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História

A primeira coordenadora

História de: Gilda Borges
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/10/2018

Sinopse

Gilda foi uma das primeiras funcionárias do BNDES. Também foi a primeira mulher a assumir um cargo de coordenação no banco. Nesta entrevista, dada em 2002, ela nos conta sobre sua vida pessoal e profissional. 

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História completa

P/1 - Bom dia, dona Gilda. Gostaria de começar essa entrevista pedindo que a senhora nos forneça seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome completo é Gilda Decourt Borges. Nasci em oito de maio de 33, aqui no Rio de Janeiro mesmo. Pertinho daqui, em Santa Teresa.

 

P/1 - O nome dos seus pais...

 

R - Augusto Gadelha Borges e Maria de Lourdes Decourt Borges.

 

P/1 - A atividade profissional deles?

 

R - Meu pai era funcionário do Ministério da Fazenda e pintor de quadros. Teve até um prêmio na Escola de Belas Artes.

 

P/1 - Dona Gilda, conta um pouquinho para a gente da sua infância aqui no Rio. Como era essa cidade, como são as suas memórias...

 

R - A cidade era muito tranquila. Eu nasci em Santa Teresa, fiquei lá durante 62 anos. Em criança, aquilo lá era uma delícia, parecia um paraíso. Chegava visita, todo mundo queria passear para ver porque a vista era maravilhosa. Você via quase que o Rio de Janeiro inteiro, dependendo do lado que você ficasse. Então a gente saía andando a pé de noite pela rua. Tinha uma árvore enorme que ficava na calçada. A gente dizia: “Vamos passear até a Maria Gorda?” Aquela árvore enorme... Então era uma época muito boa, todos os vizinhos se davam; era quase uma cidade do interior. Isso até bem pouco tempo Santa Teresa conservou. Aí já começou problema de pivete, de tudo isso, já perdeu um pouco. Mas era uma vida deliciosa.

P/1 - A senhora tem irmãos?

 

R - Tenho um irmão só.

 

P/1 - E as brincadeiras do tempo de criança?

 

R - A gente tinha um clube em Santa Teresa que foi feito - feito mesmo - por um português, que tinha uma perfumaria famosa no Rio, chamada Beija-Flor. Ele tinha muito dinheiro, então ele construiu um prédio inteirinho, que está lá em pé até hoje. E como Santa Teresa não tinha nada ele resolveu fazer um clube. Construiu uma piscina que tem gente que olha e acha que vai cair, porque são colunas imensas, mas tudo fincado na pedra, lá embaixo. E a piscina lá em cima, uma piscina de 25 metros. O melhor de tudo é que o salão de festas era embaixo, então no carnaval a gente pulava e sentia a vibração no chão, mas era a distração que a gente tinha.

A missa no domingo - a gente saía para a missa com o maiô por debaixo da roupa, para chegar em casa, pegar a bolsinha correndo, largar o que era da missa e ir para o clube. Aí ficava na piscina. Lá em casa era jogo duro; meio-dia tinha que estar em casa, senão dava encrenca. Então a gente começava indo de bonde; depois eu consegui vencer as resistências e ganhar patim. Para você ver, era tão tranquilo que a gente ia de casa até o clube de patim pelo asfalto.  

 

P/1 - Quem? Tinha um grupo de amigas?

 

R - Tinha uma turminha boa. Vizinha, tinha uma família que era mais chegada. Depois mudou uma outra família lá para perto, então ficaram três. O pessoal era todo muito unido, tinha aquela turminha do clube. De vez em quando tinha uma festinha na casa de um e de outro, tinha dança da batata, aquelas coisas do tempo de vitrola, que toda hora tinha que tocar a agulhinha, porque ela ficava rombuda.

 

P/1 - A dança da batata era o quê?

 

R - Era a batata na testa. No dia seguinte, era batata para tudo que era canto. (riso) Era muito bom, um negócio inocente, gostoso. A gente animava o carnaval inteiro só com guaraná e coca-cola. Não tinha outras coisas, e dava bem para divertir.

 

P/1 - Mas aí, guaraná e coca-cola, esses bailes de carnaval, era mais na juventude?

 

R - É. Mas a gente ‘filava’ tudo, a gente ia no baile infantil de tarde e ia para o de adulto de noite. (riso) Não escapava nada. Eu sempre adorei carnaval.

 

P/1 - Dona Gilda, e educação religiosa em casa?

 

R - Eu cheguei a fazer um curso na igreja católica para fazer primeira comunhão. Fiz primeira comunhão, fui crismada, mas eu não... Eu sou uma católica sui generis. Eu só gosto de entrar em igreja vazia, de preferência sem muita iluminação, sem muito dourado, para sentar lá quieta e ter uma conversa mais íntima com o pessoal lá de cima. Esse negócio de missa e padre, ainda mais no tempo em que se falava latim... Eu tinha horror de latim. Chegava lá, ouvia e não estava entendendo nada. Era muito desagradável. Depois disso, eu continuo católica.

Teve até um ano engraçado… Um gerente jurídico da minha área tinha sido seminarista, o Agostinho, e um rapaz que tinha sido estagiário e que já estava com o advogado Ruas, que depois até pediu demissão e foi ser padre. Foi lá para o São Bento ser padre. Os dois entraram na minha sala e disseram assim: “Nós viemos saber se você vai à Páscoa dos funcionários do banco.” Digo: “Nós vamos ter Páscoa de funcionário?” “Todo ano tem.” “Como todo ano tem?”  “Todo ano tem a missa...” “Ah, bom. A missa de aniversário do banco é outra coisa, nunca foi chamada de Páscoa. Eu vou, sim.” “Podemos botar o seu nome para a comunhão?” “Não pode, não.” “Mas a senhora não é católica?” “Sou,
à minha moda, mas não me bota na comunhão.”: “Por quê?” “Porque eu não vou chegar para o padre e dizer: ‘Olha, eu fiz isso, e isso, e estou arrependidíssima, não vou fazer mais, não.’ É mentira, eu vou continuar fazendo. Não tem nada grave, é tudo bobaginha, mas para o padre é pecado. Eu vou mentir para ele para chegar lá e comungar?” Aí veio o seu Agostinho e disse assim: “Hoje em dia a senhora nem precisa ir confessar com o padre, a senhora pode se confessar direto a Deus.” Eu disse: “Pior! Em vez de passar a perna no padre eu vou querer passar a perna em Deus? Eu prefiro não comungar. Então, quando todo mundo estiver comungando, eu fico lá quietinha pedindo para Ele me perdoar de tudo de errado que eu faço.”

 

P/1 - Dona Gilda, agora me conta da época da escola.

 

R - Eu fiz o primário em Santa Teresa em um colégio atípico, porque era um colégio familiar. As aulas eram dadas na própria residência. A mãe da minha professora principal era a dona do colégio, mas não podia ser a dona porque ela não tinha o diploma. Então ela ficava lá, dava aula para o jardim de infância, que não dependia disso. No primeiro ano, era uma filha dela mais velha que era professora. Segundo, terceiro, quarto e quinto anos eram dados pela filha mais nova, que também era professora. Numa sala só. Meninas de um lado e meninos do outro.

 

P/1 - Já misto.

 

R - É. E todos os anos juntos na mesma sala. Então você vai dizer: “Pô, que bagunça, você não aprende nada.” Aprendia sim, porque ela dava aula para o segundo ano e fazia todo mundo, a primeira, terceira, quarta e quinta prestar atenção. Era obrigatório, ela ficava tomando conta. Não era muita gente também, então com isso você estava sempre revendo a matéria anterior, gravava mais. [Ela] dava um dever para o pessoal do segundo ano fazer e dava aula para o terceiro, aí o quarto e quinto prestavam atenção. Eu, por exemplo, fazia o dever correndo, porque eu queria ouvir o do terceiro. Não era o meu, era mais gostoso ainda. E foi assim que eu estudei. Eu sei que...

 

P/1 - Qual era o nome dessa escola?

 

R - Colégio Menino Jesus. Lá não tinha o ginásio, então quando chegou o ginásio conversa daqui, conversa dali, e falaram muito bem do [Colégio] Bennett. Aí mamãe procurou saber como é que era, saber o preço, e disseram que para entrar lá era difícil, só com indicação de um ex-aluno. Mamãe conhecia uma ex-aluna, falou com ela: “Está tudo bem, eu indico.” Nós fomos preencher a ficha, perguntaram em que colégio eu fiz o primário. Nós dissemos. Todo mundo se olhou, ninguém sabia que colégio era esse. Levamos o certificado, tudo direitinho. Não aceitaram minha matrícula assim, não, me fizeram fazer prova. Já tinha tido a prova de fim de ano e ia ter uma em fevereiro: “Ah, não dá...”

Muita gente que estudou em outros colégios entrou direto. Mas aí você vê como o colégio foi bom, o primário. Deu uma base muito boa, eu passei tranquila, em primeiro lugar na prova, em fevereiro. E não é mérito meu, não. Eu dei coisa no ginásio que eu tinha dado no primário, lá em cima. Então foi uma base boa. Aí no Bennett eu fiz o ginásio e o científico.

 

P/1 - Bennett é ali na [Rua] Marquês de Abrantes?

 

R - É. No Flamengo.

 

P/1 - E como foi essa mudança para um colégio mais formal?

 

R - Foi boa. Era sacrificado para pagar, ainda por cima naquele esquema mais americano do que é hoje. Não era mensalidade, era trimestralidade. Então, com vida apertada, meu pai funcionário público, minha mãe tentando suplementar em casa com costura. Então era meio... Nunca faltou para comida e para instrução; para sapato novo, vestidinho da moda, vai devagar que não dava muito. Mas instrução a gente sempre teve. E lá, apesar de ser de gente mais abastada, você não podia ir nem de roupa de seda, nem de veludo e nem de renda.

 

P/1 - Mas não tinha uniforme?

 

R - Não. Era opcional, quem quisesse usar, usava.

 

P/1 - Era misto o colégio?

 

R - Não, só era misto até a admissão. Depois era só feminino, mesmo. Mas a gente conhecia muita gente interessante ali, era uma verdadeira ONU, porque tinha brasileiro, americano, judeu, protestante, católico... Eu tive uma colega que era húngara, tinha outra búlgara... Tinha gente de tudo quanto era lado. Tinha americana que vinha para cá... E muita gente boa. Foi uma época legal à beça.

 

P/1 - E fez muitas amizades? Vocês saíam também?

 

R - Eu não podia sair porque lá em casa era linha dura, mesmo. Depois de muito tempo eu consegui ir para um piquenique em Paquetá. Mas tinha. E também quando a gente se formou no científico. Tinha aquela agonia de baile de formatura; chegava fim de ano era uma caça aos convites, que era um negócio raro. Cada um que entrava em um baile de formatura, da sua turma, recebia poucos convites. Não dava para sair dando convites para todo mundo, então a gente ficava indo atrás dos convites para ir ao baile.

Na minha turma, que era uma turma meio engraçada, nós resolvemos não querer baile. Nós programamos uma viagem em vez do baile, fomos para a Argentina, para Buenos Aires. Papai não quis deixar: “Filha minha não viaja de avião.” Cheguei lá no colégio e perguntaram: “Você vai viajar?” Eu disse: “Não, papai falou que filha minha não viaja de avião.” “E por que a gente não pode ir de navio?” “Vamos ver?” “Vamos.” Fomos ver, conseguimos um navio ótimo, primeira viagem; era misto, carga e primeira classe. Todo branquinho, bonitinho. Fomos tratados assim, a pão-de-ló.

 

P/1 - Aí o seu pai deixou?

 

R - Papai disse: “Eu já disse que não vai de avião!” “Agora todo mundo resolveu ir de navio para eu poder ir.” Aí ele descalçou. Foi tudo preparadinho, feito em casa, mas tudo preparado para eu ir. Mamãe ainda botou uma jóia no prelo, daquelas de antigamente, para complementar. E lá fomos nós. Acho que foram cinco dias de navio para lá, cinco dias para cá, e ficamos uns dez dias lá, por aí.

 

P/1 - A Argentina era o máximo, né?

 

R - É. E a gente fazia um sucesso. A gente não podia sair sozinha.

 

P/1 - Conta. Aí só foram as meninas?

 

R - E as professoras.

 

P/1 - E as professoras.

 

R - Uma das meninas levou a mãe e uma amiga da mãe. Mas lá, as bem comportadas, a professora deixava sair. Foi aí que eu conheci boate.

 

P/2 - E como foram esses dias na Argentina?

 

R - Foram ótimos, a gente passeava muito.

Foi tão engraçado. Era na época do Perón ainda, então você não via gente jovem na rua. O pessoal, as famílias mais tradicionais fizeram uma certa guerra. Ficavam em casa, se reuniam nas casas, mas não davam o cartaz de ficar circulando. E eles faziam o impossível para agradar os outros, então nós tínhamos ônibus à disposição, passeios ao rio Tigre - eles enchiam a boca com o rio Tigre. Quando a gente olhava tinha cada decepção, porque não era o que a gente imaginava. Aquela Ciudad de los Niños, que quando a gente chegava era a coisa mais linda do mundo. Um bando desse tamanhinho. Ruazinha com sinal de trânsito... Em qualquer época do ano que você ia, “los niños están en vacaciones”, então você não via os niños. Via os armários cheios de roupas bonitas, mas cadê os niños para usar as roupas? Nada.

A gente passeou muito. Teve muito passeio proporcionado por eles.

 

P/1 - E a boate?

