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História

A negociação de um casamento

História de: Dona Anita (Anna Cunha Campos)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/12/2004

Sinopse

Conhecida como Dona Anita, Anna Cunha Campos nasceu em São Paulo em 1920. Passou a infância em uma casa com belos jardins em Uberaba, Minas Gerais. Depois de uma passagem em um colégio interno que durou apenas três dias, Dona Anita não se separou mais da família, acompanhava o pai por toda parte, inclusive em viagens de trabalho. Para dar continuidade aos negócios da família, assume a presidência da Empresa Telefônica de Uberaba (Etusa), de onde guarda boas recordações. Nesta entrevista ao Museu da Pessoa, relembra os onze anos como presidente e a incorporação da Etusa pela CTBC.

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História completa

P1 – Boa tarde Dona Anita, um grande prazer em falar com a senhora aqui, eu vou começar pelo trivial, eu gostaria que a senhora dissesse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Ana Cunha Campos e a data do meu nascimento 17 de outubro de 1920, na cidade de São Paulo.

 

P1 – O nome do seu pai e da sua mãe Dona Anita, por favor.

 

R – Papai, Alexandre Cunha Campos, minha mãe, Dolores Coelho da Cunha Campos.

 

P1 – A senhora conheceu seus avós?

 

R – Conheci minha avó materna.

 

P1 – Qual o nome dela?

 

R – Maria Joaquina dos Reis Coelho, é a mãe da minha mãe, os outros eu não conheci, quando eu nasci eles já eram falecidos.

 

P1 – E a senhora lembra do nome deles?

 

R – Lembro, o pai do meu pai era Antônio Cunha Campos, a mãe Floriscena Generosa Cunha Campos, uma senhora muito ilustre de Formiga no Estado de Minas, meu pai era de Água Suja, do lado da minha mãe Maria Joaquina dos Reis Coelho e Joaquim José Coelho que era o marido.

 

P1 – A senhora tem notícia da origem dos seus avós, se eles eram da região.

 

R – Olha, a minha avó paterna era de Formiga, o pai dele era de Sabará mas morava em Água Suja, do lado da minha mãe é gente sempre de Uberaba, daquela zona, sempre do triângulo.

 

P1 – E a senhora tem notícia da atividade dos seus avós?

 

R – Meu avô materno era comerciante, mas um comerciante muito interessante, ele tinha um livro caixa que eu cheguei a ver e dava boas risadas porque o nome das pessoas que faziam compras ele acrescentava “Pagaram em dia”, outros “Pagaram nunca”, outros “Pagaram no outro mundo” e assim ele negociava sem a menor pretensão de lucro, era muito interessante. Já o vovô Cunha era um comerciante que era o pai do papai, tanto que o papai começou a trabalhar no comércio com o pai e mais dois irmãos. Eles tinham a casa Cunha Campos, e essa casa Cunha Campos foi um dos motivos que ele pretendeu obter telefone pra se comunicar de uma localidade chamada Caçu, onde ele teria uma fábrica de tecidos em sociedade com o senhor Silvério Silva, então tinha um linha que ligava a casa Cunha Campos e uma casa Caldeira de outro comerciante também da cidade. Mas a fábrica de tecidos não foi adiante, daí ele se encaminhou para a telefonia como uma necessidade de Uberaba, como um progresso.

 

P1 – Nessa época da ligação entre Caçu e Uberaba nós estamos falando de que ano mais ou menos?

 

R – Mais ou menos 1906.

 

P1 – Qual que era atividade do seu pai? Vamos falar um pouco do senhor Alexandre.

 

R – Meu pai ele era farmacêutico porque ele estudou em Ouro Preto, como sempre os pais gostariam que os filhos se formassem e tal e, o papai, a tendência dele era sempre comércio, mas, para satisfazer os pais, ele estudou farmácia. Mas a atividade dele mesmo foi drogarias, foi comércio, ele empreendeu em Uberaba uma drogaria, Drogaria Alexandre, que era no melhor ponto da cidade, uma área de extensão maravilhosa e dali ele foi aumentando, chegando a ter drogarias em Uberlândia, Araguari, Araxá, Goiânia e dezessete farmácias, além das drogarias, ele tinha dezessete farmácias em vários pontos.

 

P1 – E a sua mãe Dona Dolores?

 

R – A minha mãe era uma mulher voltada para assistência social, ela ao mesmo tempo que meu pai fundava, com outros amigos, o Asilo Santo Antônio para os velhos, a minha mãe fundava o Orfanato Santo Eduardo juntamente com umas amigas. Ela era uma mãe de família exemplar com tantos filhos, casa sempre muito grande, sempre muito dedicada à família, às primas, tias em casa, era um movimento muito grande, era bonito.

 

P1 – A senhora tem irmãos, Dona Anita?

 

R – Tive nove, e vi falecer, eu sou a última e tive o desgosto de perder todos, como seria natural, porque eu vim ao mundo meus pais já não eram jovens, então naquela época eram considerados velhos porque a minha mãe tinha quarenta e dois pra quarenta e três anos e meu pai quase cinquenta. Então era lógico que o tempo levasse meus irmãos, apesar que eu tive dois irmãos que faleceram muito cedo, cedo que eu digo cinquenta e três anos e um com vinte e um anos que foi de desastre de automóvel e as irmãs de doenças variadas. Era uma família muito unida, muito bem constituída onde havia respeito, amizade, carinho, tanto que os espírito do meu pai era pra criar coisas para os filhos, para a família, para a cidade, ele era muito generoso. No tempo das drogarias, ele instituiu um dia para dar os remédios para a população carente e um outro dia a minha mãe instituiu para distribuir alimentos. Então quartas e sábados eram os dias que nós ficávamos ajudando naquilo que podia, para os remédios tinha um carimbo que eu menina, meninota gostava de carimbar as receitas para eles poderem retirar, e no dia dos alimentos, na véspera tinha sessão de empacotamento, então era um casal muito generoso.

 

P1 – Eu queria que a senhora falasse um pouquinho, Dona Anita, da sua casa de infância, como que era essa casa?

 

R – Era uma chácara muito bonita no centro da cidade, hoje é um bairro muito bonito chamado Jardim Alexandre Campos, nesse bairro a minha sobrinha Liana tem uma casa, terrenos que eram meus eu doei à ela, esta que você viu, e ela é residente no que era a nossa casa. Era uma casa muito grande com onze quartos, sete salas e dava acomodação pra todos, para hospedes, para familiares e geralmente, às sextas feiras, as filhas casadas vinham para passar o fim de semana conosco, depois foi ficando impossível, todos foram tendo as suas vidas próprias e aquela casa não poderia mais existir, foi feito um loteamento e hoje é esse bairro que eu te falei, Jardim Alexandre Campos, de casas muito boas, muito confortáveis e bem no centro da cidade.

 

P1 – O endereço, a rua?

 

R – Rua Major Eustáquio, cento e dezoito. Jardim muito bonito, eram jardins lindos. Minha mãe era uma pessoa que ia à missa diariamente às sete horas da manhã, voltava da igreja e ia para os jardins e para o pomar, era uma casa que tinha noventa pés de jabuticaba, todas as frutas, inclusive essas de clima europeu que não sei porque lá elas cumpriam a destinação. Jardins muito bonitos. Ela gostava muito de rosas, ia de vez em quando a São Paulo com meu pai pra comprar mudas novas, quando nós saímos de lá ela deixou quatrocentas roseiras carregadas. Foi uma saída alegre porque foi deliberado por eles e triste de deixar, mas já não havia mais condições de um casal de idade comigo e com uma outra irmã, porque todos os outros já estavam com as vidas próprias.

 

P1 – Dona Anita, nesse período como é que a casa se organizava, a senhora e seus irmãos tinham obrigações em casa?

 

R – Obrigações em casa eles nunca tiveram, pelo contrário, muito sem obrigação, mas tinha um pessoal muito adequado porque quando a minha mãe se casou casava ao mesmo tempo uma amiguinha dela e essa amiguinha foi a primeira cozinheira da minha mãe, quando minha mãe tinha filhos a amiguinha também tinha, então nós fomos servidos por uma única família.

 

P1 – Então o que essa menina Anita gostava de brincar, qual era a diversão?

 

R – Eu gostava de brincar com uma só boneca, tinha oportunidade de ganhar todas as bonecas que aparecesse na época mas aquilo me ofendia, só aquela eu considerava a minha filhinha, então meu pai mandou fazer na propriedade uma casinha que era a casinha da Anita, que era uma miniatura de casa em que eu brincava e tinha esses brinquedos naturais, sendo que tenho muitas coisas aqui que enfeitam minha casa que eram xicrinhas do meu tempo de menina, aparelhos porque naquela época era tudo muito fino, porque naquela época era quase tudo importado, porque a nossa indústria não oferecia brinquedos dessa categoria. E eu era cuidadosa e tinha uma babá que era mais cuidadosa do que eu, então eu conservo hoje muita coisa, inclusive tive uma grande amiga que ia sempre pra brincar comigo e que eu tive o desgosto de perdê-la há poucos dias.

 

P1 – Essa boneca tinha nome Dona Anita?

 

R – Essa boneca se chamava Carioquinha, porque foi comprada no Rio e se chamava Carioquinha e eu ganhava muitas em aniversário e doava todas, eu fui menina de uma boneca só, era muito exclusiva.

 

P1 – Dona Anita, e a escola, sua primeira escola?

