoal da produção não, o pessoal da produção era em volta da usina. Porque podia ser chamado. E, naquela época, você virar na usina isso era comum. O sistema exigia da gente e a gente correspondia com o maior prazer. 

 

P/1 – Tinha alguma emergência assim?

 

R – Tinha muitas. 

 

P/1 – Mas que tipo de emergência?

 

P/2 – (risos)

 

R – (risos) Muitas emergências. Alto-forno, alto-forno é um problema. Alto-forno é carvão vegetal, então é difícil. Quando ele esfria, cai a temperatura dele que você não consegue... Vocês conhecem o funcionamento de um alto-forno, não?

 

P/1 – Não.

 

R – Um alto-forno ele…

 

P/1 – Explica para a gente.

 

R – ...um alto-forno é fechado, ele é contínuo. Coloca minério e carvão lá dentro. E mais uns negócios aí de…

 

P/1 – Aquele tubo?

 

R – Hein? É aquele alto assim, né? Ele coloca, você coloca carvão, minério lá dentro, ele vem descendo dentro do forno. Recebe calor da fumaça que sobe. Ele vem descendo, chega cá em baixo, ele já tem um metal líquido. Já tem a ventaneira. Ventaneira sopra o carvão, igual churrasqueira aí, né? Sopra o carvão, o carvão esquenta, derrete o minério. Minério de ferro. E ali o minério é decomposto na parte ferro mesmo que é mais pesado, e uma parte de impurezas que é mais leve fica por cima. Essa parte de cima você tira por um orifício superior naquele nível dele. Fica, vai enchendo, você vai tirando a parte chamada escória, mais leve. E vai subindo o metal, de vez em quando você fura na parte de baixo, onde está o metal, o metal corre. É um ferro com 4% de carbono. Então ele não é maleável, ele, sabe? Ele só serve para peças fundidas. Que você não vai transformar, não vai laminar, não vai nada. Peças que você funde e faz aí um qualquer coisa. Uma caixa, um troço assim fundido de ferro. 

 

P/1, P/2 – (risos) 

 

R – Aí esse alto-forno que é contínuo assim, você vai colocando e vai. Se dá um problema nele, por exemplo, se vaza água dentro dele. Porque onde sopra ar é um buraco, mas ele é refrigerado a ponta para não derreter. Porque ali a região já está quente. Se essa pontinha aqui vaza e entra água, ele esfria. Se a qualidade do minério muda, a sua composição de minério e de carvão às vezes não é suficiente, ele esfria. E quando ele esfria lá dentro daquele negócio contínuo é um Deus nos acuda. Porque ele é alto, todo carregado, você não tem acesso. E para ele esquentar outra vez é enfiando carvão lá em cima, esperar chegar o carvão cá embaixo. Aí, o carvão, quando ele esfria, você às vezes não consegue nem tirar o metal lá de dentro. Porque ele esfria tanto que ele não corre.

 

P/1 – Nossa. 

 

R – Então, ele é problemático o alto-forno.

 

P/1, P/2 – (risos) 

 

R – (risos) Ele é problemático o alto-forno. E, e, por que é que nós estamos falando mesmo? Hein? (risos) 

 

P/1 – (risos) 

 

P/2 – (risos) Das emergências.

 

P/1 – Das emergências. Que precisava ser chamado.

 

R – Ah, das emergências que dava era no alto-forno. Lá era um problema.

 

P/2 – O Alto-forno era campeão de emergência.

 

R – O Alto-forno era campeão de emergência. Porque, na aciaria elétrica, se não deu certo você tira o aço de dentro do forno. Na aciaria você esquenta com eletrodo de grafite, você esquenta e vaza e tira corrida. Agora o alto-forno, sabe, os problemas que davam no alto-forno era da gente passar a noite lá, virar a noite lá para resolver. Mas, olha, a Acesita tem a tecnologia de injeção. O alto-forno, o carvão vegetal, ele é muito friável. Ele dá cerca de 15 a 20% e um carvão que você não consegue colocar lá em cima. Você colocar, olha bem, aquilo é uma fornalha. Você sopra vento aqui, o vento sai por cima. Ele sai até na forma de um gás que você aproveita nos fornos lá. Porque sai rico em carbono. Esse gás sai. Esse gás sai. Se você entra com um material muito fino, ele obstrui a passagem do ar. Ele obstrui e aí a carga começa a oferecer reação lá dentro à passagem do ar, ela começa a ficar presa. Quando pesa muito, ela cai. Quando ela fica muito pesada, porque o ar tem dificuldade a passar, ela cai. E é uma das causas até que esfria o forno. Então você não pode colocar carvão muito fino lá porque ele vai obstruir a passagem do ar. Então, do carvão que tinha, do carvão vegetal, você peneira, você tem aí cerca de 15 a 20% do carvão que você não aproveita. Olha bem, de carvão vegetal. Olha o que é que é. Aí a Acesita desenvolveu um processo de pegar esse carvão vegetal fino e injetar junto com o ar que entra no forno. Isso já era usado com o coque. Coque é um carvão mineral. É um carvão também, carbono na forma de carvão, mas mineral.

 

[pausa]

 

P/2 – Senhor Saulo, a gente conversando com o Frederico, ele falou assim que quando começa a fabricar chapa, fazer os, deixa de fazer barra para poder fazer chapa, disse que é uma grande conquista do mercado, de tudo.

 

R – Foi.

 

P/2 – O senhor poderia falar um pouquinho disso para a gente.

 

R – Bom. A Acesita produzia a chapa de aço ao carbono ligado, para a indústria de agricultura. Esse disco de arado. É um carbono também feito, laminado em chapa. E produzia aço silício que é para motores, transformadores. Que vai aquele empacotadinho. Não sei se você já teve a oportunidade de ver um motor aberto, com o rotorzinho dele, é cheio de aço empacotadinho assim. Aquilo é aço ao silício. E ela fazia isso. (riso) E ela fazia, ela já fazia essa chapa, mas em um processo manual de vai e vem. Então tinha que ser em pedaços. E era pedaço de dois metros por um.

 

P/2 – E era muito quente também o lugar em que eles ficavam, né?

 

R – Era muito quente, muito quente. Tinha uns ventiladores enormes. Os homens trabalhavam quarenta minutos, descansavam vinte. Tinha um rodízio assim, muito acidente. E ela já trabalhava nisso. Era pioneira nesse aço na América. Quando veio então a laminação em bobina. Primeiro veio à aciaria a fazer então. Ao invés de fazer o lingote, porque também a Acesita, a aciaria fazia um lingote. Um lingote ele pesava duas toneladas. Não dava nem para você fazer uma bobina. Ele acabava. Tinha que ser uma coisa mais pesada. Para dar uma bobina de oito, dez toneladas, né?

