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História

A pesca e a construção de uma comunidade

História de: Nilmar Silva da Conceição
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/02/2009

Sinopse

Lembrança da primeira vez que saiu para o mar. O que aprendeu com as primeiras viagens de pesca. Métodos e técnicas de pesca. As dificuldades de se viver da pesca. Gestão no sindicato e suas conquistas para a comunidade. A importância do Banco do Brasil no estímulo das atividades produtivas da pesca na comunidade. Os fatos mais marcantes do crescimento da comunidade Z3.

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História completa

P/1 – Bom Dia Nilmar, obrigado por você ter aceitado nos dar esse depoimento. Pra começar eu queria que, por favor, você dissesse o seu nome completo, local e a data do seu nascimento.

R – Eu me chamo Nilmar Silva da Conceição, 47 anos, nascido aqui mesmo no município de Pelotas, em 05/09/1961.

P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe, por favor.

R – Meu pai já falecido, Nilo da Conceição, a mãe também já falecida, Nair Francisca Silva da Conceição.

P/1 – O quê que fazia o seu pai e a sua mãe?

R – O pai sempre pescou, veio de Santa Catarina pra cá, veio jovem pra cá e montou família aqui, casou com minha mãe, ela daqui do Rio Grande do Sul e ele sempre pescou e ela na lida de casa e também da pesca.

P/1 – Também na pesca? Você conheceu seus avós?

R – Avó, só a avó.

P/1 – Mãe de quem?

R – A mãe da minha mãe.

P/1 – E do lado do seu pai...?

R – Do lado do pai são de Santa Catarina, conhecemos assim depois de muitos anos, nós conhecemos a madrasta dele, que ele foi criado com madrasta e os irmãos dele de criação.

P/1 – Você sabe o nome deles, dos...

R – Sei, com certeza, Ivonete, Edinho, tudo de Florianópolis, tudo das praias lá de pesca.

P/1 – Seu pai veio de onde?

R – Meu pai veio do Rio Vermelho de Florianópolis, naquela época em mil novecentos e cinqüenta e poucos quando eles vieram pra cá vinham muitos pescadores de Santa Catarina em função da abundância de pesca aqui e aí vinham os pescadores de Santa Catarina pra pescar ali na safra que seria, naquela época, Dezembro, Janeiro, Fevereiro e Março e aí eles ficavam nessa temporada e depois iam embora. Alguns, no caso do meu pai, casou por aqui.

P/1 – Ele ficou por aqui porque conheceu a sua mãe?

R – Sim e gostou da pescaria aqui, ele talvez tenha tido uma boa safra naquela época, foi ficando, como vários também, hoje, aqui na nossa comunidade 50% são oriundos de Santa Catarina.

P/1 – Ah, curioso, e, quer dizer, ele sai o pescador de alto mar e vem pra uma lagoa?

R – Vem, vem pra uma lagoa.

P/1 – O quê que tem de especial essa lagoa?

R – É, na época a fartura de pescado nesse período que eu te falei, como em Santa Catarina foi um dos primeiros lugares que eu acho que criaram a pesca eles foram terminando a pesca por lá e aqui, nessa época, dava muito camarão, camarão e tainha. E eles vinham pra cá como eles sabiam outras áreas, também já eram mais antigos na pesca do que nós aqui, eles acabaram nos ensinando um pouco e aí vinham pra cá, passavam esse período e alguns foram ficando.

P/1 – Certo, caso do seu pai, né? O teu pai contava assim da origem da família dele, de onde é que eles vieram?

R – Eu na verdade eu tinha cinco anos quando ele faleceu, ele faleceu muito novo, não chegamos a conversar assim, sabe, mas eu tenho lembranças do meu pai sim, de eu guri e ele saindo pro mar pescar de manhã, mas não chegamos a conversar sobre, depois sim, né, que a gente conheceu nossos parentes lá de Santa Catarina contaram a vida dele, que quando ele era uma pessoa quando veio pra cá, era solteiro veio arriscar aqui fazer umas pescarias e ficou por aqui e gostou. Se eu me lembro de ouvir falar ele não foi mais embora e aí pescou desde aqui e depois contraiu uma doença grave, naquela época, e os familiares levaram pro Rio Grande e aí acabou falecendo lá e nos deixou, a mãe e sete filhos, somos cinco homens e duas mulheres.

P/1 – Como é que é a escala das crianças?

R – A escala é tipo assim, o José tem 49, a Deth tem 48, Nilmar tem 47, a Ivonete tem 46, tu ta vendo, né, [risos] e Ivanilto parece que, aí deu uma diminuída, 43, depois tem o Cláudionir com 42 e o Ronaldo com 41, não sei se eu esqueci de algum, mas acho que deu sete e paramos por aqui porque ele faleceu [risos]. A gente passou uma infância, graças a Deus de saúde, sempre pescando, todos oriundos da pesca, todos estão na pesca, passamos muito trabalho, porque uma mãe com sete filhos, mas graças a Deus nos criamos com saúde, educação só pela mãe e hoje estamos aqui a frente do sindicato graças a família que a gente teve.

P/1 – Tá certo, a sua mãe foi uma guerreira pra segurar esse rojão?

R – A minha mãe, eu digo, com exceção, não menosprezando as outras, foi a melhor mãe do mundo! Criar sete filhos com aquela situação, não de pobreza, mas de necessidade, por causa que era família muito humilde, mas muito ajudado pelos outros, pelos próprios tios e a comunidade. Aí vai crescendo, onde cria dois, três vamos no sete, aí depois chega a escola, aí depois da escola vamos trabalhar na pescaria, fazia, quando completava dez anos vai lá, ó, vai lá pro mar que os outros pequenos estão... Então foi assim, a infância mais ou menos boa, trabalhosa, mas tranqüila.

P/1 – E aqui mesmo nesse pedaço, aqui na colônia?

R - Na verdade com cinco anos quando meu pai faleceu nós viemos da ilha, a ilha é uma comunidade próxima aqui, onde eram os pescadores e aí a proximidade do centro nós, viemos pra cá, nós e as outras famílias, aí acabaram fundando a localidade aqui, é uma ilha próxima, mas existe pescadores também. Aí com cinco anos viemos pra cá, porque a escola lá era muito precária e aqui já tinha um pouquinho melhor, então viemos todos pra cá.

P/1 – E como era a sua casa aqui?

R – A minha casa? Que eu me lembre a primeira casa tinha dois cômodos, uma cozinha, fogão a lenha e a outra peça onde ficava a gurizada toda com a mãe, isto foi o inicio de nós morando aqui na colônia (Z3?)

P/1 – E como é que era o cotidiano da casa assim, os mais velhos saíam pra pescar, como é que era?

R – Então, se eu tinha cinco anos, o José tinha sete, aí o José estudava e a Deth estudava também. Eu tava querendo ir pra escola, os outros quatro eram bem pequenos mesmo, e a mãe trabalhava nas peixarias. Aí nós mesmos se cuidava alí, de vez em quando tem alguma guerrinha entre o outro por causa disso e daquilo, mas fomos indo. A lida da casa era o seguinte, a mãe trabalhava na salga, que a gente chama aqui de salga a peixaria...

P/1 – Salga? Pra salgar o peixe?

R – Salga, é pra salgar o peixe, né? Trabalhava de manhã, de tarde, e nós arrecadávamos roupas nas casas dos pescadores pra ela lavar de noite, pra nós entregarmos no outro dia, então essa foi a lida da família. E sempre ajudado pelos outros, aprendendo também a capinar um pátio, indo na venda pra um vizinho.

P/1 – Certo. E como é que era...

R – Mas não era muito diferente das outras pessoas, eu em particular porque perdi o pai, mas as outras crianças da época aqui também, era estudar e quando completava dez anos, ia pro mar pescar, por causa que tinha... Aí o José quando completou dez anos, terminou a 5ª série, era o máximo que nós tínhamos aqui, foi pescar com os meus tios e, naquela época tinha peixe, abundância, valia pouco, mas tinha, não se passava fome, passava como eu te disse necessidade, né? Não tínhamos uma roupa melhor, os cadernos eram doados, o próprio uniforme chamava na época, era também de sacos de farinha, mas acabamos todos aprendendo a ler, com exceção de dois que não quiseram terminar e ficaram aí meio analfabetos, mas... E como tu perguntou a lida, então a mãe ia pra salga e nós cuidávamos um do outro, aí o mais velho fazia o almoço ou preparava o almoço quando ela chegava já fazia, e quando os dois primeiros, o José e a Deth, completaram os dez anos um foi trabalhar e o outro foi trabalhar numa casa de família, ajudar também, pra no fim do mês nós juntarmos as economias pra pagar a venda. Porque nesse meio tempo a gente ia, tinha que se alimentar, não tínhamos o pai mais, aí o dinheiro que vinha do José já ajudou muito. Aí quando eu completei dez anos eu fui pescar, e teve o outro, o Ivanildo, que nem completou dez, desistiu da escola e foi pescar. Aí a coisa se normalizou em casa, com três trabalhando, menores, mas trabalhando. Naquela época acho que podia, né, porque não tinha mais escola, não que a gente não fosse estudar mais, não tinha mais, só se fosse pro centro de Pelotas, aí não tínhamos condições nem de nos manter no centro, aí o negócio era trabalhar mesmo. Então conseguimos com o dinheiro que se ganhava na pesca, os três, a metade se entregava pra mãe, pra mãe pagar a venda e a outra metade pra nós comprarmos uma roupa, comer uma fruta que na época não deu, um doce, foi basicamente isso.

P/1 – E como é que a criançada se divertia? Quais eram as brincadeiras que vocês faziam aqui?

R – Muita maldade um nos outros, briga e coisas, isso era normal! [risos] Não sei se eram todas as crianças, mas aqui com a gente quando se conhecia assim era criança criada a campo, como se diz mesmo, aqui criado a praia, mas uma infância boa, diversão: jogar bolinha de gude, jogar taco, as meninas com boneca, nós é que tínhamos, temos agora, não pode mais, mas tínhamos a caça, caçava muito aqui nos matos passarinho, preá, esse tipo de coisa e tudo vinha pro rango! Então essa era a diversão, depois futebol que sempre teve e mais tarde bailes e coisas.

P/1 – Tá certo, e nisso a comunidade crescendo aqui, né?

R – A comunidade crescendo quando nós viemos pra cá, em 1966, calculava-se aqui acho que umas 500 pessoas, depois foi vindo o outro pessoal que tinha ficado na ilha por mais um tempo foi vindo pra cá, já veio também alguns de Santa Catarina e foi ficando e aí hoje não tem mais espaço aqui pra montar uma casa na nossa comunidade.

P/1 – E essa sua primeira escola como é que era?

R – A minha primeira escola, então a primeira professora chamava-se Neusa, lembra-se, a gente lembra, né, da primeira professora... Que começou a me ensinar a pegar o lápis, depois a outra professora foi a Pindorama, essa sim, aí me ensinou a ler e a escrever na escola Raphael Brusque que é ainda a escola Raphael Brusque que nós temos hoje. Depois com o tempo fui aprendendo a ler e a escrever, e mais alguma coisa, e termina-se a 5ª série, chamada quinto ano, foi o que se aprendeu aqui, mas se aprendeu a ler e a escrever com certeza, na época, comparando os professores de hoje era mais uma mãe que nós tínhamos lá, nós ficávamos a manhã toda com essa professora, além de aprender bons costumes e aprender a ler a escrever, a educação, de tarde ia pra casa, no outro dia estava lá e, às vezes, até a merenda era “pegada” lá pra também suprir o que faltava em casa.

P/2 – Os professores eram todos da comunidade aqui também?

R – Não, professores vinham do centro, né, que tinha que estudar lá, o pessoal daqui difícil ser formar, a partir, acho que de 1970, que começou a vir professores daqui da comunidade que se formaram, porque estávamos muito atrasados mesmo nos estudos. Imagina numa comunidade de 500 pessoas sair um professor. Quando veio a primeira professora, bah, mas acabavam vindo morando aqui, por causa que, hoje vocês vieram aqui e são sete quilômetros que nos separam do asfalto, mas antigamente eram 40, por causa que era pela outra volta aqui, tem uma outra entrada aqui na vila que naquela rua que você entraram do sindicato sai lá na BR, nós tínhamos que fazer, vocês imaginam, tinha um ônibus naquela época que saía daqui tipo seis horas da manhã voltava seis horas da tarde, então esse professor teoricamente teria que ser ao contrário, então acabaram ficando por aqui mesmo os professores e alguns casando e alguns criando família.

P/1 – Eu queria que você descrevesse esse seu lugar, como é que é, porque a lagoa ta no pampa, num bioma tão interessante, é um elemento tão diferenciado, né, porque uma quantidade brutal de água, como é que é esse lugar aqui, como é que você definiria a Lagoa dos Patos e esse lugar onde você vive, ta fazendo a sua vida?

R – Olha, eu acho, isso aqui antigamente, aqui onde nós estamos seria praia, pelo que a gente conhece e até quando vão fazer uma construção a gente acha muita conchinha, muita coisa assim de mar, eu acho que a praia era mais pra cima, e com função da Lagoa dos Patos ser muito grande essa costa aqui foi crescendo. Hoje nós temos aqui seria a praia, lá pra cima, uns 300 metros tem um barrancão que a gente chama, dali que a gente imagina que fosse a praia. Bom, dali pra cima tudo é granja, é lavoura, não tem nada a ver com a pesca e se formou a vida aqui em função dos pescadores terem vindo pra cá por causa do ancoradouro que hoje é, mas era um arroio, eu acho que dali começaram a fazer as casinhas na volta, (às vezes?) pescava, sempre aqui fora e com esse vento tinha que ter um abrigo, dali foi se formando a pesca, a comunidade pesqueira e se expandiu pela vila toda e a proximidade também da outra costa que é São José do Norte, Rio Grande ser próxima, acho que o pessoal foi vindo mais pra cá e ficou. Porque temos São Lourenço do Sul, São José do Norte, Rio Grande, são colônias nossa, mas são centros, são tudo no centro, a nossa é diferenciada, é um município de Pelotas que tem esse distrito aqui que é só da pesca. Aqui a lagoa na nossa frente e nas nossas costas e do nosso lado aqui lavouras de arroz, criação de gado, bem assim.

