Busca avançada



Criar

História

A parte emocional da Itaipu Binacional

História de: Sérgio Paulo Lobo Benevides
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/11/2005

Sinopse

Sérgio Benevides nasceu no Rio de Janeiro em 1953. Mudou-se para Foz do Iguaçu em 1985, onde começou seu trabalho na Itaipu Binacional no ano seguinte. Discorre sobre seu trabalho no Serviço Social, acompanhando de perto a vivência nas vilas da Itaipu até migrar para o trabalho na parte administrativa da empresa.

 

Tags

História completa

P – Então vamos começar nossa entrevista Sérgio? Vou pedir pra você falar de novo seu nome completo, o local e a data de nascimento. 
R - Meu nome é Sérgio Paulo Lobo Benevides. Sou nascido em Rio de Janeiro em 15 de março de 1953.
P – O nome dos seus pais, o que eles faziam?
R – Meu pai é Everaldo Braga Benevides. Ele é aposentado. Ele foi diretor administrativo da Fundação Hospitalar de Brasília. E minha mãe é do lar __________ e meu pai é nascido na Bahia.
P – E seu pai trabalhava com...
R - Ele foi aposentado como diretor administrativo da Fundação Hospitalar de Brasília.
P – E quando você chegou em Foz do Iguaçu?
R – Eu vim para Foz do Iguaçu... Eu comecei a trabalhar na Itaipu binacional em 86, março de 86. Mas eu cheguei em Foz do Iguaçu um ano antes. E comecei a trabalhar na TV ________ de Foz do Iguaçu. E na época inclusive quando abriu uma perspectiva de vir para Itaipu Binacional eu tinha feito um teste inclusive pra Rede Globo de Televisão como edição de imagem. E fui pra Bauru, fiz um teste, passei no teste lá e tinha feito um teste em Foz do Iguaçu, pra Itaipu Binacional e passei. E a diferença de salário era uma coisa assim exorbitante e eu optei não só em questão do salário, mas em questão dos benefícios. Por exemplo, moradia, saúde, educação. E optei por ficar na Itaipu Binacional em Foz do Iguaçu e não me arrependo disto, e até hoje estou aqui há 16 anos.
P – A primeira vez que você entrou na usina, qual foi a sua impressão? 
R – De uma coisa de outro mundo porque a gente não está acostumado com a grandeza da coisa. Quando você olha assim e fica sabendo que isto foi construído pela mão do homem e você vê o tamanho da usina, você se impressiona. Você escuta falar, mas não tem noção do que que é. Você chega ao vivo e a cores, vamos dizer assim... e quando eu cheguei aqui à parte de turbinas tava praticamente pronta, não em funcionamento. Alguma coisa ainda em construção, mas já estava praticamente as tubulações colocadas. Mas realmente impressiona. A quantidade de concreto, ferros, a quantidade inclusive de pessoas que existiam aqui dentro trabalhando. Então foi realmente a impressão. A principio você se assusta com o tamanho. E depois você vai se acostumando com tudo aquilo e você passa a ter um certo orgulho de fazer parte desse mundo, dessa coisa tão grande que é a Itaipu Binacional. 
P - E quando você começou a trabalhar aqui, quais eram suas principais atribuições? 
R - Na Itaipu Binacional vim trabalhar dentro do Serviço Social. E trabalhávamos com a comunidade, trabalhava exatamente com o ser humano. Com os filhos de funcionários e com os próprios funcionários depois que eles saiam do trabalho. Mas principalmente com os filhos dos funcionários. Nós tínhamos uma equipe. A Itaipu era dividida em três vilas. Vila C, vila A e vila B. E a minha parte, a parte da minha equipe cabia à vila C que era onde existiam as empreiteiras e os funcionários, vamos dizer assim, mais subalternos. Pedreiros, carpinteiros, ferreiros e assim por diante. Serventes e assim trabalhavam na vila C. E nós tínhamos o Centro Comunitário da vila C, éramos uma equipe formada por mais ou menos 10 ou 12 pessoas que tinha uma coordenadora, uma assistente social e os técnicos. Na época eu era técnico de apoio comunitário. E trabalhávamos exatamente com isto, com a parte educativa e recreativa das crianças.  E também com a parte humana, a parte emocional dos funcionários. Estas eram as nossas atividades principais. 
