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História

A prestação de contas com a criança interior

História de: Pedro Cezar
Autor:
Publicado em: 02/07/2020

Sinopse

Como parte do processo  do filme Pessoas, um dos diretores do longa-metragem, Pedro Cézar nascido no Rio de Janeiro volta pra sua infância criado em Pernambuco e nos conta de como foi criado pelos seus avós e e como viu a palavra mãe sumir do seu dicionário, da relação exótica e conturbada com o seu pai. Vemos o início da sua vida amorosa e o descobrimento de sua própria sexualidade, de forma bem atormentada, acentuada por um machismo predominante na região e na época. Pedro então nos mostra a fascinação que ele tem com o mar, que foi um elemento que tanto o ajudou com problemas respiratórios, como o abrigou numa paixão que durou muito: O surf. Pedro então mostra todo esse cenário que foi o surfe da sua trajetória de quase se tornar surfista profissional e como trocou as pranchas pelas câmeras e o caminho no audiovisual que começou a trilhar a partir daí até culminar no encontro com Manoel de Barros, seu ídolo de poesia, onde fez um documentário sobre ele. A entrevista de Pedro  é marcante não só pelo que conta, mas principalmente pela forma poética como tem de narrar a si mesmo.   

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História completa

Eu tenho uma filha, ela é Julia Mares e eu botei Mares em gratidão ao mar, o cara do cartório me perguntou assim: “Por quê que você tá colocando isso?”, eu falei: “Por gratidão ao mar, Julia Mares por gratidão ao mar” Esse nome é somente por conta disso,  mas eu não fiz isso à toa,  fiz isso porque o meu pai fez isso comigo. O meu nome é Pedro Cezar e o meu pai, um dia eu perguntei pra ele: “Por que eu me chamo Pedro Cezar?” “Porra, bicho, você nasceu de cesariana, eu tasquei um Cezar” eu nasci de cesariana e por isso eu sou Pedro Cezar.

 

 Eu tinha pais, mas fui criado pelos meu avós, e perguntava assim pra minha vó: “Cadê a minha mãe? Quem é a minha mãe? Eu lembro uma vez que eu ensaiei, que eu chamei a minha vó de mãe, assim, de uma forma muito espontânea e eu lembro que ela deu a resposta mais genuína, sincera e mais difícil, assim, de decupar, que ela me tratou do jeito que ela sempre me tratava (risos), ela falou assim: “Meu filho, eu não sou sua mãe, eu sou sua mãe duas vezes, eu sou sua vó, a sua mãe está estudando no Rio de Janeiro”. A partir daquele momento, nunca mais eu pronunciei a palavra mãe.

 

Nasci no Rio, mas me criei em Pernambuco, em Candeias. Candeias  é essa praia que não tinha asfalto, que não tinha nada,  ali eu me invento pro mundo como um cara que gosta de mar, de surfe, de poesia, de natureza e a partir dessa auto invenção, dessa constituição, desse lugar, eu vou atrás de todas as coisas que esse mundo fornece, da  poesia, o surfe, essa ligação mais próxima com a natureza. Eu tive de buscar a praia pra não morrer de asma, eu tinha muita asma, muita asma, muita asma, eu tenho muita lembrança com a porra de um aparelhinho no hospital,  toalha com álcool pra poder respirar, respirar! Então foi mar, mar, e mais mar pra eu não morrer, e sim existir. O mar tem essa força.

 

O mar em Candeias,  ele tinha umas ondinhas ótimas pra uma criança aprender a surfar assim, bem pequenininhas, mas é uma maré que seca totalmente, que é um fenômeno mais do nordeste, acho que de uns lugares mais perto da linha do Equador. A maré, quando seca, você anda na areia e a maré quando enche,  se transforma, o mar pode ficar irreconhecível, o mar seco ou o mar cheio. A gente não fala maré lá, o mar tá seco, o mar tá cheio. Bem, aí o mar seco, você anda e mergulha numas pocinhas nos recifes, nas pedras, você mergulha ali, pega lagosta, pega peixe, pega de arpão ou pega na mão assim, a lagosta, você vê os fiapinhos assim, aí você vai lá e puxa, pega ela viva, ela se debate, você bota assim, leva pra casa, joga na água quente, cozinha e come a lagosta. Então, tem essas pocinhas e quando a maré enche, tem umas ondinhas, né? Agora atrás dos arrecifes, tem uns fundos de pedra pra quem pega onda também, entendeu? Então eu fui descobrindo isso depois, é uma onda mais forte, mais potente e tal. Esses níveis também do surfe, eles vão aparecendo também depois de um tempo, né? Mas Candeias nessa época era um paraíso sem os tubarões. Candeias começou a ser um dos locais mais letais e que tem mais ataque de tubarão depois do final dos anos 80, quando se constrói um porto, que segundo os biólogos e tal, mexe bastante com a cadeia alimentar, com as comidas, não sei o que e aí, os tubarões começam a aparecer.

