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História

A parceria entre Cesupa e o projeto do CDI no Pará

História de: Sérgio Fiuza de Mello Mendes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2020

Sinopse

Nesta entrevista, Sérgio conta como é trabalhar na parceria entre o Centro Universitário do Pará e o CDI no mesmo estado. Conta sobre os desafios e aprendizados nas construções de EICs em um estado tão grande, e a importância na tecnologia em regiões afastadas.

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História completa

P/1- _______________________________ 

 

R- Uma chapa pra concorrer à diretoria da Sucesu [Sociedade de Usuários de Informática e Telecomunicações da Seção] do Pará . Tradicionalmente na Sucesu, embora sejam todos lá, praticamente, de tecnologia da informação e comunicação, sempre havia um espaço para interação com o meio acadêmico, com o meio universitário. E pela nossa ligação, o Alcir me chamou pra que eu pudesse participar dessa diretoria, que foram na verdade dois mandatos, então 4 anos lá na Sucesu. Dei a minha contribuição, aí nos reaproximamos, aí àquela altura aparece, também, novamente, o Celso, aparece o Paulo Del Teto, e aparece o Tavares da que está na Telemar. Eles todos ligados à área de telecomunicação e informática, e eu, o curioso disso tudo e atuando na área acadêmica. E se percebia ali que era pouco cuidar, tratar de política de informática da comunicação naquela região, né? E já se discutia ali, eu não saberia agora, mas o Alcir certamente vai precisar pra vocês o período exato desse dois mandatos dele à frente da Sucesu Pará. Já não sei se 1996, por aí. Entre 1994 e 1996. Mas, se percebia o seguinte, que era pouco tratar de uma política voltada exclusivamente para o setor, uma coisa ensimesmada, não é? E pela nossa formação, também, lá de raiz. E eu incluiria nessa formação de raiz, o convívio familiar, depois as nossas relações pra, assim, na juventude, quer dizer, era incomum, como é incomum hoje, você ver grupo de jovens lá na época de Carnaval, e estava todo mundo motivado pra pegar um ônibus e ir pro interior do Pará e fazer, notadamente, naquela região, um trabalho de evangelização, mas, mas eu diria, mais do que isso. Um trabalho de você descobrir e conhecer, né, as pessoas que convivem no seu estado, uma outra realidade, diferente da nossa. Aí apenas o princípio da alteridade, tá? Jamais diria uma realidade melhor ou pior que a nossa. Apenas diferente. Quer dizer outros referentes, outros referidos. E aquilo foi importante para a nossa formação. São coisas que você só consegue perceber se vivê-las, quer dizer, os livros ajudam quando você lê, os filmes quando você assiste, as histórias que você ouve, mas nada é melhor do que você viver essas experiências. Então, voltando pra esse momento lá da Sucesu, a gente percebia que se queria discutir informática, telecomunicações, mas pra além de uma coisa tecnicista. Esse componente humanista já era presente nas nossas reuniões da Sucesu. Quer dizer, o que que nós podemos fazer, né, pra que esse meio, informática, ele possa falar às pessoas de uma outra maneira, de uma forma mais humanizada e humanizadora. Então aquilo já se discutia ali. E foi muito interessante porque logo depois que terminou o segundo mandato do Alcir, acho que não sei, qual foi o intervalo de tempo exatamente, mas surgiu a possibilidade da implantação de uma regional do CDI Pará. Eu não saberia relatar o momento exato do contato do Alcir com o Rodrigo Baggio, mas enfim, fato é que diante desse cenário, dessa possibilidade, o que fez o Alcir? Ele quis aglutinar de novo, manter aquele grupo que estava na Sucesu e pessoas que ele conhecia e nossa história de vida, sabendo que poderíamos trazer alguma contribuição pra esse projeto extraordinário, que é o CDI [Comitê para Democratização da Informática].

 

P/1- E qual foi a sua contribuição nesse conjunto? Que que se esperava? Qual foi a sua atuação?

 

