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História

A oportunidade para mudar a realidade

História de: Daiane Pessoa da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/02/2021

Sinopse

A história de Daiane mostra como uma oportunidade pode mudar a realidade de alguém. Daiane sempre ajudou em casa e, quando conheceu a Casa do artesão, aproveitou a chance para aprender a costurar, a fazer artesanato, e hoje segue com os cursos de lá e com a vontade de crescer. Daiane teve uma realidade muito difícil e o que mais quer é se aprimorar ao máximo para ajudar sua mãe a ter uma vida melhor e para tirar sua irmã da dependência química.

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História completa

Projeto Instituto Camargo Correa

Entrevistada por Márcia Ruiz

Depoimento de Daiane Pessoa da Silva

Nossa Senhora do Socorro, 15 de Abril de 2011

Realização Museu da Pessoa

Entrevista ICC_HV020

Transcrito por Denise Yonamine

Revisado por Mariana Coelho

P/1 – Boa Tarde Daiane.


R – Boa tarde.


P/1 – Eu vou fazer algumas perguntas que eu já fiz pra você, mas que eu quero que você responda pra deixar registrado, tá bom?


R – Ta bom.


P/1 – Um minutinho só... [continuação] Pra início eu gostaria que você dissesse seu nome, local e data de nascimento.


R – Daiane Pessoa da Silva, eu moro aqui no Conjunto Albano Franco, rua 127, número 34, minha data de nascimento é 21 de dezembro de 1992.


P/1 – Como é que é o nome dos seus pais, Daiane?


R – Rita Pessoa de Andrade e Liberato (Cirilo?) da Silva.


P/1 – E o que seus pais fazem?


R – Minha mãe é empregada doméstica, né, e meu pai ele vive de bico, sabe? O que arranjar ele faz, pintura, tudo.


P/1 – Você tem irmãos Daiane?


R – Tenho dois irmãos, um homem e uma mulher.


P/1 – E como é que é o nome do seu irmão?


R – Deivid Pessoa da Silva.


P/1 – E quantos anos ele tem?


R – Ele tem 20 anos.


P/1 – E a sua irmã tem quantos anos?


R – 24.


P/1 – Qual que é o nome dela?


R – Rafaela Pessoa da Silva.


P/1 – E o quê que eles fazem hoje da vida?


R – Meu irmão tá... constituiu a família dele, né, ta casado, trabalha, carteira assinada, tem filho e minha irmã é viciada.


P/1 – Ela é viciada em que?


R – Em crack.


P/1 – E ela começou o vício com quantos anos?


R – Com 15 anos.


P/1 – E ela começou aonde? Foi na região?


R – Foi na escola, né, amigos.


P/1 – E onde ela tá hoje? Ela mora com vocês?


[interrupção – emoção da entrevistada]


P/1 – Hoje ela não mora com vocês mais, hoje ela mora na rua é isso?


P/1 – E você mora com quem? Com a sua mãe?


R – Isso, minha mãe e meu padrasto.


P/1 – Ta. Você nasceu aqui mesmo nessa região?


R – (Aratai?) por aqui, sabe na casa de colegas? Em praças, sabe?


P/1 – E me fala uma coisa você nasceu em Aracaju?


R – Isso.


P/1 – E quando que vocês vieram morar pra cá pra Nossa Senhora do Socorro, você lembra?


R – É, a gente já mora aqui sabe? Só que a maternidade, né, é que aqui é um município e Aracaju é outro, né, aí a maternidade era lá, só que eu moro aqui desde o dia que eu nasci, em Nossa Senhora do Socorro.


P/1 – E você sempre morou nessa casa que seus pais moram hoje ou não?


R – Não, a gente morava numa invasão, sabe, aí o governo, né, deu as casas do conjunto, aí minha mãe foi beneficiada com a casa.


P/1 – E você lembra como é que era essa casa quando você era pequena onde vocês moravam antes?