 

P/2 – Obrigada.

 

R – Então... obrigado. 

 

P/1 – Um pouquinho de açúcar.

 

R – Então, como ele fazia em lingote, tinha que ser peças pequenas mesmo. Não dava para fazer um trem contínuo. Uma laminação contínua. Quando veio então a expansão dela foi colocar um laminador contínuo. Para isso a aciaria precisava fazer um bloco mais pesado. E o que se desenvolveu, e o desenvolvimento na época, um outro salto que teve. Porque Acesita não passou por ele, quer dizer, já pegou ele adiantado. Foi de pular de lingote pesadão, sabe, para fazer bobina de aço para direto para placa. Ao invés de você pegar um lingote de dez toneladas, um quadrado dessa largura para você laminar, fazer uma placa do tamanho dessa mesa. Para laminar essa placa, fazer bobina? Ela já faz a placa do tamanho dessa mesa. De vinte centímetros, é lingotamento contínuo.

 

P/2 – E qual foi o equipamento…

 

R – Esse foi o lingotamento contínuo…

 

P/2 – ...como é que ele chama?

 

R – ...na aciaria. As evoluções maiores foram na aciaria, né?

 

P/2 – É.

 

R – Não. (riso) 

 

P/2 – É, o senhor está, aciaria até morrer, né? (risos) 

 

P/1 – (risos) 

 

R – (risos) Foi, né? Então aí você vê o seguinte. Ela já saltou uma fase de laminação quando ela parte desses blocos deste tamanho assim, sessenta por sessenta, ela parte dos sessenta por sessenta para fazer de espessura de duzentos e do comprimento assim do tamanho dessa mesa. Uma placa do tamanho dessa mesa. Ela então pega o aço líquido, sessenta toneladas de um aço líquido e faz já na medida do que o laminador faria se ele recebesse o lingote. Que é de vinte centímetros pela largura aí de um metro, um metro e vinte, um metro e meio. Dependendo da programação lá da frente. Então eles já fazem vinte centímetros por um metro e meio. Que isso era feito em uma laminação através de um lingote pesadão. De dez toneladas. E em uma fase intermediária que gastava uma temperatura, esfriava para depois esquentar outra vez. Então isso foi uma outra evolução tremenda na siderurgia. Você partir de metal líquido para placa. E essa placa então vai para a laminação contínua onde que faz então a bobina. Foi a evolução. A Acesita não passou pela fase de fazer de lingote, placa. Ela só passou direto de líquido para placa. Lingotamento contínuo. Vocês já visitaram lá, né? A usina?

 

P/2 – Eu estive, eu fiquei lá uma semana. Mas eu fiquei só mesmo na biblioteca. Eu não tive a oportunidade de fazer aquele passeio que o pessoal faz. Eu não fiz porque estava cheio. 

 

R – Mas, quando você fizer você, vai ver então na aciaria, que se não me engano, aí então ficou o seguinte: a parte de plano, de bobina, era uma linha que tinha um lingotamento contínuo. E continuamos com os lingotes. Quando eu saí de lá ainda tinha laminação de lingote para fazer perfil. Para fazer redondo, sextavado, quadrado, retangular. Para fazer os perfis de laminação principalmente para a indústria automobilística. Essa linha eu acho que já acabou. Ela veio acabando de trás para a frente.

 

P/2 – É, me parece que agora só faz chapa. 

 

R – Eu acho que aí já acabou. Agora só a bobina. Essa linha já acabou. Mas tinha então, permaneceu então a linha de lingote para atender isso, que já acabou lá. 

 

P/2 – E o senhor na aciaria, fica até quando na aciaria?

 

R – Eu?

 

P/2 – É.

 

R – Na aciaria, é, ó, meu período todo, quase todo eu tive com a aciaria. Só que foi incorporando mais coisa, sabe? Foi incorporando, cheguei até a participar da mineração, em Itabira. A Acesita tinha mineração em Itabira, né, depois…

 

P/1 – Ah, o senhor chegou a participar?

 

R – Participei. Durante um período até quando ela foi vendida para a Vale. Durante um período eu chefiava também a mineração. 

 

P/1 – Mas o senhor morava em Itabira?

 

R – Morava em Itabira, e tinha chefia lá, né? Mas a mineração ficava por minha conta, que foi o período de venda, né? Depois que vendeu, não. Então essa parte de laminação de perfis, de alto-forno, fundição. Um período pequeno da mineração. Porque a Acesita tinha fundição própria para fazer as lingoteiras, fazer peça e tudo. E essa parte eu participei dela toda. De manutenção e coisa. O que eu não participei mesmo foi na área de laminação de planos, bobina. Essa área nunca, nunca participei dela não. Aliás, participei um período, que eu participei também, fazia também a programação. Na Programação, eu fazia programação de aciaria para lá. Então eu tinha que ter contato com eles para ver o pedido deles e tudo. Mas assim, de produção mesmo, na laminação de planos eu não participei, não. Quer dizer, eu forneci o aço para eles, então já é uma grande participação, né?

 

P/1 – (risos) 

 

P/2 – (risos) Já é grande coisa. 

 

R – Aliás, se eu não fornecesse, eles nem iam existir. (riso) Eles nem iam existir.

 

P/1 – (risos) Seu Saulo, eu queria que o senhor descrevesse um pouco, assim, como que era o doutor Amaro. 

 

R – Um técnico fantástico. Fantástico. O Doutor Amaro, participativo, estava sempre lá dentro. Corria usina com a gente. Um sujeito que colaborava, ajudava. Procurava solução do problema com uma ótica de técnico, de especialista. Então sabia fazer bons contratos de assistência técnica. Sabia quem procurava. Doutor Amaro foi também um marco para nós lá. Ele trabalhou muito tempo. Foi em um período da ditadura, né? Então havia manutenção, uma permanência maior da Presidência. Depois no período que houve abertura começou a entrar até mesmo político, né? O Governo sentiu a necessidade, só ele que sentiu. (riso) 

 

P/1 – (risos) 

 

R – A necessidade de colocar. E tivemos lá cargos assim de político passageiro. Que não, que infelizmente, digo mesmo que não é que eles atrapalharam não, sabe? Mas…

 

P/2 – Também não…

 

R – ...mas atrapalharam sim. Atrapalharam na filosofia de trabalho. Nós tivemos um lá, por exemplo, que ele, ele não podia ter greve. Porque ele já tinha, como governador do Estado, ele tinha passado uma crise enorme com uma greve, ele tinha um trauma. Então ele não queria na gestão dele uma greve. Então ele, e lá era linha da CUT, sabe?

 

P/1 – Hum.

