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História

A paixão pela costura

História de: Maria
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

A história de Maria é marcada pela paixão pela costura, desde sua infância ainda quando via os tecidos num mercado da cidade, a máquina de sua irmã e o sonho de costurar, até a feitura de seu primeiro vestido. Conta que quando criança se maravilhava com os tecidos do mercado central da cidade que ficava próximo a loja do pai. Relembra como começou a costurar, o incêndio em sua casa, a mudança de cidade, como conheceu seu marido e engravidou, o reencontro com a costura, como começou a trabalhar no SESI e depois como se tornou professora de costura no Projeto ViraVida, e todas as transformações causadas após trabalhar com esse projeto.

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História completa

Meu nome é Maria e nasci no nordeste do Brasil. Minha mãe era do lar e o meu pai era um pequeno comerciante de gênero alimentício, cereais, em nossa cidade chamávamos de quitanda, tinha de tudo um pouco; arroz, feijão, sabão, coisas do lar, mas quando ele faleceu, já não trabalhava mais, era aposentado, vivia de pequenas rendas de terrenos que possuía, e de lá ele tirava o sustento. Nós somos onze, eu tenho dez irmãos, eu sou a oitava.

Quando eu era mais nova eu ia até a quitanda, porque o point da cidade é a feira que existe aos sábados e nossa família ia para curtir, para ver as novidades que vinham, até venda de roupa tinha nessa feira, e como eu sempre gostei de mexer com roupas, desde criança, desde os meus doze anos de idade que costuro. Ficava muito curiosa porque nesse espaço que era um mercado central da cidade, tinham lojas de tecido e eu ficava encantada com aqueles tecidos, com as novidades que vinham e era o meu lazer, ficava torcendo para que chegasse o sábado para ir à feira ver as novidades.

Minha casa era muito animada, todo mundo muito amigo, ainda hoje, nós somos quatro irmãs e sete irmãos homens, e eu fui criada praticamente com os irmãos, porque as irmãs são bem mais velhas do que eu, a mais velha já é falecida. Fui criada só com os meus irmãos, muito cheia de proteção, não podia paquerar, não podia sair de casa sozinha, fui cercada de muita proteção, mas era muito divertido.

Eu me sentia protegida, eu nunca discuti essa questão, que hoje é chamado de liberdade, liberdade que eu não tinha. Mas eu gostava porque onde quer que eu fosse eu tinha sempre uma pessoa ao meu lado me protegendo e naquele tempo era normal, eu era adolescente, não me incomodava nem um pouco, pelo contrário, eu gostava bastante, na minha família nós somos muito ligados, ainda hoje há um encontro mensal e no final do ano fazemos um encontro da família, que é da família do meu pai. Todo mês nos reunimos na casa de um e vamos criando uma infra-estrutura para que ao final do ano façamos uma grande festa, nós temos um centro que se chama Centro de Convivência Zeca Pires, que o meu avô e a família se reúne lá, é um dia de lazer, vai desde a parte espiritual, com missa, com celebrações de outras religiões e com almoço, lanche, é um dia muito bacana, a família o ano inteiro faz encontros para arrecadar fundos para que a festa  fique bonita no final do ano e é quase a família toda porque a família é imensa. Visto que a dos meus pais, nós éramos onze, a família toda é grande, juntando somos mais de seiscentas pessoas.

Tenho a mesma proximidade com todos os irmãos, somos todos amigos, não tem um para dizer: “Esse é o especial” não tem, na verdade tem um que se destaca pela postura como líder da família, eu também já exerci essa função por muito tempo com relação aos meus pais quando ficaram mais velhos, eles se achavam velhos, minha mãe faleceu aos sessenta anos, quase na minha idade e o meu pai viveu mais. Eles ficaram doentes por muito tempo, eu e esse meu irmão que dávamos suporte a eles,

ficávamos com eles em casa, levávamos para médico, hoje por conta da minha vida

muito cheia de ocupações, essa obrigação foi mais delegada para o meu irmão. Dizer qual irmão é favorito não tem, são todos iguais, temos a mesma ligação, mas eu sei que eu sou muito importante na vida deles, é só isso que eu tenho que dizer em relação aos meus irmãos porque todos são homens de bem, pessoas que não tem muito recurso, mas são todas pessoas muito dignas e as minhas irmãs também.

