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História

A Noviça Rebelde

História de: Irmã Maria Luiza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/08/2003

Sinopse

“Vim de muito longe, de 1930, em Fortaleza, a cidade onde o Sol brilha mais.” De Fortaleza para São Paulo e para o mundo, Irmã Maria Luiza rememora suas lutas, pois “lembrar é um tipo de reencontro”. E é através do reencontro com sua trajetória de vida “cheia de sobras e luzes” – como descreve a história da Cidade dos Velhinhos – que pauta sua narrativa de noviça rebelde e quebradora de tabus. Por meio da fé e da dedicação nas conquistas políticas, a Irmã conquistou direitos para os idosos, antecessores que construíram a cidade, a história.

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História completa

P/1 – Para começar a entrevista, por favor, diga seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Irmã Maria Luiza Nogueira, de religiosa, porque meu nome de batismo é Maria Leda Nogueira, e toda a Itaquera me conhece por Irmã Maria Luiza Nogueira, meu nome de religiosa. Nasci numa data muito maravilhosa, que é dez de outubro, está pertinho, a data da maior festa da China, que é a Festa do Sol. Vim de muito longe, de 1930, em Fortaleza, a cidade onde o Sol brilha mais.

 

P/1 – E por que a senhora escolheu Maria Luiza?

 

R – O nome da minha fundadora é Luiza, Santa Luísa de Marillac, e minha mãe é Luiza, tem muita história de Luiza. Naquela época, anos atrás, nós mudávamos de nome, não ficávamos com o nome de batismo. Assim como Jesus chamou Pedro e disse “Pedro, tu és pedra, e em tua pedra edificarei minha Igreja”... Então a Ordem escolheu Maria Luiza. E eu gosto muito, estou muito feliz com esse nome, e com o outro também, mas o outro não é conhecido.

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais e a atividade deles?

 

R – Meu pai é Aluísio da Costa Nogueira, e minha mãe é Luiza Bessa Nogueira . Meu pai tinha armazéns de importação, como vinho do Porto, bacalhau do Porto, tinha a ver com o Porto e tudo o que tinha a ver com importados, secos e molhados, lá em Fortaleza.

 

P/1 – Qual a origem dos seus avós?

 

R – Era Portugal. Os paternos, já falecidos: da Costa Nogueira e (Donda?) Sacramento da Costa Nogueira. Aliás, não conheci meus avós, eles faleceram cedo. E (Donda?)  Sacramento faleceu de parto, muito nova, com 30 e poucos anos.

 

P – E os avós maternos?

 

R – Minha avó materna... Convivi com ela. Meu avô materno morreu jovem, era Miguel... Não, Miguel é do meu pai. Miguel... E Otávio Ribeiro Bessa era da minha mãe, pai da minha mãe. Dona Francisca da Costa Bessa era mãe da minha mãe. Aliás, a família toda era portuguesa, mas nasceram todos lá em Fortaleza, em Aquiraz.

 

P – E como era a sua casa de infância?

 

R – Olha, era uma casa grande. Nós tínhamos diversas casas, mas tínhamos uma casa na praia lá em Morro Branco, lá em Beberibe, tem diversas famílias lá. Nossa, a casa era muito grande, me lembro que eu gostava, um quintal imenso, a gente brincava muito com os vizinhos, uma casa de uma família, minha família me deu muito conforto, graças a Deus. Depois eu fui estudar no Colégio Imaculada Conceição, e depois fui para o Rio [de Janeiro] fazer meus estudos, e ainda não tinha 18 anos quando entrei no convento, por vocação.

 

P/ - E esse Colégio Imaculada?

 

R – É um dos maiores colégios que tem da Ordem das religiosas da minha Ordem. São Vicente de Paulo, de Marilac...

 

P/1 – Com quantos anos entrou lá?

 

R – Não, no Colégio não entrei, no colégio foi estudar, fazer meus primeiros anos, ginásio e tudo, depois é que eu senti minha vocação, o meu chamado, bem forte. Meu pai, como era muito religioso, muito caridoso, não fez objeção nenhuma para eu entrar. Minha mãe, sim. Minha mãe, de família religiosa, mas muito orgulhosa, achava que freira... Sem conhecer, assim, a Ordem, achava que ia ser empregada, que ia ser um monte de coisa aí que não é verdade.

 

P/2 – E como a senhora descobriu a sua vocação?

 

R – Bom, interessante, muito interessante. Na minha primeira comunhão eu tinha uns nove anos, eu fiz a comunhão com a outra minha irmã que é muito religiosa, ela mora em Brasília, divide o tempo dela entre Brasília e Itália, que ela tem uma filha que mora na Itália e tem saudade dos netos (risos). E eu descobri o chamado. Na verdade a vocação é um mistério, um chamado muito forte. E eu senti que ia seguir carreira religiosa, que Jesus estava bem dentro de mim, e como o meu pai era muito, muito religioso... Minha mãe também, mas meu pai tinha assim, uma prática de caridade no dia a dia dele. Ele socorria muito pobre em Fortaleza, ajudou a fazer uma vila para os pobres, e eu acompanhava o meu pai, então acho que veio daí. E como o colégio que eu estudei era da minha Ordem, da Ordem que eu entrei, São Vicente de Paulo... Eu já tinha uma tia lá, e a gente vai criando amizade, assim. Mas eu também tinha minha vida social, fui uma menina muito viva. Minha mãe dizia... Éramos cinco irmãs, e ela dizia: você é a mais bonita, você nasceu bonita. E de forma que eu tinha muitos namorados. Brincava muito, nós nascemos na orla marítima. Lá em Fortaleza tem um lugar muito bonito, a Praia de Iracema, do Futuro, era ali que eu vivia, alegre e feliz. E aí? Mas é preciso ter coragem. Eu senti muita saudade de casa, a gente é muito mimado, né. Depois a minha mãe achava que ia se separar de mim, mas depois duas irmãs se separaram dela, duas se casaram, uma foi morar Espanha, outra foi morar na Itália. Vocês são casadas? Então, os filhos de vocês não são de vocês, vocês têm que formar bem para que eles sejam um produto bom na sociedade, de transformação.

 

P/1 – Quantos filhos eram na sua casa?

 

R – Oito, comigo: cinco mulheres e três homens.

 

P/1 – E como era o ambiente familiar?

 

R – Muito bom. Estudava, brincava e, claro, minha mãe tinha irmãs, e tinha tia solteirona. Eu gostava de ir na casa dela porque a gente ficava muito mimada lá, e família grande assim é muito bom, muito animado, muito. Hoje, quando eu vou ao Rio – vou visitar as minhas duas irmãs que moram no Rio – e a gente começa a conversar sobre a infância da gente, das coisas da gente, então... Eu fui ser Irmã muito novinha, então ninguém queria, era aquela choradeira.  Hoje a família está muito diferente, a mãe está muito frágil. Meu pai era um homem muito firme, muito carinhoso também com gente, mas nunca vi minha mãe dar um beijo no meu pai, ou dar um beijo em mim ou nos meus irmãos. Mas ela tinha aquele amor possessivo, ela tinha ciúmes da gente. Sabe o que é amor possessivo? Ela tinha, e era muito difícil.  E ela tinha muito ciúme do meu pai. Meu pai era um homem muito procurado (risos), mas ele me dizia o seguinte: “eu não me separei por amor aos filhos”. Mas ela gostava, amava meu pai, está certo? (risos)

 

P/2 – E tinha festas?