 

R - A boate era uma beleza. A gente não fazia nada de errado, não. Ia para a boate e dançava a noite inteira, depois voltava para o hotel. A última noite que nós passamos lá, éramos quatro num quarto. Éramos chamadas as quatro grandes, porque éramos as quatro mais altas. Hoje em dia eu tenho a altura normal, mas naquele tempo eu era considerada alta. Quando eu chegava na sapataria para comprar sapato, eu morria. Me perguntavam: “Qual o sapato?”  “É aquele ali.” “Que número?” Eu falava baixinho: “39.” E aí o cara gritava. Tinha um girau em cima, e o cara gritava: “Desce um número 39.” Eu só faltava entrar embaixo da cadeira e ir embora para a rua. E hoje em dia o pessoal está muito mais alto. Se não calçar 39 cai, tem que ter base para sustentar a altura.

 

P/1 - Na verdade, ninguém percebia. É mais aquela coisa que cada um tem.

 

R - Nós éramos chamadas as quatro grandes porque éramos as mais altas. Na última noite nós fomos para Olivos. Tinha umas boates ótimas, famosíssimas. Dançamos a noite inteira. Chegamos no hotel às cinco e pouco da manhã para levantar às sete e pouco. Quando nós voltamos para o navio para vir embora para o Rio, era o mesmo navio, com a mesma tripulação. O comandante botava a mão na cabeça e dizia: “Vocês têm que engordar na viagem. É a primeira vez que eu vejo alguém ir para a Argentina e emagrecer em Buenos Aires. Não é possível.” Porque com tanta papa frita, com pollo e carne, todo mundo acabava engordando, mas a gente não parava.

Ninguém podia andar sozinha. Tinha que andar sempre em grupinho, porque o que tinha de mão boba lá não era brincadeira. E eles diziam que conheciam brasileira pelas pernas.

 

P/1 - Eram paqueradores os argentinos.

 

R - Olha, mão... Vinha mão de tudo que era lado. Era brabo, mas aqui também não era muito mole.

 

P/1 - Aqui também não?

 

R - Não. Você ia para o cinema, era um inferno. Acontecia de tudo o que você possa imaginar. De repente, você sentia um negócio na perna e era alguém passando a mão. Isso e uma série de outras coisas. Hoje em dia está tudo mais fácil, né, então estão pegando crianças.

 

P/1 - E as paqueras, dona Gilda? Como era?

 

R - Era muito engraçado. Paquera na missa: “Esse fulano está indo na missa das oito.” A gente ia para a missa das oito. E o padre de Santa Teresa era o Monsenhor Nabuco, era descendente dos Nabuco. Importante. Ele era durão, reclamava de tudo. Na hora da coleta, ele ia com aquele saquinho de veludo, sacudindo. Quando a pessoa punha o dinheiro, ele olhava para ver quanto era: “Você da próxima vez dê pelo menos um cruzeiro!”

 

P/1 - Ainda reclamava!

 

R - Quando entrava cachorro na igreja, ele parava a missa onde estivesse para mandar tirar o cachorro. Quando o cachorro não saía, ele começava: “O dono do cachorro está aqui dentro! O dono que se retire para sair o cachorro.” E ficava a gente esperando para tirar o cachorro de dentro da igreja. A rapaziada entrava e ficava em pé lá no fundo. Ele de repente parava e mandava todo mundo sentar. Enquanto não sentasse, ele parava a missa.

 

P/1 - Aí nessa missa movimentada dava para paquerar bastante.

 

R - Dava. Quando ele falava: “Quem está em pé aí, vem sentar”, a gente aproveitava para olhar quem estava lá. E Santa Teresa só tinha bonde, mas era assim… Horário do bonde: passa às 9:22. Era uma empresa inglesa, se não me falha a memória, chamada Ferrocarril Carioca. Você podia ir para a parada naquele horário porque naquele horário passava o bonde, então se você paquerava alguém: “Qual é? Do Santo Antônio, Maria Zacarias? “Ele está descendo do bonde tal.” Bastava você pegar aquele bonde. Depois a gente formou a turminha do bonde; era uma turma que subia sempre junta e descia sempre junta.

 

P/1 - De meninas e meninos? E as paqueras?

 

R - De meninas e meninos. O pai desse Ricardo Waddington, da televisão, era da nossa turminha.

 

P/1 - Era bonito?

 

R - Não é que fosse bonito… Era bonitinho, tinha o olho meio puxado, cabelo em pé, liso. E ele era muito engraçado, ele só chamava as namoradas de ‘macaca’. Ele falou para mim: “Gilda, amanhã eu só vou encontrar com você em tal lugar, assim, assim...” “Você vai mudar?” “Não, é que eu estou com uma ‘macaca’ nova. Eu vou descer antes para falar com ela, depois a gente se encontra no bonde tal.” Dava tudo certinho.

 

P/2 - Não tinha perigo no bonde naquela época?

 

R - Nenhum. Olha, eu já estava no banco, eu ia trabalhar com anel, com jóia. Com cordão. Nunca tive problema com pulseira. A gente saía toda alinhada, ia trabalhar toda pimpolhinha, toda arrumada, ninguém metia a mão, não. Impressionante. Isso é uma pena que a gente perde. Hoje em dia, o que adianta? A gente tem jóia e está no cofre do banco, e você reza para o banco não ser assaltado. Mais vale a gente botar no leilão, se desfazer delas e curtir o dinheiro. Mas era muito bom.

 

P/1 - E seu primeiro namorado?

 

R - Ih, filha, demorou muito.

 

P/1 - Demorou muito?

 

R - Com essa linha dura, demorou muito. Eu já tinha dezoito anos. Tinha muita amizade, de paquera, de ficar conversando, mas imagina, sair para ir ao cinema era proibido. Um dos primeiros namorados que eu tive, fiquei danada, porque ele subiu para conversar comigo, no portão de casa... E para conseguir dobrar papai... Eu já trabalhava fora e tudo. Foi um inferno. Depois, quando eu cheguei em casa, mamãe disse: “Seu pai achou ruim porque o rapaz veio falar com você de camisa” “Queria o quê? Que pusesse paletó e gravata para falar comigo?” Você não é a rainha da Inglaterra, nem nada. Para que tudo isso? Perguntei: “E como ele sabe que ele veio de camisa?” “Ele olhou.” “Olhou de onde?” “Ali do banheiro de empregada” “Ah, subiu no vaso para me olhar lá fora! Que ridículo!” A janelinha era alta. (risos) Fiquei danada da vida.

Aí eu saía, passeava para lá, para cá... E [a gente] se via no clube. Nessa altura a gente já tinha ido ser sócia do [Clube] Ginástico Português, que era no centro da cidade. Para você ter ideia, a gente ia para baile de formatura com aqueles vestidos enormes, com aquelas anáguas engomadas. De bonde. Saltava de bonde no Largo da Carioca e saía andando a pé até o clube. Aquela turma toda, numa boa. Voltava no bonde [em] que os operários estavam indo para as obras, então a brincadeira da gente era sentar no banco que ficava de frente para todos os outros, que a gente chamava de cara-dura. Você ficava ali, todo mundo olhando para você. Então a distração da gente era bocejar e contar quantos que bocejavam. Quem conseguisse mais gente bocejando, ganhava.

[A gente] chegava em casa às cinco e tanto. Só saía depois que o pessoal da orquestra fechava o estojo do violino, porque sei lá se ele se arrependia e tocava depois. Ficava até a última gota.

 

P/2 - Em que época era isso?

 

R - Em 1947, até 50 e bastante... Em 57 minha irmã casou. Ela casou muito cedo. 56 aliás.

 

P/1 - Sua irmã é mais velha?

 

R - Mais nova. Ela casou em 56, e ela era quem estava puxando mais para ir para o baile. O namorado dela era do Ginástico também. E eu já não estava com o mesmo interesse que tinha antes.

 

P/2 - Para ir para o baile o pai deixava?

 

R - Mas ia mamãe junto. Nem a vizinha, a vizinha que era de século e meio, não adiantava. Um de casa tinha que ir junto.

 

P/1 - Essa autoridade do seu pai era balanceada pela sua mãe?

 

R - Mais ou menos. Muita coisa a gente fazia escondido dele e ela sabia. Eu fiz uma ponta em um filme nacional no Clube. Papai morreu sem saber. E eu não tive coragem de ver o filme.

 

P/1 - Mas qual é o filme?

 

R - Chamava “Luzes nas Sombras”.

 

P/1 - Mas nunca viu o filme?

 

R - Eu não. Não tive coragem. E foi tão ruim também, que passou uma vez e nunca mais.

 

P/1 - E como foi a participação?

 

R - Eu estava na piscina quando foram gravar umas cenas lá e me chamaram. Foi só de extra. Mas eu cheguei em casa com uma maquiagem que parecia que eu era uma índia pele-vermelha. Mamãe olhou e disse: “O que é isso?” “Não, não é nada.” “Mas se seu pai sabe disso?” “Ele só vai saber se você contar.”

 

P/1 - E era de biquíni na piscina?

 

R - Que biquíni! Não se usava biquíni, não.

 

P/1 - O que se usava? Maiô?

 

R - Era maiô de elastex. Já era um avanço. Quando eu era mais novinha, era maiô de lã, então você entrava na água e o troço ficava pinguço assim, caindo, com o peso da água. Aquilo chupava água, era horrível. Aí veio o elastex. Parecia um cetim, mas era um elástico, então você entrava na água toda arrumadinha, saía com aquilo no corpo certinho. Depois veio o maiô sem alça, que já foi outro avanço. Amarradinho assim [entre os seios], com barbatana para não cair. Depois é que veio [o maiô de] duas peças. A primeira duas peças que eu vi foi da filha da Morineau, que morava lá no prédio onde tinha piscina. Ficava todo mundo assim... Eu me lembro até hoje, era azul claro.

 

P/1 - Chamou a atenção.

 

R - É, mas era super discreto, e ela era discretíssima também. A gente ficava naquele olho comprido, pensando quando a gente ia poder usar um daqueles.

 

P/1 - E seu pai controlava roupa?

 

R - Não chegava a controlar roupa. Mamãe controlava. Tinha aquela blusa cigana que era assim...

 

P/1 - Mais decotada?

 

R - É, que vinha aqui no ombro. Eu nunca consegui ter uma que o decote passasse daqui [aponta para a região acima dos seios]. Nunca.

Duro era o irmão da mamãe, lá de São Paulo. A gente ia para São Paulo visitar, ele dizia: “Abaixa aí.” A gente tinha que abaixar para ver se aparecia alguma coisa, senão ele mandava trocar de roupa.

 

P/2 - A senhora é muito extrovertida e teve uma educação muito rígida. Como a senhora explica isso?

 

R - É vingança. (riso) Porque com isso eu aprendi a lutar muito cedo. Eu argumentava com papai, eu perguntava. Eu não era de acatar ordem quieta, não. Minha irmã acatava. Olhava, ficava quieta... No final, ela começou a fazer o que queria. E sem brigar. E eu queria brigar. “Não pode fazer isso.” “Por quê?” “Porque não.” “‘Porque não’ não é resposta…” “É que se for no clube toda hora vai virar pão-de-ló de clube.” “O que é pão-de-ló de clube?”: “É que tem todo dia e ninguém respeita.” “Não é assim, não” - eu argumentava - “respeito a gente tem pelo comportamento da gente, não porque está lá ou não está.” E saía aquele pau danado porque frequentemente, eu como era a mais velha, ia negociar.

Eu tenho um gênio terrível. Com jeito você faz de mim o que quiser, mas não vem de mau jeito que eu não faço nem aquilo de que eu gosto. E eu nunca escondi isso de ninguém. Aí ficava aquela discussão toda durante muito tempo, e a gente meio-dia em ponto tinha que estar em casa, o que adiantava? Dizia: “Tá bem, pode ir!” “Tá bem, pode ir, mas agora eu não quero mais.” Não ia. Minha irmã ficava para morrer.

Um dia eu disse para ela: “Vai acabar essa fofoca.” “Pelo amor de Deus! Hoje eu quero ir de qualquer jeito!” “Mas hoje eu resolvo isso tranquilamente.” Cheguei para papai e disse assim: “Você vai querer cigarro, cerveja? Quer que traga alguma coisa para você?” “Por quê?” “Porque a gente está saindo para o clube agora, não pode atrasar; você quer cigarro, cerveja, dá o dinheiro que a gente traz.” Olhou o cigarro: “Não, não quero cigarro, nem cerveja. Olha, meio-dia aqui, hein? “Tá bom, até logo.” E fomos embora. Nunca mais eu perguntei se podia; partia do pressuposto de que podia. Só perguntava se queria cigarro e cerveja. E aí fui aprendendo a me defender também.

 

P/2 - E ele foi melhorando também?

 

R - Não. Quando minha irmã casou no civil... Casava no civil em um dia, no religioso no outro. Então, casou no civil, está casado. Meu cunhado quis sair com ela para escolher um presente para ela, e papai quis brecar.

 

P/1 - Ela já casada no civil.

 

R - Já casada no civil. Disse: “Mas papai, pelo amor de Deus, que ridículo. Você não vê que ela já está casada com o cara? Se ela sair daqui, viajar, for embora com ele, não importa, está casada com ele. Você vai achar ruim de quê? Que coisa ridícula.” Ele disse: “Pode ir, mas na hora do almoço quero todo mundo aqui em casa.” (risos)

 

P/1 - Dona Gilda, e ela casou primeiro?

 

R - Casou primeiro porque eu jurei que nunca ia casar cedo. Nós somos bem diferentes em termos de gênio. Vimos os mesmos exemplos e cada uma reagiu de um jeito.

Eu via gente que vivia uma vida infernal com o marido e não separava porque não tinha do que viver. Isso era um horror. Às vezes, profissionais liberais. A lei era diferente também. Eles conseguiam escamotear as coisas; a pensão ou não saía, ou era ridícula. Dependia muito do advogado que você arrumasse. Então eu via essa história toda: “Não pode fazer isso, não pode fazer aquilo...” Passei a minha juventude inteira cheia de “não pode”. [Pensei:] “Eu não quero ficar dependendo de ninguém, porque na hora que eu resolver pisar nos cascos eu tenho condição, então realmente eu não quero casar cedo.”

