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História

A pesca do passado e a do futuro

História de: Alcebíades Rangel da Purificação
Autor: Fernanda Peregrina
Publicado em: 21/08/2013

Sinopse

A infância na colônia de pescadores. A pesca artesanal de seu pai e de seus ancestrais. Formação e aprimoramento profissional na cidade do Rio de Janeiro. Retorno à Santo Antônio, casamento, filhos e a inclusão e qualificação de novas tecnologias na pesca profissional. Reflexões e memórias do ofício de pescador.

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História completa

P/1 – Alcebíades, para começar eu gostaria que o senhor falasse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome completo: Alcebíades Rangel da Purificação, data de nascimento, primeiro de agosto de 1950.

 

P/1 – O local de nascimento?

 

R – Aqui mesmo em Santo Antônio.

 

P/1 – Ah, o senhor nasceu aqui em Santo Antônio. Qual é o nome do seu pai?

 

R – Sebastião Pedro da Purificação  Salvador Alves Rangel.

 

P/1 – O que eles faziam?

 

R – Pescadores.

 

P/1 – Pescadores, a sua mãe também?

 

R – A minha mãe trabalhava na área de rede, de fazimento de rede.

 

P/1 – Descreve um pouquinho como eram seus pais.

 

R – Meu pai era um pescador animado, né, no caso, desenvolvia muito a palavra com os outros colegas de trabalho, isso é como ele era.

 

P/1 – E como  eram os costumes da sua família dentro de casa?

 

R – O costume todo mundo se relacionava igual um com o outro, assim, sobre trabalho da pesca, meus irmãos são pescadores, todos os dois, tenho dois irmãos, todos os dois são pescadores com meu pai, eu e ele, a gente pescava junto, era o nosso modo de viver, né, todo mundo junto.

 

P/1 – Mas como era a rotina da sua casa, de manhã, como é que vocês faziam, vocês saiam para pescar?

 

R – É, nós saiamos para pescar e voltava à tarde, isso era o nosso ritmo de trabalho, saía quatro horas da manhã, duas horas da manhã e quando a gente chegava aqui era cinco horas da tarde e todo dia era esse trabalho e daí por diante, nós íamos para casa, tomar banho, fazer, almoçar e tomar café. Era uma vez só, porque não dava tempo de fazer as duas coisas, você fazia um lanche no mar e quando chegava em casa a barriga tava mais ou menos, tomava um banho e ia almoçar, entendeu,? Assim era o ritmo da nossa vida.

 

P/1 – E quando vocês ficavam em casa o que vocês faziam de lazer?

 

R – O lazer não tinha não, era só brincar, jogar uma bola, como o Seu João falou ontem, brincar de barco dentro do rio, aqui antigamente dava muita onda, tinha um marzinho alto aqui, pegava muito jacaré, a turma fala pegar jacaré, surfar, mas a gente surfava de canoa, a gente não tinha prancha, era tudo de  canoa. Esse era nosso lazer.

 

P/1 – Como vocês faziam, como vocês se organizavam para fazer essa brincadeira?

 

R – Juntava dois, era de dois a dois, duas pessoas em cima de uma canoa,  dois brincavam um bocado, depois parava, ia a outra turma e eram sempre duplas.

 

P/1 – E de quem eram as canoas?

 

R – As canoas eram nossas mesmo.

 

P/1 – Vocês que faziam?

 

R – A gente que fazia.

 

P/1 – Como  era fazer essa canoa?

 

R – A canoa é feita de uma madeira só, feita de tábua, né, mas a nossa não era canoa de um pau só, era feita de tábua e armava a canoa e assim, fazia a canoa, enfrentava, trabalhava com ela, a gente não fazia canoa de uma madeira só inteira,  lá no sul tem muito isso, canoa de uma madeira só, já aqui já não tem.

 

P/1 – E da onde vem a madeira?

 

R – Aí você agora falou um negócio, uma palavra muito bonita, da onde vem a madeira, o que eu posso responder a você? A gente comprava aí na madeireira, né.

 

P/1 – Seu Bidi, o senhor falou que tem dois irmãos, né?

 

R – É.

 

P/1 – Com quem mais que o senhor conviveu na infância?

 

R – Aí eram os primos, aqui é uma comunidade, todo mundo era parente, então eram os primos, tio, irmão, tudo, a gente brincava todo mundo junto, nosso lazer era todo mundo junto.

 

P/1 – E como que era a casa que vocês moravam?

 

R – Bom, a nossa casa, como tio João falou ontem, era casa de estuque, com barro, feita com barro e um monte de madeira pregada, na verdade, não era nem pregado, era amarrado com cipó, a gente pegava cipó na mata, que aqui era tudo mato, e amarrava os paus e embarreava tudinho, de um lado e de outro, nossa casa era assim, o telhado era sapê e taboa.

 

P/1 – E a construção como era? Vocês faziam individual, cada família fazia a sua casa? Como vocês faziam?

 

R – É, cada família fazia a sua casa.

 

P/1 – E na infância como eram? O senhor falou de pegar jacaré, tinha alguma outra brincadeira?

 

R – Não, para mim não tinha, não.

 

P/1 – Nenhuma?

 

R – Não, minhas brincadeiras foram poucas, porque eu me envolvia muito em construções de barcos, eu estudava e trabalhava. O dia que eu ia, nossos irmãos só ajudavam duas ou três vezes em  cada pesca. Também não dava para pescar todos os dias da semana e nem podia estudar todo dia, a gente estudava pouco, então aí quando eu estava em casa me envolvia muito em aprender a trabalhar de fazer barco, aprender a ser carpinteiro naval, por isso, minha infância foi meia complicada, eu me interessava mais pelo trabalho e em aprender uma profissão,  e por isso, hoje eu sou pescador e sei construir uma embarcação.

 

P/1 – E como que o senhor aprendeu? Quem ensinou para o senhor?

 

R – Foi os pessoal antigo, né, que tinha aí e que faziam, nesse nome de (Cardomais?), mas já morreu todo mundo, eu fazia embarcação com eles.

 

P/1 – Mas como que eles faziam para ensinar a técnica deles?

 

R – Ah, a gente ajudava eles, um deles chamava: “Garoto, você quer aprender a trabalhar e fazer barco?”, e a gente respondia: “Quero” e eles diziam: “Então fique aqui e me ajuda que eu vou ensinar você”, aí eu ajudava eles, iam me ensinando como fazer a embarcação, entendeu?

 

P/1 – E alguém mais aprendeu com o senhor como fazer?

 

R – Olha, da minha época não, domeu tempo de infância daqui do Santo Antônio, foi só eu que me dediquei a isso.

 

P/1 – Seu Bidi, o senhor falou que estudava, onde que o senhor estudava e como que fazia?

 

R – Na Barra do São João ali.

 

P/1 – E como  o senhor fazia para ir todos os dias para lá?

 

R – Eu não ia todo dia, acabei de falar agora.

 

P/1 – Desculpa.

 

R – Eu ia, assim, duas ou três vezes na semana porque eu tinha que trabalhar também,  eu matava aula duas vezes, matava duas aulas por semana ou três, aí tinha que compensar depois para fazer os deveres, copiava dos colegas, que passavam para mim e eu fazia.

 

P/1 – E para chegar até lá como é que era?

 

R – Chegar lá aonde?

 

P/1 – Até a escola.

 

R – Nós andávamos a pé para o outro lado, atravessava a ponte a pé, que é do outro lado ali da barra.

 

P/1 – Quais são as suas lembranças daqui da praia, as primeiras que o senhor tem?

 

R – As lembranças da praia eram boas, só tinha mato e a gente vivia que nem índio aqui.

 

P/1 – Descreve um pouquinho como era aqui antigamente.