P/1 – O nome do distrito qual é?

R – É o 2° Distrito de Pelotas, Colônia de pescadores Z3, antigamente chamava-se Arroio Sujo, então em função desse arroio que, por muito tempo, alguns ainda conhece “Vamos no Arroio Sujo?”, o pessoal lá do Arroio Sujo, o nome é meio chato pra nós, mas era o que tinha. Aí em função depois de criarem a escola, o próprio ambulatório resolveram trocar de nome, porque era meio constrangedor, “eu moro no Arroio Sujo”. Como já tinha a colônia de pesca Z1, que é Rio Grande, colônia de pesca Z2 que era, que é São José do Norte criou-se então a colônia de pesca Z3. Aí resolveram dar mais uma esticadinha no nome colônia São Pedro de pescadores Z3. Em função do padroeiro, do santo ter sido padre, dele ter sido pescador, ficou um nome muito grande: Colônia São Pedro de pescadores Z3, ou Colônia de pescadores São Pedro Z3. Depois apareceu sindicato já, mudou um pouco as estruturas da entidade e resolveu se chamar Colônia Z3, hoje a colônia de pescadores São Pedro Z3, simplesmente Z3. Tá no centro de Pelotas ou qualquer outro lugar: “ah de onde é? Da colônia Z3”.

P/1 – Aham, perfeito. Você se lembra da primeira vez que você saiu pro mar ou pra lagoa?

R – Lembro.

P/1 – Como é que foi?

R – Lembro, eu tinha mais ou menos uns nove anos e os meus tios trabalhavam numa, a gente chama aqui de parelha de pesca. Parelha de pesca pra você, é tendo duas embarcações, é a parelha do Seu João e eu tinha ido pra escola de manhã e faltou, -- a gente chama aqui proeiros --, são parceiros de pesca. Por exemplo, eu tenho uma embarcação e as minhas redes, e aí o outro ali não tem, é o meu parceiro, ou ele tem um pouco da rede ou ele tem uma embarcação, nós temos um parceiro. E um dos parceiros do Seu Ademir não veio naquele dia por motivo não sei, de doença, ou se tomou umas a mais e não veio, e eu era guri de nove anos. Depois do colégio, vinha pra praia arrumar um peixe, quando chegavam os pescadores arrumar; arrumar a gente diz, é pedir mesmo pra levar pro rango ou senão pra ajudar um pescador que chegou. Guri tava sempre na praia, hoje não tem mais a gurizada na praia, mas na nossa época, nós vivíamos aqui nesse local que nós estamos. E eu cheguei e estava o Seu Ademir empenhado, como se diz, “não foi pro mar hoje Seu Ademir?”. “Ah, o fulano não veio pro mar”. “Por que o senhor não foi?”. “Ah, porque sozinho não dá pra ir!”. “Tá, eu posso ir com o senhor?”. “Ah, não dá guri! Tu não vai poder puxar rede não”. “Mas o senhor não pode? Eu vou de parceiro!”. “Tu vai mesmo?”. “Vou!”. E já subi pra embarcação, e aí  daquele ancoradouro foi eu e o Seu Ademir, chamava-se, o nome da embarcação, se não me engano Sou do Amor. Seu (Zica?) tinha o Sou do Amor, Sou Naval, isso faz quando? Em 1970 vamos dizer, né, 1961, 1970, e na época da Copa do Mundo, né? Eu fui pro mar com o Seu (Zica?), daí eu cheguei lá, andava nesses barqueiros aqui na volta, caía quando dava assim, sabia remar, mas lá não tinha ido. Chegando lá, umas duas horas de viagem, onde que o Seu Ademir tá a rede dele? Passava por outros pescadores, pessoal abanava, nós olhávamos, praticamente o seu Ademir sozinho, eu pequeno lá na proa, na embarcação. Quando chegamos lá na rede mesmo, Seu (Zica?) começou a manusear porque tinha que ter um pra puxar rede e o outro pra... Mas eu fiz o meu trabalho, tenho certeza, e Seu (Zica?), (Zica?) era apelido, matou bastante peixe naquele dia, trouxe bastante peixe e o pessoal se admirou dele ter ido e eu ter ido sem documento, sem nada, com (a certeza?), e chegamos. Quando fomos encostar ali na peixaria pra vender, todo mundo estranhou porque o parceiro dele, todo mundo se conhecia, se conhece até hoje. “Ah cadê o fulano?” “Ah, não veio?” “Eu levei esse guri e não é que deu?”. Tiramos o peixe, não conseguimos tirar todos, que aí eu já tava cansado, né, serviço de homem mesmo, ele deixou um pouco de peixe lá. No outro dia, quando ele viu, eu tava ali pra ir de novo, aí veio o companheiro dele e “é, mas hoje não vai precisar!” “Ah, mas eu vou ter que ir de novo!”. Até porque ele me recompensou, né, ele matou bastante peixe naquele dia como se diz e ele “ah, vou te dar”. Aí hoje, no dinheiro de hoje, vamos dizer, eu ganhei uns R$30,00 mas R$30,00 pra mãe, “ó mãe R$30,00!” Foi um sucesso, no outro dia, quando ele viu, eu tava ali. Aí ele me explicou que não podia levar por causa que em função da marinha, da capitania, que aquilo foi emergência, mas eu não desistia, eu fui no outro ali do lado: “vocês não vão pro mar? Não tá faltando proeiro?” E eles me...

P/1 – Você gostou da coisa!

R – Gostava! Já tava no sangue, não adianta, aí eles não me levaram mais, não tinha como levar mesmo, foi uma emergência. Da emergência, aí começou a safra mesmo, e eu já comecei a gostar, e fui com o meu tio, falei pra ele “ah, deixa eu ir hoje?” Aí eles levavam, porque era uma pescaria mais perto, saía daqui tipo oito horas da manhã, voltava uma hora da tarde.

P/1 – E o quê você começou a fazer, as primeiras coisas que você aprendeu nessas primeiras saídas?

R – Primeiro a viagem, é uma maravilha viajar por essa lagoa. Primeiro, pra mim era uma novidade, um guri de dez anos praticamente. E a primeira lida que eu me lembro foi puxar a cortiça que é a parte mais prática da coisa, o chumbo que é a outra parte da rede já tinha que ter força, safar um peixe, tirar o peixe da rede pra mim eu não saberia, mas aí quando eles safavam, eu pegava o peixe, botava na caixa e ali vai aprendendo, não me seguraram mais. Com 12 anos eu tava pescando na lagoa, onde só pescava com 18, 20 anos. Um pouco da ansiedade, um pouco de gostar também. E o meu irmão já estava com 15 anos nessa época e eu com 12 e ele com 14, aí fomos os dois pescar.

P/1 – E ficou trabalhando com o seu tio?

R – Ficamos com o tio, aí os tios eram os responsáveis. Não podia ir mais com o Seu Ademir, ou com outro por causa que, aí a mãe ficava preocupada, e os próprios professores começavam a dizer “ah, esse guri trabalhar é muito novo!”. Mas com o tio, sempre dava uma cuidada em nós. Aí depois fomos pescar em Jaguarão. A gente viaja muito pra fora assim, tem uma época que tu passa dois meses trabalhando lá pro lado de Tapes, outro pro lado do Jaguarão e aí a gente, quando eles foram que me levaram, pra mim foi um sucesso, eu acho que a gente tava com uns 14 anos, fui pra Jaguarão aí...

P/1 – Porque fica essa temporada tão longa fora?

R – É safra, né? Então quando aqui tá ruim, lá tá bom e, às vezes, vice e versa, então o pessoal de lá vem pescar aqui e nós vamos pra lá.

P/1 – Como é que é o procedimento, quer dizer, arma a rede lá fora, joga a rede? Como é que funciona a pesca?

R – Isso depende da espécie que a gente vai pescar. Por exemplo, a tainha, que é um peixe que dá, não em grande quantidade, melhor quantidade para nós aqui. A tainha tem dois tipos de escala, que nós vamos de manhã, tipo seis horas, sete horas e aí a gente anda nessa lagoa toda procurando algum cardume, alguma coisa e chama-se lance, duas embarcações vão e fazem um cerco e aquele peixe que tá ali dentro vai (malhando?) na rede, e a gente colhe a rede pra dentro da embarcação e vai tirando os peixes. Às vezes tem sorte de pegar mais, menos, aí tu de tardezinha, tu vem pra casa esse é um tipo de pescar tainha, aqui a gente chama no estuário quando ela passa pra lagoa que aí é duas, três horas de viagem, às vezes até mais, aí tu tem que ter uma embarcação com gelo, uma caixa de gelo para congelar os peixes e um local pra ti dormir dentro da embarcação. Tudo muito rústico. Trabalhou, tirou um colchão ali, uma barraca por cima e dormiu, ou também tem a possibilidade de encostar em algum lugar que tenha um arroio, tipo São Lourenço, Camacuã, aí tu fica ali em terra, faz uma barraca, dorme, e no outro dia sai. Esse é o outro tipo de pescaria, é a tainha, mas é um outro tipo de pescado. Por exemplo, tu vai lá, larga a rede, vem pra terra e no outro dia vai colher, ou se encontrar, também, um cardume melhor também faz o cerco, mas aí tu passa uma semana lá, aí volta com o peixe da semana.

P/1 – Com o peixe no gelo?

R – Com o peixe no gelo, isto a tainha. O linguado também é um outro peixe que dá aqui, a gente chama de rede de espera. Botamos nesses paus que você tá vendo aqui e lá mais adiante tem uns maiores, lá pro lado do canal que nós chamamos, botamos a rede lá de tarde e de manhã vamos retirar. Isso é a rede de espera, esse é diário, vai num dia e volta no mesmo. O camarão também que é, na época de fevereiro, março, abril e maio, que nós podemos pescá-lo aqui dentro. Quando entra do oceano pra dentro da nossa lagoa, tem dois tipos de pescarias: a rede de espera, que nós chamamos de aviãozinha é um tipo de uma armadilha que a gente faz com uma rede, com um saco assim, tipo um funil, sabe? Aí botamos uma luz, isso, botamos seis, sete horas da tarde assim, né, pesca durante a noite, aí bota a luz. O camarão que anda circulando em volta da rede entra, e a gente retira ele lá no fundo do aviãozinho quando chama ele, parece um avião que tá de asa aberta.

P/1 – É uma lanterna que você põe ali?

R – É lampião a gás, em biquinho, esse é o de pescar camarão. Outra forma de pescar camarão, que é predatória, mas que nós também pescamos é o arrasto, aí tu sai de manhã, arrasta ele. É proibido, mas às vezes tem a necessidade, nos obriga a pescar também...

P/1 – Por que que é proibido?

R – Porque o IBAMA [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] não permite o arrasto dentro da lagoa, somente fora do oceano, mas tem uma época que o camarão junta e se nós não pegarmos. Isso é o que nós entendemos um pouco da necessidade, se nós não pegarmos ele vai sair de volta pro oceano. Na verdade, a gente entende que tem que preservar, que nós também contribuímos muito com a pesca predatória, mas a necessidade, às vezes, nos obriga a dar uma arrastada e se eu disser pra ti que não fizemos, eu estaria mentindo e eu quero um depoimento bem claro, que nós pescamos a pesca predatória sim, aqui e em todo o distrito, em toda a lagoa. “Se cuidamos do IBAMA”, o IBAMA nos pega, nos toma a rede, temos prejuízo, mas tentamos fazer ele entender que é uma pescaria viável e tem que ser regulamentada. Hoje o órgão só nos diz assim: “não pode” e aí o “não pode” é complicado pra nós, porque às vezes nós entendemos que não pode hoje, já estamos muito conscientizados. Pescador já tem muita palestra, o próprio sindicato traz o IBAMA pra conversar com os pescadores, que teria uma outra área de pesca já que eles não permitem aquela que nós possamos pescar pro camarão não sair de volta, que ele vai pro oceano, aí depois pros grandes barcos, e nós ficamos aqui, como se diz, chupando dedo.

P/1 – Mas não tem uma forma de fazer manejo, de fazer um manejo disso?

R – Então a gente já tentou, mas é a hora que o camarão junta e a gente tem a facilidade da gente chegar lá e pegá-lo.

P/1 – E por quê que o arrasto é tão predatório assim, porque ele mistura todo tipo de camarão novo?

R – Não, ele até no tamanho do camarão, se ele tipo, tem uma malha mas o peixe pequeno entra, o peixe assim ó, quando tu bota uma rede de espera o peixe que vem na maré como chama, ele malha, mas quando o peixe tá ali comendo, se alimentando, e até viajando e tu vai arrastar, tu pega todos. E aí tu pega o camarão que tá no tamanho bom, mas tu pega também o linguado pequeno que vai ser um linguado grande pra nós depois, ou seria se nós não pegássemos, uma corvina, o bagrinho, nós entendemos dessa forma, mas...

P/1 – Mas não dá pra soltar?

R – Como a gente arrasta, meia hora ele já fica meio, alguns até se soltam, mas sabemos que não tá certo. Mas assim, ó, também não dá pra todos pescarem na rede de espera, alguém tem que fazer uma outra coisa e aí o IBAMA sai, nos pega, como eu disse, é uma preocupação também pro sindicato porque o pescador tem que responder a processo, dá uma série de problemas. Não estamos roubando, mas estamos, sabemos, estamos conscientes que se pudesse pescaria de outra forma.

P/1 – E a forma como normalmente vocês pescam ou é nessas redes de espera ou sair pra buscar um cardume, né, como é que vocês identificam um cardume?