 

R – Uma linha de confronto. Dentro da Acesita a CUT cresceu muito. Era nova. A linha de, o Partido dos Trabalhadores criando força, né? Saindo daquele curral em que eles viveram na ditadura. Existiu. E tinha aí duas linhas. A Convergência Socialista, a CUT, e tinha linhas mais liberais. E lá na Acesita ficou uma linha mais radical. Radical, eu conto para você ter uma ideia, tinha um diretor da CUT, ele é do sindicato. No dia que ele saiu da Acesita, ele montou um bar. Lá é muito comum o pessoal, né? Montou um bar. Aí ele passou a ser empresário. Eles tiraram ele da CUT.

 

P/1, P/2 – (risos) 

 

R – É, ele foi empresário. Não aceitaram ele na CUT. Ele já era patrão. Você vê que na época, né, essa linha tomou. Então ela era uma linha forte, agressiva. Uma linha de provocar greve e de ficar xingando, cercando quem não entrava na greve. 

 

P/2 – Faziam piquete.

 

R – Ofendia secretária, sabe? Falava mal de secretária em alto, microfone, esses negócios de fone. E aí ele não, era linha mesmo de greve. E ele então começava a ceder muito. Porque ele não podia ter uma greve em um período dele, ele não aceitava. Então eram presidências que duravam dois anos, né? Nesse período até tivemos um técnico muito bom: Maurício Hasenclever. Que colaborou muito, cuidou muito da energética. Florestal. Mas você teve, por isso o Doutor Amaro marcou muito, porque foi um técnico da área e que ficou durante bastante tempo, que fez uma renovação. Renovação durante um período até, vamos dizer assim, forte e violenta. Foi em um período que ele teve um diretor administrativo, que foi Seu Domingos Muchon e que veio com a filosofia, o seguinte: “Em vez de mudar os homens, vamos, em vez de mudar a cabeça dos homens, vamos mudar os homens”. E fez uma troca violenta. Foi um baque na cidade, sabe? Ele começou aquelas pessoas práticas, que ocupava cargos de administração de pessoal, ele começou a tirar mesmo. Tirar com força, sabe? Tirar com força, através de psicotécnico, de colocar gente de fora, nova. Foi um periodozinho, foi o único periodozinho que houve certo confronto interno de quem estava entrando se julgando superior de que quem estava. Teve um conflito aí durante um período que também foi resolvido. Logo que chegou o pessoal que ele queria tirar. Que eles achavam aquilo... É uma filosofia, sabe? É entrar, talvez até seja, tenha sido uma forma mais agressiva de fazer na época que nós entramos. Porque eu também entrei de turno foi para tirar os práticos, né?

 

P/2 – É, eu…

 

R – Para tirar. Só que nós tiramos os práticos dando uma carreira para eles. Eles ficaram como assessores nossos no turno. Eles não perderam o cargo. Eles ficaram até aposentar. E nessa metodologia, quer dizer, mas a filosofia foi à mesma. É introduzir cabeças novas, coisa nova. Introduzir a academia lá dentro. Coisas mais técnicas. E não época do doutor Muchon também foi mudar a cabeça de pessoal. Então houve esse impacto, passou logo. Tirou o que tinha que tirar e tudo, né?

 

P/1 – É, faz parte da... É, como é que era a convivência com essas missões japonesas? Com os brasileiros?

 

R – Ó, eles gostavam muito de churrasco. (riso) 

 

P/1 – (risos) 

 

R – Gostavam muito do físico da mulher brasileira. (riso) 

 

P/2 – _______

 

R – Eles eram assim apaixonados pelo perfil assim da mulher. Porque elas são muito retas, né? As japonesinhas lá, né?

 

P/1 – (risos) 

 

R – Retinha, né? 

 

P/2 – Pequenas. _______

 

R – É, eles gostavam. Mas era um pessoal fantástico. Um pessoal, uma cabeça muito boa. Trabalho em equipe. Gente, né, outra…

 

P/1 – E do método de trabalho assim?

 

R – Do método de trabalho, que eles introduziram é o que, eu acho, na Acesita até hoje. É, veio mesmo do método japonês. Que é o que o Rinaldo também tem na Usiminas. A Usiminas nasceu com os japoneses. O Rinaldo é o embaixador, o Rinaldo era adorado no Japão. Porque ele soube tratar os japoneses, que eles merecem, né, mereceram. Fizeram um trabalho fantástico conosco.

 

P/2 – Então eram muito bem recebidas essas missões? Como é que…

 

R – Muito bem recebida, a turma muito, gostava do Brasil. Queria voltar. Ficavam três meses, seis meses, uma coisa assim.

 

P/2 – O senhor também foi para lá?

 

R – Fui uma vez lá. Mas eu fui não à missão de ficar três meses, né? Eu fui em missão de planejamento para a etapa seguinte que o contrato era renovado periodicamente. E, mas nós tínhamos na linha de aço ao silício inoxidável era com Armco Steel, americana. E então a comparação era clara para você ver como que o trabalho do japonês, participativo, trabalho de grupo. Aqueles círculos de controle de qualidade que eles faziam. A diferença do americano, né? Que era direto, pouca resposta, sabe? É isso, é isso. Pouca pesquisa em cima. Muito assim em cima da prática. Faz é isso, acabou. Até mesmo para receber a gente, chegava época até que eles recebiam muito mal. Porque o Brasil estava concorrendo com eles, eles não aceitavam a gente lá dentro.

 

P/2 – Ih.

 

R – É, o operário. O operário, sabe? Agora, os japoneses não. O japonês, primeiro que ele adora o brasileiro, né? Adorava o brasileiro. O método da gente, a liberdade que tinha.

 

P/1 – Bem diferente.

 

R – As farras, sem ter todo aquele, né? Acho que vocês conhecem aquele método do japonês de respeito ao chefe que tem que baixar, esperar ele sair. O brasileiro não tem nada disso. É uma avacalhação, né? 

 

P/1, P/2 – (risos) 

 

R – Então ele adorava esse trem. O churrasco era uma farra. 

 

P/2 – Então isso aí vocês aprendiam com eles?

 

R – Então para eles, queriam voltar, queriam ficar. Muito amigos, muito bons.

 

P/1 – Jogavam futebol?

 

R – Muita missão. Jogava futebol, mal, mas jogava. 

 

P/1 – (risos)

 

R – Muita missão. Hoje eu não sei nem se a Acesita tem algum contrato com alguém, tem? Você sabe se eles têm lá?

 

P/1 – Atualmente eu não sei. 

 

R – Mas o bom do japonês, ele ensinava a gente a metodologia de trabalhar. A metodologia. Porque o importante, sabe, é a metodologia. Você trabalhar com métodos, seguir uma rotina. Quando você sair da rotina, você anotar. E, sempre que você for fazer experiência, você está saindo, você sabe que você está saindo de uma rotina. Então você faz uma prática separada para ela, porque aquilo é um processo experimental.