 

R – Aqui era mato, mato puro, não tinha nada, isso aqui, a beira do rio, essa beira de rio aqui, essa no pontal, era tudo mato.  Aqui nessa beira de praia era tudo daqueles coquinhos, caldeiro, né? Caldeiro que eles chamam, aqueles troços com espinhos, era assim  a beira de praia todinha. Aqui não tinha nada. A gente vivia numa comunidade de umas 15 famílias, umas dez famílias só neste lugar, num grupinho, todo mundo com aquelas casinhas, cabaninha de índio, então vivia todo mundo aqui e era tudo mato. Para a gente passar para o outro lado, nós tínhamos  que fazer um caminho por baixo com facão e foice, só assim, a gente conseguia atravessar  e alcançar a pista do outro lado.

 

P/1 – E como que vocês faziam para conseguir produtos?

 

R – O produto, conseguir produto de quê? Mantimento?

 

P/1 – É, mantimento.

 

R – O mantimento a gente comprava do outro lado da barra ali, tinha o armazém antigo, nós apanhava o peixe da gente aqui, atravessava de canoa para o outro lado, vendia o peixe lá e trazia o alimento de lá para cá.

 

P/1 – Então não tinha nada de comércio aqui?

 

R – Aqui não.

 

P/1 – Tinha que se deslocar para lá de barco. Seu Bidi, seu pai também era pescador, né, como era a pesca antigamente aqui?

 

R –Ele trabalhava com rede.  A minha mãe fazia rede, minha avó fazia rede e a gente fazia rede. Trabalhava de canoa dentro do rio e aqui no mar, sempre de rede, botava a rede de espera, no outro dia retirava a rede, tirava os peixe e ia vender.

 

P/1 – E vocês conseguiam viver?

 

R – Sobrevivia da pesca.

 

P/1 – Sobreviver da pesca. E quem eram os compradores naquela época?

 

R – Era o  pessoal que vinha de fora, eles vinham  tudo de fora, a gente trabalhava aí três dias na semana.  Três dias na semana, por exemplo, assim, a gente trabalhava quinta, sexta e sábado, o pessoal vinha no sábado e a gente vendia o peixe no sábado, mas já tinha do outro lado ali um rapaz que comprava, ele salgava o peixe e tinha uma geladeira a querosene, aí gelava o peixe mais ou menos para vender e ele mesmo comprava, fazia o modo dele lá e vendia e já tinha um “rematante”, era um atravessador no caso.

 

P/1 – Quando o senhor era  jovem, o que os jovens faziam aqui na região para se divertir?

 

R – Jogava bola, tudo perna de pau, mas jogava bola no meio do mato aí na praia.  Jogava bola na beira da praia aqui, peladinha todo dia de tarde, a tal de pelada.

 

P/1 – E quem participava dessa pelada?

 

R – Aí justamente, só os parentes,  às vezes, vinha alguém do lado de lá, a rapaziada do outro lado para brincar com a gente aqui, tinham muitos que vinham.

 

P/1 – Quem? Esse atravessador? Como que era a relação com eles antigamente?

 

R – A nossa relação?

 

P/1 – Com o atravessador? Esse rapaz.

 

R – Era  tudo maduro já, o pessoal já bem maduro.

 

P/1 – Mas como? Sempre era a mesma pessoa?

 

R – É, sempre esse que comprava.  O atravessador era sempre a mesma pessoa.

 

P/1 –  O senhor falou dos barcos,  o barco do seu pai, como que era? Ele tinha um barco?

 

R – Tinha um barco, era um barquinho pequeno, mas motorizado, motorzinho a gasolina.

 

P/1 – E como que ele fez para construir ou para comprar?

 

R – Esse aí ele comprou da mão de outras pessoas que eu não me lembro quem foi e como foi. Ele conseguiu a embarcação, depois conseguiu um motor e colocou na embarcação.

 

P/1 – E aqui os barcos, na época dele, já tinha muito barco motorizado?

 

R – Não, tinha muito pouco, tudo era remo, até inclusive o dele também era no remo, depois que passou para motor, aí tinha mais ou menos umas cinco canoas só, barco motorizado, só cinco, não tinha mais do que isso, não, o resto tudo remo.  Remo e vela, os veleiros, botavam vela, saíam para o mar botar rede, vinha no vento, como fazem os veleiros aí na regata.

 

P/1 – Esses veleiros, esses barcos a remo, quem fazia?

 

R – Justamente, na Barra de São João tinha um pessoal antigo que faziam esses barquinhos de uma madeira só, se chama canoa. Bota aí cinco pessoas, trabalham com cinco ou quatro pessoas,  eles tinham fabricação ali na Barra de São João, na beira do rio. Então, lá eles compravam, né, meu pai comprou na mão deles e lá, que fui aprender também com eles trabalhando.

 

P/1 – Então, conta um pouquinho sobre isso.

 

R – Eu já me interessava porque eu via, eles fazendo a canoa,  eu saía do colégio,  duas vezes na semana ou três e ia para lá ajudar eles, assim,  eles viam muito o meu empenho de ficar em cima ali e eles perguntavam: “Garoto, você quer aprender a trabalhar?”, eu falava: “Bah, se quero”, aí ficava ali, ficava o dia todo e aprendi.

 

P/1 – Conta um pouquinho sobre essa técnica de fazer barco.

 

R – Essa técnica aí é você ajudar as pessoas mais velhas, né? Eu ia para lá ajudar e nessa troca eu aprendi a fazer embarcação, aí depois de já uns três ou quatro anos com eles ali,  eu aprendi a fazer sozinho.

 

P/1 – Conta um pouquinho, o senhor falou que coloca a madeira na água, como é que é esse processo?

 

R – Agora aqui?

 

P/1 – É.

 

R – Não, agora aqui já é outro departamento.

 

P/1 – É outro jeito?

 

R – É outra etapa, né?

 

P/1 – Então conta como era.

 

R – Aqui já é construção naval direto,  eu faço barco, por exemplo, essas tábuas tem muitas curvas, eu boto de molho na beira da maré, eu coloco de molho na praia, na água ali, para ela poder amaciar e resfriar um pouco, isso evita dela quebrar. Depois você pega os grampos e  vai apertando ela com os grampos e devagarinho vai chegando para o lugar e não rachar. E a outra técnica é você trabalhar com óleo, óleo e maçarico com fogo, esquentando ela para chegar no lugar, aquela tábua também dobra, entendeu? Essa é uma outra técnica de trabalhar, mas isso tem que ter muitos anos de experiência.

 

P/1 – O senhor lembra a primeira embarcação que o senhor fez como é que foi?

 

R – Isso foi no Rio de Janeiro, quando fiz a primeira embarcação, eu era garoto, assim de 18 anos de idade, era garoto e morava na praia de Ramos. Eu trabalhava na oficina de marcenaria, fazia balcão frigorífico, então lá eu cismei de fazer um barco, já tinha noção de fazer barco e eu dizia: “Vou fazer um barco para mim andar na praia lá e  para eu passear”, aí todo mundo ficava sempre falando : “Vai fazer um barco aqui?” e eu respondia: “Vou fazer um barco aqui !”. Comprei o material lá na loja e fui fazendo, fiz o barco lá na loja mesmo, assim fiz o primeiro barco, chamava Pingo de Ouro, inclusive ficou muito bonito, foi uma turma querendo comprar, acabei vendendo o barco e  tinha muita gente mesmo  querendo comprar. E daí continuei fazendo barcos e  trabalhando na pesca. Estava falando ontem aqui, que a pesca tem uma ocasião que fica muito ruim, a pesca, aqui era assim também, hoje não, hoje melhorou muito,  melhorou 90%, porque se não tem uma mercadoria tem outra e você tem recursos  porque os barcos são grandes, aí você vai para fora, não tem peixe nessa beirada aqui, você vai a 20 ou 30 milhas para fora e você acha o peixe lá.  Então você tem procura de peixe, aí a gente que já tem uma noção mais ou menos de onde tá, de conhecer as correntes d’água, a gente já sabe a posição onde tem o peixe e fica acompanhando ele. Aí, quer dizer, naquela época não tinha não, não tinha esse recurso de sair para longe, que ninguém tinha embarcação motorizada boa para ir para fora, então era um sofrimento, o que aconteceu? Aprendi a trabalhar de carpinteiro de barco, que quando ficava ruim aqui eu me mandava para o Rio, cheguei a trabalhar na Casa Abramar, lá aprendi muito com os engenheiros, porque eu tinha que aprender a fazer lancha, lancha de passeio e assim,  aprendi muito lá.  Em outra firma que eu trabalhei, também aprendi muito, me aperfeiçoei, trabalhei por planta, fazer barco por planta, então você vê que tem que saber outras formas de trabalho. Aí depois vim embora para cá, eu casei, vim embora, não voltei mais e eu falei assim: “Aqui é meu lugar” e fiquei aqui direto, dá para sobreviver porque se eu não tenho a pescaria, eu tenho serviço de barco, se eu não tenho serviço de barco, eu tenho a pescaria, então dá para equilibrar normalmente, entendeu?