Realmente não casei cedo, casei com 28 anos, mas também viajei à beça, dancei até dizer chega. Sempre gostei de dançar. Até uns anos atrás, eu fazia aulas de dança de salão. Era bom para caramba. A gente tinha um time de vôlei lá no banco e jogava todo sábado num clube ali perto do aeroporto. Depois a gente passou a montar uma rede lá em Ipanema, e a gente ia todo sábado e todo domingo, se chovesse ou fizesse sol. Já tinha um porteiro que guardava a rede para a gente e aquelas bases de fixação. A gente dava um trocado para ele, fazia uma vaquinha, ele guardava, a turma chegava mais cedo e jogava vôlei até duas e tanto da tarde.  

 

P/2 - Não tinha uma pressão familiar para casar cedo?

 

R - Olha, não. Não chegou a ter, não. Depois, a minha irmã teve uma vida mais sacrificada. O fato de eu trabalhar fora... Papai também não queria que eu trabalhasse fora. Queria que eu fizesse Arquitetura, porque o que eu queria fazer, que era Engenharia, ele dizia que era profissão de homem. No final, acabei trabalhando com uma engenheira, depois fui chefe dela, que se formou quando eu tinha dois anos. Então: “Engenharia é profissão de homem. Imagina!” Mas eu queria fazer era Engenharia Mecânica, não era construção civil: “Tem que fazer Arquitetura.” “Arquitetura eu não quero.”

 

P/1 - Que era mais profissão de mulher.

 

R - É, arquitetura era mais perfumaria. “Senão, não faço nada. Quero trabalhar.” “Filha minha não trabalha fora.” “Tudo bem.” Ele saía. Nessa altura eu já tinha bicicleta. Punha meu maiô, montava na bicicleta e ia para o clube. Meio-dia, ou a hora que terminasse a brincadeira lá, eu voltava para casa, e ia ajudar nas coisas de casa. Um dia contaram para ele que me viram de bicicleta uma hora da tarde, voltando do clube. Aí ele subiu nas tamancas; papai, quando ficava aborrecido, tremia isso aqui. Ficava uma onça, falava que filha dele não fazia isso. Eu dizia: “Ué, o que eu quero estudar você não deixa. O que o senhor quer que eu estude, eu não gosto. Eu quero trabalhar e o senhor fala que filha minha não trabalha fora. Quer que eu faça o quê?” “Como você vai trabalhar fora se nem datilografia você sabe?” “Me dá o dinheiro que eu vou me inscrever agora.” Aí peguei ele na palavra, fui. Foi aí que eu comecei a trabalhar, porque quando eu estava terminando o curso de datilografia...

 

P/1 - Aí a senhora fez o curso de datilografia.

 

R - Não cheguei a ter o certificado, não.

 

P/1 - Mas conta para a gente onde era esse curso.

 

R - Na Rua Sete de Setembro, em um lugar chamado Casa Edson. Naquelas máquinas antigas, pesadonas.

 

P/1 - Era famosa.

 

R - Era bem conhecida.

 

P/1 - Era a mesma casa do piano depois?

 

R - Não.

 

P/1 - Era outra Casa Edson.

 

R - Era só isso, mesmo. Aí papai arrumou de eu fazer um teste na Comissão Mista [Brasil-EUA]. Porque a ideia dele... Ele era do Ministério da Fazenda; na Comissão Mista no Ministério da Fazenda ele ficaria de olho no que eu estivesse fazendo.

Fiz o teste. O inglês do colégio ajudou muito. O inglês do Bennett era muito bom. Não sei, parece que não está o que era naquele tempo, mas com o inglês do colégio eu consegui até trabalhar lá na parte da presidência da Comissão Mista, que era brasileira de um lado e americana do outro. Eu conseguia me entender com os americanos direitinho. Datilografava bem em inglês, exceto duas palavras; eu não conseguia escrever o of de jeito nenhum; quando eu ia bater o of, eu já parava, senão eu escrevia “fo”. E before eu só punha “febore”. (risos) Nessas eu tinha sempre que dar uma meia trava, mas o inglês satisfez tranquilamente.

 

P/1 - Dona Gilda, antes de chegar nesse primeiro trabalho, vamos voltar um pouquinho para sua vida pessoal. Conta um pouco só do seu casamento. O que a senhora lembra do dia do seu casamento?

 

R - Choveu. (risos) Eu estava sossegada. Meu tio brincou: “Parece que você casa todo dia.” Minha irmã ia entrar com a filha dela, minha sobrinha, com a aliança, na frente. E minha irmã não teve tempo de terminar a roupa da menina que a minha mãe tinha feito. Nessa altura, ela já tinha três filhos, então não dava conta. Ela disse para mamãe: “Imagina que eu não consegui nem fazer a bainha do vestido.” Aí papai foi lá pegar o vestido. Eu já toda arrumada, de cabelo, unha feita - só não estava de vestido de noiva -, sentada, fazendo bainha do vestido da menina.

Aí casei. Nunca morei fora do Rio. Embora ele fosse militar, e de vez em quando tivesse que sair, eu nunca morei fora do Rio. Continuei trabalhando normalmente. Ainda veio com uma história: “Tem que parar de trabalhar.”

 

P/1 - Ainda tentou?

 

R - Tentou, mas depois que começa entrar dinheiro dos dois lados é muito difícil alguém desistir. Acha bom. E aí eu toquei minha vida, trabalhando com a graça de Deus.

 

P/2 - Qual o nome do seu marido?

 

R -  Guilberto [com desdém].

 

P/1 - Onde a senhora conheceu?

 

R - Em Friburgo, num baile de carnaval. Foi o último baile de carnaval. Depois não teve jeito de ir para carnaval de novo: “Porque vai dar encrenca, porque se alguém passar a mão...” “Pô, quando eu era enxuta, quando conheci você no baile, ninguém me passou a mão. Vai passar agora?” Então foi bom ter aproveitado bem antes, porque aí o negócio foi...

 

P/1 - E aproveitou muito antes de casar? Viajou muito?

 

R - Aproveitei muito, com a graça de Deus. Viajei.

 

P/1 - Para onde? Viajava sozinha?

 

R - Viajava para perto. Tinha excursão e a gente ia com a excursão, com o pessoal do banco. Teve uma vez que me deu o desplante de ir para Buenos Aires em uma sexta-feira, de avião, para voltar no domingo. Só para ver um jogo de futebol do Brasil com a Argentina. E a gente perdeu. Era bom, mesmo.

 

P/1 - E gostava de futebol assim?

 

R - Gostava. Papai comprou cadeira no Maracanã quando lançaram. Papai comprou uma, titio comprou outra, e os dois juntos compraram uma terceira. Em um fim-de-semana eu ia, no outro minha tia que ia. A gente revezava. Até aquele maldito 1950, quando as duas tinham vontade de ir, minha tia e minha mãe. Minha mãe nunca tinha ido. Então papai e eu fomos para a arquibancada com um casal de primos bem mais velhos que eu, e mamãe e minha tia foram para as cadeiras com o meu tio. Chegamos lá dez horas da manhã, com almofadinha na mão, bolsa com laranja lima descascada, água e tudo, para ficar sentada na arquibancada e não perder o lugar. Para depois ter aquela encrenca toda.

 

P/1 - Isso era o jogo com o Uruguai? A derrota contra o Uruguai?

 

R - É. Aquele.

 

P/1 - E o Maracanã ficou mudo, mesmo?

 

R - Ficou. Foi horrível. Teve uma hora que eu tive vontade de bater em uns gaúchos que estavam na frente; eles estavam com umas piadas que eu não gostei. Papai ficava me segurando. Eles estavam lá com umas piadas que eu não gostei, e eu comecei a reclamar. Papai ficava: “Cala a boca.” (risos)

 

P/1 - É marcante o silêncio.

 

R - É. Até hoje eu não posso ouvir aquela música “Paraíba masculina, mulher macho sim senhor”. Tocava muito no Maracanã. No intervalo, ficavam tocando muita música, então era divertido. E marca. Música, cheiro... Tudo isso reporta muita coisa.

 

P/1 - Me conta uma lembrança boa dessa época.

 

R - Foram muitas, só que a gente não sabia que era tão bom. Hoje em dia a gente olha para trás e fala: “Puxa, mas que maravilha.”

 

P/1 - Conta uma assim, pensando hoje. Uma que a senhora gosta.

 

R - Essa ida para a Argentina foi o máximo porque foi a primeira sensação de uma certa liberdade que eu tive. Aquilo foi muito bom. E depois, ir trabalhar fora foi uma maravilha.

 

P/1 - Então me conta do seu primeiro emprego. Como foi?

 

R - Foi na Comissão Mista. Eu fiz esse teste, passei, e fui trabalhar na mecanografia.

 

P/1 - O que é mecanografia?

 

R - Era uma sala um pouco maior do que isso daqui, com dezessete mesas, com uma máquina em cima de cada uma, e todo mundo mandando ver. Quem não batesse vinte páginas por dia, naquela máquina, com carbono, com tudo, estava mal de vida, acabava sendo dispensado. E era muito trabalho, tinha turma diurna e noturna. Virava 24 horas, então era um trabalho infernal. Mas todo mundo satisfeito porque ganhava bem ali, fazia hora extra de noite. Foi muito bom, mas foi muito cansativo. Nos primeiros dias eu chegava em casa, acabava de jantar, a gente sentava para ver uma televisão, qualquer coisa, de repente eu estava dormindo, sentada na poltrona. Eu chegava com as costas doídas porque você ficar esse tempo todo em cima de uma máquina, daquela de ter que botar força no braço mesmo, para tirar oito cópias... E o pessoal da revisão ali era um porre; quando tinha um erro, eles mandavam apagar no original cada cópia, e consertar cada uma na máquina. Então você começava a inventar esquema para botar papel de carreirinha, para consertar tudo de uma vez. Não podia consertar nada na mão. Era enjoado, porque as mais antigas tinham uma produção enorme, mas o conserto era a gente que fazia. Então a produção delas era grande e a nossa era pequena. Mas se fosse computar o número de páginas que a gente tinha recuperado, ia longe. Agora, as mais rápidas, as mais antigas, iam para a máquina elétrica, que era grandona também, mas usava um papel chamado plastiplate, que era, para reprodução, melhor do que mimeógrafo. Aquilo ali era beleza, você tinha uma borrachinha própria, passava uma tintinha em cima, ele ia de novo. Mas até você chegar lá... A gente tinha que pegar extenso para corrigir. Vocês conheceram estêncil?

 

P/1 - Sim, mas conta para a gente...

 

R - Era uma fibra coberta com um tipo de cera. Quando o tipo da máquina batia, tirava a cera no contorno da letra. E era por aí que a tinta passava e imprimia no papel. E era uma máquina trambolhona, cheia de tinta preta, tipo graxa. Você encaixava o estêncil ali e vinha vindo para baixo assim, lisinho, agarrado naquela parte. Era tipo uma cinta com a tinta. E ia na mão, tirando aquelas cópias todas.

O plastiplate era uma máquina que eu não me lembro, que eu não vi funcionar. Na minha sala de mecanografia ainda tinha um mimeógrafo. Esse era enjoado, porque às vezes, na hora de bater, alguém engolia uma palavra, duas, faziam a gente apagar duas linhas e sair espremendo letrinha para recuperar o estêncil. Às vezes era mais rápido você pegar e datilografar a página inteira de novo. Como eu tinha base de inglês e depois a chefe da seção saiu de férias, puseram uma outra pessoa de fora no lugar. E disse: “Por que sua produção está baixa?” “Não está baixa, é que eu passo o dia inteiro corrigindo trabalho.” “De quem? Seu?” “Não, dos outros.” “Quê?” Aí mudaram a regra do jogo. Minha produção subiu e com o inglês que eu tinha passei para a elétrica, já melhorou um bocado. Depois, quando faltava revisor, eu ia para a revisão também. Uma coisa boa que eu aprendi no colégio também foi português, porque era interessante, era puxado e era prático. Isso ajudou bastante.

 

P/1 - O seu pai que fez esse contato para o seu primeiro emprego?

 

R - É. Porque ele podia ficar olhando. Ele ficava pertinho, trabalhava lá.

 

P/1 - Era perto do trabalho?

 

R - Ele trabalhava no mesmo prédio. Ele trabalhava no 13º andar. Eu comecei no 12º, depois passei para o décimo, depois fui para o 13º. Então ele estava sempre ali.

 

P/1 - Isso no prédio do Ministério da Fazenda?

 

R - É. A Comissão Mista era lá. E o banco começou lá. O meu departamento ficava no que era a moradia do administrador do prédio, então tinha armário embutido, era cheio de gracinha. A tesouraria era em uma armário embutido, no corredor. É o fim, né?

A gente recebia em um envelope horrível, de papel listradinho, bem vagabundo, com o dinheiro todo contadinho lá dentro. No dia do pagamento, eles chamavam; tinha um posto, um balcão de descer, no armário embutido, a gente chegava ali, assinava a folha e recebia o envelope com o dinheiro. Punha na bolsa e ninguém roubava.

 

P/1 - E a senhora almoçava com o seu pai? Como era o horário de trabalho?

 

R - Não. O horário era tempo integral. Chegava de manhã, tinha horário de almoço, e depois saía lá pelas cinco e meia, seis horas. Eu frequentemente saía bem depois disso. Eu gostava muito de levar comida de casa, a gente era meio marmiteiro. Hoje, ali em volta do Ministério da Fazenda tem muito restaurante; antigamente, não tinha tanto. E a gente também não ganhava para bancar vida de restaurante, não. De tarde a gente fazia um lanche no 13º. Tinha um café grande. Fazia sanduíche, tinha café, refrigerante. A gente fazia um lanche ali.

 

P/1 - E voltava com o seu pai?