 

R – Engraçado, na minha casa mesmo se fazia muita festa, bailes, na família. Festas dançantes, porque tínhamos muitos amigos, era muito aberto, então dançava lá em casa, a gente ia dançar na casa dos vizinhos, tinha muito isso, era muito bom. E tinha o colégio. Como o colégio era perto, a gente convivia muito com as Irmãs, que eram da minha Ordem. E tinha muito jogos, quadros grandes, colégio de meninas, classe média, e nós tivemos convivência com o Colégio Militar, todo mundo queria: “Ah, eu quero casar com um militar, com farda, e tal”. E em colégios cearenses também. A gente tinha muita convivência com os meninos, sabe, era bom. Não era misto, não, mas tinha grandes festas, paradas, sabe? Festa da juventude... E a gente morria de vontade de se encontrar com os meninos, nem que fosse a parada de sucesso (risos). E lá nesse colégio onde passei minha vida estudando, tinha as meninas internas, e elas vinham contar as agruras pra gente, porque elas queriam comer coisa melhor, e a gente levava pra elas, fazia tudo por baixo do pano. Tinha meninas que namoravam, eu tinha que levar os bilhetinhos pros namorados (risos), meninas que os pais tinham muito rigor com elas. Mas eu tinha uma vida de piedade muito bonita. Na época que eu fui pro convento muitas delas foram, muitas delas, algumas ficaram, outras não, porque tem que ter vocação, convento não é brincadeira, como o casamento. As coisas do cotidiano... Nós também temos as nossas crises, quem que não tem? A crise é sinal de que você está vivo (risos). Eu, por exemplo, que sou muito expansiva, eles me chamavam de noviça rebelde (risos), me chamavam assim lá no convento. Ih, você nem queira saber. Tudo era novidade pra gente, e lá no colégio as Irmãs... Muitas daquelas Irmãs professoras eram francesas, outras portuguesas, e eu gostava imensamente, porque nós fazíamos muita festa, e a dramatização estava em primeiro lugar. O colégio ia também pra lá, o Colégio Cearense, as meninas compravam bilhetes pra entrar com a gente, Rainha da Primavera, essas coisas todas. Mas que era bom, era. Serenata, os meninos faziam serenata pra gente. Era uma coisa diferente que vocês nem imaginam. Eu ponho essa coisinha aqui pra ficar diferente das outras freiras (risos). Eu gostava que a minha mãe mandasse fazer as roupas pra gente, bonitas, a gente gostava de ser notada (risos). Era assim.

 

P/1– E quando saiu de Fortaleza a senhora foi pra onde e em que ano?

 

R – Eu já não falei pra você que eu entrei com 17 anos? Você já fez as contas, 40, por aí, né, 47. Em 46 eu já tinha 17 anos, fui fazer o noviciado no Rio de Janeiro. Você conhece o Rio, né? Nós temos um monte de colégios lá. Tem o Colégio da Imaculada Conceição, e a nossa província que fica na Tijuca, um lugar lindo. Tem aquelas palmeiras imperiais... Eu cheguei lá bem novinha, então ali, naquela época, tinha muita noviça. Eles achavam que eu, a Leda, era a noviça rebelde, não é? Um dia a diretora me chamou e disse: Não, você está fazendo muita desordem aqui, você fica rindo, eu vou mandar você ir embora. Eu disse: “bom, se mandar embora tem que ser de avião, porque meu pai pagou a passagem de avião” (risos). Até hoje eu sou assim, muito comunicativa, você tem que se comunicar, tem que viver. Eu gosto muito da minha vocação, eu gosto. Tem as suas horas de, como eu falei, que a gente desanima. Eu brinco muito quando eu peço uma coisa para Jesus e ele não quer me dar, eu digo: “Olha, vou tratar do meu divórcio, porque não pode ser”. Quando foi pra Cidade dos Velhinhos, eu era bem jovem, eu queria porque queria fazer a Cidade dos Velhinhos. Trabalho, serviço social, reforma de asilos, modificar. Teria que fazer coisa nova, porque se você fosse no Lar dos Velhinhos você ia ver, você via que os asilos já têm diversos anos, mas são novos. E falei: Jesus, se você não arranjar o terreno, vou me desquitar. Depois arrumou o terreno, e quando eu estava naquela fogueira danada de problema de arranjar meios para continuar a obra, eu dizia: “Ah, eu não estou aguentando. Quem mandou você pedir, né?” (risos). Engraçado que eu sempre brinco muito com as Irmãs... Mas as minhas amigas, quando eu vou assim pra Fortaleza, que eu vou visitar umas que são casadas, que já são mulher de políticos, avós, bisavós, perguntam: como é a vida religiosa? A vida religiosa é o cotidiano, né... A minha sogra é muito boa, que é a mãe de Jesus, Maria. E eu tenho um irmão que é o caçula lá de casa, minha mãe o teve com 40 e poucos anos. Ele é uma pessoa muito alegre, tem uma clínica maravilhosa, é cirurgião dentista e também é professor da universidade. Então eu morro de rir com ele e ele comigo, viu. Eu fui fazer um tratamento com ele, mas doía tanto, a anestesia não pegava. E eu não acreditava que ele era aquele homem ali, aquele cirurgião, porque eu o vi pequenininho. É gozado, né? (risos). A gente tem saudade de casa... Hoje a gente pode visitar a família de dois em dois anos, antigamente não podia visitar, hoje nós podemos ficar um pouco em casa. Antigamente não ficava, a gente não podia comer na frente dos estranhos, hoje tudo mudou muito.

 

P/2 – Quando a senhora foi pro convento, o que mais estranhou?

 

R – Não ir à praia. Eu sou fruto do mar (risos). E a praia é uma maravilha, principalmente na minha terra (risos). O mais duro foi isso mesmo, foi essa... Também a gente tinha que escrever pra família, na Quaresma escrevia, e a nossa correspondência passava tudo pela censura. Hoje não. Mas a gente tinha uma força, eu tinha colegas lá também da minha idade, mais nova não podia. Eu sei que era gostoso. Gostava muito de estudar, tinha loucura pra estudar e tinha muito tempo pra estudar.

 

P/2 – O que vocês estudavam?

 

