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História

A obra do Padre Rosalvino

História de: Rosalvino Morán Viñayo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/09/2003

Sinopse

Padre Rosalvino nasceu na Espanha, na cidade de León, onde, ainda menino, trabalhou como pastor. Ele e os sete irmãos perderam a mãe quando ainda eram crianças e foram criados pela avó paterna e o pai, que era um líder na vila em que moravam. Sua história conta sobre uma infância muito feliz na vila e sobre os efeitos da Guerra Civil Espanhola, que influenciaram a vinda da família para o Brasil, onde, encaminhados para trabalhar em uma fazenda no Paraná, passaram muita dificuldade e tiveram que trabalhar em regime de semi-escravidão. Essas condições fizeram com que o pai mandasse os filhos para orfanatos e escolas em São Paulo, local onde Rosalvino teve seu primeiro contato com os Padres Salesianos, o que, mais tarde, o levaria a se tornar padre. Sua vida sacerdotal desde o início se voltou para as obras sociais e a caridade, um pouco devido ao fato de ele ter visto a realidade de inúmeros jovens e crianças abandonados, no orfato que frequentou quando menino. Rosalvino é responsável pelas Obras Sociais Dom Bosco e por diversos projetos que melhoram a vida de crianças e adolescentes da Zona Leste de São Paulo, trabalho muito reconhecido e que já recebeu diversos prêmios. 

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História completa

P/1 - Padre, por favor, qual é o seu nome completo, data e local de nascimento?

 

R - Meu nome é Rosalvino Morán Viñayo, nascimento em 5 de outubro de 1941, em León, que é uma cidade da Castilla, na Espanha.

 

P/1 - E os seus pais? O senhor lembra do nome dos seus pais?

 

R - Manuel Moran Gutierrez e Eloina Viñayo Viñayo, também nativos da Espanha.

 

P/1 - E a atividade deles?

 

R - Agricultor, do campo, da vida no campo, aquela vida da roça como a gente diria. Campesinos.

 

P/1- E o senhor viveu lá na Espanha até que idade?

 

R - Até os 12 anos eu fiquei ali. Criei ali a minha primeira infância.

 

P/1 - O senhor se lembra como que era a sua infância? Como é que era a casa que você morava?

 

R - Era a coisa mais alegre e mais feliz. Ali tem até as fotos de onde eu nasci, ó. Tem todas, da minha terrinha, das minhas montanhas, onde eu fui pastor. Então, nós éramos uma família pobre, humilde, mas como era vila colocada nas montanhas da Europa, naquela proximidade, um pouco, dos Pirineus, do lado mais Norte. Nós vivíamos ali no campo, como pastores. Eu fui pastor aos oito anos... Sete, oito anos, eu já pastoreava o gado ali da vila, da comunidade, era uma vida muito comunitária. Era uma vida muito simples, mas era uma vida muito boa, muito alegre, muito feliz. A gente já, naquela época, liderava um pouco os da idade da gente e uns pouco mais crescidos. Então, a gente é um nome onde nasceu, no sentido de que, o povo lembra quando a gente passa, passou por ali. Eu voltei lá, o povo até se assustou quando me viu.

 

P/1 - É mesmo?

 

R - De um lado, como é que eu consegui chegar a padre? Pelo temperamento, pela figura que eu era lá, que era muito inquieto, muito irrequieto e muito assim, de comandar, de liderar um pouco, a garotada daquela vila onde a gente nasceu. Mas era uma vida muito, muito assim, familiar, muito da vida do campo, do contato com a natureza, da ecologia, da pureza do ar, da alimentação que a gente mesmo plantava, colhia e armazenava... daquilo que se vivia.

 

P/1 - E como era a sua vida com seus... Quantos irmãos?

 

R - Oito irmãos.

 

P/1 - Ao todo, eram nove filhos?

 

R - Não, oito. Oito.

 

P/1 - Como é que era dentro de casa?

 

R - Ah, era uma coisa muito boa, muito alegre, muito feliz! Porque na pobreza, na humildade nossa, a família era muito unida. Meu pai era líder da vila onde nós nascemos. Ele era aquele homem que comandava o leilão da vila, que articulava a política, porque não havia nem polícia na delegacia, nem poder público, nem nada. Era aquela vida meio patriarcal. A pessoa liderava pela qualidade dele e determinava, um pouco, as ações da própria comunidade. Meu pai era um homem assim, líder, que liderava um pouco... simples e pobre, não era o homem de posses, mas tinha as suas propriedades e tinha um caráter muito extrovertido, por isso ele era um homem que se comunicava com facilidade, tinha um trânsito na comunidade. E isso fazia dele um líder da comunidade, uma pessoa que promovia as festas, ele era um homem muito ligado... Claro, ali só tinha Igreja Católica, então era ele, o padre e a escola, que era o professor... Eles eram as autoridades lá da nossa vila, onde a gente nasceu.

 

P/1 - Isso era que década? Mais ou menos...

 

R - Foi nos anos 40, né? Nos anos 40. Nós viemos para o Brasil em 1953. Então, uma infância muito bonita, muito agradável, de boas lembranças. A única lembrança é que nós ficamos órfãos, né? Talvez, eu tivesse quatro, cinco anos de idade, e o meu irmão e a minha irmã tinham... Eu acho que eu tinha... cinco anos. Depois, veio a minha irmã e dois irmãos meus. Era um, de um, de um, de um. Então nós ficamos órfãos, né?

 

P/1 - Sua mãe faleceu?

 

R - Complicou lá, porque nós ficamos órfãos de mãe. Então a avó, a dona Raimunda, que é a avó paterna que nos criou, ajudou a nos criar. E a própria comunidade, que era uma família, que também sustentou um pouco aquela dificuldade de você ter ficado órfão com essa idade.

 

P/1 - E a sua avó morava junto com vocês?

 

R - Morava, a minha avó morava junto. Ela praticamente é que segurou toda essa... esta mudança à qual nos habituamos, de termos perdido a mãe tão cedo.

 

P/1 - Ela era a avó materna?

 

R - Paterna.

 

P/1 - Paterna?

 

R - Paterna.

 

P/1 - E como é que ela era? Era brava, era enérgica...

 

R - Ahhh, ela era firme.

 

P/1 - Firme?

 

R - Pouca palavra, muito trabalhadeira, aquela pessoa assim, limpa, honesta, de igreja, de reza, mas de trabalho. Então, era uma pessoa também muito querida e respeitada por nós. O meu bem patriarcal e meu bem matriarcal, porque ela assumiu, no falecimento da mãe. Como o meu pai... ele tinha ações muito com a comunidade, ela é que dirigia, ela que governava, ela que determinava o que fazer dentro da casa.

 

P/2 - E o lado religioso da família tem muito por conta dela, da sua avó?

 

R - Muito. Não, da avó, do pai, e da própria comunidade. Quer dizer, a igreja era o centro da comunidade.

 

P/2 - Um pouco assim... e a geografia da comunidade?

 

R - A geografia das montanhas, das colinas... a propriedade era o campo determinado, o pequeno campo, a pequena eira, a pequena propriedade, com várias propriedades, onde você levava o gado à pastorear. Você levava as ovelhas para pastorear e era ali também as pradarias que a comunidade utilizava, socializava, no sentido de você poder levar o teu gado. Ou então, havia um outro costume também, do qual era respo... Fui responsável, a comunidade juntava o gado. Em determinadas ocasiões, havia um pastor comunitário que... Eu ia levar o gado da comunidade toda, pelas colinas e montanhas pelo dia afora e à noite. Retornava, e cada um recolhia o seu, a sua parcela de ovelhas, de vacas, ou de cabras. É uma coisa assim, muito de comunidade.

 

P/1 - Essas montanhas eram os Pirineus?

 

R - Era na proximidade. Ali era o local onde os árabes, os mouros foram derrotados. Então, ali nós temos uma tradição muito forte, religiosa. Quando os árabes dominaram a península e dominaram a Espanha toda, e quiseram dominá-la por completa, depararam com o povo... Esses pastores que eram religiosamente católicos, fervorosos... e nós habitávamos as montanhas. Quando os árabes chegaram ali para dominar aquela parcela da península, que não tinham conseguido dominar, o que que houve ali? O nosso povo reagiu, enfrentou os árabes. O nosso povo cavou as montanhas. O nosso povo resistiu, se escondeu nas montanhas quando os árabes achavam que tinham dominado tudo. Só que quando eles chegaram para plantar a bandeira deles, o povo brotou da grama, da terra, das montanhas, à paulada, à cacetada, à pedrada, com o olho fervendo, fez com que os árabes perdessem. E foram derrotados, eles foram expulsos para o Sul da Espanha.

 

P/1 - Isso era, mais ou menos, que época?

 

R - Olha, aí já é décadas e décadas atrás. Aí já é séculos passados.

 

P/2 - O senhor estava dizendo que a Igreja estava no centro da comunidade...

 

R - Claro. Está aqui... Na fotografia você pode ver o campanário, no meio, a única pracinha e a igreja.

 

P/2 - E a comunidade se reunia assim...

 

R - É só tocar o sininho, todo mundo ia para a Igreja.

 

P/2 - Todo dia?

 

R - Todo dia tinha a reza, a oração, tinha os avisos para a comunidade, programava-se os eventos, as festas. Ainda, retornando agora de férias, aquela população ainda mantém... Mesmo o povo que emigrou e volta ali, ele voltando, ele relembra tudo aquilo que se vivia, um pouco, naquela época. Com uma mudança, evidentemente, que hoje ocorreu. Estive lá, já há dois anos atrás e vi que se continua muito as tradições que, na época, nós tínhamos; o padroeiro, a festa, a sopa comunitária que é de alho, que era uma tradição nossa. O chocolate que se levava de porta em porta, na virada do dia do padroeiro, ainda se cultiva essa tradição. O sentido da praça, que reúne a comunidade, que divide o que se tem na família, o que se come, ele é repartido na coletividade. Então, eu vivi nessa... nesse contexto. Ali que eu cresci, ali que eu me desenvolvi, dali que eu imigrei. E nessa vida, nós somos mais de vinte e cinco sacerdotes...

 

P/1 - Que saíram de lá?

