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A paixão pela comunicação

História de: Geni Aparecida Marques
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Publicado em: 04/05/2020

Sinopse

Em seu relato, Geni conta como a sua trajetória no jornalismo a levou para a luta dos movimentos sindicais e como o trabalho no Sindicato dos Bancários e na Associação de Pessoal da Caixa Econômica Federal a aproximou do que, posteriormente, ela desenvolveria com muita dedicação no Dieese. Geni ressalta que as dificuldades no trabalho não tiraram o prazer que ela tem ao desempenhar suas funções.

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História completa

P/1 – Eu queria que você começasse falando o seu nome completo, local e data de nascimento. R – Meu nome completo é Geni Aparecida Marques, mas eu jogo o Aparecida fora, né, como eu já falei. [RISOS] Ninguém merece Geni Aparecida. Eu nasci em 07 de maio de 1969. Nasci em Orlândia, mas fui registrada como natural de Morro Agudo que é uma cidadezinha muito pequenininha no interior de São Paulo, perto de Ribeirão Preto. P/1 – Geni, qual que é a sua formação? R – Sou jornalista. Eu estou no Dieese [Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos] há seis anos. P/1 – Você, como... Fala um pouco da sua opção pelo jornalismo e como foi essa época de formação. R – Eu sempre gostei muito de escrever, né? Sempre adorei escrever e quando tava na escola, no colégio, no ginásio eu vivia ganhando prêmio de redação porque queria escrever perfeitinho, bonitinho e tal. E tinha muita curiosidade de ver e de saber das coisas, né? Então, o jornalismo me pareceu como uma coisa legal pra fazer porque eu ia descobrir o mundo, eu achava que ia ajudar a transformar. E aí acabei entrando na faculdade, fiz faculdade na Metodista de São Bernardo do Campo. E, bom, eu tô na vida desde então. P/1 – Qual foi o seu primeiro trabalho? R – O meu primeiro trabalho foi na Editora Globo, em 1991, eu entrei pra trabalhar no arquivo, o CEDOC [Centro de Documentação], né? E a partir do CEDOC, dali, eu comecei a fazer outros trabalhos de freelancer na Editora, né, pras revistas da casa. E aí saí de lá em 1992, saindo de lá eu fui pra Folha de São Paulo onde eu era “freela” fixo num caderno voltado pro ABC, né? Saí da Folha de São Paulo fui pro Diário do Grande ABC onde eu fiquei mais um tempo. Saindo do Diário do Grande ABC eu comecei a entrar no mundo sindical, entrei na Associação de Pessoal da Caixa Econômica Federal, não chegava a ser uma entidade de classe mas era uma entidade representativa dos trabalhadores da Caixa Econômica Federal. Eles tinham acabado de fazer uma eleição porque até então quem tocava eram os gerentes da Caixa, então, ela era uma entidade pra você fazer festa e ir pro clube, né? E assumiu, o pessoal que trabalhava como caixa, como escriturário e aí eles começaram a dar um viés sindical, eram gente ligada ao Sindicato dos Bancários de São Paulo, né, tinha toda essa parte associativa, recreativa e tal, mas tinha a parte de um trabalho mais parecido com a coisa sindical. E foi lá que eu tomei contato com o Dieese, né, a gente chamou um técnico do Dieese pra trabalhar, abrir uma subseção do Dieese lá. E foi quando eu conheci o Dieese. P/1 – Antes disso você já tinha ouvido falar do Dieese? R – Já tinha ouvido falar, mas não tinha proximidade porque a gente tava toda hora divulgando coisas que tinham a ver com o Dieese, né, mas não sabia o que que era direito, que era uma entidade de pesquisa ligada ao movimento sindical só, não ia muito além disso. P/1 – Você optou por esse trabalho mais com os trabalhadores, sindicalistas ou foi uma coisa meio que apareceu assim? Como é que foi? R – Na verdade quando eu saí da faculdade eu achava, e eu bati direto no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC procurando emprego porque eu achava que ia ser uma coisa legal pra fazer. E aí a pessoa que trabalhava lá, que tocava a assessoria de comunicação na época me disse: “olha, é uma bobagem isso que você tá fazendo, vai trabalhar, vai aprender a trabalhar, depois se algum dia você tiver oportunidade você vem porque é tudo igual na verdade, não muda nada, né, você vai tá fazendo a tua parte lá no jornal diário como você estaria fazendo a tua parte aqui. Então pode ir, fique a vontade. Não fica preocupada com essa história de imprensa sindical.” Aí eu fui seguir a vida e quando eu fui trabalhar na Associação de Pessoal da Caixa Econômica Federal fui mais porque aconteceu de ir, já não tava mais em busca dessa coisa sindical, né, acabei indo por acaso como ele falou: “Olha, um dia acontece, você vai e aproveita pra ver o que que é”. E aconteceu e eu fui. P/1 – E você acha que realmente isso se verificou na prática, é parecido mesmo os meios que você trabalhou? R – Não, não é parecido, né? Porque o que eu acho engraçado é que nessa esfera sindical, assim, eu sempre assumi muito mais responsabilidades do que eu assumia nos outros lugares. Porque é sempre uma estrutura muito enxuta, o jeito de fazer as coisas. Você na verdade aprende muito mais, né? Sem contar esse outro lado, você sabe que está do lado, vamos dizer assim, do bem. [RISOS] Você