R – Francês – porque a Ordem é francesa –, e em francês eu sempre apanhei. A minha tia que é da minha Ordem estudou em Paris, Sorbonne, e tal. Ela me dava aula de francês, mas eu vadiava demais, sabe? (risos). Hoje é o inglês, mas o francês... Às vezes vem uma professora aqui no SESC dar aula, que é francesa, e às vezes me chamam. Eu digo: “Não, o meu francês está em baixa”. Mas tudo bem. Eu gostava muito de São Vicente. Eu, quando cheguei à França na primeira vez – que depois estudei mais dois anos –, eu sabia conviver com a França, porque estudei em colégio de freiras e a maioria delas era francesa, contavam muita história. Quando cheguei lá já tinha aprendido, parecia que tinha nascido lá. E hoje eu gostaria de trabalhar lá. Gostaria, porque tem uma colônia portuguesa muito grande.(risos) Mas eu estou aqui, meu país também tem muita coisa.  Eu tenho uma prima que está no Carmelo, muitos anos, aquelas que não saem. Ela é muito bonita. Agora, minha Ordem tem uma coisa, eu nunca fui por esse lado, São Vicente eu acho que não acreditava muito na sensualidade, sei lá, da mulher. A nossa Ordem é a única que renova os votos. Todo o ano, no dia 25 de março, nós renovamos nossos votos. Se quiser ir embora, vai. É engraçado, né? Quando você começa a ler, o primeiro livro que eu li foi São Francisco. Ele e Santa Clara, eles eram ricos, deixaram tudo para viver naquela santa pobreza. Porque quando a gente é bem jovem, a gente faz loucuras. A Cidade dos Velhinhos, eu jamais ia fazer outra Cidade dos Velhinhos. Agora, freira, antigamente, quando a gente ia, a Irmã dizia: Vocês têm voto de pobreza, obediência, castidade e serviço dos pobres. E tinha uma irmã que ela sempre dizia... Ela era muito assim, burra. Ela dizia... Quando ela mandava a gente fazer uma coisa, eu dizia: “olha, Irmã, eu queria saber por que...”. “Não tem nada de por que, ‘o por que’ ficou na sua casa”. Então era assim que nós tínhamos que ter uma obediência cega. Hoje nós temos que obedecer, mas sabendo o que é que vamos obedecer. Agora, a gente vai crescendo, a gente vai... Sei lá, todos nós temos o direito de ser feliz, nós nascemos para sermos felizes. Também no convento eu nasci para ser feliz. Não vá dizer você que... Porque conviver com mulher você sabe como é que é. Cada uma tem um gênio, cada uma vem de uma família, de um berço. Eu tive a felicidade de não conhecer pobreza, depois eu tinha vontade de viver uma pobreza muito intensa, procurei viver e vivi, no convento. Hoje eu não posso trabalhar sem carro. Eu tenho o meu carro com o meu motorista, moro no Sumaré, num bairro bom e tenho outras formas de pobreza. Hoje eu divido as coisas que eu tenho com os outros. Bens de família, quando eu recebo alguma coisa eu divido com os outros, e não posso ver um funcionário meu que não esteja bem de saúde. Porque a associação tem que pagar bem, porque mais tarde o que ele vai ser? Um velho asilado. O casamento também tem seus sacrifícios grandes, não tem?  Eu tenho quatro irmãs casadas, uma viúva, a última que casou ficou viúva, mora na Espanha, também chama-se Maria Luiza. Mas eu não nasci pra casar, eu gosto de criar, mudar. Você vai lá em Cotia, passei o fim de semana lá. Me disseram “você já mudou muitas coisas”,  mas eu não posso mudar a cabeça dos velhos, então eu mudo as coisas. Aqui no escritório, qualquer hora que você vem aqui já está mudando. E gostei de vir pro escritório, porque ia conhecer duas meninas, então a gente gosta de uma amizade nova, um diálogo novo. Eu tenho muitos amigos mais jovens que vocês, talvez, e muitos amigos mais velhos do que eu. Agora, me dou mais com jovens. Acho que batem mais com o meu espírito. O doutor José, você viu? Ele é o nosso coordenador da feira, é dentista, ele vem sempre aqui. A minha secretária é a Sandra, que começou a trabalhar comigo com 18 anos. Eu digo que ela não tem patroa, ela tem uma vovó. Mas eu gosto, às vezes eu faço palestras pra estudantes, eu me dou muito com eles, porque eu tenho um espírito jovem. Porque, como disse Simone de Beauvoir, francesa, velhice é uma realidade incômoda, e vocês vão ficar velhas também. Então nós começamos a Cidade dos Velhinhos, aquilo era tudo mato, não tinha água, não tinha luz, ali não tinha estrutura. Depois é que eu caí na real, e eu ficava sempre na fazenda do Lino, que hoje tem uma Casa de Cultura lá, Raul Seixas, uma coisa assim. Eu ficava ai porque ele não ia lá. Ele é muito rico, dizia: “Você pode pegar tudo”. Mas eu recolhia muito, fins de semana, meninas que estavam fazendo serviço social, outras psicologia, e elas ficavam comigo lá, porque elas tem que preparar o trabalho, e a gente ficava conversando até às três, quatro horas da manhã. Faziam bolo, fazia tudo, e elas gostavam de conversar comigo, e naquela conversa que a gente ia falando tudo que é realidade na vida.

 

P1- Como é que a senhora foi até Itaquera e por que nesse momento a senhora estava nesse bairro?

 

R – Bom, nós tivemos... Em 1960 foi o tricentenário da morte de São Vicente e de Santa Luiza. E Salvador foi o berço de um Congresso Nacional das Marillac, e eu era presidente das Marillac aqui em São Paulo. Marillac são jovens, são senhoras que são leigas, e nós preparamos a equipe de São Paulo, que preparou uma tese para apresentar lá, e era a reforma de asilos, aspectos negativos da velhice no Brasil. A gente, visitando esses asilos... Porque toda a vida eu tive... Assim, acho que eu devia ter seguido um caminho de religiosa pesquisadora, gosto muito de pesquisar. E esses asilos que a gente visitava eram muito arcaicos – ainda tem asilo arcaico –, e eu gostaria de fazer uma coisa nova. Quando nós apresentamos o nosso trabalho lá em Salvador, eu era tão esperta que... O governador de São Paulo era o Carvalho Pinto, e eu consegui um avião pra levar o pessoal de graça, da Vasp. Só milagre. Milagre! E o Juracy Magalhães nos deu hospedagem, deu tudo lá. E lá a nossa tese não foi aceita.

 

P – Por quê?

 

R – Porque era uma tese subversiva. E era mesmo. Tudo o que a gente fazia para mudar era subversivo. Eu achava que no Brasil, se tem asilo no Brasil, tem pobre, tem tudo, principalmente o velho, é um sintoma de que o Brasil está doente. Mas pra falar isso naquela época, minha filha!  E por quê? Porque os patrões não pagavam bons salários, os idosos não ganhavam, acho que trabalhavam por um prato de comida, sei lá o que era, e a gente começou a defender esse direito deles. Porque a família tem direito, esse Lar dos Velhinhos ia ser para pobre, mas está errado, tem que modificar. Nós queríamos uma cidade de velhinhos que podia aceitar o idoso com sua... Por exemplo, casal: antigamente o homem ia para um lugar, e a velhinha para outro. Por que separar um casal de velhinhos que toda a vida brigaram e agora estavam já pra morrer, estavam contentes? (risos) Por que que vai separar isso? (risos). E também que a Cidade dos Velhinhos fosse uma cidade ecumênica, aí que está a história! Você sabe que protestante e católico era gato e cachorro.

 

P/1 – Como começou a sua preocupação com o idoso?