 

R – Eu fui alfabetizada na mesma rua onde eu morava, existia uma professora, se chamava primeiras letras, e foi com ela que eu aprendi a ler, mas logo depois eu fui pro colégio Nossa Senhora das Dores da Dominicanas, um colégio que eu gostava muito e lá eu fiz todo o meu curso, fiquei mais de dez anos nesse colégio. Nunca saí pra estudar fora, as minhas irmãs estudavam em São Paulo, quando chegou a minha vez de ir para São Paulo tudo bem, eu era uma menina dócil e obediente. Hoje eu não sou, mas fui. Com muito pesar eu vi o preparo de me internar num colégio em São Paulo, Colégio Sion, fui, papai foi me levando, muito bem, mas ele ficou num hotel esperando pra ver se eu me adaptava, eu fazendo todo esforço mas procurando não desiludi-los, no fim do terceiro dia ele aparece no parlatório do colégio pra me buscar, que tinha acabado meu período de internato e ia voltar pra casa, eu ainda ponderei que minha mãe não ia ficar satisfeita, ele disse: “Deixa isso comigo”. E nós voltamos. Quando nós chegamos a casa era muito grande, tinha halls de entrada, salas, a minha mãe estava deitada num divã numa posição de marte dolorosa e quando ela me viu e viu o papai, ela disse: “Graças a Deus”. Quer dizer, houve aquela palhaçada de me levar pra depois eu voltar do mesmo jeito e dessa data em diante eu nunca me separei deles.

 

P1 – Nesse período das primeiras letras a senhora tem uma professora que tem uma lembrança forte assim?

 

R – Não, essa que me ensinou eu me lembro muito bem dela, era muito brava.

 

P1 – Qual era o nome dela?

 

R – Era Santinha, Santinha da Candoca, era muito brava, muito malcriada mas eu não levava muito em consideração as grosserias. Agora, no colégio eu era amiga de todas as freiras, sempre gostei muito delas, sempre achava tudo muito bem, não via a necessidade de sair de Uberaba para ter uma instrução maior, poderia ter uma cultura mais aprimorada, poderia ter uma convivência diferente, porque elas todas estudaram no Sion, muito bem, mas eu me dava muito bem onde eu estava.

 

P1 – Nesse momento, Dona Anita, como era uma viagem de Uberaba pra São Paulo?

 

R – A viagem era pela Mogiana, a estrada de ferro. O papai sempre viajava em carro especial porque a família era muito grande e ele projetava a viagem com mais conforto pra minha mãe porque ele foi assim um marido excepcional. Então nós viajávamos pela Mogiana e eu menina achava que meu pai devia ser muito importante porque o chefe da estação chamava pelo nome e eu achava: “Papai é importante, o homem falando senhor Alexandre” e ele sempre teve muitas boas relações, era um homem muito amável, conquistava a todos. Era assim que a gente viajava.

 

P1 – E quanto tempo demorava essa viagem?

 

R – Depois eu cheguei a pegar também uma viagem de carro. Ele não era um homem vaidoso, ele era um homem cuidado, muito elegante, mas gostava de carros de boa marca e o carro que nós sempre tivemos era Lincoln, então trocávamos de dois em dois anos. Chegamos a viajar no velho Lincoln também, mas ele gostava da viagem de trem e era realmente muito distraída.

 

P1 – E quanto tempo demorava Dona Anita?

 

R – Demorava, nós saíamos sempre de Uberaba à uma e vinte e fazia baldeação em Ribeirão Preto e em São Paulo de manhãzinha.

 

P1 – Dona Anita, como era Uberaba nessa sua meninice, como era a cidade?

 

R – Uma beleza de cidade, ótima, pra mim nada igual, uma cidade de poucos habitantes, nem sei quanto, mas não era uma cidade de tão pequeno porte, entendeu, Uberaba sempre foi considerada a terceira cidade de Minas e sempre manteve. Então tinha muito bons colégios, era um povo que sofria muito a influência de São Paulo, então era uma cultura não ligada a Belo Horizonte, não estou desmerecendo Belo Horizonte, mas São Paulo já era o que é, né, então era uma boa cidade, famílias muito unidas, muito amigas.

 

P1 – E como era a rotina dessa criança que estava numa cidade daquela, numa casa daquela?

 

R – Ótima, boas amigas, uma convivência com adultos porque como eu era muito mais moça e naquela época as crianças tinham um comportamento diferente dos de hoje, então se chegasse uma visita para a minha mãe, eu apareceria, ficaria um pouco na sala, conversava, recitava nem se fosse “Batatinha quando nasce”, mas dava o ar da graça. Era uma convivência muito boa entre adultos e crianças e lá em casa como era mais um sítio, então tinha cachorro, toda criação, papai tinha orgulho de dizer que de lá só nós não comíamos carne, carne de vaca, porque frango, pato, peru isso era com toda fartura.

 

P1 – Dona Anita, o Senhor Alexandre e a Dona Dolores tinha o costume de coisas marcadas, gostava que todo mundo estivesse na mesa na mesma hora, tinha hora pra tudo?

 

R – Gostava e todos obedeciam e às nove horas da noite, olha que coisa mais incômoda para os rapazes, a minha mãe gostava de rezar o terço e os moços ainda estavam na rua, eles vinham às nove mesmo pra que depois saíssem novamente, pra rezar o terço. Isso fazia parte e aos domingos aí tinha família toda: os casados, os maridos, os netos.  Só que domingo, na casa de todas as pessoas que eu conhecia, o almoço é sempre mais tarde e lá em casa era mais cedo porque o papai cedia o carro para os empregados irem assistir o jogo de futebol e o jogo começava cedo e era todo mundo apaixonado pelo Uberaba Esporte. Meus irmãos, todos os três, foram Presidentes do Clube, então era tão desagradável almoçar cedo e aquilo era sagrado e o carro ficava com elas. O motorista gostava muito e elas todas, era um punhado de empregadas, umas seis ou oito, e ficavam o dia inteiro, o carro voltava pra casa de noite, quer dizer que nós não tínhamos carro aos domingos.

 

P1 – Dona Anita, depois desse episódio da tentativa de colocá-la num colégio interno, a senhora voltou e continuou nesse colégio das freiras em...

 

R – Continuei com as minhas amigas, com as minhas colegas até o fim.

 

P1 – E aí a sua formação escolar lá foi se desenvolvendo até...

 

R – Até o segundo grau que era professora mesmo normalista.

 

P1 – A senhora fez o segundo grau?

 

R – Fiz o normal, mas nunca exerci e dei o direito à professora de Metodologia de no meu diploma escrever: “Poucas aptidões para lecionar”. Porque geralmente eram meninas que precisavam do diploma pra se colocar, como tudo fazia crer que não necessitava pra não ficar muito feio pro colégio ter só meninas brilhantes, eu mesma com ela: “Pode. Coloca poucas aptidões, se quiser coloca até nenhuma”.

 

P1 – Quer dizer que isso consta no seu diploma a seu pedido?

 

R – A meu pedido, porque não ficava bem, né, todo mundo tão capaz assim não existe.

 

P1 – E a senhora optou pelo normal por falta de opções?

 

R – Por falta de opções, não tinha outra, naquela época não tinha ginásio, então era o curso primário, dois anos de adaptação, três de normal, mais dois de aperfeiçoamento, não tinha, eu não tinha, meu pai, nessa altura ele não ficava mesmo longe de mim. Nisso ele viajava e eu viajava junto, ele já estava no auge das drogarias, ele tinha muitos amigos de Drogaria Pacheco, Granada, essas firmas que ainda existem. Eu ia junto quando pequena, quando chegava eles já tinham preparado aqueles cadernos de caligrafia: “Nicolau puxa seu carro”. E o senhor nem sabe o que é isso, é tão antigo e eu ficava quietinha, fazia parte, por isso é que eu sei como é que se desenvolveu a vontade dele de drogaria, de ter telefone, o sistema de educar os filhos.

 

P1 – Eu gostaria que a senhora explicasse um pouco melhor isso, Dona Anita, o seu pai, por necessidade profissional de viajar, ele levava a senhora como companhia e a senhora levava suas lições pra fazer?

 

R – Levava. 

 

P1 – O seu pai com essa necessidade profissional de viajar levava a senhora como companhia?

 

R – Mas não prejudicava as atividades escolares.

 

P1 – A senhora levava as suas tarefas.

 

R – Levava e era sempre muito rápido tudo, eu vinha ao Rio e ficava dois, três dias. Era o tanto dele ter que discutir algum problema. Ele mesmo gostava. As compras necessárias.

 

P1 – E a senhora o acompanhava nesses encontros?

 

R – Eu ia, por exemplo, Pacheco era muito amigo, muito ligado, Granada era muito ligado e eu ia e eles já sabiam que a caçulinha vinha e já deixavam cadernos e tudo pra eu brincar, então eu nunca me separei dele.

 

P1 – O que a senhora se recorda desse tipo de relação que ele mantinha com esses fornecedores parceiros aí?

 

R – Muito bem, um tratamento muito respeitoso, o meu pai chegou a ser o representante da Bayer no Brasil, então embora a drogaria fosse em Uberaba, a matriz, ele era representante da Bayer e já, em uma ocasião, o próprio Presidente da Bayer veio ao Brasil e foi à Uberaba visitá-lo, foi um dia até de muita festa lá em casa.

 

P1 – Como é que foi esse dia?