 

P/1 – E como foi para o  senhor sair daqui, de um lugar que era tão pacato e mudar de profissão temporariamente, mudar não, se especializar?

 

R – Isso, como é que foi?

 

P/1 – É, lá no Rio de Janeiro.

 

R – A minha família, a maioria da minha família é tudo de lá, é tudo do Rio, então eu fui para a casa da minha avó, papai foi lá, falou com a minha avó e ela disse: “Traz o menino pra cá”, aí fiquei morando com a minha avó e comecei a estudar à noite um bocado e trabalhar de dia, então tinha que fazer essas duas coisas, eu trabalhava de dia e estudava à noite, foi onde eu me aperfeiçoei, aí fui para o Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], essas coisas todinhas para aprender, aí tive que dar aula também, depois eu já sabia e fiquei nessa vida.

 

P/1 – Quantos anos o senhor tinha quando foi para lá?

 

R – Quando eu fui para lá  eu tinha 13 anos de idade, novinho.

 

P/1 – E como que era dar aula, ensinar as pessoas?

 

R – É, aí já  foi depois, estava adulto, com 28 anos de idade, por aí, eu dava aula, no caso, de embarcação, para fabricação de embarcação no Senai, chegava aluno novo, o professor me convocava e dizia: “Ó, Seu Bili, vai lá, você já tem experiência, dá aula para esse rapaz no meu lugar”, então é isso que eu fazia e daí a gente vai se aperfeiçoando, né?

 

P/1 – E aqui o senhor também ensina as pessoas a fazerem?

 

R – Aqui ninguém quer aprender.

 

P/1 – Não? Por que o senhor acha que ninguém quer aprender?

 

R – Porque ninguém quer aprender, eu falei ontem, tava falando com ela aqui, a pesca dá um retorno melhor do que a criança aprender a trabalhar de carpinteiro, por exemplo, assim, eu vou pagar 200 reais por semana para ele me ajudar,  para ele me ajudar e eu ensinar, mas na pesca, ele tira 300 ou 400 reais e não trabalha o dia todo, trabalha só até meio turno, meio dia e aí ninguém quer.

 

P/1 – E como o senhor acha que pode se preservar esse jeito de fazer barco?

 

R – Aqui é difícil, na nossa área daqui, da costa nossa por aqui até a Tafona, por aí, eu acho que é difícil.

 

P/1 – Tem mais pessoas ainda que fazem o barco.

 

R – O barco? Tem, pra lá da Tafona, que é São João da Barra, lá tem muita construção de barco,  no Farol de São Tomé, na Farola de São Tomé tem umas pessoas que ainda  estão aprendendo, alguns garotos estão  aprendendo, agora aqui, na Tafona é difícil, ninguém quer.

 

P/1 – Não tem jovens querendo aprender?

 

R – Jovens ninguém quer.

 

P/1 – O senhor falou da tecnologia que ajuda a sair para o mar, né, como que era antigamente sem essa tecnologia?

 

R – Olha, antigamente nós não tínhamos  embarcação, nossa embarcação era pequena, a gente chegava ali a  uma milha para fora só, daqui da praia uma milha, acabou, nós não íamos mais porque não tínhamos  condições de ir porque não tinha embarcação, não era adequada para ir. Hoje já é diferente, né, hoje o barco, você vê o tamanho dos barcos, tudo motorizado, motor três cilindro ou quatro cilindro, então tem como sair.

 

P/1 – Quando que mudou, teve essa mudança de tipo de embarcação aqui?

 

R – Quando?

 

P/1 – É, aproximadamente.

 

R – Isso aí veio de 1978 ou  1975 para cá foi mudando bastante e hoje tá bem mudado.

 

P/1 – Isso mudou a relação, assim, de peixes que vocês...?

 

R – Os peixes continuam, só afastou mais, é como eu acabei de falar, os peixe estão mais longe, estão mais para fora, isso  deu uma mudada.

 

P/1 – Quais são os tipos de peixes que vocês mais pegavam antigamente?

 

R – Aqui a gente pegava muito cação, corvina, pescada, robalo, tainha, carapeba e os outros peixes de antes.

 

P/1 – E hoje em dia?

 

R – Hoje tá mais fracassado o robalo, o bagre, a pescada, a corvina e o cação, diminuiu 50 por cento geral.

 

P/1 – Esse tipo de peixe?

 

R – É.

 

P/1 – Quando o senhor chega com o peixe, como é essa questão do atravessador?  O senhor falou que antigamente tinha uma pessoa que esperava para comprar, salgava e tal e  como que é hoje em dia?

 

R – Hoje em dia a salga acabou, não tem mais salga, e nós vendemos aqui na praia, todo mundo vem comprar aqui, as pessoas acostumaram, a gente acostumou vir para praia e vender o peixe aqui, diretamente ao consumidor, tem muitos que às vezes vai direto para o frigorífico, quem tem mais quantidade entrega para o atravessador, como a gente tem pouca quantidade, trabalha aqui na praia, porque o lucro é melhor um pouquinho.

 

P/1 – Então, quando vocês voltam primeiro, quantas pessoas vão nesse barco?

 

R – Olha, a maioria aqui são sempre duas pessoas que trabalham, todo mundo trabalha, são uma pessoa ou duas pessoas.

 

P/1 – E como que vocês fazem com a mercadoria quando chega aqui, como que é a divisão?

 

R – Muito que bem, a divisão é como o Seu João falou ontem, 50% é do barco, por exemplo, você fez mil reais, vamos falar assim, mil reais, você tirou aí cem reais para o  óleo, sobrou 900 reais, tirou 450 que é do barco e os  outros 450 divide para as duas pessoas. Por que os 450 divide para o  barco? Manutenção do barco, equipamento de pesca, porque quando a gente perde tem que repor no lugar, então tem que ter os 50%, essa é a divisão.

 

P/1 – Então o equipamento de pesca também conta como do barco, é da pessoa, o proprietário?

 

R – É da pessoa da embarcação, a pessoa que vai ajudar, ele vai só com o corpo dele, sem nada, então na verdade vai ter a parte dele dividido com outra pessoa que foi, quer dizer, no caso o dono do barco foi com ele, vai ser dividido, os 900, são 450 e  dá 225 para cada um.

 

P/1 – E esse equipamento, onde que vocês adquirem?

 

R – Nós compramos diretamente nas lojas onde vende.

 

P/1 – E antigamente como que vocês faziam para adquirir?

 

R – A gente  fazia.

 

P/1 – Vocês que produziam?

 

R – Nós fazíamos manualmente.

 

P/1 – Tudo.

 

R –  A gente fazia tudo.

 

P/1 – O senhor falou que a sua mãe fazia rede.

 

R – Fazia rede, a minha avó, que era a esposa, a mãe de Seu João, fazia rede, fez muita rede para mim, eu ia e pedia : “Vovó, preciso de uma rede” e ela falava: “Pode comprar o material que eu faço, meu filho”, ela fazia,  a minha mamãe também era a mesma coisa.