 

R - De lá. Ali não há mais de que 40 famílias talvez, eu acho. 40 famílias seria... No entanto, dessas 40 famílias, nós somos hoje, no mundo, mais de 25 sacerdotes. O que é algo inédito.

 

P/1 - E eles se espalharam por que países?

 

R - Eu sei que tem gente na Costa Rica, eu estou no Brasil, tem mais gente aqui pelo Brasil, depois pela própria Europa, eu acho que até pela Argentina. Nós somos um povo assim, uma vila que é uma vila de missionários em um certo sentido. Mas, evidentemente, depois do tempo, né? Porque, na época, eu nunca pensei em ser padre, nem queria ser padre. Eu gostava do padre em pontos e em termos, tá? Mas eu não achava que ser padre seria o meu futuro, e nem a comunidade achava. Devido àquela ideia do padre que é aquele homem quietinho, aquele homem cheio de oração devido a mais... Dentro de uma espiritualidade. Eu sou ao contrário. Eu tenho a minha espiritualidade. Minha espiritualidade é o trabalho, a minha ação social, a minha briga é defesa da criança, do pobre.

 

P/1 - Quer dizer, o senhor não é contemplativo?

 

R - Não, e nem por sorte... O Deus me encaminhou para uma congregação religiosa que somos os Salesianos. Somos de vida ativa, junto do povo, a lado... Por isso que eu sou esportista. Fiz muito teatro, sou de acampar e pescar, porque tudo isso também faz parte. O que eu vivia na infância é o que eu trouxe como herança para o hoje e para o trabalho que desenvolvo no lado social. São as minhas características hoje que são muito queridas do povo e da juventude aqui no pedaço. A minha herança do passado, ela é presente hoje, e toda a minha ação social. E é o que todo povo diz que deu e dá certo, né? A minha pessoa é muito respeitada. A gente sente igual, sem vaidade alguma, o bem que a comunidade quer à minha pessoa. E o povo diz que eu sou o refundador de Itaquera, de certa forma, devido ao benefício que eu trouxe para a comunidade. E Itaquera hoje é conhecida naquela cidade onde eu nasci, na Europa, e na Alemanha, na Áustria, na Bélgica, devido à nossa chegada e a esse contato que eu tenho, que eu faço com as raízes que eu tive na minha infância.

 

P/1 - Como é que se dá esse fluxo?

 

R - Atividade, atividade. Um pouco a necessidade que você tem aqui, como terceiro mundo. Então você tem que buscar recursos. Você tem que buscar apoios, parcerias. Então, por exemplo, a obra aqui foi construída pela Alemanha, apoiada pela Bélgica, pela juventude da Áustria, pela juventude italiana, por patrícios meus lá também, da Espanha. Houve sempre esse tipo de troca, né? De intercâmbio, de parceria. Então as raízes são presentes no milênio que está vindo agora, que está terminando agora. Nós somos muito apegados à tradição, são muito marcados pela infância devido àquela educação muito patriarcal, muito maternal, patriarcal também. Nós somos muito a raiz, a terra onde a gente nasceu, certo? Aquilo fala muito para nós. É sempre uma referência, né?

 

P/2 - O senhor ficou em León até que idade?

 

R - Até os 12 anos, mais ou menos. Eu circulava ali pelas colinas, ali. A minha vida era aquela vila que vocês estão vendo na fotografia. Nesse campo, onde eu estou ali, fui pastor, e todos os dias eu levava os rebanhos para pastorear. Onde eu estou ali, aquilo tudo são prados comunitários. Tudo ali, o que é comunitário e cada um podia levar o seu gado. Ali, onde eu estou agora, aquela era a propriedade privada que era do meu pai.

 

P/1 - Agora, antes do senhor vir para o Brasil, o senhor tem alguma lembrança da Segunda Guerra?

 

R - Justamente, nós somos uma sequência da guerra. A Espanha, não devido tanto à guerra, mas devido à revolução que houve, aquela... o Comunismo...

 

P/1 - A Guerra Civil?

 

R - Franco... A Guerra Civil Espanhola, aquilo arrasou a Espanha, aquilo esculhambou com a Espanha. E houve aquela história de muitas famílias dizimarem-se devido à obrigatoriedade que havia do cidadão lutar em prol da fé, em prol do Catolicismo. Porque o comunismo era tido como aquele monstro, aquele perigo à religião, à fé, à família e à tradição. Então, muito das famílias tiverem que ir e não voltaram... os pais. Nós, ainda, ali como estávamos nas montanhas, não fomos tão exigidos para esse tipo de combate, de embate, mas sofremos também, pressões e ameaças. Então a fome, a dificuldade que veio se arrastando após esta Guerra Civil, e depois ainda veio a guerra por cima que, talvez, nos obrigou... levou o meu pai a dizer: “Vamos aventurar na América? Vamos para a América para ver se a gente pode até melhorar, um pouco, a nossa condição.” Nós temos um irmão dele que era padre e estava aqui já.

 

P/1 - Aqui?

 

R - Meu tio, meu tio Augustiano.

 

P/2 - O que ele falava do Brasil?

 

R - Falava maravilhas. Toda hora dizia ao meu pai para vir para cá. “América, América, América. Vamos à América. América, América.” E viemos para a América. Só que nos arrependemos de ter vindo.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Porque nós chegamos ali, em Santos. E como chegamos, nos embarcaram em um comboio de trem chamado Noturno, e nos mandaram para o Paraná. Nem podemos descer em Santos porque era aquela coisa, linha direta com a agricultura, linha... Nós éramos obrigados a ir para...

 

P/1 - Imigração oficial?

 

R - Imigração oficial. Nós viemos como imigrantes oficiais. E tivemos que enfrentar a selva do Paraná, o que foi muito difícil, muito duro, porque nós tivemos que enfrentar a vida da cultura do café, mudar da água para o vinho. E sem conhecer o que era a vida na selva. Sem médico, sem escola, sem recursos outros. Quer dizer, ali você estava em uma colônia agrícola séria, e você era obrigado a se sujeitar a um patrão, a um fazendeiro que não tinha mínimos escrúpulos, de quem você tinha que comprar, para quem você tinha que trabalhar. Nunca tinha nada a receber, só tinha contas à pagar. Você acabava sendo escravo desse cidadão. Mas o meu velho tinha uma outra cabeça, graças à Deus. Então, quando viu que a família ia acabar por ali, ele resolveu sair fora.

 

P/1 - E vieram para onde? A sua família inteira, a sua avó também?

 

R - A minha avó não. A minha avó ficou lá.

 

P/1 - Como é que vocês saíram dessa?

 

R - Nós saímos porque o meu pai percebendo que iria perder os filhos e ia... talvez, até iríamos morrer vários ali, porque a água que nós bebíamos era... tinha problema, havia os insetos que não estamos acostumados, a própria... A cobra, a onça, aquele contato com a natureza bruta, à qual não estávamos acostumados. Havia uma vila, havia uma montanha, havia... muito tranquila, muito organizada, muito sistematizada. A própria comunidade apoiava e chega ali, você é tudo ou nada. “Deus e você, você e Deus e o resto, salve-se quem puder!”

 

P/1 - Que região do Paraná era essa?

 

R - Cornélio Procópio, Fazenda Santa Helena. Aí, o meu pai quando percebeu isso, mandou todos os pequenos, mandou para as capitais, para estudarmos, e para os orfanatos. Aquela história: “Os padres vão educar os meus filhos, já que eu não posso. Já que eu não tenho como.”

 

P/1 - Ah, para os orfanatos?

 

R - Claro. Nós viemos para o orfanato.

 

P/2 - O senhor já...

 

R - Mas eu caí no orfanato dos padres salesianos. (risos)

 

P/2 - Onde tudo começou.

 

R - Que era uma vida... Orfanato era o nome da época. Era um tipo de escola agrícola, mas eram os órfãos que vinham mandados da Fundação do Bem Estar do Menor daquela época, do... que era o secretário, presidente da Fundação que mantinha convênio com essas obras dos padres salesianos, que éramos os que mantínhamos esse tipo de atividade, os internatos, né? Então ali que viemos parar e foi a nossa sorte.

 

P/1 - Todos os filhos?

 

R - Todos.

 

P/1 - O seu pai ficou lá?

 

R - O meu pai ficou mais um pouco lá, para ajustar o que pôde e o que não pôde. Até que, um dia, pegou o caminhão e deu saudades para o fazendeiro. O que pagou, pagou, o que não pagou, deixou para pagar na próxima geração. Porque já tinha pago, mais do que pago. E veio embora para a capital, aí evidentemente... Para Campinas. Aí, ele ficou com os padres, também salesianos cuidando da chácara deles. Deu continuidade àquilo que ele sabia fazer, de uma maneira mais humana, mais regrada, mais limitada. E ali, nós pudemos estudar, pudemos nos formar, profissionalizar, porque lá havia tudo isso, escolas profissionais. E de repente, eu fiquei, segui a carreira de padre e o outro meu irmão... Somos dois irmãos salesianos hoje. E a minha vocação foi um pouco assim, até folclórica, né? Porque eu admirava muito os padres dali. Eram muito carinhosos com as crianças que ali vinham trazidas...

 

P/1 - Aí, em Campinas?

 

R - É. Aquela história de orfandade, de abandono, quem não tinha família. Embora eu tivesse a família, né? Mas eu estava ali por necessidade. Aí, um certo dia, o padre foi lá perguntar quem é que queria seguir, que gostaria de ajudá-lo, quem é que gostaria de ser padre, até... Nós éramos ali... uns quatrocentos, acho. Uns trezentos e cinquenta para quatrocentos. E quando o padre fez a pergunta, coitado do padre, ninguém apoiou a ideia dele, ninguém levantou a mão, ninguém se manifestou e eu fiquei com pena do padre. Eu falei: “Coitado desse padre, mas sozinho não vai aguentar.” E levantei a mão. E com esse gesto tão simples, tão assim, puro, como a gente fala. Deus acho que levou a sério e o padre também levou a sério, e me cuidou como deve cuidar, e me encaminhou para o seminário. Acabei chegando a ser padre.

 

P/1 - Mas o seu irmão também?

