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História

A Odisseia de Amara

História de: Amara Moira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/01/2021

Sinopse

Nascimento em Campinas, SP. Infância, temperamento e Síndrome de Asperger. Bullying e refúgio nos livros. Trabalho como garçom em bufê infantil. Questionamentos acerca da identidade de gênero. Graduação e pós-graduação em Letras na Unicamp. Literatura, idiomas e literatura erótica. Transição de gênero, militância e defesa pela prostituição. Primeiro livro publicado, militância e trabalho como escritora.

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História completa

P/1 – Tudo bom? Obrigada por você ter aceitado, ter remarcado hoje.

R – Perfeito, tranquilo. Agora sim eu estou em condições de participar. (risos)

P/1 – Aí eu queria te explicar que essa entrevista é mais demorada porque, na verdade, a gente vai fazer um mergulho, um túnel do tempo na sua história. Eu só sou uma mediadora aqui, pra te ajudar a organizar a sua própria história.

R – Tá.

P/1 – Aí, se tiver alguma coisa que você não se sentir à vontade em responder, não tem problema nenhum.

R – Depois vocês vão editar? É isso? Como é que funciona?

P/1 – A gente... Então, olha como vai funcionar! Esse projeto é uma parceria do Museu da Pessoa com a Trip. Essas entrevistas vão virar podcast para a Casa TPM. E como é feito em parceria com o Museu da Pessoa que, como eu te expliquei, é um museu digital de histórias de vida – tem trinta anos e hoje a gente tem um acervo de mais de dezoito mil histórias de vida, de presidente da República ao catador de papel –, tem uma coleção, ‘Trans Histórias e uma São Paulo nos Anos 60’. Enfim, a ideia é que todo ser humano tem uma história e não interessa quem ele seja, o que nos une são sentimentos humanos. É essa que é a prerrogativa do Museu da Pessoa. Então a sua história vai passar a fazer parte do acervo do Museu da Pessoa. A gente vai ficar com a íntegra da entrevista, a entrevista vai ser inteira transcrita, transformada em um texto de duas páginas, e ela poderá ser consultada na íntegra ou editada na internet, assim como suas fotos e assim como duas pílulas de um a três minutos, mais um podcast. Você vai daqui pro mundo com essa história.

R – Tá. Eita! (risos)

P/1 – Registrado no Museu, pra privilégio nosso, de quem tiver acesso à sua história.

R – Maravilha! Quero só avisar... Porque talvez vá chegar gente aqui em casa, pra chegar sem fazer muito barulho, porque a gente vai estar gravando, né?

P/1 – Deixa vir entrando imagens na sua cabeça, o passado mais remoto que você conseguir chegar. Deixa vir imagens que ‘vão te vindo’, quais as imagens. Deixa o pensamento fluir livremente. Respira, inspira e, assim que você estiver preparada, vem voltando com essas imagens. Que imagem que te veio à cabeça, Amara? Veio alguma?

R – (risos) Vieram pedaços de imagens, coisas que eu nem sei se eu estou me lembrando por ter vivido ou porque meus pais me contaram, por exemplo.

P/1 – É sempre assim.

R – (risos) Mas tem bastante coisas. É pra dar uma?

P/1 – Claro!

R – (risos) Eu não sei se é realmente uma memória que é minha, mas ela está aqui, na minha cabeça. Eu consigo visualizar a cena, me escondendo dentro dos armários de casa, como uma forma de tentar chamar atenção da minha família, dos meus pais, da minha avó. Parece que eu fiz bastante isso quando eu era criança. (risos) Por ciúmes dos meus irmãos, que foram nascendo depois de mim. Eu era a filha mais velha, de repente não era mais a única, e parece que isso causou várias transformações no meu comportamento, ali nos primeiros anos.

P/1 – Amara, feito esse esquentamento inicial, vamos começar de uma maneira tradicional: qual é o seu nome, local e data de nascimento?

R – Amara Moira, eu nasci em Campinas, em 26 de fevereiro de 1985.

P/1 – E seus pais são de Campinas?

R – Não, meus pais são cada um de um canto: minha mãe é de Belo Horizonte e meu pai é do interior paulista, mas ele cresceu em Mato Grosso do Sul, no interior.

P/1 – Qual é o nome da sua mãe?    

R – Maria do Carmo.

P/1 – E a Dona Maria do Carmo nasceu em Belo Horizonte? Que lugar de Minas?

R – Belo Horizonte.

P/1 – E os pais dela são de lá, seus avós? 

R – Meu avô eu não conheci. Inclusive, o meu nome de registro era uma homenagem a esse avô. Ele morreu cinco anos antes de eu nascer, e aí, como forma de homenageá-lo, meus pais decidiram usar esse nome como...  é engraçado, assim. (risos) Minha avó está viva ainda hoje, ela nasceu em 1922, em São João del-Rei, no interior de Minas. Meu avô eu acho que... Eu não me lembro, eu tenho a impressão de que ele nasceu em Goiás, no interior.

P/1 – E como é o nome do seu avô, que era o seu nome?

R – Omar.

P/1 – Qual é o seu nome?

R – Omar Rodovalho. E minha vó era Maria de Lourdes.

P/1 – E você conviveu com a Maria de Lourdes? O que ela fazia?

R – Não, convivo ainda, ela ainda está viva.

P/1 – Ah, ela é viva! Mas você conviveu bastante na infância?

R – Sim, muito. A casa dela era um espaço onde a gente sempre se encontrava, reunia todos os primos, os netos dela, e lá eu cresci, vivi muito tempo da minha vida, me diverti muito, aprontei muito. Então tenho muitas memórias positivas e bonitas, e é uma figura que está aí, construindo a vida até hoje.   

P/1 – Vocês passavam férias lá? Você ia de Campinas pra lá?  

R – Não, minha vó morava em Campinas também. Ela nasceu em São João del-Rei.

P/1 – Ah, ela nasceu lá e morava em Campinas?

R – Isso. E, quando eu nasci, estava todo mundo, já, em Campinas.

P/1 – Amara, e seu pai, a família dele é de onde?

R – Quando eu nasci, eles já estavam fixados em Campo Grande, então minha vó e meu avô... Meu avô morreu quando eu ainda era criança, e minha vó morreu quando eu era adolescente – a mãe do meu pai. Mas eu fui bastante pra lá, tenho memória dos dois. A gente ia pra lá de férias, uma viagem de carro, demorava, sei lá, doze horas de carro de Minas até Campo Grande, nos anos oitenta, noventa... Oitenta eu não me lembro, mas [nos anos] noventa eu lembro que a gente ia de carro. Tinha as fitas cassete que a gente colocava no toca-fitas. Cada um tinha uma fita e cada um tinha direito a colocar uma fita (risos), e a gente ia ouvindo indefinidamente e umas _________ (08:02). Era samba, deixa eu ver o que... Olodum! Olodum até que é divertido. Carrapicho. Lembro de umas coisas aleatórias. Raul Seixas. Não fazia nenhum sentido essa combinação, mas a gente ia colocando uma atrás da outra e ia fazendo essa viagem infernal. Um lugar muito quente Campo Grande, Campinas também é. Mas acho que Campo Grande é ainda pior. (risos)

P/1 – Amara, e quem ia no carro?

R – Eu, meu pai, minha mãe e meus dois irmãos mais novos, que são desse casamento do meu pai e da minha mãe. Então, nós cinco.

P/1 – Mas vocês três são desse casamento?   

R – Isso.

P/1 – Amara, você sabe como seu pai e sua mãe se conheceram?    

R – Sim. Eles fizeram faculdade de Direito juntos. Minha mãe era da turma da manhã, aí ela começou a trabalhar, precisou mudar de turno, mudou pra noite; meu pai fazia à noite, aí minha mãe começou a pegar carona com meu pai pra voltar pra casa, aí começou ali um romance. (risos)

P/1 – Faculdade de Direito. Onde foi que eles fizeram?

R – Na PUC-Campinas [Pontifícia Universidade Católica de Campinas]. E eu nasci no último ano da faculdade deles, inclusive. Então eu acompanhei lá a faculdade, me formei em Direito no meu primeiro ano. (risos) Eu tenho um canudo de Direito aí, sou bacharel.   

P/1 – Eles foram morar onde?      

R – Aí eu não tenho memória desses primeiros anos. Parece que eles moraram em apartamento no Centro de Campinas. Mas onde eu já tenho memória de quando a gente se mudou para Barão Geraldo, que é o bairro _______ (10:00) matagal. No final dos anos oitenta, começo dos noventa era um baita de um matagal, um espaço meio que não tinha nada do que tem hoje, todo o comércio, toda a agitação cultural. Mesmo a Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], assim, eu fui frequentar já na época de cursinho, de ensino médio. Ia lá pra jogar futebol, na quadra, numa época que ainda não tinha muros, inclusive. Era um espaço que não tinha isolamento com relação ao restante do bairro, ali. Então eu comecei a frequentar um pouco ali. Mas eu tenho memória desse comecinho dos anos noventa, ali, nessa casa que a gente foi morar.

P/1 – Como é que era a casa?

R – Uma casa bem ampla. Meus pais tiveram que fazer muitas reformas lá. Era uma região que não era nobre, do bairro, mas o bairro de Barão Geraldo, o distrito, passou por transformações ao longo dessas últimas décadas. Aquela era a parte mais pobre do distrito, então a gente crescia muito na rua. Era uma casa ampla, tinha um jardim amplo. Eu lembro que tinha uma bananeira no fundo, e tinha, sei lá, um canteiro no fundo. A gente chegou a ter cachorro, eu lembro que a gente tentou ter cachorro em alguns momentos, mas ninguém se adaptava muito, (risos) porque eu acho que eu não sou muito boa com bichos, assim, pra cuidar. Mas de alguma forma a gente tentou algumas vezes, e eu lembro que, nessa casa que a gente morou – nesse primeiro momento da casa, que depois eles fizeram reformas, foram transformando, mas nesse primeiro momento – a gente dividia, os três irmãos, o mesmo quarto. Então a gente era bem criança ainda, era um quarto pra três camas, ali. Eu lembro de muitas brigas por conta disso, de muitos problemas de convivência. Acho que a minha relação com meus irmãos foi sempre muito tensa, a gente começou a aprender a lidar melhor uns com os outros agora, adultos, já. Mas a infância e a adolescência entre a gente foi uma história de bastante tensões e conflitos. (risos)

P/1 – Amara, qual a diferença de idade entre você e seus irmãos?

R – Olha, eu nasci em 1985; meu irmão nasceu em 1987 e minha irmã em 1988.

P/1 – Mas você brincava com eles na casa, na rua? Quais eram suas brincadeiras de infância? Com quem eram?   

R – Deixa eu ver... Nessa época, quando eu era muito criança, o tipo de brincadeira que a gente mais tinha era futebol. Na casa do vizinho, na frente, tinha um campinho improvisado, a gente jogava muito futebol ali. Mas acho que a coisa que mais mexia com todo mundo nessa época que eu estou me lembrando era o videogame. Estava num momento de ter... De chegarem os videogames: Mega Drive, Master System, e a gente ficava jogando joguinho de futebol. Tinha Pac-Man, joguinho de nave, de dar tiros, e a gente fazia muitas disputas e competições. Acho que na minha casa era onde tinha o videogame, então reunia toda a molecada do quarteirão ali, pra gente ficar fazendo disputas.  

P/1 – E como era na sua casa? Seus pais trabalhavam o dia inteiro? Os dois trabalhavam fora?

R – Nessa primeira infância, sim. Minha mãe era funcionária do INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] – INPS, na época, então ela trabalhava tipo regime comercial, horário comercial. E meu pai, quando eu nasci, parece que ele ainda trabalhava como escrivão de polícia, mas eu só tenho memória dele como... Ele passou em um concurso e passou a trabalhar como fiscal de rendas do Estado. Então eu já tenho memória dele apenas como fiscal de rendas. Mas antes disso ele foi escrivão de polícia durante um tempo. Ali, sei lá, no começo dos anos oitenta, enquanto ele fazia faculdade. É interessante, assim, porque ele vem do Mato Grosso do Sul, onde ele cresceu. Lá ele foi professor de Português, assim, de uma cidadezinha do interior, muito nanica, chamada Naviraí. Na época que ele era professor, lá não tinha luz elétrica, na escola, na cidade. Era uma cidade, assim, muito difícil naquele momento, só que acho que algo que eu puxei dele, assim, que eu tenho impressão que ele tinha e não tem mais, mas nessa época ele tinha: um caráter meio obsessivo, assim, com a questão do estudo. Isso ainda está presente em mim. Eu sei que ele perdeu isso. Em algum momento ele foi se acomodando, sei lá, outras coisas foram surgindo, de importância, na vida, passou por vários desafios aí, mas ele tinha essa coisa da obsessão. E, por esse comportamento obsessivo, que muitas vezes até pode ser considerado patológico, essa figura que consegue sentar e estudar e aprender, mesmo nas condições mais adversas, né? Não é a meritocracia, simplesmente. Não é que: “Nossa, ele se esforçou e conseguiu o que boa parte da família dele não conseguiu”. Eu sinto, muitas vezes, que tem alguma questão psicológica, que é um problema que na nossa sociedade problemática vira uma solução. (risos) Então ele estudou muito e conseguiu passar nesse concurso pra escrivão aqui no estado de São Paulo. Veio pra cá, começou a trabalhar aqui como escrivão, entrou na faculdade de Direito com o sonho de virar delegado, mas aí, antes de conseguir, antes de terminar, quando ele, acho que, estava terminando a faculdade, ele passou em um concurso para fiscal de rendas. Então ele nunca nem tirou a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], nunca, abandonou essa carreira de delegacia e foi por esse outro caminho, que era fiscal de rendas. E foi um momento em que também ele passa a ter um pouco mais de estabilidade financeira. Então, eu sou fruto desse momento em que ele já tem essa outra condição financeira. E minha mãe, que tinha uma condição financeira similar a dele na época que ele era escrivão de polícia, aos poucos, nessa coisa também da sociedade machista, que vai sobrecarregando a mulher com as demandas do lar, dos filhos, foi ficando muito sobrecarregada, e aí, em determinado momento, ela decidiu... Foi convencida a deixar o trabalho e abandonar, então, sua carreira, e se tornar uma dona de casa. Então, em algum momento da minha infância, lá para os oito anos, acho – oito, nove anos, não tenho certeza exatamente o ano –, ela abandona a casa, entra naquele programa, sei lá, acho que demissão voluntária, pega lá o dinheiro da demissão e aí a gente consegue dar entrada para começar a construir uma casa. A gente, então, compra o terreno em um lugar afastado de Campinas e meus pais começam a construir essa casa. Agora esqueci qual era a última pergunta. Não sei, acho que nem a respondi. (risos)

P/1 – Não, como era na sua casa, se sua mãe trabalhava, seu pai, aí você falou tudo isso. E tinha empregada na sua casa?

R – Em algum momento passou a ter. Nem sempre teve. A gente teve, em algum momento da minha infância, a gente passou a ter, sim. Até porque minha mãe trabalhava fora, meu pai trabalhava fora, então eles contrataram uma empregada pra fazer a faxina e comida também. Eu lembro que fazia comida e que eu não gostava da comida dela. É isso. Hoje eu sou uma pessoa bastante diferente, mas naquele momento impliquei muito com isso. Hoje, sei lá, eu vejo que eu fui uma criança muito birrenta, mimada, insuportável, mas que bom que a gente pode mudar, né? (risos) Mas acontece. E aí, em algum momento, quando minha mãe, também, acho que abandona o trabalho, a carteira de trabalho, a profissão dela e começa a ser dona de casa, aí ela acaba assumindo essas tarefas. Mas já teve muitos momentos também da infância e adolescência. Eu lembro de uma vez que a gente acabou fazendo um acordo, assim, que minha mãe não contrataria uma empregada para ajudá-la nos trabalhos domésticos, ela pagaria para os três filhos, desde que cada um se comprometesse em fazer uma parte da faxina. A gente não tinha mesada e, para ter um ganho financeiro, ela repartia com a gente o salário da empregada. Foi uma forma de tentar fazer com que a gente participasse ativamente ali da organização da casa.