 

R – Desde novinha. Eu não conheci meus avós, morreram cedo. Mas quando eu ia para o colégio, da minha casa no colégio era como daqui a Santa Cecília, né, ali, a igreja. Eu levava meus lanches e dava para aqueles velhinhos pobres. Eu tinha muita pena do velhinho, porque eu achava que ele era muito desprezado aqui, muito pisado. Até hoje eu tenho. Eu vou lá a Cotia agora, a turma fica triste, “mamãe vai sair, não fica mais com a gente...”, Itaquera também, quando eu vou é um alvoroço, porque o pessoal vem conversar comigo, eu converso com eles... Você viu lá né, é bonito lá. Então foi uma vocação, um carisma, não tem jeito que eu tenha carisma pra trabalhar, digamos, com o pessoal que tem AIDS. Eu vim pra trabalhar com os idosos. E hoje, com a Pastoral da Terceira Idade, chegou àquele objetivo que nós queremos, que asilo não é lugar de velho, que o idoso tem que conviver com a sua família, ou o Estado tem que prover alguma coisa que está na Constituição. Tem os direitos. Mas a sociedade civil sempre se preocupou com o idoso. Os grandes... Os empresários, tudo isso, a gente prega muito pra eles, isso. Hoje eu faço um trabalho... Eu vou dar o meu livro pra você, o segundo livro da gente que a gente tem feito aí com a equipe que trabalha comigo. Então eu ainda sou do Conselho Estadual do Idoso hoje, mas eu sou muito firme. Quando eu estava na Áustria, fui entrevistada pela Globo, e eles me fizeram uma pergunta. Eu digo: Por que é que no Brasil... Os Estados Unidos mandou acho que três aviões naquele Congresso Mundial do Envelhecimento. Nem que eles não pudessem falar, porque eles tinham os embaixadores que falavam, eu me dava muito com o embaixador... Pelo amor de Deus, porque a mulher dele foi uma do nosso colégio. Sempre Deus me abre uma porta. Sempre a gente conversava muito, ali, nos corredores, e na hora do chá, tudo, e o jornalista. Eu entrava sempre na sala dos jornalistas. E eles: Irmã Luiza, vem dar uma entrevista. “Por que o Brasil está tão atrasado?” Porque os projetos do Brasil, o projeto do Menor, do Idoso, são todos feitos em gabinete, e não funcionam, vêm de cima pra baixo. Era o meu slogan, você sabe que é um slogan. Bem, então saiu nos jornais daqui. Saiu no Jornal Nacional, ih... Quando eu cheguei aqui tinha uma irmãzinha da Cidade dos Velhinhos, bem velhinha: “Ih, eu fiquei rezando pra você não ir presa no aeroporto!” Aí tinha uma assistente social que não estava oficialmente no Congresso. Ela me pegou e disse: Você cuspiu no prato que você recebeu. Eu falei: Eu não recebi prato nenhum. O Reinaldo de Barros, que era prefeito de São Paulo, me convidou, porque eu era a única que ele conhecia. Eu estou fazendo um favor. Mas eu fui prática. Outro dia o Mário Covas – agora ele é muito meu amigo –, ele foi na Cidade dos Velhinhos, na feira, me convidou pra eu ir lá pra uma Mesa Redonda só de mestrados pra fazer uns projetos lá pra Terceira Idade, e ele deve pagar bem. Pra mim, pagamento é gasolina no carro, falo isso pra ele. E eu dei minhas experiências lá. Disse pra eles: “vocês fazem projeto de gabinete, vocês nunca pegaram na massa, nos pobres que estão sofrendo debaixo das pontes.” Nunca mais me convidou.

 

P/1 – Por que Itaquera pra fundar a Cidade dos Velhinhos?

 

R – Itaquera porque naquela época eu estava fazendo pesquisa, e eu estava procurando quem doasse. Porque quem que ia doar? Primeira coisa: o sonho de uma Irmã, noviça rebelde, voadora, sei lá o que era... Mas justamente, veio de um amigo jornalista do Correio Paulistano, Alcides Rossi, ele já está aposentado. Eu sempre falava pra ele que queria fazer a Cidade dos Velhinhos, eu ia a todos os jornais, e ele me disse: “Por que você não procura a família Morganti? Eles são muito caridosos, já tem diversos asilos.” Eu passei dez anos pra ir falar com o Morganti. Quando eu fui, era na rua Formosa. Ele mandou a secretária: “Quem quer falar com ele?” “É uma Irmãzinha.” – Eu era bem nova ainda, né – “Eu quero saber se ele é bonito ou é feio. Não, ele é bem bonito, até.” (risos) Ele aceitou e me mandou que eu fosse escolher um terreno lá. Ele queria que eu escolhesse ou em Franco da Rocha ou Itaquera. Franco da Rocha é um símbolo de louco, né, porque lá tem a... Aí fui pra Itaquera, mas depois me arrependi, porque não tinha água, não tinha luz. Mas eu venci. Ele me ajudou muito, cada festa que ele fazia, que ele era deputado, ele me ajudava muito. Essas passagens pra Europa, tudo ele que me dava, me dava estadia e tudo.

 

P/1 – E nessa primeira visita a Itaquera, o que viu lá, no bairro?

 

R – Sem estrutura nenhuma. Eram umas casas isoladas. Tinha uma rua onde eu circulava, e eu aprendi a dirigir, atolava com o meu carro lá dentro, aí eu ficava lá no sítio dele, e foi muito duro. Na inauguração, na pedra fundamental, o bispo disse: “‘Ita’ quer dizer ‘pedra’ em tupi-guarani, e ‘quera’ quer dizer ‘dura’”. É muita força de vontade. Eu nunca pensei, na minha vida, que os dez pavilhões fossem construídos, mas foram, com muita força, com muita coragem. Depois eu ia sempre à televisão, fui garota-propaganda, muito tempo. Era no programa do Aírton [Rodrigues], pergunta pra tua avó que ela deve saber.

 

P/2 - Da Lolita?

 

R – Da Lolita e do Airton, Almoço com as Estrelas. Eu era um Garfinho de Ouro, e comecei a conhecer todo o mundo. Se você não aparece, não põe a cara, não conhece... Depois eu comecei a aparecer. Uma vez eu fui num programa da Globo, o Fantástico, também, foi quando eu ganhei...  Você já viu meu troféu da Mulher do Ano do Fantástico... Do Fantástico não, da Avon. Foi quando... Você já ouviu falar na Fundação Tolstoi, né? Ela tem uma parte na ONU [Organização das Nações Unidas] que protege os refugiados. E o Otávio Frias, a irmã dele, que ele era o dono da Folha, foi me procurar porque ela queria que eu acolhesse os refugiados também. Mas eu não tinha pavilhão. Então a ONU construiu cinco pavilhões pra mim, dentro da Cidade dos Velhinhos, aí eu convivi muito com os russos. Hoje só tem um casal, um senhor e uma senhora. Mas aí que cresceu, porque quando construiu o primeiro pavilhão, sabe quem veio pra inauguração? Só que ele era tão pobre que ele não podia ir de carro, foi de helicóptero: o Aga Khan. Ele era o presidente, ele é que coordenava o movimento de refugiados na ONU, aqueles príncipes... Foi quando ele me deu um quadro de Picasso: Refugiado. Coisa mais linda do mundo! Eu tive que vender esse quadro pra Cidade dos Velhinhos, porque eu recebia muito telefonema que iam roubar o meu quadro. Picasso, o original de Picasso. Aí eu botei numa... Acho que na Portal, e foi um Banco que comprou aí. Mas eu consegui fazer um pavilhão com o quadro. Refugiado... Sabe como é que era o Refugiado? Parecia com o cearense (risos), aqueles que vinham da seca com uma trouxa na cabeça (risos). Agora, eu vou dizer uma coisa pra vocês, eu tenho que agradecer o Senhor.  Jesus disse, “toma a tua cruz e siga.” Às vezes é uma doença, eu já tive problema de saúde, me curei, graças a Deus, sempre teve uma mão estendida pra mim, e acho muito bonito porque tudo, tudo, que eu gostaria de participar, ou fora do Brasil, Costa Rica, Panamá, tudo eu consegui. Assim, veio assim, “shuu!” Costa Rica, quando eu fui passar diversos meses na América, no Caribe também, eu ia participar de um Congresso Internacional que era na Foz do Iguaçu, quando eu recebi da minha Ordem, que o bispo do CELAM – Conselho Episcopal Latino Americano – estava me chamando pra participar desse encontro na América Latina, e quando cheguei recebi a ordem de ser coordenadora da Pastoral. Nunca cobrei nada, nunca, nunca, nem nas palestras, nunca, nunca. Pra dizer pra você que nunca cobrei nada, um dia recebi um pequeno auxílio pra pagar meu carro, porque fui fazer uma palestra em Serviço Social, e é tão pertinho, nunca cobrei nada. Nem meus livros cobro. Eu tenho assim, acho que foi do meu pai, uma vontade tremenda de dar, de ajudar, e principalmente as meninas que estão estudando, fazendo Serviço Social, Psicologia, tudo. Elas lutam com dificuldade, elas trabalham e estudam, e muita coisa minha que eu tenho aqui... As meninas ligam e: “Irmã Luiza, eu tirei... A minha nota foi dez.” “A tua nota foi dez? A minha também, essa freirinha mesmo que fez a Cidade dos Velhinhos também.”