Nós nos consideramos uma família muito unida, não tem brigas, eu acho que é daí que eu tiro essa paciência, e me dou bem com os jovens do projeto. 

Eu não sei se vocês percebem, mas eu sou meio tímida, então na época da escola eu era muito tímida, não interagia muito com as minhas colegas por timidez, mas eu participava de eventos da escola, jogava vôlei, não me destaquei porque a cidade era muito pequena e eu não tinha como crescer, para ter uma ideia, só tinha o Ginásio na época, que hoje é o Ensino Fundamental. Quando terminei o Ginásio eu vim morar aqui em Teresina, nós sofremos um acidente muito sério, essa casa desabou em uma chuva e nós viemos porque eu já estudava aqui, eu vinha todo dia e voltava, mesmo sendo irmã dessa quantidade de pessoas eu nunca quis ser igual a eles, eu queria estudar, a minha mãe sempre dizia que eu tinha nascido no lugar errado porque eu não queria ter aquela vida que eles tinham, eles eram todos conformados, estudar, só fazer o Ginásio e parar, ficar por aí, achavam que aquilo que eles ganhavam já era suficiente e eu de um certo modo tinha uma ambição de crescer, embora eu não tenha chegado aonde eu gostaria de ter chego, mas ainda hoje eu estudo porque mesmo não conseguindo, não sei se eu vou conseguir, mas eu vou tentar chegar.

Antigamente no dia sete de setembro tinha as balizas e eu era baliza porque eu tinha o corpo arrumadinho, eles escolhiam, eu participei de desfilezinho de escola, para isso eu não era tímida, eu era tímida a respeito de interagir, conversar, de trocar ideias, de falar na frente da sala de aula, eu era muito tímida, eu não gostava, eu jamais seria uma jornalista. É só isso, a minha vida é muito simples, não tem muito o que dizer, tem dificuldade porque o meu pai também era uma pessoa que tinha uma certa condição e de repente ele perdeu por não saber administrar e nós tivemos muitas dificuldades, eu mesmo tive dificuldade de vir para Teresina para estudar todos os dias, depois desisti de estudar por conta da dificuldade, mas como eu era uma excelente aluna, eu estudava no melhor colégio daqui de Teresina, que é o colégio das irmãs, o Colégio Sagrado Coração de Jesus, tive essa dificuldade, desisti de estudar porque era muito difícil para eu vir, aí a irmã que era diretora da escola me chamou e perguntou porque eu tinha desistido, eu contei a minha história, que eu estava com dificuldade financeira e eu não achava justo o meu pai pagar uma escola e faltar para os outros. Eu tinha irmão menor, nessa época eu tinha dezessete anos e eu tinha duas colegas, amigas na escola que me ajudavam bastante, quando era para fazer trabalho eu fazia para elas, trabalho manual, sempre tive essa habilidade e elas não tinham, mas tinham como comprar, compravam o material e eu fazia para elas; e outra também, me pagava passagem para eu ir quando não podia pagar. Essa freira me chamou e me perguntou porque eu tinha desistido de estudar, eu disse que não tinha condições financeiras, eu tenho orgulho de ter passado por isso porque eu cresci e ela me ofereceu uma bolsa integral. Fiquei feliz demais porque eu ia poder continuar os meus estudos, eu perguntei se ela não podia me dar mais duas bolsas, ela me deu uma, eu pedi mais duas, ela perguntou para que eu queria, disse que era para as minhas amigas que me ajudavam e ela me deu as duas bolsas, mesmo dizendo que elas não precisavam, mas era a maneira de agradecer porque elas foram muito bacanas comigo, nem precisavam porque eram pessoas de grandes posses. 

