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História

A oportunidade de vencer o preconceito

História de: Poli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/11/2013

Sinopse

Poli não encontrou problemas em se assumir como travesti para sua família, desde criança. Mesmo com as dificuldades geradas pelo preconceito, continuou na escola e terminou o ensino médio. A dificuldade em entrar no mercado de trabalho, porém, a levou à prostituição e ao uso de drogas. Nesta entrevista, ela conta como o projeto ViraVida a ajudou a tomar um novo rumo.       

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História completa

Meu nome é Poli.

Quando eu tinha doze anos, os meus avós começaram a me chamar de Poli porque meu avô é surdo e ele escuta muito pouco. Eu fui crescendo, me acostumei com esse nome e adotei para mim. 

Tenho cinco irmãos mais novos, todos homens.

Minha mãe tinha se separado do meu pai e ela veio para cá, onde minha avó mora. Ela trouxe eu e meu irmão, do mesmo casamento.  

Ser o irmão mais velho era chato, porque eu tinha que mostrar ser uma pessoa responsável. Minha mãe trabalhava e eu ficava cuidando dos meus irmãos. Eu achava chato, porque eu tinha vontade de ficar brincando e não podia brincar, tinha que estar cuidando dos meus irmãos. 

Eu gostava de pular corda, amarelinha, mas era muito difícil eu ficar brincando, ficava mais em casa. Eu não tinha amigos, só ficava em casa com meus irmãos. Quando saíamos na rua para brincar, por eu ser o único estranho - o pessoal acha isso estranho, eu acho isso normal -, pela minha opção sexual, se afastavam de mim. Eu não tinha amizade.

Eu sempre me senti diferente. Meu irmão foi crescendo junto comigo e achava normal eu ter essa vontade de gostar de homem. Eu tinha meu irmão como exemplo porque ele gostava de mulher, só que eu tinha a minha opção, eu gostava. Fui crescendo assim. Fui aprendendo as coisas, como me transformar, e sempre fui feminina, desde criança. 

Quando eu me olhava no espelho - eu sempre tive cabelo comprido -, eu me achava muito feminina. Eu achava que eu ia ser mulher quando crescesse, mas eu não ia ser mulher porque eu era um homem. Aí eu disse: “Não, mas eu posso ser um travesti.” Porque eu fui aprendendo as coisas e fui tomando hormônio, fui mudando as coisas em mim. Com doze anos já não usava mais roupa masculina, já estava usando roupa feminina.

A primeira vez que me vesti de mulher foi com a minha prima. Ela estava em casa brincando de arrumar a casa; ela ia para lá me ajudar, ela também [era] muito nova. Ela levava as roupas lá para casa, ficava vestindo em mim porque ela sabia que eu gostava disso. Ficávamos brincando em casa assim: eu vestia a roupa e ficava andando dentro de casa, era desse jeito. Eu achava aquilo bonito, brincávamos muito e eu ficava rindo. Era shortinho, calça, bermuda, saia, vestido.

Minha mãe nunca me viu vestida assim, não. Só quando eu tinha uns catorze anos que eu comecei mesmo, porque antes eu saía e vestia a roupa fora; quando eu voltava para casa, vestia roupa de homem. Mas quando eu fiz treze, catorze anos eu mudei mesmo. Minha mãe viu que era o que eu queria, ela aceitou como eu sou. Conversou comigo, me deu conselhos, falou como é a vida, algumas coisas que ela tinha de experiência. E a partir daquele momento eu comecei a usar a roupa feminina.

Eu lembro que quando comecei a estudar tinha seis anos, e graças a Deus nunca desisti dos estudos. Apesar de ter a cabeça assim, virada para o mundo, de querer farra, de andar, eu sempre estudava. Mesmo faltando, quando eu vinha na escola, pegava o material com os colegas. Nunca desisti dos estudos. Mas na escola também era muito chato, porque eu tinha essa forma de ser e tinha gente que não gostava e me criticava. Ficavam me excluindo nas brincadeiras da sala, mas eu fui superando aquilo tudo e fui passando, estudando bem. Terminei os estudos. 

Eu gostava mais de Matemática e Química. Sempre criticava tudo quando eu achava que a conta não estava legal. O professor mostrava, eu mostrava outra forma de fazer, encontrava a melhor forma de fazer a conta, criticava. Nas aulas de Química, também criticava as coisas que eu não gostava. 