 

R – Muita comemoração, era uma distinção muito grande ver aquele senhor. Eu já estava compenetrada, isso eu já era mocinha. Teve um jantar muito solene, ele foi levando muitos presentes, muito simpático, ele quis conhecer e voltou mais satisfeito ainda porque viu a posição da drogaria que até num livro do Chateaubriand ele faz referência, parece que na Bahia tinha uma Drogaria Schmidt que era do mesmo porte da de Uberaba, São Paulo e Rio não tinham, a extensão era um terreno enorme no melhor ponto da cidade e era uma drogaria e farmácia e os empregados sempre muito ligados a ele. Aí que eu comecei aprender o jeito de tratar aquele que trabalha. Não existia décimo terceiro salário, ele criou gratificação de Natal, os outros comerciantes ficaram muito revoltados que era um mal costume para se dar essa gratificação de Natal, mas ele era um homem educado porém muito independente.

 

P1 – Quantos empregados o seu pai chegou a ter nesse conjunto de drogarias?

 

R – Olha, eu não posso precisar, mas no discurso dele, na inauguração de telefone automático, ele se refere a centenas.

 

P1 – Como que era essa drogaria fisicamente, como é que nós poderíamos descrevê-la?

 

R – Muito bonito o prédio, muito bom térreo, mas com capacidade pra tudo: drogaria perfumaria, farmácia, era o que não tinha numa cidade grande que a gente viajava muito, sabia e conhecia. Ele já tinha sido sócio de uma drogaria em São Paulo na rua eu não sei se Direita ou São Bento, Drogaria Bráulio, então ele levou um pouco da experiência na montagem, era tudo muito bonito: a arrumação dos remédios, as prateleiras era tudo de muito fino gosto. Ele diariamente estava lá, na telefônica eu não tenho noção de ver o papai, entendeu, já na drogaria a presença dele era certa, ia de manhã, voltava, almoçava e ficava até a tarde.

 

P1 – Mas ele processava medicamentos ou só ficava mais na administração?

 

R – Ele não processava, ele era, vamos dizer, orientador de tudo e tinha muito bons empregados e tudo corria bem, ele dava a presença, a orientação e o capital.

 

P1 – Dona Anita, como é que o telefone entrou na vida da senhora e da sua família?

 

R – O telefone entrou como eu lhe disse, o papai teve necessidade de comunicação do Caçu que era um lugarejo com a casa de comércio Cunha Campos, isso aí foi antes da drogaria e daí teve um sócio o senhor Silvério Silva de Belo Horizonte, que ele ia ter a fábrica de tecidos, se entusiasmou e ele sempre foi muito empreendedor e Uberaba crescendo, ele então tomou a iniciativa de querer o serviço de telefone. Era uma dificuldade muito grande, até eu peguei dificuldades grandes, mas ele era destemido e assim foi que começou, eram aqueles telefones de manivelas, aquelas telefonistas antigas e depois aquilo foi progredindo...

 

P1 – Desculpa, esse negócio já nessa época já era liderado pelo seu pai?

 

R – Já, pelo papai.

 

P1 – Ele decidiu então e investiu no negócio.

 

P1 – Foi, não teve outra pessoa a não ser o senhor Silvério Silva que não tem nada a ver com drogaria e com telefone muito pouco, logo ele viu que não queria a fábrica de tecidos e ficou um pouco no telefone até o papai ter a orientação como deveria ser, ele saiu e o papai ficou sozinho no telefone.

 

P1 – E como chamava a empresa que ele criou?

 

R – A de telefone?

 

P1 – Sim.

 

R – Empresa Telefônica de Uberaba.

 

P1 – E essa empresa ficava onde? A senhora se lembra do prédio?

 

R – Muito, é uma casa velha que eu tenho as fotografias, uma casa muito velha, muito modesta, poucas linhas, acho que era cinquenta no máximo, era tudo muito resumido e aquilo foi progredindo até que a necessidade da cidade e a dele de realizador passou pra telefone automático em 1941.

 

P1 – Mas ainda só local ou já fazia interurbano?

 

R – Ah fazia, fazia interurbano, teve discagem direta, foi caminhando com progresso que existia e a fornecedora dele sempre foi a Ericsson, então o que havia de moderno era aquilo que o papai queria. E na Ericsson nós tínhamos um grande amigo que foi diretor durante trinta e dois anos na Ericsson, Cantifi, um dinamarquês, mas que trabalhava pra suecos, que foi muito amigo nosso e de Uberlândia, do senhor Alexandrino também, era sempre o equipamento que a gente queria, era Ericsson.

 

P1 – Wolf?

 

R – Wolf, conheci muito, foi meu amigo até morrer.

 

P1 – Como ele era fisicamente?

 

R – Ele era um homem grande, educado, simpático e muito dedicado à profissão dele e muito interessado que as companhias fizessem bons negócios, então tanto nós como Uberlândia sempre tivemos na pessoa do Cantifi um intermediário de primeira categoria. Senti a morte dele.

 

P1 – O seu pai, que dizer, era um negócio diametralmente oposto àquele que ele tinha, por que esse encantamento pela telefonia, o que o...

 

R – Progresso pra cidade, eu posso lhe afirmar que meu pai morreu sem sentir uma tarifa que compensasse mandar aquele serviço, porque na época dele era já muito difícil, graças aos bons relacionamentos que ele tinha com Benedito Valadares que era o governador de Minas, ele ainda conseguia alguma coisa, porque o problema da concessão e a prescrição e o estudo para que se tivesse uma tarifa era feito por pessoas que não tinham absolutamente categoria pra isso, era mais um caso político, qualquer preço que se estabelecesse estava errado, pensa que sacrificava o povo como se telefone fosse alguma coisa que tinha sido feito para ser gratuito, então houve muita batalha a ser vencida.

 

P1 – Era uma época em que as concessões eram municipais?

 

R – Eram municipais, eram estaduais no princípio, depois municipais e era sempre a longo prazo e com muita dificuldade pro concessionário.

 

P1 – E como é que seu pai encarava esses desafios?

 

R – Ele encarava, ele era um homem muito bem relacionado fora de Uberaba no governo estadual, ele encarava como necessário, não dava assim tanta importância, ele não sofria com isso, ele se dedicava às drogarias, tudo bem, ele não sofria, mas chega-se num ponto que a coisa não podia ser, meu irmão Silvio foi gerente também durante muitos anos, também sofreu muita pressão de vereador, parece que agora nós estamos voltando a um estado de dificuldades também e depois que eu sucedi o Silvio.

 

P1 – Eu queria só recuperar uma data Dona Anita, a data da fundação da ETUSA, a senhora tem essa data?

 

R – Foi em 1906, era Empresa Telefônica de Uberaba pra ligar poucas linhas, duas, cinquenta, sempre foi assim.

 

P1 – Voltando aonde nós estávamos, enfim, com toda essa dificuldade de negociação de tarifas de renovação de concessão, aí eu quero perguntar assim, e o empresário Alexandre como é que ele encarava isso, quer dizer, ele tinha lucro com o negócio?

 

R – Ele encarava uma coisa assim quase que natural, dada, eles que me desculpem a incompetência das pessoas que mais falavam, mais discutiam, então ele nunca entrou em choque com ninguém por isso.

 

P1 – E os usuários, como é que eles...

 

R – Os usuários eles sempre queriam pagar menos, sempre queriam mais concessões, então, por exemplo, extensão numa casa era dito quase como um furto nosso que era um exagero como o conforto não fosse pra eles, pro usuário, mas papai nunca teve atritos, ele sempre tinha uma palavra quando ele aparecia lá, procurava equilibrar, era uma pessoa muito bem dotada, a mim custou um pouco.

 

P1 – Mas, antes da senhora, o seu irmão Silvio assumiu?

 

R – Meu irmão Silvio também ficou muitos anos, também teve muita luta.

 

P1 – E foi uma decisão do seu pai.

 

P1 – Foi o papai que nomeou.

 

P1 – Pra poder se dedicar melhor às farmácias?

 

R – Pra ele poder ficar afastado e cuidar das drogarias como ele gostava.

 

P1 – Quer dizer, nessa época nós já estamos trabalhando com equipamento mais moderno.

 

R – Mais moderno, ia-se trocando.

 

P1 – Como era uma ligação de Uberaba pra São Paulo? Por exemplo.

 

R – Olha, no princípio era feita através da telefonista, era contrato da telefônica com a CTMG de Minas Gerais e depois com o CTB no Rio e era assim, e depois com a evolução e com aperfeiçoamento de equipamento, depois nós ficamos na discagem direta, no microondas e tudo.

 

P1 – Ainda nesses tempos heróicos, a região foi se desenvolvendo e as pessoas querendo falar com São Paulo.

 

P1 – Se desenvolvendo e as pessoas querendo e aí as ampliações foram se dando, né, papai, a instalação naquela época pelo discurso dele ficou numa fortuna, era dois mil contos de réis, uma soma muito alta, era tudo por conta própria, não existia autofinanciamento e nem facilidade nenhuma, era amor à cidade mesmo, mas chega num ponto que esse amor tem que tomar um rumo de, né, porque não era possível continuar, o Silvio ficou muito anos, depois é que eu fui.

 

P1 – Esse amor era correspondido, a cidade entendia isso?

 

R – Olha, a cidade era um pouco dividida. Entendia porque papai era muito respeitado, ele era uma pessoa que já tinha fundado Associação comercial, Casa de Cultura, Asilo Santo Antônio, então ele era respeitado e muito bem relacionado fora, então as pessoas do ramo viam que o que estava sendo feito em Uberaba era o que devia.

 

P1 – Dona Anita, depois que a senhora pediu pra sua professora fazer consignaria no seu diploma que a senhora não era apta a dar aula, o que a senhora foi fazer da vida?

 

R – O que uma mocinha da minha idade fazia, eu vivia, eu sempre gostei muito de ler, fui catequista, ensinava catecismo, coisas de assistência social, nunca tive trabalho, nunca tive obrigação.

 

P1 – E que tipo de literatura encantava a senhora nessa época?