R – Ah, é na experiência, aí tu sabe mais ou menos os pontos que eles vão estar, de acordo com o vento e nós chamamos sondagem, não tem nada a ver com o assunto aqui, nós fazemos um teste, um palpite, “ó eu vou arrastar ali”, porque ali tem camarão, aí tu dá uma arrastada pequena pra ver se tem. Se tem, já vem mais ou menos; se não tem, tu vai mais adiante. Aí vai procurando, já tem uns locais mais ou menos que a gente pesca. Isso o IBAMA sabe, as vezes está nos esperando lá. Aí no outro dia eles saem e nós vamos.

P/1 – E como marcar ponto nessa imensidão de água aí, como a gente consegue marcar um ponto?

R – Pra pescar?

P/1 – É.

R – É então, a marinha, a capitania dos portos, eles têm uma demarcação não sei se alguém tava olhando no mapa lá que tem no sindicato. Alí são zonas de pesca, né, nós temos aqui a Sarangonha, a (Sitia?), a Soteia, o Banco do Jacaré, tudo nomes assim dados pelos pescadores, então ali eu tenho a minha andaina registrada. Andaina é o local que eu vou botar as minhas redes de espera, eu tenho registrado no Banco Jacaré, o Seu João tem no Banco do Jacaré ao lado do Nilmar, o Pedro tem na frente 300 metros na medição, então ali são 30 pescadores licenciados pra pescar naquele local e assim por diante, vários locais. Então cada um tem o seu local pra pescar de espera, agora a outra não, é onde der, é onde o IBAMA não passar.

P/1 – Certo, então na verdade só se pode pescar de espera aqui?

R – Na verdade é, de espera ou cerco, alguns, e o arraste sim, ele é proibido. Não te digo que todos os dias vão cometer o arrasto, mas assim, durante a safra que dá fevereiro, março, abril, maio no mínimo umas três vezes por mês alguém dá uma arriscada, nós sabemos que é arriscado, mas, enfim.

P/1 – Tá certo, quer dizer, na verdade você tá chamando de safra...

R – O período.

P/1 – O período de maior piscosidade, de maior produção, e o resto do ano?

R – Nós temos quatro meses que somos, por lei, obrigados a ficar parados, até pra lagoa dar uma respirada e o peixe crescer, que é Junho, Julho, Agosto e Setembro. Nsses meses não pescamos as nossas espécies aqui que é camarão, corvina, bagre  e tainha, essas quatro espécies nós não pescamos nesses meses, aí o governo paga um salário mínimo pra nós ficarmos parados, um salário mínimo, é complicado também, tu acha que nesses quatro meses eu vou me manter com a minha família com um salário? Aí a esposa também pode fazer, desde que tenha a documentação necessária, são dois salários, aí já melhorou, mas antigamente era só um por família, quer dizer, só eu que tenho a documentação, mulher não tinha e não fazia, hoje já melhorou, hoje já fazem os dois, mas mesmo assim uma família aí de pescador, família grande, aí é brabo. Filhos estudando, custo de vida caro, alguém acaba dando uma pescada nesses meses, poucos, são poucos, mas alguns vão pra complementar a renda, aí não pescam essas espécies que estão na defesa, aí pescam o linguado, uma traíra, um outro tipo de peixe pra complementar a renda.

P/1 – Também com rede?

R – Com rede, sempre com rede.

P/1 – E o que vocês ficam fazendo durante esses meses parados?

R – Consertando as redes pra pescar na época de coisa, consertando uma embarcação, jogando futebol, tomando uns tragos também, que pecador gosta de uma cachaça. Na verdade são umas férias, né, obrigada, e, realmente, é uma época de frio. Para nós aqui é ruim de pescar, calhou bem os meses, foi um estudo feito justamente o IBAMA e o Ministério do Trabalho. Os próprios pescadores foram se adequando. Parece que era Março, Abril, Maio e Junho, depois foi vindo, até que achamos uma data ideal quando o peixe realmente ta desovando, né, tá produzindo, e quando tem pouco peixe pra nós pescarmos e quando está frio, então juntamos tudo, e aí se definiu esses quatro meses pra parar. Nos outros oito meses a gente sai, vamos pescar na lagoa, alguns vão pescar em alto mar, nessas mesmas embarcações um pouco maiores, vão pescar em alto mar, lá em Rio Grande, enfim, tem que sair da pesca o dinheiro para o sustento, não tem outra forma.

P/1 – Sai pela Barra do Rio Grande e vai pro mar?

R – Saímos de manhã e voltamos a tarde.

P/1 – Você chega no mar aqui num dia de viagem?

R – Não, aí a gente fica lá em Rio Grande, tem um local lá pros pescadores acamparem, aí vai de manhã e volta de tarde. Mas hoje já tá muito escasso lá também, né?

P/1 – Por quê, hein?

R – Nós praticamos a pesca predatória aqui, lá fora é muito pior.

P/1 – Como assim?

R – Os barcos grandes, os barcos industriais aqueles sim, aqueles arrastam o peixe que ia entrar pra cá pra dentro é arrastado tudo lá fora, aí vamos sentir aqui. Então peixe, a tendência da pesca na Lagoa dos Patos é cada vez diminuir mais, tá visto já, tipo assim, nós pescamos no ano 2000, foi uma das melhores safras de camarão aqui. Posso te dizer em números que aqui na colônia, aqui no nosso município pegamos mil toneladas.

P/1 – Mil toneladas.

R – Mil toneladas! Se nós pescarmos hoje 200 toneladas nós estamos contentes.

P/1 – 2000 foi ontem!

R – 2000 foi ontem, oito anos atrás, e hoje, claro que cresceu o número de pescadores, aumentou o esforço de pesca, a rede, tudo, mas já entrou menos peixe porque entrou menos camarão, porque lá fora o pessoal já pegou as matrizes e já entrou. Assim a tainha, assim a corvina, hoje um barco de arrasto lá fora traz 50 toneladas de peixe, é aproveitado, nós sabemos, dez, 20 toneladas, o resto é peixe pequeno, eles arrastam, é permitido pescar, mas só que não era pra trazer esse monte de peixe pequeno. Vem junto, né, eles chamam o descarte. E é esse peixe, a maioria dos peixes quando, se for corvina, ou tainha pequena, ou o próprio linguado, ia entrar pra se criar aqui dentro, isso já vem de anos e anos. Aí a gente reclama, a gente faz reuniões, junta os pescadores, nós vamos pra frente do IBAMA, e o IBAMA até tenta, em alguns casos até tenta apreender um ou dois barcos pra não fazer, mas é uma luta muito grande, muito desigual, nós aqui pequenos e eles lá grande.

P/1 – Esses barcos são brasileiros ou de outras bandeiras?

R – Brasileiro, Santa Catarina, Santos, Itajaí e alguns de Rio Grande.

P/1 – E como é que funciona essa pesca predatória lá fora, o quê que esses barcos, são dois barcos, é o mesmo esquema que vocês usam aqui?

R – Alguns são dois barcos, alguns pescam um só, as chamadas traineiras, eles fazem um cerco, aqueles sim, aqueles tem como identificar onde está o cardume, os aparelhos que eles têm, o sonar, a própria sonda, então eles já sabem onde está o cardume de peixe, “aqui tá melhor, ali tá mais ruim”, e eles cercam tudo aquele peixe. Chegou época deles cercarem tanto peixe que  não conseguiram levar na embarcação deles, aí acabaram dando para os pescadores que estavam na volta. Não iria todo o peixe entrar pra cá com  certeza, mas 1% daquele peixe que entrasse pra cá em dois, três meses estaria bem maior, isso é o ciclo normal. Ele ta no oceano, o peixe, ele entra pra cá pra criar aqui pra nós pegarmos um pouco e um pouco sair também pra procriar lá fora, mas não ta acontecendo isso. Antes dele entrar ele ta sendo pego lá fora, entra uma mínima quantidade e aqui também tem que trabalhar, tá saindo pouco, e esse ciclo da pesca tá em todas as espécies, começou no bagre, já tem muito pouco aqui, a gente chama a tal da miragaia, nem entra mais nenhum aqui, antigamente tinha, essa pescadores de 20 anos pra cá nem conhece esse peixe...

P/1 – Miragaia?

R – É, miragaia. Eu cheguei a ver, pegar bastante aí, peixe de 20 quilos, cheguei a pescar aqui na minha época de 15 anos até 20 anos, tinha miragaia, hoje os pescadores não conhecem. A corvina ta em extinção e o camarão só não tá todo, ainda tem algum, porque ele entra em larva pra cá pra dentro, mas aí quando ele vai, ele entra na larva aqui, entra como larva, cresce, nós pegamos ele quando tá na fase juvenil e depois ele retorna pro oceano, a matriz. Então é pego lá, aí não tem como voltar toda a matriz.

P/1 – Na verdade esse processo vai acentuando o desequilíbrio, né?

R – Com certeza.

P/1 – E não há o que se fazer?

R – Já estamos tentando há horas, mas falta muita coisa pra nós chegarmos lá, principalmente uma boa fiscalização, e nós que pescamos no predatório, e lá fora quando vai entrar o peixe. Muita promessa de “vamos resolver”. Às vezes até uma boa vontade do IBAMA, mas falta estrutura, uma lagoa dessa aqui imensa com uma lancha pra patrulhar, enquanto nós estamos arrastando aqui, eles estão lá no outro lá, nós estamos sabendo que eles estão lá e vamos embora. Então, imagina no Rio Grande, com celulares, radioamadores, uma lancha pouco faz, então a estrutura do IBAMA, não culpamos o IBAMA de não fazer gente, é de não ter a estrutura adequada pra fiscalizar a nossa lagoa, isso foi cada vez mais. Temos a intenção, não sei quando, de termos um peixe em cativeiro talvez, em gaiolas, isso está sendo estudado pelas universidades, vai ser uma forma daqui pra frente da sobrevivência dos pescadores, criar o peixe, coisa que nós temos uma lagoa aqui, que se fosse preservada, e cuidada como deve, jamais precisaríamos criar peixes. Se um dia a gente tiver que criar, a lagoa é muito rica, mas uma boa ação IBAMA, PATRAM [Patrulha Ambiental], governo federal, estadual, municipal, associação dos pescadores, nós teríamos aqui, quem sabe, né, pro futuro, a lagoa tem, peixe tem, só tem que ser preservado.

P/1 – PATRAM quer dizer o quê?

R – PATRAM é uma Patrulha Ambiental, alguns nomes assim que eu for falando, vocês quiserem saber é só perguntar.

P/1 – Ah, estamos aqui pra perguntar, né?

(troca de fita)
(continuação da entrevista)

P/1 – Esses barcos que ficam na entrada da lagoa lá em frente a Rio Grande que ficam pra pescar os peixes, pra buscar os peixes que entrariam, eles vêm de onde esses marcos?

R – Esses barcos são oriundos de diversos estados, até do Pernambuco, até, às vezes do Rio Grande, eles têm uma identificação. Os barcos, quando eles estão pescando, a gente passa por eles lá na Barra e vê a identificação Recife, Espírito Santo, mas a grande quantidade de Santa Catarina e Santos, no caso Itajaí e Santos.

P/1 – E por que que eles vêm pescar pra cá?

R – Porque é permitido eles pescarem nas águas do Brasil no caso, só que, tem uma certa medida até onde eles podem pescar, mas os caras acabam entrando porque quanto mais pra costa, aqui não é diferente, na lagoa lá, quanto mais pra costa, mais o peixe tá junto pra procriar, é onde o peixe se junta, é muito fria a água e o peixe vem pra costa. Então essa costa deve ser preservada, onde estão os peixes que vão procriar e onde estão mais juntos, eles vêm pescando na linha que pode. Por exemplo, até três milhas pra fora pode, eles estão pescando três milhas e quinhentos, ou quatro milhas, não tem nenhuma fiscalização se aqui tu pode arrastar uma quantidade de peixe e 500 metros adiante eles vêm, aí acaba arrastando a praia toda, o barco de arrasto era pra ser excluído da costa e muito mais, mas há grandes interesses. São de indústrias, então também tem que trazer peixe pras indústrias e aí, esse barco de arrasto. Agora a traineira chega a pescar na boca da Barra de Rio Grande, onde está o concentrado de peixe pra entrar pra cá pra lagoa. Essa sim, traineira, pesca nas barbas dos fiscais ali praticamente e esse é outro predatório, tanto pior que o de arrasto.

P/1 – A traineira, como é que é o sistema dela?

R – É um cerco, acha o peixe e cerca, cerca e o que tiver bota pra dentro do barco, peixe grande, peixe pequeno, siri, camarão, o que tiver ali vai pra dentro do barco.

P/1 – E aí como é que depois eles selecionam?

R – Eles trazem pra firma, uma firma de Rio Grande vai comprar aquele peixe todo. Ali é separado, um vai pra farinha, outro vai fora, lá fora também quando eles vão escolher, alguns também já vai fora lá o peixe.

P/1 – Certo, pois é, agora esse trabalho se ele tivesse um tipo de manejo sustentável ele era uma atividade que não teria mais fim, inclusive possibilitando o crescimento das espécies, né?

R – Até os próprios barcos lá, né? Se eles pescarem só aonde pode essa outra quantidade de peixe ia procriar e ia lá pro lugar que eles podem, mas a ganância faz eles virem mais pra cima da costa.

P/1 – E que impactos isso está tendo aqui na comunidade? Porque a comunidade, ela é grande, que tamanho ela tem?

R – Ah, já estamos sentindo da safra melhor que eu te falei, de 2000, 2000 pra cá nós temos sentido, não só aqui na comunidade, em todo o entorno da Lagoa dos Patos está sentindo essa decaída da pesca aí, financiamentos que a gente contrai com os bancos e investimentos que tem pra pescar, porque tu não sai pra pescar assim só o teu corpo. Tu tens o teu corpo, imagina uma pescaria de tainha, tu passa uma semana, tu tens que levar uma barraca, tu tem que ter a roupa de cama, a manutenção do motor, das redes, alimentação, isso tem um custo e tu tens que já calcular quantos quilos do peixe tu tem que pegar. Então às vezes, tu volta sabendo que tu ganhou tanto, tu vai ganhar depois que tu tirar essa despesa do lucro pra repartir pros parceiros que estão dentro de uma embarcação e por diversas vezes não tem como tirar.

