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História

A Plenitude Sábia

História de: Maria Diva Souza Silva
Autor: Thais Montanari
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Criada na roça teve infância marcada pelo Nordeste e as brincadeiras ao ar livre, andar e amansar cavalos. Gostava da liberdade de lá. Coordenadora da lavanderia comunitária.Vice presidente da Sociedade Amigos na Comunidade. Criou os filhos só.

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História completa

Projeto Heliópolis dos Sonhos

Realização Instituto Museu da Pessoa.net

Entrevista de Maria Diva de Souza

Entrevistada por Renato e Renata

São Paulo, 7 de maio de 2005

Código: HEL_CB004

Transcrito por Ana Gabriela Zangari Dompieri

Revisado por Raphaela Dos Santos Rei

 

 

P/1 — Bom, você podia começar falando o seu nome e o local e a data do seu nascimento? 


R — Maria Diva Souza Silva, nasci na Paraíba, e data de nascimento, 26 de março de 1952. 


P/1 — Qual cidade da Paraíba?


R — Serra Grande. 


P/1 — Que recordações você tem dessa cidade, assim?


R — Saudade do meu pai e de minha mãe, que ainda hoje moram lá, e eu gosto muito de lá. 


P/1 — E o que você fazia na sua adolescência?


R — Estudava e trabalhava na roça.


P/1 — Mas e um... O que você gostou, assim, na sua adolescência, o que que te marcou na sua adolescência?


R — A liberdade lá do Nordeste que a gente pode andar a cavalo, passear, brincar e ser livre. 


P/1 — E como é que eram esses passeios assim?


R — Andando pelas roças, pelos campos, aprendendo a andar a cavalo, amansando burro...


P/1 — Amansando?


R — Sim.


P/1 — E o que que te marcou, assim, nesse amansar, nesse cavalgar?


R — Os tombos que eu levava quando tava cavalgando! Marcou muito, que eu passei uns seis meses sem poder montar, que estava machucada. 


P/1 — Fora os cavalos, como é que a senhora se divertia?


R — Que eu me divertia? Com estilingue matando os "passinhos", essas coisas [risos].


P/1 — Os passarinhos? 


R — Sim. 


P/1 — E tinha muito lá?


R — Demais. Tem bastante. 


P/1 — E a senhora sempre morou aqui em Heliópolis?


R — Não, tá com 18 anos que eu tô morando aqui em Heliópolis. 


P/1 — E por que que você veio morar aqui?


R — A dificuldade de emprego. Lá no Nordeste só tem a roça e aqui tem emprego. 


P/1 — Aí você veio pra cá só por causa do emprego...


R — Só por causa do emprego


P/1 — Não tinha familiares?


R — Não tinha. Vim só pra conhecer e arrumar um emprego. 


P/1 — E como você descobriu Heliópolis?


R — Porque foi um primo meu que morou aqui em Heliópolis, foi passear lá e falou: "O canto melhor que tem pra pessoa chegar e se acomodar é Heliópolis”. 


P/1 — Por que que a senhora (____?) daqui da comunidade?


R — Eu participo de várias coisas, eu acompanho a moradia, a educação, saúde. E sou a coordenadora da lavanderia comunitária, né, que eu trabalho com duas mil famílias.


P/1 — Qual é o seu trabalho na lavanderia? Como é que faz?


R — De coordenadora, é pra fazer o agendamento e ver como é que tá o funcionamento da lavanderia. 


P/1 — E a senhora se diverte lá nessa lavanderia? 


R — É tudo! Lá foi onde eu aprendi mais a viver, que lá se diverte. Vem de tudo, você conhece de tudo, alí é um aprendizado e tanto. 


P/1 — Que que te marcou aqui na comunidade? 


R — A violência só. 


P/1 — E um fato bom? 


R — Fato bom? A facilidade que você tem de sobreviver aqui, que até procurando papelão, qualquer coisa, um pai de família sustenta uma família aqui. E isso foi tudo. 


P/1 —  E a sua família, o que eles acham?


R — Da minha família? Eles gostaram, que aqui foi onde todos cresceram e estudaram e todos têm emprego. 


P/1 — E eles também participam da comunidade?


R — Não, todos trabalham fora. 


P/1 — Só a senhora que...


R — Só eu que faço parte da comunidade, porque a coisa que eu mais gosto, que acho mais importante é ajudar a comunidade, os jovens, adolescentes, o público todo. 