 

R – Nessa época eu gostava como gosto até hoje mas não é meu fraco, mas gosto muito, biografia e romancinhos ligeiros.

 

P1 – E como é que a senhora foi acabar trabalhando na ETUSA, como é que se deu essa passagem?

 

R – Olha, foi uma circunstância natural, meu irmão já estava muito esgotado e com muito problema e de comum acordo nós vimos que precisava dar uma feição diferente e nessa ocasião era governador de Minas Magalhães Pinto, que foi quem sugeriu que eu fosse.

 

P1 – Por que Dona Anita?

 

R – Porque ele era muito amigo do meu pai e me conhecia e sabia que havia problemas e que era bom uma pessoa completamente neutra, não digo que impusesse alguma coisa mas que continuasse na família porque sempre era renovada a concessão, nunca teve ameaço de nada e aí que eu fui, como eu já disse, sabendo de telefone, discar.

 

P1 – Que tipos de problemas eram esses Dona Anita?

 

R – Problemas com bancos, com vereadores pra tarifa, criou-se uma animosidade que ele coitado do meu irmão sofreu muito, não devia continuar sofrendo sem resultado, porque se sofresse e conseguisse o intento muito bem, mas não era o caso, a própria Ericsson.

 

P1 – Mas que tipo de pressuposto se partiu pra resolver uma pendenga como essa por intermédio de uma pessoa absolutamente inexperiente?

 

R – Inexperiente sim, mas já estava numa idade que demonstrava que eu poderia ter aptidões pra aquilo, como era negócio de família, os outros dois irmãos já estavam com suas vidas voltadas pra outras coisas, as minhas irmãs casadas, então recaiu sobre mim e eu aceitei o desafio por causa do meu pai.

 

P1 – A senhora lembra do primeiro dia que a senhora chegou lá?

 

R – Me lembro, muito assustada, mas encontrei logo muita simpatia de todos e eu rapidamente fiz um relacionamento com os empregados muito bom, muito bom mesmo, aprendi com eles. Eu já tinha noções de tudo que eu aprendi, tinha o espelho do meu pai, mas me encantou ver solidariedade numa classe tão necessitada, gestos assim tão bonitos e muita dedicação ao trabalho, vontade de aprender, então aquilo me entusiasmou. Eu trouxe a Paulina, que fez até um depoimento pro Rio, pra ela poder ficar na CTB fazendo um estágio pra ser chefe de telefonista, porque estava meio desengrenado e precisava primeiro dar um toque de competência. E os demais, o chefe da rede foi extraordinário, o senhor Manuel Hernandes, fez ampliações porque antes das ampliações o pessoal da Ericsson que me indicou esse Manuel Hernandes para que nós fizéssemos um serviço mais econômico e perfeito de acordo com o que a Ericsson exigia, e ele trabalhou conosco, continuou depois. Ele é uma pessoa a quem eu devo muito e tinha na central também um técnico de primeira categoria, então eu não tinha problemas do funcionamento, como eu não entendia era muito difícil assumir uma situação que a parte técnica fosse muito, fosse tudo, mas como tinha um pessoal muito bom e logo que eu cheguei, eu me armei dessa gente e chamei o meu irmão José de São Paulo porque vi que era um empreendimento muito grande só pra mim, ele deixou os interesses dele e ficou na Vice Presidência durante algum tempo, mas veio a falecer e também foi um que faleceu sem sentir comercialmente um resultado melhor, porque era no auge de vereador querendo precisar a tarifa. Depois que ele morreu, o filho dele, o advogado Alexandre ficou comigo e ficou comigo até o fim.

 

P1 – Dona Anita, que ano foi esse que a senhora assumiu?

 

R – Foi 1960.

 

P1 – Como é que a senhora, embora tivesse delegado a parte técnica, a base técnica, enfim, como é que a senhora encaminhou a resolução desses problemas que tanto afligiam o seu irmão Silvio, do ponto de vista bancário, relacionamento e tudo mais.

 

R – Procurando empenhar a minha palavra num cumprimento correto daquilo que eles estavam descontentes, procurei os gerentes de banco, aliás os presidentes de bancos porque estava com algumas dívidas e a cidade descontente com uma ampliação que estava anunciada e com muita dificuldade pra poder ser realizada e aí tinha até equipamento no Porto de Santos, eu procurei resolver esta parte, fui muito feliz nos relacionamentos com as Docas pra obter um preço, porque aqueles equipamentos armazenados é uma despesa diária, é aumentada e com a Ericsson muito bem, o presidente do Banco do Brasil, eu não tive dificuldades, eu tive prazos e tive o meu empenho e a conduta de todos esses que me ajudaram, o serviço bom demonstrando que estava tudo bem não foi, era difícil lidar quando se pretendia aumento de tarifa, aí eu conversava de vez em quando com o senhor Alexandrino porque ele também sabia disso, era muito difícil nessa época e Uberaba ficou uma cidade considerada não sei por que ponto estratégico e a CTB não se conformava de não ficar com Uberaba. Eu tive uma ocasião, um almoço com o Presidente da CTB que começou à uma hora da tarde e terminou às oito horas da noite, ele tentando me demover de continuar, fazendo as propostas que ele achou que podia e sentindo no ar o meu desejo, o meu pensamento, a minha resolução inabalável que as nossas ações só iriam pra Uberlândia e havia uma rixa muito grande, não foi fácil. A CTMG foi a mesma coisa, foi um período que eu passei com muita dificuldade nesse sentido de não poder ter o jogo aberto como eu gostaria e como é do meu caráter pra não prejudicar Uberlândia e nem a nós e com a certeza de que eu sairia vitoriosa e que mais dias menos dias o senhor Alexandrino e o Luiz teriam Uberaba, o que foi muito bom pra Uberaba porque não podia uma cidade isolada dar um atendimento que a cidade já precisava, é muito difícil uma empresa só conseguir estar sempre atualizada e eles já estavam, nem sei como, mas eles hoje já têm em oito municípios, não, oitenta e sete municípios e trezentas e muitas cidades, localidades, quer dizer era uma força de igual pra igual ou se fosse inferior um pouco à CTB mas era de posição de sentar na mesa e discutir em termos de igualdade, então os meus laços de amizade com eles eram muito fortes como são até hoje, o Luiz pra mim é uma pessoa muito querida, muito amigo mesmo. 

 

P1 – Nesse momento esse tipo de assédio que a senhora sofria, era no sentido mesmo da senhora...

 

R – Sair.

 

P1 – Sair e deixar as ações ou pra CTB ou pra CTMG.

 

R – Exatamente.

 

P1 – E eles jogavam pesado?

 

R – Jogavam muito pesado, até brincavam: “Pode namorar Uberlândia o quanto quiser mas na hora do casamento é conosco”. E eu retrucava: “Ah, o senhor tá certo, casamento se desmancha no altar”, quer dizer tanto podia desmanchar com eles também, né? Eles diziam: “Menina, cuidado”, porque era numa época que uma penada me tirava mesmo, mas como ia ficar uma coisa eu penso muito escandalosa porque não havia um motivo pra eu perder a concessão, aí impunha um pouco de respeito à pessoa deles, onde já se viu uma coisa dessas, retirar uma concessão se não é uma falha grande no cumprimento do contrato e foi difícil, o senhor Alexandrino sabe e o Luiz também, o Luiz nessa altura já tomava parte.

 

P1 – Do ponto de vista da relação com essas pessoas, do ponto de vista digamos de cúpula, não era estranho pras pessoas o fato de uma mulher estar na frente de um negócio, isso causava algum tipo de constrangimento por parte deles?

 

R – Constrangimento, não era bem constrangimento era um susto sabe, mas como eu disse, eu tinha muito bom relacionamento, Magalhães Pinto me encaminhava, presidente do Banco do Brasil que era amigo, das Docas o Doutor Margem que foi de uma compreensão, nunca se viu nas Docas um caso de devolver dinheiro de armazenamento que tinha sido pago, então eram gentis viam a minha boa vontade e procuravam ser úteis, admiravam, tinham curiosidade, curiosidade essa que eu sabia muito bem contornar, não tinha porque dar tanta explicação e como o serviço era bom não tinha o que falar.

 

P1 – O que podia da gestão, era estranho uma mulher estar a frente de um negócio dessa magnitude.

 

R – Eu passei momento até engraçados porque chegavam, aí foi criado nessa época Contel, Detel porque nós fomos por etapas até ter ministério organizado e tudo, então chegava alguém, entrava na minha sala e perguntava: “A Dona Anita vai demorar?”. Eu ficava toda encabulada. Eu falei: “A Dona Anita sou eu, o senhor queria uma mulher gorda de óculos, de sapato de salto grosso assim, mas sou mesmo”. E fornecedores Ficap, Pirelli essa gente levava primeiro um sustinho depois não todos eram muito amigos. “Dona Anita sou eu, sinto muito mas o senhor não vai encontrar uma gorda de óculos e salto grosso e tal”.

 

P1 – E a senhora subia nas tamancas quando era preciso?

 

R – Nunca foi preciso, nunca, não, é uma coisa rara.

 

P1 – O segredo, qual que é o pulo do gato?