 

R - Não. Às vezes a gente ia junto, mas na maior parte das vezes eu ia primeiro e ele ia depois. Meu chefe saía de tarde e voltava tarde, então ele voltava e aí é que ele ia pegar o serviço para pôr em dia. Aí eu não conseguia sair cedo, não. Às vezes eu saía às sete horas, chegava em casa exausta. Também, andava aquele pedaço ali, pegava o bonde. Depois que subia no bonde, em vinte minutos estava em casa.

 

P/1 - E como eram as roupas para ir trabalhar? Tinha poucas mulheres, né?

 

R - Lá na Comissão Mista tinha bastante mulher.

 

P/1 - Brasileiras também?

 

R - Brasileiras, principalmente nessa parte de datilografia e de secretariado. De técnico realmente era mais homem. Tinha umas coisas... Tinha um americano chamado Philip Glassner. O homem era danado. Primeiro, morenão; você não dizia que era americano. Aprendeu português de tal maneira que ele pegava erro de português, feito por brasileiro. É mole?

 

P/1 - Para chatear.

 

R - Não.

 

P/1 - Para corrigir, mesmo.

 

R - Para corrigir, mesmo, porque eles faziam o projeto junto com os brasileiros, e saía uma versão em inglês e outra em português, do mesmo projeto. Quando ele recebia a versão em português, ele lia todinha também. E marcava: “tem erro aqui, aqui e aqui.”  

 

P/1 - E ele falava bem?

 

R - Falava muito bem, direitinho. Ele tinha uma fama igual à da novela, da Maldição do Faraó, porque diz que teve uma americana que veio na primeira leva, para ser secretária da parte dos americanos, e se apaixonou por ele; ele deu um fora nela e depois ela ficou perturbada... Umas histórias assim, fantasiosas.

Quando eu fui trabalhar lá na presidência eu era novinha ainda, tinha dezenove anos, eu acho, beirando os vinte, aí aqueles americanos vinham lá, conversavam, eu perguntava alguma coisa, pedia alguma informação. Um dia ele me ouviu falando coisa de baile no telefone, e me disse assim: “Você vai ao baile? Que baile?” “Baile de formatura.” “Eu nunca fui num baile desses aqui no Brasil.” Ele não era novinho, não. Também não era velho. “Eu queria muito ir, você não arruma um convite para mim?” “Arrumo, mas é assim: um cavalheiro e duas damas. Eu vou sempre com mamãe - avisei logo -, então se o senhor quiser ir...” “Quero, sim.” Aí foi para o baile comigo. E com mamãe. Olha, no dia seguinte ele fez o favor de avisar que ia chegar mais tarde, porque tinha ido num baile de formatura comigo e tinha chegado tarde.

 

P/1 - Ele anunciou.

 

R - Ah, um tal de telefonar... Eu muito nova, todo mundo se achava na obrigação de tomar conta de mim, a querer me alertar: “Tome cuidado, porque ele...” “Foi com a minha mãe, ela foi junto; me levou para casa com minha mãe, também. Qual o problema?”  

 

P/1 - E ele não deu uma cantada? Não teve...

 

R - Nada, nada. Depois a gente teve um churrasco também, que teve música de carnaval, e ele tinha um fôlego miserável. Tocava lá no meio das músicas um frevo, eu já não aguentava mais, já estava com a língua de fora, e o homem queria continuar pulando frevo. Consegui escapar. Mas nunca deu uma cantada qualquer.

 

P/1 - Ah, eu acho que cantava.

 

R - Não cantava, não. Foi cem por cento.

 

P/1 - Teve carnaval, o baile...

 

R - Pois é, mas ele viu. Ele devia saber com quem ele mexia. Não fez nada. Depois, com o tempo, começou esse negócio de cantada no trabalho.

 

P/1 - E tinha muita cantada?

 

R - Teve uma época que teve bastante. Mas isso é que eu acho engraçado; hoje em dia se fala em assédio sexual, mulheres reclamando porque chefe faz isso, faz aquilo, mas a gente tira de letra numa boa...

 

P/1 - Eram cantadas bonitinhas ou eram cantadas mais grosseiras? Como eram as cantadas?

 

R - Ah, sei lá. Tipo “vamos almoçar”, com uma cara meio estranha. Teve um que veio assim e falou para mim: “A senhora não quer almoçar comigo?” O cara era casado e começava: “Eu sou casado, mas minha mulher é meio doente, minha mulher é nervosa...” Você podia engatar uma segunda, porque aí vinha uma cantada, mas era direto. Você reconhecia antes e já entrava na defensiva. Eu fiquei assim, meio apanhada de surpresa, e falei: “Sim, senhor, Tá bom, amanhã está bem.” Quando chegou no dia seguinte, eu telefonei cedo: “Olha, estou com um serviço urgente aqui, e não vou poder ir, não senhor.” “Mas por quê?” “Não posso, não; não vou poder, fica para outro dia. O senhor me desculpe.”

Com o tempo ele ficou quieto, mas eu comecei a evitar. Depois ele me passou um bilhetinho todo em inglês falando de cotovia, rouxinol, não sei o quê... Eu disse: “Aí tem coisa.” (risos) Nunca mais toquei no almoço e comecei a fugir, tirar o corpo fora. Um dia eu fui obrigada a ir à sala dele para pegar uma rubrica dele num documento. Eu peguei a rubrica, já ia saindo correndo, quando ele pegou e disse: “Senta aí que eu quero conversar com a senhora. Eu convidei, acho que a senhora levou para o outro lado, mas não tinha maldade nenhuma. Eu costumo fazer isso, costumo levar a minha secretária para almoçar, costumo levar fulana para almoçar e não tem mal nenhum.” Eu disse: “Então vamos fazer o seguinte: o dia que o senhor convidar as duas para almoçar, o senhor me chama que eu vou junto. Porque eu já sou muito visada aqui dentro. Se eu for almoçar com o senhor no restaurante da esquina 30% do banco vai ver, aí vai ficar aquele ti-ti-ti: ‘E a Gilda estava almoçando não sei com quem.’ Meu nome sempre foi muito doce para entrar em certas coisas. Se formos para um restaurante mais distante para evitar esse tipo de fuxico, alguém vai ver e vai ser pior ainda: ‘Foram almoçar lá longe.’ O senhor me desculpe, mas esse risco eu prefiro não correr e acho legal o senhor não correr também. No dia que o senhor chamar dona fulana e dona fulana para almoçar, me chama que eu vou junto.”

Você chamou? Nem ele. E assim a gente tira de letra. As cantadas que você ouve contar de hoje em dia e tudo... Para o começo, hoje em dia as coisas estão mais fáceis, todo mundo acha que pode cantar todo mundo, mas tem muita maneira para você tirar o corpo fora.

 

P/2 - E por que a senhora era muito visada?

 

R - Porque eu era novinha, eu era... Eu me achava um bagulho, mas hoje em dia eu acho que eu era certinha. Eu me dava bem com todo mundo; todo mundo me procurava, a gente passeava junto, tinha aquela turminha toda... Então fica visada. Eu fui secretária do presidente, novinha ainda, e ele me passou para as reuniões da diretoria. Eu fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Então, quando ele saiu, veio outro presidente e trouxe um secretário particular.

 

P/1 - Isso já no banco.

 

R - É, no banco. Trouxe um secretário particular, então eu passei a só ficar com a parte da diretoria, sendo que a diretoria era toda no mesmo prédio e dava expediente integral. No Conselho de Administração você tinha gente até de fora do Rio, então as reuniões eram uma vez por semana, e se não houvesse quórum passava para a semana seguinte. A diretoria às vezes tinha duas, três reuniões na mesma semana, porque surgia um problema e estava todo mundo na casa… O superintendente ou o presidente me ligava, diziam: “A senhora convoque uma reunião para tantas horas para discutir isso.” E lá ia eu de bloco, papel, um monte de lápis, para a reunião. Tinha um volume de serviço maior, só que eu tinha um salário menor do que a que secretariava o conselho, porque existia o cargo de secretária do Conselho de Administração. Antes ela fazia conselho e diretoria, depois a diretoria passou para mim, então o meu salário era mais baixo. Na época do Roberto Campos, quando fizeram uma reestruturação no banco, criaram vários cargos em comissão, até mesmo porque os técnicos do banco já estavam sendo alvo de convites tentadores de fora. Empresas que chegavam lá no banco, viam o preparo do pessoal, o conhecimento que eles tinham, e começavam fazer ofertas, quase que virando leilão. E uma das maneiras que tinha de segurar era melhorar o salário. Como era difícil, houve a criação de cargo de setor, de seção. O [Jayme] Magrassi acabou com um monte, porque disse que era “chefe de eu mesmo”, que não podia... E nessa ocasião o chefe de gabinete da presidência foi falar com o Roberto Campos. “A dona Gilda faz o mesmo serviço da dona Oneida e tem salário diferente. Não podia aproveitar para regularizar?” Então incluíram a proposta de criação do cargo de secretária da diretoria. E eu dava um duro desgraçado; foi a época em que eu tive máquina de escrever em casa.

 

P/1 - Mas eu queria só retomar uma parte, só para a gente parar e retomar...

 

P/2 - Eu queria fazer uma pergunta...

 

R - Mas essa é engraçada, não é oficial, não. Um dia, uma tia minha que morava em Copacabana chegou para mim e falou assim: “Eu vou te contar uma coisa, mas tu me fazes o favor de não fazer nada. Tu me prometes?” “Prometo. O que é?” Ela estava em um cabeleireiro em Copacabana, tinha duas pessoas conversando, dizendo assim: “Você viu quem subiu lá no banco? Foi Gilda Borges. Agora é secretária de direção, cargo de comissão.” “Também, pudera. Ela anda com os seis diretores.” Você imagina. Eu falei para a minha tia: “Você acha que eu vou fazer alguma coisa? Estão passando atestado de bobo. Se eu ando com seis diretores…  Tem um de oitenta e poucos anos, tem Roberto Campos, tem fulano, beltrano, sicrano, não sei o quê... Por que eu estou dando um duro desses? Era para eu estar em casa esfalfada, esperando receber o dinheiro em casa. Então não vou fazer nada, não.” Por essas coisas que a gente acabava sendo visada. Porque também, no início do banco, quando era todo mundo interino, tinha muita gente que ia por indicação do deputado, do senador, do fulaninho, do sicraninho... E nunca era ‘bagulho’. Parece que o Roberto Campos até comentou isso no livro dele, que era todo mundo super estiloso; tinha moça linda que datilografava assim...

 

P/1 - De lado.

 

R - De lado, com a perna cruzada. Você andava no corredor e sabia quem tinha saído, porque era aquele cheiro de perfume francês pelo corredor inteiro. Depois, com o concurso, quem passou, passou, e quem não passou foi apresentar a figura em outro lugar.

 

P/1 - Mas tinha um pouco também essa ideia de que mulher que trabalhava fora era mais fácil?

 

R - Já não tanto.

 

P/1 - Era mais por um certo ciúme da senhora ser bonita?

 

R - Sei lá. E também porque eu não saí correndo atrás. Mas tive chances que outras pessoas não tiveram. Não vou dizer também que foi sorte, porque se eu não tivesse competência também não adiantava. Mas de ficar na datilografia, depois ir parar na presidência, porque a moça foi tirar férias e eu fui substituir nas férias. Ela resolveu casar e não voltar, então eu fiquei.

Tinha um desentendimento grande entre o superintendente do banco, o presidente do banco e o pessoal da Comissão Mista, então quem era da Comissão Mista o superintendente não queria que fosse parar no banco de jeito nenhum. Mais uma vez papai, que trabalhava com o irmão do que iria ser chefe do departamento jurídico, falou: “Pois é, minha filha está na Comissão Mista, daqui a pouco vai perder [o emprego] porque vai acabar, vai virar o banco, porque não entra no banco...” “O que sua filha sabe fazer?” “Isso, aquilo...” “Meu irmão está procurando uma secretária.” O irmão dele era chefe do departamento jurídico.

 

P/1 - Quem era?

 

R - O Adamastor Lima. Aí, o Adamastor Lima me chamou, fez uma entrevista, achou que eu servia. Eu consegui uma proeza: passar para o banco numa época em que ninguém da Comissão Mista era visto com bons olhos para ir para lá. Fui ser secretária de chefe de departamento e aí...



P/1 - Dona Gilda, retomando. Só para voltar a uma história que a senhora contou para gente. Conta como é que foi ser Miss Bangu.

 

R - Foi bom à beça. Tinha esses desfiles patrocinados pela fábrica Bangu. Cada clube fazia o seu desfile e lá era escolhida a representante daquele clube, para depois haver um desfile final e ser escolhida a Miss Bangu geral. E as roupas eram lindas, maravilhosas. Eles davam o tecido, davam o modelo, desenhado por um figurinista, Zé Ronaldo. Davam adereços, sapato, tudo. Era uma maravilha. Eu ia ter coisa que eu não ia ter condição de ter de jeito nenhum. Aí eu resolvi me inscrever, junto com mais duas ou três amigas. Entramos nessa.

Olha, o vestido de baile que eu usei - a foto você fica assim [de queixo caído] - quase que saía pela passarela afora. Levou 55 metros de organdi. Trabalhadíssimo, cheio de babadinhos. E era muito bonito. E aí no Ginástico eu ganhei. Ganhei porque eu cheguei meio nervosa e me deram metade de um comprimido, que eu até hoje não sei o que era, e eu fiquei na minha. Nunca tinha tomado nada, fiquei numa tranquilidade total. O vestido era tomara-que-caia. Com esses metros todos, imagina o que ele pesava. Todo rebordado por aqui, assim [pela cintura]. A ordem que a gente tinha... Estava desfilando, vinha o fotógrafo, você fazia uma pose. E de preferência, em vez de botar a mão assim [na cintura], botava a mão assim [na cintura, de outra forma], que era mais chique, então ficava parecendo açucareiro. Ficava bom. E o costureiro ensinava a gente a desfilar. Tinha que chupar [faz bico] e desfilar. Bom, nós fizemos as aulas.