P – E esta demanda ela surgiu em função do que? De trabalhar com a parte emocional dos funcionários...
R – Você imagina que na Binacional trabalhávamos com 40 mil pessoas. Vinhas pessoas de todas as partes do país. São culturas diferentes, são educações diferentes e essas pessoas todas se aglomeravam dentro de um mesmo local. Você imagina os conflitos que existiam neste time. Então um dos trabalhos que nós tínhamos exatamente de administrar os conflitos, esta convivência das pessoas toda vez que houvesse a tentativa de uma harmonia maior. Tivemos muitos casos de alcoolismo, como em todo outro lugar. Itaipu não foi diferente de outros lugares. Só que como era, vamos dizer assim, o Vaticano dentro de Roma. Isto aqui era um mundo a parte de Foz do Iguaçu. Nós tínhamos um governo dentro da Itaipu Binacional. Nós tínhamos as prefeituras das vilas, nós chamávamos de prefeitura, nós tínhamos as administrações, tudo isto, então nós vínhamos trabalhando todo este conflito. A própria segurança, a guarda, o policiamento era feito com o pessoal da cidade ou da guarda da Itaipu binacional. Então tudo isto era, foi um mundo diferente. Inclusive para essas pessoas que vieram de fora. Principalmente pra eles que tinham assim um nível não tão elevado, tinha esta visão. Então nós trabalhamos com tudo isto. De administrar estes conflitos, de __________ harmonia. Que as pessoas se integrassem, que não se deslumbrasse, porque se trabalhava muito, se fazia muitas horas extras. E muita gente que nunca teve carro passou a ter carro. Condições precárias de moradia, passou a ter uma casa.  A Itaipu dava uma assistência de manutenção para estas casas. Então você imagina... muitos pagavam aluguel, água. Na vila não se pagava água e nem luz nem aluguel. Então o dinheiro fluía com mais facilidade. Então o próprio comércio da cidade. A cidade de Foz do Iguaçu cresceu. Tudo em função da Itaipu Binacional. O funcionário da Itaipu Binacional quando chegava no comercio para fazer qualquer tipo de compra, ele tinha um tratamento diferenciado. Porque o salário da Itaipu Binacional era um salário, em termos da cidade de Foz do Iguaçu, era uma coisa exorbitante. Chegaram aqui engenheiros, muitos engenheiros, técnicos, pessoas de nível salarial mais alto. Você imagina o que aconteceu nesta cidade. 
P – Cresceu, né?
R –Uma coisa assim da noite pro dia.
P – Sérgio, me fala uma coisa. Quais eram as atividades que vocês desenvolviam junto a comunidade? Eram festivais, projetos, quais eram os principais que você se recorda?
R – Nós tínhamos vários. Por exemplo, as crianças tinhas as oficinas. Oficina de serigrafia, oficina de madeira, oficina de artes, pras senhoras corte e costura. E aí dentro da equipe nós tínhamos a parte feminina também. Mulheres trabalhavam conosco. Corte e costura pras mulheres. Trabalhos de mães, o chamado clube de mães, tudo isto. Nos trabalhávamos também com as crianças. Curso de recreio. Fazíamos datas folclóricas, tipo festas juninas e assim por diante. Nós fazíamos estas datas, comemorávamos estas datas com atividades dentro da vila. Trabalhávamos com festival de música sertaneja. Descobrindo talentos. Numa comunidade de 40 mil pessoas você imagina a quantidade de talentos que não existem, né.
P – Teve alguma pessoa assim que você se recorda...
R – Nós tivemos aqui vários cantores que trabalharam aqui, que fizeram sucesso, vamos dizer assim. O Marco Aurélio que já trabalhou conosco aqui na operação, é um cantor de uma voz magnífica. Tivemos outros que já saíram, que já não se encontram mais conosco. Mas que se descobriu talentos assim terríveis, uma coisa assim fora de série. E que só não despertou talvez por uma falta de uma oportunidade melhor que a coisa era mais interna. Mas que... Por exemplo, show de talentos onde era a dança, nós tínhamos danças, música, composições. Este destaque que a gente pode dar. Nomes assim foram centenas. Muitas pessoas que passaram por nós dentro destes festivais. Nós temos a Maria Bethânia, que é a secretária hoje nos serviços gerais. Hoje ela não canta mais, mas foi uma grande cantora. Hoje ela vai escutar este depoimento provavelmente e ela vai saber que sou eu que estou falando e ela foi realmente uma grande cantora. Ela parou de cantar porque os filhos cresceram e tudo mais.