 

P/1 – E alguém aprendeu com elas?

 

R – Bom, eu aprendi, né, eu sei fazer de tudo, embarcação, tanto embarcação como aparelho de pesca, sei fazer tudo, isso eu aprendi tudo, agora outras pessoas não sei, né, sei que eu aprendi.

 

P/1 – O senhor faz alguma outra coisa além de pescar? Assim, além de barco, né, e a pesca?

 

R – As duas coisas.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa além delas?

 

R – É, só essas duas.

 

P/1 – A gente estava falando de tecnologia, né, hoje em dia como que é, vocês vão mais longe, né, e como que é, o mar é mais perigoso ou não?

 

R – Olha só, o mar, ele, quanto mais para fora mais perigoso, no motivo de temporal, de vento, por exemplo, marcou uma ressaca, a gente não vai, já está marcando, a gente não vai, agora se você tiver lá, ela caiu, você não tem como voltar, você tem que ficar , segurar a petecazinha no mar, entendeu? Tem que ficar lá, aguentar ou correr para onde tiver uma ilha por perto e  é perigoso.

 

P/2 – Sempre vai acompanhado ou o pescador pode ir sozinho para o  mar?

 

R – O pescador vai sozinho, sozinho, nada de acompanhamento, só Jesus, é o nosso mestre.

 

P/1 – Então não leva, geralmente não leva equipamento?

 

R – Leva.

 

P/1 – Leva, é que agora eu fiquei na dúvida.

 

R – Equipamento leva, leva colete, leva boia, leva âncora, eu, por exemplo, levo vela, que ninguém leva aqui, eu levo, no meu barco já tem vela apropriada para se caso o motor dê um problema eu já tenho a vela para onde que eu vou, aí tem bússola e  também o GPS [Global Positioning System].

 

P/1 – Então, como  foi essa tecnologia nova,  o GPS,  o que ela significa para pesca de vocês?

 

R – O GPS significa o motivo de lajeado, né, no caso, laje no fundo do mar, porque às vezes, você quer descobrir um pesqueiro diferente, você vai andando, então você vai marcar cabeça de pedra, aí você não bota a rede ali, bota onde tem lama, que é para não perder o aparelho, e o GPS ajudou muito na navegação sob neblina, tem uma neblina, você quer vir, mas tem a neblina lá e você quer vir para cá, se você tiver a posição do GPS de terra você vem embora para a terra, pode esquecer o resto.

 

P/1 – E antigamente, como que fazia?

 

R – Antigamente ferro n’água.

 

P/1 – Tinha que ficar lá.

 

R – Tinha, jogava o ferro para água, âncora, cadê o barco e ninguém vê nada.

 

P/1 – E o senhor já passou alguma situação de perigo no mar?

 

R – Não. Perigo que eu passei foi de muita onda, mas isso é o normal, isso aí o pescador já tem isso por normal, o perigo no mar é o barco quebrar, é se tiver muita ventania, chuva, temporal e você tem que se controlar no mar e  você não pode desesperar.

 

P/2 – O senhor já sentiu medo?

 

R – Eu não, se é pescador tem que ser pescador.

 

P/2 – Já viu algum pescador com medo?

 

R – Já, já choraram muito comigo, já tive pescador que chorou comigo e disse: “Vou morrer, a minha família em casa” e eu falava: “Esquece todo mundo em casa, o negócio é você aqui” e pedia: “Vamos embora” e eu respondia: “Eu não posso ir e está longe”. Já peguei temporal assim, dois temporais com duas pessoas diferentes uma da outra, de passar mal no barco e ficar desesperado e eu dizia: “Se quiser pular dentro d’água ó lá, vai embora, eu não vou”. Eu com despesa, o barco carregado de gelo, a gente chama de rancho, que é comida, faz a compra,  traz comida, então você sai para pescar, cai um temporal lá, você vai vir embora por causa do temporal? Você tem que aguentar o temporal lá,  é o que eu fazia e dizia: “Vai comigo?” e ele respondia: “Vou”, mas eu avisava: “Tem que ser pescador, hein”. Chegava lá o cara, dois comigos, tinha temporal, um morreu, o outro está vivo, um morreu foi porque teve que morrer mesmo, né, estava doente, e o outro está vivo aí, foi um temporal feio.

 

P/1 – E continuaram pescando?

 

R – Eu continuei pescando.

 

P/1 – E eles também?

 

R – Também junto, não vem não, que eu peguei um temporal na região de Saquarema que eu tive que ir para o Rio, levei três dias ancorado no Rio, lá na Urca, os barcos todinhos voltaram, ninguém conseguiu ir para o  mar, mas eu já estava no mar, aí  só dava para ir para o Rio, para cá não dava, o vento era o vento leste e a força d’água estava muito forte,  aí tive que desembocar no Rio, fiquei três dias no Rio, ancorado lá, mas como eu conheço essa área toda e por isso para mim não tem problema.

 

P/1 – Conta um pouquinho sobre essa navegação nessa região costeira, como é?

 

R – A região costeira você tem que aprender a trabalhar com os antigos, né,  eu trabalhei muito embarcado, então eu aprendi muito com os antigos, as pessoas mais idosas me ensinavam como navegar.  Eu aprendi a navegar, então eu vou até Rio Grande e volto, eu vou até a Bahia e volto, navegando, pescando, já pesquei lá, pesquei para o sul e para o norte, entendeu?

 

P/1 – Quanto tempo o senhor já ficou no mar?

 

R – No mar 20 dias. O tempo de mar, de ficar no mar foi  por 20 dias, não passei de 20 dias, não.

 

P/1 – E com mais gente?

 

R – Com mais pessoas, uma equipe de cinco ou seis pessoas no barco.

 

P/1 – E como que é a rotina dentro do barco quando faz uma viagem dessa para pescar?

 

R – Se tiver alguém meio medroso vai dar problema e se tiver todo mundo corajoso alegria, não tem para onde ir, você vai para trabalhar e você tem que trabalhar.

 

P/1 – Mas como é a rotina, assim, o que vocês fazem ao longo do dia?

 

R – Ao longo do dia trabalhando direto, o dia todo, só para na hora que acabou a atividade da pesca, você vai gelar o peixe todinho, gela e dá uma paradinha para descansar um pouco,  porque a gente não é de ferro, né? Para em algum lugar para tirar uma dormidinha de duas horas, faz o turno, lá fora a gente trabalha quatro pessoas, vamos supor, de noite, aí dorme dois, ficam dois acordados, batendo papo ali, aí vamos falar assim; quatro horas para cada um, dorme dois quatro horas, aí depois aqueles dois que estavam acordados despertam aqueles dois que estavam dormindo, eles acordam, tomam café, ficam esperto, se não dorme de novo, porque é perigoso dormir todo mundo, aí aqueles dois que estavam acordados vão dormir até dar às oito horas, mais quatro horas e depois descansa.

 

P/2 – Dá tempo de jogar um baralho ou ouvir uma música?

 

R – Não dá não, essas coisas podem cortar, a pessoa já ali está quebrado e bem massacrado.

 

P/1 – E com a alimentação como que vocês faziam?

R – A alimentação é direto, né, alimentação  a gente leva tudo daqui para lá, abastece o barco aqui, a gente leva uma carne, comida em geral, né, de um modo geral, come peixe, carne, galinha, essas coisas e come tudo.

 

P/1 – E vocês mesmos que preparam no barco?

 

R – É, nós mesmo preparamos, tem fogão, tem tudo, o barco tem banheiro, tem que ter banheiro à bordo, antigamente não tinha, era tudo na borda, hoje o ritmo da capitania exige que têm que ter banheiro a bordo.

 

P/1 – O senhor chegou a fazer alguma viagem longa num barco que não tinha essa estrutura?