 

R – Era o trato pessoal, a confiança depositada, o trato pessoal e a confiança depositada, confiança essa que dava a eles a certeza de que iam fazer tudo certo. Eles tinham orgulho, orgulho das tarefas que eram dadas e muita confiança e muita vontade de entender, de saber e tinham realmente muita confiança em mim, problemas pessoais. Eu cheguei um dia e encontrei uma placa, uma placa bem feita na porta da minha sala “Empresa Telefônica de Uberaba S.B.”, eu falei: “Que negócio é esse?”. Sociedade Beneficente, porque eu entrava nos problemas familiares dos empregados, eles me confiavam e eu procurava resolver e sempre fui muito feliz e resolvi, eu digo sempre essa confiança e bom relacionamento com superiores a mim, entendeu, quando precisava dar algum trabalho na Câmara, deputado Rondon Pacheco por exemplo, o Rondon era muito cioso de ser do Triângulo Mineiro, de Uberaba. Ele devia ser muito relacionado com os Garcia mas nem por isso era só bairrista de ser só Uberlandia. Ele dava à Uberaba um trato muito especial, isso facilitava o meu comportamento e o trato com os empregados era muito especial, eu recebia, nunca empregado nenhum pretendeu conversar comigo que não fosse atendido, mesmo que fosse uma coisa assim, uma compra de um colchão, pedia vale pra comprar um colchão, uma coisa que o gerente não dava, eles recorriam a mim e eu cedia. Uma vez teve um caso muito interessante que um, ótimo, Djair precisava com urgência – eu pensei que fosse doença –, se eu podia dar a ele um dicionário, aquilo me encantou, eu falei: “É pra já Djair”. Eu escrevi autorizando a livraria que entregasse. Saiu ele feliz da vida. Passa-se uns dias – porque eu não morava em Uberaba, morava no Rio, eu ia todos os meses, eu ficava quinze dias lá e quinze dias no Rio –, quando eu chego de volta, quem eu vejo na porta me esperando? “Dona Anita eu preciso muito falar com a senhora. A senhora sabia que missiva pode ser carta?” Eu falei: “Djair que beleza”. “Pois é Dona Anita.” Então aquilo parecia uma anedota, mas dava a ele uma importância de me prestar contas que ele estava realmente lendo o dicionário e eu encorajava, tudo bem, depois quando ele adoeceu, até morreu, teve um tumor no cérebro, os funcionários até brincavam: “Tá vendo Dona Anita, a senhora foi dar dicionário pra ele, a cabeça dele não aguentou”.

 

P1 – Dona Anita, vamos falar um pouco sobre esse relacionamento com os funcionários, esse congraçamento, essa coisa tão próxima, o que a senhora atribui a isso? O seu temperamento ou o fato deles serem pessoas...

 

R – Ah, eles eram de fato pessoas muito dignas de admiração e a minha facilidade de comunicação e o conhecimento dos problemas que eles viviam e um certo poder de poder resolver os problemas deles, por exemplo, a maioria casado com filho precisando de colégio, precisando de tudo, eu assumi, todos os filhos tinham colégio, tinham os livros, eu tinha tanto carimbo, carimbo pra isso, carimbo pra aquilo, pra retirar os livros na livraria, formei médico, advogado, químico, economista, o que quisesse e fora os que eram de instrução primária, todo mundo estudava, todo mundo tinha livro, todo mundo tinha médico e remédio, então eles não tinham motivo e eles não me davam motivo, era um troca, uma troca bonita. Eu não fazia no interesse de usá-los, fazia porque achava que era meu dever, que era a minha obrigação e se todo empresário pensar assim, a produção dele é mil vezes superior.

 

P1 – A senhora exercia um nível de responsabilidade social que à época é muito...

 

R – Completamente desusado, a primeira coisa que eu institui era dois lanches diários e ficava emocionada porque muitos: “Dona Anita, será que a gente pode levar o pão e a mortadela pra casa?”. Eu falava: “Não só pode como come aqui”. Então era um lanche que o meu gerente ficava doente: “O que você está pensando?”. Era um senhor de idade e sempre trabalhou pro meu pai, trabalhou na drogaria, era uma pessoa de confiança. “Eu estou pensando que eles estão com fome senão não queriam levar pra casa e estou pensando que não há de ser um...” “Mas não é um, são muitos” E nesse dia eu fui à Araxá e estava no hotel o Magalhães Pinto e ele ficou alegre e veio conversar, eu falei: “Governador, eu acho que faço algumas coisas que não tem assim um autoridade legal” e comecei a contar pra ele. “Faz muito bem e conta comigo, qualquer coisa que você precisar, fala comigo, é isso mesmo.” Ele era um homem muito especial e na diretoria da empresa eu não podia ter problema porque era eu, o diretor secretário era o pai da Liana, o Zé Mendonça que era também um homem querido pela cidade inteira e muito generoso, muito compreensivo, nunca o Zé Mendonça me falaria: “Anita, você tá exorbitando do regulamento ou isso ou aquilo”, pelo contrário, ele me estimulava, quantas vezes ele insinuava alguma coisa, por exemplo, a Paulina que era sobrinha dele: “Será que aí tem lugar”. Eu disse: “Já teve”. Eu nem queria saber e no entanto a Paulina foi um braço direito que eu tive e lá na empresa ela conseguiu educação pros filhos, ela era muito grata.

 

P1 – E esse seu gerente, quem era essa pessoa?

 

R – Edmundo Carvalho, um homem muito correto, muito direito, muito trabalhador, muito sistemático, muito ranzinza, nunca ele era do lado do empregado, então em matéria de vale o que eu sofri, ele falava: “Mas não é possível”. Eu falava: “É possível, senhor Edmundo, não fala alto pra ele não escutar, pra achar que o senhor não quer, não fica bem pro senhor”. Ainda dava uma lição de moral e eu deixava, podia ser o maior absurdo, na contabilidade podia dar o maior trabalho mas na realidade só dava alegria, nunca fui tapeada por nenhum empregado, se pedia é porque precisava e se precisava eu ainda brincava muito com ele, eu fazia: “Seu Edmundo, o que o senhor quer, que ele vá pedir vale lá na casa Caldeira? Tem que pedir pra mim”. Então era um clima harmonioso, discutia mas sempre em tom natural, deixava o seu Edmundo bem e os empregados tinham pavor e eu não tirava a autoridade dele, eu falava: “Não, vai, mas é com o seu Edmundo essa parte”, mas dava uma volta na sala do Seu Edmundo antes dele entrar e deixava a coisa decidida porque senão não dava certo, era uma casa doméstica, entendeu, uma empresa e deu tudo muito certo, entreguei as ações pros Garcia, não devia um centavo, tinha dinheiro em caixa como se dizia e tudo muito organizado, empregados muito bons que o Luiz pegou e soube aproveitar corretamente.

 

P1 – Como é que foi esse processo pegando no contexto dos governos militares, a centralização, a criação do Dentel, Contrel, Embratel, quer dizer, começa haver uma estatização do sistema e a senhora lá numa cidade pequena, numa empresa particular e familiar, como é que foi esse assédio e como é que a senhora trabalhou com isso? 

 

R – Eu trabalhei, eu fui muito feliz porque, o problema que aparecia, eu sabia contornar e geralmente eu sempre tinha razão, eu não entrava numa disputa pedindo proteção, nunca pedi, eu usava os meus conhecimentos pra relatar o que estava se passando e dizer qual era a solução que eu via e Deus me ajudava porque eu sempre estava certa. Então não houve, houve a disputa por Uberaba, houve o descontentamento desse CTB e CTMG muito grande, mas aquilo pra mim não tinha importância, eu queria seu Alexandrino e o Luiz com toda a cidade como eles precisavam, porque Uberaba foi muito importante pra eles, eu já entreguei Uberaba com microondas com tudo, então já pegou a situação muito boa.

 

P1 – Nesse processo de assédio da ETUSA a senhora passou por momentos ruins que a senhora se lembre, alguns momentos que tivesse desgastado a senhora?

 

R – Eu passei nesse almoço com o General Siqueira que era então o Presidente da CTB...

 

P1 – A senhora tem o nome completo dele?

 

R – É Siqueira o sobrenome.

 

P1 – A gente acha, mas nesse almoço...

 

R – Nem sei se ele está...

 

P1 – Não, mas a gente acha o nome.

 

R – Eu fiquei porque ele tinha argumentação e eu tinha a minha, a minha pesava muito, porém igualmente o lado afetivo e a competência dos Garcia, eu não estava querendo fazer favor a alguém que não estivesse à altura, era o bem da minha cidade e eu achava que o bem da minha cidade era com Uberlândia, então eu procurava não me comprometer muito porque eu sabia do risco que eu corria, mas eu procurava ser honesta de dizer não, eu sempre falava: “Ah, por enquanto eu ainda não penso nisto, eu ainda estou indo, estou aprendendo, tô gostando, os senhores têm alguma queixa contra mim?”. Eu levava sempre pra este lado: “Alguma coisa errada eu já cometi? O serviço é de má qualidade?”. Não era. Eu ganhei a concessão de fazer a linha de microondas de Ribeirão à Brasília, quer dizer que o serviço era bom.

 

P1 – Como é que foi esta história dessa conquista?

 

R – Foi concorrência, então eles ficavam sem graça, como querer forçar uma pessoa a sair de um lugar que ela estava demonstrando capacidade e eu vi que saí na hora certa, o nosso grupo familiar tinha que sair naquela hora, porque Uberaba tava requerendo um aumento muito grande de linhas e outro gênero mesmo, equipamento que no meu tempo era GF, já estava existindo coisa superior e isso só podia através de Uberlândia, não havia grupo nenhum que se juntasse para pleitear, ficar com Uberaba que tivesse condições, podia até ter alguma condição financeira que também acho difícil mas não tinha condição de pleitear uma concessão sem uma folha de qualquer serviço prestado no ramo, com que credencial eu vou querer, né?

 

P1 – Nesse momento a senhora estava pensando mais na cidade do que no negócio.