[Quando] chegou no dia do desfile ele levou dois tecidos lindos, de seda pura em tom de cor-de-rosa - meu vestido era cinza com vidrilho prateado aqui assim [faz o gesto] - para fazer uma estola. Ficou lindo. E eu desfilei com aquilo com toda pompa que você possa imaginar. O fotógrafo chegava, eu parava; o fotógrafo chegava, eu parava. Até uma hora que o fotógrafo chegou mais perto, e eu sem entender o que era. Sabe o que era? O meu fecho-éclair tinha aberto todo. (risos) Mas minha mãe era terrível; além das barbatanas, tinha um colchete que segurava qualquer coisa. E por dentro ela tinha posto um reforço na cintura com outro colchetão. Depois é que vinha o fecho-éclair. Então ele tinha aberto, mas ninguém viu por causa daquela estola toda, e tudo amarrado por dentro. Quando o rapaz falou isso, eu meti a mão aqui, segurei para ninguém ver. Nem mamãe percebeu que o vestido tinha estourado. E desfilei, só que sem tirar a mão daqui. No final, quando terminou essa parte antes da apresentação final, o costureiro subiu correndo, cheio de alfinete. Me alfinetou toda para eu poder continuar desfilando. Foi muito engraçado.  

 

P/1 - Mesmo com o vestido aberto, a senhora ganhou.

 

R - Mesmo com o vestido aberto. Mas eu tapei aqui com a mão e fui embora. Agora, você imagina se cai.

 

P/1 - Isso foi em que ano?

 

R - Foi em 55, 56. Por aí.

 

P/1 - Já trabalhando no banco?

 

R - Já trabalhando. Era fogo. Tinha problema de horário, então eu ia mais aos acontecimentos à noite, fim de semana, senão não dava.

 

P/2 - Na época tinha uma revista em que a senhora saiu...

 

R - Nós saímos em várias. Saímos em Manchete; no Globo, na coluna do Ibrahim [Sued]. Sabe o que é isso? A gente foi na Rádio Nacional e saiu na Revista do Rádio.

 

P/1 - Nossa!

 

R - É. Foi uma farra legal. Conheci muita gente legal também. Foi bom.

 

P/2 - Tem alguém que a senhora lembre, na época muito importante, que a senhora conheceu?

 

R - Tinha muita gente da sociedade, que eu só conhecia de jornal, que eu fiquei conhecendo pessoalmente. Algumas a gente até ficava encantada de conhecer, outras a gente ficava meio... Não entendia o porquê de tanto cartaz. Era muito engraçado; elas mostravam para a gente como é que desfilava, com a cabeça assim, igual tartaruga. Foi legal. Tinha gente do Brasil inteiro. Foi muito bom. A moça que ganhou a final no Copacabana era muito bonita. Muito bonita, mesmo. Morena de olhos claros, bem alta, bem magra.

 

P/1 - Aí ganhou o concurso de Miss Guanabara.

 

R - Não, do Brasil inteiro. Sônia Carneiro, eu acho. Foi muito bom.

 

P/1 - Dona Gilda, vamos voltar mais um pedaço, sobre os trabalhos da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos. A senhora tinha falado que a equipe brasileira trabalhava separada da equipe americana.

 

R - Trabalhava separada fisicamente, em termos de mesa, de escritório, tudo, sendo que o comando ficava no décimo andar, que era o andar do salão nobre do Ministério da Fazenda. Papai ficava para morrer porque ele acompanhou a construção daquele prédio; aquele piso era todo em mármore de carrara e papai sentiu como se tivessem furado a pele dele. (risos) Puseram aquelas divisórias para formar vários gabinetes. Papai só faltava morrer. E aquelas cortinas de veludo enorme que desciam e ficavam no chão. Era lá que ficava a parte do comando brasileiro e do comando americano. Foi ali que eu conheci o doutor Roberto Campos e o doutor Glycon de Paiva. E o Lucas Lopes também, mas menos. O doutor Lucas Lopes eu fui conhecer melhor depois.

 

P/1 - Como eram as discussões dos trabalhos que eram desenvolvidos por essas duas equipes?

 

R - Eles participavam junto com os brasileiros, mas eram quem mais orientava. O que a minha memória registra - pode ser que eu esteja errada, porque também com o tempo a gente mistura um pouco -, mas aqui não existia essa tradição de fazer projetos. Isso eu acho que eles trouxeram para cá. E tinham boa vontade de financiar, só que aqui não tinha entidade financeira para executar aqueles projetos. Então teve Central do Brasil, teve Companhia Nacional de Álcool... Teve uma porção de coisas grandes que eles começaram, foram até o fim, até o último projeto. E aí criaram o banco para financiar esses projetos em moeda nacional. E no caso de financiamento estrangeiro, o banco daria aval. Ou em nome próprio, ou em nome do tesouro.

 

P/1 - E havia consenso entre os brasileiros? Corria normalmente?

 

R - Havia. Não havia pega-pra-capar, não. Corria normal, todo mundo se dava bem.

 

P/1 - Como foi a proposta para a criação do banco?

 

R - Foi essa, com o objetivo de concretizar e efetivar esses projetos que tinham sido feitos. Passar da teoria para a execução, mesmo.

 

P/1 - E na própria Comissão indicaram trabalhos, projetos...

 

R - A Comissão publicou vários projetos. Muitos. E esses projetos é que depois foram aparecendo no banco como projetos para fim de obtenção de financiamentos.

 

P/1 - E quando o banco começa a funcionar...

 

R - Começou pequenininho...

 

P/1 - É no mesmo prédio onde estavam sendo os trabalhos da comissão.

 

R - No mesmo prédio. Depois já não dava mais espaço, aí o banco alugou uns andares na rua Sete de Setembro, esquina da [Rua da] Quitanda. Nós tínhamos uns andares lá. Depois foi crescendo, fomos alugando mais alguns andares, até que ficou apertado demais, mesmo. Na época do Roberto Campos e do doutor Glycon eles submeteram [o pedido], a diretoria e o conselho aprovaram, e eles compraram um terreno perto da Candelária - sabe onde é a Candelária? Um terreno para construir a sede do banco, mas por vários motivos a sede acabou não sendo construída ali.

Depois começou o movimento de Brasília - o Juscelino não aceitava que se construísse nada aqui, queria todo mundo lá, então esse terreno, enquanto não deram um fim nele, virou nosso estacionamento. Era uma beleza. A associação controlava, administrava, e a gente podia parar o carro ali. Não tinha batedor de carteira, pivete, nada disso. Depois o banco vendeu esse terreno - não sei se foi para o Banespa- e aí compramos o prédio da [Avenida] Rio Branco, esquina da [Rua] Visconde de Inhaúma. Aquele prédio ali é meio fatia - tem o hall dos elevadores e, em forma de “C” as salas, então o espaço não era de tão fácil aproveitamento assim. Ficamos ali um tempo, depois começou a não dar, e fomos despencando. A minha área foi para a Rio Branco, perto da Rua do Ouvidor, tinha gente na [Avenida] Presidente Vargas, tinha gente no outro lado da Rio Branco... Foi espalhando tudo. Fica complicado, porque tinha reunião na sede e a gente tinha que sair pela rua correndo. Não dava nem para pegar táxi, porque tinha que dar outra volta. Foi aí que... Tinham comprado o terreno da Avenida Chile. Acho que foi na época do Negrão ainda; tinha incentivo para venda do terreno e construção em um prazo “x”; tinha desconto de imposto e tudo. Foi aí que foi construído o prédio da Avenida Chile.

E foi construído a jato. Eles fizeram umas coisas notáveis. Por exemplo, para o concreto secar mais depressa, vinha caminhão de gelo; misturavam o concreto e punham gelo para secar mais depressa. E funcionou. Montaram aquele prédio inteiro. Tiveram depois que fazer um reforço num andar, porque o Gilvan cismou com os arquivos, que pesavam não sei quanto, então tinha que fazer reforço de laje para aguentar aquele piso. A última coisa que eu fiz foi a mudança da minha área da Rio Branco para a Avenida Chile. Fiquei mais uns oito ou dez dias, me aposentei e fui embora.

 

P/1 - Dona Gilda, e como foi aquela história do americano no carnaval? Uma história que a senhora tinha me contado por telefone, uma história bem...

 

R - Ah, foi um americano... O nome traduzido é “boa cabeça”: Mr. Goodhead. Estava aqui com mulher e tudo. E no carnaval ele me fez o favor de... Deve ter bebido. Caiu da janela do hotel de Copacabana lá embaixo. Caiu e morreu. [Na] quarta-feira de cinzas toca o telefone lá em casa. Eu morta de sono, porque tinha pulado o carnaval até as cinco da manhã. O expediente só começava meio-dia, uma hora, e me tiram da cama de manhã para eu passar na Comissão Mista, pegar todos os dados e tentar embarcar o caixão com o defunto - escondido no avião da Panair, porque era proibido misturar defunto com vivo. Saí com sono, danada da vida de terem me acordado. Fui lá falar com um americano. Era um americano tão engraçado, Mr. Ledd. Tinha um colarinho duro que vinha cá em cima e falava igual inglês, apesar de ser americano. E ele me dando o peso do caixão com o corpo, a medida, e ele fazia “Oh, oh...”, muito sentido do que tinha acontecido. E a gente saiu com aquilo tudo para ir para a Panair, que ficava ali perto, para me entender com um monte de velhinho americano - isso, eu com dezenove para vinte anos -, tentar convencer os caras em inglês a embarcar o defunto no avião de passageiros para ir para os Estados Unidos. (risos) No final nós acertamos tudo. [À] meia-noite o caixão tinha que estar pronto, com ele embalsamado, tudo direitinho, para entrar no avião, no compartimento de bagagem, escondido, para quando na hora que os passageiros entrarem ninguém saber que tinha o defunto lá dentro.

Doparam a mulher dele para ela ir quieta. E eu ainda tive que trabalhar o resto do dia. Foi terrível. Ainda recebi um convite para trabalhar na Panair, mas eu tive juízo e não fui. (risos)

 

P/1 - E foi muito ti-ti-ti essa morte?

 

R - Não, abafaram. Até o jornal deu pouco. No carnaval sempre acontece tanta coisa.

 

P/1 - Calhou ser nesse período, que distraiu.

 

R - É. Ele era tranquilo, ninguém entendeu.

 

P/1 - E quais eram as expectativas, tanto de brasileiros quanto de americanos, em relação a esse grupo de trabalho? Tinha uma animação, tinha uma...

 

R - Tinha uma grande empolgação. Todo mundo se dedicou muito àquilo, com fé mesmo.

 

P/1 - E os americanos eram simpáticos?

 

R - Muito. Esse Mr. Ledd era mais formal, mas tinha um que era embaixador. Embaixador Bowen, que foi o presidente anterior. Esse também [era] muito simpático; todos muito alegres, brincalhões. Muito bom de lidar com eles, não teve problema, não.

 

P/1 - E aquela americana que resolveu criar um bichinho de estimação?

 

R - O pessoal que trabalhava lá era requisitado, era contratado... Dependia. Tinha o contínuo que ficava nesse salão nobre, que atendia a presidência brasileira e americana. Ele era muito esperto e tinha um nome muito engraçado: senhor Hemetério, com “h”. Chegava de tarde e você ouvia aquelas americanas assim: “Senhor Hemetério...” [imita sotaque americano] Aí o seu Hemetério ia lá... Adorava, ele ia correndo - ele arranhava algumas palavrinhas em inglês -, porque elas pediam para comprar lanche e davam sempre um trocado bom para ele, ainda mais ganhando em dólar. Então, elas pediam sanduíche e o seu Hemetério trazia.

Um dia começou a haver problema lá. Estava dando muito rato, tinha camundongo à beça. Procuravam saber o que é, o que não é. Essa americana achava os ratinhos uma gracinha, então ela pedia sempre para o senhor Hemetério [com sotaque] trazer sanduíche de queijo e deixava sanduíche de queijo para o ratinho atrás da cortina. E o ratinho foi gostando, foi se multiplicando, multiplicando... E no final foi um inferno para acabar com os ratinhos, e a mania dela de dar comida para ratinhos. Tinha umas americanas engraçadas.

Tinha uma outra com um nome muito engraçado: dona Jacoba. Ela tinha um carrinho pequenininho. Era fácil estacionar na frente do ministério. E um cachorrinho pequenininho tipo yorkshire, desses pequenininhos, neuróticos, que ia com ela para o trabalho. Ela chegava lá, estacionava o carro, dava uma voltinha para o cachorro fazer o que fosse preciso e punha o cachorro dentro do carro. E ia trabalhar. Fechava. Na hora do almoço, ela levava comidinha para o cachorro, água para o cachorro, outra voltinha para ele não sujar o carro. Ia para dentro do carro de novo até ela ir embora para casa, de noite. Então tinha umas coisas bem diferentes. Até isso era bom.

 

P/2 - E quantos americanos trabalhavam nesse...

 

R - O número eu não sei dizer, tinha talvez uns quinze ou vinte. Não sei. Eu conheci mais esse grupo do andar de baixo. E tinham uns que vinham, voltavam, não ficavam aqui permanentemente, não. Eram pessoas boas.

 

P/1 - Então conta como foi no seu primeiro posto no BNDE. Como foi o início desses primeiros tempos do banco?

 

R - Quando eu fui para esse andar, lá da presidência, a rigor, eu comecei a trabalhar indiretamente para o banco, porque o presidente do lado brasileiro também era presidente do banco.

 

P/1 - Quem era?

 

R - Era o Ari Frederico Torres. Indiretamente eu já comecei servir ao banco. Eu fui para lá no final de 52, lá para a presidência, e em 53, em março, eu já fui para o banco, ser secretária do chefe do departamento jurídico. Aí fiquei lá até...