R- Veja, a minha contribuição pessoal, eu diria a você, foi no sentido de ajudar no traçado desse cenário, quer dizer, local, né? Pela minha experiência e vivência na área acadêmica, dizer um pouco disso, de identificar pessoas, e aí foi quando eu comecei a trazer o Cesupa [Centro Universitário do Pará] junto comigo. De repente o Cesupa se viu na parceria. Porque, olha, o Sérgio está lá, então o Cesupa está também. E identificar pessoas no Cesupa com esse perfil. Até porque isso é também, eu diria, se aproxima da própria vocação nossa, institucional. Acho que aí reside, melhor, a minha contribuição pessoal, que na verdade, ela é de foro institucional. Porque também no Cesupa, tá, nós não somos uma instituição que oferece cursos de graduação e de pós-graduação por oferecer. Quer dizer, os cursos têm um sentido claro. Essa coisa de trazer uma contribuição pro desenvolvimento do estado, pro desenvolvimento das pessoas que vivem neste estado, olhar estrategicamente alguns temas, tá? Isso pra nós faz parte, vamos dizer assim, do cotidiano. Eu vou dar um exemplo que não é da minha área e nem tem nada a ver com a área própria do CDI. Quando implantamos o curso de Direito, tá? Ele veio com uma missão muito clara. Não de reproduzir uma situação já posta na formação jurídica, mas de, de alguma forma, você poder fazer uma nova escola a partir de novos direitos, de novos métodos. Uma região como a nossa, que é uma região de fronteiras, não é? Com demandas sociais novas, fundiárias, ambientais, agrárias. Então, aí faz sentido ter um curso novo de Direito. O Cesupa é um pouco assim, né? O tema da propriedade intelectual pra nós é importante, se envolver comunidades tradicionais, não é? Porque nós vivemos numa região com essa riquíssima biodiversidade, e se nós chegamos até aqui com essa biodiversidade é porque alguém cuidou bem disso ao longo de 500 anos. Então, trabalho com comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas, são temas que interessam pro Cesupa. Organizamos em torno disso um núcleo de propriedade intelectual. Pra dizer só, a vocês, um pouco, porque eu não posso centrar em mim essa contribuição. Quer dizer, a minha contribuição vem da minha visão de mundo, entendeu? De que tudo o que se fizer a partir da premissa de que é possível transformar pela ação, pelo trabalho, deve ser feito. Então é como vejo o mundo. É possível transformar, sim, uma situação num país de periferia que é o Brasil. Numa região, como a Amazônia, que é a periferia da periferia, portanto, posto que o Brasil é periferia em relação aos países centrais. Então, a gente tem que fazer a comparação de que olha, então que é a Amazônia? A Amazônia só pode ser periferia da periferia. E é o que somos. E precisamos nós, Amazônia, desenvolver um trabalho que torne possível a transformação desse cenário. No estado do Pará, pra eu não divagar muito, e voltar pro nosso tema, nós não podemos aceitar a possibilidade de sermos, ou de cumprirmos o destino que está traçado para as províncias liberais, de ficar com as mazelas, as doenças, a pobreza. 

 

P/2- Extrativo, né, só.

 

R- Extrativismo. O Pará contribui, se o Brasil hoje deve estar festejando hoje, outubro de 2004, o resultado deste ano até aqui, de 22, 23 bilhões de superávit da balança comercial. 10% disso vem, portanto em torno de 2 bilhões desse superávit vem, do estado do Pará. Mas vem do que? Da extração, do minério notadamente, tá? Não verticalizamos nossas riquezas naturais. Elas, aí, ficam à mercê de uma exploração extrativista, enfim. Então, eu acho que é dessa visão de mundo, foi isso que nos aproximou desde lá, ainda que no nosso inconsciente. Porque não tínhamos essa consciência com 16, 17 anos. Foi essa minha contribuição entrando na Sucesu. E acho que foi aí, também, a minha contribuição no início do CDI,  na formação e na afirmação de valores, né? Esquentando a origem desse projeto, não é? Mas que precisa, em cada local que ele se instale, ele precisa ter esses valores afirmados, formados de forma adequada, pra que um projeto tenha continuidade. Então acho que a minha contribuição pessoal maior é nesse sentido, não é? É em torno da afirmação desses valores sobre os quais o projeto está assentado. E além disso, como disse, trazer o Cesupa pra aderir e ser parceiro desse projeto, identificar algumas pessoas que já estavam lá antes. Pessoas que, como o Bruno, estava fazendo mestrado, numa parceria do Cesupa com a Federal de Santa Catarina. Mestrado em Informática Educativa. O Bruno desenvolveria a dissertação de mestrado dele nessa linha, de Informática e Sociedade. O Bruno largou o mestrado, não é? Mas conversando com ele, ele disse: “Sérgio.” E aí, disse: “Pô, você está largando o mestrado, mas em favor de uma causa que é um pós-doutorado, tá?”, eu dizia pra ele. Então, “Se você está largando o mestrado pra mergulhar, um dia, se for o caso e se você até tiver vontade, você vai e conclui, mas não é isso.” Foi uma pessoa que eu tive, vamos dizer assim, a oportunidade. Eu não vou dizer nem a satisfação, nem a honra, eu tive a oportunidade de dizer: “Alcir, tem um cara com esse perfil, é o Bruno.” E está aí, ele hoje, vocês já conheceram, conversaram com ele. Sabrina, que acho que está no Rio, esteve aqui, acho que, até mês passado, não é? Outra colaboradora aqui. E tantos outros mais do Cesupa que vêm contribuindo com o CDI. E na verdade o Cesupa acabou abrindo as suas portas pra abrigar o CDI. Quer dizer, há uma relação aí total de integração adequada, enfim.