 

R – Eu pensei muito na cidade e pensei muito em dar ao senhor Alexandrino esta, vamos chamar uma recompensa de ficar com uma cidade importante do Triângulo Mineiro.

 

P1 – Chegaremos a ele já já, eu só quero lembrar a senhora o seguinte, nesse momento qual era a base de assinantes da sua empresa?

 

R – Três mil e quinhentas linhas.

 

P1 – Uma outra pergunta também nesse sentido, como é que as decisões pelos upgrades tecnológicos eram tomados, a senhora tomava a frente disso ou também delegava aos seus técnicos essa necessidade?

 

R – Ah, tinha por exemplo, na parte jurídica tinha o meu cunhado e o filho dele que foi um grande advogado na Light, então foi esse meu sobrinho que pode arquitetar a maneira de se sair porque não era fácil, basta dizer que o Luiz ficou com as ações dele no meu nome quatro ou cinco anos, não houve de imediato transferência nenhuma, eu tô dizendo isso mas não prejudica nada a eles, né?

 

P1 – Absolutamente. A senhora se referiu anteriormente nesse momento das, ainda das ações das concessões no âmbito municipal que a senhora se aconselhava com o senhor Alexandrino já naquela época, como é que a senhora conheceu o senhor Alexandrino?

 

R – O senhor Alexandrino, ele entrou muito depois de nós, entendeu, a empresa de Uberlândia era do senhor Tito Teixeira, quando eu fui pra Uberaba é que o meu relacionamento com o senhor Alexandrino ficou muito caracterizado e muito afetuoso, porque ele ia lá.

 

P1 – Como é que a senhora o conheceu, em que circunstância?

 

R – Porque ele ia lá em Uberaba pra saber coisas, saber de telefone e tal, porque quando esse senhor Tito Teixeira viu, o caso que eu vi, ele viu que não podia continuar na mão dele, ele convidou meu pai, meu pai não quis porque o fato do papai ter tido o telefone em Uberaba era um caso muito especial de uberabense apaixonado, não era visando uma rede de telefonia.

 

P1 – Quer dizer que esse relacionamento se remonta lá por 1954, 53.

 

R – Depois.

 

P1 – Antes do senhor Alexandrino vir à Associação Comercial, encampar a Teixeirinha, ele já ia se aconselhar com a senhora?

 

R – Não, comigo não.

 

P1 – Mas procurou seu pai?

 

R – Procurou, eu acho que sim, porque meu pai faleceu em 1951, ele procurou muito a empresa a partir de 1941, coisa assim, ele frequentava lá.

 

P1 – O senhor Alexandrino?

 

R – É, mas eu não estava, 1941, 1947 por aí, Uberlândia começou quando a CTBC vai fazer cinquenta anos, né, então nesse tempo o auxiliar dele era Boulanger Fonseca que ficou sempre muito meu amigo, o Boulanger morava no Rio, morava lá perto da onde eu residia e sempre conversava comigo e falava no senhor Alexandrino, o Boulanger Fonseca quem me apresentou o senhor Alexandrino.

 

P1 – A senhora lembra em que circunstâncias isso sucedeu?

 

R – Socialmente, o senhor Alexandrino depois passou a frequentar mas nesse tempo era o Silvio meu irmão que estava em Uberaba.

 

P1– E que impressão a senhora guarda dele?

 

R – A melhor possível, um homem bem disposto, alegre, minucioso. O senhor Alexandrino, eu acho que ele não podia ver um prego fora do lugar, muito minucioso, bondoso ele tinha um espírito também de valorizar o empregado, tinha sim. Muito educado, muito simpático, tratava as moças lá, as telefonistas todas com muita atenção, muito bem quisto na Ericsson. O Cantifi gostava demais, o senhor Alexandrino e o Luiz, porque houve um intervalo que o Luiz não tomava tanta parte, então era o senhor Alexandrino que desbravou, que conquistou, uma figura muito inesquecível pra mim, porque quando o meu irmão José que eu chamei para ficar comigo porque eu não tinha cacife para o que eu estava empreendendo, quando o José faleceu eu estava no Rio e quando eu fui pra São Paulo o José morava em São Paulo e, quando o avião aterrissou, a primeira pessoa que eu vi no aeroporto foi o senhor Alexandrino, ainda me abraçou e disse: “Você conta comigo pra tudo que precisar, você sabe o que é tudo?”. Quer dizer, ele deixou implícito tudo, né, eu jamais deixaria Uberaba sair da mão deles, não haveria proposta, tive uma vez uma proposta da CTMG através de um Diretor que era muito meu amigo, médico e muito espirituoso, disse: “Anita, eu tenho uma proposta pra lhe fazer mas eu não vou fazer, porque a proposta é para viúva, pobre e burra, você não é nenhuma dessas coisas”. Eu falei: “Olha que eu posso bater com a língua nos dentes”. Ele era do emissário: “Eu sei que você não fará isso”. Tô falando agora mas também com ressalva, “Viúva, pobre, burra”, é difícil conseguir três desclassificações pra uma pessoa só.

 

P1 – Dona Anita, nesse momento em que a senhora percebe que a empresa já não teria mais escala pra crescer e esse assédio de outras empresas fora do Triângulo, quando veio essa decisão, o relacionamento com o senhor Alexandrino já era um relacionamento muito...

 

R – Ótimo, eu já era chamada só de anjo, ele me chamava só de anjo.

 

P1 – Por quê?

 

R – Não sei, ele só falava: “O anjo está?”. No começo quando ele me procurava já estava mais do que sacramentado que o senhor Alexandrino...

 

P1 – E ele mencionava a possibilidade de ter o controle das ações ETUSA?

 

R – Mencionava e sabia que tinha, me chamava pra fazer parte, por gosto dele eu não teria saído, eu não sei o que ele iria fazer comigo mas eu iria fazer parte entre os móveis e utensílios, teria a Anita também, o anjo e o Luiz nessa época já era o Luiz também. É uma gente simples, eu falo o senhor Alexandrino e o Luiz é uma gente simples, pura, bem intencionada, empreendedora, é o tipo do empresário bem sucedido fora dos padrões nacionais. Eu me lembro quando fizeram alusão a ele ser cotado como uma das grandes fortunas até do mundo, ele tinha recebido, houve um jornal de São Paulo que o chamou de caipira e ele tinha recebido aquele certificado ISO de tudo bem...

 

P1 – A senhora está se referindo ao doutor Luiz?

 

R – É, e ele mandou publicar no jornal de São Paulo a notícia do certificado e pôs “Coisas de caipira”, eu achei bom “Coisas de caipira”.

 

P1 – E que ele esteve numa lista da Revista Forbes 95, 96 uma coisa assim.

 

R – “Coisas de caipira”.

 

P1 – Com muito orgulho.

 

R – Com muito orgulho. Então era fácil a convivência com eles e o objetivo, e eles falavam a pretensão com muita delicadeza nunca menosprezando a minha falta de condições, que às vezes eu chamo incompetência, mas é falta de condições, e eles falavam com muita distinção, nunca querendo que eu saísse fora, numa proposta de negócio não era para a cidade se livrar de mim e eles poderem conquistar, muito finos e muito simples no falar e a verdade dita com simplicidade, ela cala muito mais de que com rodeio, né, o rodeio enfeita, no fim a gente acaba percebendo que tem mais enfeite do que consistência e já tratar com eles não tem nada disso, é pão pão queijo queijo, o Luiz é assim, pelo menos eu sinto que ele seja assim até hoje: “Tá satisfeito, tá. Não tá, fala”.

 

P1 – E eu queria que a senhora falasse um pouco do senhor Alexandrino nesse tipo de relacionamento, isto é, a senhora já o conhecia?

 

R – Já o conhecia, me convidava pra almoçar na casa dele, na chácara, a dona Maria fazia o melhor bacalhau do mundo e ele sempre muito amável, então depois da morte do meu irmão ele ficou assim um tipo protetor até, me perguntava: “Tá precisando de alguma coisa”, nunca dando a impressão o que ele queria era conquistar Uberaba e ele era um homem simples, poderia se trair, né, se fosse o modo de me tratar por algum interesse podia escapar alguma coisa, nunca. “Tá precisando de alguma coisa, tô aqui” Fico muito contente de Uberaba estar nas mãos dele.

 

P1 – E quando é que a senhora e ele resolveram encaminhar esse procedimento da transferência das ações, quando é que a senhora decidiu de fato que estava na hora de sair de Uberaba?

 

R – Foi em 1971.

 

P1 – Mas nós já estamos falando aí de um momento que já começa a ser implantado essas tecnologias de DDD, DDI.

 

R – Não, já tinha, já tinha estudo disso, eu falava perfeitamente, eu falava com o senhor Alexandrino: “Senhor Alexandrino, eu estou aprontando a noiva, um enxoval de noiva. Senhor Alexandrino, não é feita rapidamente, o senhor tenha paciência que a noiva vai levar um enxoval completo”. Então era nesses termos que nós negociávamos, completamente diferente do usual, que é dá cá dou lá, quanto é quanto não é, não levava isso não, levava a noite, tem que ser enfeitada, no dia que eu achei que a noiva estava linda eu comuniquei que a noiva estava linda.

 

P1 – E ele?