 

P/2 – Quanto tempo durou esse intercâmbio Brasil-Japão, assim, que o senhor tenha…

 

R – Ah, eles começaram lá o quê? Eu acho que com o Doutor Amaro. Eu acho que em 1971. Que eu saí, eu saí em 1992. Eu saí em 1990 para Belo Horizonte. Eu trabalhei dois anos em Belo Horizonte na transferência de tecnologia. Vender e comprar. Mais vender porque comprar já estava comprando da Armco e da japonesa, lá, da Daido e da Nippon.

 

[interrupção]

 

P/1 – Bom, eu só vou pedir para a gente, porque eu não sei se registrou o final, o senhor estava falando porque é que não tem mulher na linha de produção. Porque a primeira foi a Iolanda.

 

R – É a primeira, eu não sei se foi a primeira engenheira lá não, mas das primeiras. Vamos dizer assim. Das primeiras, Iolanda no Controle de Qualidade. Então feminino tinha no Controle de Qualidade, Controle de Processos, sabe? Escritório. Trabalho de área, trabalho de área eu acho que até 1990, que eu trabalhei dentro da usina eu acho que não tinha não. Engenheira. Eu não me lembro. Não, tinha. Tinha Controle de Processos, que ia para a área. Não, falo assim, trabalho de produção de turno, de coisa assim, eu acho que não tinha não. Não sei nem se hoje tem. 

 

P/2 – Depois o senhor falou da facilidade que foi quando a Acesita passou a contratar só com o ginasial. 

 

R – É, depois nesse período de falta de emprego, houve coisa, então nós passamos a exigir o ginasial. Depois nós trocamos os, no turno ao invés de técnico passou a ser engenheiro. Os troca-turno. Isso na minha área, porque era a área mais importante. (risos) 

 

P/1 – (risos) 

 

R – É, uai. É, o alto-forno, a aciaria, sabe?

 

P/1 – Isso na troca de turno?

 

R – Hein?

 

P/1 – Na troca de turno, não, no turno?

 

R – Não, no turno. Fazia turno.

 

P/1 – Aula no turno. 

 

R – Igual eu fiz um ano, né? Um ano e tanto.

 

P/1 – Não, entendi. Por que é que a aciaria é o mais importante da usina?

 

R – Ah, é porque onde que o aço nasce.

 

P/2 – Ele chega lá bruto?

 

R – Não, ele chega na forma de compostos. Por exemplo, é sucata, vamos dizer assim, e ferroliga. Então você quer fazer um aço inoxidável, você pega um pouco de sucata de ferro, porque tem ferro. Você pega uma liga, um ferroliga, que é ferro  ligado com cromo. Ferro ligado com o níquel, ferro ligado com o molibdênio. Você compõe isso, derrete e nisso você faz então um aço que é uma liga com a composição certa de níquel, de cromo, de molibdênio. Com pouco carbono, é importantíssimo, né? E sem impureza. Impureza tipo aí, nióbio. Uma contaminação fósforo alto, enxofre. Coisas que para aquela finalidade do aço ele não deve estar ali dentro. Não deve fazer parte dele. Então é temperatura alta. É muito caro. É muito dinheiro envolvido. Temperatura alta você tem o risco de alguma coisa acontecer no forno. O risco, valor de uma corrida perdida é um prejuízo, né, maior. Aliás, a Usiminas morre de inveja da gente, sabe, da Acesita porque eles fazem aço comum. Coitados, né?

 

P/2 – (risos) 

 

R – Eles fazem aço comum. O Rinaldo era doido para fazer aço inoxidável na fundição. Fundir peça de aço inoxidável. Eu até andei ensinando umas coisas para ele lá, para ele fazer na fundição. Porque eles não têm instalação para fazer para vender aço inoxidável.

 

P/2 – Mas aí conta para a gente, ele vira, de sucata ele derrete, aí vai para onde?

 

R – Derrete no forno-elétrico e aí ele vai então, hoje ele vai para um convertedor. Um aparelho que recebe a carga líquida. E essa carga líquida então, é, quer dizer, ele não entra com energia calorífica a não ser reação química. O forno-elétrico, ele entra com energia para fundir. Você tem que derreter aquilo. Aquilo estando líquido, aquela mistura estando líquida você vai então para um outro forno, que através de reação química que ele provoca, ele transforma o aço então no que você quer. Faz o aço.

 

P/2 – Isso tudo fica na aciaria?

 

R – Hein?

 

P/2 – Isso tudo fica na aciaria?

 

R – Não. Aí você, está líquido, aí você transforma aquilo numa placa. Uma placa contínua, grande que você corta para entrar no forno lá na laminação.

 

P/2 – Quais são os equipamentos da aciaria?

 

R – A aciaria hoje tem, é, ela tem convertedor. Do convertedor vai para o lingotamento contínuo, são os aços baixa liga. Os aços menos nobres, né? E os fornos-elétricos que recebem sucata, que vai para um outro convertedor, um outro convertedor e que vai para o lingotamento contínuo. 

 

P/2 – Isso que tem na aciaria?

 

R – É, isso é o que tem na aciaria. 

 

P/2 – Onde é que eles usam o oxigênio da fábrica de oxigênio?

 

R – Usa dentro dos convertedores. Tanto para os aços comuns, de baixa liga, quanto os de alta liga. O oxigênio, o carbono é um elemento que contém ele no aço. E você tem que tirar o carbono. E, para você tirar o carbono, você o tira através de oxigênio, formando gás carbônico. Só que tem que outros elementos também, que estão ali na sucata, combinam também com o carbono. Tipo o silício, manganês, tiro com _____ oxigênio. Silício manganês, fósforo. E esses então formam o que eles chamam de escória. Aquela parte não-metálica, óxida, mais leve que fica em cima do banho.

 

P/1 – Quando a Acesita começa a fazer esses aços especiais…

 

R – Inoxidáveis em barra.

 

P/1 – Inoxidáveis, planos, né? 

 

R – Não planos. Por perfis ainda.

 

P/1 – Não planos. Quem é que compra? Quem são os compradores aqui no Brasil?

 

R – Ah, isso era vendido muito para distribuidor. Pessoas que vendem para quem usa um aço que não pode oxidar, sabe, compra em barras. Compra pouca coisa. Pouca tonelagem. Ou então, né, hoje em dia já, a chata já serve para tanques. Hoje é diferente. Naquela época de barra, quando você fazia, por exemplo, a pessoa precisava de um parafuso que não pode oxidar. Então ele comprava uma barra de aço inoxidável sextavada no distribuidor. A Acesita vendia muito para distribuidor. É São Paulo, o mercado era São Paulo. E esse distribuidor é quem fatiava. Ele é quem distribuía pequenos pesos. Que a corrida nossa era de trinta toneladas, e ele vendia era duas, três, cinco toneladas. Então eles é que fatiavam. A Acesita tinha um depósito em São Paulo. Eu não me lembro quando que se fechou não. Eu acho que hoje ela já nem tem mais nada mais. Mas no depósito ela vendia também picado.