P/1 – Certo e aí como faz?

R – Aí se acumula a despesa pra outra semana que for sair...E aí vai acumulando a despesa, né, e aí negociação com o banco, negociação com alguém que te forneceu essa alimentação, essas coisas pra ti, a própria família. Então tipo 2000, 2001 nós íamos lá, pescávamos uma quantidade, a metade do que pescava era pra despesa, a outra metade dividíamos. Hoje, dessa metade já não tem a metade da metade, não sei se vocês me entenderam, por exemplo, 50% era despesa e 50% dividíamos. Hoje a despesa já está em 70%, resta 30% pra dividir, porque subiu o óleo diesel, toda a manutenção, e o peixe ficou num preço muito baixo.

P/1 – Certo. Esse...

(interrupção da entrevista)
(continuação da entrevista)

R – Então como eu tava falando, a gente sai pra fora com uma despesa já fixa, e 2000, 2001 nessa época aí, nós ainda tínhamos um lucro de 50%, tirava a despesa, 50% da produção nós dividíamos entre os pescadores que estavam na embarcação, e assim nos outros. De uns tempos pra cá estamos notando que essa despesa está chegando a 70%, estamos dividindo só 30%, em alguns casos não tão sendo nem a despesa, ver que a pescaria está a cada ano diminuindo. Tem só aqueles meses, né, que a gente ganha melhor, mas nos outros meses, tipo, dois meses dos quatro meses de uma safra, dois meses nós estamos ganhando alguma coisa, os outros dois meses contraindo algumas dívidas. Não tem ninguém assim, hoje em apuros, em aperto mesmo! Mas estão renegociando.

P/1 – Certo. Quantas pessoas vivem da pesca aqui na comunidade?

R – Nós temos em torno de quatro a quatro mil e quinhentos moradores, 80% só é da pesca, tirando daqui assim, por exemplo, algum professor, algum que trabalha em firmas aí em Pelotas no centro, da empresa de ônibus, mas 80%, comerciantes são daqui mesmo, pessoal da cooperativa, 80% vivem exclusivamente da pesca. E na verdade a empresa de ônibus, a escola, acabam sendo da pesca.

P/1 – E a produção que é recolhida aqui, qual é o destino dela, qual é a destinação dada a ela?

R – Olha, primeiramente ela vai pra Rio Grande se sabe, mas como Rio Grande também ta com umas firmas muito... Decadência tá grande nas indústrias de pesca, tem se levado uma grande quantidade de Santa Catarina, os caminhões vem buscar, isso depende muito da safra, né, e outra quantidade aqui pro mercado de Pelotas e pro município ______ é vendido em feiras, feiras livres de pescadores ou no próprio mercado. E uma peculiaridade também, que o gaúcho não come muito peixe, né, é mais de churrasco, de carne, não consome muito peixe, a não ser a nossa zona aqui, Pelotas, Rio Grande que tem, tão inserido na pesca, mas passou aqui pro lado de Bagé, Caxias, Santa Maria, come-se muito pouco peixe. Até se tentou levar, mas a não ser na época, na semana santa que é religiosa pra comer o peixe, quinta, sexta-feira santa que é tradição do peixe, ainda se consegue vender, depois não, peixe não é muito aceito aqui no Rio Grande do Sul. Já tem uma firma aqui de, aqui da comunidade mesmo que tem levado peixe pro Nordeste.

P/1 – Pro Nordeste?

R – É, mas assim, ó, quando tem uma quantidade, o pessoal também vem procurar, vem buscar porque sabe que o produto daqui da lagoa é muito saboroso, a tainha, o camarão, aqui o pessoal vem buscar...

P/1 – O que ele tem de tão especial?

R – Eu acho que a própria lagoa mesmo, ela ta, além de ser grande e de ter essa coisa de água doce e salgada, a alimentação é abundante e o camarão mesmo, pra quem não conhece, chega no mercado de Florianópolis, por exemplo, chega lá, tá no mercado “camarão da lagoa”, mas não é, às vezes não é, é o nome, né, você chega lá, “eu quero o camarão da lagoa”. Porto Alegre já se vê esse tipo de coisa, nós chegamos lá, olhamos pra vitrine “ah, é, pra nós não!”, então esse tipo de coisa assim, ele é já, até pros Estados Unidos tem levado, alguém vem buscar. Isso é muito pouco, mas às vezes o pessoal, ele é gostoso mesmo, é diferenciado, tanto o camarão de Santa Catarina é mais de cativeiro, ah que botou um tempero foi, mas quem conhece, e a própria fama do peixe mesmo ser mais gostoso. A tainha, mesmo ela entra pra cá pequena aí, uns 20 cm, ela sai com 60, 70 cm daqui da lagoa, ela tem, a lagoa tem um poder de criação do alimento do peixe mesmo, é a natureza, né?

P/1 – Como é que esse regime de água doce, salgada, como é que funciona isso?

R – Pra nós, o ideal é que ela ficasse salgada sempre, porque aí tem abundância de pesca, porque se a água está salgada aqui dentro, é por causa que o peixe entrou no oceano, certo? A água salgou... O peixe vem praticamente do oceano, o peixe, a grande quantidade está no oceano, ele vem pequeno pra cá pra se criar aqui dentro, se a água tiver salgada é porque entrou água do oceano, certo? Se tiver doce aí não entra água do oceano, por que que tá doce às vezes? Porque choveu bastante aí pra serra, choveu pra Porto Alegre, choveu... Então como a lagoa é uma captação de água de todo o Rio Grande do Sul praticamente, aqui, pelo menos daqui do litoral e Camacuã chove muito, os arroios, os rios deságuam na nossa lagoa e quando tem muita chuva o próprio rio Guaíba tá muito cheio, tem que sair, aqui, se choveu demais, a lagoa tá cheia, então teoricamente tá maior que o oceano, então a água só sai pra fora, isso nos meses de inverno, um pouco da primavera, agora início da primavera que nós temos e verão, a tendência é chover menos, a lagoa baixa o nível e entra água salgada do oceano, aí tem peixe.

P/1 – Aí que vem o peixe?

R – Aí que vem mais peixe.

P/1 – Certo. Esse processo é um processo que você já percebe que está sendo comprometido pela falta de manejo, enfim, pela falta de manejo aí dos pescadores, né, pelo jeito? O peixe tá diminuindo...

R – Diminuindo, tem a função do clima, né, por exemplo, se chover demais, não entrar peixe. Bom, aí nós estamos conscientes que não entrou, então não vai ter mesmo, mas se não chover, se o clima... que nem tá agora, o clima tá bom, não tem chovido muito, choveu na época certa, como se diz aqui, em Junho, Julho, Agosto, Setembro e Outubro, ela tem que parando a chuva pra lagoa ficar num nível adequado pra entrar água salgada. Ta se prometendo esse ano, se Deus quiser, bom, aí entrou, correu tudo normal, não choveu, a lagoa está baixa, entrou água salgada, entrou o peixe, aí temos que conscientizar aqui que temos que cuidar, mas aí nós cuidamos, nós temos no sindicato 1000 pescadores licenciados, pesca 5000 vindo de outras localidades, aí já tem um, né?

P/1 – Dentro da lagoa?

R – Dentro da lagoa pescam 5000, 6000, então já tá, esse pessoal tá depredando porque não estão licenciados, mas é que quando tem peixe, quando tem o camarão e a tainha é um lucro que os caras vêm, o cara ta com um salário mínimo ou mais aí em Pelotas, tem uma chance de vir pescar, é muito fácil pra eles, eles não têm um compromisso de preservar aqueles quatro meses. Eles vêm pescar e vão embora, botam uma rede ali e tiram, é fácil, enquanto que nós vamos
 ficar aqui, mas isso tudo cai numa palavra: fiscalização.

P/1 – O sindicato não tem esse poder de fiscalizar, né?

R – Não, não, o sindicato na verdade trabalha em função de documentar os pescadores, o IBAMA exige uma licença. Vamos ver quem vai precisar, a marinha exige outra carteira, vamos lá ver e assim em diante. A documentação das embarcações tem que estar sempre em dia, encaminhar o seguro defesa pros pescadores...

P/1 – Seguro de?

R – Seguro defesa, naqueles quatro meses que a gente fica parado e outros trabalhos assim da entidade junto ao INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], uma aposentadoria para pescador tem que encaminhar, então não chegam a ser analfabetos, mas são uma classe assim, ó, muito trabalho e se não tiver uma classe, uma entidade, assim, para ajudá-los. fica difícil. Desde a época que eu pescava já tinha, né, agora que a gente tá no sindicato a gente, como viveu na própria pele aí, sabe que eles precisam muito de orientação. Às vezes saem daqui, chegam no INSS lá, numa agência, o cara manda tu esperar, tu fica esperando o dia todo e aí para encaminhar uma documentação pra, acontece uma doença, um acidente eles têm que ter um auxílio doença. Você imagina que trabalho era antigamente! Acabavam ficando aí, doente ou mais doente ainda. Hoje não, hoje já tem mais conhecimento, já tem, já dá pra chegar no INSS e conversar com alguém, “ó nós estamos precisando, o pescador tá assim, assim, assado”, então essa é a função do sindicato; documentá-los. Mas fiscalização não tem um poder, né?

P/1 – Como é que começou essa tua aproximação  do sindicato?

R – Eu sou sócio do sindicato desde que começamos a pescar, desde os 17 anos, assim com documento, pescar como eu falei pra vocês desde nove, dez anos, mas aí quando chega aos 17 anos que tem, aí, que tu tira uma identidade. Aí tu, aí a marinha chega, agora vai fazer documento seguro e aí a gente começou, teve que ser sócio da entidade para poder a entidade te encaminhar, né? Daí então, com uns 17 anos até uns 30 anos mais ou menos, pescando e sendo sócio do sindicato, surgiu a oportunidade de renovação de uma diretoria, e aí o senhor que foi ser presidente me convidou “ah, mas eu não sei nada” “ah, mas tudo é pescador!” “ah, mas o que que eu vou fazer no sindicato?” “(oia___?) nós vamos fazer o que os outros faziam aí, encaminhar o documento, trazer o Banco do Brasil aí pra financiamento, vamos encaminhar isso, aquilo, sei lá! Alguma coisa tem que fazer!” E na época tinha três funcionários, vamos manter a entidade até por causa que tem nome, às vezes o prefeito quer vir aí oferecer alguma coisa a comunidade é ali, a entidade quer, é como uma associação de bairro o nosso sindicato, aí me convidou pra ser secretário. Esse senhor, “e o quê que tu vai ser? Tu vai ser o presidente, tu vai ser o secretário, vamos arrumar mais outro”. Não era remunerado na época, ninguém queria o outro presidente que era, era aposentado, não tinha tanto trabalho que nem hoje no sindicato, mas eles conseguiram tocar com todos os méritos que tem o pessoal que passou anterior a mim, né? Aí ele me convidou e eu fui, mas não sabia nem o que tava fazendo lá, era mais um “ah o presidente que vai ter que andar pra reivindicar isso”, buscar as leis quando é que pode pescar, quando não pode. E aí eu fiquei pescando e sendo secretário do sindicato sem remuneração, nenhum era remunerado na época. Depois de um ano, dois anos lá tu começou a conhecer a entidade, a saber que tinha algumas garantias para pescador, pô, e lá em São José do Norte os caras tinham um certo benefício que aqui não tem. Aí poxa, peraí, uma embarcação nossa não tem motor, o deles tem. Como é que eles conseguiram? Aí começou um, aí eu comecei a me interessar pela coisa, aí teve outra eleição, aí teve uma disputa aqui dentro da comunidade de duas chapas de diretoria, a que eu tava perdeu, mas a gente já sabia, mas ficamos se ajudando, perdeu, mas não teve nem disputa acirrada assim. Um queria pegar pra fazer melhor essas condições, perdemos, aí passou três anos, viemos de novo, aí conseguimos, aí não teve eleição, o próprio senhor que tava trabalhando disse tava cansado, que não queria mais, aí teve uma eleição só de uma chapa, fui eu secretário de novo. Isso até 2003, ajudava o pessoal, mas não tinha aquela continuidade lá dentro, ia lá quando podia, mas sempre conversando com os pescadores e tal e me interessando bem na coisa. Aí quando chegou 2003, o presidente que tava na época reuniu a diretoria e “olha, nós não queremos mais gente, não dá mais, não podemos cuidar mais da nossa parelha de pesca, não dá e aí não tem como nós vivermos aqui, eu sou aposentado, mas eu tenho que cuidar do meu barco, ninguém...”. Bom, aí nós reunimos, aí são 12 componentes, quatro se reuniram e “ó, nós vamos ficar”, gente, vamos ficar mas o “Seu coisa” não quer mais. “Não, nós vamos ficar e vamos ver como é que vamos fazer, quem vai ser o presidente, quem não vai ser”. Então os quatro toparam. Vamos fazer, arrumar mais uns pescadores aí pra compor uma chapa, que é obrigatório ser 12, e vamos tocar aí pra não... “Ah, como é que vamos fazer com os documentos aí que o pessoal, se o homem sair, daí como é que vai ficar?”. Bom, montamos uma chapa lá de 12 pessoas e por unanimidade lá e um pouco de empurrão, vai o Nilmar de presidente. “Ah, mas peraí gente, eu...” “Não, mas tu que já tá mexendo na papelada aí, já tá aí” “Ah, então vamos”, aí pra surpresa nossa, surgiu a outra chapa, nós até então estávamos porque ninguém queria, mas nós (tava a ____) nós vamos ganhar! Não tem como perder, somos só nós! Bah, quando apareceu uma outra disputa, nós recolhemos. Ah não vamos querer, mas aí já estava encaminhado e vamos, vamos, acabamos disputando. Aí mobilizou a vila e faixas e depois até o rapaz me pediu fotos, depois vamos ver as fotos aí que a gente tem dessa... Uma disputa legal, acabamos saindo presidente, ganhamos vinte e seis votos, agora o pessoal, agora vamos ter que trabalhar pra gente, nós temos um compromisso muito grande, isso em 2003. Aí reunimos a comunidade, explicamos a situação pra eles que eu só pescava e, às vezes, eu trabalhava também no comércio aqui da Z3. A gente trabalhava, já fui açougueiro, já fui vendedor de óleo diesel, mas sempre na comunidade. “Ó gente, pelo que eu vejo aí não vai dar mais pro presidente ou pelo menos um secretário, uma secretária, ou tesoureiro ficar lá no mar quando tem uma reunião lá na Emater [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural]”. Emater, não sei se você sabe, é um órgão que faz os projetos assim, acompanha a pesca. É do governo do Estado, tem uma reunião lá pra tu saber se vai ter um financiamento e aí tu tá lá no mar e não pode ir, outro o Banco do Brasil nos chama que ta saindo um benefício para pescadores aí, que tem que montar grupo, aí como é que tu vai fazer isso? Aí reunimos que dois seriam pagos, a entidade, vocês já estiveram lá, é só viver com o dinheiro de sócio, hoje está em sete reais a mensalidade, praticamente o dinheiro que entra é pro pagamento das funcionárias, manutenção do sindicato e pras pessoas que são remuneradas, porque não dá mais mesmo. Eu não posso ir lá pescar, hoje eu tô com vocês aqui só exclusivo pra isso, né, interesse pra comunidade porque tá apresentando e se tivesse que safar uma rede hoje, já não dava pra ir.