 

P/2- Quando o Alcir traz a idéia do CDI, o que que a proposta do CDI casou com as preocupações que esse grupo, que você explicou, já tinha no Cesupa? Tinha um grupo preocupado com a questão de não tratar a informática numa visão tecnicista, né? O que é que a proposta dele casa com a preocupação de vocês nesse tempo? 

 

R- Veja, essa proposta casou na época com esse grupo que estava na Sucesu  e casou com o projeto institucional do Cesupa. Que ponto é esse de convergência? Aí eu vou me servir, tá, das idéias da pós-modernidade do Boaventura Santos, quando ele trata do know how ético e do know how edificante. Quer dizer, tanto conhecimento acumulado pra que? A modernidade produziu o que? O que foi que todo esse avanço dos últimos 200 anos, vamos colocar assim, porque essa é uma referência que os teóricos gostam de adotar, não se produziu, tá? Se você pega toda a linha do tempo, toda a linha da história da humanidade anterior aos últimos 200 anos, e até pegar um pouco menos, não se produziu tanta tecnologia, não se produziu tantas possibilidades novas de desenvolvimento como nesse período mais recente. Mas o homem não superou questões mínimas, elementares. Ainda se morre de fome no mundo, doenças ainda há, epidemias, o homem ainda mata o homem, pelo óleo, pra enfim, amanhã poderá ser...

 

P/2- Pela água.

 

R- Pela água, que é o tema deste século. Daí a Amazônia estaria na mira de tiro.

 

P/2- Mira de tiro.

 

R- Não é verdade? Essa massa d’água que nos envolve. Ou como, “Ó, vocês não estão cuidando bem disso aí, tem que cuidar disso aí pra vocês, da água, da biodiversidade, enfim.” Então, essas questões, tá, e claro eu não estou aqui, seria, vamos dizer assim, uma espécie inaceitável de obscurantismo, tá, negar. Não se trata disso, pelo amor de Deus. Todo esse avanço, todos os benefícios que esse desenvolvimento como um todo nos trouxe. Mas, em favor do que e de quem? Quer dizer, vai se aplicar tanto conhecimento, então, em que contexto? Ou nós vamos desprezar os contextos e tratar apenas dos textos, não é? Quer dizer, eu acho que sempre tem uma relação de texto e contexto. Digo, se vai ser inaugurada uma nova hidrelétrica na Amazônia, precisa ter uma discussão, sim, com o entorno comunitário, em relação ao impacto ambiental. O que isso vai trazer de progresso precisa ser dito. Mas precisa ser dito, também, o que isso vai trazer de prejuízo. E como esse prejuízo vai ser compensado. E você pode trazer o progresso, compensar dignamente os prejuízos. O que você não pode é descartar o homem pelo progresso que o próprio homem está promovendo, tá? E aí, a aplicação do conhecimento precisa, eu não diria, inspirado por Boaventura, não precisa ganhar supremacia, tá? Mas a questão da aplicação do conhecimento, que ele entra. Informática, tecnologia de informação e comunicação como um todo, né? Precisa você equilibrar esse jogo entre a face técnica e a face educativa dos projetos, não é? A face mais dura, no sentido de uma ciência que é, e a questão humanista. Porque não equilibrar essas relações? Porque você tornar imprescindível aquilo que vem da questão mais humana, mais ética, mais edificante, que muitas vezes é deixada de lado em nome de uma força avassaladora da técnica. Eu acho que foi esse o ponto que nos aproximou, não é? Aí o grupo lá da Sucesu, estão fazendo até hoje o a proposta do CDI. 

 

P/1- No início do CDI, esse grupo que se formou na Sucesu, vocês, qual era o cotidiano e as práticas de encontro, como vocês se reuniam, como que você pode descrever essa parte mais cotidiana, mesmo?

 

R- Ah, com certeza, com certeza.

 

P/1- Tinha uma periodicidade?

 