P/1 – Amara, e quem exercia autoridade dentro de casa? Seu pai, sua mãe, a educação era dividida?

R – Esses dias eu vi uma tirinha que eu achei muito divertida, né, de uma quadrinista que eu gosto muito, que retratava um homem deitado num divã, conversando com a psicanalista, e ele perguntava para ela: “Então é verdade que minha mãe é a causa de todos os meus problemas?” e ela respondia: “Sim. Até porque seu pai era ausente demais para conseguir te transtornar”. Então é um pouco isso. Eu me vejo muito nessa coisa. Durante muito tempo a relação que eu tive com meu pai era meio distante, porque ele trabalhava muito, e ele também veio de uma história familiar que não era de muito afeto, muita proximidade com os filhos. Então ele já viveu isso com o pai dele. O pai dele era uma figura bem arredia, assim, muito difícil. E aí, de alguma forma, esse era o modelo paterno e de família que ele tinha. Então durante muito tempo a gente teve muita distância, assim, muita dificuldade de criar um vínculo de intimidade, mas isso foi mudando. E mudou de forma drástica, a gente teve algumas brigas ali na época dos meus catorze anos e aí acho que, no meio dessas brigas, assim... Eu sinto que ele se deu conta de que ele não estava sendo um pai muito ‘da hora’, que ele podia melhorar, aí acho que mudou bastante a nossa relação a partir de então, e a relação dele com os outros filhos também.

P/1 – Por que vocês brigavam?      

R – É isso: a gente não tinha uma relação. Eu tinha alguma coisa de mal resolvida dentro de mim, que fazia com que, durante muito tempo, eu fosse aquela adolescente rebelde, né... E era antes da minha transição, ainda. Então ali eu ainda estava me colocando como homem, ainda tinha pouca noção de que eu iria, um dia, começar uma transição de gênero, que eu iria me sentir muito mais confortável existindo como uma identidade feminina. Naquele momento nem sei se eu tinha certeza que eu era bissexual, por exemplo. Eu lembro que um dia eu estava ouvindo música e ele mandou eu abaixar. Eu falei que não ia abaixar – tipo uma coisa bem idiota, assim. Ele ficou irritado, foi na direção do aparelho de som – parecia que ele ia quebrar o aparelho –, pegou uma fita cassete que nem estava tocando, nem era a que estava tocando, pegou a fita e espatifou no chão. Uma fita cassete, sei lá, de um real, assim. Aquela que nem era de uma banda mesmo, era de gravação. Eu sei que aquilo mexeu muito comigo, assim. Eu não sou uma pessoa muito violenta, eu sempre fui uma figura muito pacífica, mas ali, aquilo me tirou do sério de uma maneira... Eu fui pra cima dele e dei um soco nele, ele me deu um soco, aí a gente ficou se dando socos, do nada, assim. Aí separaram, mandaram eu ir pro meu quarto, eu falei que não ia, aí me mandaram ir embora de casa, (risos) fui expulso de casa. Mas foi algo muito besta, assim. E eu fui, saí, fiquei lá no bairro, esperando, num ponto lá que todo mundo se reunia de alguma maneira. E, em determinado momento, meus pais apareceram lá, me pegaram, trouxeram pra casa. E tive, então, como castigo... Para poder voltar pra casa, eu teria que ficar um mês trancado em casa, a partir daquele momento eu iria começar a lavar minha roupa, fazer minha comida e ia ter que trabalhar. De tudo, o que ficou mesmo foi: eu fiquei um mês em casa e tive que começar a trabalhar. Mas foi muito bom, assim, também, porque eu acho que eu era uma criança muito – um adolescente, nesse momento – mimada, e ali, tendo que precisar trabalhar... O que era o trabalho naquela época? Era 1999. Então eu fui trabalhar como garçom em bufê infantil. E aí eu lembro: a gente ganhava dez reais pra trabalhar oito horas. (risos) Era inacreditável! Eles nem pagavam, inclusive, transporte. Era algo que só fazia sentido pros meus pais, que queriam que eu trabalhasse. Meus pais me levavam, gastavam o dinheiro do transporte, e eu ficava com os dez reais. Aí juntava, então, sei lá, um fim de semana que eu trabalhasse, trinta reais e, em 1999, trinta reais era um bom dinheiro. Mas nossa, ganhava um pouco mais de um real por hora trabalhada. (risos) Então era bem... Um trabalho ‘massa’, né, e, de qualquer forma, aquilo foi importante. Eu conheci pessoas, comecei a ter o meu próprio dinheiro, a também poder fazer outras coisas. Circulava de forma mais livre pela cidade, e acho que foi um momento que foi importante, para que eu saísse um pouco da barra dos meus pais e começasse a me aventurar um pouco pela cidade.

P/1 – Amara, voltando um pouquinho, como era a sua mãe? A criação que ela deu pra vocês, como ela era em casa? Era próxima de vocês?

R – Era muito próxima. Quando você perguntou da relação com meu pai, era isso: meu pai era aquela figura que pagava as contas, que ia pro trabalho, mas que não tinha muita intimidade. Aí, a partir desse acontecimento, dessa briga que a gente teve, foi interessante que, a partir daí acho que ele caiu em si, de alguma forma percebeu que não estava... “Olha essa briga idiota que eu tive com minha filha, preciso rever minha vida”, e ele começa, então, a mudar, e a gente começou a ter uma relação de muita proximidade. Ele vinha, desabafava comigo. Eu nem tinha maturidade para ouvir desabafo de um adulto, mas era meu pai, então a gente começou a construir uma relação de cumplicidade, assim. Ele me contava os problemas dele, eu contava os meus, e a gente foi criando... Até que a gente chega no estágio atual, que a gente tem um afeto muito maior. Eu acho que eu não tinha esse vínculo afetivo, não era muito forte com ele. E com relação à minha mãe, como minha mãe ficava sobrecarregada, ficava tudo nas costas dela, ela acabava também levando a culpa de tudo. Então eu sentia que minha mãe era muito vigilante, assim, muito asfixiante. Ficava ali, em cima. Ela queria saber tudo e, ao mesmo tempo, ela não tinha essa malícia desse universo masculino, que era o universo onde eu estava crescendo, então ela não conseguia me orientar a respeito de como é que eu deveria me portar na escola, pra não sofrer bullying, todo tipo de perseguição dos outros meninos. Eu não era uma criança afeminada, aquela criança que todo mundo olhava e já dizia: “É gay” ou: “Vai ser travesti”. Não era isso. Mas eu tinha um __________ (28:06). Minha mãe falou que uns tempos atrás ela viu um documentário de crianças com Asperger, esse tipo de autismo, e ela me reconhece, vê coisas da minha infância, nítidas, nesse documentário. Mas, de qualquer forma, uma das questões de uma pessoa que tem Asperger, que eu nunca fui descobrir se eu tinha, de fato ou não, mas acho engraçado que eu possa ter tido ou ter ainda, sei lá, mas uma das questões é que ela é monotemática, fica muito focada num assunto só e ela não percebe que está sendo repetitiva e enfadonha, então ela tenta interagir com as outras pessoas, as outras pessoas acham que ela é chata, porque ela só fica falando da mesma coisa. Então, nessa tentativa de agradar, de puxar conversa, eu era tratada como, sei lá, um ser meio chato, insuportável, ‘nerd’. Eu era zombada por tudo isso: porque eu gostava de ler... Ninguém se dava bem comigo, eu não me dava bem com ninguém, então me refugiava nesse mundo dos livros. Eu cresci no meio dos livros. Então desde muito cedo eu leio, e bastante. Acho que, inclusive, agora, perguntando qual é a memória mais antiga que eu tenho, eu lembro justamente de uma questão com a escrita e com a leitura, da minha mãe me dizendo que, quando eu tinha quatro anos, eu aprendi a ler e escrever sem que ela soubesse explicar como, assim. Então alguém me ensinou sem assumir a autoria da obra, e quando ela foi me matricular na escola, no prezinho [ensino primário], falou toda feliz pra coordenadora pedagógica de um grande colégio lá de Campinas que, nesse momento, meus pais já tinham uma condição financeira melhor: “Meu filho” – naquela época ainda existia como menino – “já sabe ler e escrever”. A coordenadora pedagógica disse que isso ia ser um problema, que eu ia acabar atrapalhando o desenvolvimento das aulas com as outras crianças, então era para os meus pais me deixarem um semestre sem ler e sem escrever, pra eu desaprender o que eu aprendi e entrar do zero, zerada, na escolinha, e poder aprender no mesmo ritmo dos outros alunos. Meus pais tentaram fazer isso, mas minha mãe fala que, de alguma forma, tinha algo que eu ia muito pra esse universo da escrita e da leitura. Então eu tinha que fazer exercícios de picotar em linha reta pedaços de papel, me davam jornal para fazer isso e, de repente, eu parava de picotar para ler os fragmentos de palavras que tinha ali, porque, de alguma forma, ninguém tinha me avisado que tinham me cortado a escritura e a leitura, mas eu estava percebendo que eu não estava podendo exercitar a minha habilidade. Então procedimentos pedagógicos terríveis que, vira e mexe, a gente acaba encontrando nessas ideias terríveis do que é o ensino e de qual é o aluno certo para cada nível, e não saber lidar com alunos em pontos diferentes. Acho que isso, essa tentativa de me afastar da leitura e da escrita, fez com que eu criasse uma obsessão por isso desde muito cedo. Então a leitura e a escrita sempre estiveram muito presentes na minha vida.

P/1 – Amara, ______ (31:55) pra você ir pra escola, te incomodava?    

R – Sim. Acho que tinha pontos interessantes, mas então, por exemplo, a coisa da biblioteca: você está vendo, aqui atrás de mim tem um bilhão de livros, todos eles que eu fui comprando e juntando, a partir do meu cursinho. Eu praticamente não ganhei nenhum livro dos meus pais. Não, eles compravam livros sempre que a gente pedia, mas eram infanto-juvenis. Eles me deram a coleção Vagalume, sei lá, Agatha Christie, Sidney Sheldon, mas eu não tenho esses livros aqui. Esses eu tenho vergonha, deixo lá com eles. (risos) Está lá na casa deles. E, mesmo assim, é uma prateleira. Mas quando eu entrei pro cursinho, eu acho que, assim, passei todos os anos escolares tendo vergonha de tirar boas notas, de quem eu era, sendo chamada de nerd, chata por ser nerd, figura que fica estudando, gosta de estudar. Foi só na faculdade que eu fui adquirir essa vontade de estudar, mesmo, esse gosto por estudar. Porque a escola, os anos escolares me ensinaram a odiar isso, porque tirar notas altas eu entendia... A minha leitura de situação, era: eu tiro notas altas e por isso as pessoas me xingam, me zoam. Então eu queria não ser essa pessoa. Aí fui percebendo que não era exatamente isso, a coisa era bem diferente. Hoje eu olho assim: talvez tenha a questão do Asperger, esse monotematismo e outras questões ali que são de crianças com dificuldade de socializar, mas eu sei que eu sempre fui zoada, em todas as escolas onde eu estudei. Mudei de muita escola. Todos os anos, praticamente, eu mudava de escola. Conversando com a minha mãe uma vez, também, ela me disse que só descobriu que eu não tinha amigos na escola quando o filho do casal amigo dos meus pais, da minha sala, mudou pra mesma escola onde eu estava, estudou na minha sala, contou pra mãe dele e a mãe dele contou pra minha mãe, falou que eu não tinha amigos. Isso é algo triste: com nove anos minha mãe e meu pai descobrirem que eu não tinha amigos. Isso significa que eu não conseguia verbalizar isso, mas isso significa, também... Mostra, de alguma forma, todos os problemas que uma escola pode significar, né? E isso muda, de alguma forma... E eu me refugiava nos livros, isso acabou sendo minha salvação.

P/1 – Você disse que você brincava, que tinha amigos na rua.

R – Na rua de casa a gente tinha uma outra relação. Eu não sei exatamente explicar por quê. É isso: meus amigos da rua não eram íntimos. Eram amigos de jogo, não eram pessoas com quem eu, sei lá, dividia muitas intimidades. Eram pessoas com quem eu ia jogar bola, andar de carrinho de rolimã, jogar videogame. Eu sempre fui muito competitivo também, então não sei brincar. (risos) Mesmo hoje, assim, se me chamam pra um jogo e as pessoas começam a levar o jogo na zoeira, começam a apostar com qualquer coisa, começam a perder e “o importante é se divertir”, eu saio do jogo, porque eu me irrito. Eu entro numa realidade paralela quando me colocam num joguinho. E, se não levam a sério, eu fico irritada e prefiro não jogar, ficar vendo de fora ou fazer outra coisa. (risos) E acho que é isso: as pessoas gostavam de jogar e eu era muito competitiva, então, jogar comigo era desafiador, porque eu não aceitava perder. (risos)

P/1 – E tem algum professor ou professora que tenha te marcado nessa época, que você tenha lembrança?

R – Tem. Eu lembro da minha professora do prezinho, a Izabel. Uma figura com quem eu tive... É isso: os alunos me odiavam, mas os professores costumavam gostar de mim, porque eu conseguia me dar bem, responder as coisas, não sei, entender a matéria, mesmo sem estudar. Então, durante muito tempo, algo também que hoje, assim, eu olho e falo: “Como é problemático estudar num lugar que te ensine a se sentir orgulhoso que você consegue tirar dez sem estudar”, porque por muito tempo eu me orgulhava disso. Parecia: “Nossa, olha só, eu sou demais! Tirei dez”. Aí eu olho para aquilo, tipo: “Não aprendi nada”. Eu simplesmente estava ali dando golpes. Eu pescava umas palavras, jogava ali num texto. O que eu aprendi, de fato? Não era uma escola que sabia fomentar esse espírito crítico, esse desejo de ir cada vez mais fundo, essa vontade de conhecer. Eu simplesmente conseguia tirar as notas e ponto. Isso era muito problemático. Eu queria ter sido ensinada desde cedo a gostar de estudar, porque hoje é um grande prazer na minha vida. Eu podia ter estudado muito mais se eu tivesse desde cedo gastado meu tempo com isso e não, sei lá, fazendo coisas idiotas. Ou não fazendo nada. (risos) Mas é isso: a minha relação com a escola era de tentar chamar atenção dos professores, porque era com eles que eu conseguia ter um mínimo de conexão. Então os professores gostavam de mim; as bibliotecárias gostavam de mim; os alunos, em si, me odiavam e faziam questão de me lembrar disso o tempo inteiro, e com muita violência, com brincadeiras, perseguições. Mas faz parte da vida também. A gente tem que ter um pouco de desastre pra poder contar depois, né?

P/1 – Teve alguma coisa, alguns momentos que te marcaram, disso? Que ficou na sua cabeça?