P/1 – Você parou de pescar então?

R – Hoje, só estamos no sindicato, hoje assim, só na safra mesmo. Se der, a gente vai ali com os pescadores, mas só não é as 24 horas. Ontem tivemos uma reunião com o Banco do Brasil, hoje tá a marinha aqui, lá na escola, uma outra pessoa está nos representando, amanhã já vamos a Rio Grande numa reunião, o Fórum da Lagoa dos Patos; é uma entidade que congrega todas as colônias, então aí tu fica inviabilizado de ir todos os dias pro mar.

P/1 – E o seu barco, cadê?

R – A gente acabou emprestando pra outro ou pescando com outro, mas nem todos têm barco também, né, a gente não chega a ser obrigado a ter um barco, assim, a gente tem algumas redes que vão. |Eu trabalhei muito em parceria aqui, tem barco, tem rede, o outro não tem nada, vai igual, o outro já tem, bem melhores de vida, já conseguiram fazer e aí acaba emprestando o barco pra outro pescar. E aí cheguei no sindicato com o objetivo de presidente, tivemos essa mudada, aí o povo entendeu. E aí, em 2006 teve outra eleição e resolveram que eu ficasse de novo, e temos agora até o ano que vem, pelo menos, estamos garantido. Mas gostamos muito de pescar. Sabemos que a coisa tá muito crítica aí fora, mas em função de termos pegado esse conhecimento, essa experiência, achamos ainda que o pescador tem muito que ser ajudado e saber de onde que eu vim, lá da pesca com nove, dez anos e o que tá hoje. Cada vez o pescador tem que ser mais orientado e aí tu tem que participar de tudo quanto é encontro. Já fomos, já tive a possibilidade de ir, como convidado da SEA, que é a Secretaria da Pesca hoje, nós já fomos a Brasília, aí a gente tem encontro com outras comunidades de pesca, trocas de experiências, como é que vocês pescam lá, alguma coisa se traz e alguma coisa se leva. Esteio também a gente já foi aqui no Rio Grande do Sul de encontros e vários lugares. Rio Grande então, tem que estar sempre participando e foi explicado pra comunidade e o pessoal entendeu. Algumas críticas têm, com certeza. Estamos representando em torno de 1500 pescadores, temos algumas críticas normais, mas conseguimos de 2003 pra cá, falando da nossa diretoria aí das 12 pessoas, nós conseguimos uma fábrica de gelo juntamente com a cooperativa, juntamente com a comunidade. Não foi nada, o sindicato e nem, muito menos ao presidente, mas é tudo assim, coisa que conseguimos pra cá de 2003 que tava a disposição do pescador e, em função de não se conhecer e um pouco do pessoal que também trabalhava mas não recebia, né, já recebia a aposentadoria deles, ninguém podia se cobrar se fosse a Brasília lá e discutir aonde seria, na época, o presidente que é o atual, tinha destinado 20 fábricas de gelo pelo Brasil inteiro, imagina 20 fábricas no Brasil inteiro? E nós fomos lá reivindicar e pra sorte e um pouco de competência de todos que foram, a primeira do Brasil é nossa. É aquela que vocês estiveram ali, é a primeira fábrica de gelo do Brasil dada, não é dada porque é dinheiro do contribuinte, fornecido aos pescadores, a primeira tá aqui na nossa comunidade. E foi uma conquista dos pescadores, nós fomos com uma turma daqui, foi outra de Rio Grande, foi outra de todo o Brasil, foi em Goiás o encontro que teve e aí lá ficou decidido que sairiam essas fábricas e aí começamos, né, e cobra prefeito, e cobra vereador, cobra deputado e saiu lá pra nossa surpresa a primeira no Rio Grande do Sul, foi pioneira e, também veio a fábrica de filetamento através do governo do Estado...

P/1 – Fábrica do quê, desculpa?

R – Fábrica de filetamento, porque nós tínhamos a fábrica de gelo, isso tudo também pra agregar valor porque senão nós chegamos com o peixe aqui e temos que entregar, como eu te disse, hoje já temos a cooperativa montada e a fábrica de filetamento.

P/1 – Filetamento é pra transformar o peixe em filé?

R – Isso, pega o peixe e faz o filé em bandeja, sai pra vender e até hoje, beneficiado tu ganha melhor, né, não adianta eu ter quantidade de peixe, hoje é uma qualidade também comprar, o que nós vendíamos pra fábrica, a fábrica fazia. Hoje nós estamos fazendo, não em grande quantidade porque não dá. Então isso foi uma conquista direta pra pesca.

P/1 – E essas atividades todas administradas pela cooperativa?

R – Sim.

P/1 – Como é que chama a cooperativa?

R – Cooperativa de pescadores Lagoa Viva, fundada assim juntamente com o sindicato por causa que, como o sindicato já tem essa função de documentação, de procurar benefícios, de brigar com a fiscalização e aí precisava-se em conversa com a Emater, com o próprio Banco do Brasil e até com outras entidades. Não dá pra vocês ficarem pegando o peixe de vocês e dando pra esses caras, por causa que nós chegávamos aqui na praia com uma tonelada de tainha, vendia essa tonelada a R$1,00, fazia mil reais. Esse próprio peixe se tu chegasse aqui hoje nós vendemos pro cara aí, pro atravessador, se tu fosse comprar alí, ele já te passava a R$2,00, só pegou nosso e já vendeu. Aí se esse cara que pegou o peixe não fosse levar pra ele, levasse pro mercado, chegava no mercado já tava R$4,00 e nós ali no R$1,00, então isso foi conhecimento que a gente teve durante esses anos aí de presidente. Também já havia isso antes, a possibilidade de ganhar um pouco melhor. Surgiu a ideia de montar uma cooperativa, aí deram a ideia “vamos montar um entreposto de pescado que o pessoal vai na Z3”, e ia no mercadão, sei lá, aí alguém disse “o caminho de vocês é uma cooperativa”, aí como é que é, como ____ que não é, como é que faz, como é que não faz, aí aparece gente, muita gente, nós temos ajuda de muita gente.

P/1 – Certo e a cooperativa pode inclusive comercializar o produto, tem mais autonomia pra isso, né?

R – É então, a cooperativa foi montada lá no sindicato. Quem vai ser, quem não vai ser, sai nome, esse, aquele eu até fui lembrado “não, não gente”, aí eu teria que sair daqui, mas tem gente competente dentro da diretoria aí fomos indo. Na própria diretoria tirou-se quatro e montamos uma cooperativa que aí ficou até hoje com o atual presidente. Agora em dezembro parece que tem eleição pra nós trocarmos, mas está muito bem. Tem também os problemas. Acumulamos algumas dívidas aí com o governo federal pra formação de estoque, porque tudo é novidade e acabamos pegando dinheiro emprestado e estamos sempre negociando, mas o pescador ta ganhando melhor, a família ta ganhando melhor. Isso, investimento e financiamento, isso é normal em todo o Brasil, devemos, estamos negociando, mas posso te dizer o pescador e o consumidor está mais contente, porque tu vai pegar o teu peixe hoje como eu digo a R$1,00 e vender lá a R$3,00 enquanto que no mercado ta R$6,00, a pessoa que vai comer o peixe vai comer diretamente do pescador.

P/1 – E aí como é que ele faz hoje, ele traz o peixe, entrega pra cooperativa?

R – Ele traz o peixe, alguns vão beneficiar na cooperativa, outros levam pra própria casa, eles têm um freezer em casa cada, a maioria dos pescadores, uma grande quantidade aí tem o seu freezer em casa. Isso não tinha, ninguém fazia isso através do sindicato, da cooperativa, do Banco do Brasil, nós conseguimos uma grande quantidade, até dois, começamos com um, depois com o próprio lucro tem dois, hoje... Antigamente como se diz pra, tu comprar um peixe aqui, se tu viesse de carro, tu tinha que ir numa peixaria, de onde já comprou o peixe do pescador ou de outro. Hoje, se eu entrar aqui na vila, tu vai em um pescador, na casa dele comprar um peixe, isso foi o avanço que teve.

P/1 – Certo, mudou de figura. E esse beneficiamento, quer dizer, ele pode mandar todo o seu peixe pra cooperativa beneficiar?

R – Aí é uma engrenagem da cooperativa que eu também já não posso te dizer. Assim, né, eles têm uma dinâmica de serviço, tem as tarefeiras, mas eu sei que o pescador chegou com o peixe, pode ir lá na cooperativa e tem um acerto. Tem um custo pra beneficiar, a própria mão de obra das funcionárias, das tarefeiras, mas eu sei que quem quiser fazer o peixe, faz.

P/1 – Mas esse produto vai pra onde? Vai vendido aqui ou vai vendido pra fora daqui?

R -  Alguns, até pra fora e outra coisa também que tem através da cooperativa: fornecemos peixe pro Fome Zero, um programa do governo, né, do Fome Zero. Coisa que nós nem imaginávamos que iríamos participar e hoje temos. Eu não sei se bem, se é Conab [Companhia Nacional de Abastecimento], é uma outra entidade aí que compra esse peixe. Compra, mas é beneficiado aqui através de um caminhão que tem a cooperativa e já tudo estabelecido por eles com preço fixo e a gente entrega para as entidades aqui em Pelotas. Entidades assistenciais tipo lar de idosos, comunidades assim, então já tem um contrato com eles, o nosso peixe que nós iríamos vender com preço ‘x’, já estamos vendendo melhor, beneficiado e essas entidades aí sendo beneficiadas.

P/1 – Só que na verdade esse movimento todo já começou a apresentar resultados aí que já estão refletindo na vida do pescador?

R – Se hoje nós estivéssemos só vendendo peixe diretamente, como alguns ainda estão fazendo, estaria todo mundo no prejuízo porque hoje tu pega o peixe e beneficia. Senão e antigamente só entregava, chegava nas firmas aqui, o peixe que tu pegou, largava pra eles, não quer saber, nem tinha orientação que tu podia trabalhar esse peixe e ganhar melhor. Hoje, dez quilos de linguado  é vendido, se o pescador trouxer dez quilos de linguado lá de fora, ele vai ganhar R$40,00. Dez quilos, se ele levar pra casa, claro que vai ter o trabalho da esposa, de embalar tudo direitinho, orientado também pela vigilância sanitária, ele vai transformar esses dez quilos de linguado em cinco de filé, mas sabe quanto ele vai vender esse filé? A R$12,00 R$ 15,00 o quilo, beneficiado.
Um produto de primeira e ele ganhando melhor, apenas vai ter o trabalho. Isso foi coisa que a gente foi aprendendo, senão e olhando também, olha, é melhor assim, melhor...

P/1 – E os pescadores apreenderam esse tipo de comportamento novo, né?

R – É, tem em função por causa da coisa tava ficando, hoje tá ruim, mas tava pior, por causa assim, ó, todo o peixe tu entregava, tu não beneficiava ele, aí veio a cooperativa, o pessoal também tem um outro projeto aqui na comunidade chamado “feira do pescador”. Outras famílias estão, não é a margem da cooperativa, é, como é que eu vou te explicar? Estão fazendo já a própria. Eles, tem cada casa, também vende, mas tem aqueles que querem a cooperativa procura a cooperativa, mas acabam todos ganhando, vendendo peixe de qualidade e ganhando um pouco melhor.

P/1 – Nilmar como é que o Banco do Brasil entra nessa história?

R – Banco do Brasil ? [pausa – entrevistado tomando água], Banco do Brasil pra nós é o organizador do Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], né, por causa que como eu te falei, em 2003, quando eu  assumi o sindicato, já tinha um programa do Banco do Brasil que atendia os agricultores, isso é muito antigo, o Pronaf, né, mas pra nós não vinha. Não vinha, não sabia, faltava informação e aí, eu acho que em 2000, eu tava de secretário, mas também não entendia muito dessas coisas, não tava lá inserido, aí sabia que o agricultor pegava um dinheiro pra custear a sua safra. Quer dizer, vai plantar tomate, mas não tem o dinheiro pra comprar as sementes, essas coisas, e o Banco do Brasil tinha isso. Isso a gente fica sabendo, com certeza. Ah, dava um dinheiro pro agricultor ali, pega, compra a semente, o adubo, depois quando ele receber é descontado e é pago  e é sem desconto, ah vamos, vamos se inteirar disso aí! Aí parte pra Emater, que é uma grande parceira, a Emater-Ascar é do governo estadual, é uma empresa de assistência técnica, se pode se chamar assim, né? Depois vocês podem pegar melhor lá no sindicato a gente tem lá as siglas, é Emater.