Fiz o meu segundo grau, o Ensino Médio, o Curso Pedagógico, não o Curso Pedagógico Superior, antigamente tinha o Magistério. Fiz nesse colégio que na época era o colégio mais caro da cidade, tive esse privilégio de estudar com essa bolsa, logo que terminei eu encontrei meu marido, casei, construí uma família, aos 27 anos eu já tinha os meus três filhos, trabalhava na época, saí do trabalho para cuidar dos meus filhos porque eu não confiava em deixar meus filhos com ninguém, porque a coisa mais importante na minha vida são eles, todos são adultos hoje, saí do trabalho para cuidar dos meus filhos porque eu nunca consegui uma pessoa que cuidasse bem deles, abandonei tudo, virei mãe e dona do lar, passou esse tempão, depois que eu criei, todos estão formados. Voltei a estudar depois de 33 anos, prestei vestibular, o meu sonho era fazer um curso na área de moda, antes eu nem sabia que tinha, nem existia porque também não é muito velho aqui no Brasil e eu não tinha informações de fora, a primeira vez que surgiu aqui em Teresina a Faculdade de Moda, a minha filha me incentivou: “Mãe, vai ter curso de moda lá na Uninovafapi” que é uma faculdade particular, disse a ela: “Rapaz, mas eu não vou fazer porque eu não passo, estou há 33 anos sem estudar” ela disse: “Não, mas a senhora vai fazer”. Eu digo: “Eu só vou fazer se ninguém souber, só vocês aqui de casa porque se eu não passar eu não vou pagar mico”. Fui, quando eu cheguei lá, era o segundo curso mais concorrido, só perdeu para medicina, não é que eu passei! De primeira, fiz e foi a melhor atitude que tive em minha vida, eu até me emociono.

Passar no vestibular foi melhor coisa que aconteceu na minha vida, passar no vestibular, cursar a graduação foi bom demais, foi inexplicável, ainda hoje eu sinto o sabor dessa vitória porque ninguém acreditava que eu iria passar, muita gente me desestimulou, dizendo que eu era velha, que eu não deveria fazer, que eu devia cuidar da minha casa, de fato, eu tenho a idade que eu tenho, mas quando eu vou para lá, ainda hoje porque eu faço pós-graduação, sou a mais velha da sala, vou com a minha idade real, com a minha idade cronológica e volto com a minha idade biológica que é 35 anos, no máximo quarenta, eu me emociono por isso porque eu nunca pensei que eu fosse me sentir da forma que me sinto lá e estou terminando a minha pós-graduação e estou triste porque eu não posso fazer outra para seguir porque aqui não tem mestrado. 

Eu aprendi a costurar sozinha, a minha segunda irmã costurava, e eu tinha curiosidade, as minhas alunas aqui riem quando digo que o som que faz eu me sentir melhor é o som da tesoura na mesa porque eu ouvia quando era criança e aquilo me fascinava, aquele barulho, e minha irmã não deixava ficar perto porque parece que eu incomodava, desconcentrava, eu ficava perguntando. E quando eu tinha um pouco mais de entendimento comecei a fazer as roupas das minhas bonecas, tudo com muita dificuldade, porque não era tão fácil como é hoje, não tinha essa linha que é fácil, às vezes tirava o fio do tecido, colocava na agulha para costurar, dentro da ignorância da minha mãe não dava muita força, achava bobagem porque eu era muito nova, muito embora naquela época aprendia-se a bordar nas escolas, mesmo na escola normal, tinha uma disciplina em que se aprendia a bordar, mas eu não queria o bordado, o que eu queria era costurar, eu queria fazer roupa, eu queria cortar e a minha irmã que sabia fazer não me ensinava, ela botava a máquina no quarto dela e eu ia para a janela, ela fechava a janela, abria outra janela porque ela dizia que eu incomodava e quando ela casou, eu tinha doze anos, foi a minha glória. Primeiro eu sofri porque eu já estava habituada com as minhas roupas que ela fazia, muito embora, eu desmanchava e tentava fazer diferente, o que era uma briga terrível em casa porque tudo tinha que ser do jeito que a mãe dizia que tinha ser, não era como hoje que os filhos são os que dizem como querem que seja feito, ela casou e foi morar fora, e eu era muito mimada pelo o meu pai, queria uma roupa, eles estavam em festejo na minha cidade, eu queria uma roupa nova, esperei pela minha irmã, e ela não vinha, mandou dizer que não poderia ir, o meu pai disse que só mudaria o vestido se eu fizesse, o meu pai era bem diferente da minha mãe, ele me incentivava, diante disso eu disse: “Pois eu faço” ele: “Pois você vá ao comércio de tarde que eu vou com você comprar”. Eu fui, aí escolhi o tecido, eu me lembro até hoje, era um tecido de fundo branco com florzinhas coloridas, fui para casa, a mesa da minha casa era enorme, pegava seis cadeiras nas laterais, aí eu passei o dia com esse pano em cima da mesa, eu comprei a tarde, no outro dia coloquei o pano em cima da mesa para cortar, não tinha nem noção de como seria, colocava o pano ao lado da mesa, chorava porque eu tinha medo de cortar, eu sentava nesse pauzinho da mesa e chorava, minha mãe: “Se tu não cortar isso aí como é que tu vai conseguir fazer?” “Mãe, eu estou com medo de cortar e perder tudo”, eu passei o dia inteiro andando com esse pano na mesa, meu pai quando chegou no final do dia: “Pai, eu não cortei o pano” “Pois corte, se você perder, eu lhe dou outro”. Cortei e fiz o vestido perfeito e até hoje não parei, passei a costurar para os meus irmãos, a fazer o short que até então a gente não chamava de short, mas de calção, a vizinha que tinha um menino, eu ia lá pedir os calções pra fazer, só que eu tinha doze anos e as meninas de doze anos naquela época não eram como hoje, cheia de conhecimento, era muito infantil, mesmo grandona, do meu tamanho, eu acho que eu já tinha esse tamanho e elas diziam assim quando eu terminava de fazer o short: “Obrigado”. E eu: “Obrigada não, tem que me pagar, como eu vou comprar a linha para fazer novamente?”.