R – Acho que tiveram momentos – e aí tem a ver com outra questão social que é muito importante que a gente discuta –, que eu lembro que eu tinha, sei lá, onze anos, e um dia um grupinho de alunos chegou pra mim, fez uma roda, assim, e me perguntaram se eu sabia o que era masturbação. Eu não sabia o que era, e ele começam a me zombar por conta disso. Essa questão do estímulo sexual pra criança criada pra ser um menino é muito precoce, desde muito cedo você já vai estimular isso nessa criança, e essa criança vai, de alguma forma, usar isso, às vezes, de forma perversa. E eu lembro desse episódio. Aquilo ficou muito marcado na minha vida. Eu era a única pessoa ali que não sabia o que era sexo, masturbação, o que eles estavam dizendo, e me senti muito mal. E é engraçado, porque hoje eu publiquei um livro com as minhas experiências como profissional do sexo. (risos) Então hoje talvez eu tenha mais para ensinar pra eles, mas talvez eles não queiram aprender o tanto mais que eu sei. Talvez eles não tenham se permitido, ainda, fazer sexo anal, usar o corpo para além dos genitais e coisas que eu fui estudar e aprender. Esses mesmos que me zoavam por não saber sobre sexo, hoje talvez continuem num sexo muito parecido com o que eles faziam com treze anos, mas duvido que eles consigam me ver como uma figura que se desenvolveu melhor nessa área. (risos) Acho que esse foi um momento muito marcante, assim, porque, a partir dali, essa questão do erotismo e da sexualidade se tornou importante pra mim. Pensar sobre isso foi muito importante pra minha adolescência, o momento em que eu me dei conta que eu era bissexual, o momento que fui parar nas obras do Marquês de Sade, também ali, por volta dessa idade... Com essa idade não, sei lá, por volta da adolescência. Uns dezesseis, dezessete anos eu fui parar na obra do Marquês de Sade, e foi interessante, assim, porque eu me entendia como bissexual ali, já, eu não tinha nem tido a percepção de que eu tinha atração por meninos e por meninas e a obra do Marquês de Sade foi o único lugar onde eu encontrei figuras que demonstravam isso de forma livre, sem que isso fosse um problema. Eu tinha um monte de outros problemas, mas esse, em específico, não era um problema. Ali, os personagens, homens e mulheres, se relacionavam livremente com outros homens e mulheres.

P/1 – Como é que você chegou na obra do Marquês de Sade? Através de quem?

R – Eita, agora eu não tenho certeza. (risos) Estou tentando me lembrar. Eu sei que... Eu lembro [de mim] pegando o livro numa biblioteca. Eu acho que eu era frequentadora da Biblioteca Municipal de Campinas, estou pensando, achando que talvez foi lá. E, nesse mesmo período, mesma época, eu lembro que eu estava tentando entrar na vida cultural, assim, me tornar uma figura que conhecia a vida cultural. Estava ali começando cursinho, e junto com o cursinho que eu fazia no Centro de Campinas, comecei a descobrir que tinha cineclubes no Museu da Imagem e do Som [MIS], eu ia lá e via as exibições de filmes em preto e branco, dos vanguardistas russos do começo do século passado, via os filmes de vanguarda doidões, umas mostras específicas sobre alguns autores importantíssimos da história do cinema, aí comecei a ver peça de teatro, comecei a descobrir que tinha peças gratuitas e baratas em vários cantos. Então comecei a tentar ir atrás dessas produções, que também, na escola, nunca me foi apresentado. A escola sempre... O que trouxe pra mim foi um conhecimento muito asséptico, limpinho e encaixotado. Davam ali uma caixinha com embrulho, não a coisa viva, pulsante, tendo ainda que ser descoberta e desvendada. Eu comecei a ver isso por conta própria.

P/1 – Em que momento você sentiu que você não era um menino, no sentido clássico?

R – É, aí foi uma baita de um processo longo. Porque é assim: eu me dei conta que eu era bissexual antes de me dar conta que eu não queria existir como um homem. Porque a gente vai se dando conta não só do que a gente é, mas do que a gente pode ser e do que a gente também não quer ser e não gostaria de ser de forma, às vezes, atribulada e inesperada. Então, me disseram que eu era um homem quando eu nasci, e eu tentei ser esse homem durante muito tempo. Me ensinaram também o que era ser um homem, e eu tentei ser homem de acordo com esses ensinamentos. Eu lembro que, por exemplo, na adolescência, uma forma de você conseguir fazer com que te lessem como um homem, era você ir em uma festa e ficar com um monte de mulheres. Eu tentava e eu até conseguia, quando essas pessoas que eu conhecia naquele momento conseguiam me dar algum tipo de atenção. As pessoas que conviviam comigo me desprezavam, me achavam chata, mas quando eu conhecia a menina na balada, eu conseguia fazer com que ela sentisse interesse em ficar comigo, pelo menos ali. Aí depois não ia pra frente. Mas acontecia. Então era um momento, assim, de eu tentar me mostrar pros meus amigos que eu era, também, como eles: fazendo o que eles faziam, o que eu achava que eles faziam. Mas eu lembro que tudo isso era pra mostrar pra eles. Durante muito tempo eu tentei fazer com que me lessem como um homem, e enquanto eu fazia isso, eu não me perguntava se eu queria, realmente, ser um homem. Simplesmente o que estava na minha cabeça era que “Eu preciso que os outros me vejam dessa forma”. À medida que eu fui me dando conta que eu era bissexual, isso veio junto com crises também. Então, em muitos momentos, assim, eu me senti muito... Por mais que eu tivesse alguma consciência de que eu não devia me sentir envergonhada do que eu era, porque eu não tinha culpa disso, eu simplesmente era assim, eu me sentia mal, assim. Muitas vezes, não sei, eu lembro de desejar não existir, morrer ou, sei lá, que eu saísse, me tornasse uma pessoa normal. Passei por todos esses conflitos que pessoas LGBTQIA+ [Lésbica, Gay, Bissexual, Trans/Travesti, Queer, Intersexual, Assexual] passam.

P/1 – Você tinha alguém para confidenciar?

R – Não.

P/1 – Algum amigo, alguma amiga?

R – Não. E, quando eu ia me descobrindo, inclusive, como bissexual, a minha maneira de viver, as minhas experiências com outros homens aconteciam de forma muito precária, sempre. Então foi o quê? Banheirão. Entrava ali, percebia outro homem que tinha um olhar, você trocava esse olhar com ele, aí os dois entravam no box e transavam ali. Não sabia nome, não pegava telefone, nunca mais ia ver a pessoa na vida. Fiz muito isso. Fiz muito também chat Uol: combinava um encontro com a pessoa aqui, não fazia ideia de quem era, a pessoa me pegava, a gente ia pra um motel. Isso ainda antes de ser maior de idade, inclusive. Lembro que às vezes eram experiências muito dolorosas, de me relacionar com caras mais velhos que eram, sei lá, brutos, mas isso era a experiência possível. Não tinha com quem conversar sobre isso. Não tinha amigos LGBT’s. Na escola onde eu estudava não existia uma pessoa que se colocasse como LGBT. Tinha as pessoas que eram zombadas por parecerem LGBT’s ou por não parecerem homens, mulheres suficientes, mas nunca teve LGBT’s assumidos lá. E eu lembro também de que, por exemplo, quando eu descobri as boates LGBT’s, fiquei encantada com aquele ambiente. Eu fingia que ia dormir, esperava todo mundo dormir na minha casa e ia a pé para esses lugares. A casa onde eu morava com meus pais tinha uma boate que ficava, sei lá, a uns cinco quilômetros a pé. Eu conseguia chegar nessa boate pela estrada. Eu ia de madrugada, cinco quilômetros a pé. Dá o quê? Uma hora de caminhada. Ia pra lá, ficava na balada até umas cinco da manhã, voltava a pé, entrava em casa e fingia que estava dormindo. E eu ia sozinha, interagia com as pessoas sozinha, ia pro dark room, viver as coisas que eu não podia. Um dos grandes problemas criados pela LGBTfobia é justamente de não permitir que a gente tenha espaços seguros ou sadios, saudáveis de experimentar, de se conhecer, de saber o que a gente gosta, quem a gente é. A experimentação erótica e afetiva de LGBT’s muitas vezes é marcada pela precariedade. E a minha adolescência e vida adulta foram muito pautadas por isso. Também é algo que isso se torna muito evidente que, quando, sei lá, com dezoito anos, eu fui fazer meu primeiro teste, exame de sangue, pra ver se eu tinha HIV [Vírus da Imunodeficiência Humana]. Porque, ao mesmo tempo que eu me aceitava ou não queria me sentir culpada por ser quem eu era, eu sinto também que eu entrei muito em um comportamento sexual de risco, e hoje, olhando, era como se eu tivesse tentando me punir por ser quem eu era. Então é como s: “Eu não posso evitar ser quem eu sou, mas talvez eu possa me punir pra tentar não ser mais isso, ou pra tentar me matar”. Eu não tinha coragem de me matar, mas talvez eu pudesse fazer de uma forma que eu ‘saísse do mercado’, me traumatizassem. E eu demorei muito tempo para conseguir reverter isso.

P/1 – Mas você transava bastante porque era um desejo sexual ou era uma busca de se encontrar sexualmente, sua identidade de gênero?

R – Eram as duas coisas, eu acho. Naquele momento eu não me permitia me perguntar a respeito da minha identidade, do meu gênero. Eu não me permitia. Por exemplo, nessa época, também, eu conheci as primeiras travestis. Me relacionei afetivamente, sexualmente com algumas travestis ao longo da minha vida. E eu achava fabulosos aqueles corpos, as histórias de vida delas e a maneira como elas se portavam, falavam, as palavras, o Pajubá. Aquilo era música para os meus ouvidos, eu ficava muito encantada com aquela cultura. No entanto, eu não conseguia me imaginar naquele lugar. Eu lembro, inclusive, que uma das namoradas que eu tive chegou e quis... Um dia, falou assim: “Deixa eu te montar pra ver como você fica de mulher?”, e eu fiquei puta, muito brava, falei: “Sai daqui, eu sou um homem. Larga, para”. Eu não conseguia me imaginar brincando disso, porque eu sentia que essa brincadeira podia mexer com coisas muito pesadas. Hoje, interpretando, reinterpretando a minha história, é como se eu olhasse e percebesse que era arriscado brincar com isso, então não deixava nem chegar perto. Foi por acaso que eu fui me permitindo, aos poucos, descobrir que era muito mais leve poder existir de outra forma. Então, não era que desde criança eu me sentia uma menina e queria existir como menina. A questão era: a minha vida foi sempre muito pesada, e eu só fui experenciar a leveza a partir do momento que eu comecei a me permitir romper com essa maneira como me ensinaram que eu tinha que viver e ser. E isso já foi na idade adulta.

P/1 – Seus pais desconfiaram em algum momento, antes de você falar? Como é que foi?

R – Não. E isso foi uma das coisas que eles alegam. Eu lembro que quando eu comecei a minha transição, uma tia minha veio falar pra mim que, se eu fosse uma criança afeminada desde cedo, seria mais fácil me aceitar, porque já estariam esperando. Aí eu perguntei pra ela: se eu fosse uma criança afeminada, ela seria do time que iria lutar pelo meu direito de ser, ou se ela iria ser do time que ia propor que me batessem até que eu mudasse, me tornasse... ‘Entrasse nos trilhos’ de alguma forma, aprendesse a me comportar da forma como se esperava. E ela se calou ali, porque percebeu... Porque cobrar de mim que desde criança eu fosse afeminada e muito segura de quem eu era, era também cobrar que eu me expusesse a muito risco e muita violência. O mundo não estava preparado para lidar e respeitar uma criança que se comportasse dessa maneira.

P/1 – Teve um momento que você chegou e contou para os seus pais, um dia? Como é que foi?

R – Tiveram vários momentos. O primeiro momento foi a questão da bissexualidade. E aí, quando é que foi isso? Quando eu tinha, acho, que dezenove ou dezoito anos, e parece que... Agora eu não sei direito, não sei se foi... Eu acho que meu irmão achou uma pasta que eu tinha no computador, escondida. A gente colocava lá oculto, e aí achava que ninguém ia achar. Uma pasta que tinha, com fotos e vídeos de travestis, de sexo. Só tinha um computador na casa, então todo mundo usava o mesmo, e aí você escondia lá um monte de coisa, tentando _________ (54:40) 2003, 2004. Aí meu irmão achou essa pasta e parece que ele mostrou pros meus pais, e meus pais vieram e me prensaram contra a parede, assim. Chegaram: “Que história é essa?”. Não, não foi! Minha mãe virou para mim e falou: “Se a gente fizer uma pergunta, você responde?” Eu tinha dezoito ou dezenove anos. Eu falei: “Respondo”. Ela virou e perguntou pra mim: “Você é travesti?” Hoje em dia eu a zoo, porque eu falo que ela conseguiu ver antes de mim que eu era. (risos) Porque naquele momento eu não conseguia ver coisa nenhuma. Aí eu ri assim e falei: “Não. Como assim? O que você está falando?” Aí ela: “Não, porque a gente achou umas revistas suas de travestis e eu estou querendo entender o que é isso”. Eu falei: “Ó, mãe, eu sou bissexual, meus melhores amigos sabem”. Nesse momento já tinha alguns melhores amigos, já tinha confessado pra eles e então, nesse momento, era uma questão de confessar, porque meus amigos não eram LGBT’s. Era muito difícil, inclusive, falar sobre isso com eles. Mas, de alguma forma, me esforcei ali, joguei isso na mesa e falei: “Se virem aí, espero que não me abandonem, mas se abandonar, também, é isso, e eu preciso que vocês saibam”. Aí joguei isso para eles [meus pais], falei: “Olha, eu sou bissexual, meus melhores amigos sabem, nenhum deles tem problema com isso. Eu sinto atração, sim, por travestis também, não vejo nenhum problema nisso. Qual é a questão?” E aí minha mãe, nossa, entrou em desespero, chorou, falou que eu a estava apunhalando pelas costas. (risos) Não pelas costas, no peito, que eu estava metendo uma punhalada no peito dela. E meu pai falou que preferia que eu tivesse mentido, também com uma cara de muito sofrimento ali. Aí eu chamei meu pai pro lado, assim, de canto, e falei pra ele que, se estivesse difícil demais de conviver comigo a partir dali, que ele me apoiasse durante um tempo, porque eu tinha acabado de entrar na faculdade – então era 2004, mesmo. Eu ainda não tinha mudado pra lá. A minha faculdade, a princípio, era na Unesp [Universidade Estadual Paulista]. Eu passei na Unesp em Relações Internacionais, em Franca. Eu falei então que, se fosse muito difícil conviver comigo, que ele me ajudasse um pouco nesse primeiro tempo, até eu achar um emprego, aí a gente não precisava mais se ver. Ou seja: olha o nível, assim. Mas também é isso: eu não sabia o que esperar dos meus pais, mas eu também estava em um momento que eu não conseguia mais aceitar que me tratassem como um problema por conta... É isso, eu tinha vários problemas internos que me levavam a fazer sexo desprotegido frequentemente, e que ficava ali na beira do querer viver e gozar e sentir prazer, mas também querer me punir pelo que eu era, porque eu tinha internalizado que aquilo era um problema. Mas eu não aceitava que me tratassem como um problema. Eu me tratava, mas eu não aceitava que me tratassem. Então, quando eu jogo pro meu pai, nesses termos, estava ali também dizendo que, “Se isso é pesado demais pra família, se isso não cabe na nossa família, então vamos tentar resolver isso. Beleza, eu sigo meu canto e vocês ficam”. Isso mostra também o quanto o meu vínculo emocional e afetivo com meus pais era muito frágil, porque eu não estava chorando. Acho que eu tinha me isolado tanto do mundo por não conseguir me expressar, me aceitar, por ter medo de olhar pra dentro de mim, eu tinha me fechado tanto, que isso afetou os próprios vínculos emocionais que eu tinha construído na minha família. Nesse momento, com dezenove anos, surge já essa possibilidade de rompimento, e meu pai fala que “Não, vamos esperar, vamos tentar lidar com isso”. E o que aconteceu foi que eles fingiram que nada tinha acontecido, que eu era a mesma pessoa de antes, ignoraram solenemente esse assunto o quanto conseguiram, e a gente, então, continuou existindo fingindo que eu era, sei lá, uma pessoa heterossexual, cisgênero (risos), até dar outros problemas. Mas a princípio essa foi a solução encontrada. E como eu não tinha cara de LGBT, como eu não era um menino afeminado, como eu não assumia publicamente que eu saía com homens, como eu não andava de mãos dadas com os homens que eu saía... Eu só conseguia, mesmo, ficar com esses caras nesses espaços precarizados, então meus pais acharam conveniente e aprenderam a lidar com isso nesses termos. A partir do momento que eu mudei um pouco isso, aí voltaram a surgir outros problemas.