 

P/2 – Quem era o Morganti? Ele tinha o que lá em Itaquera?

 

R – A família Morganti, quando eu procurei, era uma das famílias mais ricas de São Paulo, talvez a mais rica. Eles eram o Rei do Açúcar, que o pai dele é que fundou esse açúcar refinado. Eles tinham tanta terra... Eu vejo até diversas usinas do Lino Morganti, principalmente no estado do Rio [de Janeiro]. Eles eram quatro irmãos, ele era o Lino, gêmeo com o Hélio, que já faleceu, mais um que era médico e outro que era o mais bonito, que era o que gastava o dinheiro. E tinha mais umas três irmãs. Todo o mundo faleceu. Tem... Os filhos dele e tudo. O Lino Morganti se empolgou muito pra esta obra, então ele me procurou, foi comigo, me deu a mão, muito, até antes de morrer. Nós fomos procurar um dos melhores arquitetos de São Paulo, era o Croce, Plínio Croce, já falecido. E quem executou foi o irmão dele, que ainda é vivo. Como era mesmo o nome dele? Mas aquilo ali foi muito difícil, porque eu não queria que seu Lino construísse a cidade sozinho. Porque talvez não tivesse valor. Então uma Cidade dos Velhinhos era como se fosse uma colcha de retalhos que cada um desse o seu pedaço. Eu recebi esmolas até de mulheres que catavam papel na rua, que moravam em barracos: está aqui a minha contribuição. A história da Cidade dos Velhinhos é uma história assim, de sombras e de luzes. Sabe do que eu estou falando? Talvez um dia, logo, logo, eu comece a escrever essa história, que é muito bonita. Mas eu sofri, também.

 

P/1 – Eu ouvi dizer que aquela região era toda coberta de eucaliptos.

 

R – Era, e o que deu mais trabalho na Cidade dos Velhinhos é a falta d’água. Agora é que o Covas resolveu o problema da água lá em casa, porque o eucalipto puxa muito a seiva da terra. Mas o negócio bem grande é que Itaquera eu comparo ao seguinte: na escritura sagrada, você lendo, tem uma profecia: “Tu, Belém de Judá. Tu não é a maior, tu és a menor de todas as cidades...” – não é cidade, porque onde Jesus nasceu não é cidade – mas daí há de sair o grande rei, o Salvador. Vendo o mapa da Palestina, na época em que Jesus nasceu, não tinha nem lugar pra colocar onde Jesus nasceu. Hoje está amenizado, mas ainda é pequeninha, e assim é em Itaquera. Quem vai querer ir pra Itaquera? E as irmãs começaram a dizer: “Você está ficando é louca”. Mas eu comecei a fazer amizade com muita gente, muita gente rica, sei lá, eu tive uma sorte de ter uma superiora que confiava muito em mim. Ela era francesa, mas os franceses, eles dão uma formação tão rígida na gente, mas desconfiam. Gozado, né? Ela confiava em mim, e eu também falava tudo pra ela, o que estava acontecendo, o que não estava acontecendo, e a Cidade dos Velhinhos hoje é uma realidade. Até agora ela cumpriu o seu papel social. Agora, daqui pra frente, eu não sei.

 

P/2 – Foram construídos quantos pavilhões até começar a chegar os velhinhos?

 

R – Não... Sabe, porque eu tinha que procurar o que... A gente tinha que colocar um barracão. A gente recebeu o material, não tinha água, não tinha luz aquilo ali.  No meio daqueles eucaliptos, né, que até agora... E eu, eu fiz uma coisa, não sei se foi besteira, peguei um casal... Porque ele era um pião, trabalhava com o seu Lino, mas foi morar lá. Ele fez um barracão e fez outro barracão bem arrumadinho, botou uma velhinha que queria ir pra lá. Então ela que vinha no Ipiranga, ela que vinha contar: “Olha, eles estão todos jogando, a obra não vai pra frente.” Eu pegava o caminhão do seu Lino, da Refinadora, ia levar telha, ia levar tudo. Mas depois... Eu comecei a sofrer, depois. Porque aquilo que eu tinha idealizado, que eu queria idealizar, parece que não ia pra frente. Alguma coisa eu consegui, porque aí veio a humanização e a urbanização de Itaquera, e as velhinhas puderam sair pra fazer compras lá naqueles... Agora é Carrefour, é Pão de Açúcar... Porque o meu ideal era que os velhos não ficassem presos. Eu sei que uma vez eu briguei lá com uma Irmã, era até superiora lá, ela já morreu, mas depois ela achou que eu tinha razão. Tinha um velhinho lá, parece que foi professor de francês lá de onde ele veio, e ele estava recebendo aluno. A Irmã: “Que que ele tem que receber os alunos aí pra dar aula?” De inglês, de francês, o que que tem, meu Deus? Quanto mais, melhor, comunicação pra eles. E foi o maior... Eu quebrei uns tabus muito grandes, porque com o [Concílio] Vaticano II eu já estava recebendo velhos de outras religiões, basicamente os russos.

 

P/2 – E quais foram as primeiras construções que...

 

R – O primeiro pavilhão foi o Pavilhão São Lino. São Lino foi o primeiro papa, mas esse Lino foi esse que deu a terra. Depois os pavilhões ficaram com nomes de santos russos: São Sérgio, Alexandra, Serafim, porque os russos foram morar lá. Depois uma amiga minha que perdeu a filha, a tia Zeca, fez o Pavilhão Lavínia, e eu estou morando na casa que ela doou para a Cidade dos Velhinhos, que deixou para as empregadas dela que não querem ir pra lá. Uma casa grande, linda, bonita, eu moro lá.  Ah, agora estou morando num bairro chique: Sumaré. Eu sempre morei na periferia, porque eu trabalhava muito na Freguesia do Ó e morava por lá. Eu não sou mulher de ficar em Gabinete. E você já imaginou a superiora manda e eu mandando ainda? Porque a fundadora manda também. É muita briga, então... Já viu quando marido e mulher brigam e separam? Fica ótimo, né? Então, assim sou eu com a superiora. (risos). Foi a Therezinha que mandou você falar comigo, foi?

 

P/1 - Não, conversei com a irmã Fiúza.

 

R – É baixinha, pequenininha, tia daquele Fiúza que houve aquela briga com o deputado... Ela é surda, como é que vocês...

 

P/1 – Eu falei bem pertinho dela.

 

R – Ela mandou que você viesse aqui?

 

P/1 – Foi.

 

R – Então está aqui, aqui foram os cabeças [mostrando fotos]. Eu, de freira, e aqui os grandes... Aqui é o construtor, o outro... Luiz Crocce, o Lino – esses morreram, acho que só a Maria Luiza é que está viva –. Mas foi muito bonito. Eu queria uma coisa diferente, e veio diferente. Olha.