R- Tinha, no princípio, tinha. Eu, Sérgio não era, no princípio era, mas depois não era dos mais assíduos. Mas no princípio sempre estava. O Alcir ligava, o Celso ligava: “Olha, vamos reunir...” E fazíamos isso às vezes semanalmente, quando era necessário, no Cesupa. Logo, porque não tínhamos mais o espaço da Sucesu, porque tinha terminado o mandato do Alcir. Então, a as primeiras reuniões, tá, e até hoje, eu tenho, aí mesmo, a alegria de dizer que o Cesupa se tornou meio que sede do CDI. Mas fez questão de que o CDI tivesse um espaço próprio. Não é o espaço mais aconchegante, nem o mais fácil pra chegar. Tem que subir aquela escada caracol, é meio complicado. Mas é um espaço do CDI. Então reuníamos e nos cotizávamos pro lanche.“Olha o Alcir vai precisar ir pro Rio.” Nos cotizávamos, o Alcir ia pro Rio. Então, essa coisa bem bastidor, mesmo. Eu acho que, faço uma referência nessa direção, à Simone, com quem você viu eu falar no telefone. Ficava meio de secretária da gente. Aí já era um outro momento, você virava: “Simone, avisa o pessoal todo.” Ela já avisava, dizia a hora e tal. E nós íamos, conversávamos muito. E ao final, sempre um fazia a síntese que definia o próximo passo. E assim as coisas foram caminhando. Num ambiente da mais absoluta informalidade. Mas dentro dessa informalidade, tinha um mergulho. Eu vou falar, agora, uma coisa que só posso falar por mim. Os momentos em que, foram muitos, com muita satisfação pra mim, que eu este ano de 2004, de uns três meses pra cá, três, quatro meses, voltei a participar com mais intensidade, com freqüência, das reuniões, pra mim, era como se eu deixasse tudo pra trás e entrava ali, os problemas da família do Cesupa, enfim, estavam todos... Isso muito pela convivência das pessoas, tá? Porque eu me reportava, não é uma questão saudosista, mas é mais uma questão de estado de espírito, isso me fazia remontar a reuniões da Caju, ou a encontros da Sucesu, quer dizer, o sentimento era esse. A atmosfera passa a ser outra, parece que o ar que lá fora pode estar mais pesado, mais denso, uma carga de problemas, preocupações etc, é como se você desse um passo, entrasse numa sala. Parece que ali, entendeu, ficava mais tranqüilo. Um pouco assim.

 

P/1- E quais eram os principais desafios que apareciam nesse começo nas reuniões, que que tinha como meta?

 

R- O principal desafio era o seguinte é que a gente estava começando um trabalho...

 

[interrupção]. 

 

P/1- Havia perguntado sobre os desafios do início.

 

R- Bom, o grande desafio era àquela altura instalar a primeira EIC [Escola de Informática e Cidadania]. Sabíamos que tínhamos que cumprir e que dependeria de nós, de uma ação direta de cada um de nós. Mas, esse não era na verdade o desafio. A questão era que instalada a primeira EIC, viriam as demandas que não parariam de crescer, como não pararam de crescer até hoje. Então, a mobilização nossa foi, bom, imediata e veio o bonde, que se retorna à questão: você vai buscar a história de vida de cada um. Bom, tem lá o Raul, está lá na Providência, ele tem um espaço e está querendo. Aí instalamos lá. Aí já se encontra lá, na comunidade, lá na Providência, o Ádamo, que vocês tiveram a oportunidade de conhecer e conversar. Junta computador e doações nossas, Celso, Cesupa, através de mim. E quem vai cuidar da manutenção? E aí, e esse fala: “Mas vai precisar de mesa.” O que uma EIC demanda para cinco computadores, né, pra atender 10 alunos. O formato típico da EIC. Aí tem problema de energia, como vai ser, vê alguém pra ir lá. E a gente, ia assim juntando esforços. O Zuza olha: “Eu entro com isso, eu posso colaborar com isso, liga pra fulano aqui pra ver se ele colabora assim, dessa forma.”o outro, tal, assim foi. E isso começou a crescer num ritmo significativo. Aí de repente já, acho que foi a primeira fora de Belém, tá, se não foi a primeira vocês me perdoem, tem como corrigir. Aí já estávamos em Santa Isabel do Pará, perto de quase 60 quilômetros daqui, mais ou menos isso. E aquele cuidado, né, que a gente sempre tinha, olha, pra que o projeto não tomasse outra face. Então, esse cuidado em eleger o parceiro, também. Essa era uma discussão nossa importante. Olha tem questões políticas, tem questões mesmo partidárias, né, a gente tem que garantir essa imunidade, e sempre fomos intolerantes com isso. E como sempre fomos intolerantes com alguém que pudesse pensar em se aproximar desse projeto, se juntar ao trabalho, tá, já pensando em autopromoção, fosse sob o ponto de vista pessoal ou da sua organização, da sua empresa. Eram cuidados que a gente tinha. Quer dizer, e aí, tá, embora eu não queira fazer nenhuma associação deste projeto com questões religiosas, longe de mim querer propor isso, mas o CDI, ele tem sim, essa é uma opinião minha, assumo isso, ele tem ares de evangelização. Ele assumido integralmente. E aí, não tem também, não é desta ou daquela igreja, ele é, vamos dizer assim, ele é ecumênico. Mas, da forma como é conduzido, respeitadas as linhas iniciais, fundantes desse projeto, ele por ser um projeto de inclusão social, de inclusão digital, mas mais do que isso, tá? Um projeto que ajuda as pessoas a pensar de uma outra forma, a ler o mundo de uma outra forma, tá? Eu acho que esse é o grande ganho. É esse cidadão poder mudar de vida, quer dizer, ele tinha um cenário, ou não tinha cenário algum, e a partir do CDI, da EIC etc., vai se descortinando ainda que em fragmentos de tela, mas vai se alarmando uma possibilidade de cenário. Então, eu acho que essa também era, só pra referir a preocupações nossas, eram princípios inarredáveis, né? E que a gente tinha que ter um compromisso de sempre reafirmá-los.  