E fui fazendo, costurando, em 1972 quando eu sofri esse acidente nós fomos obrigados a vir para Teresina, porque só aqui tinha condições porque eu já estudava e dois irmãos meus já moravam aqui, viemos para cá, eu comecei a fazer roupinha para vizinhança, arranjei um emprego, primeiro eu trabalhei como professora porque eu havia me formado, fiz a minha roupa da formatura e tudo, arranjei um emprego para trabalhar na cidade do Maranhão, fui trabalhar por quatro meses dando aula, era muito estressante, não gostava de trabalhar lá porque eu tinha que vir todo final de semana para cá, até porque eu já namorava com o meu marido, eu arranjei um emprego na Coca-Cola, fui ser demonstradora, andava no mercado, andei essa cidade toda a pé, foi o lançamento do litro da Coca-Cola aqui em Teresina, quando passou os três meses de experiência eu fui promovida a supervisora, o trabalho apertou, foi quando eu tive que trabalhar de supermercado em supermercado, fazendo averiguação de produto, quando fazia um ano que eu estava trabalhando na Coca-Cola eu fui promovida para trabalhar em um escritório, só que foi uma coisa muito engraçada, o dono da Coca-Cola me chamou e me perguntou se eu sabia datilografar, eu só tinha noção e eu: “Sei”. Eu não queria perder o emprego. Era muito importante porque a minha família dependia muito de mim nessa época, aí eu fui trabalhar no escritório, desperdicei um monte de papel porque eu não sabia datilografar direito, até que eu aprendi sozinha nas horas de folga e em casa no domingo costurando, porque a máquina era a minha fascinação. Casei, encontrei o meu marido e casei, o meu marido me proibiu de trabalhar, de certo modo, não foi assim: “Você não vai mais” “Eu achava melhor você não ir porque eu não sei o que tem lá, você tem que cuidar da casa e dos meninos porque eu ganho o suficiente para gente viver”. Ele trabalhava no SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), aí eu fui cuidar da minha casinha, dos meus filhinhos, parei de estudar, parei de trabalhar, minha vizinha, em frente a minha casa, uma senhora de idade, tinha máquinas, eu falei: “você me empresta a sua máquina para eu fazer uma saia para mim?” eu não tinha mais máquina, ela disse: “Empresto”, fiz uma saia perfeita, foi comentário da rua porque a saia era super bem feita, ela disse: “Maria, tu devia vir trabalhar comigo porque eu tenho essas máquinas aqui, eu não sei costurar direito, podíamos montar um negócio, ia render um dinheirinho para ti”. Eu falei com o marido, eu não falei pra ele de imediato, eu disse para ela: “Não, vou porque…O meu marido não deixa eu vir, ele não vai gostar, não tem com quem eu deixar os meninos” eu só tinha o primeiro ainda, eu estava grávida da segunda, ela disse assim: “Não, mas ele não precisa ficar sabendo não, quando ele for trabalhar de tarde você vem” porque era em frente a minha casa, assim eu fiz, fui para lá e comecei a costurar com ela, de repente eu aparecia com alguma coisa em casa e ele dizia assim: “Que saia é essa, que vestido é esse?” eu dizia: “É porque eu estou ajudando a dona Joaninha na máquina e ela me deu” porque eu não tinha renda nenhuma, eu acho que levado por isso ele me deu uma caderneta de poupança, perguntei: “Esse dinheiro é meu mesmo?” ele disse: “É” “Eu posso fazer com ele o que eu quiser?” ele disse: “Pode” eu disse: “Pois eu quero comprar uma máquina” ele comprou, não parei mais de costurar. Logo em seguida a diretora do SENAI, ele trabalhava com ela, perguntou para ele: “Você não conhece uma costureira que possa me indicar?” “Conheço” “Ela é boa na costura?” ele disse assim: “É, ela é boa” “Quem é?” “É a minha esposa”, ele me levou, ela encomendou umas cortinas, acho que era para me testar logo porque ela ia dar roupa e cortina, é muito fácil de fazer, eu fiz as cortinas, fiz umas almofadas e ela gostou do meu trabalho, eu passei a ser costureira dela, logo depois o SENAI precisou de instrutora, ela já conhecendo o meu trabalho me convidou para dar aula no SENAI porque eu já tinha toda aquela formação de magistério e não era tão rigoroso como é hoje, aí eu passei a dar aula e daí já tem quatorze anos que eu dou aula no SENAI. Mas eu não sou funcionária, eu só presto serviço para o SENAI e não parei, estou aqui fazendo o que eu gosto que é costurar e trabalhar. E hoje tem essas meninas aí que eu estou ensinando e está me dando um prazer enorme.