R  - A gente morava na invasão, né, com 101 famílias, aí o governo, né, deu essa casa a minha mãe e a gente tinha três anos, vai fazer três anos em outubro que a minha mãe ganhou essa casa dela.


P/1 – E nessa invasão como é que vocês viviam lá? Era casa de madeira? O quê que era?


R – Era de tábua, sabe, de ripa, de papelão, de plástico.


P/1 – E você morava lá com quem quando você era pequena?


R – Com a minha mãe, minha irmã e meu irmão.


P/1 – E teu pai também vivia com vocês nessa época?


R – Isso.


P/1 – E como é que era o cotidiano de vocês assim? Vocês brincavam, vocês faziam alguma outra coisa, Daiane?


R – É. Estudava, né, que minha mãe sempre nos ensinou a estudar primeiro, mas sempre tinha o problema da minha irmã, né? Sempre vinha o problema da minha irmã que já era já de pequena, com as amizades dela acho que influenciada também, né, na escola e em tudo.


P/1 – Mas isso você está falando quando ela tinha uns 15 anos e quando vocês eram mais novinhas, vocês iam pra escola juntos?


R – Isso, tudo junto.


P/1 – E aí essa escola que vocês estudavam era perto de casa?


R – Isso, é. 

P/1 - E como é que era essa escola? Conta pra gente.


R – É municipal, escola municipal, que eram das crianças que moravam mesmo nos barracos, né, na invasão e do município, daqui.


P/1 – Você lembra de como é que era essa escola, o nome da sua professora?


R – Não, faz tempo.


P/1 – Você ia pra escola pela manhã ou à tarde?


R – Pela manhã, os três juntos, sabe? Ela sempre levava...


P/1 – Quem que levava era a tua irmã mais velha?


R – Isso, é, que ela estudava a tarde, que tem períodos de maior, sabe, pela tarde, menor pela manhã.


P/1 – Então ela levava vocês pela manhã e depois ia buscá-los?


R – Isso, isso.


P/1 – E sua mãe estava sempre trabalhando?


R – Trabalhando.


P/1 – E quando você chegava em casa a tarde com quem você ficava?


R – Com a minha irmã, ela ia pra escola, aí eu ficava mais meu padrasto, meu irmão e eu, deixava o almoço pronto, sabe?


P/1 – Ela que deixava o almoço pronto?


R – Isso, aí tinha banca, né, de tarde, aí eu ia pra banca, mais meu irmão, quando chegava minha mãe já estava em casa.


P/1 – O quê que era essa banca?


R – Um reforço escolar.


P/1 – Ah, então vocês voltavam pra escola a tarde pra ter reforço escolar?


R – Isso, reforço escolar.


P/1 – E como é que era essa escola? Vocês brincavam, vocês tinham recreio, como é que era?


R – Ah, era lanche, né, outras crianças também, ensino bom.


P/1 – Você tem amizades dessa época ou não?


R – Tenho, que é de onde a gente morava, alguns, de onde a gente morava.


P/1 – E você estudou nessa  escola até com quantos anos?


R – Até com uns 11 anos.


P/1 – E o quê que você brincava? Você brincava de alguma coisa até estar com 11 anos?


R – Brincava.


P/1 – Brincava do que?


R – De queimado, né, esconde-esconde, muitas coisas.


P/1 – Você brincava com quem?

R – Com os meus colegas, com meu irmão, né, eu sou muito apegada ao meu irmão e colegas, né, da rua, que estudavam lá.


P/1 – E aí quando a sua mãe.... o governo fez essa construção dessa casa pra sua mãe, a sua mãe pegou, ela fez a inscrição e pegou essa casa?


R – Isso, é, é que ela vivia mais de dez anos num barraco, né, aí já tava... eles achavam que já tava na hora de tirarem de lá, né? Aí tirou, beneficiou minha mãe com a casa, 101 famílias, sabe, num conjunto.


P/1 – E como é que é essa casa hoje em que vocês vivem?


R – Dois quartos, sala, cozinha e banheiro.