Eu sempre fui assim. Eu tinha minha opinião. Quando eu visse algo que para mim não estava certo eu ia no quadro, sempre tive a iniciativa de ir e mostrar no quadro todo. E mesmo assim o pessoal me criticava demais, porque achavam que eu queria aparecer, que era para eu ficar no meu canto: “Não se levanta não, fica aí. Não vai ali na frente que vai fazer besteira.” Na escola, o pessoal falava muito que eu gostava muito de estar na rua. Eu gostava disso, mas não é porque eu fazia aquilo que eu não podia ser gente um dia na vida. Eu tinha raiva quando o pessoal falava isso.

Foi mudando, porque aprendi a não ter medo de ir para escola. Eu ia com medo, ia forçada, mesmo gostando de estudar, mas com o tempo foi melhorando. Estava gostando, não tinha mais medo de ir. E também por eu usar roupa feminina, tinha algumas pessoas que xingavam, tacavam pedra em mim, me empurravam para me derrubar, colocar a roupa na frente para não cair, era assim. Superei tudo isso pensando muito em Deus, primeiramente, porque eu imaginava que por eu ser assim eu poderia ser feliz. E sempre pedindo a Ele para que me ajudasse a suportar tudo aquilo, pra que um dia eu pudesse terminar meus estudos e conseguir um emprego. Eu queria muito, quando eu estudava, terminar e arrumar um trabalho.

Sofri abuso na adolescência. Na verdade, ele estava me paquerando e eu não queria nada com ele. Chegou um dia que ele me pegou à força, me puxou num canto. Eu estava passando era um lugar escuro, me pegou à força. Ainda era nova quando aconteceu isso, eu tinha doze anos. Mas não chegou a ter penetração, foi só assim: estava me pegando, me apertando, me cheirando. Ele era bem mais velho do que eu. 

Eu sentia nojo. Eu não podia vê-lo, que até xixi nas calças eu fazia. Ficava com raiva. Mas eu nunca falei pra minha mãe porque eu imaginava que todo mundo ia dizer... Por eu também não ter amizade com a minha mãe quando era mais nova, eu achava que todos iam dizer que eu fiz aquilo porque eu queria, e eu deixei. Eu escondia. Escondi por muito tempo. 

Eu tentava esquecer. Sempre tentei esquecer o que me aconteceu, qualquer forma. Só me lembrava mesmo quando eu via esse garoto, eu tinha muito medo dele.

Quando eu comecei a andar, aos treze anos, eu saía para festa, ia para praia, passava a noite na praia. Fui conhecendo pessoas que queriam sair comigo por dinheiro e eu aceitava. Saía por dinheiro, acabava fazendo programa e fui gostando daquilo, passava mais tempo fora do que em casa. 

Minha mãe nunca soube disso na minha infância, veio saber disso depois que eu entrei no projeto. Eu cheguei para ela e contei toda a verdade. Ela não sabia. Eu saía com os homens por dinheiro e algumas vezes tinha uns caras que usavam drogas e queriam que eu usasse. Até o momento ainda não usava, e pelo dinheiro que eles queriam pagar a mais para eu usar eu acabei usando também. 

No começo era só pelo dinheiro, mas o corpo da gente depois se acostuma. O corpo da gente se acostuma com muita coisa, com alimentação, com alguma besteira. [Ele] se acostumou com a droga e começou a pedir. Aí eu já não estava mais usando droga por dinheiro, já [era] por vício mesmo. Eu fumei maconha primeiro, depois eu cheirei loló, cheirei cocaína, e fumei a pedra também, o crack.

A primeira vez que eu me prostituí eu estava numa festa, conheci uma pessoa lá. Ele falou em pagar para sair comigo. Eu aceitei. Chegando lá eu fiquei com vergonha também, mas fiz o que tinha que fazer lá, o que eu fui realmente para fazer. Foi estranho, mas fui me acostumando com aquilo. Conseguindo dinheiro fácil, achando a vida boa de estar conseguindo dinheiro assim de repente, aí acostumei, fiquei fazendo isso por muito tempo.

Eu gostava do que eu fazia, eu achava o sexo bom. Para mim estava normal, achava normal fazer aquilo. Como o pessoal diz, unir o útil com o agradável. Como eu gostava de fazer sexo, no começo, eu me acostumei a fazer por dinheiro. E eu gostava, achava bom, já estava normal pra mim. Fiz programa até mais ou menos os meus dezoito, dezenove anos.