P/1 – Deixa eu voltar um pouco. Você disse que com quinze anos, quando você teve aquele castigo, que você começou a trabalhar e juntar um pouco de dinheiro, você começou a ir para alguns lugares da cidade. Você disse que começou a circular. Você vinha para São Paulo, circulava em Campinas? Que lugares são esses que você começa a frequentar?

R – São Paulo surge no meu horizonte quando eu já tinha mais de dezoito anos.

P/1 – Mas esse, com quinze, que você disse que você começa a descobrir a cidade...

R – Isso era Campinas. Aí eu ia para os shoppings centers. Eu comecei a namorar, mas namoros com meninas, mas eu namorava com, sei lá, comecei namoros episódicos, assim, que duravam pouco. Minhas relações, poucas duraram bastante tempo, assim.             

P/1 – Mas você chegou a ter relação sexual?          

R – Sim, mas não nessa idade. Acho que minha primeira relação sexual foi no final dos dezesseis, começo dos dezessete [anos]. É um começo tardio para uma criança, para um ser (risos) do sexo masculino, criado para ser um menino.

P/1 – Foi com uma menina?

R – Foi uma sequência: primeiro com uma menina, acho que um mês depois foi com um ‘cara’, e uns dois meses depois com uma travesti. Com uma menina cis, com um ‘cara’ cis [cisgênero], depois com uma travesti, e aí, então, é isso, eu comecei a me permitir. Tinha um mundo se abrindo aos meus olhos e eu não estava mais disposta a me vedar a nada. Mesmo que eu precisasse fazer isso escondido, mesmo que ninguém pudesse saber direito, mas eu comecei a descobrir essas experiências. Mas é isso: eu gostaria de ter podido viver tudo isso de forma aberta, de chegar pro meu melhor amigo e falar: “Cara, ontem encontrei um menino, a gente foi pra uma balada, ‘ficamos’, nossa, estou super apaixonada, estou interessada nele”. Queria poder falar com meus amigos cis-hétero – ou que pareciam cis-hétero. Talvez eles fossem tão LGBT’s quanto eu, mas nem a própria pessoa LGBT conseguia reconhecer a outra pessoa como LGBT... Porque eles não me reconheciam como LGBT. Eles me toleravam, depois que eu me assumi pra eles, porque eu não parecia ser LGBT, não tinha comportamento afeminado, não saía de mãos dadas com outros homens, e quando eu saía com as travestis eles não estavam perto. Porque a minha namorada travesti eu ia com ela no cinema, no rodeio em Jaguariúna. Causava. (risos)

P/1 – Amara, você disse que, na transição, você não podia nem contar isso para os seus melhores amigos. Quem eram esses amigos que você passou a ter, que antes você não tinha? Onde você conheceu, como era?

R – O primeiro... Eu tenho um grande amigo que atravessou a minha adolescência. Ele era filho de um casal de amigos dos meus pais, e a gente se deu muito bem. A gente se tornou, então, grandes amigos da adolescência. Só que ele não morava perto de mim, então a gente se via esporadicamente. Aí ele foi trabalhar comigo nesse bufê infantil, então ele acompanhou meus processos. Ele foi fazendo as coisas junto comigo, a gente criou muita intimidade durante esse momento. Esse era um grande amigo, uma das primeiras pessoas para quem eu contei isso tudo, me respeitou. Hoje a gente se conhece ainda, mas não tem mais intimidade, cada um foi pra um canto. Mas é uma pessoa que eu ainda acho muito querida. Também, no bairro onde a gente foi morar na minha adolescência, teve alguns amigos. Meu vizinho, por exemplo, eu criei muita intimidade também, a gente conseguiu construir um vínculo de amizade forte. E no terceiro ano do ensino médio, na escola onde eu estudei, tinha um grupo de caras que eram meio deixados de escanteio, e eu acabei me dando bem com eles. A gente formou um grupo ali que a gente meio que se apoiava, a gente se dava bem. Foi um grupo que durou alguns anos, assim. Foram uns dois, três anos que a gente foi muito próximo. E aí só desfez quando eu entrei... Quando eu abandonei o curso de Franca, na Unesp, e fui fazer Letras na Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], aí acho que mudou um pouco meu perfil também, porque aí eu passei a ter um pouco mais de engajamento social, e eles eram, sei lá, ‘filhinhos de papai’, umas figuras muito classe média, mas zero compromisso social, zero crítica social, gostavam de aparência. Aí a gente foi se afastando. Eu fui começando a construir um outro vínculo, com outras pessoas, e a partir desse outro vínculo na universidade, a questão do estudo e da inteligência passa a ter um papel importante. Então eu acho que esse é o momento em que o que fez com que eu fosse zoada a vida inteira se tornasse algo que permitia que as pessoas me admirassem. Então é o lugar onde eu me encontro, onde o que foi fraqueza ao longo de toda a minha vida se tornou uma força.

P/1 – Amara, e seus irmãos, como que eles reagiram? Como eles se comportavam diante disso?

R – Como eu era muito zoada, acho que, em algum momento, em alguma medida, eu fui bastante injusta e cruel com eles também, porque eu descontava muito neles. Tinha essa coisa das minhas frustrações, eu descontava muito nos meus irmãos. Eu lembro, no começo, naquele primeiro joguinho de puxar memórias da infância, uma primeira memória que eu me lembrei foi quando eu tinha, sei lá, uns sete ou oito anos: meus pais me deixaram em casa, cuidando dos meus irmãos. Eles tiveram que sair rapidinho, assim, e falaram: “Fica aí e cuida deles”, e, assim que meus pais saíram de casa, eu fui e dei um beliscão em cada um, pra dizer quem é que mandava ali. (risos) Eles não lembram disso, mas eu lembro. E meus pais não me contaram, porque meus pais não estavam presentes, é algo que está na minha cabeça. Mas é isso: se, com sete anos, eu tinha esse delírio de autoridade, eu aprendi isso em algum lugar, né? E eu vejo ali como a frustração toda, todas as violências e humilhações que eu recebia, de alguma forma tentava canalizar para os meus irmãos como uma forma de... Por isso também a nossa relação sempre foi muito ruim, porque a gente nunca conseguiu... Acho que meus pais nunca conseguiram –de alguma forma eles têm culpa, mas também é isso: eles são pessoas – fazer com que a gente superasse os ciúmes infantis que a gente desenvolveu quando um foi nascendo atrás do outro. Então: eu nasci; depois de dois anos, meu irmão; depois veio minha irmã. Os ciúmes que a gente sentia um do outro e a tentativa de atrair a atenção da minha mãe foi jogando um contra o outro, e meus pais não souberam, não tinham preparo, talvez, para lidar com esse tipo de coisa. Então, uma coisa que sempre foi dita ao longo da trajetória dos três filhos, ali: meus pais comparavam muito a gente, então ficava ali: meu irmão fica de recuperação e a Amara consegue tirar dez sem estudar. Esse era o tipo de coisa que se colocava. Isso acirra sentimentos ruins ali dos filhos. Não é bem... Mas é isso, hoje eu tenho essa percepção. Hoje eu estudei educação, estou muito próxima dos movimentos sociais, estou ali já com criticidade para o meu próprio comportamento. Hoje eu vejo que esse é um comportamento complicado, acho que isso acaba atiçando sentimentos ruins entre os filhos, mas eu sei que a gente sempre se odiou muito. E só agora...

P/1 – Amara, e qual foi sua primeira paixão, que você gostou e falou: “Eu amo essa pessoa”, na adolescência?

R – Aí tem algumas figuras, meninas com quem eu estudei. Acho que ao longo da vida, por mais que eu me entendia como bissexual, eu nunca consegui, sempre foi muito difícil, até minha transição, sobretudo, eu sentir um vínculo afetivo com uma figura masculina. Os vínculos afetivos que eu construí eram com mulheres – cis ou trans. Eu cheguei a namorar e morar junto com uma namorada trans, por exemplo – uma relação de um ano e meio –, que hoje é uma amiga. Mas as pessoas por quem eu senti amor e, sei lá, algum sentimento mais forte, que não era uma questão só puramente sexual, eram mulheres, sejam elas cis ou trans. Os homens por quem eu sentia alguma coisa nesse período eram homens que se entendiam como homens, mas gostavam de se vestir de mulher – cros-dresser, por exemplo. Tinha um rapaz que conheci na balada e ele gostava de se vestir de mulher, mas ele dizia: “Eu sou um homem, mas eu gosto de me vestir de mulher, e eu gostaria que eu pudesse estar natural também com você”, e eu não conseguia. Para que eu estivesse junto com ele, ele tinha que estar trans, com uma sainha. Podia estar até com a barba mal feita, mas coloca uma peruquinha, um vestido, e está ótimo, mas não consigo olhar pra você, uma figura masculina, e sentir vontade de te beijar na boca, de trocar afeto. Para mim o afeto não podia ser direcionado a outra figura masculina ou entendida como masculina, e aí o simbólico afetava muito. Então bastava ele colocar um vestido e uma peruca e, pra mim, já mudava o perfil daquela figura, já não era mais um homem que estava diante de mim. É muito significativo, assim, o quanto isso afetava meu imaginário, mas eu lembro, assim, algumas meninas que eu fui sendo apaixonado. Todos os anos eu me apaixonava por uma menina da sala e, como eu mudava de colégio todo ano, cada ano eu me apaixonei por uma pessoa diferente. (risos) Eu não lembro de todas, lembro de algumas figuras que ficaram marcadas na minha memória.

P/1 – Como é que era sua relação com a sua avó? Dentro de casa: viu você crescer, tinha essas questões na escola, na sua casa – essa briga com seus irmãos –, mas você convivia com essa vó que você disse que foi maravilhosa para você. Como é que é a sua avó nesse contexto?

R – Então, minha avó foi a figura que mima. Aquela figura que cuida, dá presente, passa a mão na cabeça, aceita tudo. Fez o papel dela de vó. (risos) O papel tradicional de vó. Amo. Era uma figura muito carinhosa, teve muita importância ao longo da minha trajetória, infância e adolescência sobretudo, e, durante um tempo, a gente não teve tanta intimidade como tinha. Acho que ela volta a ser uma personagem protagonista da minha história quando eu já estou começando a transição. O primeiro dia que minha família me viu como Amara foi no dia cinco de maio de 2014, quando eu estava voltando da Parada LGBT de São Paulo. Eu fui pra lá, passei o feriado prolongado em São Paulo, aqui em São Paulo... Eu estava em Campinas, morando, mas eu tinha vindo pra cá, e eu só trouxe roupas femininas na mala. Conheci uma drag no metrô e ela ficou minha amiga querida, a Jaqueline, e ela me maquiou, me produziu, me deu uma peruca, me ajudou a ficar bonita. O dia da Parada eu dormi olhando pra cima pra não estragar a maquiagem, porque no dia seguinte de manhã eu ia voltar pra Campinas e eu queria que meus pais me vissem daquele jeito. E eu fui, estava esperando na rodoviária, eles foram me buscar, e eu lá, de salto, saia, blusinha, uma perucona loira. Entro no carro, cinco de maio, dia do aniversário da minha vó, e ela estava no carro. E aí minha mãe vira pra mim e fala: “Esse é o presente de aniversário que você vai dar pra sua vó?” e eu falei: “Mas ela queria algo melhor do que ganhar uma neta?” ________ (01:14:15) contemporizasse. (risos) Se a pessoa vem com baixeza, golpe baixo pra cima de mim, eu respondo na mesma medida. Não, eu sou muito... Não sei se é ressentido. Tenho bastante ressentimento. É aquela coisa da competitividade, que eu falei. Se a pessoa cresce pra cima de mim, eu cresço pra cima dela. Eu tenho dificuldade, ainda tenho imaturidade pra lidar com isso, assim, de saber a hora de abaixar a bola e entender que, estrategicamente, às vezes é melhor recorrer a outro tipo de resposta.

P/1 – Quando você deu essa resposta, o que sua vó disse?

R – Aí minha vó pegou na minha mão e disse que ia rezar pra eu voltar a ser o netinho de antes. A gente foi, deixou minha vó na casa dela – meu pai estava indo levar minha vó na casa dela –, a deixou e, quando minha vó entrou em casa, minha mãe começou a chorar, assim, de soluçar e não conseguir se conter. E passou dias assim, sem conseguir lidar com o próprio sofrimento. Então, num processo muito sofrido. E era difícil, assim, pra mim, porque eu tinha muita consciência que eu não era culpada disso, desse sofrimento. A culpa desse sofrimento são os preconceitos, todos, que ensinaram para ela. Eu estava vivendo o meu momento de maior felicidade, de maior plenitude. Nunca tinha me sentido tão leve, tão livre, tão plena, e não conseguia tolerar que as pessoas ao meu redor estivessem tristes comigo por conta disso. Então meu pai sofrendo muito, minha mãe chorando o dia inteiro.

P/1 – No dia seguinte você continuou se vestindo de mulher?

R – Sim.

P/1 – E na cidade, seus outros amigos?

R – A princípio não dava pra saber exatamente. Meu cabelo estava curto naquela época, eu não usava aquela perucona loira gigantesca, que minha amiga drag tinha me dado. Eu usava meu cabelo natural e estava curtinho. Porque eu tinha acabado de terminar um namoro com uma menina, que é uma grande amiga hoje, e antes disso eu já tinha tentado transicionar e ela já sabia disso, mas eu abortei, falei que não tinha nada a ver, que eu tinha descoberto que eu era um homem mesmo, que eu precisava estar com ela e se eu estivesse com ela seria melhor, se ela estivesse comigo também. A gente voltou a namorar, e uma das coisas que ela tinha me colocado era que eu cortasse o cabelo. Meu cabelo estava compridão, e ela falou: “A gente volta a namorar, mas você vai cortar esse cabelo”, eu fui lá e passei a máquina. A gente namorou três meses e ela terminou comigo, porque ela falou: “Não, você não é um homem. Você está tentando ser. Vai viver sua vida”. E ela falou: “Eu não sou lésbica, não consigo me relacionar com uma pessoa que eu imagino que não seja um homem”. A gente rompe e então meu cabelo estava ainda muito curtinho. E quando a gente rompeu, eu me joguei de cabeça, falei: “Ela era o que me segurava, ainda”. Então esse sentimento que eu nutria por ela era o que eu fazia com que eu tentasse ainda me agarrar a essa identidade masculina. E foi a desculpa que eu tentei encontrar pra postergar mais uma vez a minha transição e pra continuar tentando existir de acordo com as regras do jogo. Porque eu sabia também que, se eu me descobrisse de outra forma ou não conseguisse me conter, a vida poderia ser muito complicada dali por diante. E quando eu começo a transição, estava deixando ainda o cabelo crescer, e eu ia pra universidade com aquele cabelinho curtinho, enroladinho. Colocava, sei lá, uma saia, uma calça que poderia ser considerada feminina – na minha perspectiva era muito feminina, mas hoje eu olho para aquilo e era uma calça hipster, sei lá, uma calça que hoje, para os adolescentes, seria unissex, assim. Mas, para mim, ali, era muito... Eu sempre fui muito... Minhas roupas foram muito parecidas, nunca tive uma amplitude muito grande de guarda-roupa, sempre usava roupas muito iguais. Era uma camiseta, uma bermuda, uma calça, corte muito parecido e isso. Então quando eu comecei a transição eu fui comprar roupa, aí eu comprava assim, nossa: calça com zíper lateral. Isso parecia uma loucura pra mim. Parecia uma coisa muito incrível. Tipo bolso pra fora, com babados. Eu comprava as roupas mais extravagantes, mas também comprava essas que tinham coisas que as roupas que eu usei a vida inteira não tinham. Então blusinha mostrando a barriga. Às vezes eu fico olhando pra essas fotos do meu começo e talvez as pessoas que estivessem olhando para aquilo estavam vendo um gayzinho, um menino gay, afeminado, [que] está desabrochando, começando a se empoderar e usar suas roupinhas unissex ou femininas. Mas eu acho que as pessoas ainda tinham uma dificuldade de saber se aquilo era uma travesti em começo de carreira ou um gay afeminado.    