P/1 – Ta. E dormiam num quarto sua mãe com seu padrasto e no outro, você, seu irmão e sua irmã?


R – Isso.


P/1 – E me fala uma coisa, sua irmã ela entrou no vício do crack ainda quando morava no barraco ou não?


R – Isso, quando morava no barraco.


P/1 – E como é que era conviver com ela? Era muito difícil?


R – Era, ela... quando fumava, primeiro ela começou com cigarro branco, né, aí depois foi por álcool, aí a minha mãe falando, dando conselho, né, aí se juntou com um namorado, né, namorou com o rapaz, aí virou a cabeça dela, né? Aí ela começou a ir pra maconha, aí minha mãe sentia o cheiro, né, a mão amarela, chegou a bater, levou pro psicólogo, né, que bater não adianta, aí levou pro psicólogo e nada. Ela já estava transtornada e foi pro crack agora. Aí está se acabando, magrinha, chega a estar ruim mesmo.


P/1 – E aí quando vocês vieram morar pra cá você mudou de escola?


R – Isso.


P/1 – E para qual escola que você veio? É aqui da região?


R – É daqui, bem próximo aqui, perto da minha casa.


P/1 – E você está fazendo o que nessa escola? Você estuda o que?


R – Eu estudo Ensino Médio, né, que aqui é o Ensino Médio, só falta só esse ano para acabar.


P/1 – E você pretende continuar estudando?


R – Pretendo, fazer cursos, né?


P/1 – E me fala uma coisa dessa escola você estudou o primeiro, segundo e terceiro colegial, é isso?


R – Até a 5ª série, sabe, que no municipal tem até a 5ª e da 5ª série em diante já é outra escola, estadual.


P/1 – E aí essa escola que é aqui perto você está desde a 5ª série nela?


R – Isso, que a minha mãe não gosta de estar mudando, sabe, de escola.


P/1 – E tem algum professor que te marcou nessa escola, assim que foi um exemplo pra você, que você gostava?


R – Tem, até hoje, né, que eu continuo da primeira ou agora, ultimamente?


P/1 – Não, ultimamente, você tem dessa escola toda, esse tempo todo que você está nessa escola teve algum professor que te marcou, que você gostou?


R – Gosto...


P/1 – Que você gosta?


R – Gosto.


P/1 – Quem é?


R – A minha professora.


P/1 – Do quê?


R – De Geografia.


P/1 – E como é que é o nome dela?


R – Márcia.


P/1 – E por quê que você gosta da aula dela ou dela?


R – Atenciosa, paciente, né, conversa comigo, tudo, sabe do meu problema da minha irmã, né?


P/1 – E aí você falou que você quer continuar fazendo cursos, é isso?


R – Isso.


P/1 – E que curso você gostaria de fazer Daiane?


R – Aprendizagem, né, para crescer mais, melhorar, que eu me considero uma pessoa super inteligente.


P/1 – E me fale uma coisa Daiane, como é que é o cotidiano hoje na sua casa? Hoje a sua irmã não mora mais, quanto tempo faz que ela não mora com vocês?


R – Vai fazer um ano, só que não mora assim, sabe, chega... quando ela ta com fome ela aparece, e a minha mãe dá um prato de comida, sabe, dorme, descansa. Eu dou roupa, sabe, dou algum chinelo que eu não quero, converso, mas quando ela bota na mente ela vai de novo, sabe, para a rua e fica dois, três meses sem ligar, sabe?


P/1 – E me diz uma coisa, e seu irmão casou há quanto tempo Daiane?


R – Vai fazer um ano que meu irmão ta casado.


P/1 – E ele também parou de estudar, continua estudando, como é que é?


R – Não, ele não terminou o Ensino Médio, sabe, aí ele está trabalhando e ele engravidou a mulher dele, né, aí o trabalho dele é o dia todo, aí não dá pra ele estudar, só chega lá sete horas da noite, aí não tem como ele estudar.