É quadriculado bem pequeninho, geralmente são só duas cores, eu comprei a calça cinza e a blusa eu comprei rosa com branco e fiz com uma gola que ainda hoje é uma das golas mais difíceis de fazer, que é uma gola inteira, eu fiz a roupa e ficou ótima, daí eu perdi o medo, depois eu fiz qualquer roupa, até roupa de noiva eu faço, eu aprendi a bordar na máquina, comecei a bordar, comprei um bastidor, vi uma senhora que bordava

Aprendi a bordar, aprendi a costurar praticamente sozinha, hoje eu tenho muitos cursos que fiz no SENAI, mas não fiz nenhum quando era jovem, eu fiz depois porque eu precisava pôr no meu currículo o certificado, mas tudo o que eu sei fazer de costura eu aprendi sozinha. Eu acho que foi sozinha e sei fazer outras atividades como crochê, como um trabalho que chamamos de tenerife que é uma tábua cheia de preguinho que você vai trançando a linha e você faz almofada, eu também aprendi de olhar.

O modista é mais direcionado para roupas de ateliê e aqui é profissional para a indústria. Eles fazem o operacional, a peça, porque na indústria um faz o corte, outro prega bolso, outro fecha o gancho, outros limpam, outro prega, mesmo elas fazendo toda a peça o costureiro industrial tem que saber, tem que ter essa aptidão em concluir uma peça, muito embora eles não façam a peça inteira, em ateliê, eles tem que fazer a peça inteira e o modista é responsável pelo caimento da roupa, saber criar, tirar todas as medidas, fazer o molde, saber se esse tecido é adequado e quanto vai pegar, que linha vai pegar, ter tudo isso, tem uma ficha técnica, elas também aprendem a fazer essa ficha técnica que sou eu que ensino, eles também têm aula de noções de estilismo, de festo, de corte, de como festar, de como colocar na mesa, de como cortar, saber o quanto que o tecido tem de elasticidade, se esse tecido tem, se é que ele tem. Na verdade, o curso mesmo sendo de mais de um ano ainda é pouco para elas saberem, porque elas têm dificuldade de concentração, são meninas que chegaram aqui com a cabecinha muito bagunçada, ainda tem algumas que resistem a se adequar ao sistema.