 

R – Ele na mesma hora, disse: “Você é quem sabe”. Eu queria que estivesse tecnicamente perfeito, financeiramente perfeito, tudo perfeito, empregados perfeitos. Eu não entreguei pra ele nenhuma bomba, isso eu tenho orgulho, nem é orgulho, é uma satisfação pessoal, não foi por estar mancando em alguma coisa que eu resolvi sair. Minha mãe estava muito doente pra eu ficar viajando, era uma coisa que estava me cansando, mas eu passaria por cima disto tudo se não estivesse tudo como eu digo, “Uma noiva perfeita”, e a hora de Uberaba precisar de um incremento que eu não poderia, que aí a incompreensão do povo seria muito maior, não é sem razão que diz que santo de casa não faz milagre e ali estava precisando, a cidade crescendo, novos equipamentos chegando e o capital que exige de tudo isso não é pra uma família, né, mas a minha convivência com ele foi muito boa, me levou logo pra família, pra almoçar, a dona Maria muito amável, o Luiz, conheci o outro filho o Walter, muito simpático, muito educado, Eleuza.

 

P1 – A senhora tem alguma lembrança do seu Walter assim que tenha ficado marcada?

 

R – Tenho, uma vez ele esteve lá em Uberaba muito educado, não seria nunca uma pessoa combativa, entendeu, seria sempre exemplar porém não teria o temperamento dos dois e nem penso eu, agressividade pra negócios e uma visão de futuro bem distante, mas uma pessoa muito boa, muito fina.

 

P1 – Mas ao mesmo tempo era uma retaguarda contábil da maior consistência.

 

P1 – Muito, muito peso, tinha muito crédito moral, já nem digo no financeiro mas a palavra dele era muito respeitada, muito boa pessoa, excelente pessoa.

 

P1 – Dona Anita, a senhora se referiu que nesse momento a senhora se dividia entre Uberaba e Rio, o que motivou a senhora ficar nessa ponte entres as duas cidades?

 

R – Porque nós morávamos no Rio.

 

P1 – Já havia mudado pro Rio?

 

R – Já, nós já tínhamos deixado Uberaba há muito tempo e eu ficava quinze dias no Rio e quinze dias em Uberaba, pavor de avião, eu fiz trezentas viagens de ônibus, também com muito bom relacionamento com o senhor Costa que era proprietário da viação Normandy que era a linha que fazia, né? E um belo dia como eu sou muito católica, eu estava com muita vontade de passar na Aparecida do Norte e no trajeto não passava em Aparecida, passava ao lado e eu resolvi que nós íamos passar em Aparecida e o motorista de nome Machado disse: “Dona Anita, mas a senhora antes de chegar em Uberlândia, a senhora fala com senhor Costa”, que o senhor Costa era de Uberlândia, eu falei: “Falo, pode entrar, nós vamos na igreja”. Primeiro eu perguntei aos passageiros se um atraso de alguns minutos ia complicar a vida e se tinha católicos, foi uma salva de palmas como eu nunca recebi igual, eu falei: “Tá vendo, Machado”. E lá fomos pra igreja, depois quando cheguei em Uberaba a primeira coisa que eu fiz, eu telefonei pro senhor Costa: “Senhor Costa, eu fiz uma arte. Espero que o senhor me desculpe, me perdoe mas a intenção foi muito boa”. Ele falou: “O que que foi, Dona Anita”. Eu contei: “Fez muito bem, está autorizada. Quando quiser, pode repetir”. Quer dizer, saber tratar as pessoas, o senhor Costa era muito, quando ele foi pra Uberaba que precisou de telefone, eu procurei facilitar o máximo, números fáceis, então havia entre nós uma camaradagem que me deu direito a fazer isso, né?

 

P1 – Não era muito desconfortável pra senhora não, essas viagens?

 

R – Era horrível porque na época eu tinha problema de coluna e usava um colete de gesso, de ferro que pegava do pescoço abaixo da cintura, então era desconfortável, era difícil, mas muitas vezes eu ia até São Paulo e de São Paulo com meu irmão ou com o meu sobrinho aí pegava o carro, mas a maioria eu comprava duas passagens porque não tinha ônibus leito e lá ia eu com o meu colete nas duas poltronas, chegava bem, a força da idade, o espírito de servir, a vontade de dar certo, a responsabilidade assumida dava energia pra fazer tudo isso, hoje quando eu penso, eu falava: “Não fui eu”.

 

P1 – Dona Anita, nesse momento, voltando ao negócio, nesse momento que a senhora decidiu “Seu Alexandrino, a sua noiva está pronta”, como é que a senhora administrou digamos assim essa rivalidade existente entre as duas cidades, ou isso não importava tanto mais?

 

R – Pra mim não importava nada.

 

P1 – Mas e o público?

 

R – O público achava que nunca a Telefônica poderia ter saído de Uberaba, que poderia de certo uma composição de várias pessoas e tal, mas aquilo não chegou a me pressionar em nada. Eu achava uma argumentação falha e eu sou bairrista como mineira embora não tenha nascido em Minas e sou apaixonada pelo Triângulo Mineiro, então Uberlândia, Uberaba pra mim são cidades equivalentes. Eu não tenho isso muito, pelo contrário, eu gosto demais de Uberlândia. No colégio que eu estudei eu tinha muitas colegas que eram de Uberlândia, meu pai gostava muito, tinha drogaria lá, tinha muito conhecimento, sei que houve murmúrios neste sentido. Eu nunca tomei conhecimento e eu nunca tive oportunidade de dialogar com pessoas contrárias à minha posição, primeiro eu não daria confiança de discutir um negócio que era meu e, em segundo lugar, eu não achava que o espírito das pessoas que assim pensaram na época... tacanho, porque eu pensava muito mais no progresso de Uberaba do que eles, eles queriam começar do B, A, BA quando eu já estava no F, G, H e não tinha uma credencial pra sequer pretender uma concessão, né, eu raciocinava isso mas não podia colocar na cabeça dos outros e honestamente eu era muito independente, eu tinha que falar com a minha família, com o advogado que era diretor secretário, com o filho dele que morava no Rio que é um advogado muito competente que achou a forma de poder fazer isso, porque não era fácil, não era mercado aberto, as ações não estavam na Bolsa e era uma concessão, foi muita habilidade do meu sobrinho e muita concordância do senhor Alexandrino e do Luiz.

 

P1 – E como é que se deu essa transição, do ponto de vista comercial como é que ela se consumou?

 

R – Se consumou ficando as ações no nome do Luiz e a passagem documental possível passada para o Luiz e essas ações ficaram no meu nome quatro ou cinco anos, eu cheguei a fazer um testamento, eu falei: “Não Luiz, não pode ficar assim, confio na minha família mas amanhã eu morro, que negócio é esse, não é possível”. Foi de uma maneira muito brilhante da parte do meu sobrinho, muito coerente deles e muito disposta minha. Do meu sobrinho, filho desse que morreu, Alexandre que trabalhou comigo muitos anos, uma convivência muito boa, advogado também, ficava muito escandalizado com as coisas que eu fazia mas no íntimo ele aprovava tudo, de vez em quando ele falava: “Mas Anita, será não será”, mas muito boa pessoa pra se trabalhar, muito simpático com o público. Ele era um pouco retraído mas conseguiu sair de um certo acanhamento pra poder..., no serviço público se você não tiver um bom relacionamento é muito difícil.

 

P1 – O nome dele completo?

 

R – Alexandre Cunha Campos Neto e ele foi um ótimo companheiro, muitas vezes eu fui sem ele e muitas vezes ele ia pra Uberaba sem eu ir, pra Uberaba não ficar uma coisa administrada por telefone, sempre tinha presença minha e dele, mas geralmente nós íamos juntos que era agradável pra mim, agradável pra ele, tínhamos atribuições diferentes, eu ficava na Sociedade Beneficente e ele tratasse de cumprir outras coisas.

 

P1 – A senhora se lembra de detalhes desta articulação que ele fez por vista jurídico pra fazer com que essa transição pra CTBC se...

 

R – Como é eu não sei, porque nessa hora eu passei o caso pra quem sabia, eu sei que foi uma articulação muito bem feita e que nunca poderia ter sido posta à prova e nem à dúvida, tudo muito legal, basta dizer que as ações ficaram no meu nome, então ele assumiu eu existindo, as minhas irmãs existindo.

 

P1 – É impressionante, falar por absurdo, se a senhora fosse um homem era um fio de bigode que a senhora estava dando ao senhor Alexandrino.

 

R – Exatamente, e eles procederam, o meu sobrinho advogado estudou muito e expôs a única maneira possível sem entrar em até perda da concessão e eles concordaram com tudo, acharam tudo muito certo e não foi o meu sobrinho que orientou no sentido das ações do Luiz ficarem no meu nome, foi o próprio Luiz: “Para facilitar, continua como está” e foi assim que foi feito. Depois de tantos anos foi que a coisa se processou.

 

P1 – O bonito dessa história é que o valor fundamental é o valor intangível e material que é a confiança, né?

 

R  – Era total, eu tinha neles e eles em nós, então não tinha dúvida, não é como um negócio que você tem que se cercar de mil cuidados. Não teve condicional. É porque é e pronto. a

Acabou e nunca me arrependi, pelo contrário, quando eu sei que há ampliações em Uberaba eu fico muito feliz, muito orgulhosa de ver que deu tudo certo.

 

P1 – Como é que se deu Dona Anita a transição já no aspecto dos seus funcionários desse tipo de relação que a senhora mantinha com os seus funcionários e desembarcando uma nova cultura empresarial em Uberaba?

 

R – Foi bem, porque a coisa estava muito bem implantada, eles eram muito bons, o Luiz não podia achar defeitos e precisar de grandes modificações. Ele fez modificações que um empresário que tem em várias cidades, centralizando mais a administração em Uberlândia do que mesmo em Uberaba, porque ficaria difícil, mas pessoalmente acredito que ele nunca teria caso nenhum de aborrecimento lá, não tinha, Manoel Hernandes continuou, os que eram de importância assim continuaram, a Paulinea continuou, as telefonistas, não houve um corte era assim e ficou assim, não, houve uma continuidade e as modificações que ele fez no sentido de orientação empresarial que não era a minha, eu estava dona de uma casa com funcionários que trabalhavam naquilo, já não é a mesma coisa que uma empresa que comanda tantas cidades, tem que ser diferente.