 

P/1- Tinha algum tipo de divisão de tarefas dentre os componentes do grupo? Como que era isso?

 

R- Tinha. Agora eu que dizer a vocês o seguinte, eu acabava ficando, não é que eu ficasse sem tarefa, mas eu sempre digo, digo brincando, que da minha vida, eu, e talvez seja por isso que eu tenha tanto apreço por esse projeto, porque eu volto, a oportunidade que eu tenho de recuperar a minha identidade pessoal. Porque quando você mergulha, como eu estou mergulhado há quase 20 anos num projeto institucional, você acaba esquecendo muito de você e assumindo o projeto como um todo, né? Então, as minhas tarefas que eu tinha, ou seja, eram tarefas assim, vou chegar lá, por exemplo, o Alcir, tá? O estrategista, aí, ia pras reuniões no Rio, nos encontros onde fosse, a visão do todo, sempre ele que teve, a visão do todo, a gente não chegou ainda. O Celso, pela estrutura também que ele dispõe. Captação, máquinas e manutenção e quem pode estar, ceder equipamentos etc, formar grupo de manutenção. Manda lá pra Sol Informática que a gente dá um jeito etc., né? Paulinho, uma pessoa super bem relacionada, um cara, vamos dizer assim, da área comercial, nato, transita sem dificuldade, né? O Gomes com a experiência dele, focava mais o bastidor, tá? E era sempre, às vezes, a palavra de “Olha, mas isso, assim nessa direção, a gente tem que ver, pode dar certo ou não.” Estabelecia sempre um contraponto. E vamos dizer assim, eu trazia muito da força-tarefa do Cesupa. Aí achamos o Bruno, achamos a Sabrina, achamos estagiários que iam promover os cursos. Rodar material. Olha, lá, a gente tinha lá a Dobotec, uma máquina lá. Então, roda lá, fazia as apostilas. Então eu ficava muito com tarefas, né, além da minha contribuição pro grupo, né? No que me era possível, mas nessa operacionalização de colocar a serviço do CDI a estrutura institucional. 

 

P/2- Quer dizer, na profissionalização da, que aí veio o emprego da profissionalização do CDI, né? Aí muda, vocês tiveram papel, também, nisso, quer dizer, contribuíram pra isso?

 