A minha vinda pra cá foi por conta do acidente da casa. O meu pai já estava em decadência, nós não tínhamos quase mais nada. Eu já estudava aqui, mas assim que houve o acidente nós ficamos morando na casa do meu irmão mais velho, que era uma casa humilde e pequena, ficava todo mundo meio amontoado porque ainda tinha muita gente dentro de casa, eu tinha um tio que era coronel e tinha uma casa fechada, uma casa muito grande, era perto do aeroporto, ele era comandante na cidade de Floriano, que é uma cidade daqui do Piauí também, na verdade ele não era coronel nessa época, ele era capitão, major, uma coisa assim, ele ofereceu a casa para que a família viesse ficar enquanto nos estabilizávamos, foi muito engraçado, no dia de vir... Porque a prefeitura que cedeu um carro porque o meu pai, como eu falei, não tinha condição nem de pagar um carro para vir deixar a mudança e esse carro era tão ruim, tão velho.

Chegamos aqui e as dificuldades foram inúmeras porque o meu pai não tinha emprego, eu não tinha emprego, eu era ainda quase uma adolescente, eu estava com dezoito anos, só tinha um irmão que era sargento de polícia, e outro era taxista e logo casou, a esposa dele não gostava muito que ele ajudasse a família, mas como eu te falei, logo em seguida eu terminei o curso pedagógico e comecei a trabalhar e toda essa minha renda era convertida para a minha família, inclusive, quando eu comecei a trabalhar na Coca-Cola eu andava quase a cidade toda, porque o dinheiro que eles me davam para o lanche e o ônibus era muito difícil, o dinheiro do lanche eu não usava, eu deixava para comprar alguma coisa para casa porque eu tinha irmão bem menor, menino mesmo, e a minha mãe ainda criava uma neta, nós moramos por quatro anos nessa casa, depois eles pediram a casa porque iam retornar, tivemos que partir para o aluguel, só que nessa época já estávamos mais estruturados, eu já costurava, eu já trabalhava e os meus dois irmãos, esse casado, não ajudava, mas não dava mais despesa dentro de casa. Uma prima minha me colocou em uma fábrica que é a maior fábrica daqui, a Gelo Polar, chamou esse meu irmão, o que trabalhava na metalúrgica, o mais velho, para trabalhar com eles, começou a trabalhar, mas também continuou estudando, ele sonhava em ser médico, ele fez um concurso para polícia civil, e foi aprovado, foi trabalhar na polícia, assim o dinheiro melhorou um pouquinho.

Eu me casei também, comecei a ter filhos, e meus pais vieram morar em bairro próximo daqui, em uma casa cedida também. Quando eles vieram morar aqui nessa casa, esse meu irmão já trabalhava, já ajudava na casa, mas ele não morava com os meus pais, preferiu morar comigo porque nos dávamos muito bem e ficava mais próximo do trabalho dele, e ele morou comigo até o dia do casamento dele, ele casou, a mulher dele é fonoaudióloga e ele é formado em Direito.

Começar a dar aula de costura, a ensinar as pessoas a costurarem foi assim: A diretora do SENAI me convidou para aula, porque eu já tinha essa formação de Magistério e lá dentro eu fiz Curso de Instrutoria para aprender dentro do sistema do SENAI, porque tem um método. Fiz o curso, passei a instrutora. Foi bom demais, comecei a ter o meu dinheiro mais certo e foi uma realização conhecer pessoas, andei quase todo o estado dando aula, tenho muitos amigos por conta disso, é muito gratificante, não é só a quesito financeiro, fazer amigos é muito bom, eu ajudei, hoje eu não dependo do meu marido só porque ele é meu marido, hoje ele está aposentado, hoje a situação é inversa. Antigamente ele saía e eu ficava, hoje é ele que fica e eu que saio, ele é quem lava a louça, hoje é ele quem toma conta da casa, eu não sei quanto é que custa um sabonete porque ele é quem faz compra de supermercado e eu que saio, foi uma virada na vida, esse nome tem muito sentido na minha vida.