 

P/1 – Quantos russos a instituição abrigou?

 

R – Nós chegamos a ________ com 95, e pouco... Olha, é bonita, você não foi lá. A Feira da Vovó lá foi muito bonita.

 

P/1 – Tem festa sempre?

 

R – Tem. Tem que ser, senão elas morrem antes do tempo. Engraçado que quando eu recebi Cotia eu tinha que ir pra Áustria, e o motorista, meu motorista, ele estudou, eu mandei ele estudar... Hoje está na política, sendo assessor aí de um político, e lá no aeroporto ele deixou um bilhete: “Pode deixar os velhinhos  comigo que quando a senhora chegar a casa estará bem.” E fez isso mesmo. É gozado, as pessoas que têm vontade de fazer... Eu, uma semana antes da Semana da Vovó, fui gravar um programa na... Vocês já ouviram falar naquele programa Canção Nova? É do padre João, está sendo gravado no Colégio Coração de Jesus, logo por ali, e eu fui, levei a minha psicóloga que trabalha comigo, e quando nós estávamos lá conversando sobre o idoso, os problemas do idoso, e a minha psicóloga falando justamente do problema da psicologia que afeta muito, a pessoa não foi preparada... Mas todos jovens, todos os profissionais que trabalham lá são jovens, formados, e tinha uma moça que ia ser entrevistada após a Zezé e eu, e ela é presidente de uma obra que fica em Itapecerica da Serra. Mostrou lá as fotos, o álbum. Ela mora... Eu moro no Sumaré, ela mora no Pacaembu. Mas sabe dessas pessoas que nunca entrou num navio (riso), nunca entrou na... Mas está lá, nem sei porque, vai toda a hora lá, então ela tem boa vontade. Falei pra ela pra fazer o curso de Cuidador dos Idosos, eu vivo fazendo cursos, eu dou curso. Mas faço também curso, de reciclagem... Cada dia é um novo dia. E ela dizendo pra mim que ela tem lá não sei, 15 suítes, não sei. Pegou, já está com seis velhinhas, e ela mostrou lá as senhoras, depois já tinha outras de aventais brancos, perto das velhas. A coisa que me estranhei quando perguntei a ela assim: “Mas quem são essas daqui?” Vocês não queiram saber o que ela respondeu. Acho que vocês vão... Se eu fiquei horrorizada, vocês também vão. Essas são as babás delas. Falei: “Minha senhora, a senhora tem creche ou tem obra geriátrica? Babá?! Eu acho bom a senhora não usar esse termo não, porque se começar a ir na sua casa a Vigilância Sanitária ou aquele produtor que fez asilo vai fazer a senhora mudar esse nome. E perguntei por que babá: “Porque elas voltam a ser crianças.” E eu falei: “E a dignidade delas? A senhora não tem nenhuma com Alzheimer, eu tenho três lá. E a gente trata como... Porque tem horas que elas têm raciocínio. A gente chama a moça Cuidadora de Idosos, tudo, mas não essa... Agora estou com vontade de procurá-la e ver se ela quer fazer algum curso. E ela vem contando que o padre era armênio, que fundou essa casa da Congregação Armênia, e tudo, mas que coisa impressionante: na véspera da inauguração o padre morre. Ele estava colocando os quadros na parede, caiu morto.

 

P/1 – Voltando um pouquinho pra Itaquera, lá tem a pedreira perto da Cidade dos Velhinhos?

 

R – Lá tem diversas pedreiras, mas tem uma perto que prejudicou bastante, porque na hora que explodia a pedreira, os russos lembravam tudo da guerra, e eles ficavam com problema muito sério. Agora está desativada. As explosões eram frequentes, fim da tarde todo o dia. A explosão era à base de dinamite mesmo, e se ouvia muito, os vidros lá de casa quebravam, e tudo. E da capela, por causa do barulho.  E é claro que os russos lembrava a guerra.

 

P/2 – E essa parte da história da Cidade dos Velhinhos, do abrigo dos russos...

 

R – Não tinha abrigo, eles moravam com a gente, eles tinham os apartamentos deles e a igreja deles. São ortodoxos, mas nós respeitávamos. Interessante que eu tinha um capelão lá que ele falava muito essa língua e se comunicava muito com os russos, né. E com o convívio com as Irmãs, nós nunca tivemos dificuldade, acho que o amor, o ideal, nos une. Eles nos entendiam, apesar de ser uma cultura completamente diferente.

 

P/2 – E o dia que eles chegaram, como foi? E o pessoal que estava lá?

 

R – Eles não aceitaram, porque estava tudo começando, ainda e eles já estavam no Brasil. Tinha uma Fundação Tolstoi que cuidava deles, mas eles estavam com muita idade, e estavam vivendo com muita dificuldade, uns na Vila Zelina, outros por ali, Vila Ema, tudo. Mas eles também tinham alguns filhos, alguma coisa, e foram se adaptando, porque na Cidade dos Velhinhos, não sei se você viu, eu tinha mentalidade muito aberta, ainda tenho, e em cada Pavilhão nós mandamos fazer uma pequena kitnetzinha, cozinhazinha pra fazer as coisas que eles gostam. Aquilo pras Irmãs... Elas não gostaram, mas continua até hoje, então eles faziam aquelas comidas deles, comiam no refeitório, grande, imenso, mas eles iam fazer as coisinhas deles ali. A gente dava muita liberdade. Agora, o problema muito... Principalmente para os homens, foi o álcool, porque eles bebiam muito. Depois a gente foi controlando.

 

P/1 – Eles já falavam português?

 

R – Alguma coisa. Alguma coisa já.

 

P/2 – Em que ano foi isso?

 

R – Foi quando a gente começou, em 64, a abrir espaço na Cidade dos Velhinhos. Logo no começo, 64, 65, 66, 72. Mas eles eram muito alegres. Eu sei que tinha uma russa lá, a dona Lídia, já tocava piano divinamente, que quando ela veio, ela escapou da morte nem sei por que, de lá. Ela tinha uma filha aqui, a Helena – ainda tem –, Natália, Helena é a neta. Depois ela estabeleceu-se em Niterói, e lá ela dava aula de piano, tal, dava muito concerto, foi muitas vezes na televisão comigo. Ela chegava lá chateada, cansada, encostava o carro de lado e dizia: “Vem filha mia, vem aqui que eu te faço uma sopa de cebola”. Tem essas caridades, assim, as coisas deles, eles me contavam muito a vida deles por lá, foi muito sofrida, tem muita história bonita e triste depois da guerra. Eu tive um pouco de dificuldade foi com a sociedade paulista, porque as dondocas que me ajudavam, diziam: “Agora a gente vai ajudar dar comida pra russo?” Eu disse: “russo não é teu irmão? Refugiado não é teu irmão?” Eu toda a vida fui muito dura. As Irmãs não, as Irmãs sempre atenderam. Porque viam que eu era católica, e o catolicismo manda que faça caridade. Eles têm uma cultura assim. Essa é da Rumênia. Raquel não saía do quarto dela, tinha problema muito sério para se locomover. Mas ela passava o dia todo bordando, quando não era bordando era pintando, fazendo pintura de palhaço. Eu adoro palhaço. Você sabe, dentro de mim eu tenho um palhaço. Na Feira da Vovó estava cheio de velhos vestidos de palhaço. Eu chegava, conversava com ela, comprava as coisas dela pra ajudar. Um dia ela falou assim: “Não sei como é que você foi ser freira, você quer que eu arranje um casamento pra você, eu te arrumo.” Falei (risos): “Nada disso.” Era engraçada ela, eu gostava demais.

