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História

A potência "gringa" no Brasil

História de: Gercino Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/03/2021

Sinopse

Evolução da indústria brasileira. Indústria automobilística. Desenvolvimento de técnicas em automóveis. Abertura da Volkswagem em Taubaté. Memórias de mudança. Orgulho do trabalho.

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História completa

P/1 – Para começar, diga o seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Gercino Inácio de Oliveira. Nasci no dia oito de julho de 1939, em Solidão, Pernambuco.

 

P/1 – Gercino, você quer falar um pouquinho da sua infância pra gente?

 

R – Minha infância foi meio difícil. Meu pai e minha mãe, naquela época não existia televisão, então eles tinham tempo bastante pra se divertirem, tanto é que nós somos quinze irmãos. (risos) O que tinha um ano mais velho cuidava do mais novo. E assim foi a infância. Mas foi muito bonita. A criançada se divertia e tinha uma vida gostosa. A gente morava na roça. Eu tive vida boa. Não posso reclamar muito, não. Era tranquilo. Depois, o que marcou muito, o que judiou muito, foi que quando eu tinha 13 anos, eu perdi meu pai.  Já tive que assumir uma responsabilidade a partir dali.  Já na adolescência já tive que começar a assumir a responsabilidade da casa junto com meus irmãos e andar, sempre pra frente. 

 

P/1 – Gercino, você nasceu numa cidade com um nome tão interessante: Solidão. Como era o cotidiano dessa cidade? As brincadeiras que você fazia?

 

R – A cidade, inclusive, quando eu nasci... Ela passou a ser cidade depois, era município de Itabira. Itabira era a cidade e ela era um município de Itabira. Solidão passou a cidade depois. Nós tínhamos... Como eu falei, nós morávamos no sítio. Pra Solidão eram uns dois quilômetros, dois e meio, mais ou menos, então, pra ir pra escola, tinha que andar esses dois quilômetros e meio. Morávamos numa chapada, mais ou menos uma parte alta, uma serra, e a cidade ficava em baixo. Eu tinha que subir e descer aquela serra todo dia para ir para a escola. 

 

P/1 – Qual a primeira memória que você tem do seu período escolar?

 

R – Eu sei que eu gostava muito de estudar. Às vezes, quando eu voltava da escola e ia ajudar meu pai trabalhar na roça, fazer alguma coisa, eu me preocupava em levar um papel na mão e, quando pegava uma sombrinha, sentava lá na sombrinha, tirava o sapato, pegava e ficava escrevendo. Apoiava na sola do sapato o papel e ficava escrevendo alguma coisa. Gostava de estudar naquela época. Então, eu tinha pena de... Isso é o que eu lembro da escola, do estudo. 

 

P/1 – Até quantos anos você ficou em Solidão?

 

R – Uns catorze anos. Eu mudei pra São Paulo, mas eu fui morar em Tupi Paulista, uma cidade da Alta Paulista, quase divisa com Mato Grosso, lá em cima. Minha irmã morava lá, era casada, eles trabalhavam também na lavoura. Eu fui pra lá trabalhar com eles e fiquei uns dois anos em Tupi Paulista. Depois desses dois anos, eu vim pra Santo André. 

 

P/1 – Como é que essa trajetória? Saiu de Solidão, foi pra Tupi Paulista e Santo André. Quais foram as mudanças? O que você notou?

 

R – As mudanças... Lá a vida era mais difícil, você não tinha as facilidades que você encontrava por aqui. Em Tupi Paulista, já era um pouquinho mais… Era uma cidade maior, um lugar melhor. Então, eu me sentia bem. Apesar de que era uma saudade danada. Fiquei dois anos aqui sem ver minha mãe e meus irmãos. Era uma loucura. Deitava pensando: “Será que vou ver minha mãe?” Nisso eu fiquei dois anos. Depois de dois anos eu fui até lá e voltei para Santo André. Aí já comecei a trabalhar, casei em 1961 e fiquei morando aqui em Santo André até 1975, quando eu mudei pra Taubaté. 

 

P/1 – Como você conheceu sua esposa?

 

R – Eu te falei, marquei aí que nós trabalhamos na Swift. Então, quando eu trabalhava na Swift, eu trabalhava em balança, fazendo pesagem de mercadoria. Ela trabalhava no período do dia e eu trabalhava no período da noite, no mesmo serviço. Começamos a conversar, um olhou para o outro e gostou... (riso) Nós começamos namorar e esse namoro foi rápido. Nós começamos a namorar em 1959, fim de 1959, e em 1961 nós casamos. 

 

P/1 – E qual era a diversão da juventude? O que você faziam?

 

R – Cinema. Ia muito ao cinema ou a algum show. Tinha muito artista que fazia show no cinema. Você ia ver esse show. Em vez de eles ficarem na TV, eles iam direto ao auditório do cinema. Então, o pessoal ia pra lá assistir esse show. 

 

P/1 – E teve algum show que marcou?

 

R – Sou meio esquecido dessa parte. Eu gostava muito de ir ao cinema. O que eu lembro que eu gostava muito, principalmente no cinema... Passou um filme que até hoje, quando passa alguma coisa em preto e branco, eu já vou assistir. Era “Sissi e seu Destino”, “Sissi a Imperatriz” e “Sissi uma outra coisa”, que até esqueci. Eram três. Era uma coisa linda. Era uma história romântica, uma coisa muito bonita. Então gostava de assistir. 

 

P/1 – Como é que começou a sua trajetória profissional? Quando você chegou em São Paulo, veio fazer o quê?

 

R – Quando eu cheguei em São Paulo, eu comecei a trabalhar. Eu vim a fim de trabalhar. Eu queria trabalhar, mas não tinha experiência profissional nenhuma.  Então eu comecei a trabalhar nessa empresa que eu te falei, de esmaltação. Esmaltava peças de fogão, essas coisas. Trabalhava só com esmalte mesmo, tintas. Eu trabalhei um tempo lá, pouco tempo, aí o meu tio que trabalhava na Swift falou: “Vou arrumar um serviço pra você.” E arrumou pra eu trabalhar na Swift. Eu trabalhei na Swift durante um ano, mais ou menos. Eu estava falando que eu trabalhei na balança, mas eu trabalhei pouco na balança, porque daí a pouco eu comecei a... Eu era um moleque meio esperto. O pessoal percebeu que eu tinha um potencial, então eles me passaram para a seção de salsicharia para tomar conta de uma área onde trabalhavam umas dezoito, vinte pessoas, mais ou menos. Eu trabalhava com esse pessoal e então passei a encarregado daquela turma. Trabalhei um ano, mais ou menos. Mas como todo jovem é meio esquentado... Eu estava muito bem nessa empresa, o pessoal gostava muito de mim, mas, um dia, um superintendente da empresa, que seria o presidente, vamos dizer, aqui no Brasil, era um senhor americano, Mister Alliger. Ele um dia passou e tinha quebrado uma maquininha, e as meninas ficaram tirando aquela pele da salsicha pra fazer enlatado na mão. Algumas tinham que tirar na mão mesmo. E ele, não sei por quê, chegou lá e: “Quem mandou fazer isso?” Falei: “Fui eu que mandei fazer” “Pára. Pára.” “Não, agora só vou parar com ordem do meu chefe, você não é meu chefe.” (risos) Aí, ele foi embora, porque ele estava de passagem pelo Brasil, só que ele falou: “Eu não quero esse menino trabalhando aqui.” Aí, eu saí de lá. Eu fui depois pra Mercantil Suíça Comercial S/A, em São Bernardo. Também, eu comecei na Mercswiss... Praticamente, o que eu conhecia de metalúrgica era o que eu conhecia de esmaltação, mas quando eu cheguei lá, logo no começo, fiz uma ficha e comecei a trabalhar. Fiquei responsável pela área de estamparia, de forjaria. Então, eu fiquei três anos lá e só saí daquela empresa realmente... Eu gostava muito da empresa, na época eu tinha um privilégio bom, me tratavam muito bem, mas a empresa chegou num ponto em que ela estava falindo. Era um dono único, os filhos não gostavam e não tinha ninguém pra dar um empurrãozinho, pra não deixar a bola cair. Caiu a bola, e então eu saí. Por isso que eu saí dessa empresa pra Vemag.