P/1 – E ele trabalha com o que?


R – Ele trabalha de serviços gerais, sabe?


P/1 – E tua mãe hoje continua trabalhando Daiane?


R – Continua.


P/1 – Ela faz o que hoje?


R – Ela cuida da sogra dela, sabe, que é doente, pressão alta, aí ela cuida da sogra.


P/1 – E o teu padrasto faz o que?


R – Meu padrasto ele é pintor, né, vive de bico, que quando ele entrega currículo, né, também porque ele já está velho, né, aí não querem mais assinar a carteira, né?


P/1 – E o seu pai você tem contato com ele ou não?


R – Tenho, mantenho contato com meu pai.


P/1 – E onde ele mora? Ele mora aqui perto?


R – Mora, mora perto da casa do meu irmão em Aracaju.


P/1 – E Daiane me fala uma coisa, como é que você entrou pro grupo aqui da Casa do Artesão?


R – Eu tenho uma vizinha, né, e ela tava aqui também fazendo uns trapos, né, aí eu sempre pedi a ela, arranja uma vaga pra mim, arranja uma vaga pra mim, aí ela disse “vai lá”, aí eu vim, aí eu conheci Vanisia primeiro, né? Aí ela me botou como... pra ajudar ela, né? Aí dando uma aula em comunidade, aí aprendi com ela... to aprendendo ainda com ela muitas coisas.


P/1 – Você dá aula na comunidade ainda?


R – Isso.


P/1 – E que aula você dá?


R – É tipo... sobre garrafas pets, né, reciclagens, tudo sobre a reciclagem, com crianças, adultos.


P/1 – E a aula o quê que é? Vocês ensinam eles a reciclarem o material...


R – Isso, o material que pra eles não é nada, né, que pra eles é lixo, pra gente é uma riqueza.


P/1 – E aí vocês ensinam eles a fazerem o que?


R – (Puff?) esses (puffs?) de sentar, brinquedo educativo, tudo que se pode reaproveitar do lixo orgânico a gente...


P/1 – Ensina pra eles?


R – Ensina pra eles.


P/1 – E aqui você está fazendo, você estáa aprendendo a costurar também?


R – Isso, aprendi a costurar.


P/1 – E hoje aqui o quê que você faz?


R – Eu costuro, né, faço de tudo um pouco, né, quando Vanisia precisa eu to com Vanisia, quando Cris precisa, eu to com Cris.


P/1 – E hoje você continua morando ainda com os seus pais, é isso?


R – Isso.


P/1 – E por quê que você quis trabalhar? Por quê que você quis vim pra cá?


R – Porque pra ter o meu dinheirinho extra, né, que queira que não eu ganho e que... que minha mãe já recebe pouco, né, aí eu tenho gasto, né, eu faço curso de noite, aí pronto. Pra mim mesma, sabe, pra mim mesma meu dinheiro. E fiz daqui, do meu dinheiro daqui, eu fiz uma casinha no fundo da casa da minha mãe.


P/1 – É?


R – É.


P/1 – E como é que foi isso?


R – Com o dinheiro daqui.


P/1 – E por quê você teve a idéia de fazer uma casinha?


R – Porque eu já... eu tenho um namorado, há três anos, né, já e a gente sempre está pensando só em namorar, em casar, né, aí eu fiz no fundo da casa de minha mãe uma casa pra mim.


P/1 – E quantos quartos tem ela?


R – Tem um quarto, sala, cozinha, banheiro.


P/1 – E quanto tempo faz, esse teu namorado ele faz o que?


R – Ele trabalha.


P/1 – Ele trabalha com o que?


R – Ele trabalha de ajudante de estive.


P/1 – Mas ele trabalha aqui em Nossa Senhora do Socorro?


R – Não, em Aracaju, lá na Coca-Cola.


P/1 – E ele estuda também ou não?


R – Estuda a noite.


P/1 – Ele faz o mesmo curso que você?