P/1 – Com que dinheiro você comprava essas roupas? Você já tinha seu dinheiro? Seu pai continuava te dando?

R – Não, não, não. Com a coisa da inteligência na universidade, eu me identifiquei muito com o projeto universitário. Então, durante muito tempo, por exemplo, eu consegui bolsas de estudo, bolsa de intercâmbio duas vezes na graduação. Fui pra Portugal e Argentina. Ganhei duas bolsas pra estudar fora, durante a graduação, ainda. Aí eu entro no mestrado com bolsa Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], era a que melhor pagava no mestrado, em 2011, 2012. E em 2013 eu entro no doutorado com uma bolsa também. Então eu tinha ali uma bolsa mensal caindo na minha conta, tinha plena autonomia financeira. Morava com meus pais nessa época, ainda, então não pagava aluguel. Então ganhava o dinheiro da bolsa e não gastava com coisas básicas do cotidiano, assim, como aluguel e comida. Então, isso fazia com que eu tivesse uma boa relação com dinheiro, nesse momento. No começo. Mas aí, qual foi a questão? Como minha mãe só chorava, sofria muito me vendo dessa forma, aí, em determinado momento, então, eu falei pra ela que eu não conseguia mais estar num espaço que não aceitava me tratar da forma como eu estava reivindicando. Meus amigos começaram a me chamar de Amara, eu comecei a sinalizar pra todo mundo que eu gostaria de ser tratada no feminino, então todo mundo começa a me chamar dessa forma, mas meus pais não conseguiam. Aí eu falei: “Eu preciso estar num espaço onde eu possa ser Amara, pra me libertar disso que eu fui criada pra ser e pra conseguir viver isso de forma mais profunda, inteira. Então eu vou sair, vou começar a morar com amigos numa república”. Aí as minhas condições financeiras ficaram mais complicadas, porque eu passei a eu mesma ter que cuidar do meu aluguel, dos meus gastos de comida, de livros, tudo passou a ficar por conta da minha bolsa. Mas aí foi interessante que, assim como meu pai, quando eu me assumi bissexual, lá com dezoito, dezenove, disse: “Vamos segurar as pontas, dar um jeito”, minha mãe também, ali, na hora que eu estava saindo de casa, ela falou que eu estava saindo porque eu queria, porque eles não estavam me expulsando. Se eu ficasse, eles iam, de alguma maneira, aprender a me tratar da forma como eu queria. Só que ia demorar muito, se eu ficasse eu ia sofrer muito e eles também, então era melhor que a gente fizesse esse processo mais longe. Mudei para o mesmo bairro. Era um canto diferente do bairro, mas era o mesmo bairro ainda. Foi um pouco isso, assim. A Unicamp, naquele momento, estava começando a desabrochar o debate trans. Eu fui uma das primeiras pessoas trans ali a se assumir, então a gente começou a disputar esse imaginário da universidade, eles estavam se abrindo. Os movimentos universitários de estudantes, os centros acadêmicos, o DCE [Diretório Central dos Estudantes] começaram a comprar essas brigas, então se juntar a nós. O movimento LGBT começou a ficar cada vez mais forte ali dentro. Então, tudo isso foi muito impactante pra que eu sentisse que era o momento de fazer a minha transição. Mas, nesses primeiros momentos, eu ainda não tinha a completa noção do que eu era. O que eu queria, naquele momento, era espaço para poder experimentar e viver daquela forma, descobrir o que eu era e como eu queria viver. Eu me sinto muito identificada com a trajetória da Laerte, que foi se permitindo viver de determinadas maneiras e descobrindo, pela experiência concreta do dia a dia, de que maneira ela se sentia melhor. Quando, há quinze anos, perguntavam a ela o que ela era, ela falava que era uma cross-dresser; aí, dez anos atrás, uma travesti; cinco anos atrás, uma mulher trans. Ela começa a mudar o discurso dela à medida que ela vai, também, se sentindo mais confortável para reivindicar determinadas coisas. Porque ela começou muito tardiamente, era difícil pra ela reivindicar direto, já, ter essa força, essa clareza de que ela tem total direito de reivindicar uma outra identidade, tendo vivido tanto tempo como homem. Eu comecei minha transição com 29 [anos]. Então, pra mim, também foi difícil me sentir confortável pra dizer: “Olha, na verdade, eu gostaria de ser tratada como uma mulher trans. Eu sou uma mulher trans”. Eu fui me permitindo viver, sentindo leveza nesse viver. Para mim, acho que a coisa mais importante é isso: o permitir-se.

P/1 – Amara, vamos voltar um pouco? Eu sempre faço esse movimento. Por que você escolheu Relações Internacionais, fazer esse curso primeiro?

R – Isso tem a ver com a coisa de ser escritora, assim como quando eu abandonei o curso para fazer Letras na Unicamp, no ano seguinte. Pra mim, quando eu estava no cursinho, eu sempre pensava: “Qual vai ser o emprego que eu vou conseguir, que vai me permitir ser escritora?” Então eu ficava, sei lá, pirando ali nessa imagem do Guimarães Rosa, do Vinicius de Moraes, como grandes diplomatas, figuras que conseguiram escrever suas obras monumentais, mesmo sendo diplomatas, e ficam viajando o mundo, conhecem um monte de gente interessante, aprendem outros idiomas. Pra mim era perfeito. Só que aí eu passei na Unesp Franca e não tinha nem curso de idiomas na universidade. Pra fazer ali o curso de idiomas, eles tinham convênio com o Centro de Idiomas da cidade, com o Cervantes, não tinha ali dentro. Eu falei: “Não, isso aqui não faz sentido pra mim”. Pra mim faria sentido se eu pudesse, ali, estudar um monte de idiomas, se aquela biblioteca fosse excepcional, se tivesse um monte de sebos naquela cidade. Eu saí de Campinas, uma cidade com um milhão de habitantes, pra Franca, que era uma cidade com, sei lá, trezentos mil habitantes, mas provinciana. Campinas já é muito provinciana, Franca era ainda mais. Campinas eu gosto de dizer que é a maior cidade pequena do mundo. A única, acho, concorrente forte era a Dublin do tempo do Joyce. (risos) Porque Dublin também é foda. Mas Campinas também é ‘punk’. É uma cidade grande e, ao mesmo tempo, muito pequena, muito ridícula. Mas, ao mesmo tempo, sair de Campinas pra ir pra Franca... Campinas a gente brinca que também não é interior, é capital do interior. Então, sair da capital do interior para o interior foi um choque de existência, assim. Foi muito libertador por causa dos cursos, das festas, das pessoas que tinha, mas foi muito frustrante também ver o quanto... Não sei, por ser uma cidade do interior, as pessoas eram muito focadas ainda em festas, estavam ali saindo da casa dos pais pela primeira vez, e estavam muito encantadas com essa liberdade. E eu estava querendo ser uma intelectual, sei lá, uma escritora, e não estava encontrando ali a minha turma. Aí falei: “Em vez de tentar ser diplomata pra poder ser escritora, eu vou estudar Letras logo, estudar Literatura e aprender a escrever como se deve”. Abandonei o curso e fui fazer Letras na Unicamp. Aí a Unicamp é muito grande, né? Então, como a Unicamp é gigantesca, acaba que mesmo que o meu curso não tivesse as pessoas que eu estava buscando, eu conseguia encontrar essas pessoas em outros cursos, em outros cantos. Fui construindo meu bando ali.

P/1 – Amara, o que o Marquês de Sade, quando você leu, te trouxe, que você falou: “Abriu minha cabeça”?

R – O Marquês tem algo de muito interessante na obra dele: o que ele narra ali não é para ser tomado de forma literal. Sei lá, acho que não é a forma mais apropriada, interessante de ler a obra dele. Entender como se ele estivesse fazendo uma apologia de que as pessoas começassem a sequestrar outras figuras e violentá-las, escravizá-las. Ele está falando ali sobre desejo, né? Então, sobre esses fantasmas, dilemas que nos habitam, entre o que a gente deseja e como a gente tem que ser, se comportar, pra poder existir em sociedade. Para mim, era muito bonito ver o quanto ele se permitiu olhar pra essas pulsões, pra esses movimentos, pra esses fantasmas, pra essas coisas que nos ensinam a temer dentro de nós, e trazer isso pro texto literário de forma livre, sem pudor. Então, trazer a imaginação. O que ele trabalha ali é a imaginação sobre aquilo. Ele está falando sobre que somos capazes de imaginar, e a nossa imaginação pode ser terrível, mas aí o problema é: vamos acabar com os livros que mostram que a nossa imaginação é terrível ou vamos olhar para a nossa imaginação e tentar entender por que ela nos assusta tanto? Ele traz essa imaginação sem freios, sem pudores, faz com que a gente tenha que lidar com isso. E nesse momento que eu estava tentando me aceitar, em que eu estava vivendo coisas que eu fui ensinada que eu devia sentir vergonha, que eram execráveis, era muito, muito bom ler essa figura que não tinha nenhum tipo de pudor com relação ao que desejava e ao que era. Pra mim isso foi muito significativo. A questão da bissexualidade é um dos exemplos, só. Mas as outras questões também. Essa coisa de você se permitir ler, olhar no espelho, de fato. Quando o Sade escreve o que ele escreve, parecia uma aberração. Aí, cem anos depois, com o surgimento da psiquiatria, da psicanálise, a gente vai descobrir que ele estava ali projetando coisas que, em alguma medida, estão presentes em todo indivíduo. Fantasias que estão presentes em todo indivíduo. Fantasias de destruição do outro e de si próprio, de gozo ininterrupto, de autodestruição, de liberdade irrestrita, de rompimento com a ordem, com as regras. Era muito impactante. Eu vi uma peça de teatro do Sátiros, que é um grupo de teatro super importante aqui de São Paulo, em 2004. E aí foi... Nossa! Eu tinha lido os contos, textos dele lá na biblioteca, e de repente eu vi lá Sátiros montando aquilo em 2004 e falei: “Caramba!” E era muito marcante, eu fiquei muito chocada. Eu vi muitas vezes as apresentações dos Sátiros com as peças do Marquês. Eu acho que eu vi tudo que eles montaram do Marquês, foram umas quatro peças. Então acho que o Sade me ensinava a não ter vergonha de quem eu era e do que eu tinha que esconder do mundo, a me olhar com respeito, a respeitar os meus fantasmas e a minha imaginação.

P/1 – Amara, você lia, sempre leu, desde cedo. Como é que era você sair com essas pessoas que você ia no banheirão? Você ia direto? Com que frequência? Eu já tinha perguntado isso, mas eu fico pensando: você, que tinha toda uma formação intelectual, um contato com a literatura, e esse contato com essas pessoas, que não necessariamente valorizavam isso...

R – Não, a gente nem sabia nome um do outro. Eles nem sabiam que eu tinha contato com a literatura. (risos) Teve uma época que eu ia pro shopping pra ficar indo de um banheiro pro outro, vivendo esse tipo de experiência, procurando alguém que topasse entrar comigo no box. Eu ficava ali lavando a mão, demorava ali na zona do mictório, tentando encontrar alguém pra viver essas experiências. Às vezes, tinha o chat Uol, que entrava de madrugada, que era quando estava todo mundo dormindo. Era internet discada, e aí, da meia noite às seis era um pulso só que contava, então podia ficar ali conectada que não tinha problema, só vai contar um pulso. Era o horário que eu entrava e tentava encontrar, marcar coisas pro dia seguinte. Não tinha celular nessa época, também. Demorei muito tempo pra ter celular. O primeiro celular que eu tive foi em 2012. Não, acho que antes eu já tinha celular, mas em 2012 eu passei a ter um celular smartphone, com internet. Mas antes eu já cheguei a ter um celular, e eu lembro que uma namorada travesti me deu um celular, que ela queria falar comigo. Eu nem usei muito tempo aquele celular. Eu não me dava muito bem. Por exemplo: essa coisa de ser introvertida, fechada. Eu tive redes sociais em 2006, 2007. Não, 2005, 2006. Isso. Eu tinha Orkut. E aí eu curtia uma página lá, seguia, estava, que se chamava assim: ‘Travestis’. Aí, uma vez, uma pessoa que me seguia veio me perguntar: “Que história é essa, que você está aqui nesse grupo de travestis?” Eu me senti tão invadida... Porque é isso: o Orkut não escondia essas coisas. Mas eu não fazia nenhuma questão de esconder também, então é isso: eu estava com a minha conta pessoal nesse grupo, e “Quem viu, viu; quem não viu, não viu. Problema de vocês, o que quer pensar, pensou”. Mas aí, quando a pessoa veio me perguntar isso, eu me senti tão incomodada que eu fechei o meu Orkut, cancelei, e só fui voltar a ter redes sociais com o Facebook, no final de 2012. Eu passei seis ou sete anos da minha vida sendo aquela figura que achava ‘uó’, tenebrosa essa galera que gasta tempo em redes sociais. Isso por quê? Hoje eu olho pra mim, assim: por que se torna tão importante pra mim a rede social quando eu começo a querer fazer a minha transição? Porque, pra mim, a rede social já é desse momento em que eu começo a me expor, onde eu já não tenho nada pra esconder – ou já tenho menos coisas pra esconder. Onde eu posso me mostrar da maneira como eu me entendo. Enquanto eu estava me escondendo de todo mundo, eu ainda não estava pronta nem pra mim mesma me olhar no espelho e querer descobrir o que eu era. Eu tinha uma relação ruim com a questão da exposição nas redes sociais. A partir do momento que eu me aceitei e comecei a lidar melhor comigo, aí eu me tornei essa coisa, esse negócio super exposto nas redes sociais, escrevi um livro contando minhas experiências sexuais com clientes. É isso: mudei muito a minha personalidade, o meu perfil, a minha forma de existir mudou muito.

P/1 – Você disse que nesse livro você conta experiência sexual que você teve com os clientes. Que clientes eram esses? Nessa época você se prostituía?

R – Não, foi depois da transição.

P/1 – Depois da transição?

R – Isso.

P/1 – Quando você decidiu se chamar Amara Moira? Como é que se deu a escolha desse nome?