P/1 — E como é que a senhora ficou sabendo do evento? 


R — Daqui? Porque eu faço parte daqui. Eu sou a vice-presidente da Sociedade Amigos aqui.


P/1 — É?


R — Uhum.


P/1 — E como a senhora trabalha na Sociedade Amigos?


R — Ajudando os jovens e adolescentes. Eu converso com cada um uma maneira de viver, como tem que permanecer em Heliópolis, tirar das ruas... Eu trabalho assim, meu trabalho é esse. 


P/1 — Foi assim que você criou seus filhos?


R — Foi assim que eu criei oito filhos, graças a Deus, todos trabalham e eu tenho esse emprego e eu consegui assim. 


P/1 — E fala um pouco deles.


R — O Pedro, o mais velho, com 17 anos já tava empregado, trabalhando e é o gerente de uma empresa, ___. E os outros todos têm primeiro e segundo graus completos e todos trabalham. Três são gerentes, um é numa loja de foto, um, numa fábrica de sapatos, e outro, na loja de roupas. Foi assim que eu criei todos os meus filhos. 


P/2 — E a senhora teve alguma dificuldade na criação dos seus filhos, já que a gente vive numa comunidade que tem violência? 


R — Tive dificuldade sim, que eu não queria que eles se envolvessem no mundo das drogas. E isso era uma dificuldade, que eu queria saber passo a passo aonde eles iam e qual era o colega deles, ou a colega, ou a amizade que eles tinham. Isso foi uma dificuldade e tanto, que eu sempre trabalhei direto e eu queria saber todas as amizades dos meus filhos. Isso eu sofri muito. 


P/1 — E o seu marido, assim?


R — Meu marido me deixou... Tá com 17 anos que ele me largou. Mora na Bahia com outra. Criei meus oito filhos só. 


P/1 — Só?


R — Eu e Deus… Uhum.


P/1 — E tem mulher? Filha mulher... Ou só homem?


R — São quatro filhas mulheres e quatro filhos homens.


P/1 —  E o que que elas acham do seu trabalho na comunidade?


R — Elas são muito orgulhosas, elas falam assim: "Mãe, eu gostaria muito de ter a coragem que a senhora tem de trabalhar na comunidade, justo em Heliópolis, da maneira que a senhora trabalha. A senhora sabe lutar com todo tipo de pessoas e tem orgulho de estar lá. Eu não teria essa coragem que a senhora tem". É isso, que elas se sentem orgulhosas de mim.


P/1 — E o que que a senhora tem pra nos falar do projeto? Acrescentar alguma coisa?


R — Nosso projeto, o que eu queria acrescentar, sim, gostaria que fosse feito era mais a área de lazer e esporte pros jovens e adolescentes, que nós vemos na rua. Eles sempre terem uma ocupação. Se os que vão pra escola e têm aquele horário livre, que eles ficam na rua, as crianças de menor, que não conseguem emprego, ter um espaço pra eles ficarem lá dentro. E nossos espaços aqui tão sendo muito poucos.


P/1 — E como a senhora ajudaria a fazer esses espaços?


R — Eu sinto, assim, nós precisamos formar uma comissão e ir lá nos grandes, nas prefeituras, nas lideranças maiores, que só nós da comunidade, só falando uma só pessoa não consegue, mas a gente formando um grupinho junto, nós conseguimos.


P/1 — E do nosso projeto?


R — Eu gostaria que ficasse sempre acontecendo, que é muito valioso a gente mostrar nossos projetos que tem aqui em Heliópolis lá fora. Se vocês vêm e ficam plantando o evento, pelo menos de seis em seis meses aqui, pra nós é tudo.


P/1 — E pra gente que participa, assim, que que a senhora acha que a gente tem que fazer pra melhorar um pouco a comunidade? 


R — O que vocês têm que fazer é não abandonar o trabalho de vocês e trabalhar com força, esperança e amor e fazer tudo sempre pra ajudar os mais humildes, os mais pobres. E aí que vocês crescem.


P/1 — E a senhora podia falar uma frase com a qual a senhora se identifica?


R — Identifica pra mim? É o amor e paz na vida de cada um. Só isso.


P/1 — Muito obrigado pela sua entrevista...


P/2 — Obrigada.


P/2 — Parabéns pela sua história de vida e... obrigado.


R — Obrigada a vocês.


P/2 — Muito bom, viu?



---FIM DA ENTREVISTA---

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