P/1 – (Ascar?) e Emater, né?

R – É, esses que fazem os projetos dos agricultores. Se o agricultor tem quantos hectares de terra, quanto é que ele pode plantar, quanto é que ele pode pegar de dinheiro para um financiamento, isso eles fazem tudo e chegamos até eles, ah tal, eles vieram meio receosos, bah, esses pescadores aí sugando dinheiro, boto fora. Eu sei que passou de tudo por eles, mas aí acabaram convencendo eles que tinham que dar no mínimo um custeio, naquela época eu acho que em 2000, não sei precisar se era 1999, 2000 por aí, saiu R$400,00 para cada pescador, pra eles pagarem dentro de um ano. Para nós, R$400,00 nós comprávamos o óleo diesel pra trabalhar durante três meses, dava uma arrumada na embarcação, mas nós conseguimos fazer uns 300, 400 pescadores que tivesse a documentação toda em dia exigida pelo banco, tinha uma certa, o sindicato tinha que assinar com...Bah, mas vamos lá “tchê”, nós, porque se tu não pegar no banco, no Banco do Brasil, tu tem que pegar do atravessador. Ele até te fornece, mas ele vai te comprar o peixe no preço que ele botar. Até tinha a linha de crédito mais aqui do atravessador, um cara que comprou peixe durante 20, 30 anos, ele acumulou uma gordura, aí cheguei eu lá pra pescar “ou fulano eu tenho que sair pro mar, mas o meu bote ta com motor estragado” “não, vamos mandar arrumar!”, “Ah to precisando...” “Não, vamos dar a rede!”. Isso o atravessador, mas quando eu fui lá trazer o peixe, que eu entreguei pra ele a primeira coisa que ele faz é descontar aquilo que ele me emprestou e vai pagar o peixe o preço que ele quer. Aí tu vai vendo que a coisa tá errada, não pode assim, aí ele aparece com um bom carro, com uma casa melhor e o pescador pescando e o filho lá, mal no estudo, tal. Bom, aí como eu te falei chegou a Emater, fizemos uma reunião com eles lá, o pessoal “olha, ‘tchê’, não é bem assim, dinheiro do governo não tem e tal” “mas nós estamos sabendo que tem pros agricultores, tem um contato com eles, “tchê”, é assim, assado”. E conseguimos esse financiamento de R$400,00. Deu uma safra boa, nós fomos lá no outro quando venceu, parece que em maio, o próprio sindicato já se organizou de pegar o dinheiro de vamos lá e vamos pagar essa gente, “tchê”, porque com certeza foi uma mão na roda. Tu não ficou atrelado com o peixe quando chegou aqui, “peraí cara, quanto é que tu tá vendendo?” “ah tô comprando camarão a R$2,00” “não, não vou te vender…”. Mais adiante é R$2,10, R$2,20, já foi melhorando”, não tinha compromisso com o cara, agora nós tínhamos com o banco daqui um ano, aí passamos de, eu não lembro se foi de R$ 400,00 pra R$600,00 eu sei que deu um pulo pra outro ano. Aí deu uma safra miséria, agora complicou, aí deu um desespero na vila aí, “como é que nós vamos pagar o banco? O banco vai nos tomar o bote, o banco vai fazer isso e aquilo!”, meu Deus do céu. Na época, gerente desse tipo de negócio aí era Tibiriçá, lembro o nome do cara, Tibiriçá. “Vamos Tibiriçá, rapaz você não precisa se apertar, se apavorar, isso tem um jeito de nós negociarmos, de parcelar” “Tem? Ah, graças a Deus!” Aí sentamos, fizemos uma grande reunião com todos os pescadores, aquele que pode pagar, pagou, comprovado que a safra tinha sido ruim, né, aquele que conseguiu pagar, pagou, foi uma minoria, o outro parcelou pra pagar tantos meses daqui pra frente e outros não tinham condições mesmo e passou pro ano que vem. Aí tinha um jurinho de banco lá e tal, conseguimos acertar, na outra safra conseguimos acertar tudo. Bom, aí isso foi o início do Banco do Brasil e o Pronaf com o pescador. Aí eles começaram a se interessar, com certeza, o banco viu que pescador tinha produção e que ia abrir uma conta, os trâmites legais do banco e pra nós vinha a calhar. Bom, aí nós estamos com tudo quites, estamos com tudo acertado, vamos pensar mais alto gente! Vamos pegar mais dinheiro desse banco aí, por causa que o banco é nosso, é do Brasil! E nós estamos quites, não vão nos negar! Aí fala com o Seu Tibiriçá “não pessoal, não é bem assim. Vocês não podem pegar tanto dinheiro porque você vê aquela safra tal, não pode.” “Tá, não podemos pegar pra custeio, mas nós vimos falar que tem o tal do investimento que não precisa pagar no outro ano, quem sabe o senhor não consegue?” “Você tá ficando esperto!” “Ah, mas é um direito nosso, e a gente sabe que vocês têm pra emprestar”. Não estamos pedindo dado, mas foi sempre uma relação muito boa mesmo, Banco do Brasil, Emater e a própria prefeitura, independente de qualquer prefeito, nosso sindicato foi sempre muito bem atendido por essas três entidades e aí chegamos lá e resolvemos entre nós. Nós nos reunimos rápido aqui! Pessoal tem uma reunião pra definir tal coisa, vamos lá e vamos ver o quê que é! Eu só queria aqui avisar que agora que tão aí e querem fazer uma reunião, eu junto, 500 pessoas ali em meia hora, “gente, olha, o assunto é o empréstimo novamente pra esse ano e eu acho que esse ano tem coisa melhor!” Ah fomos lá e conseguimos fazer o tal do investimento. O pessoal meio que se assustou, eu lembro que foi R$6000,00, ou R$5000,00...

P/1 – Por família?

R – Não, por pescador. A mulher, entre a mulher e o homem, né, os dois botavam o nomezinho lá, mas era (de três?), essa coisa de ter o fulano, de ter, como é que chama, o aval solidário, uma coisa assim. Eu sei que tu fica, se eu, se nós três tiramos, se eu não pagar, vocês dois tem que pagar, é assim. Mas botamos tudo certinho lá e aí eu acho que em torno de mil pescadores, aquele que pegar o custeio pegou e o outro quis pegar 5 mil, só que não precisava pagar. Nós acabamos descobrindo que não precisava, todo mundo enlouqueceu, “como é que nós vamos pagar 5 mil rapaz, daqui um ano?” “Não, mas não é assim eles vão parcelar pra nós e se nós pagarmos em dia tem um desconto, tem o tal do rebate, senta de novo e vamos conversar com a gente.” “Ó, esses caras aí são meio espertos, né?” Ah, pescador ele é desconfiado por natureza, por causa que já foi muito enganado antigamente, eu não sei se financiamentos mal feito, até tomaram alguma embarcação de alguém por não ter pago, mas era um crédito direto do pescador com banco, não tinha essa intermediação e nem esses programas que tem hoje, alguém ficou, só fazia aqueles maiores, os pescadores grandes e alguns se enredaram e tomaram. Então ficou aquela coisa assim, ah os caras vem aí, “ah Nilmar esses caras não dão colher, esses bancários não vão dar certo, esse bancário não vai dar certo, nós não vamos poder pagar não!” “Não gente, vamos conversar com o pessoal, nós vamos pagar, porque não é assim gente.” Eu sei que é parcelado, sentamos de novo e aí eles explicaram, vieram aí o pessoal da gerência, todo mundo, “gente vocês estão no direito, vocês estão com cartaz, vocês pagaram direitinho, vocês estão querendo investir. Olha, agora não é só pra custeio, vocês vão ter uma embarcação melhor, pescar melhor, ter um freezer e pra pagar, vocês vão ter cinco anos.” Ah, quando falaram em cinco anos, bom o pessoal já... Ah e tem outra coisa, cinco anos e é R$800,00 por ano e se vocês pagarem tem um rebate de R$200,00, mas vamos fazer tudo! Aí encorajou a turma.

P/1 – Tá certo.

[interrupção – troca de fita]
[continuação da entrevista]

P/1 – Quer dizer, na verdade o que vocês acabaram articulando foi uma relação de confiança pra poder tocar esses programas em comum, né?

R – É, como eu vinha dizendo pra vocês, a gente ficou meio sestroso por causa que pegar dinheiro é uma coisa complicada, pegar dinheiro emprestado pra te pagar, pegar de um irmão, de um parceiro aqui de pesca que é “ó, ‘tchê’, me empresta um dinheiro que aí na próxima safra ou na outra pescaria eu te pago.” Bom, se pagar a gente paga, né, ou tem intenção de pagar, mas às vezes a pescaria não deu ótimo, não deu pra pagar, aí como é irmão ou parceiro, “ah não, vai ficar pra outra safra”, te cobrou juro, daqui a pouco não pudesse pagar, dava uma rede. Mas com o banco a coisa não era bem assim, a gente sabia e não pode ser diferente. Bom, aí tem a função dos juros, tem a função de tudo, não, vamos sentar pra conversar, sentamos, conversamos, acertamos tudo e hoje 50% do pescador tá no investimento aí, pagando em dia, alguns se apertando, vamos lá no banco, conversa com o homem, negocia, parcela, os gerentes vem aqui, a gente tem, como eu te disse, ontem mesmo teve um encontro com eles, tão lançando DRS...

P/1 – Desenvolvimento Regional Sustentável.

R – E nós estamos sendo, tem um parceiro aqui pra comunidade, agora já tivemos umas três reuniões com eles, são os gerentes de todas as agências aqui de Pelotas. Vamos montar aí um esquema pra cooperativa, pra melhorar. Já tem uma ação civil social e tudo isso são conhecimentos que a gente vai pegando e vai aproveitando porque tem, só tem que saber procurar e vê quando as pessoas vêm te oferecer alguma coisa assim...

P/1 – Aí vai aprofundando a interlocução também com esses tipos de parceiro, né, que agora já não é um parceiro que as pessoas têm medo. Banco é uma coisa que amedronta...

R – Não, não, pelo contrário. Agora nós já aprendemos até ir lá a pressionar eles, não temos, tem que sair rápido, mas ó, vai sair em Maio o financiamento dos pescadores aí, na verdade é só renovar, né, tu paga e aí tu tira no outro mês, alguns casos até 24 horas e, as vezes da  uma demorada, aí “tchê”, vamos reunir um pessoal aí, vamos lá falar com o gerente que a safra tá aí e nós queremos... Mas como ele sabe que a gente, estamos cumprindo com os compromissos estão sendo, estão nos emprestando na verdade o dinheiro e a gente contribuindo, hoje um pescador, tenho o orgulho de dizer que um pescador na gestão que eu sou presidente, que na negociação anterior que teve também com _____ dele, mas que dava um arrimo hoje aí, a produção dele com certeza dobrou porque ele hoje tem um motor, em 2000, acho que em 2006 quando eu assumi pela segunda vez, nós reunimos aí em torno de 20 pescadores daqueles que não quiseram se meter em empréstimos, porque eles não tinham condição de pagar, eles achavam que não tinham, uns 20 pescadores daqueles que a gente chama os mais humildes, né, “tchê”, porque você não pega esse dinheiro “ah, não Seu Nilmar, nós pegamos R$ 400,00 pra nós comprarmos o óleo diesel.” Não, nesse caso nem é óleo diesel, “pra nós comprarmos um pouquinho de rede e pra comprar comida pra ir pro mar, o próprio gelo porque depois...” “Rapaz, mas se vocês pegarem...” Eu ia incentivar eles porque eu vi que o cara andava a remo daqui, duas horas pra ir lá e pegar e trazer 100 quilos de peixe, se ele fosse a motor ele iria trazer 200 e aí conseguimos que desses 20, uns 15 fizeram, mas vou te dizer, foi uma conversa assim, ó, trouxemos o gerente de negócio aí do Banco do Brasil das Três Vendas, conversou com eles e eles sempre receosos. Por um lado era bom, né, porque eles estavam receosos, “ah, mas pois é, mas não vai dar e tal...” “Bom, então faz o seguinte tu tem uma embarcação?” “Tenho.” “E o outro tem a rede, então vamos botar um motor e vocês pagam os dois no outro ano”, porque eu via que saber que as pessoas estão passando um trabalho na pesca e tem aquilo ali e eles estão, na verdade, é mal informados. Aí conseguimos fazer uma dupla, um bote pra um, invés de (caíque?), o que eles têm ali, que vocês estão vendo ali, um caíco, fizeram aquele maior, aquele vermelho lá e aí foram pescar mais longe, já trouxeram mais peixe pra sua família e pra minha alegria, por exemplo, no dia 15 de Maio tinha que pagar a primeira parcela, no caso de R$ 800,00 e pra minha alegria eles foram na minha casa e levaram o dinheiro na minha mão, eu fui lá no banco levar o dinheiro deles, ah foi muito, muito gratificante. O pessoal não precisa de você fazer isso, não fui eu quem emprestei, não foi o sindicato que emprestou pra vocês, foi o direito que vocês têm que a entidade, o banco forneceu “não, Seu Nilmar...” Mas eu vou dizer pra ti, ó, até moeda, cataram tudo e juntaram e foram lá e honraram o compromisso, quando que outros melhores com mais condições, alguns tivemos que ir lá, negociar, parcelar e aqueles ali que a gente apostou, foram lá e pagaram, aí no outro ano, no outro eles ____ “você não precisa me trazer o dinheiro.” “Ah, Seu Nilmar, como é que vamos andar com dinheiro aí?” Eram cinco que eu me lembro que foram lá em casa, que naquela época R$ 800,00 na mão dava R$ 4000,00 pra eles é dinheiro, aí levei lá no banco, aí liguei pro cara lá no banco, “olha ‘tchê’, os caras, não, mas não há necessidade disso, mas eles vêm aqui, depositam aqui na agência central, não, mas eu não me importo de trazer”. E aí nos outros anos continuaram pagando, cada um tem, no outro quando passou, invés daqueles dois, bom um tinha o bote, nós demos o motor, no outro ano foi invertido, e agora os dois estão...