 

P/1 – E como é que foi essa experiência na Vemag? Como você entrou na Vemag?

 

R – Na Vemag foi interessante, porque eu nunca tinha ido a uma empresa automobilística. Nunca tinha parado numa empresa automobilística. Mas quando eu fui à Vemag, ela era muito rigorosa para a seleção de pessoas. Muito rigorosa. E estávamos lá umas sessenta, setenta pessoas fazendo ficha, e a ficha seria um currículo, uma ficha técnica para ingressar na empresa. Fazia uma ficha e depois iam fazendo uma avaliação, uma sequência de testes e, dentro desses testes que você ia executando, você ia sendo avaliado. Demorei acho que uma semana, todo dia fazendo uma coisa. Quando eu passei lá e vi que estavam precisando de prensista, eu falei: “Isso eu conheço.” Então, fiquei mais ou menos uma semana, consegui ficar dentro daquele grupo que foi selecionado. Mais ou menos 10% do pessoal que era entrevistado fez os testes e ensaios e foi aprovado. Fiquei dentro daquele pessoal, então comecei vida nova numa montadora.

 

P/2 – E o que a Vemag fabricava?

 

R – A Vemag era uma concorrente da Volkswagen. A Volkswagen, lógico, tinha um patrimônio diferente, era uma empresa grande, e a Vemag era uma montadora que fabricava mais ou menos cinquenta, sessenta carros por dia. Fabricava a Vemaguet, fabricava o DKW. Era o carro preferido dos motoristas de táxi. Um carro com motor de dois tempos. Vemaguet era uma peruazinha, um carro muito bonitinho. Era pequenininha, mas era uma pedrinha no sapato das outras. A Volkswagen, inclusive, eu acho que não foi só a Vemag que ela comprou. Ela comprou a Auto Union, que era do grupo da Vemag, e assumiu. Pouca gente ficou, não me lembro agora exatamente quantos funcionários tinha a Vemag, mas eu calculo uns três mil, estou chutando. E dessa quantidade de pessoas, acho que não ficou nem 5%. E desses 5%, fui um dos privilegiados que ficou na Volkswagen.

 

P/1 – Qual a primeira memória que você tem da Vemag, do seu primeiro dia de trabalho?

 

R – A Vemag era uma empresa muito boa. Era muito gostoso trabalhar na Vemag. A parte social dela era boa. A única coisa que eu lembro muito bem foi quando... Como eu não estava acostumado com aquilo, quando nasceu a minha segunda filha eu já trabalhava na Vemag, a primeira já tinha nascido, quando a segunda nasceu eu já trabalhava na Vemag. Então eu lembro de quando a Assistente Social da fábrica falou: “Você precisa passar lá no Departamento.” Eu passei lá e me deram um bocado de coisas pra levar pra criança, um enxovalzinho completo. A Vemag, ela fazia muito... Era um pessoal muito católico e eles costumavam fazer missa pra... Como é que chama?  Páscoa “Vemaguiana”. Então, o que era isso? Muitas vezes nós viemos aqui à Igreja da Sé. Alugava o ônibus, vinha até aqui. Depois da igreja, íamos para... Tinha um ponto qualquer, uma organização, e a gente... Não me lembro qual foi o teatro que nós fomos uma vez também. A Vemag oferecia muita coisa. Era muito bom trabalhar na Vemag. A gente se sentia valorizado. Chegava no fim do ano, aquele trem que fazia, tinha um trem que parava na parada Vemag, ele fazia Santos/Jundiaí, não sei se hoje é a mesma coisa. Mas, aquele trem, quando era fim do ano, ele saia até torto. Ela dava uma cesta para cada um, um garrafão de vinho pra todo mundo. (risos) O trem saia de lá carregadinho. Uns iam para São Paulo, outros iam para o ABC. Eu, como morava em Utinga naquela época, também ia. Essa era a minha vida, porque eu comecei a trabalhar e comecei a pegar o trem. Pegava o trem em Santo André e vinha aqui pra Vemag. Então, a vida mudou. Mudou bastante essa parte, mas era gostoso.

 

P/2 – O senhor não tinha trabalhado antes em alguma montadora?

 

R – Não. A primeira montadora foi a Vemag mesmo. 

 

P/2 – E seus colegas na Vemag, eles tiveram algum treinamento específico? Como é que era essa mão-de-obra que começou a trabalhar na indústria automobilística? Que tipo de treinamento?

 

R – Quando você entrava, você já era realmente um... Quando faziam esses testes que eu estou falando, as pessoas já eram pessoas qualificadas, que já conheciam. Mas mesmo assim, você fazia toda a papelada e depois, normalmente, você tinha um treinamento para exercer a função. Você ia conhecer a parte de segurança. Tudo que envolve desempenho, você era orientado. Mesmo no trabalho, quando você ia trabalhar, você era apresentado para os colegas: “Esse rapaz está começando hoje. Ele precisa ajuda de vocês.” Mas tinha um treinamento bom antes. Eu não me lembro se era uma semana de treinamento para a pessoa ir se familiarizando com o grupo. Você se familiarizava com as pessoas... Quando você fazia o trabalho, você já estava qualificado. Era uma qualificação profissional, já conhecia o que você ia fazer. Mas, mesmo assim, era feito um treinamento para você se familiarizar com o trabalho e com os colegas de trabalho. 

 

P/1 – Como foi essa transição da Vemag para a Volkswagen e quando vocês começaram a saber que a Volkswagen ia comprar a Vemag?

 

R – Começou com algumas pessoas, principalmente os gerentes de departamento, as chefias... Eles chegavam assim: “Olha, a Vemag está sendo vendida para a Volkswagen. A Volkswagen vai assumir a Vemag.” E como existia uma pessoa, um engenheiro que trabalhava entre nós e que era uma pessoa muito boa, ele falou: “Eu vou embora.” “Puxa vida. Vai embora?” Ele falou: “Vou, mas você vai ficar.” Eu tive, inclusive, uma oferta boa da Ford. Um amigo que trabalhou comigo na Vemag trabalhava na Ford falou: “Se você sair da Vemag, vai para a Ford.” Falei “Tá bom.” Mas ele: “Mas você não vai, não. Você não vai sair daqui.” Falei: “Não, mas se for preciso, pode deixar que eu saio. Não tem problema nenhum.” Eu já tinha mais ou menos engatilhado, ele falou: “Não. Não. Já está tudo acertado e eles querem que você fique.” Falei: “Tá bom.” A mudança foi assim: quer ficar ou quer sair? Mas já vinha indicado. “Você vai ficar, você vai sair.” Da diretoria não ficou ninguém, mas eles tinham as pessoas que eles diziam: “Eu quero que permaneçam com a gente.”

 

P/1 – Gercino, a Vemag foi à falência?

 

R – Não. Não chegou a ir. A Vemag não foi à falência não. Eu acho que foi uma, eu não posso precisar... Mas eu acho que a Vemag, a Volkswagen comprou acho que por interesse da empresa. Eu desconheço que ela foi à falência. 

 

P/1 – E como é que foi a transição para a Volkswagen?

 

R – Olha, no começo foi um pouco difícil, porque começou a chegar pessoal diferente. As chefias que você... “O que esse alemão vem ver aqui?” No começo foi difícil. Você está acostumado a lidar com outras pessoas e, de repente, chega um outro falando meio diferente, você fica meio embananado no começo. Mas, quando você tem vontade, você se familiariza.  Então, vai se familiarizando devagarzinho, e não demorou muito não, a gente começou a fazer um bom trabalho, uma boa amizade. Tanto que o nosso diretor de fábrica, que era de São Bernardo e veio aqui pra Vemag, depois foi para Taubaté também. Então, a gente teve uma convivência muito boa. Não teve dificuldade não. Na transição eu não tive muito problema, não. 

 

P/2 – E qual era a imagem que você fazia da Volkswagen?