 

P/2 – Tinha um cliente grande assim, que…

 

R – Da linha de inoxidável, da linha, naquele tempo, né?

 

P/2 – É.

 

R – Na linha de inoxidável cliente grande eu não me lembro não. O José Luiz não falou isso com vocês não? O José Luiz atendia cliente. Eu acho que da linha inoxidável cliente grande, não tinha não. Tinha, bom esses que faziam parafuso, tudo. Mas comprar, eu acho que não tinha não.

 

P/2 – É porque teve umas fotos do pessoal da Tramontina indo lá visitar a Acesita.

 

R – Não, mas Tramontina não levava inoxidável não. A Tramontina era um aço ligado ao carbono em que ela fazia facão, faca, disco de arado. Essas coisas assim.

 

P/2 – Ah, era?

 

R – Não, espera aí. Tramontina entrou no inoxidável também. É Tramontina, é, realmente tinha sim. Tinha. A Tramontina trabalhava, facas, garfos, uai. Tinha sim, Tinha cliente direto. Tinha cliente direto sim. Você tem razão.

 

P/2 – Porque eu vi foto dele de, fazendo visita lá.

 

R – Não, tinha sim. Não era só distribuidor não. Tinha esses mesmo. De talheres e cutelaria, tinha sim. É mais da série do aço 400 cromo. Tem sim. Você tem razão, está lembrando bem.

 

P/1 – Vamos dizer assim, desse período inicial assim da produção do aço inoxidável, quais eram as possibilidades? Que hoje assim, eu acho que aumentou muito a possibilidade de uso do inox. Naquela época o que é que era mais? Os distribuidores vendiam para fazer talher, baixela? Quais eram os usos possíveis do inox naquela época?

 

R – Olha…

 

P/1 – Do Doutor Amaro. Nessa época que vocês atingem essa qualidade?

 

R – Que estava começando o inox? Na época que estava começando o inox?

 

P/1 – Hum, hum.

 

R – Bom, era na linha que nós atingimos, né, de perfil redondo, quadrado, sextavado. E para cutelaria que essas de faca, talheres. E outras partes era mais para indústria naval. Quem sabe dessa parte bem é o José Luiz. Sabe por quê? Ele era da Qualidade, ele atendia o cliente. Ele sabia, ele frequentava o cliente. Nós da aciaria, nós não frequentávamos muito o cliente acabado não. Então eu não me lembro bem. Mas eu lembro muito bem de venda em distribuidor. Quantias menores para quem precisava, quem produzia parafusos especiais. Alguma peça especial. Isso aqui que eu lembro, agora, de coisa não me lembro bem quem é que era que comprava.

 

P/1 – Como saía da usina? Era caminhão, ferrovia?

 

R – Caminhão. Era caminhão. Porque ferrovias, acabaram com a ferrovia no Brasil quando ficou. Nós tínhamos lá a linha que era o minério da Vale. Que atingia lá de Itabira à Vitória. Para São Paulo era caminhão que levava para o depósito de São Paulo. Por isso é que eu guardo muito assim a parte do picado, porque muito ia para depósito. 

 

P/1 – Do depósito para os distribuidores.

 

R – Do nosso depósito ou outro. E eles vendiam era picado.

 

P/1 – É.

 

R – Então eu não guardo bem. A não ser esse que ela lembrou bem aqui: facas, talheres, essas coisas. Cutelaria.

 

P/1 – E no cotidiano da família do senhor, já usava? Usou? Começou a usar mais? Assim no cotidiano de uma família?

 

R – Como, não entendi?

 

P/1 – O uso do inox?

 

P/2 – Quando que vai o inox para a casa do senhor?

 

R – Hein?

 

P/2 – Quando que vai inox para a sua casa assim, de baixela, de jarra.

 

R – Quando que vai?

 

P/2 – É.

 

R – Uai, quando eu compro. (risos) 

 

P/1 – (risos) 

 

P/2 – (risos) A partir de quando que vai Seu Saulo?

 

R – Ah não, que coisa, aí nós já usávamos isso. Já nessa época já era tudo de inoxidável, sabe? Só que era importado. O inoxidável plano, baixelas, isso que você está fazendo era importado. Porque nem, outro produtor de Villares, que tinha de inox aqui era a Villares. Mas ela não fazia chapa não. Chapa era importada e vendiam, as estamparias é que compravam a chapa importada. Nós substituímos…

 

P/2 – Então o senhor sabia isso aqui, nós vamos fazer, isso aqui é inox, isso aqui já tem em casa eu vou fazer agora na Acesita. O senhor já sabia disso?

 

R – Como que é?

 

P/2 – Que o futuro de vocês era fazer inox. O senhor já conhecia inox antes de fabricar? 

 

R – Não, a gente já conhecia o inox, né? Já quando eu cheguei na Acesita o programa já era entrar na linha de inox. Nós não tínhamos era a tecnologia. Nós não tínhamos a tecnologia. Fazíamos o aço silício. Éramos os únicos a fazer o aço ao silício. E o aço ligado, alto carbono, para disco de arado. Isso era cliente cativo da Acesita. A Acesita era a única, ainda é, até hoje, de aço silício, e de disco de arado eu não sei. Eu acho que é também. O inox não, porque o inox já tinha a Villares também que produzia em São Paulo em barras. Depois entrou a Piratini no Rio Grande do Sul e entrou a São Paulo na Anhanguera. Mas a Acesita entrou antes da Anhanguera no inox. Então era uma ambição, por efeito, por assim, por tecnologia, né? Por ambição de tecnologia dos engenheiros da aciaria. Porque quem produz aço inoxidável é famoso, minha filha. 

 

P/2 – Então. Eu quero saber se o senhor tinha o sonho de produzir? (risos) 

 

R – (risos) É um aço bonito.

 

P/2 – Aquele aço, vou fazer aquele negócio ali. (risos)

 

R – É, é, aí foi aquela festa fazer aço inoxidável lá. Ô, nós era importante pra burro. O pessoal da Usiminas morria de inveja, morria mesmo de inveja da Acesita. Por causa da tecnologia. 

 

P/2 – Então o senhor fazia questão de ter coisas de inox em casa?

 

R – Fazia assim ó, porque a gente pegava, de inox a gente tinha as baixelas, essas coisas normais a gente tinha. O que a gente tinha de coisa que fazia muito era cinzeiro. Pegava, sabe, a barra redonda, um pedaço, né? Usinava, polia, dava o brilho e fazia cinzeirozinho, umas coisa assim. Deixava os punhados lá em casa. Para o pessoal ver.