O doutor Glycon tinha sido da Comissão Mista e tinha sido diretor técnico do banco. Ele foi nomeado presidente, aí me chamou para ser secretária dele. Ele disse que não tinha nada contra o pessoal que estava lá, mas que achava que secretária era uma office-wife do chefe, então tinha que ser escolhida de acordo com os critérios dele. E eu fui ser secretária dele. Devo muito a ele, muito mesmo. Sabe aquele chefe que acha que você tem potencial, que está sempre te estimulando, e às vezes quase que forçando você dar um passo à frente?

Desde as coisas mais simples, ele era muito certinho, muito metódico, sem ser chato. Por exemplo, entrevista a gente marcava de meia e meia hora, em dias determinados. A pessoa pedia entrevista, eu pedia os dados, anotava, punha num papelzinho datilografado - nesses papeizinhos de bloco -, guardava uma cópia e punha no espeto que tinha na mesa dele. Sabe aquele espeto de papel? Ele ainda fez dobrar a ponta para ninguém espetar a mão. Ele era sensacional. (risos) Chegava no fim do dia, ele chamava: “Minha filha, apresente-se em primeiro uniforme.” Era lápis, papel e os bilhetinhos. [Quando] chegava lá, ele dizia: “Esse daqui você marca. Esse daqui você marca, mas só daqui a uns quinze dias. Esse eu não vou receber, ele é muito chato, vem com uns assuntos que não tem nada a ver. Não dá, então esse você descarta. Use suas habilidades femininas e dá um jeitinho nele, tá bem?” Aí eu ia, marcava as entrevistas, e esses que ele não queria ver, eu falava assim: “Olha, ele está morrendo de pena, mas não dá para atender o senhor.” Isso novinha, eu tinha 22 anos, sei lá.  

 

P/1 - E isso era o doutor Glycon.

 

R - Era. Dizia: “Ele está com muita pena, não dá para atender o senhor. Mas me deu ordem para fazer o que fosse preciso para o senhor ser bem atendido. O senhor quer tratar disso assim, assim?” Porque ele só marcava entrevista se a pessoa declarasse o assunto. Se dissesse que era particular: “Desculpe. Nem vou passar o seu nome para ele, porque se eu passar ele não aceita. A ordem que eu tenho é só passar pedido de entrevista para quem declarar o assunto.” Eu dizia para ele: “Mas o senhor sabe que tem gente que não quer dizer.”  

Ele dizia: “Se eu confio em você para você ser a minha secretária, os outros tem que confiar também. Então, [se] não disse o assunto, não marca.” E assim a gente agia. Eu perguntava para a pessoa: “Por que o senhor está aqui? O que o senhor gostaria de saber?” “É assim, assado.” “Então o senhor aguarda um instantinho que eu já ligo de volta para o senhor.” Ligava para alguém do banco que lidasse com aquele assunto e que tivesse gabarito para atender a pessoa, para dar uma explicação: “O doutor Glycon não pode atender. Dá para o senhor atender?” “Pois não...” E ele ria. Encontrou a minha prima, que ele conhecia do Ministério da Agricultura, e disse assim: “Eu não sei o que sua prima faz, mas tem gente que eu acho que vai virar a cara para mim na rua e não vira não, agradece.  Ela quebra lá os galhos do pessoal que eu não quero receber.”

Um dia ele virou para mim e disse assim: “Vamos fazer um esquema aqui de bilhetinhos?” “Vamos.” “Lembretes. Eu vou ditar, você datilografa, manda o original para a pessoa, uma cópia para mim e outra para você, porque aí, passado uns dias, a gente começa a cobrar o que não tiver sido resolvido. Quando for resolvido, a gente tira, rasga e joga fora.” “Está bem.” “Vamos começar com esse aqui, vamos mandar para o Roberto - que era o Roberto Campos. Caro Roberto, peço providenciar não sei o quê, verificar não sei o quê... Um abraço amigo, Glycon...”

Tudo bem, eu datilografei de acordo com o figurino e levei para ele assinar: “Mas o que é isso?” “Para o senhor assinar.” “Eu não vou assinar nada.” “Como eu vou mandar um negócio desses sem a sua assinatura?” “Você assina.” “Como eu assino?” “Bota o seu nome em cima do meu.” Eu disse: “E o senhor acha que ele vai obedecer? Ele vai achar engraçado e não vai fazer nada.” “Não, minha filha, não se preocupe se ele estranhar a primeira vez. Depois ele [se] habitua. É aquilo que eu te disse: ou a gente confia ou não confia.”

Para surpresa minha eu nunca recebi um de volta; desde o primeiro foi aceito. E foi ele que me empurrou para secretariar reunião de diretoria.

 

P/1 - Como eram essas reuniões de diretoria? Como eram as discussões?

 

R - As discussões eram... Eu aprendi demais, de professores de primeira ordem. Já tinha aprendido muita coisa no meio dos advogados, aprendi muita coisa no meio dos economistas. Tinha gente que pensava que eu era economista, tinha gente que pensava que eu era advogada.

Os diretores tinham posições muito coerentes. Sempre. Então você sempre sabia que fulano vai ser contra isso, que beltrano vai ser a favor; o argumento vai ser esse e aquele, porque havia coerência. Sem entrar no mérito se estava certo, se era uma posição válida ou se não era, não é o caso, mas eram super coerentes. E foram assim durante muito tempo. Enquanto eu estive lá, eles foram assim.

[As reuniões] eram ótimas. E o Roberto Campos, com aquela cara que ele tinha, aquela cara fechada, falando meio de boca fechada... No início eu taquigrafava olhando para a boca para poder entender o que ele estava falando. E ele no meio soltava coisas em latim, porque ele tinha sido seminarista. Soltava em francês, soltava em inglês... Você ficava desesperada com aquele troço todo. Eu não tinha prática de taquigrafia para reunião, eu tinha para pegar ditado, então ficava desesperada. Eu tinha uma memória muito boa, então tinha vez que eu largava o lápis e ficava prestando atenção, e fazia aquele pedaço de memória. Com dois ou três falando eu me atrapalhava toda, mas metia a cara. Eu tinha dito para ele: “Acho que não vai dar certo isso, eu não vou conseguir” (risos) “Consegue sim, minha filha. Se você não conseguir de início, a gente te ajuda. Vai com calma...” E eu acabei ficando lá um tempão. Aprendi muito com eles.

O Roberto Campos era muito engraçado. Ele contava cada história na reunião de diretoria; às vezes contava piada de salão. Ele trabalhava no gabinete na sala ao lado. Tinha a Elza, que uma vez virou para mim e falou assim: “Gilda, eu tenho uma vontade de trabalhar no seu lugar” “Por que, Elza? A gente larga o couro, não tem sossego. Às vezes eu nem consigo almoçar!” “Deve ser muito divertido; eu só ouço aquela risada dos homens lá, ‘ho, ho, ho’, e você ‘hi, hi, hi’, aquela risada fininha; deve ser muito divertido.” (risos)

 

P/1 - E isso por conta das piadas do...

 

R - De piada, das observações que ele fazia. Ele era muito bem humorado. Com aquela cara toda sisuda. E o doutor Glycon me botou um vício, que era chupar bala de mel da Copenhagen, aquela que parecia uma almofadinha recheada de mel por dentro. Uma delícia. De vez em quando ele estava ditando, punha a mão no bolso e punha uma na minha frente. Dizia: “É para você não ficar aguada.” E comia outra. Aí eu peguei a mania. Virava e mexia, eu comprava as balinhas. Depois o doutor Glycon saiu e um belo dia o Roberto Campos chamou: “Você tem aí aquelas balinhas de mel?” Eu disse: “Não, senhor.” “Pô, vocês puseram mania na gente dessas balinhas de mel, agora eu queria balinha de mel e não tem.” “Não seja por isso.” Aí providenciei, mandei um garoto da rua comprar bala de mel; [a loja] era ali pertinho. Fui e levei lá para ele. Ele pegou umas balinhas: “Obrigado.” E aí começou, virava e mexia, ela chamava: ”Tem balinha de mel?” No final ele disse: “Vou acabar tendo que botar uma dotação no orçamento, porque não é justo você ficar comprando balinha de mel.” Ele era muito engraçado.

 

P/1 - Dona Gilda, tinha algum projeto que o animasse mais, que ele tivesse mais expectativa?

 

R - Olha, eu...

 

P/1 - Ou eram todos mais ou menos tratados da mesma forma?

 

R - Eram todos importantes. Tinha uns casos que deram muito trabalho, que foram os casos de empresas de aviação, porque o aval era em nome do Tesouro. O banco não tinha que dizer sim ou não; tinha que encaminhar ao Ministério da Fazenda com um parecer - não era uma decisão - dizendo que a situação era assim, assado, que não era conveniente, que o risco era muito grande, que tinha que ser estudado de outra maneira... Enfim, fazia a crítica das empresas de aviação. Em um dos casos foi da Panair, que com o correr do tempo se verificou que estava cheio de razão. E no final, às vezes eles resolviam dar o aval assim mesmo, então o banco só assinava em nome da União. Quando eles não pagavam, o problema, a rigor, não era nosso. E acontecia frequentemente de não pagar.

 

P/1 - Dona Gilda, agora conta também do primeiro concurso. A senhora entrou...

 

R - O primeiro concurso, se não me falha a memória, foi em 55. Tinha muita gente interina, muita gente requisitada, então quando o banco resolveu fazer concurso...

O Roberto Campos era muito firme nisso, e o doutor Glycon também. Achavam que a maneira certa era o concurso e abriam chance para todo mundo. Quem fosse melhor, passava e entrava. Mas quem já estava lá começou a ficar meio invocado com isso. E sempre aparece um advogado eficiente para mostrar serviço e garantir ao pessoal que quem não fizesse a prova ficava lá assim mesmo. E me chamaram, me avisaram. O chefe de departamento: “Olha, Gilda, está correndo um ti-ti-ti aí, um negócio de advogado. Eu sei que você tem várias amigas aí pelo banco; você avisa suas amigas e seus amigos para não entrarem nessa, porque vão perder. A gente vai fazer o concurso de qualquer maneira e o advogado vai ganhar dinheiro nas costas desse pessoal.”

Chamei o pessoal que era mais ligado a mim e falei. Ninguém acreditou, não. E o advogado ainda mandou todo mundo entregar as provas em branco. Compareceram e entregaram a prova em branco. Alguns resolveram fazer a prova. Alguns que fizeram a prova, dessa turma que entrou com mandado de segurança, alguns passaram e foram admitidos formalmente. Outros não passaram, mas como tinham feito a prova continuaram interinamente porque sobrou vaga. Não deu para preencher tudo. E os que entregaram a prova em branco foram embora.

Eu me lembro do Roberto Campos. Um dia, quando chegou o oficial de justiça - eu é que recebia o oficial de justiça. Chegava o oficial de justiça, procurava o presidente do banco, que era a figura que representava o banco externamente. Ele é quem tinha que assinar, mas ele tinha dado ordem para eu assinar, porque mesmo que ele não estivesse, eu já pegava aquilo e já dava andamento. Então levava para o gabinete do Roberto Campos, ali já tinha um advogado só cuidando disso. Eu não ficava parada em canto nenhum. Um dia eu levei lá, para o Roberto Campos. Ele olhou: “fulano, fulano e outros...” Foi olhar os nomes: “Gilda, quem é essa aqui?” “É a secretária do doutor fulano.” “Quê? Mas como é que pode?” Ela estava secretariando o advogado que estava defendendo o banco. Ele ficou uma onça. Tinha uma outra que estava no gabinete dele também. Rodaram na mesma hora, foram para outro lugar qualquer. Realmente não era uma coisa compatível. Aí teve o concurso. Eu fiz, graças a Deus passei, então fiquei de nariz para cima. Para entrar eu tive apadrinhamento, mas para entrar como interina. Para ficar mesmo, é porque eu fiz o concurso e passei.

 

P/1 - O concurso foi por volta de...

 

R - 1955, por aí.

 

P/1 - E o que mudou com o concurso? A senhora mudou de cargo?

 

R - Eu fiquei como assistente administrativo. Depois passei para assistente técnico.

 

P/1 - Cm quem a senhora trabalhava nessa época?

 

R - Na época do concurso eu trabalhava com o doutor Glycon.

E o banco ainda foi muito legal. O banco ainda pagou professor particular para nos dar aula durante o expediente. Em determinados dias nós tínhamos aulas de português, em outros dias nós tínhamos aulas de matemática. Geografia, história, um pouco de direito administrativo, e constituição ficou por conta de cada um. Tinha umas apostilas que alguém arrumou, mas português e matemática o banco pagava para a gente. Eram dois professores excelentes e mesmo assim teve gente que não fez.

 

P/1 - Essas aulas eram para o próprio concurso.

 

R - É, para ajudar no concurso. Depois, quando houve o concurso para contínuos também, houve a mesma preparação, e eu até fui dar aula para eles. O primeiro concurso era para auxiliar de portaria. Coitadinhos, tinha que procurar endereço no catálogo, resolver problemas do tipo “saí com não sei quantos cruzeiros para comprar não sei o quê, e com quanto que eu voltei?”... Ministério... Coitadinhos. Meter isso na cabeça deles...

Tinha um que era... Não era analfabeto, mas era “analgarismo”, como dizia o Antônio Houaiss. Ele fazia conta assim... “Ele foi à quitanda” ele sabia mais ou menos, mas problema, essas continhas, ele não sabia. Eu levava às vezes caderno do seu Francisco para casa, fazia uma porção de dever para ele, entregava para ele fazer e ia corrigir. Além da aula normal. Coitadinho. Ele até passou, mas não classificou, aí arrumaram dele ir trabalhar no Ministério da Agricultura. Mas eles todos tiveram aula. Trabalhava às vezes em dupla e tinha que aprender a dar recado. Eu dava um recado para você e você saía com um número na mão. Era o recado número cinco. Você ia lá fora, entregava o cinco, que era para a pessoa saber qual era o recado, e transmitia o recado. Era muito engraçado, saía cada coisa terrível. Mas era uma turma boa aquela também.