 

R – Cheguei, não é muito bonito, não [risos], não se fala mais nisso, não é bonito, não, não se fala mais nisso.

 

P/1 – [risos] Tá bom, mas quanto tempo uma viagem dessa durava, até quanto tempo vocês?

 

R – Quinze dias, 20 dias no mar, é, 15 ou 20 dias.

 

P/1 – E que tipo, vocês pescavam muito peixe, como que faziam?

 

R – Eu trabalhava na tranheira. Tranheira cercava a sardinha e o peixe-galo, eles eram pescados muito aqui no mar de São Tomé,  de São João da Barra, em Macaé, ali por fora, então era muito galo, na época do galo, sardinha, cavalinho, pescada e bagre, que era aqui no mar de São João, a gente ia  para Angra dos Reis pescar, o mesmo tipo de pescaria lá também, tinha tainha, esse tipo de peixe e só vinha embora quando o barco tivesse carregado.

 

P/1 – E usando gelo e sal para preservar?

 

R – Aí é só gelo.

 

P/1 – Só gelo?

 

R – Só gelo, o barco tinha a urna, barco com urna o que acontece? Gelava o peixe, botava 300 pedras de gelo, aí gelava o peixe, uma repartição todinha gelando, tudinho geladinha para entregar no mercado, na Praça XV no Rio de Janeiro.

 

P/1 – E como era, vocês esperavam encher de pesca ou já tinha um período previsto?

 

R – Não, a gente só vinha carregado.

 

P/1 – Só parava quando estava carregado?

 

R – Se estivesse cheio, a gente trabalhava dentro dos dias, né, às vezes a gente chegava com cinco dias, carregava o barco e vinha embora, às vezes a pesca estava meio fraca, você andava, passava, tinha um rádio de comunicação e  um comunicava com o outro no rádio: “Ó, tal lugar tem um peixe”, a gente ia para lá, aí chegava lá, carregava e ia embora, ficava ajudando, são cinco toneladas, oito toneladas ou  dez toneladas, é assim.

 

P/1 – E no caso dessas embarcações que tinham mais pessoas como que era a divisão do dinheiro?

 

R – Aí era por parte, né? Era muita parte, eu não entendo muito de parte, não, eles tiravam não sei quantos por cento para embarcação, os outro tanto por cento dividia para todo mundo, também tinha o contramestre, ganhava mais um pouquinho do que quem não era contramestre, e o gelador ganhava mais um pouquinho também, era assim, um ganhava duas partes, outro ganhava três partes, o mestre ganhava dez partes, o dono do barco ganhava 30 ou 20 partes, depois dividia o dinheiro era tudo dividido.

 

P/1 – Seu Bidi, essa região aqui, o senhor entrava então em contato com muitos pescadores, né?  Como é essa relação entre os pescadores de outros lugares?

 

R – Tudo pelo rádio, se comunicava pelo rádio, eles comunicavam para a gente que tinha peixe em tal lugar ou então quando não tinha nada, a gente comunicava para eles que tinha peixe onde nós  estávamos, então ali a gente se comunicava um com o outro, sabia o nome da embarcação, sabia o nome deles, eles sabiam o nosso também,  nós ficávamos amigos um do outro. Às vezes, chegava na Praça XV antigamente, porque acabou, a gente se encontrava lá e conversava: “Ah, é você que tava falando comigo, é você mesmo?” e o outro respondia: “Sou eu mesmo”, nós conversávamos assim, batia papo, se juntava um com o outro para brincar, sair para algum lugar, só que eu não saía, vinha para casa, ou ficava no barco, é que eu detestava sair para farrear e beber, é que os pescadores gostam muito de beber, mete o pau no dinheirinho que ganha, mas  eu tinha meu objetivo e  então não podia fazer isso.

 

P/1 – Seu Bidi, como é a relação com os pescadores locais, tem a associação, né? Como que ela funciona?

 

R – Olha, é  uma turma unida um com o outro, porque se não for fica fora do grupo, então nós temos que se unir, a relação é boa um com o outro, aquele que não quer se unir sai fora, porque tem uns que são meio ruim de negócio mesmo, de transa, a gente fala assim no modo de falar do povo aí, então esse não serve para ficar com a gente e acaba ele saindo do meio da gente, então do nosso grupo aqui que se reúne são umas pessoas legais.

 

P/1 – E quais são as ações que a associação promove, o que vocês fazem?

 

R – Olha, a associação dos pescadores, ela promove ajuda ao pescador, algumas coisas que forem preciso, como o negócio de documento da embarcação, eles têm, eles correm atrás, com a colônia de pesca fazem a mesma coisa e dão mais um apoio, um socorro, se precisar de um socorro telefona para eles, eles arranjam uma embarcação para ir buscar, essa é a relação que a gente tem com eles, com ela.

 

P/1 – E qual o seu papel nela?

 

R – Bom, eu não trabalho com associação, não, eu trabalho com a colônia.

 

P/1 – Sim, como é o seu papel nela?

 

R – Meu papel na colônia, é que a gente se dá muito bem entre o presidente, a Nádia, que é a capatazia daqui, do Santo Antônio, e ela, o que a gente pede para ela sobre documento de barco, documento da gente, hoje, por exemplo, ela foi levar um grupo para trocar o documento que já venceu e então nosso relacionamento com a colônia é esse.

 

P/1 – E a participação dos pescadores, como se dá?  É financeira?  Como  é?

 

R – Não, isso não ajuda ninguém, não.

 

P/1 – Não?

 

R – Não, a colônia nossa não ajuda ninguém, nem a associação, não ajuda nada, sobre isso aí não, só a gente tem a defesa da pesca do camarão, quando tá na defesa, que agora tá na defesa, nós recebemos a defesa do camarão por quatro meses, quatro meses de defesa nós recebemos e depois disso volta tudo normal.

 

P/1 – E qual é a mercadoria da pesca?  Vocês pescam peixe, camarão e lula não? O que mais além de peixe vocês pescam?

 

R – É, a gente não tem a lula no arrastão que vem, tem o camarão, tem o peixe que vem no arrastão também, mais o quê?

 

P/1 – Não sei.

 

R – Só isso, lula, camarão, polvo, lula, camarão, polvo, peixe.

 

P/1 – É isso aí.

 

R – Só isso.

 

P/1 – E o que vende melhor?

 

R – Aí é o polvo, é o camarão, esse é o melhor, né, a lula, esses são os melhores.

 

P/1 – Dá para vocês tirarem um dinheirinho maior?

 

R – Dá, dá para sobreviver.

 

P/1 – É isso que eu ia perguntar, dá para sobreviver da pesca?

 

R – Dá, dá.

 

P/1 – Dá?

 

R – Dá.

 

P/1 – Seu Bidi, o senhor tem filhos?

 

R – Olha, tenho uma tonelada de filho, tenho quatro filhos [risos].

 

P/1 – Tem algum que também é pescador?

 

R – Nenhum deles.

 

P/1 – Nenhum?

 

R – Tenho dois filhos e tenho duas filhas, dois casais, ninguém é pescador.

 

P/1 – Ninguém quis trabalhar com a pesca?

 

R – Não, não, o meu filho mais novo queria a pesca, eu tirei de jogada, falei assim: “Rapaz, estuda que é melhor”.

 

P/1 – O senhor orientou ele?

 

R – Orientei: “Estuda, minha filha, estuda”, sofri um bocadinho, mas pegaram um estudozinho bom, dá para quebrar o galho.

 

P/1 – Por que o senhor achou que era melhor?

 

R – Porque a pesca é mais sofrido, né, a pesca é mais sofrido do que, por exemplo, se a pessoa tiver um estudo hoje, que nem eles fizeram, né, fizeram faculdade, trabalham embarcado, o outro é engenheiro, então já tá mais ou menos, é melhor do que ficar na pesca, a minha filha é farmacêutica, a outra é dona de loja de material de construção, então eu tirei da cabeça, então eu me sacrifiquei um pouquinho, trabalhei um bocado e fiz a forcinha deles estudar para se manter melhor do que eu talvez, né? Nesse caso aí de trabalho.