 

P/1 – (risos) 

 

R – Era verdade. Realmente, sabe, orgulha a equipe toda quando você entra em uma linha de aços especiais que ninguém faz. Dá um orgulho. A gente da Acesita tinha uma inveja de Villares fazer. Um respeito, não inveja, não. Um respeito porque Villares faz, né?

 

P/2 – Hoje em dia o senhor acompanha ainda os novos rumos do inox em, por exemplo, o senhor passa em um prédio, o senhor sabe reconhecer que aquele prédio foi revestido com inox? Que tem um detalhe? O senhor acompanha? O senhor tem atenção a isso ainda?

 

R – Tenho. Tenho atenção. Ele hoje, sabe, ele chega a confundir com alumínio. Ele chega a confundir. Ainda mais que hoje estão usando muito o inox arranhado, aquele, ele não é brilhante. O fosco. O inox fosco.

 

P/2 – Escovado?

 

R – É, escovado. E o alumínio tem muito essa característica. Confunde. Mas não resta dúvida, uma coisa com inox ela é uma coisa, né? Uma outra com alumínio não é uma coisa, é um negócio, né? Com alumínio é um negócio. Agora, com inox realmente, né? A durabilidade, aí não tem dúvida. O peso, um valor. É bonito. Você entra em um…

 

P/2 – Então o senhor repara, passa pelo prédio: “Ó o inox da Acesita”.

 

R – Você entra no elevador assim, todo revestido de inox. Um prédio. Não reveste um prédio de alumínio. Você vê as esquadrias de alumínio que tem.

 

P/2 – É , tem umas fachadas.

 

R – Essas esquadrias de alumínio elas ficam, de soltar na sua mão, esses trem de coisa quando é de alumínio, é ou não é? A de inox não solta não, minha filha.

 

P/2 – (risos) 

 

P/1 – (risos) Eu queria da gente falar um pouco assim, da vida cotidiana ali na Acesita, né? O senhor casou, o senhor já chegou…

 

R – Eu cheguei casado com um…

 

P/1 – Casado. 

 

R – ...filho lá, com um filho. 

 

P/1 – E foi morar onde? 

 

R – Fui morar no bairro dos Técnicos.

 

P/1 – Dos técnicos. Quem que eram os vizinhos?

 

R – Tem a casa até hoje lá. 

 

P/1 – Quem que eram…

 

R – O bairro dos técnicos ali eram os supervisores e os engenheiros. Engenheiro não tinha quase nenhum. E a casa da Diretoria. A casa da Diretoria, naquela foto ali tem uma delas, né? Era, eu morava pertinho da casa da Diretoria. Porque, quando o diretor vinha, eles eram do Rio de Janeiro. O escritório central era no Rio de Janeiro. Quando o diretor vinha, ou o presidente vinha, aí reunia a gente. A mulher da gente, minha mulher não gostava porque era muito, tudo enquadradinho, né?

 

P/1 – (risos) 

 

R – E, fazia esse movimento. E era um coleguismo muito grande, porque nós éramos poucos. Cheguei ali tinha, o carro que tinha da moda era o Renault Delfine. Vocês nem conheceram, né?

 

P/1 – Ah.

 

R – O Renault. Você não conheceu não.

 

P/1 – (risos) 

 

R – Era moda porque chegou um sujeito vendendo à prestação lá, eles compraram vários carros daquele.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É. Eu cheguei, ganhei um carro do meu tio para pagar como eu pudesse, uma Vemaguet. Vocês não conheceram Vemag, né?

 

P/2 – Ah, Vemag eu conheço. 

 

R – Conheceu, é? Ganhei uma Vemag. Então era todo mundo ali, todo mundo junto, os engenheiros. Naquele lugar ali, né, junto do pessoal. Não tinha técnico. O primeiro que entrou foi comigo na aciaria, o Geraldo, é, como é que é o nome dele?

 

P/2 – Geraldo Enio?

 

R – É, Geraldo Enio. Conheceu…

 

P/2 – Eu tenho foto dele aí.

 

R – Você sabe dele?

 

P/2 – Não sei não, mas eu tenho foto dele com o Luiz Pimenta lá no Japão. Eu estava fichando ontem, tem o nomezinho dele. (riso) 

 

R – Nossa, Geraldo Enio foi meu colegão lá. Você não sabe dele não?

 

P/2 – Não, mas eu posso descobrir. Se você quiser a gente descobre.

 

P/1 – Mas eu acho que a festa de sessenta anos vai ser, vai encontrar as pessoas.

 

P/2 – É.

 

R – Vai ter festa?

 

P/2 – Lógico.

 

P/1 – Eu acho que sim. Eu acho que sim. (risos) 

 

P/2 – Vai ter que ter, né?

 

R – Sessenta anos? 

 

P/1 – Vai ser o lançamento do livro. 

 

R – Ah, é.

 

P/1 – Eu acho que…

 

P/2 – O senhor como co-autor do livro…

 

R – Geraldo Enio você vai procurar? Geraldo Enio foi o primeiro técnico da aciaria.

 

P/2 – É mesmo?

 

R – Sensacional. Sensacional. Sujeito trabalhador, colaborador, de resto todo mundo era. Mas era fora de série. Trabalhamos muito junto no turno, eu e ele. Porque turno você troca, sabe?

 

P/1 – Hum, hum.

 

R – De companheiro. Muito bom.

 

P/2 – Se soubesse tinha trazido a fotinho dele para o senhor ver…

 

R – Hein?

 

P/2 – Se eu soubesse tinha trazido a foto dele que ele estava no Japão. (riso) 

 

R – É, não sei onde é que ele está, o Geraldo Enio.

 

P/1 – E assim, a esposa do senhor estranhou, primeiro, para a gente registrar. Como que ela chama?

 

R – Não, ela, Maria Cristina Teixeira Tárcia. Ela gostou, né, do lugar. Estranhou o calor. Muito quente. Aquilo para ela que é de Ouro Preto, ela é de Ouro Preto, né? É muito quente e aquilo foi um sacrifício muito grande para ela. Até que durante o, eu tive dois meninos, né? Ela cuidou dos meninos até os seis, sete anos. Depois eles pararam de requerer muito trabalho, ela sentiu assim um pouco de vazio. Aí ela começou a trabalhar. Começou trabalhando com um médico, né? E começou a pesquisa histórica dela. Ela gosta demais de escrever, ela é pesquisadora de História, gosta de fazer pesquisa. E começou a compor as coisas de História dela e depois trabalhar mais em Ipatinga. Com a Prefeitura da Ipatinga. Ela se encaixou muito bem lá. Durante esse período todo frequentava o clube também. Não gostava muito de, muita coisa de, essa rotina social de empresa, né? De ter que ir em um jantar formal. Essas coisas assim não, né? Mas ela participava, gostava do trabalho, de área de pessoal. De colega, de amigo. A gente vivia muito bem lá. Tivemos uma vida excelente. Aí os meninos saíram, né?