Conheci o ViraVida pelo SENAI. A direção me chamou e disse que tinha um trabalho que se adequava perfeitamente a mim, eu fiquei meio assustada porque quando o pessoal mostrava, achava que era um bicho de sete cabeças trabalhar com meninas que estão na margem da vida, o estado de vulnerabilidade altíssimo, fiquei muito assustada, mas é um desafio, como eu disse anteriormente, eu nunca disse que eu não sabia, eu usei isso também, não vou dizer que não. E até agora eu e os alunos temos nos dado muito bem, eu acho que é por isso que eu estou aqui falando para vocês, porque se não tivesse me dado bem... Nós estávamos fazendo trabalhos muito bons, não sei se vocês já viram algum desfile que a gente já fez? Pois nós temos. Nós fizemos um trabalho magnífico trabalhando a questão da sustentabilidade, porque nós fazemos esses trabalhos extras, fora da grade, nós trabalhamos com material reciclado, resíduos de fábrica, retalhos, inclusive eu forneci bastante retalho, os meus retalhos são mais delicados, como seda, tecido mais fino e que elas fazem peças fantásticas, essa turma ainda não fez porque se tudo der certo vocês vão ouvir falar na próxima coleção que vão ser roupas de noiva, toda de material sustentável.

O meu primeiro dia no ViraVida foi emocionante, porque eu cheguei aqui, vi essas meninas que visivelmente... Não precisavam dizer uma palavra para você ver o estado de sofrimento, as roupas falavam por elas e hoje se você vê essas pessoas, você não sabe mais se elas são regresso do ViraVida ou não, elas se misturam e cada turma é muito emocionante, cada turma chega, essa turma que está saindo agora eu já não trabalhei da mesma forma com que eu trabalhei a primeira, porque eu já ganhei experiência. Inclusive, quando eu cheguei aqui, nos primeiros meses tinha planejamento, o nosso planejamento era semanal, não poderia ser mensal porque, às vezes, você vem com uma aula toda planejada, bagunça porque vem com um problema tão sério e quer contar e nos envolvia tanto que chamaram a minha atenção porque eu não poderia ser mãe delas, eu estava agindo como mãe, eu tinha que ser a professora, eu falei para essa coordenadora, hoje ela já não está mais diretamente no projeto: “Vai ficar meio complicado, porque eu não vou saber distinguir a instrutora e a mãe, porque eu acho que elas precisam antes do ofício de uma mãe” e é o que eu sou para elas, recentemente formou uma turma e um subiu lá, isso independente de alguém ter mandado, alguém ter falado e falou tanta coisa linda a meu respeito e isso paga qualquer esforço que fazemos, nenhum dinheiro paga, cada dia aqui é uma emoção diferente, tem briga, confusão na sala de aula, não é briga de tapa não, mas hoje como um dia no seu curso normal não é igual a outro, aqui é que não é, aqui é completamente diferente, hoje não é igual a ontem e com certeza amanhã não será igual ao de hoje dentro de sala de aula e principalmente agora que nós estamos na reta final. Dia dezoito acaba a grade curricular, porém nós temos dois projetos que são estes vestidos de noiva e as roupas de formatura que elas que fazem, não era para ser assim, mas não tem lógica você formar costureiras e elas alugarem ou comprarem vestido, elas tem que fazer, para mostrar, para culminar, certificar que elas são capazes, não é não?!

O papel do professor nesse estágio aqui, antes de qualquer coisa eu tenho que ser amiga deles, se eu só chegar aqui e contar o meu b-a-bá, eu acho que não vai ajudar muita coisa não, eu tenho que ser em primeiro lugar, amiga.

Para mim, as roupas falam, e quando eu entrei no Projeto, a primeira impressão que tive das roupas dessas meninas foi a roupa de “piriguete”, um termo muito usado hoje. E hoje elas estão com uma roupa mais comportada, há uma mudança. O comportamento delas, não só por minha causa, porque eu não só ensino a costura, sempre conversamos a respeito, agora mesmo, antes de vocês chegarem eu estava aqui dando instrução para as meninas e uma começou a chorar falando da formatura, que está perto e que ela está chorando, porque acha que não vai ninguém, lá vou eu fugir um pouco da minha atividade de costureira para ser um pouco mãe e psicóloga. E a roupa é assim, hoje elas têm mais cuidado até na questão da costura em si porque elas mesmas falam que diante do que se ensinou para elas, hoje quando elas vão procurar uma roupa, elas vão virar essa roupa ao avesso para saber se essas roupas estão bem acabadas, se a linha está condizente.