 

R – Eu não sei se a Vemag era tão boa, a gente gostava tanto da Vemag que a gente pensava assim: “Será que a Volkswagen vai ser igual?” E depois eu via... Como eu não conhecia São Bernardo, aliás, eu nunca trabalhei em São Bernardo, eu via aquela gentarada toda e falava: “Aquilo lá é uma loucura. Aquilo não dá pra trabalhar.” Mas depois, quando a gente começou a trabalhar, começou a ver a realidade, a Volkswagen começou a mudar a mente. Eu comecei a entender melhor porque a Vemag... Percebi que a Volkswagen também tinha aquele convívio de família. Então, a gente começou a crescer junto e a perceber que a Volkswagen oferecia coisa além do que a gente imaginava. A gente imaginava uma coisa, mas a Volkswagen oferecia mais ainda. Foi muito bom quando engrenou tudo direitinho. 

 

P/1 – Como é que foi a adaptação com os produtos Volkswagen?Qual foi o primeiro carro da Volkswagen que o senhor teve?

 

R – Como eu sou suspeito de falar de produtos Volkswagen, porque eu sou assim um consumidor Volkswagen. (risos) Meu primeiro carro foi Volkswagen. Para falar a verdade, o único carro que eu usei fora da Volkswagen foi um Ford, um Escort, porque foi quando veio aquela transição Ford – Volkswagen e ficou Autolatina. Então, eu, como aposentado pela Volkswagen, tiro um carro da Volkswagen. E lá, como ficou Autolatina, eu podia tirar ou da Ford ou da Volkswagen. Então, eu tirei um Ford. Mas o produto Volkswagen sempre me inspirou confiança. É fácil se adaptar. Eu percebi que o carro Volkswagen não dava problema. Em toda a esquina você tinha alguém que ajudava e você arrumava uma peça com facilidade. Dos outros produtos, eu não posso falar pelos outros, mas acho que era mais difícil encontrar. E Volkswagen, não. Tinha facilidade para você encontrar peças de reposição. Mas, como eu te falei, eu sou suspeito pra falar. 

 

P/1 – Havia muita diferença entre a mecânica da Volkswagen e a mecânica da Vemag?

 

R – A Vemag, na parte de mecânica, trabalhava com motor dois tempos. Era um motor mais barulhento, mas era um carro bom. Era o carro preferido das pessoas porque gastava pouco. O motor parece que era a óleo ou gasolina.  Sei lá. Eu não entendo muito dessas coisas. E como ficou pouco tempo também, daqui a pouco saiu de linha, e o meu carro quando eu fui pegar já foi Volkswagen, eu não sei avaliar em relação à mecânica. Mas eu acho que tinha sim, diferença. A maior diferença que eu sei foram os motores. Um com motor dois tempos e outro com motor quatro tempos.  

 

P/1 – E até quando você trabalhou na fábrica do Ipiranga?

 

R – Na fábrica do Ipiranga eu trabalhei até 1975.

 

P/1 – E depois de 1975?

 

R – Em 1975, a Volkswagen começou a... Que nós tratávamos da fábrica um, Anchieta, fábrica dois, aqui no Ipiranga, e aí fizeram a fábrica três, que era em Taubaté. Aí me chamaram: “Gercino, o Plásticos vai mudar para Taubaté e você tem opção de ir para Taubaté ou para São Bernardo.”

 

P/1 – E como é que você decidiu ir para lá?

 

R – Taubaté foi uma loucura. (risos) Taubaté foi desafiador. Nós fizemos um treinamento com algumas pessoas vindas de Taubaté aqui para São Paulo, principalmente, na minha área, que era a Injeção de Termoplásticos, e nós contratamos umas quinze ou vinte pessoas, mais ou menos, de lá. Fizemos treinamento aqui, não me lembro se por um ou dois meses. Sei lá. Não estou lembrado agora, e depois começamos mudar para Taubaté. As máquinas daqui eram desmontadas aqui, iam pra Taubaté, ligavam, começava a funcionar e já faziam peças. Mandava as peças para São Paulo, para montar carros. 

 

P/1 – Gercino, oficialmente, a fábrica de Taubaté foi inaugurada em 1976?

 

R – Exatamente. 

 

P/1 – Em 1975 você foi para Taubaté?

 

R – Não. Na realidade, eu mudei dia catorze de janeiro de 1976 para Taubaté. Só que, no final de 1975, eu sozinho já fui para lá e minha família ficou aqui. Fui para começar a receber as máquinas e começar a implantar a instalação das máquinas. 

 

P/1 – Como foi essa instalação?

 

R – Foi difícil. Porque lá você chegava e, no dia que chovia, você tinha que sair pulando por cima das coisas com cuidado para não cair, porque tinha barro para tudo quanto é lado. Sapato todo vermelho de barro. Você tinha que deixar o carro lá na beira da estrada, antiga Rio-São Paulo, porque não dava nem pra descer com o carro. Quando estava seco, você ia lá perto das máquinas, mas quando não dava, quando estava chovendo, era terrível. Depois, as alas estavam vazias. Começaram a colocar uma máquina numa ala enorme e então você não percebia muito a distância que existia naquela fábrica vazia com itens pequenos. Então, nós começamos a pôr as injetoras, as máquinas menores e, numa sequência, as maiores, até chegar às últimas máquinas que foram sendo instaladas. Eu fiquei lá e comecei. A produção fui eu que comecei naquela fábrica do zero. Não tinha nada. Começou a mudar também a fábrica de hot stamp. Ficou comigo. A parte de pré-montagem de conjuntos, caixas de ar, difusores de ar, começamos a mudar, então, ficou tudo comigo. Depois começou a mudar a tapeçaria também, a parte de tapeçaria. Algumas montagens de Tapeçaria. Na realidade, no começo, o telefone da fábrica ficava na minha mesa, mas mesmo no início, quando começamos, não tinha nem lugar para pôr a sua pasta. Pegávamos aqueles painéis... O painel da máquina é que servia de escritório, no início. Era primitivo. Não foi brincadeira, não.  

 

P/2 – Eu queria voltar um pouquinho. Você falou em Injeção...

 

R – Injeção Termoplástica. 

 

P/2 – Quando você começou a trabalhar com isso?

 

R – Em 1969, nós começamos aqui na Vemag, na fábrica dois. Ou melhor, já não era Vemag, já era Volkswagen, fábrica dois. Nós tínhamos três injetoras onde se injetava manoplas, aquelas manoplas de acionamento dos bancos, e alguns outros itens. Aquela saída de ar que usa na perua Variant, não sei se vocês conhecem, onde tem aquela saída de ar. Itens que fazíamos com as três injetoras. Eu trabalhava na parte de estamparia e comecei a olhar também a parte de plásticos. De repente, começou a crescer, crescer e eu tive que sair da estamparia e ficar só no pástico. O plástico cresceu, cresceu e aí também já não tinha mais lugar para crescer. E nós mudamos para Taubaté. Lá em Taubaté, nós tínhamos realmente uma fábrica de plástico, que hoje está desativada. Praticamente terceirizou tudo, mas, naquela época, quando eu saí da Volkswagen, em 1988, nós estávamos já com 61 injetoras, se não me engano.  Era uma fábrica de plástico. 

 

P/2 – Você falando, e nós estamos chegando de Taubaté, eu vi essas máquinas injetoras à venda. E eram muitas máquinas. Estavam realmente sendo totalmente desativado o setor. E, realmente, você vê na história dos carros que o material plástico foi tendo uma parte grande dentro do carro. 

 

R – Sem dúvida. 

 

P/2 – Você lembra qual foi o primeiro carro que usou plástico?

 

R – Olha, eu acho que desde o Fusca já usava.

 

P/2 – Onde?

 

R – Porque essa manopla do banco que eu estou te falando, a manopla de acionamento do banco, uma bolachinha redonda que ficava aqui, de acionar, ela já era de... Da Brasília, do Fusca... E depois tinha também uma tampa de acoplamento do câmbio e um tampão também. Tinha a tampa de acoplamento e o tampão de acoplamento que ia no assoalho do porta malas, se não me engano. O Fusca já usava. Pouquinha coisa, mas já tinha. Depois, quando começou... Cresceu muito o consumo de plástico. Foi quando começou a Brasília. A Brasília disparou. Começou a usar peças plásticas à vontade. Caixas plásticas de ar, difusores de ar, aquelas coisas do farol, que antes eram feitas em metal, a moldura do farol. Começaram a fazer tudo de plástico. A Brasília, a Variant, era tudo moldura plástica. 

 

P/2 – E o painel?