Minha mãe achava estranho, mas eu falava que tinha um namorado que me ajudava, que me dava as coisas. Era isso que eu falava para ela e ela acreditava. Ela nunca conhecia a pessoa, queria saber quem era, mas eu falava que a pessoa tinha vergonha, não queria se apresentar; saía comigo, mas não queria se apresentar para minha família. Ela tinha medo, porque podia ser uma pessoa perigosa. Apesar dos conselhos que ela me dava, falta de conselho não foi pelo que eu fazia. Foi por vontade de fazer mesmo, por safadeza mesmo que eu fazia. Não era por falta de conselho, não, porque ela me deu muito conselho. Apesar de não ter amizade, como eu tenho hoje com ela - depois que eu entrei no projeto eu mudei a minha vida - nunca faltou conselho, não. Eu fiz porque queria mesmo. 

Minha mãe sempre me deu roupa, sempre me dava de comer, me dava dinheiro para eu andar. Sendo que… Não era que eu achava pouco; eu tinha vontade de sair com os homens e aproveitava a oportunidade de sair por dinheiro. Era assim que fazia.

O uso de drogas afetou meu relacionamento com a família. Quando ela me dava conselho eu não queria mais ouvir, comecei a ficar agressiva dentro de casa. E ela não percebeu que eu estava usando droga. Veio a saber depois que eu tinha parado. Tanto que meu irmão também usava droga e ela veio a saber depois que ele entrou no ViraVida também. Meu irmão também se prostituía.

Uma vez que eu cheguei na boca pra comprar o crack, eu cheguei lá e eles não queriam me dar, porque eu já estava devendo lá. Eu fiquei na fissura de querer fumar, me deu vontade de roubar. Eu encontrei com um pessoal que disse assim: “Ô Poli, tu não acha que essa vida pra tu está ruim demais, não? Tu já está devendo, daqui a pouco vão te matar.” Não me lembro a data, mas era num sábado. Eu comecei a pensar, realmente… Eu estava devendo; o cara falou que se eu não aparecesse no outro dia com dinheiro, ele já ia botar os colegas dele à minha procura. Naquele dia, eu disse: “Não, eu tenho que parar.” 

Até o momento eu não tinha medo de nada, eu passei a ter medo naquele dia. Foi quando eu pensei em roubar para pagar aquela dívida, mas paguei aquela dívida com um programa que eu fiz na mesma noite.

Eu fiquei sabendo do ViraVida através do Conselho Tutelar. Meu conselheiro falou que tinha esse projeto e ele já sabia que eu estava querendo mudar de vida. Quando eu entrei no projeto eu não usava mais droga; ainda me prostituía, mas droga eu não usava mais. Parece que foi em 2010, ou 2009. 

Quando eu falei com a psicóloga, ela fez entrevista comigo, eu ficava pensando: “Acho que eu não vou ficar, não. Mesmo sendo o perfil do projeto, acho que não vou ficar não, deve ter muita gente.” E pela minha idade também, eu achava que não ficaria. Quando cheguei em casa no outro dia, ele recebeu a chamada [dizendo] que eu fui escolhida. Quando ele me ligou então para conversar, eu achava que ia dizer que eu não consegui, porque eu já tentei fazer parte de outros projetos e não consegui. Ele falou: “Poli, você ficou no projeto.” Foi tudo para mim, chorei, me emocionei. Eu disse: “Pronto, a partir de hoje eu não vou mais sair com homem por dinheiro. Vou conhecer pessoas que gostem de mim, que queiram ficar comigo.” Entrei no projeto decidida a deixar o programa. 

Quando tinha a psicóloga, as aulas que a gente tinha que falar sobre a nossa vida, eu me sentia à vontade de falar, porque todos estão passando pela mesma coisa. Foi legal, maravilhoso o projeto. Eu devo muito, eles me mudaram demais em tudo, meu comportamento… Eu mudei geral. Em tudo, tudo. Eu devo demais a eles. Sempre que eles precisarem de mim para qualquer coisa, [para] dar meu depoimento pessoal, eles podem chamar porque minha mãe disse assim, quando eu fui chamada para Brasília: “Tu vais para Brasília, vai andar de avião. É perigoso.” Eu digo: “Não, mãe. Nem que eu morra, mas eu vou porque devo a eles. Tenho que ir lá e falar da minha história para que pessoas iguais a mim, como eu fazia antes, não desistam.” 

Eu achava que ia fazer o curso e no final eu não ia conseguir trabalhar, como os outros cursos são. Quando foi no final, que eu terminei, alguns meses depois já estava participando de entrevistas, participei de três entrevistas. Não fiquei por causa de preconceito. Eu não fiquei, mas eu falei superbem, me saí superbem, sendo que o que eles queriam era um homem, e eu estava lá. Eles sabiam que eu ia para lá e falavam assim: “Tem uma travesti aqui que está indo para aí fazer essa entrevista com vocês.” Para eles não dizerem na cara que eu não fosse, eles me mandavam ir, mas eu estava lá só para aparecer que eu estava, e não ficava. Eles diziam: “Nossa, gostei muito de você. Hoje ou amanhã eu ligo para você fazer os exames.” Não davam a cara, não mandavam uma mensagem, não ligavam. Eu percebia que aquilo era preconceito. 