R- Muda, começa a você, observe o seguinte, tá? O CDI Pará, ele antes de estar nesse espaço que vocês conheceram, ele tinha um outro espaço no Cesupa que era ainda mais improvisado do que este. Mas o que a gente começou a perceber e a necessidade que se apresentou, foi a seguinte: as demandas por EICs em Belém e fora de Belém e o orçamento. Precisaria se criar um orçamento pro CDI, tá? E aí o papel de instituições como Vale do Rio Doce, Alunorte, e outras que se tornaram parceiras, e tem a Phillips como parceira também, né, tem grandes parceiros aí do CDI local. Mas que junto com a parceria, também se criou muito dessa colaboração, dessa cooperação, ela já vinha com um foco direcionado, né, para novas EIC em torno da região lá que a Vale atua ou, quer dizer. Então isso resolve muitas coisas, mas não resolve tudo. Quer dizer, o CDI passou a ter, pela visibilidade que passou a assumir, nos momentos lá em que se fazia, lá, o Dia da Inclusão Digital, para captar computador e etc, essas coisas. À medida que a sociedade vai tomando conhecimento, isso fica mais visível, o que acontece? Aumenta a fila. Você precisa ter um orçamento pra atender, precisa ter pessoas. Aí, foi esse momento que começou uma organização mais profissional de ter, bom, quem é responsável por projeto, pela parte de manutenção, pela parte administrativa, contábil, a parte pedagógica. Aí, você vê essa meninada, aí, viajando esse estado inteiro. E olha, viajar esse estado não é fácil, tá? O Pará tem, mas você tem município distante de Belém... 1800 quilômetros. Eu lembro bem de Jacareacanga, porque são 1500 quilômetros de Belém a Jacaré. Mas tem um que é mais distante. Então, nós estamos falando de Belém-Brasília, quase, que são 2 mil quilômetros. Quer dizer, o estado do Pará, como a região Amazônica, né, você tem em termos de dimensão geográfica, aí, tá, vários países, olhando aí, fazendo um paralelo com alguns países europeus, enfim, tá? As distâncias geográficas são pra serem vencidas. E essa moçada está viajando o estado pra ir dar suporte técnico, pedagógico. Então o CDI começou a se organizar, e as coisas começaram a ficar, sob esse aspecto, mais difíceis, pelo que está por vir. Quer dizer, o CDI precisa antecipar as situações. Antecipar, olha, contratos, convênios, a expressão melhor é essa, convênios que vão expirar, que poderão ou não se renovar. Aí você tem verbas de convênio, como se chama verba carimbada, pra ser aplicada em determinada rubrica, em torno de determinada EIC, aí você tem que tentar um aditivo pra renegociar uma realocação pro ano que vem desses recursos, tá? Substituição de pessoal, o CDI Pará acaba de ter duas baixas, vamos dizer assim Ronald e Sabrina. Os dois foram pra matriz. Então, substituir essas pessoas não é fácil. Porque não é uma substituição técnica, é uma substituição que vem acrescida de um ato de fé, né? Eu digo: “Bruno, o que você faz, essa sua peregrinação aí, isto é um ato de fé.” É de quem acredita. Sabe, é aquela coisa de quem “olha, tudo bem, pode ser que o mundo não mude, que continue o mesmo, mas, eu vou fazer, mesmo, a minha parte.” Então tira isso dos livros e passa a viver isso. Então é um momento, eu diria, eu não vou usar, não vou dizer um momento difícil, mas um momento de muita atenção que nós temos que viver agora, no CDI Pará, pelo que está por vir. Que as demandas vão continuar crescendo e nós temos que ter condição de captação de recursos que possam sustentar o que já está e abrir o espaço para novas EICs, independentemente de novos convênios. Porque esses são muito bons, dão visibilidade, não é? Mas eles vêm muito direcionados pro entorno dessas empresas, que é o espaço em que elas já atuam. 

 

P/2- Vocês, mesmo com a equipe profissionalizada, vocês hoje fazem parte do Conselho do CDI... 

 

R- Existe, é existe esse conselho que ...

 

P/2- E vocês, pelo visto, continuam ajudando a pensar estrategicamente o CDI.

 

R- Sim.

 

P/2- Esse que seria um pouco o papel do Conselho?

 

R- Permanece, é. Eu diria a você o seguinte, a contribuição maior que cada um de nós pode dar, mas que continua sendo essa. Embora ela precise cada vez mais vir associada a uma contribuição de fato. Quer dizer, nós temos que continuar arregaçando a manga, ou as mangas. E bom, vamos continuar atrás de doação de equipamento, vamos continuar atrás... Então, esse trabalho aí, operativo, não pode ser perdido de vista. Mas, notadamente, mapear de uma outra forma, ver o que nesses anos deu certo, que a gente pode fazer melhor, atrair mais pessoas. Acho que essa é uma questão central pra hoje. Nós precisamos ter outras pessoas contribuindo materialmente. Convênios novos, né? Mas também outras pessoas que se envolvam com a causa, né? E pela ligação que cada um tem, a participação que cada um tem no seu segmento, no segmento em que atua, atrair novos parceiros, pessoa física, pessoa jurídica para o CDI. A gente tem que pensar nas dificuldades que vão acontecer em 2007, pra falar em curtíssimo prazo, tá? Que se a gente não mudar a gente vai, ou se a gente fosse assim, chegar em 2007 sem a condição de captar mais recursos, né, a gente vai ter duas dificuldades. Dificuldades de dupla natureza. Um, de manter o que se fez nesse período e de conseguir expandir essa rede de cooperação para a instalação de novas EICs. Então, é muito bem esse o papel mais mesmo de pensar estrategicamente o comitê, de pensar, e isso significa, também, ser muito seletivo para os novos parceiros. Em que locais, em que parceiros vamos instalar novas EICs, para que elas também comecem a ter irradiação desse trabalho, de torná-lo visível, tá? E de agregar esse valor, que é o maior de todos, né, de mudar a vida de pessoas, né? No final o CDI quer que você tenha pessoas mais felizes, né? Com um cenário, tá, de possibilidades aí pra frente.

 

P/2- E quando foi criado esse Conselho, assim só, formalmente, né?

 

R- Foi logo na fundação, aqui, 5 anos, eu acho que no Pará. Eu não sou muito bom de datas. Eu saberia lhe dizer algumas, de memória, algumas datas de criação, de reconhecimento de cursos, renovação dos cursos do CDI, mas são aí 5, 6 anos no máximo, tá? Eu creio que 5 anos. E nós já nascemos com esse formato, de um Conselho Diretor, não é? E isso foi a base então para a implantação das primeiras EICs e o ponto em que chegamos até aqui. Quer dizer, o CDI tem então essa parte do Conselho e tem a parte executiva, né? A turma que no dia-a-dia faz a instituição, faz o comitê, que vocês já tiveram o contato direto. 