P/1 – Tá certo, tem uma coisa que é interessante que esse fortalecimento aí da comunidade e também o fortalecimento da cooperativa muda a relação com o atravessador, né?

R – Com certeza. Em 2000 e, eu não me lembro muito de data assim porque são muitas coisas que aconteceram, mas em 2003 nós tínhamos 12 famílias fazendo a feira do pescador. É como eu expliquei pra vocês, cada um tinha um freezer e pega o peixe, limpa em casa e nós vimos que tinha fundamento, mas lá num bairro, lá no centro da cidade, distante 20 quilômetros, levar o peixe. Aí nós conversamos com o pessoal do Banco do Brasil, da Emater, que nós queríamos botar mais família, porque tava dando certo, a pessoa tava vendendo melhor o peixe. O próprio consumidor lá do município, lá do centro e tava dizendo, “‘tchê’, esse peixe dos caras aqui é bom”, porque muita gente não come peixe gente, porque olha no mercado o peixe, às vezes não apetece tu comer, nós conhecemos, mas a pessoa que chega no mercado pega um peixe (aqui em casa?) às vezes tá estragado, as vísceras... Só quem conhece, muitas vezes leva o peixe aqui, como a gente chama aqui, podre mesmo, “bah”, de chegar em casa e, hmmm, não vai comer no outro dia, nunca mais tu vai comer um peixe. Um linguado mesmo que é um peixe muito (vivo?) e que tem um valor bom pra nós aqui, tu toca no linguado, quem conhece, toca no linguado sabe se ele tá ruim ou não e nós no olhar já dizemos olha, pode descartar, tu chega no mercado, às vezes leva um peixe daquele, tá muito bonito embaladinho ali, então isso a gente botou na consciência, ó, nós temos condições de, nosso peixe é melhor, nós temos condições de fazer. Aí conversamos com o pessoal pra expandir, porque o pessoal tava querendo o peixe melhor mesmo, aí conseguimos fazer mais 20 famílias, dois freezers cada uma, com financiamento do Banco do Brasil, que eles estão, pagam anualmente. Aí veio dois freezers, veio balança, veio uma banca montável, veio assim pra eles trabalharem tão bonitinho lá na avenida, cada sábado eles vão lá.

P/1 – Tá certo. Nilmar e os barcos, onde é que são feitos?

R – Barcos aqui alguns são feitos aqui mesmo, outros são feitos em São Lourenço, mas a grande quantidade vinha de São Lourenço antigamente tem, se não me engano, três estaleiros. É onde constroem as embarcações tudo de madeira. Aí conseguiram trazer, temos pescadores aqui, vamos lá, fazia encomenda, acompanhar o cara fazendo, eu quero assim, eu quero assado, tu perdia tempo, aí conseguiram trazer dois trabalhadores marceneiros e montaram aqui, hoje temos três estaleiros.

P/1 – Aqui?

R – Aqui, faz aqui mesmo, a maioria das embarcações foram feitas aqui do Pronaf.

P/1 – E a madeira? Que madeira é essa?

R – A madeira assim vem do Mato Grosso, né?

P/1 – Que madeira que é?

R – É grápia.

P/1 – Grápia?

R – Grande quantidade de grápia, cedro-mar, cedrinho muito pouco, as madeiras assim que eu vejo falar, também não conheço, sei que tem que ser mais resistente, né, por causa que ela fica, né, e depois também tem um processo de pintura, tem, na água doce agora tem um tipo de pintura, na água salgada é outro tipo de pintura pra resistir, se bem que hoje tá meio difícil de manter as embarcações bem pintadinhas.

P/1 – Sei, mas tudo isso é um processo de manutenção que custa?

R – Custa, custa dinheiro.

P/1 – E qual é a vida útil de um bom barco?

R – Olha, um de grápia hoje a gente com dez anos tem que dar uma reforma, porque ele fica encharcado na água ali, né, não a parte de cima, mas a parte debaixo onde vocês veem ali aquela mancha preta é um limo que vai criando, com uns dez anos tem que dar uma boa manutenção. Mas aqui o próprio estaleiro faz, né?

P/1 – E o que que é? Lixa tudo, repinta?

R – Lixa, retira algum podrinho da... Como se fosse um carro.

P/1 – Tá certo.

R – Mas são feitos todos aqui agora, praticamente, as embarcações.

P/1- Mais um valor pra comunidade?

R – Mais um valor, coisa assim ó, num projeto desse do Pronaf o pescador nem via o dinheiro, né, na verdade o estaleiro ele ia lá fazer o negócio e o dono do estaleiro, ele só assinava, passava do banco pro estaleiro. Hoje ele pode pegar o dinheiro dele e ir ali negociar com o estaleiro aqui, “olha, eu quero o meu barco assim, assim, assim. Olha me sobrou R$ 15,00 tu já pode botar um banco, mais uma chapa de ferro aí, sei lá”.

P/2 – Vocês chegam a vender barco pra fora?

R – Às vezes o pessoal de São Lourenço, Rio Grande vem fazer aqui, isso vai muito da produção, né, por exemplo se eu quero que tu faça uma coisa, eu quero assim, tu fez melhor, aí é a oferta da qualidade. Chama-se muito feitio, feitio, do nosso estaleiro é um feitio, de São Lourenço é outro, ah eu quero um bote, uma embarcação, a gente chama bote, uma chalupa também é um outro tipo de embarcação, ah, mas eu quero daquele igual do fulano onde foi feito, “ah aquele foi feito na Z3, aquele foi feito em São Lourenço”, aí varia, aí é opção.

P/1 – Tá certo. Nilmar eu vou te fazer uma pergunta óbvia, mas eu queria que você refletisse sobre ela, quer dizer, é uma pergunta que não comporta uma resposta óbvia. Qual que você considera a importância do Banco do Brasil no estímulo das atividades produtivas da pesca aqui na comunidade? Que importância tem o banco nessa história?

R – Olha, pra te ser bem objetivo tem duas etapas para eu responder essa tua pergunta. Antes do Pronaf chegar na nossa comunidade, vou responder pela comunidade, que eu sei também a gente fala muito aqui Rio Grande, São José do Norte e Pelotas, Rio Grande, São José do Norte, Pelotas e São Lourenço, as quatro comunidades que estão mais envolvidas aqui, antes do Pronaf, esse pessoal era um jeito, depois do Pronaf, creio que de 2000 pra cá, a pesca, produção, caiu por causa daquilo que eu te falei. Agora a qualidade do produto, o ganho em função dos financiamentos, dos investimentos feitos pelo Banco do Brasil, pra nós foi essencial. Posso te dizer assim que não sei como nós estaríamos arrumando um barco hoje se não for um financiamento, um financiamento que alguns disseram, é um direito nosso, e que o banco nos traz e com uma boa negociação, posso te dizer assim, ó, estamos muito satisfeitos com o programa do Banco do Brasil e, também, de outros financiamentos que a gente pode arrumar, mas principalmente o Pronaf, para nós foi um salto e como eu te falei, pra aqueles pescadores que não tinham... Tu imagina se não fossem incentivados pra fazer aquela mudança do barco a remo pro motor. Motores que eu saiba devem ter vindo 20 pra cá, uma comunidade aqui de 200 embarcações, 20 motores foi, não sei se a tua pergunta...

P/1 – Não, é isso aí.

R – É, por causa que assim, ó, a relação do Banco do Brasil pra nós eu posso dizer pra ti, sem menosprezar uma outra entidade, pra pesca, em função de comercialização é o melhor parceiro.

P/1 – Tá certo. Nilmar você é casado?

R – Eu sou casado.

P/1 – Como é que chama a sua esposa?

R – Bernadete.

P/1 – Tem filhos?

R – Tenho dois filhos.

P/1 – Como é que eles chamam?

R – Anderson e Aline.

P/1 – Que idade têm?

R – O Anderson ta com 25 anos e a Aline com 20.

P/1 – O quê que eles fazem?

R – O Anderson conseguiu estudar e está trabalhando, atualmente, em Caxias do Sul, há muito custo, posso te dizer que pra um filho estudar aqui através da pesca é muito complicado, ele foi, ele estudou no Cefet [Centro Federal de Educação Tecnológica] aqui, escola federal, trabalhava de dia na pescaria e de noite estudava. No primeiro período não conseguiu se formar, em função de... Não consegue estudar e trabalhar, a gente fez umas economias e no outro ano ele trabalhou interno, assim no comércio daqui mesmo, e estudava, aí conseguiu se formar. E como Pelotas não tem indústrias, aí resolveu tentar a sorte em Caxias, tá há uns cinco meses lá, o Anderson.

P/1 – E a menina?

R – A menina tá em casa, estuda, a menina estuda.

P/1 – A sua mulher cuida da casa e apenas isso, ou faz mais alguma atividade?

R – Não, ela é tarefeira da cooperativa também, a grande quantidade das mulheres trabalham lá. Não é todo dia que tem serviço, quando tem, chamam elas e a lida de casa normal e quando chegam o peixe também dos irmãos pescam, toda a família pesca ela ajuda eles a manusear o peixe.

P/1 – Tá certo, qual que você considera o aprendizado mais importante de toda essa sua trajetória aí de trabalho, de vida na pesca?

R – Olha gente, primeiramente, da ajuda que a gente pode dar como pescador e como hoje dirigente da entidade, ajudar o pescador porque como eu te disse, gente que saiu de lá sabe do trabalho que passa lá. E outra coisa fundamental é o conhecimento que a gente pega com outras pessoas, com outras entidades. Assim a oportunidade de tá conversando com vocês mesmo pra nós, isso com certeza vai repercutir na comunidade que alguém de São Paulo veio tirar informação de um pescador porque eu só sou um pescador, só isso que eu sei fazer, até tentei ser açougueiro, tentei ser vendedor de combustível, tudo na comunidade, mas se tu não for pescador, tu (é representante do pescador?).

P/1 – No teu caso tá no sangue, né?

R – É verdade, e a função de ir pro sindicato como eu te disse é um convite de alguém pra te ajudar aí tudo acaba, mas perai ah, meus irmãos lá, meus amigos tão se ralando lá, vamos dar um ajudada, ó porque que lá, não sei lá onde tem uma fábrica de gelo lá, deles mesmo, Rio Grande, “tchê”, nós íamos buscar em Rio Grande pra tu ter uma ideia, as vezes não podia ir pro mar hoje porque ontem fomos lá em Rio Grande e não tinha gelo, hoje não, tu chega aqui, “ó vou sair pro mar amanhã”, me programo, chega lá, encomendo dez, 20 caixas de gelo e vai sair. Então essas coisas que a gente fica gratificado de poder ta na atividade.

P/1 – E é a cooperativa que administra tudo isso, toda essa infra-estrutura da fábrica de gelo, do filetamento?

R – De gelo, de compra de pescado, não de todo porque nem é pra isso comprar  também a cooperativa comprar todo o peixe, se pudesse, mas uma quantidade de peixe é beneficiada pela cooperativa, no filetamento, tudo é através da cooperativa.

P/1 – Tá certo. E o quê que você considera a principal realização da tua vida aí nesses anos todos?

R – Então gente, a vida da gente é meio, de pescador aqui, digamos engraçada, mas feliz, eu me considero uma pessoa feliz, eu tenho um carinho muito grande pela localidade que eu vivo, eu aqui é o melhor lugar do mundo. Eu já tive viajando a convites, sempre de entidades, eu já tive viajando em vários lugares, até no exterior, mas nossa comunidade é a melhor localidade do mundo, gente! Não tem, aqui nós nos conhecemos, aqui nós discutimos, aqui nós temos nosso futebol, aqui nós temos, mas a família tá aqui e a família é, e a amizade que a gente tem aqui entre nós. É interessante eu tenho pessoas que trabalham comigo no sindicato, tenho pessoas que são da diretoria, eu tenho pessoas na cooperativa, eu tenho o meu futebol e eu tenho orgulho de dizer que eu sou amigo de todos aqui, se você chegar lá na entrada da vila e perguntar quero falar com o Nilmar, não em função do sindicato, da pessoa Nilmar vocês vão achar, igual ao Nilmar tem muitos aqui na comunidade, se der, a própria, como eu te falei na infância de ajudar isso é muito da nossa comunidade, isso se der um problema com um aqui, dá com todos.

P/2 – E você viu essa comunidade crescer, né? Eu queria saber quais foram os fatos mais marcantes desse crescimento da comunidade, o quê que você destacaria assim?

R – Olha, não sei que função tu quer, no geral?

P/2 – É, no geral, como você viu essa comunidade crescer, o que que aconteceu aqui? O que te marcou?

