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A poesia das correspondências

História de: Shirlei Álvares Bíscaro (Zuzu Leiva)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Shirlei é atriz, cantora e dançarina. Seu nome artístico é Zuzu Leiva. desde criança gostava de ler e escrever, as cartas fizeram parte de sua infância.

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História completa

P/1 – Então, Shirlei, vamos começar a entrevista com o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Eu sou Shirlei Álvares Bíscaro, também tenho que falar meu nome artístico porque eu sou artista e é assim que eu me apresento, meu nome artístico é Zuzu Leiva, eu nasci em São Paulo dia 12 de janeiro de 1968.

 

P/1 – Como é o nome dos seus pais?

 

R – Jose Bíscaro e Pureza Álvares Bíscaro.

 

P/1 – Quais as suas primeiras infâncias da casa aonde você nasceu, aonde você se criou?

 

R – Eu nasci no bairro do Ipiranga,eu sou descendente de italianos e espanhóis, espanhol por parte de mãe e italiano por parte de pai, minha infância foi muito simples, muito... A minha família era muito humilde, eu sou descendente de imigrantes que vieram pra trabalhar na lavoura, em fabricas, na cidade, e a minha infância foi no bairro do Ipiranga mesmo.

 

P/1 – Os seus amigos de infância, quais são a primeiras lembranças, a brincadeiras?

 

R – A gente brincava muito de... Na rua, porque a cidade era muito calma, quase não tinha carro, era tudo muito diferente, então, eu tinha amigos que a gente brincava de amarelinha, brincada de esconde-esconde, pega-pega, e eu gostava muito de brincadeiras mentais também, assim, lego, tinha uma coisa bem criativa que eu fazia em casa cokm a minha irmã, a gente pegava todos os vidros de perfumes da minha mãe na penteadeira e a gente transformava aquilo em personagens com nomes, então com tudo ali a gente passava horas criando.

 

P/1 – E na escola, alguma professora te marcou?

 

R – Ah, então, pelo lado bom e pelo lado não bom, claro, eu era excelente aluna, daquela que senta na primeira fileira e tira só dez na escola, e quando eu tava na terceira série na escola eu tive uma professora meio... O nome dela era Ruth, eu nunca esqueci o nome dela, e ela era muito brava, no terceiro dia de aula ela deu um tapão, assim, na minha melhor amiga, e eu fui contar pra minha mãe, aí a minha mãe foi falar na direção da escola, aquilo foi um forrobodó, o resultado é que eu fui transferida de escola, esse foi o lado ruim, me marcou porque eu tive muito medo daquela professora, ela parecia, assim, ter cinco metros de altura diante da gente. A gente estudava muito e era um tempo que tudo o que a gente lia, a gente tinha que ir na biblioteca, e existia uma curiosidade muito grande por saber das cosias e ir para o que quer que fosse, Barsa ou tudo que a gente pudesse fazer pra acessar o conhecimento a gente fazia, mesmo que fosse ir na casa de alguém emprestar um livro, a gente ia, a gente lia muito, eu acho que isso era uma coisa muito boa; clássicos da literatura eu li tudo, tudo mesmo, do primário e ginásio, daí que vem a segunda pessoa que eu gostaria de mencionar neste depoimento, que foi uma professora de língua portuguesa, o nome dela eu me lembro, não sei se ela existe, se existiu, eu faço questão de dizer o nome dela porque ela marcou a minha vida no melhor sentido possível, ela deu aula pra mim na sexta e sétima serie quando eu morei em Sorocaba, porque eu morei durante quatro anos no interior, meu pai foi transferido pra lá, e ela dava aula de língua portuguesa, o nome dela era Sonia Aparecida Dalpian Nunes da Silva, um nome gigantesco que eu nunca esqueci na minha vida porque ela era uma pessoa instigante, o jeito que ela ensinava eu acho genial, ela ensinava verbos de uma maneira instigante, ela escrevia todos os tempos verbais na lousa e você tinha que ir acompanhando enquanto ela escrevia, e quando ela terminava de escrever ela cobria a lousa com um pano,  e ai ela começava a interpelar as pessoas: “Qual é o presente do indicativo de comer?”, e a gente, ao mesmo temo que tinha um certo medo, ou frenesi, alguma coisa, mas era instigante porque acionava a memória e atenção, isso é uma coisa que eu nunca mais vi, nem na faculdade, então tudo o que eu aprendi de português, o sabor pela língua e ate por falar em publico, que ela tinha; de sexta-feira ela sorteava alguém pra falar de algum assunto, eu como já gostava de astronomia, eu ia lá falar de algum assunto quando ela me sorteava, então eu agradeço muito a essa professora, ela foi genial.