não tá lá trabalhando pra dizer que uma manifestação de trabalhadores é uma baderna como chegou a acontecer quando eu trabalhava em grande imprensa. Você tá do outro lado, do lado contrário, mostrando que os trabalhadores tinham alguma razão pra tá fazendo manifestação, né? P/2 – Assim, nesse período que você tava se formando, que você tava saindo da faculdade você veio conhecer o Dieese um pouco depois, né, você tava falando. R – Hum, hum. P/2 – Nesse período que antecedeu você já tinha alguma visão específica de movimentos sociais, sindicais, algo do gênero? R – Não tinha, absolutamente nada assim. Eu era alienadinha, né? [RISOS] Não tinha envolvimento com nada, não sabia de coisa nenhuma e tava vendo as coisas. Acho que queria um mundo melhor mas não sabia qual era a forma de ter um mundo melhor, nem sabia que eu podia interferir pra isso. Achava que com o jornalismo já seria uma interferência. Terminando a faculdade, né, graças a algumas convivências que eu tive ali foi que eu comecei a achar: “não, acho que um lugar legal pra trabalhar de repente é o sindicato de trabalhador” tanto que eu saí pra ir procurar emprego nos Metalúrgicos. Mas não, durante a faculdade, durante o período de formação não. Completamente tapada. [RISOS] P/2 – Bom, e o que chegou a te influenciar? Você falou que logo depois, aí sim, a coisa aflorou em você, de onde veio assim? R – Eu acho que das convivências que eu tive na faculdade.Teve gente, assim, que foi bem legal que me fazia pensar sobre outras coisas, né? Lá na faculdade assim não, acho que a coisa foi depois, assim, “Olha, não é esse o mundo que eu quero”. Eu tive crises na faculdade de achar que a faculdade era muito ruim, de achar que era muito vazia mas isso logo de cara, de achar que não ia me dar condição de tentar brigar e melhorar o mundo. Eu quis fazer sociologia no meio da faculdade, quis deixar o jornalismo pra ir fazer sociologia, porque achava que era um jeito de contribuir também, né? Mas não de luta social, não de luta sindical, não de arregaçar a manga e ir de algum jeito pra, nunca tive. P/1 – Bom, você passou para o Sindicato dos Bancários aí, você chegou a trabalhar no Sindicato dos Bancários? R – Eu trabalhei no Sindicato dos Bancários, mas eu trabalhei muito mais na Confederação Nacional dos Bancários que era a CNB-CUT, era uma entidade que nasceu como um departamento da CUT. Fiquei lá durante quatro anos e a gente trabalhava de forma conjunta com o Sindicato. Com o Sindicato eu tive durante algum tempo mas eu não era funcionária eu mais estava ajudando eles que eles estavam sem gente pra trabalhar lá, então, eu ia fechar jornal, fazer coisas junto com eles mas eu não era funcionária do Sindicato. P/1 – E você. Foi no Sindicato que você conheceu o Dieese? R – Não, foi na APCEF, Associação de Pessoal da Caixa Econômica Federal. P/1 – Ah, tá. R – Anterior, foi 1993. Coincide perto com a abertura da subseção lá. P/1 – Como que era, você falou que foi um técnico lá abrir, como que foi isso, esse processo? R – Isso. Na verdade tinha feito a troca, os gerentes deixaram de comandar a Associação e os funcionários que tinham cargos menores dentro das agências da Caixa assumiram. Eles resolveram dar um viés um pouco mais de luta, “Vamos lutar pelos direitos dos trabalhadores da Caixa Econômica Federal” e convidaram o Dieese pra abrir uma subseção. Vocês devem ter ouvido falar aí das subseções, deve ter vindo gente da subseção pra falar, né? P/1 – Aham, teve. R – Então, eles chamaram técnico, conversaram com o Dieese, acertaram e abriram uma subseção do Dieese. Então, esse técnico ficava lá produzindo regularmente pra entidade sobre coisas da Caixa Econômica Federal, né? E aí foi que nasceu a proximidade com o Dieese, lá dentro da Associação. P/1 – E você tinha alguma relação com outras pessoas, como que o Dieese, qual que era a importância desta subseção, como é que funcionava? R – Ah, todo o trabalho de reivindicação salarial, tudo era ele quem fazia ali dentro daquela subseção. P/1 – Hum, hum. R – Uma pessoa que é minha amiga até hoje, né, é uma pessoa que eu tenho contato até hoje. E o Dieese inteiro, que é como eu falei, a pessoa sai do Dieese eles não se desligam do Dieese, é muito engraçado isso. Eu achava muito esquisito, eu falava: “Mas como é que pode, esse povo vai embora e...” E aí eu tô percebendo que é a mesma coisa comigo. Você não consegue se desligar, mesmo quando você está no seu final de semana, nas suas férias você fica pensando em coisa pro Dieese. É uma coisa muito engraçada. P/1 – Mas por que assim? As pessoas falam dessa forma mesmo eu queria entender que como funciona essa relação. R – É, não sei te explicar o que que acontece, não sei se são as pessoas porque a sensação que eu tenho trabalhando no Dieese, assim, pela primeira vez na minha vida, pegando todas as pessoas que trabalham ali não dá pra você falar que tem alguma pessoa que seja do mal, é todo mundo assim muito bom, é todo mundo muito legal, é todo mundo muito colaborativo, todo mundo muito solidário. Tanto é que as pessoas entram e vão ficando, vão ficando, vão ficando, vão ficando, vão ficando, e todo mundo tem uma coisa ali em comum, tem um desejo