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História

A potência de se perceber capaz

História de: Franciele Purcina do Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/11/2020

Sinopse

Nascimento em Salvador. Infância simples na roça e com a avó materna. Mudança para cidade de São Paulo. Trabalho em restaurante. Desconstrução da religião. Casamento. Gravidez. Parto prematuro. Baixa autoestima. Empreendedorismo. Venda de produtos de sex shop. Aprendizados e transformações. Se reconhecer e ajudar outras mulheres a serem donas de si. Clientes. Sonhos. Pandemia.

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História completa

Meu nome é Franciele Purcina do Nascimento, eu nasci na cidade de Ubaíra, em Salvador, Bahia, em 1998.

 

Todo mundo já me conhece, deixo escancarado a minha opinião, cheguei, não disfarço, não minto, não escondo, pode custar o emprego, como já custou, mas eu defendo com tudo; se eu acreditar, eu defendo. E isso é tudo, é com feminismo, é em questão do empoderamento negro, é em questão da maternidade também, tudo. Tudo mesmo. Dou assim, a alma, coração, tudo.

 

Comecei a vender uns pudins na marmitinha ainda na gestação. Estava em casa, falava: “Estou sem fazer nada e também preciso ajudar em casa”. Queria ajudar em casa o marido, então falei: “Vou fazer alguma coisa”. Aí fiz os pudins e falei: "Quero fazer algo que ninguém faz”. Coloquei a placa lá do pudim e todo mundo comprava os pudins.

 

Após o parto do meu filho eu estava muito mal, porque teve também alteração da questão de auto-estima, como passei a me ver… Foi um baque enorme, mas essa questão do psicológico nem foi tanto pela maternidade, foi por questões do relacionamento mesmo que me feriu, me machucou, então fiquei nessa casinha por uns dois anos, me reconstruindo como mulher, [então parei de vender pudins] ai fiquei sem fazer nada e daí eu estava vendo sobre sex shop; vi vídeos no Youtube, procurei no Brás: “O que você pode achar no Brás para vender” e ai vi uns vídeos de sex shop, as mulheres mostrando as lojas, o preço das coisas, e eu falei: “Caramba! Eu acho que dá para fazer isso”. E a minha amiga, a madrinha do meu filho, super apoiou. Ela falou: “É super a sua cara, porque você não tem vergonha de falar, você sabe falar com as pessoas, ninguém fica com vergonha perto de você”.

Ai chegou e transformei 190 reais em seiscentos. Foi um primeiro investimento.

 

Comecei a sair desse estado nesse momento, quando eu comecei com as vendas, porque daí meu filho fez a cirurgia e eu falei: “Meu Deus, agora vou conseguir sair, não só para ele”. Aí comecei a falar: “Tenho que fazer alguma coisa”, e aí comecei a vender o sex shop, aí tinha que sair, mesmo não querendo, nos dias horríveis, então se tinha cliente na rua do mercado, tinha que ir, né? Então eu ia indo; às vezes eu estava horrível, não queria ir de jeito nenhum, mas eu ia, porque falava: "Tenho que trabalhar, tenho que ver, tenho que existir”. Era de mim a força. 

 

Então esse click, [de agora preciso cuidar e olhar para mim] acho que foi no primeiro dia que eu saí sem o neném. Eu acho que ele estava com um ano e quatro meses, eu ia à igreja e coloquei ele em uma cuidadora. Ia atender cliente e fui saindo, fui aos poucos caminhando assim, andando na rua, e eu falei: “Nossa, ainda sou notável. As pessoas ainda buzinam, ainda piscam… Ainda existe uma mulher além da mãe”, porque até então ficou só ali, uma Franciele mãe. Então tive que desconstruir também tudo isso, voltar. Além de ser mãe, além de cuidar dele, preciso cuidar de mim também. Muito problema de auto-estima, muito mesmo, estava muito carregada, mas aí fui tratando. Disse que não queria, que era um ódio, era um choro, aquela tristeza profunda que você não sabia de onde vinha e dai do nada estava na casa da cliente. Nem sabia que estava em uma crise de choro, ansiedade, mas estava lá. Sempre fui muito simpática, alegrinha para falar, então nunca deixei de transbordar, transmitir, transpassar isso. Então foi uma luta constante e acho que esse ano, principalmente, que eu me sinto bem comigo, com a minha vida, com minha aparência, cuidei de mim, comecei a fazer caminhada, agora toda noite vou caminhar… E me permito sair mais, não ficar mais na jaulinha. 

 

Ai no começo comprei, fiz o primeiro pedido, deu retorno, invisto novamente e quando vi já estava funcionando, tinha os clientes no bairro. A amiga indica para outra amiga e foi indo, foi fluindo, mesmo quando ficava muito mal, falava assim: "Não quero mais, vou abandonar, é estressante”, aí falava: "Não posso, com quem eles vão compartilhar agora?” Então fica isso em mim: se você largar, não vai ter mais esse apoio; esse cliente não vai ter mais ninguém para conversar, para dividir, porque é mais que vender um produto, você acaba recebendo a história de casamento, é uma deficiência do casal, da pessoa, um trauma de infância, alguma coisa que está ali com ela por anos e ela tem que dividir com você, para você ajudá-la com produto, com… Então você conversar, desconstruir alguma coisa que a pessoa nunca contou para ninguém. Então é muito mais do que a questão do dinheiro, do produto, de ter uma renda; eu acabei abraçando as histórias, ainda mais que é pelo bairro mesmo; eu vou até a casa da cliente, eu vou até o mercadinho onde a cliente trabalha… (risos). 