 

R - Meu irmão, ele veio depois. Esse meu irmão permaneceu com o meu pai para arcar um pouco com a saída de lá. Que não fosse também, uma fuga simplesmente, ou alguém que fugiu. Eles ficaram mais um pouco lá e depois meu pai veio embora com todos. Porque para não morrer de fome, nem de picada de insetos, ou de febres, que havia muito paludismo por causa da água, aquela história toda assim, que nós sabemos que, em certas regiões, também o bicho... Aquele... Barbeiro. Havia muito dessas doenças. E o meu pai começou a ver, porque ele era homem que tinha a cultura do meio de onde ele veio. Ele começou a perceber que se ficasse ali, ia morrer a família toda, ou pelo menos, alguém qualquer dia ia morrer. O meu irmão, um dia, ficou doente lá e não morreu porque... Não tinha médico. Então, esta visão de sobrevivência que diz: “Vamos embora, porque pior que estar vivendo aqui, nós não vamos ficar.” E aí, ele arriscou e deu certo. Viemos para a capital.

 

P/2 - Antes de vir para o Brasil, o senhor já estudava lá?

 

R - Claro.

 

P/2 - Então, o senhor chegou aqui...

 

R - Já tinha levado até umas palmadas do meu professor, a quem eu agradeço que me deu poucas, mais algumas eu teria, talvez, sido um melhor cidadão desse povo. Costume da época. Até do padre, uma vez, eu levei um chega para lá. Então, eu estudei. Claro, lá eu fiz tudo aquilo que era básico. Seria um primário de hoje. Um pouco, mas o primário de hoje lá era o primeiro, segundo e o terceiro ano. Terceiro, eu não digo, mas o primeiro e o segundo era, aos conhecimentos que a gente tinha. Porque o professor era tudo. Era aquele homem que educava. Era homem e educador completo. Não tinha aquele negócio de amparar uma coisa e dava outra, não. Ele era um homem completo. Então, era ele, o padre e o meu pai que eram os que lideravam a coisa. Então nós tivemos ali a escola. Sempre tivemos o nível básico.

 

P/1 - E aqui?

 

R - E do Paraná nada. Isso que levou meu pai a perceber a arapuca que a gente tinha caído, por isso que eu me atrasei um pouquinho. Mas, logo em seguida, com os padres... Eu também, não falava nada de português, tive que aprender a língua. Hoje, graças à Deus, quem me diz que eu sou espanhol é difícil. Nós somos uns dos poucos que... eu vim com essa idade, que ninguém diz que eu sou.

 

P/2 - O que o senhor mais estranhou ?

 

R - Tudo, mas a comida... Comida, a vida, o ambiente, a sociedade... Quer dizer, a miséria em que aquele povo... porque nós não éramos negros, éramos todos brancos. Sem preconceitos, mas àquela época havia preconceito, né? Então, nessas tarefas assim, mais assim, havia toda essa chamada escravidão branca, mas em cima de imigrante. Que vinha para cá através da imigração oficial e, desconhecedor do que era a situação e dos recursos que receberia, e do apoio que ele teria, a nível de convênio, estrutura até política e social, ele era jogado no sertão, se desse certo, deu, se não desse certo, estourava o quê? O escravo. E foi isso que o pai sacudiu e teve a visão, e saiu fora!

 

P/2 - O senhor lembra onde estavam os negros nessa ocasião? Você chegou aqui em que ano?

 

R - Nós chegamos no… em 1953. Não, não. Eu digo isso porque se fala de escravidão dos negros mas, não tem que se falar só de escravo para negro. Também tem que se falar para muito branco que ficou encurralado, ficou cercado, ficou cerceado na sua liberdade, na sua autonomia, ou pela falta de cultura, ou pela distância de ele ter o acesso à própria cultura. E, desconhecedor dos direitos até, ele se adapta àquela vida. Quando ele percebe, ele não é ninguém. Porque deve tanto, e tem aquela cultura de “deveu, tem que pagar.” E tem que pagar, mas por que? Se está mais do que pago...? Não tem que pagar nada. Tem que sair fora e dar lembranças para o homem lá da fazenda e ele que arrume outro se ele quiser. Se não, ele que vá trabalhar. Situações sociais das décadas passadas.

 

P/1 - Seu pai se casou de novo?

 

R - Não. O meu velho é daqueles, casamento é um só, mulher é uma só e o resto é criar os filhos e a responsabilidade e o compromisso da vida. E a crença em Deus, porque a nossa formação religiosa católica era firme.

 

P/1 - E aí, o senhor ficou lá e foi encaminhado para o seminário, era isso?

 

R - Não, eu fui encaminhado para o orfanato, nada de seminário. De lá é que apareceu essa história que acabei de contar. Lá do orfanato é que depois, o padre me propôs: “É o que você quer? Ser padre mesmo? Então, vai para o seminário.”

 

P/1 - Como era a vida no orfanato?

 

R - Era muito boa, muito alegre, muito... nós éramos muito bem cuidados pelos padres. Era assim, uma vida de muito trabalho, de estudo, muito alegre, com esporte, com a recreação. Mas era uma vida também muito difícil, muito dura devido àqueles que vinham trazidos via Febem, que não tinham absolutamente ninguém. Eram uns abandonados mesmo. Então nós convivíamos nesse meio, não tinha privilégio. Não tinha “porque eu tinha família, eu tinha privilégio”. Nada. Era tratado em um pé de igualdade. Você comparava, escutava o choro, lágrimas, desespero, a revolta... E os padres tentando fazer aquilo que se podia fazer. Aquele contexto de, sei lá, de abandono e de carência. Então eu convivi ali, tanto assim, que o que eu faço hoje, é, justamente, ajudar esses meninos... Que eu tenho sete orfanatos aqui, né?

 

P/2 - Tenta retomar um pouco a partir daí... Você estava dizendo que lá no orfanato salesiano...

 

R - Não, morávamos com os padres salesianos. Então, que nós vivemos a infância toda. A gente aprendeu e completou aquilo que a gente já trazia da família, né? É mais ou menos isso aí. O resto é sequência.

 

P/2 - Aí o senhor foi para o seminário...o senhor se ordenou em que ano?

 

R - Eu me ordenei em 1973, eu me ordenei. Primeiro de janeiro.

 

P/2 - E aí, depois que o senhor se ordenou...

 

R - Me ordenei padre e fui exercer as funções de padre e de coordenador pedagógico, de administrador de escolas, obras sociais. Aí no Instituto Dom Bosco, no Bom Retiro, onde eu vivi 13 anos. Comandei, dirigi lá a obra. Acabei sendo diretor da entidade toda lá, no serviço social e... Então, eu já fui desenvolvendo aquilo que tinha sido um pouco a infância minha, de orfandade, e de contato com a realidade da carência da meninada onde, eu também, passei uma fasezinha da vida. E é o que eu faço hoje também. Praticamente o que eu faço, veio daí. “Meu filho, meu filho, meu filho, meu filho, não sei o que faço com o meu filho” Problema... É uma situação muito difícil, difícil. Mas, tudo bem. Acho que é uma missão, é uma vocação, que se faz por devoção. É fruto de amor, de doação, de uma visão de mundo melhor, de uma sociedade humana, de uma sociedade onde somos irmãos, naquele que é o irmão maior, que é Cristo Jesus, Nosso Senhor, né? Então, a minha vida foi sempre conduzida nesses valores, nesses parâmetros, nessa filosofia de vida, né? Acho que a carência que eu passei, eu... Quer dizer, foram marcas, né? Que depois acabaram me conduzindo a ser, não digo solução, mas ser um pouco uma luz para aqueles coitados que, pelo mundo, pela desagregação da família, pelo abandono, pela carência, viveram um pouco na escuridão. Por quê? Por não ter afeto, por não ter o carinho, por não ter a presença de um pai, a presença da mamãe. Que a visão que eu tenho aqui, que o povo tem da minha figura é essa, né? Então, aqui na região, eu sou pai, eu sou mãe, delegado, sou policial, sou político, sou tudo. O povo acha que o padre é! Sou médico e... nas horas vagas, eu sou padre! E devia ser o contrário. Porque o povo é desassistido, mal formado, coitado. Vai na delegacia não tem atendimento. Vai no hospital com os filhos, não atendem. Vai no pronto-socorro, não soluciona. Vai na farmácia não pode comprar um remédio. Então, bate tudo aqui na porta. A gente tenta ajudar, tenta socorrer, tenta fazer o que Cristo fez quando ele, em vida, viveu aqui na Terra, no meio do mundo. Então isso, mais ou menos, é o perfil.

 

P/2 - Como era o seu trabalho lá no Bom Retiro?

 

R - Era o que eu faço hoje aqui, quer dizer, eu ordenava o sacerdote. Eu me deparei com uma escola, escola até clássica, muito mal administrada na época, com muitos problemas. Então, eu tive que colocá-la em ordem, ordená-la disciplinarmente, curricularmente. Quer dizer, com currículos. E também, o Bom Retiro foi sempre um bairro de dormitório, de muitos cortiços. Então, eu também, na medida em que cheguei ali, eu fui contatando a realidade, o povo, a pobreza, a miséria, também o abandono dali. E aí, eu fui remontando a obra social do Dom Bosco no Bom Retiro que, acabou sendo na época, uma marca para a cidade. Também, porque eu tenho hoje deputados federais, tenho secretários de governo, nós temos pessoas ali, pessoas também que exercem funções na sociedade e de peso, que se formaram conosco, né? Juntos. Ali era semi-internato, era externato e era ponto social também, na época, no anos 70.

 

P/1 - E tinha os pagantes então?

 

R - E havia também um pouco de escola. Havia um pouco de escola também. Havia uma família, de certo porte, que ajudava a manter o social que a gente desempenhava ali no bairro. E no bairro também, nós tínhamos uma influência bastante grande com comunidades judaicas, com as escolas de bairro, com a comunidade. Eu nunca fui fechado dentro de quatro paredes. Esse padre foi sempre um ser meio universal, no seguinte sentido, que eu não tenho carência, onde tem uma política, onde tem algo que deva ser modificado. Então a gente sempre tentou influenciar, tentou melhorar, tentou socorrer a população carente, a população pobre, humilde. Isso que eu fiz no Bom Retiro. Isso fez com que eu chegasse como responsável, como coordenador. Depois fui, até quando me fizeram diretor da obra, até que me cansei. Quando eu me cansei, eu larguei tudo e vim fundar Itaquera, fundei Itaquera.