comum. É como se fosse uma família, eu acho, uma família Dieese. É um lugar engraçado, assim, é muito peculiar. Dava uma boa tese de... P/1 – Você sentiu isso logo no começo? R – Logo quando começou. Logo que eu entrei no Dieese eu senti isso, eu achei muito curioso. Depois que eu saí da APCEF eu fui um tempo trabalhar com uma assessoria parlamentar, né, que foi um trabalho que eu odiei e depois eu fui pra Confederação Nacional dos Bancários, pra CNB-CUT e lá tinha a subseção do Dieese, né, o que me aproximou mais, e aí me aproximei também dos técnicos do Dieese que trabalhavam no Sindicato dos Bancários de São Paulo. E era todo mundo meio enlouquecido pelo Dieese, “Meu o Dieese era tudo, o Dieese é maravilhoso, o Dieese é legal”. Eu dizia, “Mas meu Deus como é que pode?” Eu achava essas pessoas todas muito maravilhosas e continuo achando até hoje, já saíram do Dieese mas eu não me desligo deles também. E eu dizia, “Mas como é que pode, mas que coisa, eles só falam desse Dieese, o Dieese é tudo, mas o que que acontece?” E aí vindo pra cá eu vi, não tem jeito, parece que entra no sangue, é uma coisa esquisita. P/1 – Como que foi a sua entrada, assim? Qual foi a sua trajetória? R – No Dieese? P/1 – É. R – O Dieese fez uma seleção em 2000, eles estavam fechando um contrato com o Banco Interamericano de Desenvolvimento pra desenvolver uma série de... Era um projeto pra investimento no Dieese. O BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] financiaria isso, era um projeto imenso e o Dieese financiaria uma outra parte, né, com projeto ou vindo de outros lugares, não importava com o que fosse mas tinha que entrar com uma outra parte de recurso. E dentro dessa, dentro desse projeto tinha uma parte que dizia, falava de uma revista, da criação de uma revista pro Dieese. Porque o Dieese nunca teve uma revista assim com cara jornalística, teve um jornalzinho que funcionou durante algum tempo, tinha uma publicação regular que era um boletim, mas era um boletim muito mais estatístico do que qualquer outra coisa. E aí resolveram “Vamos fazer uma revista”, né? E aí eles fizeram uma seleção e eu vim, na verdade, pra fazer essa revista, participei dessa seleção e fui selecionada pra fazer essa revista. Só que sabia que eu teria que entrar na rotina da assessoria de imprensa do Dieese.E no meio do processo, uma das primeiras coisas que eu fiz foi sair pra conhecer a equipe do Dieese, ir pras subseções e ir pra vários lugares conversar com as pessoas e saber o que elas pensavam da forma do Dieese se comunicar pra tentar formatar uma revista. E o que que aconteceu? No meio do caminho eu falei “Pô, não dá pra formatar uma revista com um monte de gente achando que tem tanta demanda diferente, desde mudar o logotipo até, sei lá, estruturar um departamento de comunicação de verdade, começar a jogar notícia no celular”, tinha, um pessoal falava isso até, jogar torpedo no celular com índice do Dieese no celular dos dirigentes sindicais. “Eu acho que não dá pra formatar uma revista”. E o Clemente era o responsável por esse projeto dentro do Dieese. A gente conversou e a gente remodelou e transformou essa coisa na revista, no fazer uma política de comunicação pro Dieese implantar essa política de comunicação. Então, nós reformulamos o projeto desse item específico que tratava da revista ampliando. E aí a gente saiu pra ouvir, pela primeira vez na história do Dieese, pra ouvir até dirigentes sindicais sobre o que eles pensavam da forma do Dieese se comunicar. E aí fizemos auditoria de mídia pra ver a presença do Dieese na mídia. A gente fez um monte de levantamento pra tentar formatar de verdade uma política de comunicação aí depois sim uma revista pro Dieese. P/1 – Tá. A gente entrevistou a Iara que fez parte da criação da assessoria de imprensa do Dieese ainda na gestão do Walter Barelli como dirigente técnico. E antes disso parece que não tinha muito esse trabalho de comunicação, tal. Como que você vê esse trabalho no Dieese desde que você entrou até hoje de comunicação? R – Eu acho que tem assim, a Iara costuma falar que juntou a fome com a vontade comer, que é o Clemente querer fazer milhares de coisas e eu topar fazer e ir fazendo até porque eu gosto de mexer um pouco com tudo. O que a gente tinha antes na época que a Iara tocava a coisa toda era a assessoria de imprensa, que a gente fazia o boletim, basicamente, é um trabalho de atendimento de imprensa e terminava, finalizava as publicações do Dieese. Quando eu entrei a gente passou a tentar integrar tudo que tivesse relação com comunicação, então, era o atendimento para a imprensa, eram as publicações todas do Dieese, era o falar com o sócio do Dieese, era tentar fazer por ali material promocional do Dieese, que a gente faz até hoje. Atentar cuidar do site do Dieese, atentar pra pegar e cuidar de todas as pernas de comunicação que o Dieese tem, seja com que público for. Eu acho que a principal mudança que aconteceu nesses anos, desde o começo do projeto do BID, projeto de negociação que a gente chama, foi isso de tentar, assim, integrar, pegar todas as pernas e olha, “Vamos tentar trabalhar todas as frentes porque se a gente ficar fazendo as