P – E ela se apresentava aqui?  
R – Se apresentava, cantava no show de talentos, nos festivais ela participava. Tinha uma voz realmente maravilhosa. 
P – Tinha algum incentivo para os filhos dos funcionários frequentarem escola, essas coisas?
R – Tinha exatamente isto, porque as escolas eram dentro das vilas. As escolas eram montadas dentro da própria vila. Então haviam convênios com a prefeitura municipal. A Itaipu montou a infraestrutura e a prefeitura entrava no caso com o pessoal, a parte de pessoal, professores e tudo mais. Mas toda a infraestrutura de manutenção era da Itaipu. Então havia o interesse também do município em trazer isto. Era muito mais fácil. As crianças simplesmente iam pra escola a pé. Era tudo pertinho de casa, dentro do próprio bairro. Escola de primeira linha, coisa que você não vê hoje na educação. Dentro de Foz do Iguaçu grande parte disto aí é em prol da Itaipu Binacional. 
P – E vocês trabalhavam com hortas também, comunitárias...
R - Hortas comunitárias a gente dava incentivo. Por exemplo, na Vila C os terrenos eram muito grandes. Então para evitar até de dar uma educação pra que as pessoas não tornassem o próprio quintal um lixão incentivava-se até pra ajuda-los no dia a dia da alimentação. Ensiná-los como se alimentar melhor. Nós fazíamos neste sentido. As melhores hortas eram premiadas com carrinhos de mão, com ancinhos, enxadas, foices e assim por diante. Incentivamos as pessoas para que mantivessem as hortas bem tratadas. A diversificação. A gente procurava, trazia técnicos. A Itaipu tinha técnicos agrônomos, então eles davam orientação, faziam reuniões. Como plantar, o que plantar, que época plantar, como colher, como podar. E tinham hortas dentro do Centro Comunitário com as crianças. Eu tenho um fato interessante para você ver a grandeza de Itaipu. Um dia nós queríamos montar um galinheiro. Recebíamos galinhas e tudo mais e queríamos montar um galinheiro. E nós tínhamos um negócio chamado, aos sábados nós tínhamos um tipo uma boatinha para crianças e era cobrado o ingresso. Pagava, se fosse o dinheiro de hoje seria R$1,00 para entrar e pagava o refrigerante quem quisesse beber o refrigerante. E este dinheiro que era arrecadado pagava-se o material e o dinheiro era investido na própria horta, na própria comunidade. E nós queríamos uma parte deste dinheiro para construirmos um galinheiro. Nós tínhamos a madeira e aproveitamos a própria criança para fazer um galinheiro. A Itaipu binacional. Nós vamos fazer um projeto disto. Aí mandaram lá pros engenheiros e voltou, a gente ainda brinca com isto até hoje. Então mandaram, mandaram um projeto pra gente que o ovo descia pelo elevador, ou seja, fizeram um projeto que realmente era inviável para a gente. Então veio realmente um projeto de uma granja realmente. Mas optamos de fazer com as crianças mesmo. 
P – Tem algum outro projeto que você tenha desenvolvido que ficasse marcante assim?
R – Nós fizemos, nós trouxemos aqui um encontro dos Alcoólicos Anônimos. Na época foi o primeiro encontro dos Alcoólicos Anônimos em Foz do Iguaçu. E na época, não cabe citar nomes aqui, mas teve pessoas famosas, que nos Alcoólicos Anônimos não se cita o nome. E eu junto com a assistente social naquela época que era a Celeste, eu coordenei este encontro aqui. E nós tínhamos o pessoal para o encontro, ________ da própria Itaipu binacional. Nos tivemos aqui. A Igreja nos ajudou dando uma hospedagem para estas pessoas, e nós tivemos uma base de umas 300 pessoas que passaram por dentro deste... Foram