 

P/1 – E o bairro, como recebeu a ideia da Cidade dos Velhinhos lá?  

 

R – O bairro estava dormindo ainda. (risos) Quando ele acordou eu já estava fazendo a confusão. Foi muito difícil, porque ali era cidade-dormitório, né, que a pessoa sai para trabalhar e volta à noite para dormir. Depois tinha outra coisa, também. Aquela estrada, quantas vezes eu via vagalume, coruja, eram meus companheiros de estrada (risos). E foi muito bom. Depois eu fui na TV, fui levando gente pra lá, fazendo a Feira da Vovó, foi... Foi uma coisa maravilhosa.

 

P/1 – A Feira da Vovó existe desde o começo?

 

R – Desde o começo. Dez anos depois, 72. Começou a ir ao diário social, foi muito bom. E era assim, tudo se faz com dificuldade, né, gente. Não vá pensar você que... Uns morrem e outros vêm, o importante, nós que estamos na... Eu, que estou na terceira idade e as outras, saber colher vocês e passar a tocha. Fiz muito casamento lá na Nossa Senhora contrariando a Irmã Fiuza... Não, a irmã Fiuza sempre foi a favor, contrariando outras freiras.

 

P/2 – Os velhinhos que estão lá se conhecem, se apaixonam...

 

R – É, e daí? Essa senhora já morreu. Foi vice-presidente. Esse aqui foi... Trabalhou muito tempo na fazenda do... Ele já morreu, e a mulher dele também. Pais de Almeida. Você acredita que o bichinho nunca ganhou nada? Ele via o leite para os porcos e ele nada. Quando o governo fez aquela pensão vitalícia, eu que consegui, o patrão dele disse, “não, eu não vou assinar porque ele foi meu empregado há 40, ou 30 anos.” Mas o seu Lino era muito caridoso.

 

P/2 – Porque o pessoal não tinha nenhum benefício, nem aposentadoria...

 

R – Não, quando eu comecei, não.

 

P/2 – Então de onde vem o pessoal, era da região...

 

R – Não, não. Eu trabalhava muito em favelas, primeiro foi de lá.

 

P/2 – Foi tirando das favelas e levando pra Cidade.

 

R – Não, não podia ir tirando, não tem nada... Aos poucos, né. Aí começou todo mundo querendo ir pra lá, e o Mário Covas, meu grande amigo, num jantar – isso foi no Torres, não, foi na Cidade Jardim... Eu gosto do Mário Covas, porque eu conheci o Mário Covas comunista e continua com as mesmas ideias de... Como se diz? Ele pode ter os defeitos dele, mas agora, o Fernando Henrique, não. Mudou. Eu gosto muito do Mário Covas, me envolvi muito na doença dele.

 

P/1 – Então, Irmã, a senhora viu a construção da Cohab [Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo]?

 

R – Vi. Imagina, minha filha, eu estou aqui no escritório, mas toda a hora estou telefonando pra Cidade dos Velhinhos. Fim de semana eu estou lá, ou então em Cotia. Quando era o governador, quando era presidente o Fernando Henrique, o Fernando Henrique não... Como era o nome dele? Aquele que gostava mais do cheiro de cavalo do que de povo?(riso) o Figueiredo, Figueiredo que foi inaugurar aquilo ali, a Cohab, e o Figueiredo ainda tomou um suco... Ele entrou lá em casa e acho que ele queria ir ao banheiro, e foi, ainda tomou um suco lá. Me pediu um terço, eu dei um terço pra ele. A população da Cohab José Bonifácio, lembro, no discurso dele, é uma população que compara à cidade de Bauru. Agora, a Cohab já nasceu com estrutura, porque eles fizeram igreja, tudo, estão fazendo agora, os padres salesianos. Mas já tinha inaugurado o Posto de Saúde, o Hospital das Marcelinas. Apesar de não ser do governo, ajuda muito. A Cidade dos Velhinhos ajudou muito, também (pausa). Começou a alertar mais, assim, modéstia à parte, foi a Irmã Luiza. Hoje eu sou a eterna esquecida, às vezes quando eu vou lá, que eu vou sempre fim de semana, chega aquele pessoal novo ali da Cohab, o padre, tudo: “Ah, a senhora é Irmã nova aqui? É Irmã nova?”, aí eu falo do meu livro, uma coisa sobre a história da Cidade dos Velhinhos, que virou realidade.

 

P/2 – E antes daqueles prédios o que tinha lá?

 

R – Nada, minha filha. Só mato, formiga. Aquilo ali era uma dívida que o seu Lino Morganti tinha, ele recebeu aquilo de uma dívida, de gente que devia a ele, sei lá. E aquilo ali eu ouvi dizer que ele cumpriu uma dívida que ele tinha com o fisco, ou era com empregados. Ele tinha muito empregado, dois mil empregados, não sei quanto. Naquela época era INPS [Instituto Nacional de Previdência Social], uma coisa assim, porque as coisas têm que ser bem feitas.

 

P/2 – Mas hoje é um contraste, né Irmã, a Cidade dos Velhinhos e a Cohab no mesmo lugar, não é?

 

R – Por que um contraste?

 

P/2 – Porque... Não sei, é uma impressão, porque lá dentro na Cidade dos Velhinhos é tudo bem arborizado, bem calmo, e na Cohab é... Muita gente...

 

R – Na Cohab é tiro, é o fruto de uma... Agora, nós damos emprego pro pessoal. Não é nada não, mas nós temos 35 funcionários de lá. Quando falta, ainda fazemos mutirão, limpa tudo pra... Tem outra coisa, também: a gente faz um serviço social muito bom, de acolhimento, de... Mas é muito triste, a vida. A Cidade dos Velhinhos, antigamente, no meio daquela selva... Hoje é selva de pedra. No entanto, a Cohab revolucionou a Cidade dos Velhos, ou o contrário, não sei. Agora, há uma evangelização dos salesianos, porque tem o padre lá, o Rosalvino, você precisa falar com ele, ele atende muita coisa boa ali, ele tem 25 mil pessoas na mão dele, principalmente os jovens, que têm diversas oficinas de trabalho. Isso aí ajudou. E com o advento do metrô, a Cohab também mudou, claro que mudou, melhorou. Muitos agora vão trabalhar de que? De metrô. E os terrenos ficaram mais caros, o pobre perdeu mais, tudo isso. O metrô não é progresso? Você já viu os pobres imprensados naqueles trens? Uma vez eu fui... Duas ou três vezes de trem, pra experimentar o que eles passavam. Coisa horrível. E a Cohab ainda foi muito bom pra eles, porque pelo menos têm uma casa.

 

P/1 – De onde são os moradores da Cohab, a senhora tem ideia?

 

R – Quem que é nordestino aqui? Você não é, você não é. Eu não vim como imigrante, mas quem veio foi gente que suou, que trabalhou e que hoje tem a sua casinha lá. E outros que são espertos, que vende ou compra mais, faz a lojinha deles, alguma coisa pra sobreviver. Mas na Cohab não tem só gente ruim não, tem muita gente boa. Tem advogado, tem assistente social. Eles vão à missa lá em casa, eu pergunto.

 

P/1 – Eles vão à missa lá na Cidade...

 

R – Na Cidade dos Velhinhos.