coisas isoladamente, cada um vai fazer de um jeito e não vai funcionar”. Então, a gente já assumiu, assim, de vez a gente já entregou, trouxe tudo pra dentro da imprensa, tudo que tenha a ver com comunicação, exceto a comunicação administrativa que continua sendo feita pela área administrativa. Mas o restante todo é feito ali agora. A gente tenta coordenar e até muitas vezes coisas que a gente contrata de fora de projeto gráfico, de desenho, de diagramação das coisas a gente pede vem, aí eu sento e desenho e falo pro cara: “É isso que a gente quer, né?” Então, a pessoa de fora pega e faz. A gente tenta segurar e integrar pra tentar organizar e sair tudo ali realmente do jeito que a gente quer, porque antes eu acho que era essa coisa o atendimento pra imprensa mesmo, e mais a edição de publicação, agora é tudo que a gente faz, tudo, vídeo, absolutamente tudo passar por ali, é o departamento de comunicação quem toca. P/1 – E vocês fazem não só pra imprensa, vocês fazem? R – Pro Sindicato, pra quem quiser se comunicar com o Dieese a gente tá atendendo, tá ajudando. P/1 – Vocês usam uma linguagem que pode atingir todas as categorias? R – É. A gente formatou uma coisa que está sendo uma publicação regular. A gente faz um envio semanal hoje, a gente produz um trabalho técnico que interessa pra todo sócio do Dieese e encaminha por e-mail. Porque a gente formatou no meio dessa história toda de reformular e de repensar a comunicação, o sistema de cadastro automático, você dispara as coisas por e-mail. A gente não tem muita noção de como isso funciona na hora que chega no dirigente sindical porque a gente sabe que eles têm, usa pouco a internet ainda. Mas a gente tenta disparar e tenta simplificar um pouco o texto pra não ir com aquela coisa do economês, com aquela coisa pesada, difícil. A gente mexe, devolve, hoje tem muita preferência acho que muito melhor do que já teve porque a gente devolve e fala “Olha, não tá bom, refaz aí vamos deixar mais simples”, pra poder divulgar. P/1 – Você falou que a revista, que vocês tentaram fazer quando você entrou não deu certo, não vingou, né? R – Não. Não vingou. P/1 – E como que vocês fizeram uma outra publicação, como que vocês resolveram? R – Não, na verdade a gente acabou substituindo por essas coisas que a gente envia por e-mail, né? Mas tá no projeto em algum momento da vida pra gente retomar essa revista porque a gente não sabe se vai ser uma revista de divulgação ou uma revista pra tratar do mundo do trabalho que aí seria de repente uma parceria com alguma editora com artigos, com coisa consistente de pesquisas pra tentar colocar eles em banca de jornal. Nós já conversamos com algumas editoras e elas têm interesse em fazer publicações com o Dieese, né? P/2 – Eu sempre tive muita curiosidade de olhar esses jornaizinhos sindicais. Quase todos eles, quase todos os sindicatos têm uma publicação própria. Como você, agora trabalhando já no Dieese, tendo uma consciência geral do meio sindical vê esse tipo de publicação? R – Mesmo quando eu fazia essas publicações eu já achava que elas eram muito ruins [RISOS], muito cheias de palavra de ordem. Porque assim, não tinha jornalismo de verdade, né? É uma coisa curiosa, né, porque depois de trabalhar na grande imprensa, depois trabalhando na imprensa sindical hoje eu vou falar uma coisa que é até terrível de falar mas imprensa sindical é a mais mentirosa porque ela não vai ouvir todo mundo, ela fica ali o tempo todo batendo numa tecla só, e enchendo de palavras de ordem e não ouve o outro lado, não se preocupa de jeito nenhum. Quando eu trabalhei na APCEF que era essa Associação de Pessoal da Caixa Econômica Federal, eles tinham um jornal que era um jornal gigantesco de 24 páginas, que a gente fazia por mês, mais um jornalzinho semanal de quatro páginas, mais um outro específico em tempo de campanha salarial. Nós éramos em dois jornalistas e uma secretária, né, e lá a gente reformulou e eles toparam. Então assim, a gente ia “descer a lenha” na Caixa Econômica Federal porque, sei lá, tinha atrasado o salário de alguém, vamos dizer assim, a gente ia lá ouvir o lado da Caixa Econômica Federal também pra botar ali a desculpa dela, era uma coisa indesculpável, evidentemente, mas a gente tava ali com a posição deles, o que dava veracidade pra aquilo que a gente tava falando e pra reivindicação que a gente tava fazendo. Então assim, eu não mudei a minha opinião, foi o único lugar na imprensa sindical onde eu consegui fazer isso porque o restante você não consegue fazer, é palavra de ordem mesmo, você não ouve o outro lado e fica ali batendo numa tecla, um texto às vezes muito chato. P/1 – Bom, eu vou mudar um pouquinho de assunto agora. Você trabalha no projeto Meu Salário, né? R – Também. Eu hoje supervisiono a área de comunicação, eu sou a pessoa responsável, tenho esse Meu Salário que eu também sou o responsável por ele, é o projeto com a Holanda, né? P/1 – Como que começou esse projeto, porque começou, como? R – Ele começou na Holanda. Duas universidades holandesas mais a FNV [Federatie Nederlandse Vakbewegin ] que é a maior central sindical da Holanda. Começaram com esse projeto lá, é um site na internet onde