 

Então na pandemia vi que dava para sustentar. Então vendi sem parar. Acho que durante a pandemia foi quando eu mais vendi, mesmo sem querer vender.

Eu gosto de um atendimento personalizado, entender o que você precisa, indicar o melhor produto.

 

As pessoas que tem uma vida limitada financeiramente, que não podem fazer grandes coisas, grandes projetos de viagem, elas valorizam pequenas realizações e aí que eles falam: “Vocês têm um contato direto com essas pessoas, com uma casa, com um ambiente, um casamento… E vocês vendem experiência, por isso que funciona”. Eu falei: “Na comunidade funciona muito mais, porque as pessoas valorizam isso. Não tem todo dia, não é todo dia que pode, então no dia que pode ela vai e valorizar”. Então acho que funciona bem, mesmo que a pessoa tenha o perfil dela, a personalidade dela, eu acho que trabalhar bem isso de lidar com cliente. Quando trabalhava no restaurante, eu atendia cada um por vez, tinha contato direto: “Quero que coloque pimenta calabresa...”; então daí acho que já foi moldando. Sempre falei bastante, sempre fiz amizade muito fácil.

 

[E é interessante porque] um atendimento nunca é igual ao outro, cada pessoa é individual, singular. Então você tem que aprender a ouvir; eu aprendi a ouvir antes de falar; ouvir as pessoas, o que ela vai dizer. Porque você sabe de um produto, você sabe tudo daquele produto, então não adianta você falar: “Esse produto faz isso, age assim...”, você primeiro precisa ouvir qual a necessidade da pessoa, do que ela precisa, porque se for para vender um produto, você fala: “Esse é bom para isso, você leva…”. Então você aprende a ouvir, ter mais empatia, aprende a resolver também situações rapidamente, porque acontece ali e não estava programado, então você tem que se virar nos trinta.

 

Então significa muito, para mim, ajudar outra mulher a se reconectar com ela. Por isso [o nome do meu negócio é] Você.ID, porque eu quero trazer a ideia de identidade de uma mulher empoderada, de uma mulher que se sente bonita, de uma mulher que não precisa de uma aprovação de um parceiro, ou da mãe, ou de alguém falar que ela está linda hoje, porque ela vai acordar, vai se olhar e vai ver que é linda para ela, por ela; e se conhecer também, que acho que é uma tabu enorme da pessoa se conhecer; o prazer com ela mesma, que não precisa mendigar de relacionamentos fracassados, abusivos, que isso também tratamos muito: de relacionamentos abusivos, destrutivos, situações que já estão em um nível muito arriscado, perigoso. Isso também é compartilhado no atendimento, a pessoa se sente à vontade para dividir, para receber o conselho. Então envolve tudo mesmo. 

 

Então em cada passinho fui solucionando essas coisas, comecei como sacoleira, sem estoque, sem nada; primeiro investimento foram 190 reais, mas eu falo assim: "Não tenho pressa também de estar com a loja grande", porque o que você aprende na rua, esse contato, é muito mais do que um balcão de caixa, são experiências extraordinárias. É outra intimidade, é outra visão de empreender, é uma realidade que você vai viver e vai sentir um pouco o que a pessoa vive. Então atender, seja homem, mulher, independente da idade, você saber posicionar, direcionar as suas palavras, o modo com que você fala com cada pessoa já é visível no olhar; você vê e já sabe. É um diagnóstico que só a rua, só ser sacoleira, só fazer entrega no metrô, proporciona para você. Já aconteceu de arrumar clientes pelo Marketplace do Facebook, chegar lá e o cliente só falar libras. E falo: “Preciso aprender libras, porque tenho que olhar para esse público de clientes. Eles também existem, eles também se relacionam, também namoram”. Então foi transformador. Falei: “Preciso ser diferenciada do que apenas um balcão que vai cobrar uma conta. Tem muita categoria para brilhar”. Então essa cliente de libras me motiva muito; é minha cliente até hoje.

 

Então você se perceber capaz de fazer acontecer em um momento assim, de surpresas, que você não tinha nem como sair da sua casa, nem como ter contato com as pessoas; você conseguir se manter, reinventar um negócio que nem existe físico, de um estoque que você nem tem de produtos. Então é uma realidade possível e que mais mulheres, mais pessoas venham empreender, venham acreditar no potencial, no temperinho dela ali, seja um bolo de pote, se for uma unha, o que for, porque é assim que as mulheres estão mudando de vida, conseguindo independência financeira, sair de relacionamento abusivo, renda para família também. Não só mães, mas mulheres solteiras também.

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