 

R – O painel era feito de poliuretano. O painel... Na realidade, os carros que vieram a usar painel injetado foram a partir do Gol, já em Taubaté. Inclusive, quando estavam desenvolvendo o painel de plástico, eu até fui fazer rodagem em Teresina, no Piauí. Fui com o pessoal fazer rodagem justamente para aprovação. Porque lá tem a temperatura muito alta. Então, percebi que tem uma diferença de temperatura. Você tem que testar numa temperatura alta e numa temperatura baixa para você ter a média. E lá nós fizemos rodagem para, além disso, medir o barulho. Porque lá, você rodando numa estrada de terra que tem bastante saliências, você pode detectar... A pessoa precisa ser perita na coisa para detectar o que faz barulho, o que não faz e se precisa corrigir alguma coisa. Então, na realidade, o painel foi em 1987, se não me engano, quando nós começamos pra valer com o painel do Gol.  

 

P/2 – Agora, trabalhar na estamparia é completamente diferente de trabalhar na injeção?

 

R – É. É diferente. Na realidade são máquinas... As máquinas na estamparia elas são chapas, porque você trabalha com chapas e no plástico você trabalha com granulado. Você pega, por exemplo, se você quer fazer uma peça injetada. Vocês já chegaram a conhecer a Injeção de Termoplástico, não? Então, você pega o quê? Granulado. O granulado você põe lá no funil, tem uma temperatura. Cada plástico tem uma temperatura que você pode utilizar, ele dá o ponto de fusão e com aquele ponto de fusão você injeta a peça. A mesma coisa quando você fala em Termomoldagem. É um laminado moldado, mas quando ainda... Injeção de Termoplástico é justamente isso aí: você pega o granulado, joga no funil, ele passa num cilindro em diversas temperaturas, conforme você quer, 240, 250 graus, para chegar no ponto, por exemplo, de injetar um pára-choque. Vem um torpedo que empurra aquele material dentro da cavidade, dá o tempo de resfriamento e, quando esse resfriamento completa, você tira o produto. Não pode tirar muito rápido, porque você deforma. E também não precisa perder muito tempo. Há um tempo determinado em que você pode usar sem perder hora/máquina, hora/homem. Aproveitamento de tempo. Você tem que ver o tempo certinho para o resfriamento e a peça tem, também, que ser compactada. Você tem que por um recalque. Além de uma pressão de injeção, você tem que preencher a cavidade. Se for uma cavidade só ou várias cavidades, você tem que preencher as cavidades, e aí tem que compactar. Aí vem uma outra pressão, uma segunda pressão, uma pressão de recalque, que vai complementando para não deixar vazios, para não deixar uma peça heterogênea, mas uma peça bem homogênea, bem compactada. Não podem ficar vazios internos porque você não compactou, senão fica uma peça frágil, que deforma mesmo no tempo.

 

P/1 – Gercino, de onde vem essa expressão “Pé Vermelho”?

 

R – Foi uma brincadeira do pessoal lá. Acontece o seguinte: como eu te falei, muitas vezes tinha que sair pulando por cima de madeira para chegar ao local de trabalho. Então, beirando as paredes, a gente passou a colocar a tábua para passar, e tinha lugar que não tinha tabuinha pra você passar, você tinha que pisar no barro mesmo. O pessoal pisava no barro e tinha hora que você chegava, o barro ia subindo e o sapato ia ficando no barro, aquele barro vermelho que grudava. Você chegava lá dentro da área de trabalho, ou você ia mesmo para casa, e teu sapato estava vermelho, completamente vermelho. Então, brincadeira nossa mesmo. O pessoal falava: “Oh. Você está parecendo um ‘Pé Vermelho’.” Por que “Pé Vermelho”? Por causa do barro. Então nós criamos essa expressão. Eu lembro até que um amigo nosso, a mulher dele também foi pra lá, nasceu um filhinho dele lá. E ele falou: “Oh, Gercino, nasceu um ‘Pé Vermelho’.” (risos) E ficou essa história justamente por isso. E também porque a gente tinha dificuldade de acesso. Porque a fábrica estava começando. Não eram todas as ruas... Você esteve lá agora, esses dias? Não era tudo asfaltadinho como é agora. Aquilo lá era tudo... Algumas ruas é que eram asfaltadas, tinham calçamento. A maior parte era terra. Pra você ir até a agência do banco que fazia o pagamento das pessoas, ela ficava num galpão de madeira dentro da fábrica. Está certo que as alas estavam sendo terminadas e todos os departamentos, mesmo a parte de documentação, era tudo improvisado. Não tinha nada, era tudo improvisado quando eu fui pra lá, completamente improvisado. Estavam terminando as alas. Os escritórios não tinham nada pronto. Eu lembro muito bem que a primeira vez quando eu cheguei lá, instalando a primeira máquina, a pessoa que estava comigo falou: “Vou deixar a minha mala aqui em cima do teu escritório.” O nosso escritório, o que era? Era o painel da máquina, porque não tinha nada mesmo. Estava começando e você não tinha lugar para pôr nada. Não estava preparado. Não foi uma fábrica preparada pra chegar lá, já encaixar e usar a máquina. Desmontava a máquina aqui, tinha que levar lá e fazer funcionar. Tinha hora que eles tinham que mandar a peça de helicóptero pra máquina, senão parava ali. Então, “pé vermelho” foi essa história. Para ter acesso ao local de trabalho, tinha que pisar no barro. E esse barro era um barro vermelho.

 

P/1 – Em que momento a fábrica começou a ter capacidade total?

 

R – As máquinas estavam sendo montadas e nós ficamos fazendo um treinamento do pessoal, justamente pessoal de montagem de veículo, para começar a montar alguns carros lá. O Passat, se não me engano, foi montado lá, para o pessoal ir se familiarizando com a linha. Foi bem devagarzinho aquela linha e em 1979 ela começou a trabalhar pra valer. 

 

P/1 – Me conta uma coisa. Quando a Volkswagen começou a planejar a fábrica de Taubaté?

 

R – Se não me engano foi em 1972 ou 1973, acho que foi por aí que eles começaram a viabilizar essa fábrica lá. Eu não sei bem a história, mas em 1972, 1973, já estava todo mundo falando da fábrica 03, que era a fábrica de Taubaté. Não sei quanto tempo demorou, mas não demorou muito, não. Eles logo começaram a trabalhar com isso. Não tenho uma ideia precisa do tempo. Quando eu fui, algumas alas já estavam trabalhando, mas as alas já estavam cobertas. Só que não estavam limpas. As ruas praticamente não existiam. Quer dizer, existir elas existiam, mas eram de terra e o acesso era precário. Acho que foi em 1972, 1973.

 

P/1 – E como é que foi o impacto dessa fábrica da Volkswagen em Taubaté? A cidade mudou muito?

 

R – Mudou. Deixa contar primeiro essa minha, que foi legal. Quando eu mudei pra lá, eu levei uns dois anos para convencer a minha família a ficar lá, minha mulher e as minhas duas filhas. Às vezes, eu chegava cansado pra caramba porque ficava o dia todo naquela fábrica. Chegava às seis horas da manhã e não tinha hora pra sair, porque estava instalando máquina, pessoal acompanhando e uma série de problemas. Eu chegava em casa meia noite, uma hora. Uma vez: “Tem um bicho aqui.” Fui ver o que era. Uma lagartixa. (risos) Não estavam acostumadas com aquilo. “Você vai me trazer para este zoológico aqui!” É legal essa história. Mas no começo foi difícil, porque não existiam casas. A pessoa ia daqui e não tinha. Pra você ter uma ideia, a Volkswagen era fiadora. De quem fosse daqui, ela era fiadora, para poder alugar casa lá, a Volkswagen tinha isso. A imobiliária lá não tinha. Simplesmente não tinha. Um dia que um rapaz chegou e falou: “Olha, Gercino, tem uma casa lá.” Eu estava procurando uma casa legal pra mudar. Falei: “Vamos lá.” Quando eu cheguei lá falei: “Meu, se você quer que a minha mulher me largue no outro dia, é trazer ela para essa casa.” Uma casa sem forro, sem nada. Falei: “Meu Deus, tá louco.” Depois arrumei uma casa até boa, nós ficamos num lugar muito bom. Mas elas não queriam ficar por causa da lagartixa, que tinha bastante. (risos) Mas foi muito difícil para o pessoal que estava mudando, enfrentaram dificuldades com moradia. Não só ficaram um tempo procurando, mas muitas pessoas que foram daqui tiveram dificuldades. Tanto que foi muita gente morar em Caçapava, Taubaté, São José, Pindamonhangaba, onde achavam um lugar melhorzinho. São José era um pouco longe, fica a quarenta quilômetros. Não, uns trinta. Caçapava e Taubaté, mais ou menos à mesma distância, uns trinta quilômetros. Então o pessoal fazia isso, porque não tinha opção. Quando eu fui, eu me lembro que eu fui a Caçapava com a minha mulher. Ela não gostou de Caçapava. Ela falou: “Aqui eu não quero.” “Tá bom.” Aí fomos a Pindamonhangaba, ela gostou mais ou menos, mas pra mim era um pouco longe. Acabei ficando em Taubaté e criei raízes até hoje. Quando eu vim fazer um serviço aqui, não quis mais voltar. Falei: “Não, de lá não saio. Chega de ficar mudando.”