eles tem uma pesquisa, uma pesquisa voltada pra salário, condições de trabalho, e aí você coloca notícia no site pra animar e gerar interesse, né? E eles foram expandindo e bateram aqui no Brasil. Em todos os lugares onde eles fazem, onde o site está funcionando tem uma instituição de pesquisa mais a entidade sindical. E aí no Brasil, com essa, a gente tem quantas centrais hoje, acho que sete? Pra unificar tudo e fazer uma coisa legal eles pediram pro Dieese interferir, e o Dieese já entra meio como tudo, porque é uma entidade sindical e uma entidade de pesquisa. E aí todas as centrais se uniram em torno do projeto, assinaram, todo mundo faz parte do projeto junto com o Dieese, e a gente tem tentado tocar. A gente tá agora com uma consultoria que está tentando ajudar a estruturar o site pra tornar mais interessante pra aumentar o número de visita e a captação de informação, né, porque a pesquisa é online. P/1 – Qual que é o público pra esse? R – Qualquer público, qualquer pessoa é público do Meu Salário.org.br. P/1 – E qual que é o público que se interessa, assim? R – Qualquer tipo de pessoa, a gente tem, a gente tinha uma área no site aberta pras pessoas mandarem perguntas e você vê assim que é gente de todo o jeito, entendeu? É o cara que tem doutorado mas é o cara que mal sabe o escrever o nome dele direito mas conseguiu ter acesso a internet. A gente recebe, assim, algumas perguntas que não tem nada a ver com nada o cara entra lá e simplesmente “Eu quero saber o meu salário”. Como é que você responde isso pra pessoa, você não sabe nada dela. E você vê que tem gente que sabe, que é bem instruída e tal e tem gente que não sabe nada, né, que é, conseguiu um micro ali na frente dele com acesso a internet e entrou no site por acaso e resolveu perguntar alguma coisa, porque ele tinha dúvida, não tem informação de outro jeito. P/1 – Mas tem, você consegue identificar algum perfil de... R – Não tem e não é pra ter, essa é a idéia. O site é pra todo trabalhador, qualquer trabalhador entrar ali e preencher as informações, não tem um perfil definido. Um site que está na internet para o mundo. P/1 – Tá. E como que vocês buscam essas informações, como que vocês sistematizam pra conseguir responder? R – Então, a primeira sistematização tá acontecendo agora. Eles fizeram a captação de dados grandes e vão começar a sistematizar as primeiras informações agora. Não sei se vocês conversaram com o Paulo Roberto que é a pessoa responsável. Não? Ele é a pessoa responsável pelo site, pela parte técnica do site no Dieese, e eu sou mais pela parte de comunicação mesmo, de colocar informações no site, notícia no site, de animar o site, e ele cuida dessa outra parte. P/1 – Mas, então, o site tem sido bem visitado, assim, é um projeto... R – Tem sido bem visitado, ele é. O site hoje está em 17 países, o Dieese é o quarto em visitação. Se você pensar aqui, quem é que tem computador no Brasil, quem é que acessa a internet a gente tá super bem. P/1 – Hum, hum. Quais são os desafios desse projeto que você acha? R – Eu acho que tem muitos desafios, né? Se pensar, você conseguir fazer a pessoa ficar lá na internet, é um questionário grande mas se você conseguir prender a pessoa ali na internet pra ele responder esse questionário, nem todo mundo tem banda larga, e as pessoas estão indo até o final respondendo. Acho que também tem outro desafio, é essa coisa da pesquisa virtual, do tamanho que ela é com a idéia que ela tem que é comparar internacionalmente e regionalmente salário e condições de trabalho. Como é que você faz isso, você não tem controle sobre as pessoas que estão entrando ali pra preencher o questionário, então não é uma mostra controlada, você não mandou uma carta pra casa de fulano ou bateu na casa de beltrano dizendo “Olha, eu vim aqui conversar com você”. Não é, o mundo entra ali, né? A gente vê como é que a gente vai pegar essas informações pra poder comparar no final. Porque eu posso ter 10 empregadas domésticas lá da região Nordeste, eu posso ter 10, 50 professores de uma outra região. É ver como é que essas informações vão chegar e ver como é que nós vamos conseguir fechar pra poder realmente ter comparação possível. P/1 – Hum, hum. P/2 – O site, então, ele trabalha com uma lógica que é mais ou menos aquelas da pesquisa do Dieese só que no caminho invertido, dessa vez é o pesquisado que... R- É, o pesquisado vai até lá, é isso mesmo. Que é uma coisa completamente nova. Eu acho que mesmo na Holanda, mesmo nos países que começaram é um desafio grande pra todo mundo, né? A gente sabe que, assim, tá tendo sucesso porque os questionários estão sendo respondidos, e as pessoas estão entrando no site. A gente fez uma parceria com o UOL que é uma coisa super legal, a gente boa uma notinha lá, manda a coisa pro UOL, o UOL bota lá na frente, o cara que entrou no UOL vai parar no site. Mas responder a pesquisa é outra coisa. Ir até o final da pesquisa é outra coisa, é um questionário grande, você leva mais de 20 minutos com certeza, pra responder, não é rápido. P/1 – Você falou que esse é um dos trabalhos que você faz. Quais são os trabalhos que você faz. R – A gente faz atendimento a imprensa. Faz, encaminha