três dias deste encontro onde se debateu, se discutiu o alcoolismo. Que hoje se fala alcoólatra, ne. E eu aprendi que alcoólatra é uma palavra que não é certa. O certo é alcoolista. Porque o alcoólatra é o que idolatra e quem idolatra não toca e o alcoolista bebe, entendeu? Aí foi que realmente a gente aprendeu que o alcoolismo é realmente uma doença e não uma sem-vergonhice, e que isto influi inclusive na própria família. Então foi superinteressante isto, então foi uma fase que a Itaipu nos proporcionou que nós trouxemos muita coisa para a comunidade. Então eu tenho saudades desta época. Não que a Itaipu fosse paternalista. Não. Ela encaminhou. Nos trabalhamos inclusive a questão da aposentadoria. O cara quando estava para se aposentar. Isto é muito difícil, estas duas fases. Você está na atividade e de repente você passa a ser inativo. Então inconscientemente você passa a se considerar um inútil. E naquela época nós fazíamos trabalhos em cima disto. De preparação do funcionário da ativa para a inatividade. E acho que isto é interessante, é importante até porque a idade média de Itaipu, hoje em dia, dos funcionários, aproxima-se dos 40, 45 anos de idade. Ou seja, todo mundo próximo de uma aposentadoria. E se você procurar saber ninguém tem uma idéia do que realmente vai fazer depois. 
P – E você trabalha com Recursos Humanos até quando? Você continua trabalhando?
R – Não, hoje eu trabalho dentro da assistência de gabinete na diretoria administrativa, na parte de contratos de residências e parte comercial. Que a Itaipu ainda tem alguns imóveis tanto cedidos para funcionários e para não funcionários como imóveis comerciais que na época eram colocados dentro das Vilas pra poder que as pessoas comprassem. Por exemplo, padarias. Então ainda temos estes contratos que hoje a Itaipu está em fase de venda. Estamos entrando nesta fase agora. Então trabalhei neste setor. E teve uma fase que eu fui diretor de sindicato. Durante seis anos eu fui diretor de sindicato. Então eu tive esta fase que eu trabalhei no Serviço Social, fiquei seis anos como diretor de sindicato e quatro deles afastado quando liberado e retornei para a Itaipu binacional. Sempre fui da Itaipu, mas voltei aos quadros da Itaipu binacional e trabalho hoje dentro da parte de infraestrutura, da parte administrativa. 
P – Ta. Infelizmente nosso tempo ta acabando. Sergio o que você acha deste trabalho que a gente está fazendo de resgatar a memória do trabalhador de Itaipu? O que você achou de ter passado um pouco desta experiência sua pra gente?
R – Olha, eu achei a idéia dez. Porque a memória, isto tudo que nós passamos. Que o barrageiro ele é uma pessoa nômade. Ele tava um pouquinho aqui, um pouquinho ali. E a Itaipu, ela quebrou isto. As pessoas vieram pra cá e... Porque o barrageiro é aquele cara que fica três anos num lugar e acaba e vai pra outro. Itaipu as pessoas que vieram pra ca vieram pensando em ficar três, quatro anos. Como eu pensei em vir e ficar três, quatro anos e estou aqui a 17. 16 anos. Vou fazer 17 anos em Foz do Iguaçu e 16 na Itaipu binacional. Estão este resgate, esta coisa que não se encontra nos documentos oficiais. Esta história que é contada e que faz parte da construção. Ela não ta presa no tijolo, na tinta, na moldura, mas ta presa na memória. E nós quando formos nos aposentando, fomos nos afastando esta memória seria perdida e ficaria esquecida. E você só se lembraria se um dia se encontrasse e falasse: “Pô, se lembra de tal coisa assim” Eu acho que isto é legal porque as próximas gerações que vão vir à Itaipu binacional vão saber que existiram pessoas que ajudaram a construir não só a parte estrutural, mas a parte moral, a parte emocional da Itaipu binacional. Eu acho que é dez. A sua equipe está de parabéns. Todas as pessoas que projetaram isto daí. E vocês que tão coordenando este trabalho. 
P – Obrigada pela entrevista.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+