R – Em 2012. É difícil... Quando eu tento... Eu escrevi um livro também, um capítulo do livro ‘Vidas Trans’, chama ‘Destino Amargo’. Lá eu tentei puxar alguns pontos da minha história, que foram me alertando pra que, talvez, um dia, eu transicionasse, mas coisas que só se tornaram visíveis quando eu olho em retrospectiva. E aí, por exemplo, eu lembro de um momento – acho que, sei lá, 2008, 2009, 2010, talvez – que eu estava vendo um filme, ‘Priscila, a Rainha do Deserto’, que é um filme que eu já tinha visto, mas naquele dia estava de madrugada vendo, e me bateu de uma forma muito tensa. Eu precisei escrever um poema sobre o que eu estava sentindo ali, naquele momento. Aí mandei pra minha ex-namorada – trans – e disse: “Fiz um poema pensando em você”. O poema era assim (recitando): “Não fossem seus pelos vários / Pelos pelas pernas/ Pelos, seios, rosto, seus cabelos curtos/ Não teria páreo/ Nem pra lhe conter, armário/ Não fosse de saias curtas/ Decote, salto, a la puta/ E atrás de machos/ Mãos brutas a forçar-lhe o vão/ Virgem como quem a estupra”. Então um poema em que uma figura que se entende como um corpo masculino, com pelos, fica fantasiando com a possibilidade de como seria muito mais livre e poderosa se pudesse deixar os cabelos crescerem, cortar os pelos do corpo, vestir uma roupa provocante e ir atrás de homens que a tratassem no limite entre o prazer e a violência. É muito doido. E eu escrevi, mandei pra ela e ela respondeu, falou assim: “Olha, esse poema é muito bonito, mas não tem absolutamente nada a ver comigo. Eu sou trans, mas eu sempre me entendi como mulher, nunca tive pelos, sempre tive o cabelo comprido, nunca fui promíscua. Então, não vejo absolutamente nenhum ponto em comum entre isso que você está escrevendo e o que eu sou”. E aí, quando eu comecei a minha transição e encontrei esse poema, por acaso, eu me dei conta de que esse poema estava falando sobre mim, mas, pra que eu conseguisse escrevê-lo, eu precisei achar que eu estava escrevendo sobre ela. São as estratégias que a gente cria pra tentar ir se soltando. Naquele momento, ali, pra mim, era muito significativo. Esse poema mostrava coisas que eu queria viver e que eu ainda não me permitia. Nesse momento tinha pavor da ideia de vestir uma saia, uma roupa feminina, de depilar meus pelos do corpo. Não conseguia nem imaginar isso. E aí, aos poucos, um tempo depois... Uma coisa também que eu sempre odiei: esse nome que era do meu avô, que me deram, foi também um motivo de chacota ao longo de toda a minha vida. Sempre me zoaram pelo meu nome, Omar. Criaram trocadilhos: ‘Omar Mita’, ‘Omar Mota’, ‘Osmar’. Como era uma figura própria, boa para cuspir na escola, era uma figura ótima pra zombarem, porque eu não sabia me defender, aí o sadismo infantil e adolescente se exercitavam em cima de mim. Esse nome se tornou ótimo pra piadas, e me machucava muito. Até que, em determinado momento, eu comecei a brincar com ele e comecei a me sentir mais à vontade com ele. Então, de Omar, virou ‘Humor Omar’, aí virou ‘Amaro Omar’. O ‘Amaro’, de amargo e mar, junto, mas também tinha um negócio meio narcisista, assim, de ‘amar o Omar’. Eu ficava brincando com isso. Eu tinha que, de alguma forma, reinventar a minha autoestima. Acho que, por mais que eu tenha sido zombada ao longo de toda a vida – fui humilhada, excluída e fui muito solitária –, eu acho que eu sempre cultivei o amor próprio. Sempre, de alguma forma... Dentro de mim eu acreditava que eu era uma figura inteligente, legal. Então tinha um narcisismo que me protegia das agressões e criava essa couraça, e aí esse ‘Amaro Omar’. Esse nome foi um dos momentos mais nítidos disso. Só que aí, um dia, eu estava lendo a Odisseia, do Homero, na tradução de um professor que me ensinou a escrever poesia lá na Unicamp, o Trajano Vieira, que é professor de grego lá, e foi uma figura muito importante na minha trajetória acadêmica e literária, porque, quando eu entrei lá, em 2005, eu ia na sala dele, a gente ficava discutindo literatura, ele me ensinava coisas. Era muito significativo o trabalho que ele fazia comigo, ali. E lendo a tradução dele, em determinado momento, ele coloca que Ulisses “sofre a moira, amara de ver-se longe de Ítaca, desterrado do abraço dos seus”. Não me lembro exatamente qual a expressão que ele usa, e ele coloca essa ‘moira amara’. ‘Moira’, para os gregos antigos, é a personificação do destino, as moiras eram tecelãs do destino. E ‘amara’ é ‘amarga’, uma palavra um pouco mais rara pra amarga – em italiano e espanhol é mais frequente. ‘Moira amara’ é a sina, o destino amargo, então Ulisses vive o destino amargo de ver-se longe de Ítaca, impossibilitado de voltar. Aí, quando eu vi ‘moira amara’, ‘amara moira’, eu associei imediatamente com ‘Amaro Omar’, e comecei a escrever poemas assinando como Amara Moira. Inclusive esse poema que eu tinha escrito, a princípio... Que eu tinha escrito uns anos antes, dos pelos vários, eu renomeei esse poema como Amara Moira nessa época, por essa época. É interessante pensar que esse nome, que significa algo tão pesado, assim, que a gente entende como pesado... Porque o amargor é um gosto que a gente não sabe, também, valorizar. Eu também tenho que dizer isso. Os chocolates amargos, 100%, 90% cacau são muito valorizados por quem tem um paladar desenvolvido, quem não foi educado com junk food. Mas eu gosto de café amargo, não tomo com açúcar. Então, pra quem se permite viver sabores amplos, expandir os horizontes do paladar, o amargo não é um gosto necessariamente ruim. Então um destino amargo adquire essa duplicidade de significações. É um destino inusitado, esquisito, raro, e, sei lá, de um sabor intenso, não facilmente apreciável, mas pode ser um destino interessante. Eu gosto do duplo sentido que isso permite, né, quando eu penso o que é a vida de uma travesti no Brasil, que é muito difícil, marcada por violência, por deslegitimação, e aí pensar que o meu nome nomeia uma travesti é interessante também. É um jogo interessante, né? E também tinha uma outra coisa: que moira era uma leitura de dicionário. Em algum momento da vida eu comecei a ler dicionário também. Gosto de catar palavras ao léu, ali, ficar lendo Houaiss, Aurélio – eu tenho uma coleção de dicionários virtuais também, digitais, são ótimos, também, pra catar palavras –, e aí encontrei a palavra ‘moria’, que o Houaiss catalogou como primeiro sentido ‘loucura’ e um segundo sentido é ‘uma propensão doentia a caçoar dos outros’. Eu gosto, então, desse sentido de moria, que é uma figura que está sempre zombando do outro, está sempre com uma cara irônica – um pouco Machadiano isso. Uma postura cética. (Zom Oromar?) (01:46:04) também foi um nome que eu gostei muito de possuir durante um tempo. Cheguei a assinar traduções, artigos, coisas que eu publiquei, nessa época, como Humor Omar. (risos) Meu nome no Facebook era Amaro Omar, antes de Amara Moira. Então eu realmente levava a sério essas coisas, essas brincadeiras com nome.    

P/1 – Amara, na faculdade, quando você entrou na Letras, que cursos você gostava mais? Você falou que acabou te inspirando, que você entrou em contato com Ilíada e Odisseia. Que matérias você gostava, que caminhos você foi enveredando, que te pulsavam mais dentro da faculdade, professores que te marcaram?    

R – Olha, acho que um dos lugares onde eu mais gastei tempo, investi esforços e energia, foi em línguas, que era o que faltava na Unesp de Franca e o que a Unicamp tinha de extra. Eu fiz russo por dois anos, fiz espanhol; fiz italiano básico e larguei o italiano quando, sei lá, senti que a professora estava... Não sei, de alguma forma, as aulas ali no Centro de Estudos de Idiomas eram oferecidas pra toda a universidade. Tinha algumas pessoas que iam pra lá pra aprender a conversar, a leitura instrumental... Eu nunca me interessei em ser fluente em nenhum idioma. Meu domínio dos idiomas, todos que eu falo, é precário. Meu doutorado e mestrado foi sobre James Joyce, com um inglês precário. Então eu consigo ler, entender coisas muito complexas, mas falar, ouvir, formular frases, escrever, é algo que nunca me interessou muito – o que não me impediu de fazer coisas grandes com essa Literatura, trazer uma linguagem macarrônica ou toda costurada, de palavras, de vários idiomas, construções anômalas. Acho que isso é algo que me atrai muito. Então eu lembro, por exemplo: eu fiz o primeiro semestre de italiano porque a professora pegava muito leve com os alunos. Como tinha alunos de vários cursos, alguns lá não tinham esse perfil intelectual, de querer ler coisas pra valer. Queria só ficar no telefone, conversar sem dificuldade. Eu não queria conversar em Roma, eu queria ler Dante. Então, fiz um semestre de italiano pra ler a Divina Comédia. Peguei minha Divina Comédia em italiano, peguei um dicionário de italiano e li aquela porra em italiano. (risos) Porque as traduções eram terríveis, eu olhava para aquilo e falava: “Não, que coisa nojenta, que verso horrível!” Eu decorava os versos, tinha uma memória boa nesse momento. Então, eu gostava muito... Como é que era: ‘lasciate ogni speranza, voi ch’entrate’. Eu lembrava de muitos versos, fui perdendo isso. Nessa época eu decorei as 16 primeiras estrofes dos Lusíadas. Esses poemas que eram muito marcantes, eu queria tê-los dentro de mim. Eu me sentia uma espécie de uma Rapsoda, capaz de declamar de supetão um trecho de um grande clássico. Então eu gostava muito dos cursos de idiomas, mas eu fazia só o básico. Só o espanhol que eu fiz mais tempo, que eu fiz também uns dois anos, porque eu precisava me formar em um idioma pra conseguir meu diploma de Letras. Mas eu acho que nem cheguei a me formar, porque também eu fiquei muito irritada. É isso: com o primeiro semestre de espanhol eu já conseguia ler Borges no original, aí eu falei: “Não, eu não vou fazer esse curso de espanhol, eu vou fazer um intercâmbio pra Argentina, eu vou passar quatro meses lá”. Ganhei uma bolsa pra ir pra lá, fui pra lá com tudo pago, fiquei quatro meses, voltei, fiz a prova de proficiência e me livrei do curso de espanhol. Então ficou por isso mesmo. Mas o curso não dava pra aprender sozinha. Eu queria ler Maiakovski. Mas também não deu certo, esqueci tudo que eu estudei, eu cheguei ___________ (01:51:03) poucas palavras em comum. É uma língua com outro alfabeto, o cirílico, e muito LGBTfóbico, também. Então nem a possibilidade concreta de ir pra lá existe, porque eu seria presa e decapitada. (risos)

P/1 – Aí você já tinha ideia de escrever seu livro, de começar a publicar?

R – Não, eu sempre escrevi, desde adolescente. Eu lembro que na adolescência eu perdi isso, mas tinha lá uma novela que eu tinha escrito num caderno sobre uma continuação dos X-Mens. Aí eu tinha poemas. Nessa época que eu fiz, por exemplo, meu primeiro exame de HIV, que eu fiquei com muito medo de ter contraído, escrevi muitos poemas achando que eu tinha contraído, falando sobre como aquilo ia impactar na minha vida. Eu me sentia meio Álvares de Azevedo, assim, ultrarromântica, falando sobre a morte. Só que a tuberculose era o HIV. Aí acabou, veio o exame, não teve nada. E eu fazia um exame a cada seis meses, porque também não conseguia controlar, não tinha com quem conversar, trabalhar essa angústia e esses pensamentos contraditórios, sentimentos ambíguos dentro de mim, então isso acabava se refletindo nessa atividade sexual meio complicada. Eu ficava fazendo exames de tempos em tempos, e escrevia muitos poemas sobre isso, assim. Tinha uma certa fixação com a morte, com a doença, nesses poemas. Nem sei mais onde estão esses poemas. Mas eu escrevia letra de pagode quando eu tinha catorze anos, com meus amigos – com alguns amigos que tinha alguma intimidade –, a gente ficava fazendo uma musiquinha sonhando que tinha uma banda. Então, fui juntando... E aí, quando eu entro na universidade e conheço os irmãos Campos e o concretismo e fico encantada por aquele jogo de palavras desenfreado e esse trabalho com a sonoridade das palavras, com a grafia, aquela radicalidade, aquele processo, projeto e começo a escrever muita coisa. Eu tenho várias coisas que estão aí, guardadas, e que um dia, talvez, sejam juntadas para eu tentar reciclar pelo olhar da Amara Moira. Porque é isso: eu sou uma pessoa muito diferente, então, a figura que eu fui, o Amaro Omar e o Humor Omar e o Omar também tinham uma visão limitada, embora se jogassem de cabeça nessa aventura de tentar aprender a escrever da forma mais radical possível. Eu aprendi muito com eles, mas eu acho que amadureci e aprendi a dar um uso melhor para as palavras do que simplesmente ficar fazendo joguinhos gratuitos na folha de papel. Eu sempre tive, então, um plano de escrever muita coisa, mas nunca cheguei ao ponto de ter um material na minha mão que eu falasse: “Isso aqui daria um livro”. Tinha coisas dispersas, espalhadas, não tinha unidade. A ideia de um livro surge quando eu começo a minha transição, começo a gostar de escrever sobre essas novas realidades que eu estava vivendo no Facebook. Textão de Facebook, escrevendo, trazendo narrativas das coisas que eu comecei a viver ali, do mundo que eu comecei a descobrir a partir da minha transição, coisas que eu não suspeitava. Como muda a maneira como a sociedade te trata a partir do momento que te vê dessa maneira, então eu começava a querer escrever sobre isso, fui exercitando o meu trabalho de narradora, esse trabalho narrativo, e aí, em determinado momento, eu acabei me aproximando das minhas amigas que exerciam a prostituição. Elas me chamaram pra trabalhar junto com elas, falaram: “Vem cá, vem fazer seu dinheiro, todo mundo precisa de dinheiro”. E, mais do que dinheiro, ali era um espaço em que eu me sentia livre de novo. Era um espaço onde existia uma maioria de corpos como o meu. Na Unicamp eram cinco pessoas trans e trinta mil alunos. Quando eu ia visitar as minhas amigas prostitutas, era uma rua com cem prostitutas travestis, num bairro de duas mil pessoas, mas naquela rua só tinha travesti, era um espaço onde a gente era maioria. Era muito bom estar em um espaço onde o seu corpo é maioria, faz sentido, pode ser considerado bonito, onde você pode construir uma relação positiva com esse corpo, onde você pode ser desejada. Ali os clientes se permitiam dizer que você era bonita, vir pra cima de você, perguntar meu preço, o preço do meu programa, antes de eu exercer ainda o trabalho sexual. Ia lá só para visitá-las. E comecei a não olhar para a questão do sexo e do trabalho sexual com esse olhar moralizante, perigoso, que tinham me ensinado. Comecei a gostar da ideia de exercer o trabalho sexual também e, ao mesmo tempo, como eu estava na universidade, como eu tinha minha bolsa de estudos, como eu tinha condição de me bancar e eu me acreditava segura também, sempre me acompanhou esse espírito perturbador e provocador, aí eu falei: “Quer saber? Eu vou escrever sobre isso. Eu vou ser prostituta, mas mais do que ser prostituta, eu vou escancarar isso pro mundo inteiro. Eu vou fazer o mundo inteiro ser prostituta junto comigo. Eu quero que as pessoas vivam a experiência pelas minhas palavras”. Aí joguei as minhas experiências no blog, fui jogando aos poucos. A Unicamp ficou ali tipo: “O que está acontecendo? A pessoa faz um doutorado estudando James Joyce e indo se prostituir num bairro de prostituição em Campinas!” Era inacreditável, assim. Ninguém conseguia entender, realmente, o que era esse gesto. Mas, pra mim, fazia todo sentido. Eu estava completamente frustrada com o projeto acadêmico, esse projeto elitista, arrogante. Eu lembro, por exemplo, de ouvir de professores que eram os mais brilhantes do instituto, coisas como: “Você tem que falar ‘Deleuze’ e não ‘Delêuze’, senão fica parecendo nome de empregada”. Esse tipo de coisa, de conhecimento, que é colocado ali na universidade. É esse tipo de perspectiva, esse desprezo por todo mundo que está para além dos muros da universidade, que não faz parte daquele departamento e instituto. Aí, quando eu comecei a conviver intimamente com a cultura, comunidade travesti, essa comunidade da rua, que está construindo um dialeto – há séculos, ou décadas, pelo menos, mas quase século, talvez –, que a gente se comunica e que só a gente se entende, com palavras vindas do iorubá, que é utilizado no candomblé e na umbanda, que, por sua vez, foram formas de perpetuação ou de manutenção da cultura dos povos escravizados aqui no Brasil, então, pela religião, iam tentando fazer com que traços da sua cultura se perpetuassem, não fossem apagados completamente pela aculturação. Então, é muito bonito isso. E eu ficava olhando as travestis se apropriando de palavras usadas como forma de resistência por figuras escravizadas ao longo de séculos de escravidão no Brasil e aí via professores deslegitimando, desprezando e desdenhando esse saber construído na rua, fora do português normativo, a partir da oralidade e colocando esses saberes como menores. Pra mim, nossa, era surreal ver isso, e isso me frustrou muito com o projeto acadêmico. Eu quase... Cheguei até a cogitar abandonar meu doutorado e tentar viver só como prostituta. Só não fiz isso, eu acho, porque eu me machuquei exercendo trabalho sexual, tive uns problemas ali, meu corpo não deu conta. Mas se tivesse dado, eu acho que eu teria cogitado seriamente isso, abandonar a vida acadêmica pra ir construir outro tipo de relação com o saber e a literatura e com a sociedade. Mas acabou que, em determinado momento, juntou lá dois anos de textos e uma editora veio pra mim e perguntou se eu não estava a fim de transformar aquilo em livro, e eu falei: “Nossa, que interessante!” Negociamos e uma hora a coisa foi publicada.