as pessoas, pauta, ajuda a resolver problema, organiza os coletivos, faz revisão de texto, edita as publicações do Dieese. Bom, de certa forma eu ajudo a Rosana com essa história dos 50 Anos do Dieese porque tudo que tem de publicação, tudo que tá por trás disso cd, eventos, tudo passa pela gente lá com essa coisa de integrar todas as pernas de comunicação do Dieese. O próprio site do Dieese que a gente tá rediscutindo, estamos fazendo agora uma política de relacionamento, de relacionamento do Dieese com os sócios, de relacionamento do Dieese com a sociedade. Então tá tudo ali. P/1 – Como é que é o seu cotidiano, assim, um dia normal de trabalho? R – Atrapalhado. [RISOS] P/1 – Você, quantas horas por dia mais ou menos assim? R – Eu trabalho oito horas por dia no Dieese, mas de verdade acaba sendo sempre mais porque a gente nunca dá conta de fazer o que a gente tem pra fazer, né? É uma demanda um pouco extensa assim. Mesmo a gente tendo feito uma contratação, é a Michele que tá trabalhando no Meu Salário, ela ajuda ali com o site. A Michele tem uma jornada de seis mas ela também vai ficando, e ela tá também meio apaixonadinha pelo Dieese [RISOS], então esquece, vai embora e fica também. P/1 – Como que as pessoas se apaixonam assim pelo Dieese assim [RISOS]? Conta pra gente isso. R – É o que eu tô te falando, acho que são as pessoas que estão ali a mais tempo, você vai se apaixonando e assim, né? Tá sempre planejando alguma coisa legal, aí “Vamos fazer porque com isso nós vamos descobrir aquilo”. Acho que junta a curiosidade, junta as pessoas, não sei explicar. P/1 – Como que é essa relação, assim, no dia-a-dia, assim, que faz com que as pessoas gostem de trabalhar e fiquem, não reclamem? R – Eu não sei te explicar, eu acho que só entrando pra saber. [RISOS] P/1 – Quais são as maiores dificuldades que vocês, que você particularmente enfrenta no dia-a-dia? R – Eu acho assim, a gente tem um pouco desconhecimento dos técnicos e do tempo que a gente leva pra fechar determinadas coisas e terminar. A gente leva um tempo muito grande fazendo alguns trabalhos, fazendo todos os trabalhos, na verdade, que eles chegam com muito pouco tempo pra gente fechar e divulgar. Então, já teve publicação de ter um lançamento marcado num dia “x” mas ela, sei lá pra daqui duas semanas, mas ela só chegou pra gente finalizar, editar, diagramar faltando duas semanas, entendeu, aí chegou hoje aqui. Porque o pessoal fica lá com cuidado, com rigor, não pode escapar nada. E assim, a versão final demora de sair, passa pra um e passa pra outro que vai encontrar e é sempre muito, muito, muito longo. P/2 – Em certo aspecto tem aquele clima de fechamento de edição, assim, as coisas chegam meio nos 45 do segundo tempo? R – Chegam nos 45 do segundo tempo. Pior, né, porque elas são muito maiores e você não decide sobre determinadas coisas, você precisa de outros, de outras pessoas, de outras opiniões, então isso, eu acho que é o maior desafio nosso é tentar. É isso, eu acho que é um desconhecimento geral que talvez nos últimos anos a gente tenha conseguido mostrar pra algumas pessoas que a gente precisa de um tempo também porque se não a coisa não vai sair legal no final. A gráfica precisa de um tempo também pra imprimir uma publicação, se chover, a tinta não vai secar, né, se o tempo estiver úmido a tinta não vai secar. Então, a gente tá sempre contando com que tudo no mundo vai dar certo, que o cara que tá diagramando a tua publicação não vai queimar o computador dele, ele não vai. Sempre contando com tudo maravilhoso, é sempre assim. Acho que algumas pessoas estão entendendo assim, depois de alguma insistência nossa. P/1 – Tá. Então, se você pensa, assim, no Dieese olhando meio de fora, assim, você consegue enxergar problemas em coisas que você acha que deveria ser diferente? R – Olhando de fora? P/1 – É, se você olha de uma coisa, assim, que você tá fora. R – Ah, de fora eu acho que não. Até essa coisa que eu tô te falando do tempo, né, eu quando trabalhei com os técnicos de subseção lá junto eu achava que era tudo no tempo certo, tudo maravilhoso, que o Dieese tinha uma área de comunicação gigantesca porque eu não parava de ver o Dieese na imprensa. Todo mundo falando bem do Dieese o tempo todo, e as pessoas que trabalhavam no Dieese com aquele amor pelo Dieese. Você fica imaginando que é o processo de trabalho mais maravilhoso que existe porque a impressão é que funciona tudo muito bem, né? Você não tem essa coisa que eu tô te falando, por exemplo, do tempo escasso pra fechar, parece que isso não acontece. Então, vendo de fora não parece que tem problema. A não ser, assim, os problemas de finanças que todo mundo sabe que o Dieese tem. P/1 – Mas que não é um problema interno, né? R – Não, não é, é outra coisa. P/1 – De contexto, né? P/2 – A gente sabe também que o Dieese não é algo aqui de São Paulo, ele é do país inteiro. E como é articulada essa coisa, informação? R – É difícil, porque... P/2 – Pra distribuir de volta. R – Não, é muito difícil porque muitas vezes a gente tá aqui e fica sabendo que o Dieese lá de Paraná fez uma divulgação de um trabalho que tá repercutindo um monte, e fica sabendo porque a