E a valorização delas, enquanto ser humano, até as escolhas de companheiro elas mudaram, a turma passada, para você ter uma ideia, tem menina já com lojas, já montaram lojas porque elas já têm conhecimento. Essa que fez a loja foi uma das alunas mais problemáticas que eu tive, ela sentava no fundo da sala, ela é bem baixinha, ela ficava o tempo inteiro cochilando. Começamos a conversar, hoje ela admite, ela ainda usa essa expressão: “Eu não valia nada” e hoje é uma menina que está casada e que é uma micro empresária e se você ver as roupas que ela usava ontem e hoje, completamente diferente, tinha menina que chegava aqui simplesmente marcada de noite, de orgia. Hoje elas têm esse cuidado.

A questão do abuso, da exploração sexual nos alunos é horrível, não só nos meus alunos, como em modo geral, eu acho que é uma das coisas que mais me deixam indignada, abuso sexual, quer seja em criança, adolescente, quer seja em um adulto, não sei se é porque eu nunca convivi com isso de perto, hoje eu convivo com elas, mas na minha infância, na minha adolescência, eu nunca tive, nunca participei, nunca vi, nunca vi ninguém perto de mim sofrendo isso, e hoje é uma coisa se tornou quase corriqueira. Não é só em periferia, porque às vezes acontece nas altas sociedades e você que não fica sabendo, você não fica sabendo porque o pessoal ainda esconde, as mulheres tem vergonha de dizer, se todas falassem seria bem mais fácil. Um desses meus irmãos que enfartou, foi um casal, ele trabalha na delegacia da mulher e conta que mulheres que vão lá na calada da noite porque teve medo de ser vista, vai denunciar nesses horários porque elas tem medo de serem vistas porque muita gente, determinada pessoa foi abusada, as pessoas rotulam aquela pessoa, é como se ela fosse culpada, que é o mesmo caso de muitas meninas, elas não denunciam porque elas sofrem ameaça e elas acham que elas tem alguma coisa de errado, e é uma das coisas mais repugnantes que tem.

São tantas coisas que aprendo com essas meninas que não dá nem para enumerar, aqui é uma troca diária, é um aprendizado diário, mas eu acredito que valorizar mais a vida, porque tem gente aqui que tem dezesseis anos e já viveu mais do que eu, tem experiências bem mais fortes do que eu, apesar de eu ter muita coisa na minha vida, porque como vocês viram a minha idade, eu tenho quase sessenta anos, mas tem menina aqui que já viveu tanta coisa horrível, eu penso que a minha vida foi a pior porque os meus pais já tiveram condições, hoje não tem, eu já sofri necessidade até de alimento, enquanto tem meninas aqui eu já sofreram tudo isso e ainda foram abusadas, espancadas, a minha vida foi muito boa, a vida inteira. Eu me privei, e até pouco tempo eu achava que eu poderia, hoje, ser uma pessoa bem mais sucedida, como se isso fosse tão importante, é, não deixa de ser porque o dinheiro realmente ainda é uma coisa que move, mas comparado a essas jovens aqui não tiveram nada, o meu sofrimento não significa nada. Eu aprendi muita coisa.

Ver essas meninas que quando começaram não sabiam nem ligar a máquina, cortar o pano e hoje vai a formatura com o vestido que ela fez, é muito emocionante, gratificante demais. E quando vejo elas fazendo, aqui mesmo, independente de ser vestido de festa, aqui tem peças super bem feitas por elas. Saber que aquelas criaturinhas que chegaram há um ano e pouco não sabiam nem falar, porque nem falar elas sabiam, elas gritavam, elas não sabiam pedir nada, era tudo em tom agressivo e hoje até isso mudou, não só no aprendizado da costura quanto socialmente, ainda precisa muito, mas elas já mudaram bastante, isso é como eu te digo, é um negócio que não se paga, é muito bom. 

Eu tenho uma ideia aqui, eu não sei se eu vou realizar, de criar um banco de retalhos digamos, desses resíduos de fábrica para fornecer ou dar curso para essas mulheres, mães das minhas alunas, que não fazem nada. Inclusive, quero trabalhar para que isso seja a minha monografia, eu estou pensando seriamente, vendo essa necessidade, porque do retalho você pode ficar zero, eu posso zerar, eu posso não ter nada, eu posso não ter nem uma tirinha dessa, eu posso aproveitar isso e fazer uma almofada de patchwork pegando os retalhinhos e depois até sobrinha de linha, isso tudo pode ser aproveitado e vendido e esse resultado seria convertido para elas, não sei se eu vou conseguir, mas eu pedi até uma ajuda pro ViraVida.

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