Quando procuramos emprego estamos querendo realmente trabalhar, não estar só por brincadeira, não, estar porque quer. E eu precisava muito. 

Eu tinha vergonha quando era pra participar de alguma brincadeira. Coisas que na minha infância não fazia, de me sentar no chão, pegar um pedaço de papel e escrever qual o seu sonho, “escreva seu sonho na folha aqui no chão”. Todo mundo se sentava no chão, para se sentir bem à vontade. Eu tinha vergonha de falar qual era o meu sonho porque eu sonhava em ser alguém na vida, mas eu não sabia o que tinha que fazer para conseguir aquilo. Mas o pessoal ficava: “E Poli, qual é o teu sonho?” Eu digo: “Depois eu digo, mas não vou escrever, não.” 

Mas eu fui gostando, sempre. Todas as aulas que tinham para interagir o grupo, a gente se sentava, se deitava, ficava bem à vontade, brincando; pintava as mãos assim, ficava botando a mão na folha. E foi legal demais, porque coisas que eu não fazia, que eu nunca fiz na minha infância, eu estava fazendo no projeto. Achei maravilhoso.

No projeto eu fiz curso de Gestão e Negócio para trabalhar na área de Recepcionista, Venda e Auxiliar Administrativo. Foi difícil, mas eu consegui porque era o que eu queria mesmo: ser responsável, ter uma responsabilidade, passar o dia todo lá estudando. Eu achei legal fazer isso porque depois que eu virei mesmo a cabeça não tinha responsabilidade com nada. E quando eu entrei no projeto a primeira responsabilidade era acordar cedo e estar no projeto, para começar logo a vida. Eu tentava de toda forma acordar. Pelo costume de passar a noite toda acordado, na hora que eu ia dormir, dormia tarde, mas colocava o celular para despertar várias horas, vários minutos, que era para eu não perder. Eu acordava, tomava banho, escovava os dentes e corria lá pro curso.

No projeto eu aprendi a respeitar, porque eu não respeitava ninguém. Quando falavam comigo eu ultrapassava a fala, queria falar mais que todo mundo. Aprendi a respeitar, me dar valor também, a ter responsabilidade, coisa que eu não tinha. Ser pontual. Essas coisas que eu não fazia antes, aprendi. 

O projeto fez mudar demais isso, trabalhar essa parte que eu não tinha em mim, de ser responsável, de estar lá cedo pra fazer alguma atividade, alguma coisa. Recuperar os meus valores, que eu perdi quando era adolescente. Eu fazia tudo e não me dava valor, não me respeitava. Quando eu tinha vontade de fazer alguma coisa eu não pensava nas consequências, só queria fazer. 

Foi maravilhosa essa mudança na minha vida que o projeto trouxe para mim. Foi maravilhoso. 

Quando eu me olho no espelho, como sempre, eu me vejo uma mulher. E uma pessoa responsável, que sabe o que quer, decidida [sobre] o que quer fazer; me vejo uma pessoa mudada, bastante mudada. A forma de me vestir, o meu ser, a forma de ser, de agir com as pessoas. Amar o próximo, porque eu não pensava nisso, não. Hoje eu me emociono com qualquer história, até de um cachorro que um carro bateu. Antes eu não ligava com isso. Eu me emociono, porque eu sou uma pessoa agora que tem um coração, porque antes eu não pensava assim. Eu não tinha coração, eu agia no impulso de fazer tudo com vontade, sentia vontade e fazia. Hoje, quando eu me vejo, eu me vejo uma pessoa mudada, responsável. Eu não me via assim.

Quando eu saí do projeto, eu já estava morando com meu companheiro e eu precisava trabalhar. Ele mantinha a casa só, mas eu me senti na obrigação de ajudar na despesa, eu fiquei deixando currículo. Chegava lá e a mulher dizia: “Não, não está mais pegando, não.” Eu digo: “Tá legal.” Chegava em outro canto, se [tinha] uma pessoa do projeto comigo, uma garota, entrava lá e deixava. A hora que ela saía, que eu entrava, eles falavam que não estavam pegando. E eu fui percebendo o preconceito. Mesmo assim, naturalmente saía, não dizia [nada]. “Mas a minha colega acabou de sair daqui, entregou...” Nunca falei. Saía numa boa. 