R – Isso


P/1 – Como é que você conheceu ele? Conta pra gente um pouquinho.


R – Na escola, conheci ele na escola, aí ele pediu pra namorar, minha mãe deixou, aí pronto, a gente ta namorando até hoje.


P/1 – E quantos anos ele tem?


R – Ele tem 19, está novo também.


P/1 – Você ta grávida de quanto tempo?


R – Vou fazer oito.


P/1 – Mas vocês queriam ter filho logo ou não?


R – Não.


P/1 – Foi descuido mesmo?


R – Foi [risos]


P/1 – E agora a tua ideia é casar e morar...


R – Isso, na minha casa.


P/1 – E essa casinha que você conseguiu construir foi todo do dinheiro que você conseguiu aqui trabalhando?


R – Aqui, aqui, minha mãe disse que era pra mim pensar em mim, né, aí eu comprava uma coisa, comprava um cimento, comprava, né, eu e ele sempre, aí está levantada, já to até morando.

P/1 – E quem ajudou você a construir a casa?


R – Ai, acho que assim, Vanisia, né, porque ela me deu a minha oportunidade, né, primeiro emprego, né, aí ela me ajudou bastante, está  me ajudando, né?


P/1 – E aí quem construiu a casa foram vocês mesmos ou você contratou pedreiro?


R – Ah, conhecido, né, sempre tem algum tio, algum parente que faça um reboco, que bote uma porta e quando não sabiam, quando não tinham, né, pagava.


P/1 – Então hoje você já está morando na sua casinha?


R – Isso, no fundo da casa da minha mãe.


P/1 – E como é que funciona aqui a organização do grupo? Conta pra gente um pouquinho Daiane.


R – Ah, eu considero aqui como a minha segunda casa hoje, né, eu to aqui como se fosse a minha segunda casa, aqui é muito maravilha, eu amo aqui...


P/1 – Há quanto tempo você está aqui?


R – Nove meses que eu to aqui e não pretendo sair de maneira nenhuma, só, né, que eu vou ficar de resguardo e ela já falou que eu posso voltar que as portas estão abertas pra mim.


P/1 – Como é que você sente aqui a relação das meninas, com as outras pessoas, como é que é?


R – As meninas aqui me ajudaram, sabe, no dia do meu aniversário elas disseram “não vou dar nada pra você, vamos coisar a sua casa”, me deram mil blocos, sabe? Uma me ajuda com cimento, uma me ajuda, sabe, uma cooperativa, todo mundo é amiga de todo mundo aqui dentro.


P/1 – E me fala uma coisa, Daiane, como é que era antes, você entrou há pouco tempo aqui, faz nove meses. Mas como é que era no começo, você sente diferença de quando você entrou pra agora?


R – Mais ou menos, porque quando eu entrei eu fiquei acanhada, né, não sabia fazer nada de artesanato, nada, aí, né, eu aprendi com esforço, com calma, me ensinando, paciência, e agora eu to até na costura, né?


P/1 – E o quê que você fazia de artesanato, você fazia coisas com garrafa pet, você fazia boneco, (puff?)?


R – Isso tudo que Vanisia ensinava, eu aprendia rápido, aí ela disse “eu não quero lhe perder”, aí pronto.


P/1 – E que tipo de artesanato você gosta de mexer mais, você gosta de fazer?


R – Ah, eu gosto de fazer os (puffs?), né, que é interessante e ninguém acredita que é de garrafa pet, né?


P/1 – E você fez boneca também?


R – Faço boneca, (coela?), santos, né, muitas coisas.


P/1 – E você continua dando aula hoje na comunidade?


R – Agora não, né? Ela ta com outra pessoa, porque acho que ela pensa que vai ser muito pesado pra mim, né, lidar com muitas crianças, de barriga, aí ela me deixou do lado um pouquinho.


P/1 -  E como é que é que vocês... vocês chegam na comunidade e vocês oferecem o curso ou as pessoas têm interesse de fazer?