 

P/1 – E como que eles veem a pesca?

 

R – Como eles veem?

 

P/1 – É.

 

R – Aí eu não sei, não.

 

P/1 – Não?

 

R – Eu não sei explicar, não.

 

P/1 – Eles não falam e eles não conversam?

 

R – Tem um que nem aqui bota os pés, ele tá, ele hoje está embarcado no México, três meses direto.

 

P/1 – E todos nasceram aqui?

 

R – Cabo Frio, tudo em Cabo Frio.

 

P/1 – E como que era, assim, quando eles eram crianças aqui? O senhor levava eles quando ia pescar?

 

R – Não. Eu levava eles para brincar no mar comigo, né, botar uma rede, assim eu  levava eles, mas enjoavam muito e não queriam ir mais. Depois dava vontade ir e enjoava de novo, então nunca forcei a barra para eles ficarem na pesca, entendeu?

 

P/1 – O senhor chegou a ensinar alguma pessoa a pescar?

 

R – Já, vários companheiros eu ensinei a pescar,  eu ensinei sim, vários companheiros que trabalharam comigo eu ensinei a pescar e não tem ninguém comigo hoje, todo mundo saiu.

 

P/1 – Deixaram de ser pescador?

 

R – Continuam pescador, mas cada um comprou um  barco para si mesmo, entendeu? Como meu irmão, meu irmão trabalhava comigo, nós andávamos esse mar direto, vinha e voltava pescando, eu e meu irmão, aí depois eu cheguei a uma conclusão que ele tinha que comprar o barco dele e eu ajudei a comprar o barco. Ele comprou o barco dele e acabou, aí eles ficaram cada um com o seu barco, entendeu? Eles pegam uma pessoa aí que quer ir pescar, vai, o outro dia não quer ir, não vai, eles vão sozinhos, eu mesmo vou sozinho, quando não tem ninguém vou sozinho.

 

P/1 – E o senhor também ensinou a fazer o equipamento, a rede?

 

R – Não, aí essa parte não ensinei, não, não dava tempo, porque se fosse ensinar eles a fazerem as redes eles não ganhavam, não trabalhava para o sustento, é diferente, porque para fazer uma rede hoje, você vai perder dias. Para fazer uma rede, pegar do fio, do fiozinho fininho e  fazer uma rede para trabalhar vai muito tempo.

 

P/1 – É por isso que geralmente as mulheres faziam a rede?

 

R – Exatamente, a minha mãe fazia, por isso, minha avó, elas faziam para ajudar os maridos, né. Porque a minha mãe ajudava meu pai,  meu pai saía para o mar pescar e ela fazia a rede, minha avó a mesma coisa, já minha avó era os filhos que iam para o mar, porque meu avô morreu cedo.

 

P/1 – Ela que ensinou o senhor a fazer a rede?

 

R – Minha avó?

 

P/1 – É.

 

R – Não, aí já foi meu tio.

 

P/1 – Seu tio?

 

R – É, esse meu tio que estava aqui ontem, Seu João, ele que me ensinou, a gente  era muito colado, eu e ele, como somos até hoje, ele me ensinou.

 

P/1 – Qual é a importância da pesca na sua vida, Seu Bidi?

 

R – A importância?

 

P/1 – É.

 

R – Para mim é um meio de sobrevivência muito bom, eu dou muito valor à pesca, eu gosto da pesca, nasci nela, eu matava muito peixe, botava na canoa cheia de peixe, eu nasci nela, gostava, gostei e então a importância é grande. Eu fui trabalhar no Rio, como eu te falei, aprendi a trabalhar, trabalhei em estaleiro, dois estaleiro, ganhei um dinheirinho bom, trouxe para comprar um barco aqui e  fiquei nesse movimento da pesca para juntar um dinheiro para comprar um barco, comprei e fiquei na pesca porque eu gostava. Para mim foi uma coisa muito boa.

 

P/1 – O senhor falou que foi morar no Rio de Janeiro, como que foi voltar para cá, aqui estava diferente quando o senhor voltou?

 

R – Já estava, já estava bem mudado, quando eu saí já estava diferente, as coisas já estavam mudando, e quando eu voltei já estava mais diferente ainda.

 

P/1 – O que o senhor notou de diferente?

 

R – Porque a população cresceu, no bairro começaram a desmatar tudo, a população começou a crescer e pronto, a diferença foi essa, ou seja, é aqui que eu tenho que ficar, eu vou perder meu lugar [risos].

 

P/1 – O senhor acha que hoje em dia os jovens se interessam pela pesca?

 

R – Olha, tem muito jovem aqui que se interessa pela pesca, filho de pescador mesmo tem muito que interessa pela pesca.

 

P/1 – E como que eles aprendem a pescar, com os mais velhos?

 

R – Junto com os pais, é, com os mais velhos, os pais, tio, irmão mais velho, eles aprendem.

 

P/1 – O que o senhor gostaria que acontecesse aqui com a comunidade em relação à pesca? Tem algum movimento da comunidade com relação à pesca?

 

R – Olha só, não tem nenhum aqui. Eu gostaria que tivesse uma sala e uns professores para darem aulas para os  pescadores sobre ensino médio, normal, do segundo grau e primeiro grau em diante, porque muitos não estão fazendo isso, não estão estudando, isso eu gostaria muito, que tivesse uma sala de aula aqui no Santo Antônio para ensinar os filhos de pescadores. Também ensinar a aprender a trabalhar com aparelhos, equipamentos de tecnologias, no caso, a bússola, que ninguém sabe, muitos não sabem, GPS ninguém sabe operar ou manusear um sonar, porque muita gente não sabe, então aqui falta isso, entendeu? E também, por exemplo, assim, trabalhar com barômetro também para ver esse negócio de temperatura no mar, ou tempo, se vai vir tempo bom ou tempo ruim, isso não tem ninguém, que possa ensinar e a maioria nem sabe o que  é isso aqui, então eu acho que devia ter uma sala aqui e um professor especializado nisso que possa dar uma aula, aos filhos dos pescadores, que por enquanto isso é abandonado aqui, nessa  parte estamos abandonados.

 

P/1 – Aqui as pessoas têm pouco acesso?

 

R – Tem pouco acesso, ninguém ensina ninguém aqui, essa aparelhagem e instrumentos, tem que ir para fora, eles não ensinam, não tem nada e não tem ninguém para ensinar.

 

P/1 – E se alguém quiser aprender tem que ir até onde?

 

R – Aí tem que fazer curso na capitania em Cabo Frio, que é difícil, tem que entrar lá, ver o dia que tem curso ou ir  em Macaé, deslocar, o horário também é difícil,  começa sete horas, termina às dez, igual um estudo à noite normal, eu já fiz isso, sofri muito, sofri muito, eu tinha que dormir lá em Cabo Frio que não tinha condução para vir, pedir carona, então falta isso aqui, até hoje ninguém… não teve ninguém para movimentar, fazer esse tipo de estudo, eu acho que aqui teria que ter. Em São João da Barra, na Tafona, lá tem, lá com o Willian, que é o presidente da associação de pescador, da colônia de pesca, lá tem, tem professor  que  ensina, aqui não tem nada, aqui está abandonado quanto a isso, os pescadores nossos aqui, essa garotada nova aí, eles sabem ir ali, botar uma rede, fazer a marca e no outro dia ir lá buscar.  Eles sabem pescar um camarão, mas por exemplo, como eu acabei de falar, se  tiver que ir lá fora, pegar um temporal ou comandar uma embarcação, eles estão meio enrolados, porque eles não sabem, se der uma neblina não vão saber, porque isso nós temos que ter, tem que ter aula para o pescador e para o futuro pescador e não está  tendo.