Depois muitos fizeram carreira, sabia? Teve um que terminou como contador no banco. E sabe como ele entrou? Ele era alfaiate e fazia os uniformes dos contínuos, aí ele ouviu aquela conversa: “Vai ter concurso.” E falou: “Como a gente faz para se inscrever?” (risos) De alfaiate de uniforme ele passou a ser auxiliar de portaria. Depois foi estudando, estudando, e chegou a contador.  

 

P/1 - Ótimo.

 

R - É um barato.

 

P/1 - Vamos continuar com a sua trajetória. Depois do trabalho com o doutor Glycon...

 

R - Eu fiquei com um tempo só com a secretaria da diretoria, com as reuniões. Então, eu como secretária da diretoria, e a outra como secretária do conselho, nós tínhamos que redigir as atas...

 

P/1 - Como era esse trabalho com a diretoria? Era bem...

 

R - Eu gostava muito.

 

P/1 - Era bem movimentado?

 

R - Era bem movimentado. A gente aprendia muito também e eu sempre tive muita curiosidade das coisas. Cada processo que entrava na diretoria eu lia antes, então eu sabia exatamente do que se tratava. Às vezes acontecia umas coisas ótimas.

O doutor Lucas Lopes, que tinha sido da Comissão Mista, depois não ficou no banco, acabou voltando como presidente. Acho que foi conselheiro também. Ficou um tempo sem fazer reunião, e eu agoniada porque a pilha de processos estava crescendo, eram coisas grossas. Até o Magrassi, aí ele afinou todo mundo. Começou a juntar aquilo, e eu nervosa porque não tinha reunião. Na hora de fazer ata, como vai ser? Despachar tudo isso? Eu comecei a ler os processos todos, fazia resumo, e já fazia uma minuta de decisão da diretoria, porque eu já sabia como eles iam resolver, por eles serem sempre coerentes. E eu fui fazendo aquilo.

 

P/1 - A senhora fazia ata antes da reunião? (risos)

 

R - Fazia ata antes. Eu fazia o resumo e a decisão, depois eu passei a fazer a ______ da ata também. Um dia finalmente teve a reunião, fui falar com o presidente. Ele disse para mim: “O que tem?” Ele era engraçado, usava uns oculinhos assim, e era bem mineiro para falar: “O quê que ocê tem aí?”

 

P/1 - Esse é o Lucas?

 

R - É. Eu levava a lista: “Tem isso, isso...” “Uai, o que é isso aí?” “Isso é isso, isso é isso...” “Não bota isso aqui, não; me traz que eu quero estudar melhor. O resto você bota.” “Está bem.” Aí levava, fazia a ata. [Quando] chegava na reunião ele dizia: “Bom, tem isso, assim, assim...” Aí um diretor perguntava o que era. Depois eu disse para ele: “Doutor Lucas, eu estou fazendo um resumo para meu uso, porque eu tenho que colocar na ata processo tal, assim, assim.” E o resumo, para depois dizer como tinha sido a discussão: “O senhor quer que eu traga esses resumos para o senhor, para o senhor não ter que ficar perguntando?” “Boa ideia; ocê traz, sim.” Eu levei e ele gostou.

[Quando] Começava a reunião, ele pegava o papel e dizia: “Processo tal, assim, assim... A empresa fez isso, pediu aquilo...” Até que um diretor, doutor Cleanto, disse assim: “Que papel é aquele que o Lucas lê na reunião?” “Isso é um resumo que eu faço antes.” “Quem te mandou fazer?” “Ninguém, é para facilitar meu trabalho. Ele fica sem saber o que era, eu falei que tinha um resumo, e ele quis.” “Você não tem nada que estar fazendo isso.” “Isso é problema meu com ele.”

Eu tive muito pega com esse diretor, um atrás do outro. Depois virou muito meu amiguinho. Mas na época do doutor Glycon ainda aconteceu uma terrível.

 

P/1 - Conta.

 

R - O povo estava em uma reunião lá, uma reunião grande. Tinha gente de fora e gente do banco, da administração. E o doutor Glycon me chamou. Eu fui lá até a sala de reuniões, ele disse: “Minha filha, me arruma uns dois ou três exemplares do relatório anual do banco.” Tinha saído uns dias antes. Eu disse: “Sim, senhor.” Virei as costas, mas eu sabia que o chefe de gabinete tinha vários. A sala de reuniões era aqui, e a sala do chefe de gabinete pegada. Então, só fiz sair de ir para outra: “O senhor tem aqueles relatórios ainda na gaveta?” “Tem sim, minha filha.” “Então o senhor me dá uns três, que o senhor Glycon está pedindo?” Me deu os três, foi o tempo de eu pegar atravessar a mesma porta e levar. Eu vi o doutor Glycon fazer uma cara assim. Olhei para ele, não consegui entender.

Quando eu saí, fiquei encucada, falei com o seu Figueira: “O que aconteceu? O doutor Glycon me olhou com uma cara engraçada.” “Não é nada, não; às vezes é impressão.” “Olhou sim.” Quando terminou a reunião, que ele me chamou, eu disse: “Por que o senhor fez aquela cara para mim?” “Não, minha filha, não é nada, não.” “O senhor me conta! Eu levei o relatório, o senhor fez uma cara tão engraçada. O que foi? Conta para mim.” “Minha filha, não tem necessidade.” “Conta que eu fiquei curiosa. Mulher é curiosa, o senhor me conta.” “Quando você saiu para pegar os relatórios, o Cleanto virou para mim e disse assim: ‘Não sei porque você pediu para ela. Vai demorar três anos. As minhas secretárias são muito mais expeditas! Iriam me trazer isso mais rápido’” (risos) Mal ele acabou de falar, eu entrei com os relatórios. Quer dizer, teve que botar a língua para dentro e ficar quieto. Por isso que ele fez aquele ar de vitória, como quem diz: “Está vendo só?”

 

P/1 - E qual eram os projetos dessa época?

 

R - Tinha muitos.

 

P/1 - Me conta algum.

 

R - Tinha da Sambra, aquela algodoeira do Nordeste. Tinha o da Companhia Nacional de Álcalis, que deu um trabalhão infernal.

 

P/1 - Por que?

 

R - Porque eles estavam discutindo vários processos de obtenção de sal. Eu me lembro de dois, porque me marcaram muito. ‘Processo da chama submersa’. Você imagina o que seja. Um monte de tanquezinhos cheios de água salgada, com coisas que produziam calor passando por baixo para aquecer aquilo, evaporar a água e só sobrar o sal. Esse era o ‘processo da chama submersa’.

 

P/1 - ‘Chama submersa’ é ótimo.

 

R - E o general que era presidente da Companhia Nacional de Álcalis apareceu com uma outra solução, que era você fazer aqueles tanques, a água evaporava, e você vinha com um trator de lâmina de sal fora. Quer dizer, tudo coisa esquisita. Aí acabaram chamando um técnico estrangeiro que veio, deu outras ideias... Nós chegamos a ir visitar uma vez e fazer uma reunião lá. Era impressionante, porque eles faziam cal também.

 

P/1 - Era onde?

 

R - Em Cabo Frio. Faziam cal também, então você via aquele monte de concha calcária entrando numa fornalha que não tinha mais tamanho. Um calor insuportável. Do lado de fora eles abriram para a gente dar uma olhada. E o Roberto Campos contou a história que uma turma mais de sociedade - porque esse general recebia muita gente lá, inclusive para a gente fez um verdadeiro banquete. A gente comeu ouriço, que era um prato finíssimo naquela ocasião. Vinha aquele ouriço todo limpinho, bonitinho, com recheio dentro. O lugar era lindo, maravilhoso.

O Roberto Campos contou essa história. Foi uma turma do soçaite lá e quando abriram, que viram aquela fornalha, que a mulher viu aquele fogaréu todo, e falou assim: “Ai, que amoreco de forno.” (risos) Essa entrou na história da Álcalis.

 

P/1 - “Amoreco de forno”. Muito bom.

 

R - Era terrível aquilo.

 

P/1 - A senhora chegou a viajar, acompanhar outro projeto?

 

R - Não. Eu viajei na época do Juscelino; a gente ia uma vez por mês a Brasília fazer reunião lá, porque ele queria que todo mundo fosse embora para lá.

 

P/1 - Mas com Brasília já inaugurada?

 

R - Já inaugurada. Eu conheci Brasília antes de uma inauguração porque teve a inauguração de uma usina, de Cachoeira Dourada, em Goiás. O governador convidou várias pessoas do banco e eu fui convidada também.

A gente foi de avião, de uma empresa, que depois também, “ó”, foi embora. Acho que era NAB - Navegação Aérea Brasileira. Nós fomos daqui até Goiânia; de Goiânia a gente foi para um campo de pouso que tinha em Cachoeira Dourada, onde ia ter a inauguração da hidrelétrica.

 

P/1 - Que era um projeto do banco.

 

R - [Um] projeto apoiado pelo banco. Dali a gente tomou o avião de novo e voou para Brasília. Dormimos em Brasília e voltamos no dia seguinte.

Teve um baile ótimo em Brasília, pré-carnavalesco. Foi bom à beça. A gente dormiu pouquinho, viajou bem na volta. No avião fazia um frio que você tinha que se cobrir até aqui [aponta para o pescoço]. (risos) O avião era o que tinha de lixo que você possa imaginar. A primeira viagem que eu fiz em um avião legal eu achei que era um apartamento de luxo, e era normal.

 

P/1 - Nessa viagem para Cachoeira Dourada que a senhora passou por Brasília, Brasília já estava inaugurada?

 

R - Não estava inaugurada ainda. Só tinha aquele primeiro hotel, acho que era Hotel Nacional, mas já tinha o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto. Ainda tinha o Catetinho. Aquela poeira, aquela terra vermelha que você tomava banho, passava sabão, sabonete... Quando você ia enxugar, a toalha ainda saía avermelhada. Mas foi uma experiência ótima porque o entardecer era quase de cair de quatro e sair uivando de tão bonito que foi. Lindo. E depois, quando escureceu, a vista que a gente tinha do hotel era o palácio, acho que era o da Alvorada. Os dois são parecidos. Com aquelas colunas fininhas, a impressão que dava aquilo é que ia descendo e ia pousar; você não sentia a coisa pousada no chão. Muito bonito mesmo. Lindo.

 

P/1 - E tinha uma expectativa com Brasília?

 

R - Tinha. Se dependesse do Juscelino, todo mundo tinha ido para lá no dia seguinte.

 

P/2 - A senhora conheceu o Juscelino pessoalmente?

 

R - Não. Só nessa vez em Cachoeira Dourada que, quando ele saltou do avião... Ele era muito simpático, muito comunicativo. Ele passou por nós, ainda olhou para minha cara e falou: “Oi, moça, como vai?” Parecia que a gente se conhecia desde o tempo da Pampulha, e nunca tinha visto pessoalmente.

Mas ele era perigoso quando abria a boca. Eu e a Oneida fomos convidadas para a inauguração da Volkswagen. Eles não estavam convidando muita mulher, não, mas nós duas fomos como conselheiras do banco. O pai do Gustavo Franco, que foi do banco Central, Guilherme Arinos, era ligado ao pessoal da Volkswagen também, então nós duas fomos convidadas. O Juscelino fez um discurso... Numa época em que todo mundo estava danado da vida com o preço do quilo do feijão. O feijão tinha subido fragorosamente, tinha começado a inflação. O Roberto Campos e o Glycon de Paiva só faltavam arrancar cabelos por causa da inflação de 2%. Fizeram um baita de um trabalho, todo mundo virou noite trabalhando para combater aquela inflação, aí levaram o trabalho para o Juscelino. Ele aprovou. Quando foi apresentar para a imprensa, ele disse: “Vocês estão preocupados com uma inflaçãozinha de nada; isso é bobagem.” Desmoralizou na hora. (risos)

 

P/1 - E a inflação nessa época já...

 

R - Estava começando. Não foi contida a tempo, então foi feito bola de neve, foi indo embora.

 

P/1 - Você reclamava do preço?

 

R - Todo mundo reclamava. O feijão realmente subiu muito. E antes era aquela história: “Fulano é pobre. Passa a arroz, feijão e carne seca.” Carne seca hoje em dia, da boa, está cara. Feijão também não é barato. Nessa época então, feijão tinha dado uma subida razoável. Você sabe que ele fez um discurso, falou no preço do feijão, falou não sei o quê... De improviso. Quase que o alemão leva um tapa na cara, porque ele gesticulava, e numa dessas que ele fez assim, quase que a mão vai na cara do alemão. Mas fez um discurso...

 

P/1 - Como era? O alemão?

 

R - O alemão da Volkswagen.

 

P/1 - Ah, tá. (risos)

 

R - Fez um discurso de tal maneira que você saía dali achando que estava pagando pouco pelo feijão. Você devia pagar muito mais, porque as coisas estavam indo tão bem, o desenvolvimento estava uma coisa fabulosa. Cinco anos em 50, tinha aquela história toda. Então, nessa empolgação toda, você saía [pensando]: “Que bobagem, pago o dobro pelo feijão.” Ele convencia, ele era muito simpático. Acho que consideravam o perigo do Juscelino justo o jeito dele abrir a boca.

 

P/1 - Dona Gilda, a senhora trabalhou também com a seção de pessoal?

 

R - É, porque quando eu casei, eu achei que um horário, para o ‘falecido vivo’, era de cedo até as quatro da tarde. (risos) Eu, como funcionária da diretoria, não tinha hora para sair, então teve cena da reunião terminar nove e meia, dez horas da noite, e um diretor dizer assim: “Alguém podia levar a dona Gilda em casa.” E outro: “Não, dona Gilda vai sozinha.” E outro: “Pera lá, levar a dona Gilda em casa nesse horário é comprometedor. Como vai ser?” “Comprometedor para vocês. E para mim? Pra mim é também. Deixa que eu vou de bonde.” Ia embora de bonde.