imprensa começa a ligar querendo saber o que a gente não tem a mínima idéia do que que se trata. É complicado, muito complicado. E eu achava, “Será que meu Deus é só um problema nosso?” E eu comecei a estudar e ver grandes empresas, Petrobras, todo mundo que é, Embrapa, acho que a Embrapa conseguiu resolver isso agora. Mas é uma coisa meio comum pra empresa, pra instituição que está descentralizada, parece que isso acontece muito em todos os lugares, você não tem muito como ter controle por mais que você tente se organizar pra ter, né, pra dizer “Vamos distribuir junto, vamos pensar como fazer a divulgação junto”. Acho que não sei, a gente tá tentando trabalhar pra tentar ter uma solução, mas gente que tem muito mais recurso que a gente, que tem muito mais gente trabalhando, muito mais investimento em comunicação não consegue organizar a comunicação a ponto de ter esse controle pra poder fazer escoar as coisas. Então, eu não sei se a gente consegue também. P/1 – Geni, você tem uma experiência bem grande na sua área de jornalismo e você está no Dieese relativamente a pouco tempo, né, se comprar com outras pessoas. R – Hum, hum. P/1 – Então, eu acho que você tem a condição de fazer uma avaliação do reconhecimento social do Dieese bem realista assim, porque você até pouco tempo você estava... R – Do lado de fora. P/1 – Do lado de fora. Como você acha que o Dieese é reconhecido socialmente? R – Eu acho que todo mundo confia no Dieese. E eu acho que tem razão de confiar vendo agora de perto. As pessoas com quem eu convivi do Dieese eu acho sempre assim, gente muito séria, muito “Vamos fazer direito, vamos fazer direito”. E dentro do Dieese a mesma coisa, né? Então, eu acho que o Dieese é visto como uma entidade séria, eu sempre vi desse jeito e acho que tem razão pra ser uma entidade confiável, eu tenho enxergado desse jeito. Eu posso até estar enganada, porque de certa forma mesmo estando do lado de fora antes eu sempre conhecia gente que tinha a ver com o Dieese que pra mim era isso, né? Talvez eu visse um pouco com os olhos deles, né, talvez não, não sei, mas eu acho que é uma entidade séria. P/1 – E quando você entrou esse rigor, assim, se confirmou? R – É, porque é isso que eu tô te falando as pessoas ficam “Não, isso não pode falar porque a gente tá saindo do que é técnico”. Então, fica aquele cuidado com as coisas que a gente acha que não vão alterar nada. E aí fica “Não, isso a gente não pode falar porque isso já não é técnico, não, essa análise aqui pode ser complicada por tal e tal razão, vamos pensar como é que a gente faz só do ponto de vista técnico.” É isso o tempo inteiro. P/1 – É uma operação bem minuciosa? R – É, é muito minuciosa, acho que às vezes é demais minucioso, mas é. P/1 – Como que você avalia a evolução do Dieese nesses 50 anos? R – Eu não sou capaz de te falar isso, não seria a pessoa. Não tem como, não tenho elemento. P/1 – E você, qual que é a perspectiva para o futuro assim? R – Se a gente conseguir organizar tudo que a gente tá pensando, ter uma política de relacionamento que eu acho que alavanca. Você consegue estruturar um monte de área, criar uma área de negócio pra alavancar recurso pro Dieese do jeito que a gente quer, eu acho que as perspectivas são boas. Mas evidentemente a gente depende de uma série de outras coisas, a gente não sabe o que vai acontecer no âmbito político, por exemplo. A gente hoje tem grande parte da nossa receita que vem de recurso de projeto que a gente desenvolve aí com o governo federal, do governo Fernando Henrique Cardoso pra cá, né? Que projetos conjuntos do Dieese com o governo federal, mais Ministério do Trabalho e Emprego, FINEP [Financiadora de Estudos e Projetos], já vai vários projetos já que vem sendo desenvolvidos no Dieese. A gente não sabe se isso, se permanece, continua, né? Então, depende um pouco disso também, mas se tudo, se esta parte permanecer como tá, se a gente conseguir continuar fechar esses convênios, se a gente conseguir alavancar uma campanha de relacionamento, uma campanha de filiação que é o que a gente quer fazer com os sindicatos, conseguir trazer gente pro Dieese eu acho que funciona bem. P/1 – Tá. Considerando, assim, as relações de trabalho, você acha que há uma demanda do trabalho do Dieese? R – Eu acho sim, cada vez mais, né? É bom para um lado, ruim pro outro. P/1 – Tá. Então, eu queria formular uma pergunta diferente, assim, mudando de assunto também. As pessoas demonstram um envolvimento muito pessoal, né, e você também demonstrou. Como que é isso? Como que é a sua vida pessoal e o Dieese? Você acha que está interligado? Como é que funciona assim? R – [RISOS] Olha, a até pouco tempo atrás era bem problemática por causa do Dieese. [RISOS] Mas é... Bom, agora meu marido tá trabalhando em outro estado, então, mas é, eu acho que todo mundo se envolve demais com o Dieese. Eu ouço muita gente dizer assim: “Ah, o meu marido tá reclamando” ou “A minha mulher tá reclamando” porque acaba-se dando uma desequilibrada, não tem jeito de não dar, dá sim. P/1 – Você tem um movimento bem. É, assim, uma coisa separada o seu trabalho da sua vida ou não? R – Não. P/1 – Da sua vida pessoal? R – Não, não é, porque