 

P/2 – E foi muita gente da Anchieta pra lá?

 

R – Foi. Foi bastante gente, sim. Principalmente o pessoal... Mais o pessoal de chefia. Pessoal do comando. Eu lembro que quando eu fui pra lá, eu levei umas oito ou dez pessoas pra chegar lá e pra resolver, porque já conhecia bem a área. Pessoal de liderança. Mas a maior parte foi lá. Aí eu, acostumado com pessoal que vem do interior, falei: “O pessoal quando chega do interior aqui, é um camelo pra trabalhar.” Trabalham pra caramba. Falei: “Quando eu for pra Taubaté, vou montar uma equipe classe A.” Quebrei a cara. (rindo) Eu fiquei uns dois anos pra começar porque aqui não existia mão de obra especializada. Não existia. Chegava um dizendo: “Eu tenho um parente que mora lá em São Luiz, lá na roça, e ele estava querendo trabalhar. Ganha pouquinho.” “Trás ele aqui.” Quando eu mudei pra lá, pedi pra Volkswagen: “Vamos abrir uma exceção, alguma coisa.” Porque tinha que ter um ano de empresa, de carteira assinada. Se não tivesse um ano não entrava na Volkswagen. Falei: “Vamos abrir mão disso, senão não vamos fazer treinamento.” E fiz dois anos de treinamento duro. Tive que treinar um pessoal xucro mesmo, que nunca viu uma máquina na frente. E aí você tem que treinar eles pra...

 

P/1 – E essas pessoas, elas vinham de onde?

 

R – Da roça mesmo.

 

P/1 – Taubaté?

 

R – Taubaté e região. Taubaté, Caçapava, Pindamonhangaba, São Luiz do Paraitinga, Redenção da Serra. Pessoal dali da região mesmo. Teve um dia, isso foi legal, um rapaz que foi... Um diretor que morava em Caçapava, um dia ele levou um rapaz magrinho e disse: “Gercino, esse rapaz, a mulher dele foi pedir serviço pra ele. Você tem serviço para ele?” “Acho que tem, sim. Pode deixar.” Mas ele foi trabalhar, e sabe essas pessoas que vão trabalhar na máquina e não acompanham o raciocínio? Ele chegava, a máquina fechava e ele esquecia. “Olha, Gercino, não dá.” Você ensinava: “Olha, na hora que a máquina abrir, você tira a peça. Mas veja se a máquina não grudou a peça. Se grudar a peça, você não pode deixar a máquina fechada. Tem que abrir a grade.” E ele... Você podia chegar do lado e olhar, e ele sabia que a máquina não podia fechar. Ele ficava quinze minutos e dizia que a máquina estava funcionando legal. (risos) Ele não tinha raciocínio, não acompanhava. Esse rapaz foi interessante... Depois eu tinha uma área que trabalhava em determinado serviço que usava a mão de obra de uma pessoa e meia, em vez de usar uma pessoa só que não acompanhava o fluxo da linha. Então, de vez em quando eu tinha que reforçar. E o danado, com uma semana de treinamento começou a trabalhar sozinho, esse que não conseguia trabalhar na máquina. Então, você tinha que achar e encaixar onde o cara desempenhava, onde podia desempenhar a função dele a contento, pra ele e pra empresa. O outro trabalho do rapaz era bem banal, trabalho fácil pra caramba, mas ele não conseguia acompanhar. Agora, aquele serviço que era pesado, era o que ele gostava. (risos)

 

P/2 – No que a linha de montagem de Taubaté era diferente da linha da Anchieta?

 

R – Basicamente nada diferente. A única diferença era que você tinha que fazer treinamento de pessoas e aqui você já tinha um pessoal treinado que já conhecia tudo. Lá, como eu estava te falando, o treinamento é muito difícil. Se eu com máquina tive dificuldade, o pessoal aqui em São Paulo também teve dificuldade. Porque na linha, você tem um determinado pedaço, que você vai fazer o quê? Vai encaixar o motor, apertar parafuso. Então, você tem que ter um treinamento. E essas pessoas não precisam ser especialistas em apertar parafuso. Ele tem um treinamento. Mas tudo isso requer treinamento e ser insistente com as pessoas para eles irem se adaptando àquele meio de trabalho. A montagem não tem muito segredo, mas a pessoa tem que saber montar e saber o que está fazendo. No treinamento também tivemos dificuldades. 

 

P/2 – Você sabia que aquela fábrica era para se fazer um carro novo?

 

R - Sim. É claro. Aquela fábrica já era projetada para fazer um carro novo. Esses treinamentos que foram feitos iniciais foram justamente pra dar condição de preparar as pessoas pra montar um carro, específico de lá. Um carro que ia ser projetado para trabalhar naquela linha de montagem. 

 

P/2 – Ela era diferente da Anchieta?

 

R – Era no tamanho de fábrica. A Anchieta é uma cidade. Você percebe ao andar dentro da Anchieta que naquela época, a fábrica tinha trinta e tantas, quase quarenta mil pessoas. Nós, quando estávamos no apogeu, éramos umas seis mil pessoas. A fábrica era uma fábrica bem diferente. Uma fábrica menor. E o pessoal de serviço também, apesar do treinamento. A gente tinha muita dificuldade e muita falta. O pessoal faltava demais. Lá era comum: “Fulano, você vai trabalhar sábado?” “Não, sábado eu não posso vir porque eu vou levar minha mulher na casa da minha sogra.” Era desse jeito. “Eu não posso vir porque eu vou levar minha mulher na casa da minha sogra, porque ela não a viu esta semana.” “E a tua mulher não sabe andar sozinha?” (risos) Foi difícil.

 

P/1 – Gercino, qual era o nível de escolaridade dessas pessoas?

 

R – Normalmente eram pessoas com primeiro grau. Acho que até quarta série, por aí. Porque esse pessoal da roça tinha dificuldade de estudar. Depois foi feito treinamento, foi melhorando. Apesar de que lá é uma cidade que, quando a gente conseguia pessoal da cidade mesmo, lá tem bastante escola, nível bom. Mas a maior parte de quem você tinha que fazer treinamento era pessoal dali que não tinha... Pessoal da roça mesmo. Tinha dificuldade para estudar. Então, tem que abrir o leque pra você poder ter esse pessoal. Se você não abrisse o leque, você ia pegar pessoal daqui e levar pra lá? Fica caro. Então, você tinha que treinar lá. Tem que preparar aquele pessoal de lá. E era o objetivo. Foi alcançado. Nós ficamos... Depois que se fez esse treinamento, todo mundo lutou muito, todos os departamentos, ficou uma fábrica de nível, uma fábrica com qualidade espetacular. 

 

P/2 – E como é que foi a emoção de tirar o primeiro carro da linha de montagem, o primeiro Gol?

 

R – É gostoso você ver o fruto de um trabalho. Foi emocionante. Todo mundo participou, inclusive quem estava dentro da fábrica desde o pico até a base da pirâmide. Estava todo mundo lá pra ver aquele evento. Era uma coisa bonita mesmo, porque estava nascendo um produto novo e esse produto ia crescer, como cresceu. Foi emocionante. O início foi muito bonito. Todo mundo emocionado em saber. E participei. Eu pus o meu dedinho ali, eu fiz alguma coisa para isso. E todo mundo querendo ajudar em alguma coisa para mostrar sua participação. Um orgulho geral. Do mais humilde até o mais poderoso, vamos dizer.