P/1 – Amara, o que foi ‘meu corpo não aguentou’? O que foi essa experiência? Que momento foi esse?

R – Ao longo da minha trajetória sexual, o sexo anal era prazeroso. Eu lembro da minha vida adulta, as experiências que eu tive, nem sempre era prazeroso, mas frequentemente era. Quando eu começo a transição, acho que os primeiros clientes que eu tive tinham o pênis muito grande, e eu, fazia muito tempo que não transava. Naquela época eu também estava tomando bloqueador de testosterona, que é um medicamento que é utilizado por pessoas trans, pra colaborar com a transição. Bloqueia a testosterona e permite que os hormônios femininos ajam de forma mais intensa. Então, as transformações do corpo se fazem notar mais fácil, rápido. Então, isso abaixa completamente a libido também. Eu estava meio sem libido e, sei lá, pra mim é possível transar sem libido, de forma mecânica. O sexo, no trabalho sexual, não necessariamente envolve que você esteja com tesão pela outra pessoa. É possível transformar o sexo numa atividade mais mecânica ou diferente, assim. Eu transo com tesão e com prazer com pessoas que eu quero, mas de qualquer forma, também, eu gostava, eu sempre gostei muito. Eu falei dessa trajetória do banheirão, do dark room, do chat Uol. Então, transar com anônimos nunca foi um problema pra mim e, de alguma forma, foi algo excitante. Só que quando eu comecei na prostituição, talvez por conta dos pênis deles serem grandes demais, talvez porque eles eram meio brutos, talvez porque fazia muito tempo que eu não transava e estava, ainda, sei lá, precisava primeiro preparar meu corpo... Eu sei que eu tive uma fissura anal. Tive uma lesão no ânus e demorei muito tempo pra me dar conta que aquilo era uma lesão. Passei um ano e meio indo pra rua esperando que um dia fosse parar de doer, e nunca parava. Todas as experiências sexuais que eu tinha eram terríveis, anais. O sexo oral era tranquilo, podia ficar o dia inteiro ali fazendo e dava tranquilamente. Mas quando ia pro sexo anal, qualquer tamanho de pênis me machucava. Eu conseguia fazer um cliente, o outro seria no sacrifício, chorando, quase. Então, a experiência era muito sofrida. E, antes da minha transição, era prazerosa. Já foi prazerosa, só que aí, depois de um ano e meio tentando, sem saber que eu estava com uma fissura anal... Até que eu fui para um proctologista e ele falou: “Você tem uma fissura anal”, eu me traumatizei. Ele me passou a pomada, eu passei, mas até hoje eu não sei exatamente se eu me arrumei ou não, sabe? (risos) Eu sei que nunca mais eu tive prazer de novo com isso, com a parte anal. Eu consigo não sentir incômodo. É o máximo que eu consigo sentir desde então, mas eu não sinto prazer, como eu cheguei a sentir ao longo de tanto tempo na minha vida. Acho que esse foi o fator predominante. Se eu tivesse sentido prazer ou não tivesse sentido dor, eu teria sido muito mais prostituta do que eu fui, porque eu teria feito muito mais programas, eu não teria voltado cedo pra casa todos os dias, eu não demoraria tanto pra voltar lá. Porque eu me machucava e só voltava quando eu tinha me recuperado da dor. E às vezes eu precisava de um tempo a mais pra me recuperar psicologicamente, pra: “Vamos lá!”. Então acho que esse foi um fator que modificou muito a minha relação com o sexo e com o trabalho sexual. Não fosse isso...

P/1 – E você... Teve vezes em que a pessoa foi violenta com você, por você não querer, ter manifestado dor?        

R – Teve vezes. Hoje eu olho que, se eu tivesse um pouco mais de empoderamento, de segurança de mim, talvez eu tivesse conseguido até coibir as atitudes violentas que eu vivi ali, mas rolou, sim. Algumas vezes eu voltei chorando pra casa. Eu narro isso no livro, assim. Mas, de alguma forma, eu sinto que eu estava fragilizada ali, no começo da transição. A princípio a experiência foi extremamente eufórica. Nossa, eu gostei muito das coisas que eu estava vivendo, mesmo com dor, era maravilhoso estar ali. Eu me senti me redescobrindo a partir daquele lugar, porque a prostituição, a partir daquele momento... Ao longo da vida ela foi, sempre, pra mim, um lugar de exclusão e de violência, mas quando eu comecei a conviver com aquela comunidade, ela passa a ser um lugar de resistência, porque a sociedade brasileira sempre quis eliminar as travestis, acabar com a nossa existência, e, pela prostituição, a gente conseguiu cavar uma trincheira nessa guerra e sobreviver mais um dia a partir dessa trincheira. Então a prostituição era a forma de permitir que a gente existisse da forma como a gente se entende. Era a maneira de não ceder às imposições que queriam lançar sobre nosso corpo. Então tinha um significado simbólico enorme pra mim a partir desse momento. Eu gostava muito.

P/1 – Você fazia, assim, quantos programas por dia ou por semana? Como que era?

R – Nos dias em que eu estava... Quando tinha sexo anal acabava sendo esse sexo e, no máximo, dois, mas quando eu conseguia clientes que queriam ser passivos ou que só queriam sexo oral, aí rolava mais vezes. Mas, sei lá, geralmente eram uns três programas por noite, no melhor dos casos eram cinco; no pior dos casos era um ou zero, porque às vezes, também, não acontecia nenhum programa. Eu tentava ir a cada uma semana, uma vez por semana, porque era o tempo que eu conseguia, também, me recuperar da dor, e voltar a estar em condições de ter uma relação sexual de novo. Mas vira e mexe, por conta, sei lá, desse trauma que foi ficando, eu comecei a demorar mais, a ir uma vez a cada duas semanas, aí teve vez que eu comecei a ir uma vez por mês, até que eu migrei... Quando eu vim pra São Paulo mudei a forma como eu comecei a exercer a prostituição desde então. Hoje em dia esporadicamente eu exerço a prostituição. É mais quando eu, por exemplo, estou namorando uma pessoa que é trabalhadora sexual, aí o cliente dela quer que a namorada travesti participe, aí a gente faz uma sessão a três. Ou então coisas pela internet, negocio no chat Uol ou nos aplicativos de pegação, aí a pessoa vem na minha casa. Então não é mais na rua, é de outra forma que eu exerço agora. Mas agora é muito raro, porque a minha vida é muito doida. Também me tornei uma pessoa conhecida, e isso também faz com que eu tenha receio. Não posso trazer qualquer pessoa pra minha casa, porque isso pode me dar problemas sobre a violência. Quando eu estava ali, na prostituição, na rua, era um espaço de vulnerabilidade, mas eu estava entre amigas, e eu não era ninguém. Agora, sei lá, tenho trinta mil seguidores no Instagram, um livro publicado, fui candidata a vereadora. Não sei, eu não quero mexer com pessoas que queiram me tirar do mapa.

P/1 – Quanto você ganhava por programa, que você conseguia fazer numa noite? 

R – Depende. Os valores eram meio tabelados. Era vinte reais o oral, trinta reais o completo dentro do carro ou atrás da moita, ali no ‘matel’ – que a gente chamava – e cinquenta reais na pensão. Mas é isso, geralmente era por volta de cem reais que tirava numa noite, com sorte ainda, às vezes era menos, às vezes era bem mais. Variava um pouco, de acordo com o cliente que você conseguia encontrar. A questão dinheiro era uma das questões, mas a mais importante não era, definitivamente, essa. Acho que a prostituição tem um significado, pra mim, para as travestis, para a pessoa trans, para a mulher trans, porque essa é a profissão que vai cobrar de você que você se exima, seja exímia, se esmere em desenvolver a sua feminilidade. Então tudo o que a sociedade não permitiu que você experienciasse e desenvolvesse ao longo da sua vida, essa profissão vai cobrar que você trabalhe. Então tem algo de muito simbólico, porque tantas mulheres trans, travestidas, acabam também recorrendo à prostituição. Tem algo de compulsoriedade? Tem. É, sim, a profissão que vai te acolher, num universo que vai te rejeitar o tempo inteiro, um mercado de trabalho que vai fechar a porta na sua cara, a escola que vai te expulsar e você não vai nem ter qualificação suficiente pra pleitear um cargo, e os cargos mais baixos vão fechar as caras pra você também. Então é uma profissão que se abre pra pessoa trans, em geral, porque existe demanda, interesse nos nossos corpos. Mas também não dá pra esquecer que essa é a profissão que vai cobrar que a gente seja o mais feminina possível e é tudo que, de alguma forma, a gente tentou ser desde criança e nunca pôde. Então, dentro desse universo, dessa existência que a gente imaginava, nos ensinam desde criança que ser mulher é ser feminina, é fazer coisas femininas e a gente se entendia dessa maneira, mas não nos era permitido brincar dessa maneira. Então é como se estivessem nos impedindo de ser quem a gente era. Nos ensinaram que ser mulher é uma coisa e nos impediam que a gente fizesse aquilo que mulheres faziam. E é por isso que eu vejo, muitas vezes... Por isso que pra mim é tão evidente de que esse é um motivo, também, muito importante pra gente entender por que tem tantas mulheres trans e travestis na prostituição. Porque é a profissão que vai permitir que a gente trabalhe esse lado que foi proibido ao longo de toda a vida. A questão do dinheiro é uma das questões, mas existem outras tão importantes quanto.

P/1 – Amara, você precisou... Precisava beber muito, tomar alguma coisa pra aguentar quando você tinha três programas, ou você nunca precisou disso?

R – Não. Eu acho que eu sou muito careta pra drogas. Tem um irmão do primeiro casamento do meu pai que é dependente químico, e isso gerou vários traumas na família. Então, durante muito tempo, nem maconha, mesmo, consegui me permiti experimentar. Acabei experimentando, mas, por exemplo, não sinto prazer. Hoje é meio difícil pra mim usar entorpecentes ilícitos, tenho muito trauma de qualquer entorpecente ilícito, mesmo. Por exemplo: eu fui chamada, convidada a participar de um encontro de prostitutas em Amsterdã, um lugar onde a maconha é liberada e, mesmo lá, eu me sentia com receio de fumar maconha. (risos) Eu me sentia cometendo um ato... Dentro da minha cabeça tem coisas, ali, que não estão resolvidas. E, por mais que tenha momentos que eu beba mais e momentos que eu beba menos... Mas trabalhar não era um momento em que eu ia bêbada. Nunca, pra mim, foi necessário beber pra que eu suportasse a noite ou os programas, o sexo. Eram homens fazendo ‘homisses’, na pior das hipóteses, e, assim, eu também tinha algo que me protegia ali: era saber que, independente do que eu fosse viver ali, eu ia poder me vingar depois também, escrevendo a história daquilo e colocando aquele lixo no personagem que eu criasse pra ele. Então tinha algo de certo prazer em saber que eu ia brincar com ele como se ele fosse minha marionete, assim, meu boneco. No meu texto ele ia se comportar da forma como eu dissesse que ele se comportou.       

P/1 – Amara, você tem namorado, hoje?

R – Eu sou bissexual, me relaciono... Mas, a questão... Depois da minha transição, eu fui construindo vínculos amorosos em vários momentos, passaram várias pessoas muito especiais que ainda continuam na minha vida. Também, uma coisa importante a dizer: eu sou uma pessoa não monogâmica, às vezes eu me relaciono com pessoas de forma monogâmica, fechada, mas gosto da ideia, também, de me pensar como uma pessoa não monogâmica, mesmo quando eu estou dentro de uma relação monogâmica. É igual a questão do bissexual: não é porque eu estou me relacionando com uma mulher, que eu deixo de ser bissexual. Eu continuo sendo o que eu sou, né? Mas então é isso: eu construí muitos vínculos amorosos ao longo da minha vida. Atualmente eu namoro, sim, e é isso, não gosto de ficar... Vai para o Museu, (risos) vai ficar lá, acho que é melhor falar assim, só.

P/1 – No doutorado de teoria literária, por que você escolheu James Joyce?   

R – Porque, durante a graduação, eu era medievalista. Estudava Literatura Medieval, era fascinada pelas cantigas de escárnio e maldizer. O meu TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] foi sobre a temática LGBT nas cantigas de escárnio e maldizer. E, quando eu estava pra terminar a minha graduação, um professor ofereceu lá uma disciplina de James Joyce e uma só sobre Ulisses, e esse era um livro que eu sempre tive medo, um livro que todo mundo falava – eu mesma citava horrores e nunca o tinha aberto. Aí me permiti entrar na aula só pra ver qual é que era, o começo da discussão. E aí aquele livro me sugou. Pra mim foi uma experiência assombrosa. Eu entrei, mergulhei de cabeça e, por anos, eu só vivi esse livro. E isso é interessante, porque dialoga muito com esse traço do possível Asperger, que é o monotematismo, né? Então eu vou migrando de obsessão temática em obsessão temática. Talvez o meu momento, agora, sei lá, feminismo, a questão da militância, mas eu vou migrando de um pro outro. Dá pra perceber essa questão ao longo da minha vida. E aí, dos medievais foi para Joyce e, antes mesmo que eu acabasse meu TCC eu já tinha um projeto de mestrado sobre Joyce para entrar no ano seguinte. Fiquei encantada e me meti de cabeça. E uma coisa que me atraía muito no Joyce... Porque eu sempre tive muitos interesses paralelos. Durante a graduação eu fazia meus poemas, traduzia poemas alheios como forma de aprender outros idiomas e também de aprender a escrever poemas melhores em português. Tenho tradução de Shakespeare, de trechos da Divina Comédia, sei lá, de poemas de vários idiomas, que eu pegava ali e tentava, de alguma forma – Byron –, tentava fazer com que aquilo virasse um bom poema em português também e, junto com isso, eu estudava teoria da tradução, lia grandes romances, fazia muitas disciplinas simultâneas na universidade. Ou seja: eu ia, de alguma maneira, cultivando múltiplos interesses, e todos eles, de alguma forma, tinham importância na minha trajetória. Não existia algo centralizador. E quando eu conheci o Joyce, fui pro mestrado. A pós, em relação a graduação, tem um problema: ela afunila, então te joga dentro de um mergulho em profundidade e aí, durante o mestrado e o doutorado – os dois foram sobre o Joyce –, de alguma maneira eu me afunilei muito. Eu abri mão dessa amplitude de coisas que eu fazia ao mesmo tempo, e isso foi ruim. Depois, quando eu termino, na metade do doutorado, eu tinha impressão que só sabia falar sobre Joyce, que isso era agravado pelo meu Asperger, mas eu só sabia falar disso. E a princípio, algo que me atraía muito nele é que esse romance era tão plural e tão presunçoso e potente que, se eu o estudasse, eu estaria estudando qualquer coisa, todas as outras coisas. Então o Joyce tinha encapsulado lá todas as coisas, toda a história da humanidade, e estudá-lo seria uma forma de estudar tudo. Mas é um engano, a gente não vai conseguir estudar algo tão amplo num mestrado e doutorado. Afunilava pro aspecto mínimo da obra, e agora eu estou tentando recuperar um pouco esse gosto por ter múltiplas frentes de investigação como uma forma de não me prender mais a algo tão... A um mergulho tão profundo na obra de um único autor.