 

P/1 - Ah, o senhor fundou aqui.

 

R - 1981 eu começava a pintar aqui em Itaquera, para conhecer o bairro porque... Os bispos de São Paulo me convidavam para trabalhar, nós estávamos formando a Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, que Dom Paulo Evaristo entregava para Dom Luciano. Porque foi Dom Paulo que me ordenou sacerdote. Fui ordenado por Dom Paulo no Imirim, na Santa Terezinha... Naquela época, era um fato inédito. A gente era sagrado padre nas matrizes maiores, do centro, então o fato de eu ter saído do centro para me ordenar em uma capela de uma periferia, já era um gesto bastante significativo na época. Já era um pouco, eu acho que o meu compromisso com  a pobreza, com a periferia, que era o grande tema do Evaristo Arns na época, das comunidades eclesiásticas de base. Fortalecer, criar... Este nascer dessas pequenas comunidades religiosas, chamadas comunidades eclesiásticas de base, que é de onde nasceram as grandes ideias de uma sociedade de fraternidade, de igualdade, onde nasceu o próprio PT, né? Que defende um pouco essas causas, essas minorias, nasceu conosco, na igreja, no berço das lutas, nas militâncias, o asfalto, a saúde, a educação, a moradia. Todas essas militâncias é que acabaram gerando até o partido político. Partido que hoje é o PT. Os fundadores sabem muito bem disso. Que nasceu na Igreja, nasceu nessas próprias comunidades eclesiásticas de base. Então, eu lá do Bom Retiro, depois desses anos todos que por ali fiquei, quer dizer, estruturando a obra e fazendo a obra florir, desenvolver, ser até bastante respeitada, não só no bairro, como também já na cidade de São Paulo, é que os bispos fizeram esse convite, de eu ajudar na Pastoral do Menor da Arquidiocese. E também, um desafio: porque os salesianos só tinham obras no centro de São Paulo? Campos Elíseos, Bom Retiro, Santa Terezinha, Lapa, Mooca… Porquê que nós não vínhamos nas grandes periferias? E os bispos então disputaram um pouco esse tipo de presença nossa. O Dom Joel, falecido na época, o Dom Francisco, que era de Santo Amaro, também me levou, me convidou, queria que eu fosse trabalhar com ele. E o Angélico, que estava em Itaquera, que era regional de Dom Paulo Evaristo, não era diocese aqui na época, de São Miguel, é que venceu a parada quando ele me oficiou, convidou, e o Dom Evaristo abençoou a ideia e falou: “Os salesianos em Itaquera é mais, mais benéfico.” Devido às Cohabs que chegavam para cá, aquela densidade populacional enorme, era bairro dormitório. Eu vim para Itaquera e vi que o povo precisava da nossa presença, então eu fui fundando a obra devagarinho, com muita calma, com muita paciência.

 

P/1 - O senhor chegou em que ano?

 

R - 1981.

 

P/2 - O que que falava dos bairros?

 

R - Aqui? Ninguém falava nada. Aqui era um silêncio total. Aqui era um bairro de muita violência, era um silêncio. A certa hora ninguém transitava mais na rua. Todo mundo, quando eu cheguei, me olhava e achava que eu era louco porque andava a pé pela rua, pela calçada, entrava nos casebres, nos cortiços, e o povo se escondia para olhar a minha figura: “Quem é esse louco aqui? Quem é esse homem aí? O que é que ele está querendo, esse que era padre? É padre?” Então eu me deparei com isso. E é uma droga muito grande, porque toda a borda de concentrados populacionais, são áreas de muita violência. Não é que nós somos contra Cohabs, nem contra esses aglomerados populacionais, mas a clientela, a população, que se coloca ali, à beira desta COHAB, ela sofre violência. Ela é, assim, sofredora também, desse traficante, deste cidadão que vende, que explora, que prostitui e que mata. Então aqui, como naquela época ainda não havia os grandes aglomerados do final de Guaianases, a COHAB 2 era o último aglomerado, né? Quando eu cheguei, dezenove anos atrás, né? Então aqui era que se condensava bastante a densidade da violência da área Leste. Asfaltaram, não tinha luz, não tinha nada. Aí, quando eu cheguei, eu fui devagarinho. Era época da Rota na rua.

 

P/2 - Como era essa Rota?

 

R - A Rota, né, filha?

 

P/2 - É que eu não sei.

 

R - Tem um nome, o autor da Rota, né? E era a época que a Rota circulava e o cidadão não podia duvidar, que morria mesmo.

 

P/1 - É a polícia?

 

R - A polícia, claro.

 

P/2 - É que ela [a entrevistadora] não sabe, porquê ela é de Fortaleza.

 

R - Ah bom, pensei que a pergunta era política. Porque tem quem colocou a Rota na rua. Todo mundo sabe aqui em São Paulo.

 

P/1 - Quem?

 

R - Quem? Foi um dos políticos que está na parada...

 

P/1 - Paulo Maluf?

 

P/2 - Romeu Tuma?

 

R - … que acha que segurança é problema de polícia.

 

P/1 - O Tuma que pôs a Rota?

 

R - O Tuma não era ninguém na época. Ele era da Polícia Federal.

 

P/2 - As pessoas tinham medo da Rota?

 

R - Tinham medo… que a Rota vinha para resolver a parada de uma maneira truculenta. Ela vinha disposta a tudo e a todos, né? Então eu me deparei também, com essa situação. Inclusive, na época, eu defrontei-me com a polícia. Eu era tido como um padre comunista, um padre perigoso, um padre subversivo, como um padre que invertia, que era um comunista, né? E não era nada disso. Eu tinha que me colocar do lado dos jovens. Eu acompanhei várias ameaças de extermínio. Inclusive, eu tive confrontos com a Rota. Eu dizia: “Vocês não mexam comigo que eu não vou mexer com vocês. E vocês também tenham bondade.” Eu acho que executar e matar não é a solução. Nós temos é que educar, dar espaço para esses jovens, de lazer, de comunicação, naquilo que a meninada gosta para não ter que, depois, sacrificar a vida humana. Porque o Senhor já disse: “Não matarás.” Não falou? Então, nós todos temos esse dever cívico e social, que é o que se fala hoje, né? Como associar essa turma da violência? hoje todo mundo está armado. Todo mundo acha que tem que matar mesmo. Todo mundo acha, e não é essa a solução para a sociedade. A solução é o que o evita a violência, o que previne a violência, que são todas essas ações sociais e políticas para evitar que violência se pague com violência. É a lei do direito humano, né? Direito humano não é para bandido, como muita gente acha que a Igreja defende bandido. Defende bandido coisa nenhuma. Eu tenho que defender o ser humano, a pessoa humana, e educá-la para que não vire bandido, não é verdade? E tem que defender o cidadão também, comum, certo? Ambos são pessoas humanas que nós temos que educar, temos que dar condições dela se educar, não é verdade? Então, na época havia uma polêmica aqui em São Paulo, muito grande em cima desses temas. A figura do Dom Paulo Evaristo, as comunidades eclesiásticas de base, a militância... e havia a Rota na rua. Então eu me deparei também, com toda essa situação. Eu me coloquei ao lado dos pobres, ao lado dos humildes, e me articulando para que a polícia fizesse o preventivo e que ajudasse... Tudo bem, tem que fazer um pouco de repressivo? Eu também não digo que não. Não é levando flores, nem dando balinhas que vai consertar a violência. Mas, matando também, eu acho que não é a saída e nem solução. Então, na época, esse tema era muito forte. Eu me deparei na madrugada, de noite, quando... eu sei que andava na rua muito a pé, então eu me deparei com... Um dia estavam exterminando doze, no meio de um matagal. Eu enfrentei a Rota lá. “Eu sou padre. Vocês não vão fazer o que iam fazer, porque se fizerem, vai dar confusão. [Som imitando policial reclamando] Ninguém vê nada. O senhor vai embora, eu cuido daquela garotada aqui, correto? E depois, nós vamos conversar o resto.” E eles aceitaram esse meu palpite. Salvei a vida dos doze e em cima desse fato, parece que a minha figura acabou sendo carimbada como uma figura, quase que... de uma maneira intocável. Porque eu disse: “Eu salvei a vida de vocês. Vocês, por favor, não mexam na igreja. Vocês não me aborreçam com droga... Não mexam com as crianças que eu tento educar. Vocês respeitem aquele que um dia salvou a vida de vocês.” E aí, parece que... quer dizer, a amizade desse pessoal e a minha ação social que depois, ela foi crescendo, foi desenvolvendo, foi ampliando, né? Por toda essa área, fez com que a Obra, ela é um divisor, ela é divisor de políticas.

 

P/2 - Conta para a gente, um pouco, essa história da Obra assim, como é que ela começou...

 