Antes, quando eu vivia na bagunça eu não tinha medo, não. Eu xingava, chamava palavrão, dizia tudo, só que hoje eu estou diferente, não faço isso mais. Hoje eu tenho medo de tudo: tenho medo de sair de casa pra trabalhar, medo de estar no supermercado, de estar na fila de um banco, de andar na rua porque está perigoso, tem pessoas que não gostam e querem maltratar. Como já aconteceu de eu estar descendo a rua, vem um cara bêbado jogar uma latinha de cerveja em mim, porque viu que eu não era mulher e estava de madrugada. Achou que eu estava procurando coisa errada para fazer, mas não, eu estava indo para o meu trabalho e aconteceu isso. Acontecem essas coisas, passamos por muita coisa nessa vida, mas Graças a Deus eu aprendo a superar tudo isso, porque eu tenho fé em Deus que um dia as coisas vão mudar. Penso muito assim e sigo em frente, não olho pra trás. Jamais, se alguém disser alguma coisa eu vou xingar a pessoa, porque eu tenho medo. Às vezes eu tenho até vontade, mas eu me controlo.

Eu não gosto de relembrar o passado. O passado eu tentei apagar de todas as formas, só que ele persegue. Como agora, esse negócio que está acontecendo aqui; eu tenho que relembrar o passado para falar. Isso me machuca. Mas eu me sinto feliz por falar, porque hoje eu não tenho vergonha de dizer o que eu fazia. E o que eu faço hoje, também não tenho vergonha. Machuca um pouco porque é uma coisa que eu não queria lembrar, mas sempre que for preciso, que o projeto esteja precisando, quiserem que eu vá ajudar, eu falo. Sempre falo, não tenho problema nenhum em falar.

Quando me chamaram para a entrevista na fábrica, eu acreditava que ia chegar lá e sair do mesmo jeito, mas a Sônia do projeto falava: “Não, Poli. Você vai, porque já sabem quem você é. Eu sou uma pessoa responsável, eu não vou mandar uma pessoa para lá que não passe sequer na experiência.” Eu digo: “Está bom, Sônia, eu vou.” E quando fui eu gostei demais. Falei também sobre a questão do preconceito; eles falaram que lá não existe preconceito, mostraram que tem muitas pessoas que trabalham lá que são homossexuais, só que eu seria o primeiro travesti a entrar na empresa. Ela falou: “E aí a responsabilidade é muito grande, você quer?” Eu digo: “Com certeza.” Porque eu queria mesmo, realmente. Estou [lá] até hoje, estou gostando demais. 

Eu monto jogos para para hotéis, só monto jogos. Eu trabalho dobrando e montando os jogos. Cada jogo tem uma dobra diferente, tem um encarte, uma embalagem diferente. Tem um autocolante que se coloca. Eu só trabalho com isso. Mas no meio das toalhas que eu trabalho tem de primeira, de segunda e terceira qualidade, você tem que saber identificar para separar paras pessoas que trabalham só com segunda e terceira pegarem aquelas toalhas e trabalhar. Eu trabalho oito horas por dia, tenho quarenta minutos para descanso, almoço lá na empresa e trabalho só dobrando toalha e montando jogos.

Minha responsabilidade é dar oportunidade aos travestis que estão entrando hoje no projeto. E aqueles que também não fazem o projeto e procuram emprego, que querem ser diferentes na vida, que não querem fazer programa e usar drogas. Querem ser alguém na vida, conseguir um emprego e um dia poder comprar sua casa e constituir uma família. É uma responsabilidade grande, e eu sei que a minha parte eu estou fazendo na empresa pra poder abrir portas, e não fechar portas pra pessoas que estão precisando como eu.

Se eu pudesse voltar no tempo eu não teria feito nada do que fiz de errado, de me prostituir e usar drogas. Eram coisas que eu fazia e achava que estava bom para mim. Mas a vida que eu levo hoje é bem melhor do que a que eu tinha antes. Eu voltaria no tempo pra fazer isso, limpar a sujeira que eu fiz no passado.

Pretendo juntar dinheiro para fazer outro curso profissionalizante, outra coisa em outra área também. Não quero só parar os estudos e ficar na minha, não. Quero fazer uma faculdade, alguma coisa. Eu ainda estou nova, com vinte e um anos, ainda posso estudar. Mesmo que eu estude por dez anos, com trinta e um eu estou formada.

Eu sonho bastante. Sonho em construir minha família, poder adotar uma criança, comprar uma casa, fazer viagens, conhecer outros lugares. Ter uma profissão que eu possa ganhar bem para eu poder viver bem com minha família, com meu companheiro. 

 

 

"Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra, bem como a identidade dos entrevistados, tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações."

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