R – Olha, primeiramente também vou dizer assim, ver todas as crianças que nós tínhamos na época hoje são adultos, são pais, mães, avós isso engrandece a gente de saber que aqueles meninos de antigamente, hoje são pais, avôs, são responsáveis, né, e tudo dentro da pesca e a própria comunidade vendo tu crescer e a participação nossa na sociedade aqui e o conhecimento vai pegando aqui. Isso, a amizade, educação que tu pega ninguém te tira e isso é muito do local, sabe, isso é muito do local, eu conheço uma pessoa lá, digamos, de São Lourenço, mas essa pessoa não conhece outra daqui, mas quando chega aqui se identifica e entre pescadores é muito assim, nós somos rudes assim, alguns muito desconfiados, não é com todos que tu pode falar que nem você tá falando comigo, eles já acham que, ah esses caras aí vem pra sacanear mesmo. Porque foram muito judiados, e isso é uma coisa que quando eu fui pro sindicato, não, “tchê”, alguém pode até enganar o pescador, mas eu não vou deixar, não vou, ah eu sei como é que é, tu vai, experiência, pára, como é que os caras vão vir aqui e vão te comprar um peixe? Rapaz, tinha esperto que chegava, olha o peixe assim: “tá esse peixe eu vou levar, mas tá ruim, esse peixe não vai dar, porque até eu chegar lá, ah não sei se vai dar!” Pagava uma miséria pros pescadores, isso tudo vai marcando, aí não, vamos mudar essa história aí. Não sozinho como a gente diz, jamais vou ter essa pretensão de dizer que o sindicato fez, foi com a comunidade toda, algumas coisas foram mudando, nós não tínhamos pra você ter uma ideia, água potável nas represas, era de poço artesiano, mas para a gente, aqui em Pelotas a água, não, vamos procurar os parceiros, aí parte pra cima de prefeito, de vereador e da própria matéria também e se tiver que ir no banco vamos, alguém tem que resolver, alguém tem que ver o quê que se faz. Então essa coisa de conquista é muita da localidade e aí vamos reunir o pessoal, “qual é o motivo aí gente?” “Olha é a água.” “Que água rapaz? Deixa de ser louco! Água tem aí!” “nã, não, água boa é lá em Pelotas e já tem aqui numa comunidade próxima no balneário aqui.” “Ah, não vão trazer nunca rapaz, já até prometeram uma vez aí esse políticos.” “Não, mas vamos lá, vamos ver o que vão fazer!” Fomos lá, falar com o prefeito (Ágones?), “óia, ‘tchê’, é complicado a água lá, mas vamos ver.” Prefeito sempre diz isso:  “vamos ver.” Vamos ver mas pra quando? Aí reúne a comunidade, chama o prefeito: “óia gente ta saindo uma verba assim, assim, assado, vamos ver se, vamos ver então, semana que vem estamos aqui de novo!” O prefeito, olha, pra nossa surpresa hoje temos água potável, diretamente de Pelotas para o reservatório que vão pro centro da cidade agora, tá indo pra casa também, isso há uns cinco anos mais ou menos. E aí  são coisas assim que aconteceram toda da comunidade, passagem de ônibus, isso incomoda qualquer comunidade, né, tu tem que viajar, tem que ir pro centro, tem os filhos que estudam, tu tem alguém que trabalha, tu tem que representar o sindicato, tu tem que duas, três vezes no centro, tu tem que entrar no Banco do Brasil, tu tem que tá na Emater e aí tu, um ônibus urbano ali em Pelotas circula com uma passagem, um vale transporte, toda a cidade. Tu quer ir no bairro do Areal aqui, tu pra ir lá no Fragata que são 20 quilômetros, ou dez quilômetros, tu dá um vale transporte, o nosso eram dois, tem coisa errada gente, mas como é que nós vamos pagar dois? Mas aí os caras, “Nilmar não tá certo, nós moramos na colônia, aí vamos falar com alguém, vamos falar com o vereador”. O vereador chega lá e “olha gente lá é duas passagens porque vocês estão morando numa zona rural e parari, parará.” “Ta vereador, mas não tem como mudar? A gente sabe que tem uma lei aí que foi feita...” Tudo tu vai conhecendo, aí o cara lá do Banco do Brasil, um conhecido “‘Tchê’, você tem que fazer isso e aquilo.” Ou alguém da Emater “ou, ‘tchê’, bom mesmo é vocês fazerem outra coisa.” Daqui a pouco outro “‘Tchê’, reúne o pessoal e tranca (um ônibus lá dentro?)!” Ai, ai, ai não, isso não é do nosso feitio não, o nosso negócio é ir lá e conversar e reivindicar, isso já outra gente que faz esse tipo, mas isso dá resultado. Ah vocês falam com fulano lá que fulano sabe como é que é, bom não queremos a empresa excelente para nós, mas não queremos que os pescadores também sejam prejudicados, os filhos, todos os dias ir pro centro com duas passagens, enquanto que daqui a sete quilômetros na outra localidade o cara dava um vale. Fica constrangedor, mas eu vou no ônibus, duas passagens, o senhor entra ali daqui a sete quilômetros com uma passagem, vocês acham que tá certo gente? Não, não tá, mas também como é que vamos resolver isso aí? Reúne a garotada, vamos ver, chama o prefeito, o prefeito chegou lá “olha pessoal, lá é  zona rural.” “Tá, então vamos fazer o seguinte, não dá, não dá”, o prefeito não tinha como mudar a lei, isso só no outro ano os vereadores não tava com vontade, vamos no homem da empresa, é esse que tá ganhando, ah gente, mas isso aí eu tenho funcionário a história que vocês devem saber, “tá, o senhor vai ter que ir lá conversar com o pessoal, o pessoal tá bravo lá e o seu ônibus vão querer trancar lá.” “ Ah, mas você não faz uma coisa dessa! Vocês dependem da empresa, a empresa depende de vocês e tem tantos empregados, eu emprego gente daqui também.” “É, mas não ta dando mais o peixe ta R$1,00 e a passagem tá a R$1,50!” “É, vamos ver!” “Ah, vamos ver?” Então tá, voltamos pra comunidade, nós resolvemos, vamos trancar o ônibus das três horas, o ônibus que entrou chamamos o motorista, o cobrador, desceu todo mundo “olha, isso é uma ideia que nós tivemos...” Porque explicamos pro cobrador: “não vai acontecer nada com ninguém, vocês ficam sentados aqui, nós não somos de violência não, nós só dissemos que assim que se faz e nós estamos...” “Ah, vocês estão com direito não tem problema!” Só assim, ó, ninguém vai depredar ônibus, jamais vai acontecer nada disso e aí ficamos lá conversando, tomando chimarrão e o pessoal queria ir pra cidade e berrando “ih não, mas peraí, hoje ____________, mas amanhã melhora e tal.” Chegou a policia, ai, ai “o que que tu tão fazendo aí, que o ônibus não pode sair e tal?” Alguém ligou pra polícia, deve ser o cara da empresa. “Bom pessoal, quem foi que fez isso aí?” “Ah, isso aí é a comunidade”, e os caras são espertos, né? A comunidade quem começou, quem não começou e porque começou e quando é que o ônibus vai sair, vão deixar sair, tem gente precisando, tal pra ir, alguém, uma mulher disse “fala com o Nilmar!” Ah, mas puxa, “tchê”, e eu to lá no meio, mas não era o combinado, o combinado era que chegasse a imprensa  e nós “óia, ‘tchê’, nossa reivindicação é essa e não dá pra dar dois vales, mas aí...” “Quem é o Nilmar aí?” Aí alguém “sim senhor.” “Passa aqui!” “Aonde cara? Aonde que eu vou passar?!” “Passa aqui dentro do ônibus que eu quero conversar contigo.” “‘Tchê’ tu tem que parar com isso aí rapaz, isso aí é contra a lei.” “Tá, mas não sou eu! É eles, é pra eles!” Claro que foi tudo organizado legalmente sem passar dos limites e aí a brigada, entramos em acordo com a brigada que chegaria alguém dos vereadores, chamasse alguém do prefeito pra nós negociarmos, tudo tranqüilo. Bom, pra nossa surpresa o ônibus foi embora normal tudo, dentro de três dias ligamos pro dono da empresa: “e aí, ‘tchê’?” “Pra semana que vem temos uma resposta porque tá saindo o dissídio coletivo dos cobradores, dos motoristas.” Ah, vamos ver se vai sair um aumento de passagem, ah, é uma boa época! E o prefeito também já vai mandar o secretário, conseguimos reunir um representante do prefeito, um da empresa, um do sindicato e quatro, cinco pescadores, que nós não somos bobos, né? Sentamos com eles e mais uma pessoa da escola, que a escola é muito forte aqui também. Não conseguimos passar de duas passagens pra uma, estamos pagando uma e meia, então é um avanço para a comunidade, uma e meia! E a relação com a empresa ficou muito melhor! São coisas que vão acontecendo na comunidade que tu tem que tá aqui pra perceber...

P/1 – E vai fortalecendo os laços de solidariedade entre...

R – Lógico, e todo mundo entendeu e ninguém saiu dizendo aí “ó, foi o sindicato que baixou passagem”, não _________,não baixou, foram os pescadores, os moradores que se viram obrigado a pedir um direito deles.

P/1 – Tá certo, Nilmar o quê você acha dessa ideia que o Banco do Brasil tem de, um dos projetos pras comemorações dos 200 Anos é contar a história do banco, não contar a história oficial do banco, mas a história de pessoas que convivem de algum modo com o banco dentro de cada um dos biomas brasileiros, e aqui, hoje, nós estamos fazendo parte do bioma pampa. O quê que te parece essa ideia?

R – Eu gente fico muito gratificado de ter sido convidado, primeiramente, por causa que me pegou meio de surpresa o telefonema que eu recebi de uma pessoa, acho que de São Paulo, ligou tentando conversar e sabe como é que é, né, telefone tu já, ih esses caras aí [risos], mas vocês se conversarem com os pescadores vocês vão ver mais ou menos o que eu to dizendo, desconfiado. Porque nós fomos enganados pelas pessoas, como se diz, em função do passado mesmo, né? Aí quando ela ligou “ah, mas o que que tu quer? O que que tu (prefere?)” aí me deu uma explicada, eu sou uma pessoa atarefada, e realmente, eu tô. Ontem marinha, amanhã já é lá na capitania lá na colônia de Rio Grande tem o seguro desemprego de alguns pescadores que não saíram, mas um dia eu posso tirar! “É mas como é que a senhora chegou até em mim?” Aí tu quer saber, né? “Ah, foi através da Emater, tu conhece fulano?” “Ah, bom!” “Ah, e é do Banco do Brasil.” “Ah, é do Banco Brasil? tem o Banco do Brasil das(trezentas?) aqui que é ligada a pesca, tem outras agências do Banco do Brasil, mas tem outras agências.” “Não, é que tu conhece fulano.” “Não, não, então tá, só marca e manda que a gente tá a disposição. E o que que tu quer?” Aí ela explicou, a moça lá explicou que eram fotos que ela queria e isso que ta acontecendo aqui. Mas “olha, nós não somos ator e também nós também não somos...  Falar o que perguntar nós respondemos, agora com certeza não vamos inventar nada, mas também não temos tanta coisa pra mostrar.” “Não, nós queremos ir aí...” “Óia, vem aqui pra ver se é o que vocês querem.” Aí ela explicou o que era...

P/1 – Você que pensa que não tem muita coisa pra mostrar.

R – Aí eu digo assim, óia, então vem, aí liguei pro cara da Emater, né, “e aí, ‘tchê’? Tu ta me metendo numa fria!” “Não! O quê?” “Ah, vai vir uns caras aí de São Paulo, nem sei quem é as pessoas e tal e aí...” “Não, mas se precisar de algum dado tu liga pra Emater que eu fico a disposição assim de quando foi feito o primeiro Pronaf, essas coisas.” Qualquer coisas vocês podem pegar com ele, porque data é difícil, né, ele se prontificou, “não Nilmar...” É Cléber o nome dele, “... rapaz isso aí vai ser bom pra comunidade, bom pra ti e bom pra pescador, bom pro banco e bom pra Emater, porque nós somos parceiros mesmo e bom pra prefeitura.” “Bom, se é bom pra todo mundo, manda essa gente vim, o quê que eles querem?” “Ah, eles querem uma entrevista como é que tu foi pescador, desde quando?” “Ah, mas isso aí é fácil!” e aí estava esperando vocês hoje!

P/1 – E tem alguma coisa que você gostaria de ter dito e a gente não te estimulou a dizer?

R – Não, acho que vocês estão entrevistando eu só, como te disse, né, fico gratificado como pescador, eu só sei pescar _________, ta dando uma entrevista dessa pra mim é excelente, eu poder conversar com pessoas de vocês aí que vem de outro lugar, acho que isso tem uma importância muito grande. Como representante de uma entidade e, principalmente, como pescador, porque não é muito raro, né, quer dizer, é raro tu ter a oportunidade de tu falar sobre a tua infância, sobre a tua pesca, sobre a tua atividade, uma coisa que tu gosta, que tu faz, porque tu faz porque tu tem necessidade e porque tu gosta, então isso aí pra mim, vou dizer pra vocês, tomara que vocês venham outras vezes pra poder bater papo, e hoje vamos ter mais tarde, ainda vamos ter um almoço agora e depois se... Óia to achando assim, espero que eu tenha sido útil nessa primeira parte.

P/1 – Certamente, muito mais útil do que você possa imaginar, sentiu-se bem dando essa entrevista?

R – Eu no início tava meio nervoso, né, normal, a gente não tá acostumado com isso aí.

P/1 – Mas é uma conversa! É uma conversa...

R – É uma conversa normal assim, quando ele falou e a própria pessoa disse “ah, é os 200 Anos do Banco do Brasil”, eu já falei por diversas vezes e não é elogio demais do Banco do Brasil. Quando falou que era do Banco do Brasil, “bah”, eu tenho que estar à disposição mesmo, até por ser parceiro e por estar, por ser o Banco do Brasil daqui de Pelotas e tal, eu vou com toda a vontade assim, ó, mas a principio eu fiquei, “pô, mas a mulher foi lá bater foto, chegamos lá e eu não to sabendo bem o que vocês querem.” Eu quero dar o máximo que eu puder pro trabalho de vocês, ah será que os caras vão me fazer alguma pergunta que vão me apertar? Eu estudei até a 5ª série pra você ter uma ideia, daqui a pouco vem uma pergunta, mas mais acho que sai bem e pretendo sair ao contento de vocês e, como eu disse no inicio, foi meio, mas depois vai fluindo, né?

P/1 – Tá certo...

R – E vocês também deixam a gente bem à vontade.

P/1 – Tá bom Nilmar, a gente te agradece muitíssimo, viu? Muito obrigado, foi muito bom te ouvir.

R – De nada, eu é que tenho a agradecer.

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