R - Começou com a minha chegada, com a rua, com a calçada, com a conversa nos campinhos de futebol, com o lazer, com um pouco, a esportividade, o teatro, a música que não havia nada de construções aqui. Nem asfalto havia nas ruas. E ali, então, a gente foi mostrando para a população que a gente era um padre também, um pouco diferente dos outros, que não vim para cuidar só do catecismo, dos dogmas. Eu vim para estar ao lado da população, para melhorar a situação deles, para conviver com eles. Então, aí eu comecei e o povo começou a chegar na minha figura, na minha pessoa, e apoiar tudo aquilo que eu fazia. Então, um dia uma mulher chegou: “Padre, vamos fazer uma horta comunitária?” “Vamos.” Fizemos uma horta comunitária. “Padre, vamos fazer uma farmácia comunitária?” “Vamos fazer uma farmácia comunitária”. “Padre, vamos lutar para ter um posto de saúde, aqui no nosso bairro?” “Está bem.” O Governo estava distribuindo onde podia se colocar postos. Não tínhamos hospital ainda. Lutamos e fizemos o posto Nossa Senhora Aparecida. “Padre, vamos fazer o hospital? Vamos lutar, lutar, lutar.” “Vamos lutar.” E lutamos. Veio o hospital para cá. E assim nós fomos… “Vamos lutar pelo asfalto?” “Vamos lutar pelo asfalto.” “Padre, vamos lutar pela parte de energia elétrica?” “Vamos melhorar, vamos brigar com o prefeito.” E tivemos tanta sorte que um dia... hoje a governadora, a Liliam, que até hoje é amicíssima nossa, ela se perdeu aqui no bairro, vinha para uma associação. Eu estava em uma tarde de semana, de férias, tempo de férias com aquela meninada, enorme, eu abri para abriga-los. E chegou com um carro assim, esquisito, eu falei: “Orra, quem que é esse? Quem que vem vindo aí?” Daí, o carro parou, falou: “O senhor, por favor, onde que é a associação tal?” “Mas essa associação não tem aqui não. Eu não conheço. Esse nome não é do meu conhecimento.” Mas, eu falei: “Quem é que está aí dentro?” “A esposa do prefeito.” Mário Covas era prefeito naquela época. “Esposa do prefeito? Mas, que maravilha! Acho que a associação é aqui mesmo, pode entrar.” E daí, com esse fato assim, até pitoresco, ela entrou, viu o trabalho. Não tinha nenhum convênio, não tinha apoio de ninguém. Era eu e o povo aqui. Ela ordenou que as Secretarias de Governo apoiassem a Obra com os convênios. Até hoje, eu lembro isso. Ela lembra com muito agrado, com muita satisfação, que marcou muito porque, naquele dia, ela quando viu aquela garotada, o cheiro que eles mandavam, a poeira que eles mandavam... E aí, aconteceu que a partir dalí, criou-se uma amizade entre nós, uma relação boa e a Obra também começou a encontrar uma estrutura também, de economia, para poder desenvolver atividades, um pouco mais qualificadas que é, o que hoje, nós temos aqui na Obra Social. E foi de uma coisa assim, a mulher, ao invés de falar, chorava só, de emoção de ver o trabalho, a maneira... A nossa maneira é muito familiar de conduzir o trabalho, né?

 

P/2 - Como é?

 

R - A nossa maneira está montada no tripé “Razão, religião e afetividade”. Carinho... chamado, né?” O ser humano, ele tem três palavras-chave com as quais você pode transformá-lo e humanizá-lo. O resto é conversa fiada, é conversa comprida de político. Só as três falas: “a razão”, o que que é a razão? Você tem que abordar o cidadão. Você tem que criar um vínculo, uma ponte de comunicação com ele para ver que carência ele tem, que problema ele apresenta, aquele problema que tem que ter tempo para conversar... O diálogo, a razão. E acordá-lo um pouco para a sua responsabilidade. Acordá-lo um pouco para que se compreenda como gente, como pessoa, como cidadão. Então, “a razão”... é importantíssimo isso aí. Que é o “Blá, Blá, Blá.” A racionalidade da situação dele e da minha. Dele, como cidadão, como alguém que amado por Deus também, porque eu sou religioso, sou padre, então eu tenho que pegar a religião, importante valor, despertar o valor que ele tem, porque alguém deu valor para ele. Alguém colocou uma semente nele, que essa semente tem que ser desenvolvida, ela tem que crescer, tem que permear o corpo todo para que seja um corpo voltado para ações de bem, e não para a maldade. Pés, mãos e cabeça, todos os membros têm que ter uma ordem aqui dentro, para que a ordem venha para fora. Agora, quando a pessoa é desordenada dentro, como é que ela pode ordenar fora? Se ela é intranquila por dentro, como é que ela pode ser tranquila por fora? E de onde vem isso? Do diálogo que você faz com a pessoa, para ela se entender como pessoa, com o limite que ela tem, com a carência que ela tem. E dali, você põe esse Deus, que o amo, que o quer bem, mas não o Deus que o aliena: “Aleluia, amém. Glória à Deus, Blá, Blá, Blá.” Banana! O Deus que vai fazer dele cidadão para ele transformar a realidade dele, o trabalho, a luta, o envolvimento da comunidade, das necessidades que a comunidade precisa transformar, precisa reverter. Não Deus intimista, individualista: “Eu e ele. Ele e eu. Jesus me salva, Jesus me salva!” Eu falo: “Que Jesus me salva. Sai fora meu filho. Jesus te salva se você for bom cidadão, se você lutar para algo que beneficie a comunidade, algo que transforme a carência da juventude. Aí, esse Jesus te salva. Mas, não é ele te salva, você que se salva! Você tem que fazer um caminho, tem que ter um compromisso social.” Então, o lado da religião. E ali, tem um lado que cria um vínculo, qual é o vínculo? Ele se sente em uma família, esse menino, esse adolescente, esse jovem. Ele se sente amado pela figura do padre. Ele ama a gente e a gente o ama. Quer dizer, há uma corrente elétrica que se cria. “O padre é dos nossos. O padre é nosso amigo.” Ele me chamou de “pai”. Eu sou um pai, aqui no pedaço e sou duro! Sou enérgico! Sou exigente com a garotada! Pode circular nos corredores, você vê se tem parede pintada. Se tem classe com bagunça aí. A professora vem aqui na minha porta: “Ah, vai lá para colocar disciplina.” Não tem isso aí. De vez em quando, tem um caso ou outro mais difícil. Por que? Porque é uma metodologia que vai acontecer, não com um discurso, com práticas. É o método preventivo Dom Bosco: “Razão, religião e

.”

sabe? É do italiano. Para fazer o carinho. E assim, aquela coisa gostosa de você vim falar comigo e de eu falar com você. Você pode me ajudar, eu posso te ajudar. Eu posso fazer algo por você. Você pode fazer algo comigo, ou por mim. Então, vamos fazer. É a família.

 

P/2 - Quais são as atividades que o senhor desenvolve?

 

R - Aqui? Tem mais de 40 cursos aqui. Porque os cursos estão por módulos. Então, por exemplo, pega uma mecânica, são três, quatro mecânicas. Pega uma marcenaria são três, quatro marcenarias. Pega uma elétrica, eletrônica, tem três, quatro, cinco, seis, sete módulos. Pega uma auto mecânica, tem auto mecânica aqui também. Você pega várias, vários módulos. Pega uma mecânica geral é a mesma coisa. Pega

, mesma coisa. Você pega a costura é a mesma coisa. Você pega o setor de informática tem seis, sete laboratórios de alto nível, Não máquinas antiquadas, não. Tem 550 megas para cima. Então nós temos uma técnica muito boa. Temos um laboratório também, de telefonia. Temos padaria, temos sorveteria, temos sapataria, tem… Tem o pé e a pele, a beleza, estética, cabeleireiro. Aqui tem um núcleo, mas eu tenho outros núcleos fora daqui, ali no centro de Itaquera, nas Cohabs, tem as casas dos órfãos.

 

P/2 - Como é que funciona?

 

R - Moram. Os órfãos que moram ali. Não têm família, eu acolho. Ele mora ali. Onde eu vivia quando era moleque, era órfão, que o padre que cuidava.

 

P/2 - Mas, são órfãos daqui mesmo de Itaquera, ou de outras...

 

R - De tudo que é área. Vem pela promotoria, vem pelo juiz, pela Febem, comunidade que traz. Eu, uma vez... eu encontro na rua, a comunidade encontra na rua, me traz aqui. A gente vê se o menino precisa ficar, ou então, volta para alguma uma família, ou ele se cria aqui, conosco.

 

P/2 - Vocês estão com quantas crianças?

 

R - Na Obra toda?

 

P/2 - Não... É...

 

R - Ou nos órfãos?

 

P/2 - Na casa dos órfãos e depois na Obra toda.

 

R - Cento... cento e… uns cento e trinta, mais ou menos, se movem nesse projeto. Na Obra toda são mais de seis mil.

 

P/2 - Nossa, que beleza! E aí, eles terminam o curso aqui e vão para onde? Onde que eles vão exercer?

 

R - O curso aqui, eles vão... Tem bolsão de empregos. A Obra tem bolsão de empregos. Tem uma mediação com a indústria e com o comércio. Então  nós temos todas essas ações a diante. Você tem uma base de atendimento para ir. Nessa ficha aí.

 

P/1 - O senhor também lida com menores infratores?

 

R - Claro! Tenho 450...

 

P/1 - Infratores?

 

R - Infratores. É o maior projeto da cidade do Estado de São Paulo. De infratores.

 

P/1 - Eles passaram pela Febem?

 

R - Claro. Mataram, estupraram, estiveram na Imigrantes. Agora, veio o desabrigo e nesse desabrigo, o juiz só desabriga se tiver um local para ressocializá-los, reintegrá-los na comunidade. É citado como projeto de trabalho modelo até. O Governador vive muito elogiando aqui, o trabalho. Inclusive, ele falou na televisão que ele queria uma Febem modelar, como a Dom Bosco de Itaquera faz. Só que primeiro, tem que ter carismático. E como não tem carismático lá, só tem político não dá certo. Nada dá certo. “Faz, faz, faz, faz. Constrói, constrói, constrói.” Aí, entra política, entra o interesse, entra quem manda, quem não manda, quem faz, quem fez, quem não fez e aí, o que que dá? Nada. Tudo despenca por que? Porque a meninada não vai querer ficar recolhida lá e aí, quebra tudo.

 

P/1 - Tem regime de internatos?

 

R - Tem, os 120 órfãos são internos.

 

P/1 - E os demais?

 

R - São sete casas. Casa e moradia.

 

P/1 - Então, quais são os equipamentos todos que a Obra tem, em termos de...

 

R - São mais de 40.

 

P/1 - Equipamentos? Casas...

 

R - Tem núcleos pequenos. Esse núcleo é grande, o metrô é grande. É maior que esse, umas duas, três, quatro vezes. E, depois, temos outros núcleos. Onde tem uma igreja tem um núcleo social. A senhora é católica?

 

P/1 - Eu sou.

 

R - Você é católica? Então, não precisa perguntar.

 

P/1 - O que?

 

R - Não precisa nem perguntar.

 

P/2 - Por quê?

 

R - Porque a Igreja Católica é a única que, ao lado da igreja, tem sempre o social. Ou tem Vicentinos, que atende os pobres. Ou tem aquelas comissões das mulheres que atende os pobres, que é a Pastoral da Saúde, a Pastoral da Criança. Temos aí, a equipe de visitação dos pobres, não tem? Temos. Então, todas as igrejas... Eu sei que não são todas os padres assim, agora nós salesianos especificamente, nós já nascemos com esse carisma. Nós… a Igreja Católica já nasceu assim. Jesus Cristo fez o que? Ele criou os templos, ou fez o social, e ia na sinagoga, como um bom judeu que ele era. A igreja faz as duas ações; anda como Jesus Cristo, depois faz a Igreja, e também constrói a igreja e ao lado põe o departamento social, né? Está certo?