 

P/2 – Eles foram para Belo Horizonte?

 

R – Eles foram estudar em Belo Horizonte. Um fez Engenharia e a outra fez Jornalismo. Saíram com dezesseis anos, fiquei eu e ela lá. Ela já estava na pesquisa dela, na história dela, ela já estava voltando para Ouro Preto. Porque o pessoal saía daqui para ir para lá. E família aqui, gente daqui, ia para a escola aqui, daí vim para cá. Vim para cá.

 

P/1 – (risos) É, mas tinha outras moças lá de Ouro Preto? A dona Leila, a esposa do seu…

 

R – Tinha. 

 

P/1 – Tinha uma convivência assim de continuar?

 

R – Muito. Morava ao lado da Vânia do Pimenta, o José Luiz. Era todo mundo perto ali. Muito. Tinha muita, né?

 

P/2 – Vários estudantes de Engenharia casaram com as ouropretanas, né?

 

R – É, exato, exato. E tinha muito, a gente fazia muito reunião da pessoa, né? Pessoal mais do nível social. Que seriam os técnicos e os engenheiros. Fazia muito. Tinha, quase todo mês tinha. Tem um que era muito animado para isso, está até hoje, que ele perdeu a sogra. O Oleises, sabe? O Oleises era um que cuidava também, é parente do José Luiz Pimenta. Da, da…

 

P/2 – Foi a Leila que conseguiu o telefone do senhor para a gente. 

 

R – A Leila telefonou para mim…

 

P/2 – É porque eu não conseguia falar com o senhor de jeito nenhum. 

 

R – É, foi. 

 

P/2 – A gente estava com os números errados, ela foi rapidinho e achou seu número para a gente. 

 

R – É, mas o Oleises estava até aí hoje. O Oleises era muito animado, ele foi para a Forjas Acesita. Ele ficou lá um determinado tempo, foi para a Forjas Acesita. Então fazia muito jantar, sabe? Tinha o clube que unia muito a turma. A turma era muito unida, muito mesmo. E não era assim por título não. Era realmente por amizade que se tinha, diferente. Eu falo isso porque a Usiminas se fez diferente. Isso é que é interessante, sabe? Usiminas, rapaz, a Cristina era decoradora, a Cristina é artista plástica, sabe, minha mulher, né? E ela fazia decoração de escola de samba lá. Lá tinha o Vai Quem Quer, o Boca Branca, né, que vocês já devem saber.

 

P/1 – (risos) 

 

R – E ela, uns tempo, ela trabalhou na Secretaria de Cultura lá de Ipatinga. E era terrível a separação. O Carnaval lá, tinha o Carnaval dos engenheiros, que não podia. Se entrasse em uma escola de samba tinha que ser mascarado. É, olha. 

 

P/2 – Nossa.

 

R – Ninguém sabia que tinha um engenheiro. Gozado, né? E é, vem também de origem junto com japonês. É gozado, japonês não é muito disso assim.

 

P/2 – É cultura, né?

 

R – Eles têm a hierarquia deles de respeito. Mas não a segregação assim. Lá é gozado.

 

P/1 – Bom, e aí em 1992 o senhor vem para Ouro Preto pela Fundação…

 

R – Eu vim pela Fundação Gorceix, uma Fundação de Apoio ao Ensino Superior.

 

P/1 – De Apoio ao Ensino Superior.

 

R – É, uma Fundação criada aqui em 1960 para apoio aos alunos da Escola de Minas, sabe?

 

P/1 – Ah, da Escola de Minas?

 

R – Era filantrópica. Ela foi criada por ex-alunos da Escola de Minas, para apoiar a Escola de Minas como é até hoje. Essa Fundação de Ensino. E ela é filantrópica, é a única fundação filantrópica. Mas ela apóia aluno carente. Ela promove estágio. Então estive na Fundação durante oito anos. 

 

P/2 – Até?

 

R – De 1992 a 2000.

 

P/1 – A 2000.

 

R – É, trocou de presidente em 2000, ele trocou o superintendente. Aí eu fiquei. Saí de lá de trabalhei um pouco na Santa Casa. Sofri. Nossa Mãe do Céu. Era da Irmandade, né? Então a Santa Casa não tinha dinheiro. A história da Santa Casa eu acho que não entra nesse assunto não, né?

 

P/1 – Não, depois a gente conversa. (risos)

 

R – Porque ela é um troço fantástico.

 

P/1 – Ah, depois a gente conversa então. Sabe uma coisa que eu fiquei curiosa? É assim, nesse período que o senhor estudou na Escola de Minas aqui, então ela era uma referência para toda uma geração. E esse período que o senhor volta em 1992 através da Fundação Gorceix, o que é que mudou no ensino da Engenharia de Minas? 

 

R – Olha, o que mudou aqui é que mudou…

 

P/1 – Se é que mudou alguma coisa. 

 

R – ...foi que criou uma universidade, e, ao criar a universidade, eles partiram a escola. O básico não é a Escola de Minas. Química, Física, Álgebra, Trigonometría. Os cursos básicos, sabe, eles são comuns aos outros cursos da universidade. Então ficou a Escola de Minas, hoje são os três últimos anos, sabe, os básicos. E o forte da Engenharia é um básico que você faz. O básico você faz Cálculo. E ele aí não é, não pertence mais à Direção da Escola de Minas. Isso foi uma mudança grande para mim que gostava muito mais desse básico, da Álgebra, dessa linha assim. Eu, vamos dizer assim, eu perdi um pouco da ligação com a Escola de Minas. Embora que a Gorceix foi criada para apoio à Escola de Minas, era da Escola de Minas, cuidava da Escola de Minas. Mas não é a Escola de Minas do meu tempo. E depois também eu comecei a ver a liberalidade que há hoje. E que é difícil da gente que viu o reitor da escola passar lá todo de gravata. Todo mundo um respeito tremendo, uma autoridade que você não falava. Quer dizer, você não saía, você não saía da sala a não ser que precisasse sair. Quer dizer, tivesse uma necessidade. Sabe, você não levantava da cadeira sem pedir uma licença. Quer dizer, tudo aquilo que vocês vêem no filme de antigamente...(risos) 

 

P/2 – (risos) 

 

R – ...é a Escola de Minas do meu tempo. Chega aqui é uma bagunça. O aluno não, fuma dentro de sala. Levanta e sai, sabe? O professor que não, sabe, é como é, né? Não estou querendo dizer. Mas…

 

P/1 – Essa é a realidade.