 

P/1 – O senhor acha que o fato deles saberem mais tecnologias, terem mais instruções e acesso a esse tipo de conhecimento, poderiam ampliar a pesca?

 

R – Poderia, porque hoje a pesca, por exemplo, arrastão de camarão, nós temos camarão VG [ Verdadeiramente Grande], aquele camarão VG, você sabe qual é, aqueles grandes, né, dá lá fora, então depende muito de aparelho, por GPS, bússola e o  sonar, depende muito disso, tem muitos que estão indo através de outro, mas vai na escura, dá sorte, às vezes rasga a rede, às vezes fica mais na beirada, outros que  não vão para fora porque não sabem ir e é onde  a pesca mais profissional eles não vão porque eles não sabem ir, não sabem operar a tecnologia dos aparelho, entendeu, é isso que ta faltando para nós aqui, para os novos que estão vindo aí, tem muito garotão novo aí, tá aprendendo a pescar e estão tapadas as vistas dele.

 

P/1 – E muda também, né, o tipo de peixe, ajudaria?

 

R – Muda, muda o ritmo de toda a pesca.

 

P/1 – Falando de ir um pouco mais longe, qual é o impacto da exploração do petróleo aqui na região? Essas embarcações que podem ir mais longe, chegar mais próximo a onde tem exploração de petróleo?

 

R – Bom, mas chegar lá perto das plataformas não pode, né.

 

P/1 – É, então?

 

R – Tem que ficar bem recuado porque os cabos que têm lá, de cabo de aço, os cabos de petróleo, que corre o petróleo, as mangueiras, então ficam bem longe, eles têm uma radiação bem longa onde eles botam os aparelhos deles, então a pessoa tem que ficar bem longe daquilo para não dar prejuízo a ninguém. Então tem uma área de pesca que têm umas boias, botam a boia da boia, tantos metros da bóia para trás, não é pra frente, se a plataforma tá aqui, por exemplo, na frente, então tantos metros da bóia para lá não pode entrar, tantos metros da bóia para cá pode trabalhar, então a pessoa tem que saber isso, a pessoa que vai lá para fora pescar tem que saber a profundidade que tá, as milhas que pode estar aqui,  para plataforma, então a pessoa tem saber disso, onde está o peixe melhor.

 

P/1 – E quem orienta os pescadores com relação a isso?

 

R – Você já viu que teve muitos desastres sobre isso aí, não já? Navio batendo no barco, rebocador quebrar o barco, matar pescador, é por isso aí, orientação não tem, alguns que sabem e orientam, por exemplo, que nós aqui, nós temos, aqui não dá para ver o barco, tem o Alexandre ali, ele só pesca lá, lá com 40 milhas para fora, 40 ou 50 milhas, lá no arrastão de camarão VG, então ele fica perto da plataforma, ele vê a plataforma perto, mas chega uma certa distância ele não vai mais, que ele sabe que lá não pode,  ele já tem experiência, já fez curso na capitania para isso.

 

P/1 – Na capitania então eles dão curso para isso?

 

R – Dão curso, tem uma época do ano que eles dão, então essa rapaz já fez e  é o único que tem aqui que vai lá fora.

 

P/2 – Seu Bidi, é sempre sinalizado?

 

R – Lá nas plataformas são, eles têm as boias de sinalização.

 

P/1 – E alguma dessas áreas onde hoje em dia tem plataforma antigamente era área de pesca?

 

R – Área de pesca, tudo área de pesca, hoje você não pode pescar nela lá porque tá ocupada.

 

P/1 – E isso mudou o tipo de peixe que vocês pegam? E a quantidade?

 

R – Olha só, a quantidade deu uma mudançazinha, deu uma mudança no impacto ambiental, né, isso aí prejudicou um pouco a pesca, prejudicou muito, muita coisa, por exemplo, assim, no Açu, onde tá fazendo aquela ponte lá no meio do mar, lá no Açu, sabe onde é o Açu?

 

P/1 – Não, fala para gente onde é.

 

R – É lá em São João da Barra, lá perto do Farol de São Tomé, lá no Açu, ali tinha uma área de pesca de pescada, aquelas pescada grande, não é brincadeira, é grande mesmo, pescada de quatro ou cinco quilos, pescada grande, então depois que fizeram, estão fazendo, essa ponte do Açu e é para descarregar o petróleo.

 

P/1 – Já sei qual é agora.

 

R – Já sabe, né? 

 

P/1 – Sei.

 

R – Então prejudicou muito a pesca nessa área, prejudicou mais ou menos 60%, então prejudica bastante, e dali para fora, onde tem a plataforma é continuação e isso prejudica.

 

P/1 – Teve alguma outra mudança que  mudou o tipo ou restringiu a área de pesca?

 

R – Olha só, a mudança da pesca aqui foi que fracassou mais na beirada, o peixe afastou um pouco para fora. Por quê? Eu não sei qual ou o que  eles mexeram lá no fundo do mar, porque antigamente, quando não tinham as plataformas aqui, essa beira de praia  todinha até a rãs, até a rasa pela beirada todinha aqui, quando dava o vento leste, nordeste aqui, que o mar ficava meio agitado, jogava muita borra de petróleo, ficava bastante nas praias e nos peixes. Eu falando agora precisava do Seu João para tá aqui para responder, só  para confirmar alguma coisa, ou algumas pessoas antigas lá do outro lado, porque aqui não tem mais antigo, que já passou para o outro mundo. O peixe aqui encalhava, quando dava essas marés altas assim, isso aqui era cardume de peixe, encalhava na praia, mas porque tinha muito peixe, aí vinha misturado até com as borras de petróleo, então tinha muito peixe, hoje, depois que fizeram a exploração de petróleo aqui em Macaé, em Campos, essa região toda, acabou tudo isso, então o peixe foi afastando, foi acabando o peixe, tem peixe, não deixa de  ter, sempre tem, mas afastou bastante, então prejudicou um pouco a parte do meio ambiente.

 

P/1 – E a questão das embarcações aumentou? Aqui era praticamente uma vila de pescadores, né? A vila  aumentou? Cresceu? Como  a mudança do volume de barcos que passam aqui alterou alguma coisa no lugar?

 

R – Não, esse volume de barco não alterou muito, não, o que atrapalhou muito a gente foram os barcos que vêm de Macaé e as traineiras, que agora acabaram as traineiras, acabou o peixe, acabaram as traineiras, tem uns barcos de Macaé que vem para cá, chamam parejas, são dois barcos puxando uma rede grande, ali mata tudo, são dois barcos puxando uma rede grande, é a pareja, é que a matança de peixe daqui a Macaé, Rio das Ostras, matam tudo, entendeu? Trabalham muito assim nessa costa, é onde foi mais prejudicado. O prejudicou bastante foi a tal da pareja.

 

P/1 – E hoje em dia não pode mais?

 

R – Não, elas pescam.

 

P/1 – Pesca do mesmo jeito?

 

R – Não é proibido.

 

P/1 – Não é proibido?

 

R – É, elas só não estavam vindo aqui porque a pesca tá fraca, mas de vez em quando, ela vem aí fora e rodou isso tudinho aqui.

 

P/1 – E o senhor acha que tem alguma política voltada para o pescador menor que ajuda com relação a essas embarcações grandes de pesca?

 

R – Política na menor?

 

P/1 – É, o governo mesmo proporcionar algumas e ajudar?

 

R – O governo, ele não proíbe a embarcação grande nesse tipo de pesca, não é proibido, então desde que não é proibido não tem como a gente resolver nada, aí prejudica a gente pequeno na beirada, aí prejudica a beirada todinha aqui, porque essa embarcação, a traineira, a traineira é proibida na pesca da sardinha, leva quatro meses fechada a pesca, por exemplo, tá dando sardinha agora, já começou a aparecer peixe, porque a sardinha é comidinha dos outros peixes maiores, entendeu, aí o que acontece? A traineira não vem aqui, tem peixe, se ela vier arrasta a sardinha, vai lá e acaba a comidinha e não tem mais peixe, o peixe se afasta e aí prejudica bastante.