 

P/1 - Eu queria que o senhor falasse sobre Itaquera, metrô Itaquera. O senhor citou aí.

 

R - Eu tenho lá uma obra enorme, atrás do metrô Corinthians-Itaquera.

 

P/1 - Fala sobre isso.

 

R - Sobre que? Sobre aquele departamento?

 

P/1 - Sobre a obra... É.

 

R - Ah, lá é o departamento cultural. Lá desenvolvemos a cultura, a música, teatro e também tem ações profissionalizantes, para ocupar o tempo da meninada lá. Lá eles têm bela refeição, têm piscina, têm campos, têm quadras, eles disputam na cidade campeonatos estaduais, municipais, nacionais... Nós temos a ginástica olímpica, que é campeã no Clube Pinheiros, com troféu de ouro, no Clube Tietê, em São Bernardo do Campo, já foram para Santos, já foram para Rio Preto, já foram a Brasília. Nós temos equipes que desenvolvem esse lado que é o judô, a capoeira, esse teatro... o teatro, a comunicação que eles desenvolvem muito bem ali. Todo mundo diz que em São Paulo não existe um departamento como aquele. Então, é uma beleza, né? E tem atividades mais simples, como essa da pintura, a do bordado, do crochê, do macramê, do tear, da tapeçaria. Tem coisas muito simples.

 

P/1 - E vocês vendem esses...

 

R - Vende. Nós temos bazares etc. Ou no próprio metrô, de vez em quando, nós já... já nos cederam os espaços. É pena que tudo é muito burocrático.

 

P/1 - É?

 

R - Tudo é burocrático. Embora eu sei, eu sou amigo do presidente, do vice-presidente, que me conhecem todos, a diretoria da CPTM, todo mundo respeita esse padre assim como fosse um... Para mim, é que o Governador toda hora fala, né? Então, todo mundo tem na minha figura sempre um amigo, um companheiro porque eu... fui eu que defendi o trem agora contra toda a comunidade. Fui o único que defendi.

 

P/1 - O trem?

 

R - O trem. A vinda do trem. Porque eu sou espanhol e porque eu sei que na Europa, a comunicação se faz pelo trem. Não é por ônibus, nem o avião só. É o trem que é o grande movimento da Europa, e integrado com o metrô. Eu fui a Paris... e o povo aqui não queria. Queria metrô, porque havia a promessa do Quércia. Quando ele estendeu a linha para cá, ele prometeu metrô e a turma da imobiliária, os comerciantes, acham que o metrô é que traz a marca para ele poder. E pode estar certa a visão dele. Mas, eu digo o seguinte, para mim, seja trem ou seja metrô, o que me importa? A qualidade do trabalho, que ele funcione, que ele atenda a população e que ele cumpra o seu dever de levar com rapidez o funcionário, o empregado, ao seu local e trazer ele de volta com rapidez. Que é o que aconteceu. Porque ele vai para o centro e demora 20 minutos. E o metrô demorava muito mais. Agora o trem é rápido e ele é bom.

 

P/1 – Mais rápido do que o metrô?

 

R – Mais rápido, demora 20 minutos daqui até o Brás, porque não para nas estações. Ele só para em Guaianases, Bonifácio, Dom Bosco, Itaquera... Itaquera ele vai, Tatuapé e Brás.

 

P/2 – Por que é que a comunidade não queria?

 

R – Não queria por causa dessa história, dessa história que eu estou te falando. Que o metrô... O metrô é a marca da cidade em transporte. Também porque ele é limpo, porque tem segurança, porque aí o cidadão, se roubar não tem muito para onde ele escapar. E aqui nesses trens nada. Eles surfavam em cima dos trens, morreram quantos meninos, inclusive meninos meus morreram. E eu era contra também, por causa disso. Falei: “Porque seu filho não morreu lá.” Mas aquele filho que estava criando na obra, que no dia da semana que foi mandado aqui não morreu um; caíram dois meninos que saíram daqui do meu escritório. Um deles morreu, ficou... Foi a despedida do trem. Caíram da porta do trem porque o trem não fechava a porta... Nossa, era inseguríssimo!

 

P/1 – Não, espera, esse era o trem antigo...

 

R – Esse era o trem que passava aqui pela estação de Itaquera, 15, Guaianases Velha, que agora ele foi mudado. De Itaquera, ele passou Itaquera, Dom Bosco, Bonifácio e Guaianases. Mudou a bitola dele, né?

 

P/1 – Mas tem um trem que vai para o Brás? Agora, tem um novo.

 

R – Esse trem corre de Guaianases até o Brás.

 

P/1 – Ah, tá, que chamam o Trem Espanhol?

 

R – Isso, o povo apelidou de Trem Espanhol.

 

P/1 – Mas, o senhor sabe por que apelidaram de Trem Espanhol?

 

R – Porque os trens são espanhóis. Houve uma doação do Governo, da Renfe da Espanha. Eu conheço muito bem a Renfe, porque eu andei muito lá de trem também... E o Governo doou uma parte; outra parte o Governo do Estado teve que comprar e teve que adequá-los, adaptá-los. Aí houve muita crítica, muita coisa, que era sucata, que era isso, que era aquilo. Sabe como que é imprensa... Sabe como é que é o lado partidário e político, que todo mundo quer dizer que é o pai da criança, que ele que fez a criança quando, na realidade, nesse país só tem cobra cega. Só tem cobra... Ainda bem que agora para vereadores houve uma limpeza na Câmara. Graças a Deus, Jesus Cristo!

 

P/1 – Agora, esse Trem Espanhol, não aconteceu nenhum acidente?

 

R – Não que eu tenha conhecimento, nada. Eu ando de trem agora e eu não ia de trem. Agora vou de trem para a cidade.

 

P/1 – O senhor prefere trem ao metrô?

 

R – Eu prefiro trem.

 

P/1 – Por que?

 

R – Prefiro porque ele é a mesma qualidade e agora ele é mais rápido, ele é mais ágil. Certo? E as estações são de bom nível, de bom porte. As novas, né? Acho que até demais. Não precisava ter feito a arquitetura que fizeram. Com a metade talvez teriam feito o mesmo efeito, mas como as empreiteiras têm que ganhar as fortunas do país, certo? Eles são os que comandam o país. Não é o Governo que manda, quem manda são as empreiteiras. Então, como tudo nesse país é do contrário, então... E aí o povo também embarca nisso aí; o sensacionalismo, a imprensa...

 

P/1 – O senhor se lembra quando... Sobre o metrô, o que o senhor se lembra? Quando estava para construir, quando estavam construindo? Essa história ligada...

 

R – O metrô é a maior maravilha que veio para São Paulo, nessa década. Só que veio atrasado e limitado. Já devia ter quantos quilômetros a mais de metrô nessa cidade, meu Deus do céu! Quantos quilômetros e quilômetros! E todas essas firmas de ônibus, todas falidas, todas acabaram o serviço. Agora, tem o desemprego, mas aí o Governo devia ver de uma outra maneira para empregar todo esse povo que dirige e que atende os ônibus. Mas, o que é que o ônibus resolve de trânsito, meu Deus do céu, é um atraso de vida isso aí! E o metrô nada, é rapidez, é conforto, é segurança. Então, é metrô. E o metrô nosso, ele é bom, é bom. Ele corresponde, só que não responde, porque quantitativamente ele não comporta a demanda desses finais de tarde aí, desses começos de manhã, quando o povo que mora em bairros dormitórios têm que ir para a cidade. Isso é um atraso de vida!

 

P/1 – O senhor lembra quando estavam construindo o metrô?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Tem algum caso para contar?

 

R – Olha... Então, eu sei que nós andamos criando licitações porque houve problemas. Assim, por exemplo, segurança do pessoal que era acostumado ir de bairro a bairro. Andaram cortando a comunicação de bairro para bairro. O caso típico da linha do trem que cortaram, separaram um bairro. Agora, é uma das reivindicações, que volte, que derrube os muros, tire os trilhos para o bairro poder se comunicar. Então, essas são citações negativas, do que houve. Agora, o lado positivo foi bom porque houve uma, vamos dizer, uma nova configuração um pouco da cidade. No lado do urbanismo, no lado assim da beleza da... Sei lá, lado arquitetônico. Também o metrô é uma empresa que tem uma qualidade de atendimento muito boa, né? Muito boa. Então houve um benefício muito grande. Isso é o lado positivo. Mas, o lado negativo, eu acho que tem um pouco desse lado que havia muita reivindicação... E nós lutávamos. Nós entramos em conflito com a polícia na época. Na época houve até pauleira na rua.

 

P/1 – Por que?

 

R – Por que? Porque nós éramos contra algumas... algumas maneiras de conduzir a coisa. As empreiteiras iam e fechavam a rua.

 

P/2 – Mas quem?

 

R – E obrigava o povo. As empreiteiras. As empreiteiras, de acordo com os projetos, né?  

 

P/2 – O senhor disse “nós éramos contra”. Nós quem?

 

R – Éramos. Nós éramos contra porque nós queríamos que o povo circulasse, que o povo andasse, que o povo facilitasse a comunicação de bairro, por exemplo, de rua a rua...

 

P/1 – Mas, o que foi que bloqueou essa comunicação?

 

R – Bloqueou que vinha, colocavam os tapumes e ninguém podia mais passar.

 

P/1 – Do metrô?

 

R – Claro. Do metrô e também da própria ferrovia.

 

P/1 – Quando o senhor diz nós, quem seria?

 

R – Até vir as passarelas, até vir aí o que era complementar, o pessoal chegava e fechava, depois fazia o complemento. Devia ter feito o contrário, né?

 

P/1 – Mas, aqui houve movimento popular para...

 

R – Houve. Na época, houve algumas coisas assim. Mas, depois, devido ao benefício que a população acabou percebendo que viria, evidentemente que acabou em pizza, como diz o outro.

 

P/1 – Um dos nossos entrevistados falou que o terminal do metrô Itaquera é um terminal que termina em lugar nenhum. O senhor concorda com isso?

 

R – Perfeitamente de acordo.