 

Eu cheguei a participar de circuitos fora do país, viver de patrocínio, mas não ganhava os campeonatos,  era muito elogiado, eu era um surfista que eu achava que eu era bom. Teve um momento que eu percebi assim: se eu for um grande competidor, eu serei um cara mediano, eu não vou ser assim, eu não vou estar ali na nata, mesmo, eu não vou ser entre os primeiros, e  aquilo não me seduziu. depois, eu pensava que seria bom fazer parte ali daquela coisa. Foi uma desilusão, umas noites de tormenta, mas foi bom também o surf sair dessa necessidade de profissão e ir pra outro lugar. E ao mesmo tempo estava esse interesse por ler, por escrever, por contar, por mostrar, por fazer os vídeos. Eu chego com 21 anos e volto com essas imagens todas, então fui procurar uma maneira de como é que junta isso, entendeu? Quem edita isso? Aí, eu comecei a  descobrir um monte de coisas, como é que mostra isso? “Poxa, você tem sete horas de VHS filmadas, tem um campeonato de Bells Beach filmado, tem o campeonato, campeonatos da Califórnia, o OP e o Ocean Side, um monte de coisa, eu me vi com aquele arquivo, com aquele material grande, mas como botar isso no mundo? Como fazer isso ventilar ? Comecei  a ter muito interesse pelo contar, pelo fazer e o meu jeito foi muito de fazer por mim mesmo, com o contar, com narrar, eu ia adquirindo as coisas assim, mergulhando na prática da coisa, no fazer da coisa. E depois, de uma forma periférica, eu ia descobrindo a teoria sobre as coisas, e então, ia adquirindo consciência sobre… ia pegando, assim, colando histórias do porquê eu fazia isso, né, parece que a gente… se a gente não souber dizer, a gente não sabe. Parece que se a gente não souber contar a nossa vida, a nossa história, a gente nem sabe se ela existe, é muito poderosa essa coisa do contar,

 

 

Eu fui ficar com tia Avelina  que era uma velhinha de 90 anos. De repente ela pergunta e começamos a falar de poesia,  de sonetos contemporâneos, coisas que ninguém ouve falar assim, autores de 1900 e pouco, meio obscuros, gente que não ficou muito conhecida, mas que fez um livro incrível. ela declamava as coisas. Ela falou assim pra mim: “Eu tenho um poema, eu fiz um verso, uma vez, eu fiz um soneto que é assim "Sou um pequenino broto de uma frondosa árvore, cujas raízes perderam-se no âmago da terra. Minha pátria é o universo, cuja deusa poesia fez-me amante de seu verso para cantar a alegria do viver. Hoje, sou apenas uma folhinha sumindo, sumindo até no universo se perder”. Uau, fiquei tão impressionado que anotei essa parada, anotei esse negócio e durante um tempo,  ele ficou dentro de mim, entendi o que significa decorar. Decorar vem do latim decorãre, é guardar no coração... Um belo dia, Ronaldo Duarte me liga e fala  que está muito triste que a tia Avelina morreu, fiquei bem chateado também e falei dos dias que passei com ela, das conversas que tive com poesia e contei que tinha decorado um poema incrível dela, ele pegou um papel, eu recitei, ele anotou!  Um dia, ele me ligou e falou assim que foram no enterro e esse poema foi parar na lápide dela. Esse telefone sem fio realmente me chocou, e nesse momento eu senti que prestava para alguma coisa.

 

 

“O esplendor da manhã não se abre com faca”, são essas maravilhas que  vemos logo de cara do Manoel de Barros, fui buscá-lo no aeroporto pra fazer um recital. Nesse recital, falei um poema, ele tava na plateia me vendo dizer, eu acho que a partir dali, ele começou a confiar em mim, eu acho que eu despertei a confiança dele,  eu lembro dele pegando a minha mãozinha assim e eu achava que ele era o cara mais crítico do mundo, entendeu? Ou talvez ele tenha falado isso até por misericórdia, né, para dar uma força. Eu sei que ele, puta, me empurrou, assim, sabe? Me deu um gás danado, ele pegou na minha mão, assim, falou assim: “Pedro, você foi perfeito”? A aprovação dele, aquele cara que eu tinha uma puta admiração assim, e ali começou uma relação que depois desembocou num filme sobre ele. Mas um filme, um audiovisual que nasce muito de uma relação eu acho muito fértil, muito fecunda, muito interessada no que ele tinha escrito, entendeu? Nas coisas que ele tava contando e ele, engraçado, eu tenho um link com o Manoel que é o mar. Eu fazia umas coisas, pegava umas imagens lindas, assim, de uns filmes de surfe, retirava elas daquele contexto, botava umas frases malucas que eu criava, umas sonoridades  mandava pra ele, ele assistia, e mandava uma cartinha pra mim falando: “Esse caminhar nas águas”, ele nem sabia o que era surfe. Mas a gente, também, estabeleceu um link assim, pela água, pelo imagético, pelo mar que não era um elemento tão fundante assim, tão forte na vida dele, mas que é na minha e que ficou na nossa, na minha e na dele, aprendi muito com ele.

 

Aliás, eu acho que a melhor coisa de estar vivo que eu ainda lembro também do período da infância é quando se aprende uma coisa nova e começa a rir e às vezes, eu ensino uma coisa assim pra um filho, sabe, agora mais pra Julia que tá com essa idade, eu ensino, ela aprende o mecanismo de alguma coisa, ela dá uma gargalhada. A gargalhada de quem acabou de aprender alguma coisa, eu… Isso eu quero pra sempre. É o seguinte, eu acho que todo mundo  merece um momento na vida ou vai ter um momento na vida que é tipo um juízo final, eu acho que todo mundo vai ter um momento na vida que vaio ter uma fotografia de criança, uma fotografia de infância olhando pra ele e perguntando: “O que fizeste de mim?”, acho que todo mundo deveria, assim, se inventariar dessa forma, pegando a criança da infância, olhando para a pessoa e perguntando assim: “O que fizeste de mim?”. E aí, cara, eu quero estar preparado para esse momento, entendeu? Quero ter boas coisas pra… eu acho que eu até tenho aí a foto dessa criança e eu quero sempre poder prestar contas pra essa criança que vai estar sempre perguntando: “O que fizeste de mim?”. E todo mundo foi criança, Hitler, Lenin, Lula, Moro, todo mundo, todo mundo foi criança, entendeu? E eu acho que talvez, a vida fosse mais legal e mais civilizada se todo mundo prestasse contas a essa foto, a essa criança perguntando assim: “O que fizeste de mim?”

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