R -  Eles gostam, né, é uma escola, sempre é em escola, aí você pega crianças, jovens, adultos, idosos. A gente já vai com aquela meta de dar aquele curso.


P/1 – Aí vocês misturam crianças com adultos?


R – Não.


P/1 – É tudo separado?


R – Tudo separado, é. Crianças é brinquedo educativo com as garrafas pet, né, aí os idosos já é com (puff?), os adolescentes já são com outra coisa.


P/1 – Adolescentes vocês trabalham com o que, que tipo de artesanato?


R – Com santos, com tudo que é de reciclagem para que eles, que pra eles pensam que não é nada, né, bebe ali o refrigerante, jogou, pronto, não serve mais, mas eles chegam e ficam impressionados em ver, né, esse negócio feio, não vai dar em nada, mas quando a gente termina o acabamento, faz uma coisa, com paciência, faz outra acabam amando.


P/1 – E vocês trabalham também [interrupção]. Vocês além de ensinar o artesanato com garrafa pet, vocês também ensinam eles a reciclarem esse material, é isso?


R – Isso, reciclar, guardar, nós pedimos a eles pra guardar pra próxima aula, a gente pega com eles, ensinar, o que eles levam pra casa o que aprendeu pra mostrar pra mãe, pros amigos que ele mesmo fez, né, e de onde veio.


P/1 – E Daiane me fale uma coisa, o quê que mudou na sua vida esse trabalho?


R – Que hoje eu me considero uma pessoa independente, né, hoje eu me considero uma pessoa independente, dependo de mim mesma, sabe? Ajudo a minha mãe, agora tudo que eu posso ajudar a minha mãe eu ajudo. Daqui, sobre aqui, né, daqui mesmo, do dinheiro que eu pego aqui, de tudo que eu faço aqui, eu já ensinei a minha mãe a fazer (puff?), sabe, tudo que eu... boneca eu tenho em casa, que eu aprendi a fazer aqui, tudo que eu faço em casa, aqui, eu fiz em casa pra minha mãe saber o que eu faço, né, no meu cotidiano.


P/1 – E ela também tem interesse de aprender ou não?


R – Tem, o que eu ensino a ela “mãe, quando a senhora vir uma garrafa na rua pegue”, ela bota na cestinha da bicicleta, chega em casa eu lavo mais ela, a gente encaixa uma na outra.


P/1 – Então hoje você tem vários móveis em casa feito com garrafa pet?


R – Isso.


P/1 – O quê que você tem lá feito de garrafa pet?


R – Um (puff?), né, peso de porta que eu fiz mais Vanisia nas comunidades, boneca.


P/1 – Daiane me fale uma coisa, quais são seus objetivos daqui pra frente?


R – Ai, agora minha família, né, que é eu, meu marido e minha filha agora, né? Nós, agora, cuidar mais de mim, da minha filha e crescer, né, sempre crescer mais.


P/1 – Você tá morando junto com o seu namorado já?


R – Isso, já.


P/1 – E o quê que ele acha do seu trabalho, ele gosta que você faça essas, essas atividades?


R – Gosta, ele gosta, aprendi que eu não sabia mexer em máquina de costura de jeito nenhum, aprendi, sempre eu to, né, renovando mais, cada dia que passa eu to aprendendo mais do que ficar em casa, né? Eu acho assim que se minha irmã tivesse a oportunidade que eu tive, ela não ia estar onde ela está hoje, eu acho assim, né? Se ela tivesse a oportunidade que eu tive, sabe, de Vanisia ajudar, que Vanisia conversa, ela ajuda quando tem que ajudar, fala quando tem que falar, né? Aí eu acho assim, se eu... se ela tivesse a oportunidade que eu tive ela não estaria no mundo das drogas hoje.


P/1 – Eu queria que você contasse pra mim uma história, uma coisa da sua história de vida que pra você foi muito marcante, o quê que foi marcante nessa história sua de 19 anos, uma menina tão novinha. E o quê que foi marcante na sua vida?