 

P/1 – Por que é que fizeram...

 

R – Porque era o terreno que havia na época, porque todo o resto era... Por exemplo, não tem mais áreas assim grandes aqui. Perfeitamente de acordo. Um terminal de metrô devia estar aqui próximo da COHAB II. E hoje, eu diria que deveria estar em Guaianases, porque isso baratearia a passagem do transeunte, da pessoa que se desloca. Ali é obrigado a pegar ônibus. E quem me diz, quem me prova que isso não foi articulado com as próprias empresas de ônibus? Para criar o terminal. O terminal devia estar onde está a população, não podia estar lá. Por que devia estar lá? Mas é sempre assim que funciona esse país. E foi colocado em um lugar realmente fora de Itaquera quase. Está quase fora de Itaquera. Um lugar de difícil acesso. Você só pode ir lá ou fazendo caminhadas homéricas ou, então, via o quê? Ou de perueiro ou via o que? Ônibus. E isso é um atraso de vida. E agora virá o Poupa Tempo ali. Eu quero ver quem vai transitar ali. Quero ver o que é que vai acontecer com aquela área. Porque o Poupa Tempo vai… vai atrair ali multidões de pessoas, multidões de veículos e a área é espremida, é apertada.

 

P/1 – Essa área do Poupa Tempo onde fica?

 

R – Ali, está sendo construída ao lado.

 

P/1 – Ao lado de quê?

 

R – Atrás, não tem nem 10 metros de uma construção à outra. Então, vai ficar uma coisa... Uma coisa empurra a outra. Eu acho que o metrô… o metrô, não sei como é que vai resolver. Como se pode resolver isso? Pode se resolver isso com a continuidade da Radial, que parou ali. A Radial parou ali. Então, precisa... precisa continuar a Radial. Precisa fazer vias para poder o quê? Para poder escoar um pouco isso aí. Dá um rolo, perueiros, e os ônibus quando chegam no começo da manhã, no final da tarde... Deus me livre! Eu digo que o metrô tem que se preocupar sim e o Estado tem que se preocupar agora, porque colocou o Poupa Tempo ali. Tem que ver como é que vai agora desviar. A Radial tem que continuar. Tem que ter algum outro acesso e alguma outra entrada ali naquele vale. É nesse sentido que eu digo que precisa, então, o metrô ver o projeto e falar com a Secretaria de Vias Públicas, e falar com a Secretaria também, de Vias Públicas da Prefeitura. Devem se unir ali o Estado, o Município, a entidade do metrô e agora a CPTM que passa ali com a... É uma coisa que não entendo isso aí também, porque por que não ter uma secretaria só?  Por que tem a CPTM? Por que teve que ter Metrô? Por que é que tem que ter a MTU? Por que não é uma empresa só, uma estatal só, com uma diretoria única, meu Deus do céu?

 

P/1 – Eu queria saber...

 

R – Vocês são funcionárias do metrô?

 

P/1 – Não.

 

R – Vocês são terceirização?

 

P/1 – É.

 

R – Ah, bom! Se não já vão me cassar o mandato.

 

P/1 – Ah, não. Eu queria saber quando os meninos aqui... Seus meninos ficam quanto tempo aqui?

 

R – Depende do curso, depende da... Tem gente que passa...

 

P/1 – Tem primeiro grau também?

 

R – Tem do prézinho. Então, tem gente que passa todo o currículo dele, até 18 anos ele passa aqui.

 

P/1 – Como é que é o encaminhamento para a profissão, para...

 

R – Tem o bolsão de emprego. Depende da demanda do bolsão de emprego nós requisitamos os currículos, ajudamos a fazer os currículos, preparamos e encaminhamos de acordo com a nossa visão.

 

P/1 – Tem, mais ou menos, como quantificar assim a porcentagem de colocação...

 

R – Olha, eu não tenho ainda porcentagem porque foi aceito desde que a Obra foi inaugurada há seis, sete anos atrás. Tinha uma fase que se empregava facilmente. E nós estávamos iniciando, articulando a Obra em termos de recursos, para colocar o bolsão de empregos. De repente, o Real entrou em pânico, o projeto do senhor Fernando Henrique Cardoso entrou em “pânico”, nem é mais pânico, o desemprego bateu firme, a recessão, que dizem que não, bateu pesado e agora continua também. Não é verdade? Bom, agora, nesse final de ano agora faz um mês... então nós estamos de novo começando a empregar. Procura, procura porque a Obra qualifica, a Obra prepara eticamente, moralmente, profissionalmente e acompanha depois. A gente tem sempre... A Obra é uma referência porque ela é da paróquia. É uma casa, é uma escola, é um pátio, certo? Pátio, escola, igreja e casa. São as quatro ideias, as quatro palavras-chaves que um homem precisa. É isso, não? Precisa de casa, precisa de religião, precisa de pátio ou lazer e precisa de que mesmo? Escola, educação.

 

P/1 – Como que é o apoio financeiro a essa Obra?

 

R – O apoio financeiro vem um pouco via secretarias. Secretaria da Família, do Estado, Secretaria da Família, da Prefeitura, vem amizades que a gente tem, cooperadores que ajudam, colaboradores, estrangeiro também que ajudou, a Alemanha especificamente, a Itália, a Bélgica, Áustria...

 

P/1 – Através de quê?

 

R – Parcerias, convênios, contatos que eu tenho lá no estrangeiro. Dom Bosco também é uma entidade internacional.

 

P/2 – Então, a gente, assim, está se aproximando do final da entrevista. O que o senhor mais gosta em Itaquera, nesses 19 anos?

 

R – Do povo, do povo, das crianças. A cara desse padre tem cara de povo porque ele é povo, ele é... E eu me considero também um cidadão de Itaquera. Eu sou um membro da comunidade Itaquerense. Não me coloco fora, acima dos outros devido à liderança que eu tenho. Pelo contrário, sofro, choro, partilho, divido, reparto, certo? Compareço, abençoou, critico, brigo, certo? Me comunico. Onde tem uma necessidade eu estou presente ali. Então, a minha grande riqueza é a população, esse mundo que se move, que vai à luta, que acredita em Deus, que acha que aqui é um bairro de gente também. Não é porque não somos do Morumbi, nem “Moruncri”, nem somos Jardins, que aqui não tem não. A população de São Paulo está na região Leste, a densidade demográfica. E é pena que o político só vem buscar voto aqui. Só vem buscar voto aqui, encher de problemas a vida da gente. Então, o que é que nós temos que criar aqui na região Leste? Um polo industrial, para o povo não se desesperar toda a manhã para sair para buscar emprego no outro lado da cidade. Temos que humanizar essa cidade. Então, fazer um comércio bem desenvolvido, nós temos que desenvolver esse polo industrial, trazer a indústria aqui no Parque do Carmo, tem área para isso. Então, essas coisas que são o lado problemático também, o lado de sofrimento do povo. A minha identidade é com o povo. É com a massa, é com nordestino, é com mineiro, que aqui tem muito mineiro, muito nordestino, tem muito... Paranaense também, tem bastante. Aqui um pouco na nossa vizinhança também tem bastante gente do Paraná que veio para cá, imigrou devido às Cohabs, devido à família, que veio depois, que traz o parente, vem o outro, vem o outro, vem o outro. Eu me ligo muito com essa causa, com essa militância.

 

P/2 – O senhor é um cidadão de Itaquera.

 

R – Eu não gosto desse outro lado, penso outra coisa. A minha crítica é isso: que o político aqui, devido um pouco à grande massa populacional, devido um pouco ainda àquela história do político que trouxe um benefício, construiu um viaduto, que asfaltou a minha rua, que esse cidadão, ainda não devidamente lustrado, ele acha que por isso ele tem que votar eternamente naquele cidadão. Ele não tem ainda uma consciência maior, que é devido a esse clientelismo, esse coronelismo que ainda existe em São Paulo. É que esta cidade, ela não se desenvolve mais, ela não resolve os seus problemas de saúde, moradia, educação, juventude, criança, abandono. São todas essas carências que movem toda essa população. Então esse é meu grito. Se eu posso dar um grito, eu digo: “Itaquera tem gente? Tem, sim senhor. Tem criança mais do que todas as outras regiões da cidade. Então, que esses políticos que entraram agora no poder, no Governo, que não venham só cobrar passagem aqui, que ele aplique alguma coisa aqui na nossa região. Socialmente, eu quero saber o que esse metrô faz. Só transporta gente? Como estatal, eu quero saber o que esses caras... O dinheiro que arrecada para onde vai? Só para pagar funcionário, para manter convênios de primeiro mundo para os seus funcionários, porque tem um sindicato forte? E a grande população, que usa esse veículo de locomoção, que benefício tem, socialmente? Eu quero discutir isso aí com eles. E esse povo está ó, se escapando da minha figura. Na época, corriam aqui todos os dias, aqui à minha porta, nas inaugurações, para que eu acompanhasse o Governador. Quero saber agora, quero ver agora. Estou esperando, senão eu vou ter que procurá-los de volta. São todos meus amigos, gente boa, ilustrada, iluminados, mas eu quero que eles deixem esse lado, que foram um tempo, necessariamente, políticos, e que agora, de comum acordo, nós construamos e coloquemos algo que beneficie a classe juvenil, infantil e pequenina dessa nossa região de Itaquera.

 

P/2 – Como é que o senhor, assim, pensa em Itaquera daqui há uns 30 anos? Quais os projetos para o bairro?

 

R – Olha, o que eu estou pleiteando para Itaquera? Sabe que eu sou... Somos artífices também do mutirão mais bem sucedido do Estado, segundo dizem aí os próprios cálculos do Estado. Nós temos um mutirão que estamos construindo moradias. Então, o que é que eu desejo para Itaquera? Uma qualidade de vida melhor, uma vida melhor. Então, o que é que tem que vir para Itaquera? Um centro comercial forte, uma área industrial forte. Itaquera tem que ter entrepostos de venda de mercadorias, que não sejam apenas shoppings, nem sejam supermercados que vendem qualidade, que vendem marca. Eu preciso saber se essa marca tem a qualidade que a população precisa. Então, nós temos Carrefour, nós temos aqui, estão vindo atacadões, estão vindo outros entrepostos. Eu quero que venha para cá um mercado que seja... revenda a preço quase com se viesse lá da roça, lá do campo, com qualidade, como outros bairros têm seus entrepostos. Não adianta ver só lá na área da Lapa o entreposto... Como é que chama lá?