no Dieese não dá pra ser. Você se envolve a um ponto que você leva pra você, entendeu? É isso que eu tô te falando, você sai pra suas férias, a gente até brinca, o Clemente tirou férias a gente ficou assim: ele deve ter ficado lá na praia olhando a gaivota, “O que que essa gaivota podia fazer no Dieese?” [RISOS] Mas a gente, todo mundo é meio assim no Dieese, entendeu? Não tem jeito de não ser, é uma coisa esquisita, eu nunca vivi isso porque eu sempre ia embora e deixava o trabalho lá, e agora não você vai embora e fica, você tá lá no seu momento de lazer e fica “Ah, mas como é que eu resolvo isso?” É muito engraçado, né? P/1 – E a sua família, eles compreendem isso, assim? R – Não, o meu marido já, agora eu acho que ele já tá numa fase melhor porque agora ele tá trabalhando fora, tá trabalhando em outro estado mas no começo era bem complicado, muito complicado. Até a minha filha, ela era pequenininha logo que eu entrei, eu lembro um dia eu na mesa e a gente comendo, eu assim preocupada com uma coisa que eu queria resolver e ela: “Mamãe, que que você tá com essa cara de limão, heim?” E eu: “Como assim cara de limão?” “Aposto que tá pensando em algum problema do Dieese!” Tinha uns dois ou três anos, sabe, mas já fazendo esse raciocínio, até porque ouvia o pai falar também, “Para de trabalhar, fica aqui com a gente!” Porque mesmo quando você tá, você tá pensando em alguma coisa como que você faz pra resolver, né? Como é que você melhora alguma coisa que você tá fazendo, como é que você podia ter feito de outro jeito pra ter ficado melhor. É muito engraçado. P/1 – E quais foram as principais lições que você tirou da sua carreira de jornalista? R – Da minha carreira? Olha, eu acho que hoje a principal assim é que o jornalista sabe muito pouco, né? Esse meu trabalho no Dieese ele me deu uma experiência, assim, que é uma experiência. Que eu tô unindo no Dieese pela primeira vez na minha vida tudo que eu aprendi de comunicação e tudo que eu não aprendi eu tô sendo obrigada a aprender, eu acho que eu nunca li tanto sobre comunicação e sobre jornalismo como desde esse período que eu entrei no Dieese. Então assim, eu descobri que eu sabia muito pouco, porque o que eu sabia fazer era fazer o jornal do começo ao fim, tudo bem, editar, fechar, diagramar, fosse o que fosse, escrever. E o Dieese especificamente ele me deu, acho que ele me proporcionou fazer muito mais coisa do que eu sabia fazer e do que eu pensei que pudesse fazer. Que é pensar essa coisa inteira, sabe? E hoje eu fico às vezes conversando com jornalistas e eu começo a perceber que os jornalistas são meio ingênuos ainda, eu falo: “Gente, mas eu já não sou mais assim, foi o Dieese que me ajudou a não ser” por conta dessa história toda. E a minha convivência com o próprio Clemente, porque o Clemente é um cara, ele começa a falar de vez em quando e você fala: “Nossa, eu quero ser assim!” Porque ele tem uma visão de tudo e começa a te obrigar a ter essa visão também, porque você tá trabalhando com ele, né? Então, é uma coisa interessante ver. Eu acho que hoje eu sei muito mais do que eu sabia nesses seis anos, assim, que eu estou no Dieese, aprendi muito mais do que no restante dos anos todos. P/1 – E o que que você acha do Dieese tá agora parando. Parando não, mas tá fazendo esse momento de reflexão, de resgate da história com esse projeto da memória. R – Não, acho muito importante. Estava até brincando com ela, falei pra Rosana – é Maíra, né? P/1 – É. R – Que eu quero ficar trabalhando aqui depois, porque vocês são tão engraçados, tem uma linha assim que une todo mundo, muito engraçado, né? E pra gente seria uma coisa legal porque por mais que tenha essa união, essa coisa toda, você vê a gente precisou de buscar a fotografia e tinha na casa das pessoas, tinha da festa, tinha do encontro “Não sei o quê”. Porque não tem de verdade, nunca teve, não tem registro, não tem história registrada ali. Mas acho super legal, acho super precioso. Acho que não tem. Acho que a gente tá de certa forma conseguindo dar conta de tudo. Mas se tivesse esse trabalho sendo feito regularmente, né, não só pessoalmente eu fui lá, fotografei, eu me lembro de tal coisa porque tá na minha cabeça, mas se tivesse o registro esse trabalho... (FIM DA PRIMEIRA FAIXA) P/1 – Então, só pra finalizar, é a última pergunta. O que que você achou de ter participado desse projeto de memória? R – Pois é, eu acho legal, lógico, a iniciativa e tal, mas eu acho que eu tenho muito pouco a acrescentar, né, como eu falei pra vocês desde o começo porque eu não tenho registro de muita coisa, eu não tô a muito tempo. Talvez outras pessoas que tenham mais coisas pra falar, que já passaram por mais áreas devessem estar aqui. Mas de qualquer forma eu fiquei feliz de tá. P/1 – A sua história profissional interessa ao Dieese. R – Hum, hum. P/1 – Mesmo que você esteja, interessa a nós também, ao projeto. P/2 – Porque ela compõe um leque de diversas visões. E é indiferente se tem cinco anos, se tem 50. P/1 – É. O que a gente tá querendo dizer é que a sua história também é importante pro Dieese. R – Hum, hum. P/1 – Obrigada. R – Imagina.

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