 

P/2- Em termos de resultados, assim, o que que você destacaria, mesmo, como resultado nesses anos todos?

 

R- Bom, aí duas coisas, eu vou primeiro deixar que os números possam ser dados com precisão a vocês, porque eu vou dar a vocês o trabalho de terem que corrigir números que eu dei. Mas, já são mais de 40 EICs, certamente. 

 

P/2- 38.

 

R- 38? Então, ok. Tem duas na fila já, em torno disso. Então, esse é um resultado específico, e ele também se interiorizou, né? Não ficou uma coisa de Belém. Até porque, se assim fosse, nós estaríamos reproduzindo o que não queremos que seja reproduzido, né? Então, acho que isso é ponto central, o CDI ter avançado pro interior do estado. De outro lado, eu acrescentaria o seguinte, eu tive a oportunidade de participar de umas três cerimônias de diplomação de turmas formantes do CDI. E, por melhor que seja, e é, é muito bom o resultado quantitativo de quantos alunos formados em EICs e quantas turmas. Acaba se tendo um giro aí, né? Termina uma turma lá daquele módulo, já começa outra. Por melhor que seja esse resultado, ele não será comparável, embora seja dele, desse resultado quantitativo, que você tem uma avaliação qualitativa importante, tá? Uma dupla direção pelo menos. Primeiro em relação ao benefício que traz para o indivíduo, não é? Eu ouvi depoimentos, nessas cerimônias de diplomação, que começam assim: “Bom, o CDI, ter participado disso tudo, mudou a minha vida, eu estava na rua, eu estava na droga, eu assaltava, eu chegava bêbado em casa, batia na mulher.” etc, tá? “eu desempregado, eu não tinha perspectiva nenhuma.” E coisas assim: o CDI mudou a minha vida. Sei que isso às vezes, dito assim, sem muita cautela, pode parecer, e eu tenho arrepios e uma aversão quando há relatos que vão pra televisão brasileira, diz lá, não, esta é a sua vida, tal, e fica lá. Mas, quando você se depara ali, pé no chão, com o cara dizendo: “Olha, meu, eu era isso mesmo, e aí eu voltei a ter a minha barraca na feira, voltei a criar minha responsabilidade.” “E aí o meu negócio”, outro, “meu negócio melhorou, porque agora eu posso estar, pensar, eu já sei o que é um estoque, eu sei como eu vou ali na minha vendinha, eu sei como eu vou comprar, como eu vou vender.” Aí, ou seja, já outro expressou: “olha, eu estou pensando em informatizar.” Quer dizer, quando você tem alguém ribeirinho, porque o cenário do menino ribeirinho, é ele sentar na beira do rio, ficar contando os barquinhos que passam pra cá e os que voltam pra lá. Esse é o cenário: é o rio e a floresta. Então, quando você começa a ter o ribeirinho vendo no computador possibilidades, isso abre uma janela, tá? E aí a gente não pode ter a pretensão de avaliar isso. Só quem está tendo essa janela aberta aí, pela primeira vez, pode dizer o que isso representa, né? Você muda esse cenário das pessoas, sob o ponto de vista individual. Então eu acho que isso é extraordinário. E um país como o nosso, no ritmo em que vai, não vai poder prescindir disso nunca, ou tão cedo. Mas há uma outra questão, há uma outra direção aí, que é a percepção, tá, desta área de tecnologia, uma área mais dura de informática, comunicação e etc., né, a percepção de que não pode, tá, essa raiz dizer pra sociedade, que esta área ou aqueles que atuam nessa área não tenham um compromisso com transformação social, um compromisso com uma reelaboração dos contextos, a partir de um excelente texto, digo isso de novo, que tem mais, eu tenho um instrumento extraordinário na mão, e ele precisa ser, sim, colocado em favor da sociedade. Quer dizer, essa relação informática e sociedade, o alcance social da informática, isso é uma coisa extraordinária. E começa a haver uma apropriação disso, né? Quer dizer, a sociedade como um todo.

 

P/2- A nível da sociedade paraense, né?

 

R- E perde o medo, quer dizer, poxa, olha, tá? Quer dizer, porque o que marca, não é? E por muito tempo se dizia, olha, essa é uma área que desemprega as pessoas. Não se ouviu falar muito disso?

 

P/2- É.