 

P/1 – Ceasa.

 

R – Ceasa. Tem que vir Ceasa para cá, porque aqui que está a população. Não é verdade?

 

P/1 – O senhor tem ideia de qual é a população aqui de Itaquera?

 

R – Olha, de Itaquera fala-se em um milhão e duzentos mil moradores. O bairro. Não sei, é uma estatística que nós temos. Outros dizem que não, que é menos de um milhão, seria uns oitocentos mil. Agora, a Grande Leste tem quatro milhões e quinhentos. Da Penha para cá, todo esse fundão, de São Miguel, Itaim, Guaianases, Cohabs, e tal, Itaquera, que seria a Diocese nossa, nós temos aí quatro milhões e quinhentos de população. Vai ver é um pouco assim... acho que pouco assim, oscilante, esse dado, talvez.

 

P/2 – Tem festas aqui no bairro, festas religiosas?

 

R – Quem promove as festas é o padre que vos fala.

 

P/1 – Que festas?

 

R – Festa de Itaquera. Tem que ter o padre para ajudar a promover a festa.

 

P/1 – Que festa é essa?

 

R – A festa do bairro. Eu tenho escola de samba também.

 

P/1 – Como é que chama?

 

R – Escola Grêmio Esportivo Recreativo Cultural Escola de Samba Dom Bosco. Então, os eventos de porte aqui do bairro, a Dom Bosco promove. Festa das Nações, Festa dos Padroeiros. Domingo mesmo eu vou fazer a Carreata do Milênio. Aqui, no domingo.

 

P/1 – Domingo? Como é que é?

 

R – Carreata da Santa, da Nossa Senhora de Aparecida, que é a titular da minha paróquia. Nós fazemos o evento grande da carreata. Então, o povo sabe, a entidade que junta a população é a Dom Bosco. Eu desfilo na minha Maratona Cultural na grande Avenida Jacu Pêssego. É a única entidade que vai para uma avenida para levar a população, que leva a população, que atrai a população, que tem uma resposta pronta das famílias cujos filhos são atendidos aqui na Obra. É esta casa, a Dom Bosco. Esta Obra Social. Então nos festejos, nos momentos de comemoração da comunidade, esta Obra tem uma presença importante. É claro que articulando com os outros grupos, as outras associações; tem o comércio, tem a indústria, tem aqui... Temos a Associação de Bairro, tem a própria regional, a Administração Regional. Então a gente tem sempre chamado é para essas... Para compor esse tipo de eventos.

 

P/1 – Qual é o seu cargo aqui?

 

R – Sou administrador hoje. Fundador, administrador, vice-diretor, tem um outro padre que seria o diretor. Mas a referência aqui do bairro é a minha figura.

 

P/1 – E a região, a classe dirigente aqui, quantos são? Os dirigentes?

 

R – Nós somos hoje aqui... A comunidade... Então, temos paróquias... a COHAB também tem uma paróquia, Padre João. Então, somos quatro padres, dois irmãos e três religiosos.

 

P/1 -  Em Itaquera, não saindo do bairro, quantos equipamentos vocês têm?

 

R – Então, no bairro temos 20, 30... Não, 20, 21, 22... Nós temos 27, 28, 29, 30, 35...

 

P/2 – Tipo casas?

 

R – É.

 

P/2 – De atendimento?

 

R – Núcleo de atendimento. 35... Agora vem 36, 37... 37...

 

P/2 – Contando as da COHAB ou...

 

R – É... Tirando aí tem uns quarenta. Que nós temos Guaianases; temos uma casa de órfãos. Penha, temos duas casas de órfãos também. Esses eu estou colocando fora. Então, ali, beirando os quarenta.

 

P/1 – E tudo começou a partir de...

 

R – Chegaram aqui em... No dia 31 de maio de 1981. Cheguei aqui quando o Bispo me deu a posse da capelinha. Ali eu comecei o trabalho.

 

P/2 – Então, a gente faz uma pergunta, sempre, que é assim: qual é o seu grande sonho, Rosalvino?

 

R – Meu sonho? É o sonho de todo sonhador. Uma sociedade irmã, um povo alegre, um povo que seja feliz, onde essa violência, que está matando jovens, que está matando crianças, que está matando pai de família, desaparecesse por completo. Seria hoje um pouco a minha militância. Inclusive, dia 11 nós vamos fazer uma grande caminhada pela paz aqui. Nós vamos caminhar de dia, tentando criar um pouco de impacto nos meios comerciais, industriais, e a própria imprensa, no sentido de inquietar a coletividade para a violência que hoje se vive aqui no bairro. Então, eu não tenho... porque os sonhos que eu tinha são realidade; escola profissionalizante, era sonho; abrigos, centros culturais, realidade; posto, realidade; tenho também trabalho com drogado fora de São Paulo, realidade. Que mais eu poderia ter como obra? Então, diria, não tenho mais obra para fazer. A minha obra que existe é um desafio que eu tenho. Meu sonho mesmo é esse. Eu não posso ser um padre, um homem, um líder aqui do bairro, que o povo só vem na minha porta para chorar, para reclamar, meu Deus do céu. Para pedir ajuda, para pedir socorro. “Tire o meu filho da cadeia”, que eu transfira ele que está ameaçado de morte da cadeia tal para a cadeia tal. Que não cabe ao padre fazer isso aí, porque nem eu tenho isso aí... Não tenho esse tipo de ação, que todo mundo apoia a iniciativa que eu tomar. Correto? Mas não caberia a mim isso. Então, se a violência, como dizia, se a habitação, se a educação, se a saúde, se todas essas necessidades básicas de um povo, elas forem satisfeitas... O sonho, que eu digo, que o céu venha para a terra, que a terra vá para o céu, como diz no sentido de um povo feliz, alegre, rezador, cantador. Esse é o meu sonho hoje. Meu sonho é esse. Até que o padre também possa dançar junto com o povo na praça.

 

P/2 – Como é que é a sua vida hoje? Onde é que o senhor mora, com quem?

 

R – Eu moro na minha comunidade, não na comunidade dos outros. Mas eu tenho um localzinho que ainda é onde eu fundei a Obra, que eu sempre habitei, onde cabe... Um lugar muito humilde, um quartinho, todo mundo questiona, até uma rede de televisão, descobriram e começaram a questionar... E o povo veio em cima do padre, e os méritos que o ... Aquela coisa do homem simples. Eu gosto de simplicidade. Não gosto de viver... Eu frequento palácios sim, sou convidado para ir a casa do Governador, para dar a benção no gabinete do Governador, para almoçar com o presidente da Itália, com as autoridades que vieram aqui, me levam, me pedem que compareça, às vezes não compareço. Sou Empresário do Ano da cidade, que é o título da brigada militar, cidadão de São Paulo... tenho não sei quantos méritos aqui. O homem da paz aqui até me trouxe também uma coisa da paz mundial, esteve aqui para conversar comigo; olha aqui oh, uma personagem da comunidade de Itaquera mais comemorada. Nem sei, outras coisas que eu não sei onde estão mais. São agrados, são reconhecimentos. O meu sonho é esse, que o povo viva feliz, que a criança não morra na minha praça, que ela não use droga, e que a família se fortaleça de novo, e que o povo viva feliz. E que eu, consequentemente, eu vendo a felicidade do meu povo, da nossa gente de Itaquera, eu também possa não ser um apagador de fogo. Fico apagando fogo, fogo, fogo, fogo. Você viu aquele caso que estava vindo aqui aquela hora; pularam a casa do homem em Guaianases. Que ele estava ameaçando as educadoras lá, usando de uma pressão, mandando cartas e cartas, que vai pular, que vai invadir, que vai acontecer. Fui lá ver, “quem é você, heim, o cidadão? Quem é você, por que essa neurose? Você é psicopata, é doente ou vou mandar te pegar? Só que se mandar te pegar, meu filho, você vai ter que responder para a polícia.” Então eu evito levar a força que eu tenho, até por isso mesmo. Porque eu posso mandar na hora alguém lá. Eu vou primeiro. Não diz a Bíblia: “Se teu irmão errar, vai e fala com ele. Se teu irmão continuar errando, chama mais alguém e vai conversar com ele. Se teu irmão continuar errando, vai o sacerdote e tenta que ele mude. Se ele não ouvir, chama a polícia, vai ao juiz”. Não diz a Bíblia? Conhece essa passagem da Bíblia? Então, a gente procura trazer no hoje da história da comunidade aquilo que a gente tem e traz como herança, como experiência de vida, embora eu seja formado por várias universidades, por várias faculdades, e tenho Sociologia, Psicologia, Pedagogia, até Geografia eu fiz na minha vida, História, e Pedagogia completa, todos os títulos, mas isso para mim hoje está tudo guardado, arquivado. O meu livro hoje é a realidade do povo e o sofrimento do povo. Ali é que eu vou me fortalecendo espiritualmente e vou também criando as minhas ações para eu poder, então, levar a cabo esse meu sonho que não está fácil realizá-lo agora, porque agora você está lidando com algo que interessa para alguns. Interessa para alguns economicamente. E que ainda a população não acordou, às causas que ocasionam essa violência. E aí, então, até o povo acordar para tudo isso... Então, aí, muitas eleições, que já passamos as primeiras para Prefeitos e Vereadores, mudará a próxima que virá, e o povo cobrando. Esse povo que tem que dirigir, administrar, e não endossar, e não corromper. Então, há uma cultura também. O próprio povo, ele é corrupto, nesse sentido.

 

P/1 – Padre, sua entrevista foi maravilhosa. A gente te agradece muito. Tem mais alguma coisa?

 

P/2 – O senhor quer falar mais alguma coisa?

 

R – Nada. É saudades, felicidades, e parabéns, e bênçãos e, por favor, que usem essa minha palavra para o bem, senão não autorizo a vocês usarem isso. Certo? Senão, vocês vão ter que me deixar os dados de vocês aqui. Tem cartão? A carta?

 

P/2 – Está aqui a carta.

 

R – Eu já devia ter a carta primeiro. Está vendo, eu me arrisquei...

 

P/2 – Então, muito obrigada, viu?

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