 

P1 – Aquela resistência que a senhora disse ter detectado nos primeiros momentos dessa transação, ela muda depois que a CTBC chega com vista da qualidade do serviço e tudo mais, a senhora teve alguma percepção nesse sentido nas suas idas à Uberaba?

 

R – Eu sinto que Uberaba sente falta de uma pessoa lá, porque hoje todas as reivindicações, todas as pretensões são passadas pra Uberlândia, isso não deixa de ser uma pontinha de descontentamento, mas com relação ao serviço, acredito eu que não tenha sido alterado.

 

P1 – Mas nos primeiros momentos da transição isso ficou evidente?

 

R – Nos primeiros momentos achavam que eu devia ter conservado eu mesma, ou então um grupo local. “Não, nada contra pessoal”, este bairrismo que existe, mas coisa que foi arrefecida.

 

P1 – Nós falamos bastante do senhor Alexandrino, mas nesse processo todo a senhora começa a se relacionar muito com o Doutor Luiz, fala um pouquinho dele, como é que nasceu essa amizade tão bonita entre vocês dois?

 

R – O Luiz sempre, desde a primeira vez que ele apareceu lá ele cativou nós todos, todos os empregados gostavam dele, eu gostava dele. Foi um relacionamento muito bom. Eu não sei se o Luiz fosse meu parente, talvez a gente não tivesse tantas afinidades como nós temos. E temos desafinidades, que são motivos de troca de ideias, de porquês: “Você acha?”, “Eu não acho.”, “Você pensa.”, “Eu não penso.”. Mas sempre prevaleceu a afinidade, visão das coisas, sistema de vida, noção familiar, então foi um amigo de sempre, e é, quero muito bem a ele, e ele também me quer muito bem, eu tenho certeza disso.

 

P1 – Dona Anita, como que a senhora, com toda essa experiência, com todo esse conhecimento que a senhora tem nesse tipo negócio - não vou lhe pedir nenhum exercício de futurologia, - mas como a senhora vê, o futuro da CTBC, o que a senhora enxerga até onde dá para enxergar adiante, que horizonte reserva essa empresa, esse grupo.



R – Olha, quando o Luiz quis o celular, a telefonia Celular (TL), eu levei susto da expansão, mas achei que era natural que ele quisesse sempre aumentar e na especialidade dele o que houvesse de mais moderno. Acho que sem a telefonia é muito difícil eles ficarem, acho que não. Eu não sei o pensamento do Luiz Alexandre, se ele tá bem entrosado, vi outro dia uma entrevista dele assumindo a presidência da Associação Comercial, eu não sei até que ponto ele quis dizer com isso, mas eu não pressinto um corte, não pressinto, sei que eles estão ampliando um setor, sei que tem muitos negócios, às vezes não digo que sacrifique um mas modifique um ou pra acrescentar outros existentes ou pra criar novos, isso não é uma coisa que, não me é dada a conhecer e opinar.

 

P1 – Mas o que a senhora diria pra uma pessoa que fosse amanhã trabalhar na CTBC ou em outro lugar? O que essa pessoa encontraria aí?

 

R – Como?

 

P1 – Uma pessoa que fosse começar a trabalhar na CTBC amanhã, com todo o conhecimento que a senhora tem dos fundadores, do fundador, dessa história que a senhora tem em comum, o que a senhora diria pra essa pessoa, o que ela poderia esperar dessa empresa, pra onde ela estaria se dirigindo nesse momento?

 

R – Eu diria o que eu li uma vez na Gazeta Mercantil, num desses jornais: que é o melhor lugar pra se trabalhar.

 

P1 – É um ranking da revista Exame, exato, é uma das melhores empresas pra se trabalhar.

 

R – É a melhor empresa, eu diria isso, agora como seria, eu não sei, mas a minha opinião é essa, uma das melhores empresas pra se trabalhar, foi na Exame que eu li isso? Acho que sim. O Luiz agora, ele tá, como é que se diz, acho difícil definir, mas ele está um pouco, acho que sem saber não, porque ele é competente suficiente, mas ele está usando muito as teorias do Domenico De Masi, “O ócio criativo”, eu sou fã do Domenico, não perco nenhuma conferência que ele faça, “O ócio criativo” e acho que o Luiz está se dando esse luxo e esse direito, tô certa ou tô errada?

 

P1 – Eu suponho que sim.

 

R – Agora sou eu que tô perguntando.

 

P1 – Embora eu o conheça e tenho estado com ele, ainda não chegamos nesse nível de conversa. Mas o que eu sei, o que eu posso garantir é que ele está sempre muito antenado, né, ele é uma pessoa que absolutamente...

 

R – Ele capta.

 

P1 – E fica seis meses sem te ver e parece que a gente retoma uma conversa de seis meses atrás...

 

R – Ele tem uma memória invejável, até as próprias expressões, que poderia dizer o assunto com o palavreado dele, mas ele sabe conversar comigo com o meu palavreado, você disse, ele é muito antenado e é muito perspicaz pra saber onde ele deve ficar mais ou menos.

 

P1 – Isso é uma coisa típica de caipira.

 

R – Só caipira com ISO na mão, porque senão não dá. Você vê a pousada do Rio Quente, aquilo tudo é um empreendimento notável, não existe outro no Brasil, uma área de lazer com aquela expansão e com aquele sistema, então você vê que ele vai de um gado lá no Pará, não sei onde do milho, não sei onde.

 

P1 – Um grande plantador de abacaxis.

 

R – Um grande plantador de abacaxi, suco, massa de suco que vai pra fora.

 

P1 – Esmagamento de soja.

 

R – Pronto, soja então parece que vai ser uma boa colheita, então ele é muito capaz em todos os ramos que ele quiser, agora não sei se ele vai querer ficar como o Domenico, porque se for ficar como o Domenico ele põe um basta, mas nem assim ele conseguirá porque vem o ócio criativo, aí vem a criação...

 

P1 – Aí ele vai querer implementar essa criação.

 

R – Ah não pode parar.

 

P1 – Dona Anita, tem alguma coisa que a senhora gostaria de ter dito e eu não estimulei a senhora a dizer?

 

R – Não, as suas perguntas foram muito apropriadas, não sinto.

 

P1 – É que a entrevistada é muito boa.

 

R – Não é isso, é que o senhor conduziu muito bem e eu só posso agradecer porque eu tive a memória aberta mas muito conduzida por uma pergunta bem feita.

 

P1 – Obrigado, eu gostaria que a senhora desse um testemunho assim como foi pra senhora ter dado esse depoimento, o que significou pra senhora.

 

R – Olha, significou muito, me fez recordar, me fez lembrar dos bons momentos que eu vivi neste trabalho, dos conhecimentos que eu tive como eu já lhe disse da convivência com os meus empregados, da convivência até com o público mesmo, entendeu, me deu oportunidade de ver inteligências, mediocridades muitas, houve gente que chegava lá na empresa e falava: “Olha, a senhora disse que não tem linha e eu fui em Ribeirão Preto, aqui tem um telefone”. Eu falava: “Então liga no poste porque aí o senhor vai ter uma conversa muito agradável”, porque o que eu poderia dizer? Mas sempre de bom humor.

 

P1 – Bom humor é fundamental né Dona Anita?

 

R – Não pode, em serviço público, em tudo na vida, mas em serviço público não. Vi que vocês trabalham numa equipe muito bem organizada, que são muito objetivos, as suas perguntas todas eu pude responder porque elas foram feitas para resposta, não é pergunta pra se fingir que nem ouviu, pergunta de gente que tá no assunto com toda capacidade.

 

P1 – Dona Anita, muito obrigado então, muito obrigado pelo belo depoimento que a senhora deu pra nós, fique sabendo que foi um prazer enorme ouvir a senhora.

 

R – Eu agradeço muito também, eu tive muita alegria, poder falar de um trabalho que eu fiz, de pessoas que eu conheci, que eu admirei e que influíram muito na minha maneira de ser. É sempre muito positivo, embora a minha idade avançada, o pouco tempo que ainda eu tiver é muito útil aproveitar as lições recebidas e tive hoje boas lições.

 

P1 – E a senhora sabe que este material tem exatamente esse objetivo, quer dizer, não é apenas de recuperar uma história mas pra mostrar pras futuras gerações que história foi esta, como ela foi construída, as pessoas que a contrariam e quantas lições a gente pode tirar disso, isso é o fundamental.

 

R – É muito importante, por isso quando eu era bem jovem eu gostava muito de biografia, gosto até hoje, eu me lembro que eu me impressionei com a biografia da Rose Kennedy e da Golda Meir, a vida do outro não é só dela, não é só do outro, a gente pede emprestada pedaços que são muito importante pra nós é sempre uma reconstituição, nunca se acaba, até no final a gente tem motivos pra aprender e pra viver melhor porque aprendeu alguma coisa.

 

P1 – É isso mesmo, perfeito Dona Anita, muito obrigado, a senhora é muito bonita.

 

R – Agradeço muito a gentileza, a maneira como me trataram e a inteligência como você conduziu a coisa, teria motivo pra fazer perguntas que poderiam ser classificadas até desfavoráveis ou pouco discretas ou não, quer dizer nós não saímos de uma linha que não é comum.

 

P1 – Nos interessa a memória útil, a memória que possa servir às pessoas. 

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