P/1 – Como é que é esse recorte LGBT nas cantigas de escárnio?

R – Tem um ou outro poema esquisito, poemas que a gente olha hoje com um pouco de estranhamento, porque não dá pra entender exatamente o que ele quer dizer. Por exemplo, tem uma cantiga de amigo. As cantigas de amigo costumavam ter um eu lírico feminino, que era uma menina, uma mulher dos estratos mais populares, falando sobre o seu amor como um amado que era ingrato, que não aparecia, que ela estava com saudade, que tinha mentido pra ela, que estava demorando. As cantigas de amigo são nesse formato. O característico dela é o emissor ser um eu lírico feminino. Mas os autores são sempre homens. São homens se fingindo de mulheres, falando sobre o seu desejo, sua saudade de homens, conversando com o amado, com a mãe, com a amiga, com o mar. E tem um poema que está, inteiro, no masculino. Eu lírico inteiro é masculino, e é assinado por um homem. E é muito doido, assim, porque tem alguma coisa esquisita. Ou é uma cantiga homossexual... Mas se fosse, mesmo, como pensar que ela iria pra uma compilação, como é que tolerariam que fosse compilada? Então não dá pra saber se foi um erro do copista, se era uma infração às regras do gênero... Nesse caso específico, era o amado se dirigindo para a amada. Então, quem é o interlocutor? Mas tem um ou outro caso como esse... Mas o que eu estava estudando não era isso, eram as cantigas satíricas, que tentavam humilhar e atacar as outras figuras atribuindo a elas um comportamento sodomita. A questão da sodomia, que era crime nesse momento, execrável – talvez o pior crime do momento, e merecesse fogueira, destruição completa do indivíduo – e, no entanto, tinham muitas cantigas que atribuíam aos outros cantadores, poetas, trovadores, jograis, hábitos sodomitas. Como entender isso? Porque o divertimento ali da Corte, isso está na lei, inclusive, na época, na Las Siete Partidas, que é um compilado jurídico que orientou as decisões judiciais ali da Idade Média. Então nesse compilado jurídico tem um momento que fala sobre a arte de jogar, de brincar, e está falando que só é jogo quando a pessoa ri. E aí, para que a pessoa ria, a lei recomendava que você só falasse de alguém aquilo que ela, de fato, não é, pra que ela não se sinta ofendida. Se ela se sentir ofendida, isso deixa de ser jogo. Então, tem muitas cantigas que não dá pra saber exatamente. Por exemplo: tem algumas figuras lá que são referidas por uma série de autores como sodomitas. Aí a gente fica na dúvida se estão zombando desse cara porque ele está fora da sociedade – e aí pode ser zoado –, ou estão zoando com ele porque evidentemente ele é tão machão, mas tão machão, que ninguém suspeita que ele seja, de fato, e então isso é uma piada que é possível de ser contada nas Cortes. Mas tinha muitas, e aí tinha várias expressões engraçadas. Eu, então, tentava analisar essa temática: de que maneira a sodomia aparecia nas cantigas de escárnio e maldizer. Entendendo que essas cantigas falam sobre a possibilidade concreta de ser sodomita nesse momento, e sodomitas são os nossos antepassados – das travestis, das pessoas LGBT’s. Então, para mim, me interessava muito, como interessa estudar essa mesma temática nas composições do Gregório de Matos, do Bocage. São figuras também que têm um amplo acervo satírico, que fala sobre o que a época pensava de sodomitas e LGBT’s.

P/1 – Amara, em que momento você falou: “Sou uma pessoa famosa agora”, e por quê? Como é que você se tornou uma pessoa famosa? Qual foi o ponto?

R – ‘Ixi’! Tem momentos, assim. Não sei se eu já sou uma pessoa muito famosa. Esses dias eu fui chamada por uma revista pra fazer uma entrevista e essa revista colocou nesses termos: “A gente quer fazer uma matéria sobre pessoas LGBT’s, pro meio da diversidade, mas a gente quer trazer pessoas que não são conhecidas, mais anônimas, não grandes famosos”. Me chamaram e eu falei: “Então tá bom”. (risos) Então, talvez, eu ainda não esteja nessa categoria, realmente, de pessoa famosa, talvez eu seja mais conhecida no gueto, na comunidade, na bolha LGBT militante, mas é isso. E esses tempos, também, eu ganhei um prêmio, fui participar de uma premiação lá, ganhei um prêmio de microinfluenciador digital. (risos) Estou achando que talvez eu não seja tão famosa assim.

P/1 – O que é esse prêmio, microinfluenciador digital?

R – É um encontro focado nessas figuras que têm, acho, menos de cem mil seguidores nas redes sociais. É uma ideia que não visa pegar essa galera, Felipe Neto e companhia. É pegar uma galera que está em um outro patamar, que influencia, gera transformações, causa coisas, mas em outro patamar. Me chamaram lá e eu achei engraçado. Não gosto muito do termo. Nossa, me parece, não sei, é esquisito esse nome. Prefiro ser chamada de influenciadora digital. Microinfluenciadora digital me parece que... Talvez a palavra ‘micro’ não me agrade muito. Assim como o outro lá falar que eu não sou muito conhecida também. É isso: o jeito de se colocar, muitas vezes, parece que não é muito bom. Mas acho que coisas que mudaram, que fizeram com que eu me tornasse mais conhecida, ou conhecida para além de um público bem específico: o lançamento do meu livro fez com que eu chegasse em lugares onde eu nunca imaginei. Então, pessoas me marcam nas redes sociais, e é muito doido, de cidades que talvez eu nunca aparecerei na vida e meu livro chegou lá. É interessante pensar o quanto eu pude circular a partir desse livro, o tanto de convites que eu recebi por conta dele, o tanto de pessoas com quem eu pude falar por conta dele. Aí, no ano seguinte... Eu o lancei em 2016, e em 2017 eu fui capa da Revista TPM. Então teve uma capa que eu apareci, e me orgulho muito, ali. Também em 2018... Não, 2017 ainda, eu fiz um programa na GNT, o Liberdade de Gênero. Teve um episódio só sobre a minha vida, entrevistou a minha família. Em 2018 eu participei do Amor & Sexo, com a Fernanda Lima, dois episódios, e foi muito bonito também. E acho que foram os momentos que eu, talvez, entendi que eu estava em espaços de muita visibilidade... Ah, não, estava sendo injusta: talvez, também, o espaço que acho que diariamente, no cômputo geral, que tem me colocado em contato com maior número de pessoas que eu já imaginei na vida, acho que foi justamente o cursinho que eu dou aula agora, que é o Descomplica, que é digital, online. Então eu dou aula em estúdio para o Brasil inteiro. Tem aulas que eu dou que são, sei lá, quatro mil alunos ao vivo. Eu chego em um público muito amplo do Brasil todo, e de forma semanal, assim. Não dou aulas diárias, eu dou aulas semanais, em alguns dias da semana. Acho que isso, ao longo desses últimos três anos – que faz três anos que eu sou professora lá no Descomplica –, acho que isso transformou também bastante o meu nível nas redes sociais e o meu reconhecimento para além da bolha militante. Tanto que, por exemplo, quando eu apareci no Amor & Sexo, eu estava vendo no Twitter como é que estava, se alguém estava citando a minha participação, e praticamente todo mundo que se referia ao fato de eu estar no Amor & Sexo era justamente falando: “Nossa, a professora Amara! Está no Descomplica!”. Ou seja: eram figuras que estavam ali, se colocando como minhas alunas, me vendo na televisão. Foi muito significativa também essa experiência como professora. Ser uma professora trans, travesti... A escola, instituição de ensino, como instituições que costumam rejeitar a existência de uma pessoa trans, de repente estar podendo me colocar ali como escritora e como professora, como uma referência de pensamento, de ensino, isso fez uma baita diferença na minha vida também, em termos de ser conhecida.

P/1 – Amara, bom, a gente pode ficar aqui dias e dias, sua história é maravilhosa, mas vamos caminhar um pouco para as perguntas de final; olhando para a sua trajetória, hoje, com essas pinceladas que a gente veio construindo desde aquele exercício da imagem, daquele túnel de tempo que a gente fez inicialmente até hoje, se você pudesse ou tivesse que mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, você mudaria, faria alguma coisa diferente?

R – Ah, é difícil dizer, né? Pode parecer, às vezes: “Gostaria de ter transicionado antes”, mas, se eu tivesse transicionado antes, teria me transicionado num momento que eu estava muito mais vulnerável, então poderia minha vida ter sido uma desgraça. (risos) Eu acho que do jeito que está... Eu fiz as coisas no momento que eu poderia fazê-las, sem ameaçar minha existência por elas. Talvez, se eu tivesse que fazer alguma coisa diferente, eu teria procurado a minha turma mais cedo, mas nem sei se isso seria positivo a longo prazo. Então, se eu tivesse tido amigos LGBT’s ali na adolescência, será que teria sido diferente a minha vida? Talvez tivesse me arriscado menos, me aceitado mais facilmente. Mas eu teria, também, apanhado muito mais, dos meus pais, na escola, não só de chata, mas também por ser LGBT. Então, não sei, sabe? Eu não sei se eu mudaria sem o mundo ao meu redor mudar também. Se o mundo ao meu redor mudasse, talvez eu mudasse também algumas coisas, me pouparia alguns sofrimentos, mas é uma matemática complicada.

P/1 – Amara, o que hoje, com o passar do tempo, você não tem mais paciência? Falar: “Isso eu não faço mais, não quero mais, não tenho mais paciência pra isso”?

R – Acho que uma certa ortodoxia me incomoda hoje em dia. Essa cobrança de que a realidade seja encaixada numa teoria. Muitas vezes a realidade não está batendo com o que a gente acredita e a gente tenta forçar, torcer a realidade pra que ela caiba no nosso desejo, na nossa perspectiva. Isso, talvez, me incomode. Assim como figuras que acreditam muito no que elas pregam, e aí, por conta disso, elas não conseguem dialogar com quem pensa diferente ou está falando de uma outra perspectiva. Acho que a gente está vivendo em um mundo de opostos, de polarização, que não sabe dialogar. E viver nessa tensão é terrível. Eu gostaria que a gente vivesse numa sociedade em que há possibilidade do diálogo.

P/1 – Quais são seus planos futuros? Você tem planos pro futuro? Sonhos?

R – Bom, agora a pandemia mudou bastante os planos de todo mundo, né? A quarentena. Mas ano passado eu cheguei num limite de exaustão por conta, acho, que do tanto de atividades que eu me meti, de militância. Aí prometi pra mim que esse ano eu faria diferente, que em 2020 eu seria mais escritora do que militante. Porque acho que, se eu puder escrever mais, as pessoas vão poder brigar com o meu texto, e não comigo, eu não vou estar tão exposta, minhas palavras vão estar expostas. Deixa as pessoas debatendo com elas. Eu estou querendo me preservar um pouco mais agora, em 2020. Então, um plano, acho, nesse momento, é começar a focar mais na minha existência como escritora, no meu trabalho com as palavras, nesse trabalho mais distante do burburinho da rua, não tão de exposição e de circulação e de dar a cara a tapa. Estou querendo sentar a bunda na cadeira e estudar e escrever.

P/1 – Amara, o que você achou de contar a sua história de vida – trechos dela, né, que é infinitamente maior do que essa narrativa que a gente, você construiu hoje junto comigo – e deixar essa história registrada no Museu da Pessoa?

R – Foi uma experiência bem enriquecedora. Acho que a princípio eu estava um pouco cética do que eu poderia esperar dessa atividade, mas à medida que foi desenrolando, assim, foi bom poder recapitular esses pontos. A princípio eu estava, também, com medo se eu estaria me expondo ou, sei lá, me mostrando – uma diferença entre você estar vulnerável ou estar compartilhando coisas com pessoas, né? Eu estava na dúvida de o quanto essa entrevista... Estava um pouco preocupada o que essa entrevista, que vai abordar uma passagem tão grande da minha vida, né... Porque é isso: infância, adolescência, momentos que não tinha esse debate feminista, de gêneros, de classe social. Então eu sempre fico... Falar sobre isso, sobre essa trajetória toda, é muito difícil ainda, não é simples, mas é algo que é importante também. Acho que é importante que a gente comece a encarar esse debate de forma ampla, plena, para a transformação da sociedade. Mas é isso. Acho ainda que, expor-se, falar sobre si, é um gesto que envolve muitos medos. Eu não sei se é uma resposta comum das pessoas que dão entrevista aqui, mas, pra mim, às vezes, é algo ainda meio aterrorizante, contar a própria história de forma plena, ampla.

P/1 – Amara e o que você... Você conhecia o Museu da Pessoa?

R – Conhecia.      

P/1 – E o que você acha desse projeto do Museu? Esse projeto, não, o Museu não é um projeto, ele é um conceito.     

R – Hum, hum. Eu conheço pouco, ainda, não profundamente o material de vocês, mas fico pensando que uma das coisas que é interessante é que a gente viveu largos períodos da humanidade e a gente perdeu coisas muito preciosas. Aí, em alguns momentos, a gente tenta guardar tudo como uma forma de não perder, de não viver de novo essa sensação que estamos deixando coisas serem perdidas e apagadas. Eu sinto que a gente fica se equilibrando entre esses dois pontos: se a gente está perdendo coisas ou guardando coisas demais, e aí eu quero, um dia, poder me meter lá no Museu de vocês e olhar esse acervo, dar play e ouvir essas histórias. Não as dezoito mil que você falou que tem – são dezoito mil, parece, até o momento –, mas eu quero poder vasculhar essas narrativas para entender exatamente o que tem aí, porque é muita informação. Ninguém dá conta de registrar tanta coisa. Esse é um dilema dos arquivos contemporâneos: o que fazer com tantas coisas que a gente tem registrado e guardado? Tudo é tão importante. Como a gente vai organizar e usar de forma produtiva tudo isso que a gente guardou? Mas esse é um dilema, talvez, para as gerações futuras, e não pra nós.

P/1 – Não, mas aí vai ficar um desafio pra você, porque o Museu... Eu queria te agradecer, Amara.

R – Obrigada! Gostou da conversa?

P/1 – É um desafio, porque o Museu é uma grande base de dados. Então, todas as entrevistas são...   

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