 

P/1 – Ah, existe um trânsito entre...

 

R – A Cidade dos Velhinhos e a Cohab. A gente trabalha com os padres, que são os salesianos, que têm muito movimento, tudo.

 

P/2 – A senhora lembra quando começou a construção do metrô?

 

R – É lógico que a gente lembra. Foi uma coisa muito natural, eu não ia lá fiscalizar. Primeiro que eu não tinha tempo...

 

P/2 O que a senhora viu...

 

R – Claro que vi. A Cidade dos Velhinhos até participou, porque eles pediram... Nós tivemos, na capela mesmo, um centro de observação, um centro de que eles pediram. Lá em casa nós também temos um negócio de polícia, que eles colocaram. Mas precisa ter muita coragem, porque ali é uma área muito perigosa, como todo o bairro é perigoso. O meu também é, e só mora gente que tem dinheiro, todo o lugar. Agora, viver lá dentro é outra coisa. Às vezes as pessoas, como Mário Covas, que todo o ano vai à Feira da Vovó... Nesse domingo que ele foi, ele foi no refeitório, comeu lá a macarronada e disse assim: “Pelo menos hoje eu passei uma hora e meia aqui na paz.” Porque tem paz, lá, uma coisa muito importante que hoje você não encontra: paz. Mas eu gostaria que não existisse a Cidade dos Velhinhos, porque é sinal que o país não está bem, não cuida dos seus velhos nem das suas crianças, e a família não está bem.

 

P/1 – E hoje tem lá pessoas de Itaquera que vão pra Cidade dos Velhinhos ou...

 

R – Vão visitar, tem alguns que pedem. Engraçado, a família pobre, pobre, pobre, não pede tanta internação de velho, quem pede mais é classe mais... Você já sabe. No nordeste, por exemplo, é difícil ter um asilo. Fortaleza tem um asilo das Irmãs da minha Ordem, mais outro, que é dos maçons, e pronto, porque eles têm muito, hoje, movimento de... Que eles chamam centro-dia, eles vão de dia e à noite vão embora pro seu barraco, que deve ser o ideal. Nós ajudamos uma obra dessas com um amigo meu que é muito rico, e ele ajuda a Cidade dos Velhinhos lá em Jaguariúna: “Luiza, vamos fazer...” – ele fez um asilo pra passar o dia, dormir lá – “Acaba com isso, põe semi-internos. A prefeitura vai buscar eles, traz aqueles que estão nos botecos, eles passam o dia lá e voltam, feliz”...  Vou dar o livro, pra vocês lerem. É, lá deve ter alguma coisa.

 

P/1 – Quais os aspectos mais positivos do bairro de Itaquera, Irmã?

 

R – Vou falar das famílias com quem tenho mais amizade, as famílias antigas, com quem convivi. Tinha bastante olaria, hoje não tem mais, e também a padaria, que sempre é o mesmo padeiro lá em Itaquera, o seu José, no centro. Aquela família que... Hoje não, hoje os padres mudaram, o pessoal, como você falou agora, que foi, comprou apartamento, é gente que veio de fora, não são de Itaquera, vieram de fora. Agora eu gosto muito, não vou dizer que não gosto do pessoal da Cohab, estão sempre lá em casa, tudo, são um pessoal de fé, e querem que tenha menos violência, eles querem. Agora, uma coisa que eu acho que... As famílias antigas, lá de Itaquera, por exemplo, querem progredir também. Tem até faculdade! (pausa) Aqui tem a Imprensa Oficial, que fez uma coisa boa pra mim, a primeira cartilha é essa aqui. Sabe por quê? Pelo menos eu... Não sei, talvez eles não fizeram propaganda política. Isso aqui é mais útil (mostrando fotos ou livro), olha aqui os três. A primeira, a segunda e a terceira idade. Olha aqui as praças de Paris e também as crianças, era continuamente guerra, uma coisa horrível. Hoje também, se você for aí à noite, por baixo dessas pontes, tem esses velhos aqui. Aqui eu botei a minha dedicatória, aqui também fala em memória, uma homenagem de alegria... (pausa).

 

P/1 – A senhora escreveu em que ano...

 

R – Não, não fui eu que escrevi não, foi todo mundo junto comigo. Foi no ano passado. Lembrar é um tipo de reencontro. Você está hoje fazendo, reativando a minha memória. Quando ele me perguntou dos meus avó... Ah, eu nem lembro. Lembrar é um tipo de reencontro. Rever intensifica a memória, favorece as associações que conduzem à reflexão, estimula assim a criatividade e motiva a participação. Por essa razão, a pastoral, tal, tal, a cartilha... Apresentamos: olha aqui retratos de idosos que, com sua participação contribuíram para a construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária. Eu peguei... Essa, e aqui tem uma homenagem que eu falo pela Cidade dos Velhinhos, a minha luta pela Cidade dos Velhinhos. Eu encontrei muita gente que me deu a mão para remover os obstáculos.  Aqui diz que eu quero agradecer a todos que me ajudaram, vamos espalhar pelo país dezenas de cidades dos velhinhos como pontos de luz e de paz, não é coisa fechada. Aldeias benditas, onde envelhecer será motivo para sorrir e não para chorar.  

 

P/1 – Se a senhora pensasse no bairro daqui a uns anos, dez, 20 anos, 30 anos, como gostaria que ele estivesse?

 

R – Gostaria que não tivesse um velho sofrendo, um desempregado, nenhuma criança sofrendo, nenhum dependente de droga, está certo?

 

P/2 – E última pergunta. Para a senhora, o que mais mudou no bairro desde a fundação da Cidade dos Velhinhos?

 

R – Mudou quando nós pedimos... Foi muito duro, mas eu consegui, com o prefeito Faria Lima, que foi o que mais olhou para lá no meu tempo, e o último foi Mário Covas: foi asfalto, que não tinha, a gente não sabia nem como passar, e a Cidade dos Velhinhos, que passou por lá também. Ali tem asfalto, e tudo foi pra lá, tudo isso eu fiz uma conjuntura muito grande com os políticos. Hoje eu não quero... Não tem nenhuma palavra de política aqui, inclusive, o Estatuto dos Idosos ninguém pratica, leva a sério. Mas aí, o que vou dizer pra vocês, é que mudou... O metrô mudou. Outra coisa que mudou também foram as escolas, com o progresso. A Faculdade Castelo Branco eu conheci quando era um colégio bem simples, e hoje não, muita gente se formou por lá, em odontologia, muita coisa.

 

P/1 – Estamos encaminhando para o final. Qual o sonho que a senhora gostaria ainda de realizar?

 

R – Eu gostaria de fazer parte também com eles, porque os velhinhos não caminham sozinhos não, temos que caminhar com eles. Eu gostaria que todos os idosos descobrissem a sua cidadania, que eles sejam politizados. Eu prego muito isso nas pastorais. Politizados, que eles reconheçam a força maravilhosa que eles têm, que é o voto, que eles têm que votar até o fim da vida deles, escolher bem e cobrar, fazer cobrança. E que ele se sinta cidadão, ele fez parte, ele construiu essa cidade. Que seja reconhecido pela sociedade e que a família reconheça o idoso, não faça o idoso sofrer tanto, que reconheça, isso aí que eu gostaria. Os velhos todos sorrindo, todos participando, como tem os clubes de idosos hoje, fazendo seus passeios alegres e felizes, reconhecendo que, no fim da vida ainda é o começo de uma felicidade.

 

P/1 – Obrigada pela entrevista.

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