 

R – É a realidade. É a realidade. Eles fazem uma bagunça para fazer uma greve. Um desrespeito. Um desrespeito mesmo, que até eles queriam…

 

P/1 – Agora assim, na época do senhor quem que eram os grandes catedráticos assim, quem que o senhor gostava de assistir aula que…

 

R – Aqui, ó, o professor Tibiriçá, Nicodemus, Calais. O Nicodemus, Calais, Luiz Carlos de Assis Moreira. Mais dessa linha assim do básico, sabe? Gostava muito, mas não gostava muito de Matemática, né? Eles me chamaram para participar de um grupo. Eram dois professores e eu, chamava Grem – Grupo de Estudos Matemáticos. E eu ia fazer grupo de alta matemática. Estava tão alta (risos) que eu, daí não cheguei alcançar.

 

P/1 – (risos) 

 

R – Chegou um ponto que eu não alcançava não. (risos) Mas são professores daqui da história da Escola de Minas. Hoje já está universidade. Mas tinha que crescer mesmo, não podia ficar só naquilo.

 

P/1 – Hoje faz parte da Federal de Ouro Preto, é isso?

 

R – É. Universidade Federal de Ouro Preto. 

 

P/1 – Que é a Escola de Minas faz parte.

 

R – A Escola de Minas é…

 

P/1 – E, a pessoa que sai hoje da Escola de Minas, qual é o mercado de trabalho que o senhor acha que ela pode estar... Porque eu acho que mudou muito também, né?

 

R – É, não mudou muito.

 

P/1 – De quando o senhor se formou?

 

R – Mas ele está, ele ainda é Mineração e Metalurgia. Mineração e Metalurgia é o que chama mais, e o que é que poderia. É a Escola de Minas forma mesmo é para Mineração e Metalurgia. Não tem, sabe? E é engenheiro para área. Não, alguns têm ficado para professor por causa do mercado de trabalho. O mercado de trabalho está ruim, então se encaixa como professor. Não como opção, mas como falta de coisa. Precisa melhorar o país, não precisa? Precisa reagir, né?

 

P/2 – É.

 

R – Eu não sei na linha de vocês como é que está de emprego de vocês. Mas na Engenharia teve um período bom, que havia procura, que a gente se encaixava. Teve um período muito ruim e agora está mais ou menos. Da Escola de Minas, e a Escola de Minas de Ouro Preto ainda tem uma fama, né?

 

P/1 – Uma tradição.

 

R – Ela ainda tem nome, uma tradição, tem tradição.

 

P/1 – Então eu vou fazer uma última pergunta só, Doutor Saulo: assim, a Acesita está comemorando sessenta anos, o que é que o senhor achou de ter dado essa entrevista para a gente recuperando aí a trajetória e a carreira do senhor dentro dessa história de sessenta anos?

 

R – Como é que é que? Eu não entendi.

 

P/1 – Que é que o senhor achou de ter sido convidado para contar sua experiência dentro desse projeto dos sessenta anos da Acesita?

 

R – Ah, para mim, puxa vida. Para mim é, eu acho uma honra muito grande. Uma consideração muito grande que a Acesita sempre teve com os seus funcionários. Então é bom a gente ver isso. É bom a gente sentir que a gente tem alguma coisa para contar, né? E que tem gente que tem paciência para ouvir, né? 

 

P/1 – (risos) 

 

P/2 – (risos)

 

R – Para a coisa, sabe? É, e a Acesita sempre teve isso. Sempre valorizou os funcionários dela de todo nível. Sempre mesmo. A gente tinha comemorações, ia todo mundo com maior liberdade e tudo. Então isso para mim foi uma surpresa. De vocês estarem nisso, dela ter essa ideia de fazer isso. Puxando um pouquinho da história. Uma surpresa que a gente não teve tanto no nosso tempo. Eu fiquei até com inveja. Porque a gente devia ter feito isso com aqueles antigos também. Ter gravado, ter feito. Mas não... O que a gente fez e deixou marca, que eu acho que ainda tem lá, é o Simpósio Interno. Vocês conhecem o Simpósio Interno que tem semestral?

 

P/2 – Não.

 

P/1 – Nunca ouvi falar. O que é que é?

 

R – É. Tem um Simpósio de seis em seis meses em que o pessoal vai apresentar trabalho técnico lá dentro. Tanto trabalho que você tem até que selecionar. Isso quem começou foi o Oleises, sabe? Eu participei do início. Os dois primeiros prêmios eu que ganhei. Está até lá dentro do museu, eu dei para o museu, de trabalho. Premiava com troféu. Depois passou a dar dinheiro. Isso tem. Isso precisava saber. O Oleises, vocês vão estar com o Oleises, né?

 

P/2 – Ele trabalha na Fundação?

 

R – Não, o Oleises está em Belo Horizonte. Ele está na assistência técnica.

 

P/2 – Ah, a gente pode fazer contato.

 

R – O Oleisis estava aqui com a sogra dele que morreu.

 

P/2 – Ah, ele está aqui em Ouro Preto?

 

R – É. Mas então essa, a Acesita sempre valorizou a gente muito. Todos os empregados dela. Sempre cuidou muito da gente sem um paternalismo. Ela exigia com, aquilo que você tinha que dar, sabe? Mas eu acho que por ela ter se formado em um lugar totalmente inóspito, agressivo. Uma região desbravada por ela. Ali não tinha nada. Ela montou tudo com pessoas fantásticas. Doutor Albuquerque era um cara formidável, gente. Doutor Albuquerque, uma cabeça. É a cabeça, é a inteligência maior que eu já vi na minha vida é o Doutor Albuquerque. Que o que aquele homem é inteligente. Ele é a base da Acesita. Ele é a base da Acesita. Esse negócio de laminação, de inox, tudo saiu da cabeça dele. 

 

P/2 – É mesmo?

 

R – É, uai. AOD, esse desenvolvimento da aciaria? Ele participa de tudo. Ele participa desde o minério até a laminação final.

 

P/2 – Que anos que o senhor participa, falou que ganhou, duas vezes?

 

R – O Coses – é Comissão de Simpósios Internos Semestrais. Foi a, quando é que foi? Em 1970, 1971? Tem lá gente. Tem isso no arquivo lá. 

 

P/2 – Vou botar aqui: o Coses.

 

R – Aqui, meu currículo aqui está. Quer ver.

 

P/1 – Deixa eu só encerrar aqui formalmente, então a gente queria agradecer a entrevista do senhor em nome da Acesita e do Museu da Pessoa. Tá?

 

R – Tá.

 

P/1 – Pela ajuda. Foi fantástico.

 

R – Ah, não tem não. Eu é que agradeço vocês pela lembrança do meu nome, pelo prazer que me deu, né? Não vou falar mais não.

 

P/1 – Fantástico.

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