 

P/1 – E isso te instigou a escrever também?

 

R – Completamente, eu sempre gostei de língua portuguesa, mas da maneira como ela fazia você via o quanto a língua é necessária, o quanto saber expressar o que você pensa... É importantíssimo, é fundamental, e é uma coisa que eu sinto que se perdeu muito, eu lamento um pouco isso, não gosto de ser muito saudosista, mas eu vejo isso, as vezes eu pego cadernos, coisas de quando eu tinha dez, 12 anos, e eu vejo hoje as crianças, porque eu também lecionei, e eu acho que perdeu um pouco.

 

P/1 – E nessa época você costumava escrever cartas?

 

R – Muito, era maravilhoso.

 

P/1 – E pra quem você escrevia?

 

R – Eu tinha uma amiga... Eu tinha amigas pelo interior, eu tinha amigos... Sempre que tinha uma amiga nova, ou amigo, a gente já pegava o endereço, independente se ele morava na mesma cidade ou em outro país, era importantíssimo ter aquele endereço porque ali era o caminho, e existia uma coisa muito romântica que era o que eu ia colocar naquele envelope, então... Adesivos, perfume, folha de uma planta, eram as coisas mais criativas e poéticas que a gente podia fazer, era maravilhoso. Eu tinha uma amiga de Portugal e a gente se correspondia muito, era muito especial, assim, ficar aguardando que a carta dela chegasse, é indescritível isso.

 

P/1 – Teve alguma outra carta que te marcou bastante?

 

R – Dessa mesma amiga minha, a Diana, o que me marcou é que eu tive um sonho, eu tinha 14 anos, a família dela veio pro Brasil e ficou anos vivendo aqui e depois voltou pra Portugal, nisso que ela voltou eu fiquei sem contato com ela durante uns dois meses, não sabia aonde ela tava morando, não tinha a menor ideia, porque se não fosse a carta não tinha nada, era carta ou nada, telefone a gente não tinha, raramente usaria pra uma ligação internacional, então, era carta. E ai eu acordei um dia e falei: “Mãe, eu sonhei que a Diana me mandou uma carta”, eu fiquei super feliz com esse sonho, e tudo, contei no café da manhã, e aí eu me lembro do sonho, exatamente, chegava aquele envelope e a minha mãe me entregava; e ai eu fui pra escola, quando eu cheguei da escola meio dia a minha mãe olhou pra mim e falou: “Olha, você sonhou e aconteceu no mesmo dia”, e eu recebi a carta da Diana naquele dia.

 

P/1 – Sensacional.

 

R – Sensacional.

 

P/1 – E hoje você ainda escreve cartas?

 

R – Não (risos).

 

P/1 – Não?  Como você utiliza o correio hoje?

 

R – Hoje em dia eu utilizo o correio muito pra encomendas, pra material, como eu sou atriz as vezes eu tenho que mandar um DVD, alguma coisa de um espetáculo meu, e tem que ser na integra, não da pra jogar via internet, então eu mando. E as vezes eu tento mandar um cartão postal pra alguém de algum lugar e tudo, mas é raro chegar, né, é raro chegar um cartão postal, assim, ainda tem amigos que mandam, mas é bem raro.

 

P/1 – E é bem bacana, é legal receber um cartão postal...

 

R – Muito, é maravilhoso. Eu acho que existe uma coisa, assim, que é importante a gente não perder, a comunicação agora é muito direta, então ninguém tem tempo pra nada, é: “Oi, você tá aí? Não tá? Olha, então...”, é isso, e eu percebo que a poética vai pro ralo, ao passo que se você mandar uma carta, alguma coisa, é muito mais cerimonioso, é misterioso, você abre aquele envelope, o que tem ali... E você tem aquilo... O email, realmente, você vai embora, né, vai ficar guardando? Agora carta não, carta a gente guarda.

 

P/1– Bacana. O que você achou de contar a tua historia aqui pro Museu?

 

R – Eu achei bacana, porque eu acho que, assim, o patrimônio não pode se perder, o patrimônio histórico, a historia é maior joia que a gente tem, né, então hoje em dia as pessoas vão a terapia, antigamente elas não iam, hoje elas vão, por que elas vão a terapia? Porque elas precisam saber quem elas são, elas precisam preservar a própria historia, então eu acho que com o patrimônio cultural é a mesma coisa, um país que não sabe a sua historia, ele não existe, ele tem que saber a historia, a historia tem que ser preservada, isso é fundamental, é joia, é a única coisa que a gente vai levar embora dessa vida.

 

P/1 – É verdade. Obrigado, a gente agradece pra caramba o seu depoimento, Obrigadão.

 

R – Obrigada.

 

FINAL DA ENTREVISTA

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