 

P/2 – E como é que foi lá a história da chuva de granizo?

 

R – Ah! Nem me fale dessa chuva de granizo. Essa chuva de granizo acho que deixou… Uma tristeza. Eu penso uma coisa: tem que ter um carinho danado pelo carro. Eu tenho um carinho pelo meu carro e acho que todo mundo tem que ter. Quando você vê uma chuva de granizo acabar com treze mil carros que estavam no pátio, meu amigo, dá vontade de chorar. Dá. Você tem sentimento, você fica triste. Perdeu acho que 80% dos carros. A maior parte dos carros foi destruída porque não tinha aproveitamento. Alguns que foram feitos reparos, foram usados para uso interno ou para atender alguém que queria um carro assim. Porque tinha muito... Danificou muito os carros. 

 

P/1 – O famoso Gol da chuva?

 

R – O famoso Gol da chuva. Em Taubaté não foi só o Gol da chuva. Tinha muitos carros da região, não foi só da Volkswagen, não. Muitos carros particulares. Naquele dia acho que eu dei sorte, senão me engano. Não, meu carro também foi atingido. Foi atingido o meu carro, inclusive o martelinho de ouro foi lá em casa arrumar. Tinha um rapaz que trabalhava na empresa, um tal de martelinho de ouro, aquele cara que depois ficou. Aí começou a ser de ouro mesmo, porque começou a ganhar dinheiro da noite por dia. (risos) Mas aquela chuva de granizo foi uma tristeza. Nós estávamos naquela época, vamos dizer, numa situação terrível. Na época treze mil carros – acho que eram treze mil, se não me engano – no pátio, e essa chuva. Gente, nunca vi uma chuva daquele jeito. Agora eu lembrei que meu carro não foi atingido, porque foi de manhã. Umas cinco horas, não sei. Foi de manhã. Eu lembro que na minha casa até vidro da janela quebrou. Aquela chuva era umas pedras desse tamanho assim... Pra você ter uma ideia, aquelas telhas grossas, as telhas Brasilit de doze milímetros, ela batia e furava a telha. Era uma coisa impressionante. Nunca vi aquilo lá. Era aquela pedraria de gelo, uma coisa de louco. Todos os carros foram atingidos. Quem estava com o carro fora da garagem foi atingido. Não era só Volkswagen ou outra coisa, não. Todos os carros. Não resistia. Era muito grande a pedra de gelo. Depois, tivemos que fazer uma ação muito grande pra recuperar o que dava pra recuperar. Em alguns carros era pouca coisa que dava pra fazer, e o nosso famoso martelinho de ouro dava uma ajeitadinha, sem prejuízo de qualidade. Outros carros a gente desmontava realmente pra utilizar no serviço. Eram os componentes. Porque a lataria foi. Tinha que fazer o quê? Desmontar. E aí, a mão de obra que você tem pra montar, tinha que fazer dobrado pra desmontar. Desfazer o que está bem feito é difícil. Então, você tinha que desmontar, preparar. Alguma coisa que você desmontou não ia dar mais. Onde você encaixou determinada peça, você desmontou, joga fora. Aquela peça você tem que destruir. Muita coisa foi destruída, jogada fora mesmo. Sucata de carro. 

 

P/1 – E quando esses carros foram destruídos, ficaram todos desesperados na Volkswagen?

 

R – Foi tudo dentro da Volkswagen. Houve uma ação lá de todas as pessoas, uma ação muito grande, uma ação cooperativa. Eu, por exemplo, era da parte de plástico, não mexia com a linha de montagem. Mas, nessas alturas, todo mundo arregaçou a manga. “Vamos trabalhar juntos.” E eu mesmo fiquei lá com o pessoal de montagem, trabalhando junto com o pessoal, auxiliando com mão de obra, com assistência, justamente pra sair desse caos. Foi um caos. Mas foi recuperado em todo momento. Ou reaproveitava, ou desmontava o que era bom e o resto destruía, sucateava. Foi um trabalho que nós tivemos.

 

P/2 – Gercino, você ficou quantos anos em Taubaté?

 

R – Em Taubaté acho que foram treze anos. 

 

P/2 – Treze anos. E nesses treze anos, quais você acha que foram as modificações mais importantes na fábrica?

 

R – A fábrica, como ela nasceu uma fábrica moderna, já começou como uma fábrica moderna, teve algumas modificações, mas como já era tão automática, não dava pra notar. As modificações foram complementando alguma coisa da modernidade dela. Ela é uma fábrica piloto, realmente. É uma fábrica piloto, uma fábrica linda, as pessoas conscientes. Todo mundo imbuído de ter uma fábrica decente. Tem um nível bom. 

 

P/1 – Por exemplo, a automação. Ela foi ganhando bem a automação?

 

R – Sim. A automação foi uma evolução. Você por exemplo, passava naquelas... Principalmente na Funilaria, que não é a minha área, mas eu, como participava de todo o bloco da fábrica, estava sempre presente em toda e qualquer alteração, mesmo sentado junto com a cúpula toda, de todos os departamentos. Então, quando você via aquela automação na parte de funilaria, onde você tinha nas máquinas de solda, começou a fazer um só, robotizado. Você percebe que foi uma coisa espantosa. Onde você trabalhava com dez, doze homens para fazer um tipo de trabalho, ali passaram a fazer uma peça com maior perfeição, com agilidade e num tempo menor, mais curto. Na parte de Estamparia, que eu conhecia mais, você trabalhava o quê? Uma máquina. A qualidade melhorou. Perdeu-se, claro, mão-de-obra, porque a mão-de-obra foi substituída pelo avanço tecnológico. Na realidade, é isso. O avanço tecnológico foi por causa da competitividade. Senão, você não tem competição. Se você botar dez homens lá, você não vai conseguir fazer carro hoje. Você trabalhava nas prensas. Cada máquina com quatro pessoas: duas colocam a chapa, duas tiram. Na outra máquina, duas tiram, duas colocam. Você vai chegar lá no fim e vai trabalhar com cinco máquinas, vinte pessoas. Hoje, o mesmo trabalho. Você vai dar uma olhada lá, tem uma pessoa monitorando e outra para eventual necessidade. Duas, três pessoas no máximo. Quando você está competindo no mercado, você tem que usar tecnologia. Isso realmente é fantástico. Você percebe que o número de pessoas diminuiu, mas a qualidade permaneceu. Depois, tem mais uma coisa, o danado do robô não sai pra ir ao banheiro, não sai pra ir tomar café, não faz greve. (risos)

 

P/2 – Em termos de qualidade nas condições de trabalho, você que começou a trabalhar na indústria automobilística nos anos 1960...

 

R – Em 1963.

 

P/2 – Em 1963? Você trabalhou na indústria automobilística em 1963, e você continuou trabalhando nos anos 1980, 1990. O que mudou em termos de qualidade de vida para o sujeito que trabalha na linha de montagem?

 

R – Houve um crescimento danado porque, veja bem... Nós chegamos a montar o Fissore aqui na Vemag, no tempo da Vemag. Pra montar o Fissore na Vemag, era um grupo de gente grande lá. Precisava de uma peça, uma solda, outro faz. Mas saía seis ou sete carros por dia. Esse carro, o Fissore, era um carro bonito, estilo moderno. Em 1966, 1967… De 1965 pra 1966, era um carro super moderno, mas você fazia seis carros. O que você vai fazer com seis carros? Hoje, não. Hoje, quantos carros você faz por dia? Então, você teve um avanço imenso. Você usa menos mão de obra e a produção é lá em cima. É montante muito grande, a diferença de tecnologia. Tanto a tecnologia como a capacidade do processo. Usando a tecnologia e melhorando o processo, você chega aonde chegou. E a tendência é ganhar cada vez mais. O crescimento é muito grande. 

 

P/2 – Quer dizer, vocês cresceram na qualidade e nas condições de trabalho.