 

R- O computador desemprega as pessoas. Quer dizer, então é uma, é um segmento anti-social, ele presta um desserviço. E não é assim, tá? Eu não sou da área, não tenho essa raiz, mas é importante que haja essa apreensão pelo conjunto social de que há muitas coisas possíveis de serem feitas. Tendo isso como base, como plataforma, na linguagem bem dos informáticos, né? Mas que favoreça, que de fato esses temas da inclusão digital, da inclusão social e etc, da educação à distância. E o Brasil é o um país que precisa disso, pelas dimensões que tem. Eu acho que nessa outra dimensão isso também o conjunto, não tanto pelo indivíduo, quanto pelo conjunto. Você precisa se considerar, na minha visão, como os maiores ganhos desse projeto.

 

P/2- E pra você, ter participado esses anos do CDI, lhe ajudou?

 

R- Olha, Lídia, eu diria a você que é uma possibilidade de recuperação de mim mesmo. É uma possibilidade de eu me reencontrar comigo mesmo. 

 

P/1- Teria algo que nós não perguntamos que você quisesse colocar?

 

R- Veja, eu acho que falei muito, falei algumas coisas até de forma desordenada, vocês é que vão saber depois.

 

P/2- Não, imagina.

 

R- Mas, eu gostaria só de acrescentar, mais do ponto de vista pessoal e institucional, duas coisas, né? O CDI é, para a área de Computação e Informática do Cesupa, o principal projeto, tá, de expressão, vamos dizer assim, da face social dessa nossa área. Quer dizer, professores nossos, alunos já formados egressos do Cesupa, se identificaram com o projeto e são colaboradores desse projeto. Então, eu diria a você que esse é um braço institucional que nós temos, a nossa relação com a sociedade em projetos extensionistas pela informática se dá pela via do CDI. Quer dizer, eu posso dizer o seguinte, num dado momento, dizer “Não, o Cesupa é parceiro do CDI.” Eu gosto de dizer ao contrário, o CDI é parceiro do Cesupa. Se é que há hierarquia em parceria que não me parece que haja. Mas, é importante saber que o Cesupa contribui muito com o CDI. Inclusive estar com pessoas, que já mencionei anteriormente. Mas, as lições que esse projeto trazem para o nosso projeto pedagógico da Computação e Informática, é significativo, é expressivo, é muito importante, né? E, do lado pessoal, eu só queria acrescentar, e faço isso mais para publicizar um compromisso que tenho comigo mesmo. Gostaria de voltar a contribuir mais pessoalmente, independentemente da estrutura que me acompanha. Eu gostaria de poder ir mais às EICs ou visitar EICs que eu não tenho nem idéia de onde estejam escaladas nesse mundão que é o estado do Pará. E contribuir, não pela informática que não é definitivamente a minha praia, mas as EICs são muito mais que informática, posto que trazem aí base de cidadania, enfim. Tudo, acho, que a gente puder fazer pra, achando que você vai estar criando uma possibilidade pro outro, eu de novo inverto. Na verdade, é a gente que cresce. Eu contribuindo com o CDI, no plano pessoal, isso é crescimento pra mim, tá? O que eu fizer ajudando alguém isso aí é uma conseqüência desse trabalho, pois é a gente que ganha. 

 

P/1- Que que você achou de dar esse depoimento pro CDI pessoalmente?

 

R- Eu, devo lhe dizer, você deu um telefonema pro Cesupa e eu estava numa reunião, estava mesmo. “Simone, dá o meu e-mail pro Danilo.” Foi assim, eu acho que ele chegou, e ele com certeza vai me mandar alguma mensagem. Eu não fazia idéia do que fosse. E quando recebi por e-mail, que fiquei sabendo. Eu fico muito feliz, né? Uma, assim, eu pude falar aqui, eu acho que falei mais da minha vida que do CDI. E acho que o CDI se faz assim. Quer dizer, eu tive um contato direto aqui, pessoal, com o Rodrigo Baggio, quando ele veio pra um seminário. Um seminário de empreendedorismo que o Cesupa organizou, um seminário sobre empreendedorismo. E o Rodrigo foi convidado do Cesupa e atendeu esse convite. Conversamos muito rapidamente. Mas eu acho que o CDI, ele se constrói e se fortalece pela história de vida das pessoas. Quer dizer, eu chego a essa conclusão porque eu acho que, eu aqui, acabei falando mais de mim do que propriamente desse projeto. Mas, eu acho que essa é a contribuição que a gente pode dar. É o que a gente traz das nossas vidas, tá, em favor de uma vida coletiva. Porque você acaba assumindo coletivamente o projeto. Isso eu acho que nos torna pessoas um pouco menos piores do que na realidade devemos ser.

 

P/1- Perfeito.

 

R- Fiquei muito feliz de conversar com vocês 

 

P/2- Está bom, muito obrigada.

 

P/1- Nós que agradecemos. Obrigado. Obrigado pelo CDI e pelo Museu da Pessoa. Muito obrigado.

 

P/2- Ótimo.

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