 

P/1 – Seu Bidi, teve também alguma mudança aqui com relação ao meio ambiente, com relação ao rio houve alguma mudança?

 

R – A mudança no meio ambiente com  rio foi o veneno que fica quando chove muito, agora parou um pouco, mas quando chove, esse ano já deu, esse ano teve, teve uma água contaminada aqui com remédio que vem lá das plantações, desceu, matou os peixes todinhos. Isso mata tudo, acaba com a última geração que tiver, depois tem que  entrar tudo no mar de novo, para repor tu, para construir o rio de novo de peixe. Então essa parte aí foi muito ruim para a gente aqui e nós também não podemos pescar, porque o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] aqui atrapalha, o meio ambiente atrapalha.

 

P/1 – E vocês entravam no o rio para pescar?

 

R –A gente entrava, quando o mar estava bravo aqui nós íamos no rio pescar.

 

P/1 – E que tipo, tinha diferença dos peixes?

 

R – Aí tinha o bagre, o robalo e a carapeba, eram os três peixes que a gente pescava, aí a gente sobrevivia dele, eu tenho 30 anos que não pesco nesse rio, nunca mais boto os meus pés ali.

 

P/1 – Por que?

 

R – Por causa de problema do Ibama.

 

P/1 – Do Ibama?

 

R – É, o meio ambiente, porque eles fizeram tipo uma, não é reserva, uma proibição de que você não pode trabalhar com rede dentro do rio, só pode trabalhar de linha, esses peixes são difíceis de pegar de linha dentro do rio porque não tem muito, tem pouco e  aí para eu evitar problema com eles eu não vou lá, vou para o mar e o mar tem tudo o que eu quero.

 

P/1 – E tem alguma área que tem restrição do Ibama para vocês pescarem no mar?

 

R – Aqui no mar? Não, esse mar nosso aqui é tudo livre, é só na reserva extrativista do Arraial do Cabo para lá, ali eu pesquei muito naquela área, mas eu respeitava a reserva, eles trabalham com cinco milhas da costa para fora, da reserva e do Arraial até o segundo marco, que fica lá, depois... ai meu Deus, depois de Arraial, para o lado de lá, antes de chegar Saquarema, esqueci o nome do lugar lá. Então eu pescava naquela areia, mas respeitava, eu saía fora deles, eu já sabia o limite, porque eu sempre tive junto com o IBAMA, eu sempre tive junto com o Fábio Fabiano no Arraial do Cabo, aqui, então eles me davam a cartilhazinha, como estava, onde era proibido ou não, então eu já sabia tudo, eu não ia desrespeitar para  eu mesmo ser prejudicado, né.

 

P/2 – A exploração de areia que eles fazem ali prejudica de alguma forma a pesca?

 

R – Não, a lagoa com o rio não tem nada a ver, não, tem não. Aí eu pescava para o lado de Arraial do Cabo até o Rio de Janeiro direto, é Angra, ia pescando direto, então a reserva para mim não tinha problema.

 

P/1 – E como que é a relação do, essa relação de orientação do Ibama com os pescadores?

 

R – Olha, a orientação do Ibama com o pescador prejudica muito o pequeno, prejudica muito o pequeno.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque muita, os pequenos, o próprio pescador pequeno tem uma área que, vamos botar assim, nós temos daqui da beira da praia a 200 metros nós não podemos botar rede porque é o limite, 200 metros para fora não pode botar rede, eu fui pego aqui com 500 metros para fora, tem uma ilhazinha ali, dava mais ou menos uns 800 metros da beirada para fora, eu estava por fora da ilha, encostado a ilha por fora, eles me pegaram, aí eu briguei com eles, briguei pesado, mas ele me devolveu tudo que eu tinha, entendeu? Então eles prejudicam essa parte, aí, por exemplo, o arrastão da pareja, eles entram de noite aqui, arrastam na praia de noite, é por isso que prejudica o pequeno e os grandes não são  prejudicados, não é proibido, entendeu? Aí eu sabendo disso eu tô sempre fora, aí quando eles me pegaram ali tiraram a minha rede, eu estava em Cabo Frio registrando, agitando o documento do meu barco, eu deixei meu barco com outro rapaz trabalhando, eles foram, apanharam tudinho, levaram e prenderam, aí minha filha telefonou, eu estava em Cabo Frio, telefonou para mim lá, nervosa: “Pai, o Ibama pegou o seu barco com rede e tudo”, mas eu disse para ela:“Não tem problema, não, minha filha, eles vão botar tudo no lugar”, se eu ando dentro da lei eu não posso correr deles, eu tenho que andar no limite, fora do limite deles, entendeu? Eu não vou pegar, aí, quer dizer, nunca aconteceu nada comigo, só pegaram meu barco, trouxeram  para ali, para o iate ali, depois juntou e aí chegou a união dos pescadores, juntaram uns 30 pescadores e foram lá: “Para o barco”, falaram com os camaradas que estavam lá, as pessoas que estavam lá: “Para o barco”, com rede e tudo trouxeram para cá, não precisou nem eu ir lá, eu também não  não, se eles pegaram eles tinham que trazer de volta para cá.

 

P/1 – E teve outras situações que os pescadores se organizaram, se uniram assim?

 

R – Não, essa foi uma que eu me lembro, que foi comigo, né, se organizaram, todo mundo foi lá e aí de lá para cá não teve outra não.

 

P/1 – Seu Bidi, o senhor falou dos filhos, e casamento, o senhor já se casou?

 

R – Já.

 

P/1 – A sua esposa, ela também mexe com a pesca?

 

R – Não.

 

P/1 – Não?

 

R – Não, a minha esposa atualmente agora não pesca, não quer nem saber disso, é outra a área dela, ela não se mete em pesca.

 

P/1 – E o senhor também falou, o senhor tem netos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Eles também saem?

 

R – Não, não, são tudo pequeno, tudo estudando.

 

P/1 – Tudo estudando, e nem por lazer saem para pescar às vezes?

 

R – Nem por lazer, só tem unzinho maior que ele gosta de ficar dentro do rio pescando comigo aqui: “Ô, vô, vamos aqui pescar dentro do rio”, ele fica dentro do rio só, não sai para fora, não, com o anzolzinho ali não pega nada, só para molhar o anzol.

 

P/1 – Seu Bidi, teve alguma pergunta que eu não fiz, mas que o senhor acha importante falar?

 

R – Não, tá tudo, tá normal, não quero falar mais nada [risos].

 

P/1 – Tem alguma coisa na sua vida que o senhor mudaria, se o senhor pudesse mudar faria diferente?

 

R – Não, eu continuo a mesma coisa, não mudaria nada, tá tudo bom.

 

P/1 – Tá tudo bom?

 

R – Ta tudo bom.

 

P/1 – E o que é muito importante para o senhor hoje em dia?

 

R – O que é muito importante hoje em dia para mim?

 

P/1 – É.

 

R – Olha, só estar aqui nessa área tão gostosa aqui, isso é muito importante para mim, esse bairro quem mora aqui  são pescadores, no caso eu sendo pescador no meio dos pescadores aqui, esse serviço meu que eu faço, a embarcação, para mim é muito importante, eu não mudaria. Já estou já ficando velhinho, não mudaria nada, tá de bom tamanho.

 

P/1 – E quais são seus sonhos?

 

R – Nenhum, já tenho, já.

 

P/1 – Já estão realizados?

 

R – Já está realizado.

 

P/1 – Como foi contar um pouquinho da sua história?

 

R – Foi bom para relembrar os tempos passados.

 

P/1 – Então é isso, Seu Bidi, obrigada.

 

R – Tá bom?

 

P/1 – Tá ótimo.

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