 

R – Na qualidade, veja. A qualidade hoje... Vamos primeiro falar na qualidade. A qualidade hoje... Antigamente, você tinha uma coisa mais fácil. Antigamente um carro com dois, três anos de uso, começava a dar ferrugens e tal. Hoje você não vê quase isso porque não existem mais pontos de solda. Agora, tudo é um negócio bonitinho, tranquilo. O próprio tratamento das chapas, hoje, garante uma qualidade superior. Você não vê carro, hoje, com dois ou três anos de uso, apresentando pontos de deterioração ou ferrugem. Não tem. 

 

P/2 – E para a pessoa que está lá trabalhando na linha de montagem? Trabalhar hoje, no que é diferente?  Estou falando do trabalho.

 

R – Do trabalho. Agora entendi. No trabalho, eu acho uma coisa. Antes, tinha uma série de pessoas pra trabalhar, pra montar um carro. Hoje, dentro da Volkswagen que eu sei, eles têm um sistema. Antes você só sabia apertar um parafuso. A minha qualidade era apertar esse parafuso. Quer dizer, eu tenho que apertar esse parafuso legal, tenho que dar um torque perfeito. O outro coloca uma caixa de ar, mas tem que ser no pontinho legal. O que acontece hoje? Hoje, não. Hoje tem um grupo em que eles sabem. E você não está no lugar, você vai deslocar para alguém colocar essa peça com a mesma qualidade. Quer dizer, você não perdeu a qualidade só porque o cara não podia colocar. Eu acho que melhorou a conscientização das pessoas em geral. Ela saber que ela faz parte de um conjunto, que ela monta um conjunto. Que um cara só não faz nada. Que é ter orgulho de dizer: “Esse carro aqui, eu participei. Eu conheço.” Não só saber que esse carro está rodando, mas eu apertei um parafuso. Hoje, não. Hoje não existe mais isso. Hoje a pessoa sabe: “Eu participei, tenho uma boa parcela de participação nesse veículo que está rodando.” Eu costumava falar com o meu pessoal o seguinte: “Você está fazendo o quê? Está fazendo uma manopla? Você tem que saber o seguinte: essa responsabilidade é de um carro. Você está montando um carro, não uma peça. Porque isso vai formar um conjunto. Esse conjunto é um veículo. Então, esse veículo tem que sair com qualidade. Porque quem for usar esse veículo, seja eu, você, tem que ter certeza que esse produto está perfeito.” Então, a pessoa tem que trabalhar consciente de que não está fazendo só um item, só uma peça singela. Ele está fazendo um carro. Está montando um carro. Então, eu acho que há conscientização das pessoas. Ele não fica pensando: “Bom, minha peça tá bonita, o outro que se dane.” Não é assim, não. Hoje, há conscientização das pessoas sobre a montagem de um conjunto, não de uma peça unitária. 

 

P/2 – Mas, por exemplo, por um lado, você tem hoje equipamentos que são planejados para que o operário não tenha que carregar um peso superior acho que quinze quilos. Isso não existia antes?

 

R – Não. Claro. Quer ver uma coisa? O uso de equipamento de proteção. Tinha uma exigência? Tinha, mas não era exigida. Era comum o pessoal trabalhar de óculos, você estava lá e ele ia fazer alguma coisa sem óculos. Hoje, ninguém pode nem pensar nisso. Então, essas qualidades foram melhorando porque as pessoas foram sendo conscientizadas. Foram conscientizadas de que não deveriam fazer determinado trabalho, como esse caso do peso. Tinha um treinamento, e deve ter até hoje, de você saber pegar um peso, não chegar ali, se agachar e pegar um peso. Você tem que ter uma informação de como você vai pegar. Se agachar direitinho pra pegar um peso que você pode garantir que vai bem. Pegar com segurança, não sofrer nada com isso, algum desnível, alguma coisa que vá te afetar um membro. Então, essa preocupação vem caminhando devagar. Ela já chegou nesse ponto que você está falando. Claro que antigamente não tinha... A pessoa chegava e: “Cinquenta quilos? Deixa que eu pego.” Hoje, não pode fazer isso. “Não colega, vamos dividir a carga. Eu pego quinze, você quinze. Vamos dividir.” Acho que melhorou, sim, essa parte. 

 

P/1 – Gercino, a gente está encaminhando pro final. Me fala uma coisa: você permaneceu na Volkswagen até 1988 não é?

 

R – Dezembro de 1988, quase 1989.

 

P/1 – Em que momento você ouviu falar na Autolatina?

 

R – Veja, a Autolatina foi um... Você quer que eu seja sincero? Eu acho que eu saí da Volkswagen por causa da Autolatina. 

 

P/1 – Você poderia falar pra gente um pouquinho sobre isso?

 

R – Quando eu senti, quando falou: “Vai mudar pra Autolatina.” E vinha uma mudança. Eu não sei se é porque eu estava condicionado com um sistema e aí, pra mudar para um sistema completamente diferente, eu não estava preparado para aquilo, eu falei: “Não. Pra mim não serve.” Tanto que eu já estava aposentado e eu falei: “Quer saber de uma coisa?” Eu falei: “Olha, gente...” E foi uma luta pra eu sair. Inclusive, pro meu amigo Oscar, que era das Relações Humanas, eu falei: “Oscar, eu vou sair.” “Como? Você não pode sair.” Falei: “Claro que eu vou sair. Eu já dei a minha contribuição para a empresa.” É o sistema. Quando começou a mudar pra Autolatina, vai modificar isso, isso, aquilo lá... Eu tinha uma série de coisas, tinha o meu xodozinho. Minhas coisas, eu tinha peças de reposição. E quando começou a Autolatina, isso não era permitido. Você não podia ter uma peça na reposição. Se você estraga uma pecinha, você vai e corre comprar, senão deixa barato. Eu não gostava muito daquele esquema. Eu fiquei acho que um ano na Autolatina, por aí. Eu não sei se eu atingi bem a Autolatina, mas eu acho que fiquei um ano, mais ou menos. Mas eu não gostei muito da mudança. Não gostei, pessoalmente. 

 

P/1 – No tempo que você trabalhava, chegou a conhecer funcionários da Ford que foram trabalhar no seu setor?

 

R – Comigo, não. Por isso eu estou te falando. Eu não peguei muita coisa porque, enquanto eu estive lá... Quando eu saí da Volkswagen ainda tinha a área de plásticos. Aquilo lá era tudo pessoal treinado, pessoal que estava lá. E mesmo quando eu saí, não foi pessoal pra lá, pra Ford.

 

P/1 – E mesmo saindo nesse início da Autolatina, em 1987...

 

R – Em 1987, eu saí...

 

P/1 – Você saiu em 1988. Nesse espaço, o que você diria que mudou na Volkswagen naquela parceria com a Ford?

 

R – Eu sinto que foi prejudicial para as duas empresas. Eu não sei se, no geral, se a diretoria e os acionistas sentiram a mesma coisa. Mas eu, que estava fora, e as pessoas que estavam lá, porque eu não perdi vínculo com a fábrica. Saí da fábrica em 1989, mas não perdi vínculo, porque eu comecei a trabalhar em outra empresa e fiz todo o desenvolvimento lá dentro. Então, estava quase que todo dia na Volkswagen. Mesmo saindo de lá, estava todo dia. Então, eu sentia nas pessoas que eles não tinham aquele élan, não tinham mais aquela vontade. Parece que era um trabalhando contra o outro. Era um negócio meio esquisito. Não dá pra explicar muito, mas percebia-se, no geral, que as pessoas não tinham aquela dinâmica de família, que era até então, de uma família Volkswagen. Tanto é que a gente tinha aquela revistinha Família Volkswagen e aquilo sumiu. Depois que entrou a Autolatina, sumiu. Não tem mais Família Volkswagen. Inclusive, hoje, é Volkswagen, mas não tem. Era uma revistinha em que de saía tudo, os vários eventos de dentro da empresa, do clube, a parte social. Eram coisas que a gente tinha até a Volkswagen fazer a joint venture com a Ford e ficar a Autolatina. Até lá, eu acho que era um esquema. Passou para Autolatina e mudou. Acho que mudou completamente. Aquela coisa que você tinha, integração de família, em que você era uma família, acho que perdeu. Perdeu mesmo. Perdeu aquele vínculo. Não culpo nem um, nem outro. Eu acho que é o sistema. Um sistema que mudou e, dentro desse sistema, as pessoas foram, não digo que penalizadas, mas eu acho que elas foram desmotivadas. A Ford vinha lá pra Volkswagen: “Pô, vou ter que ir pra Volkswagen”. A Volkswagen tinha que ir lá pra Ford, “Pô tenho que ir pra Ford.” Então, ficou um ambiente meio esquisito. Eu não posso falar muito porque eu saí. Mas eu sentia nas pessoas que estavam lá. Como eu disse, eu não perdi o vínculo com São Bernardo. Eu passei a vir mais para São Bernardo porque eu tinha o desenvolvimento todo aqui, e eu vinha à Ford fazer desenvolvimento. Então, a gente percebia a dificuldade que tinham as pessoas em se relacionar. Foi uma família dividida. 