Eu sei que a gente ficava fora de hora e achei que isso ia ficar desagradável, porque não tem homem que chegue em casa às quatro e meia da tarde e vá ficar feliz da vida esperando a mulher - recém-mulher - chegar em casa nove e meia, dez horas da noite.

 

P/1 - Seu marido reclamou?

 

R - Não reclamou porque quando eu casei pedi demissão desse cargo. Aí é que me convidaram para ir trabalhar no pessoal. Fiquei lá talvez uns dois meses, aí veio esse presidente gaúcho para o banco. Ele queria alguém para pegar cedo, para ele poder chegar cedo. E outra pessoa para ficar na parte da tarde, para ele poder sair tarde. Lembraram que eu estava com problema de horário e lá podia chegar cedo e sair cedo. O trabalho que eu fazia não amarrava ninguém. Aí me chamaram e eu fui trabalhar lá em cima.

 

P/1 - Aí voltou a trabalhar com a presidência?

 

R - Voltei para a presidência. Foi muito engraçado porque eu voltei como funcionária simples. Um dia ele me chamou, queria ditar umas respostas para umas cartas. “Está bem.” Tinha uma pasta dessa grossura...

 

P/1 - Como era o nome desse presidente?

 

R - Leocádio [de Almeida] Antunes. Ele pegou a pasta, pegou uma carta de dentro, ditou e eu taquigrafei. Esperou a segunda, eu taquigrafei. Na terceira, era um deputado não-sei-quem, que ele falou que tudo bem, que podia apresentar o projeto porque o banco financiava projetos de distribuição de energia. Quando ele falou isso, eu estava com aquilo na cabeça, do tempo da diretoria. Quando ele falou em distribuição de energia, eu olhei para a cara dele... Eu não sei jogar pôquer; pela minha cara você vê se eu estou gostando ou não. E ele era grandalhão, parecia um cantor mexicano. Cabelo aqui [faz o gesto até debaixo das orelhas], ondulado nas pontas. Morenão, grandão. Bateu na mesa e disse assim: “O que foi, menina? Eu disse alguma coisa errada?” Digo, vai ser a minha passagem meteórica; chego e saio. Oi, tchau. Disse: “Não senhor, é que eu não sabia que o banco já financiava linha de distribuição.” “Como assim?” “Antigamente só financiava linha de distribuição, é que eu não sabia que tinha mudado.” “Então faz o seguinte: vai verificar. Se não financia, faça a carta dando um ‘não’ redondo, dizendo que não financia.” “Sim, senhor.” Ditou o resto lá. Umas outras que ele teve dúvida ele deixou para responder. Aí eu herdei aquela droga daquela pasta inteirinha para fazer as respostas, porque realmente não financiava linha de distribuição. Eu fiz aquela resposta redondinha, e com isso eu herdei aquela pasta para responder tudo. Foi de lascar.   

 

P/1 - Trabalhão.

 

R - Trabalhão. Ele sempre me tratou muito bem. Acontece que quando eu saí de licença de gestante, para ter minha primeira filha, o chefe de gabinete era o Raimundo Cabral, que era uma pessoa ótima. Eu gostava demais dele, era uma pessoa que conhecia muito o banco. Competente. E eu me dava às mil maravilhas com ele. Quando o Cabral tinha que ir à Brasília, ou tinha que resolver alguma coisa em Minas - ele era mineiro -, eu trabalhava em dupla com ele. Chegava processo e eu via. Se fosse urgente, eu lia, fazia uma proposta de despacho e já deixava pronto. Ou para ele despachar com o presidente no dia seguinte, ou, se fosse alguma coisa muito urgente, eu ia falar com o presidente, então a gente trabalhava ali certinho.

Soube que o pessoal da secretaria particular tinha de alguma maneira provocado a saída do Cabral, eu achei meio traiçoeiramente. Fiquei pensando: “Se fazem isso com o Cabral, o que não vão fazer comigo?” E eu sou daquelas que se quer me almoçar eu vou embora porque eu não estou a fim. Fiquei pensando, via quem ia para o lugar, aí pensava: “Não vou gostar de trabalhar com fulano.” Quando eu voltei era aniversário do superintendente, que tinha sido chefe de departamento. Era o Genival Santos. Eu fui lá, cumprimentei o doutor Genival pelo aniversário, e ele disse: “Onde você está?” “Estou indo para a seção de pessoal agora.” “Por que?” “Porque eu estou voltando de licença hoje.” “Mas você não está lá na presidência?” Ele estava habituado, quando ia despachar, a me ver lá. Eu disse: “Não, senhor. Eu não quero ficar lá, não.” “Mas por que?” Remanchei, remanchei, e no final acabei dizendo a ele o porquê. Ele disse: “Então faça o seguinte: bata um memorando para a seção de pessoal avisando que você passa a ser notada aqui a partir de hoje.” Aí eu fiquei com o doutor Genival.

Teve uma vaga de assessor do Conselho de Administração. Em vez de ser só secretária, eu já estava trabalhando com o chefe de gabinete, para preparar despacho dos processos. O doutor Genival propôs e meu nome foi aceito, aí eu fui ser assessora do Conselho de Administração.

 

P/1 - Dona Gilda, a gente tem pouco tempo agora, e eu queria que a senhora me comentasse um pouco sobre a coordenação da Área de Projetos-I, e da Área de Projetos-II, que foi o trabalho que a senhora gostou.

 

R - Essa foi outra pessoa que me botou muito para frente. Da última vez que eu saí da assessoria geral dos colegiados, eu já não aguentava mais. Ouvir falar em reunião me dava até alergia. Então eu falei com o presidente do banco, que era o doutor Marcos Vianna, e disse que não dava para ficar mais lá, não. “Mas eu estou reestruturando o banco inteiro e eu não ia mexer lá.” “Não faz mal, eu posso deixar uma pessoa temporariamente no lugar, que saiba fazer o serviço. Se o senhor quiser ficar, fica; se não quiser, bota outra pessoa. Mas eu não aguento ficar mais lá, não.” Ele disse: “Tá bom, mas e aí?” “E aí eu não sei, mas eu vou para qualquer lugar. Vou entrar em férias e quando eu voltar vou para qualquer lugar.”

O Delson, que estava trabalhando comigo na assessoria dos colegiados, estava ligado também àquela empresa, com a Booz Allen, que estava reestruturando o banco. Estavam precisando de mais uma pessoa lá embaixo e o Delson disse assim: “Por que você não coloca a Gilda?” “A Gilda não vai querer. Vai passar de cavalo para burro?” “Vai querer, sim. Ela não quer mais cargo de chefia, não.” Aí eu fui para a Booz Allen, fiquei ali com o Delson. Depois, quando a Booz Allen terminou o serviço, o Armando Alencar me chamou para ir para o departamento dele, que era na área de planejamento, trabalhar com orçamento. Eu fiquei trabalhando pouquinho tempo com a Sônia Fonseca, que era gerente. Depois ela saiu e veio a Nanete, que eu também já conhecia de muito tempo. Trabalhei muito tempo com a Nanete. Aí o Abade me chamou para o gabinete dele. Ele era diretor da Área de Projetos-I, aí fiquei no gabinete dele.

Precisaram substituir o coordenador porque ele ia precisar fazer um trabalho em São Paulo e eu fui para a coordenação para ficar dois ou três meses, contra a minha vontade. Eu não queria ir de jeito nenhum, mas ele pediu que fosse porque estava com problema para preencher o cargo, e eu fui substituir o Romeu, que era o antigo coordenador. Só que quando o Romeu voltou, ele foi convidado a ser superintendente da Fundação e eu acabei ficando na coordenação. Depois, o doutor Marcos resolveu fazer um rodízio de áreas para não deixar sempre o mesmo diretor na mesma área. Aí, eu passei da P-I para a P-II, porque o Abade passou para a P-II.

Não era para levar ninguém. mas o Abade falou com o doutor Marcos que ele só podia ficar sossegado se eu fosse para lá, porque eu era a pessoa de confiança dele. O outro ele não tinha nada contra, mas não era a mesma ligação que tinha comigo. Ia ficar longe da sede, então precisava ficar com uma pessoa que fosse ligação dele com a área. Doutor Marcos concordou, então eu fui para a P-II com o Abade.

 

P/1 - E nessa área que a senhora se aposentou?

 

R - Eu me aposentei nesse mesmo cargo. Acho que fui recordista de permanência nesse cargo. Até eu sair, nenhuma mulher tinha sido coordenadora.

 

P/1 - Foi a primeira.

 

R - É. Ali eu tinha muita delegação. Por exemplo, a parte de promoção na área, quem fazia reunião era eu; a parte de serviços de apoio era comigo; controle de orçamento, comigo; liberação de recursos, só ia para o financeiro depois que eu endossasse. Lógico que eu não endossava por minha conta, era seguindo a orientação deles, mas enquanto eu não assinasse, não saía. É nessas horas que a gente tem que ser honesto, e nessas horas eu fui, e ninguém pode levantar nem poeira.

Fiquei nisso até fazer a mudança para a Avenida Chile. Eu pedi ao doutor Luís Carlos, que era o nosso diretor da área de administração, para antecipar um pouco a nossa mudança, porque eu queria fazer a mudança antes de [me] aposentar.

 

P/1 - E foi difícil aposentar depois de trinta anos de trabalho?

 

R - Não foi difícil, não. Difícil é a gente administrar o tempo, porque hoje em dia eu paro para ver quanta coisa eu fazia em uma hora de almoço. Às vezes a gente tinha que resolver problema e nessa uma hora a gente saía, rodava rapidinho e voltava.

Eu sempre tive muita responsabilidade com problema de horário, por formação e porque se eu tinha que controlar o horário dos outros, eu tinha que ser a primeira a dar o exemplo. Se tinha que chegar às nove e meia, você podia me procurar às nove, nove e pouco, que eu já estava lá. Quando troquei de área então, comecei a chegar oito e pouco, porque a outra eu conhecia pelo avesso, e eu estava pegando uma nova, [em] que eu não conhecia nada, então eu ia mais cedo para poder me atualizar.

 

P/1 - Dona Gilda, e a dupla jornada casa e trabalho? Como a senhora conciliou o trabalho de casa com...

 

R - Eu fui muito protegida por Deus, porque eu tive umas empregadas fabulosas. Eu tive uma empregada que ficou comigo dez anos, que tinha até o segundo ano ginasial. Quando ela saiu, deixou a irmã dela, que não era tão instruída, mas era uma santa criatura. Então eu tive tranquilidade para trabalhar, ter os filhos dentro de casa e minha casa andar direitinho.

 

P/1 - Quantos filhos?

 

R - Três.

 

P/1 - Os nomes?

 

R - Beatriz, Sílvia e Ricardo.

 

P/1 - Dona Gilda, se a senhora pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória, o que a senhora mudaria? Ou não mudaria?

 

R - Acho que eu não mudaria, não.

 

P/1 - E o que o BNDES representa para a senhora?

 

R - Você nem imagina. Se você me perguntar o melhor marido do mundo, é o BNDE. Segunda mãe, segundo pai, BNDE. Porque eu venho de origem humilde. O que eu tenho é por causa do banco.

E dizer para você que eu tenho que me queixar de A, B ou C, não. Umas duas ou três pessoas que tentaram me prejudicar de alguma maneira deram com os burros n’água, porque teve mais gente que me defendesse. Então vou me queixar de que? Nunca fui tratada com preconceito por ser mulher. Quando tentaram invocar porque eu não tinha curso superior também não deu em nada, porque eu não estava no cargo porque eu queria, eu pedi para sair várias vezes. Não aceitavam minha saída. Então, paciência. E não devia estar dando errado porque eu fiquei sete anos no mesmo lugar. Então não tem queixa, de jeito nenhum. Correu tudo bem, são boas lembranças.

 

P/1 - E o que a senhora acha do projeto BNDES 50 anos, e o que a senhora achou de ter prestado esse depoimento?

 

R - Achei legal à beça. A única queixa que eu tenho do banco é uma que eu tinha comentado. É o problema de tratamento dos aposentados que estão dando de uns tempos para cá. Nós contribuímos em cima de gratificações periódicas que nós tínhamos em função de produtividade do banco, então, passamos a contribuir com um percentual em cima disso para não perder o direito quando aposentasse. E para surpresa nossa, de uns anos para cá, desde o presidente [Luiz Carlos] Mendonça de Barros, desde esse presidente começaram a dar o nome de participação nos lucros e dar só para os da ativa, e esquecer dos aposentados em casa. Quer dizer, se não tivesse esse precedente de você contribuir sobre essas gratificações, ninguém podia reclamar de nada. Nós não estamos trabalhando para o lucro de agora, mas nós semeamos antes. Semeamos, regamos, podamos, fizemos tudo. Não estou tirando valor de quem está lá agora. Quem está lá hoje se esquece que amanhã vai estar na Fundação.  

 

P/1 - E fica registrado aqui.

 

R - Fica registrado. O tempo todo que eu trabalhei no banco, os trinta anos, eu nunca assinei ação nenhuma. Primeiro porque eu também trabalhava com a administração. Como é que eu vou trabalhar na administração, em cargo de confiança, e ir contra eles numa ação? Infelizmente, depois de aposentada, depois desse tempo todo, eu já entrei em duas. De repente entro na terceira.

 

P/1 - Fica registrada a sua...

 

R - Porque acho que é um direito que me assiste e que estão tirando.

 

P/1 - Claro. Dona Gilda, muitíssimo obrigada pela sua entrevista.

 

R - De nada. Quando eu for para a Globo, vocês me dão uma cartinha de recomendação. (risos)

 

P/1 - (risos) Com todo o prazer.


 

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