R – Ah, o que está marcando até agora, né, é a minha irmã, né, só.


P/1 – Por quê?


R – Ah, muito sofrimento, muito [pausa – emoção da entrevistada].


P/1 – Essa tua relação com a sua irmã hoje é muito mais... você tem alguma relação com ela só quando ela te procura ou não?


R – Só quando ela me procura, sabe, ela já... roubou a televisão da minha mãe sabe? Já pegou as coisas da minha mãe pra vender... [emoção da entrevistada]


P/1 – Você falou da oportunidade que a sua irmã poderia ter, né? O que você acha mais que poderia ser feito por ela?


R – Um tratamento, né, pra ver se tira ela dessas drogas.


P/1 – E me fala uma coisa, Daiane, como é que é ser mãe pra você? O quê que é ser mãe pra você?


R – É mais responsabilidade, né, minha mãe disse que agora em diante, né, eu vou ter mais responsabilidade, né, que filho não é brincadeira, não é de se jogar fora, e em momento algum na minha vida eu pensei em um aborto, nenhum, em momento algum, mesmo com, né, sacrifício, a gente fazendo a nossa casinha, não era pra ter vindo agora, né? Que a gente está construindo ainda, não está terminada, ainda falta acabamento, né, piso, algum reboco da sala, alguma coisa, mas seja bem vinda, né? Vai ser bem vinda.


P/1 – E você já tem enxoval?


R – Não, ainda não.


P/1 – E me fala uma coisa Daiane, quando a sua filha nascer como é que você pretende continuar trabalhando aqui, continuar estudando e cuidando dela, como é que você quer fazer isso?


R – Eu já falei com a minha mãe, né, que eu pretendo continuar aqui, porque eu aprendi muitas coisas aqui e quero aprender mais ainda, né, aí pedi pra mãe, pra minha mãe cuidar dela, né, quando acabar meu resguardo, aí a minha mãe disse que cuida sim, não tem essa não, ela cuida. Aí eu vou pagar a minha mãe, né, que a minha mãe precisa, né, pagar uma água, pra pagar uma luz, ajudo a minha mãe e minha mãe fica com a minha filha, né?


P/1 – E aí você pretende fazer outros cursos a noite?


R – Isso.


P/1 – Em que área você quer fazer curso Daiane?


R – Ah, de informática que eu não tenho curso de informática, sabe, de muitas coisas, de costura, sabe, calça sociais, blusas sociais, sabe? Pra mim trabalhar aqui, sabe, fazer meu curso e trabalhar aqui como costureira profissional mesmo, sabe, certificado, com tudo.


P/1 – Você gosta de costurar?


R – Isso, gosto.


P/1 – E o quê que é mais importante pra você hoje Daiane, quais são as coisas que são importantes pra você hoje?


R – Pra mim, né, importante é esse emprego, né, aqui que eu não considero um emprego, né, aqui é uma ajuda que eles me dão e minha filha agora, né, que vai nascer.


P/1 – E qual é o seu sonho hoje?


R – Meu sonho, tenho tantos! Ai meu Deus.


P/1 – Não precisa escolher um só, pode falar vários. [risos]


R – De dar um melhor conforto a minha mãe, né, que ela também já está na idade dela, trabalhar, só pensa em trabalhar, eu penso em trabalhar, né, e meu maior sonho é tirar minha irmã dessas drogas, eu ainda vou ver a minha irmã liberta dessas drogas.


P/1 – E como é que foi contar pra gente essa sua história, o pouco que você contou aqui, como é que foi?


R – Nervoso [risos], tímida, né, estou um pouco tímida, porque é chato você está falando, né, assim as nossas coisas, mas foi legal, foi ótimo.


P/1 – Tá bom, eu queria agradecer pra você em nome do Instituto Camargo Correa, em nome do Museu da Pessoa a tua participação em contar a tua história...


R – Obrigada.


P/1 – Obrigada você.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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