 

P/2 – Gercino, você que acompanhou o lançamento de vários carros. Qual você acha que é o carro símbolo da Volkswagen? Você pode falar dos carros que você já teve também.

 

R – Dos carros da Volkswagen... Eu acho que posso dizer que, dos carros fabricados no Brasil todo, e eu acho que tive todos os carros, em matéria de conforto, eu gostava muito do Santana. Um carro espetacular. Hoje está ultrapassado, mas foi um carro muito bom. No início, quando começou a sair um daqueles, já comecei a pegar o Santana. Um carro que eu gostava demais. Mas pra desempenho da fábrica, eu acho que foi a família Gol, desde o nascimento. Ela teve aquele problema de início de lançamento, quando veio aquele motor 1.3 e, por azar, aquela chuva de pedra, que não sei se foi azar ou sorte. Começou com motor 1.6 e aí saiu esse carro, que deslanchou e até hoje é um carro campeão de vendas. Esse projeto Gol foi um projeto muito bem sucedido, atuante e de grande valor. O pessoal usa muito o carro da família Gol. Também acho muito bom. Não é um carro confortável, mas é um carro gostoso. 

 

P/2 – Gercino, na sua trajetória pela Volkswagen, se tivesse que escolher um momento que foi o mais marcante, qual seria?

 

R – Acho que foi essa transição para Taubaté. Acho que foi um negócio desafiador. Um negócio pra te pôr à prova. Para te pôr à prova. Como eu digo, se você tem o élan para correr atrás, pra vir atrás resolver os problemas... Nós tivemos desafios constantes, diários. Foi muito difícil, como eu falei, os treinamentos e essas coisas, mas era uma coisa que você fazia com vontade. “Eu vou colocar esse negócio pra funcionar.” E coloquei esse negócio para funcionar. Eu acho que essa mudança para Taubaté foi um momento significativo.

 

P/2 – Qual você acha que é a importância da Volkswagen para o Brasil?

 

R – A Volkswagen, eu não tenho dúvida nenhuma que é uma empresa... Inclusive falei isso para o Ernesto Geisel, que foi a Taubaté e inaugurou o Senai, que fica lá pertinho da minha casa. Foi em 1977 e eu fui representar a Volkswagen. Eu falei: “A Volkswagen é uma potência e, para o Brasil, nem se discute o que é a Volkswagen.” A Volkswagen é... São Bernardo hoje deve o que é à Volkswagen. Ela foi que deu o impulso para seu crescimento. Ela começou aqui no Ipiranga e foi lá pra São Bernardo... São Bernardo, na época, era... Eu conheci a São Bernardo que ainda não tinha nada. Em uns vinte anos, São Bernardo cresceu por quê? Porque, começou a ter uma empresa de peso. E a Volkswagen é uma empresa de peso, sem dúvida. Empregava muita gente. A gente calculava em torno de... Quanto ela tinha? Quarenta mil empregados. Pulava-se pra duzentos e tantos mil só de pessoas… Só de dependentes. Fora os terceiros, trabalhos que eram feitos por terceiros. Então, era um volume muito grande. Eu acho que a Volkswagen, para o país, foi fundamental para o crescimento do Brasil, inclusive.

 

P/2 – E qual você acha que é a importância de se resgatar essa história da Volkswagen nos cinquenta anos da sua história, da qual você faz parte?

 

R – Acho bacana. Uma coisa para as pessoas resgatarem alguma coisa, uma lembrança que está jogada. Você chegar e lembrar. Deixa voltar um pouquinho mais. Quantas vezes uma fábrica falava: “Quatro horas sai, em vez de sair às cinco horas, pode sair às quatro horas.” Você chegava lá e mal dava pra sair porque estava inundado tudo. (risos) Naquela Vila Carioca, não tinha lugar pra passar. A Presidente Wilson, vocês conhecem bem ali ou não? A Presidente Wilson é uma avenida que vem lá de São Caetano até a Mooca. Tinha vez que você passava ali, parecia um rio. Não tinha outro jeito. Nem ônibus entrava na água. Você entrava na água. Fazer o quê? Dava a mão um pro outro pra atravessar. (risos) Era tudo coisa que a gente tinha que ter vontade de fazer, senão você largava pra lá mesmo. 

 

P/2 – Você tem mais alguma coisa que você queira contar para acrescentar? Contou tudo o que você queria contar? Não quer falar mais nada?

 

R – Eu quero contar... Tinha falado na Torre de Babel, que queria contar pra todo mundo. (risos) No tempo de Estamparia, eu tinha um rapaz que trabalhava comigo e ele era um baiano. Gozador pra caramba. Um dia chegou: “Minha máquina está ruim. Não sei o que está acontecendo. Não fica boa essa peça.” “Tá bom, vamos lá.” Eu pegava, fazia uns degrauzinhos e colocava lá. Fazia umas guiazinhas pra cortar a chapa. “Você fez como uma Torre de Babel.” Falei: “Mas funciona.” E teve uma vez que sumiu uma ferramentinha de fazer um tampãozinho que ia no motor do DKW, no DKW da Vemag. Quando a gente fala DKW, já sabe que é Vemag. DKW, Vemag. E sumiu a ferramenta. Um dia, chegou o gerente da fábrica e falou: “Onde está?” “Sumiu.” Já era na Volkswagen. Era Volkswagen, mas tinha que fazer as peças pra reposição. Sumiu a ferramenta. Aí ele falou: “Gercino, sabe onde anda a ferramenta?” Gercino conhecia tudo. Seiscentos, setecentos empregados, mas Gercino conhecia tudo. Aí eu cheguei e falei: “Acho que a ferramenta sumiu foi numa mudança que nós fizemos da ala 03 pra ala 02.” Aí, ele vai lá e fala com o Projeto: “Quanto tempo vocês me demoram?” “Quinze dias pra fazer o projeto na Ferramentaria. Mais quinze dias pra fazer o molde da ferramenta.” Aí, eu cheguei e ele falou: “Gercino, pediram um mês pra fazer a ferramenta.” Falei: “Deixa essa ferramenta que eu faço hoje.” No curso de Ferramentaria, eu estava dentro, aí eu cheguei e falei: “Pessoal, esquece que eu estou hoje aqui.” Peguei uma bancada, turbina, torno. Naquela noite não fiz só a ferramenta, como fiz as peças. Eram seis mil peças. Eu lembrei da Torre de Babel por isso. Ferramentinha automática. Chegou de manhã, estavam todas prontinhas, as peças. 

 

P/2 – Então, Gercino, pra gente encerrar...

 

P/1 – O que você achou de ter participado e de ter dado o seu depoimento?

 

R – Eu achei legal, principalmente porque vocês são pessoas bacanas e sabem realmente explorar o assunto. Achei gostoso. E pra resgatar também um pouco daquilo que, às vezes, a gente esquece. Além disso, tem muita coisa que a gente deixa passar, alguma coisa que marcou pra chuchu, mas com o tempo vai roubando o disquete. (risos) O cara que veio comigo e falou assim: “Oh, Gercino, o que eu vou lembrar agora depois de treze anos?” Falei: “Também não sei, mas o que eu vou fazer? Vou falar alguma coisa.” (risos)

 

P/2 – E você viu quanta coisa você lembrou? Então, Gercino, a gente agradece, a Volkswagen e o Museu da Pessoa, pelo seu depoimento. Obrigado. 

 

R – Agradeço a vocês toda a acolhida e espero ter contribuído com alguma coisa.


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