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História

“A música pode transformar muita gente”

História de: Simone Almeida da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/12/2014

Sinopse

Simone é uma professora de violino que contou sua história ao Museu da Pessoa. Ela recorda a origem da família e a infância passada no bairro de Pirituba, em São Paulo. Seu pai é pastor e musicista e com tem uma família numerosa ficou com vontade de montar uma orquestra com os filhos. Simone lembra que no início não se encantou pelo instrumento escolhido para ela, mas que aos poucos foi gostando de tocar violino. Ela recorda as escolas em que estudou, com ênfase no aprendizado de violino na Fundação das Artes e a faculdade de Música cursada na Faculdade Paulista de Artes.

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História completa

Meu nome é Simone Almeida da Silva, nasci no dia 6 de novembro de 1979 e moro em Mauá há 17 anos. Eu nasci em São Paulo. Meu pai é Domingos Eleutério da Silva e a minha mãe é Edna Aparecida de Almeida da Silva. Meu pai é metalúrgico e a minha mãe sempre trabalhou em casa mesmo. Meu pai, ele perdeu o meu avô, o pai dele quando ele tinha nove anos, ele ficou todo o tempo com a minha avó, que hoje é falecida. Minha avó criou dois filhos e eles conseguiram serem pessoas de bem, então isso é bem bacana. E a minha mãe, ela perdeu a mãe com 13 anos e também sempre foi uma pessoa de bem.  O meu avô era baiano. Meu pai nasceu na Bahia, ele veio pra São Paulo depois que meu avô morreu. Meu avô era garimpeiro e caiu barranco em cima. E minha avó por parte mãe era daqui de São Paulo mesmo. Minha mãe sempre foi de São Paulo, meu pai que era da Bahia. Nós somos evangélicos e meu pai tocava na banda da igreja e minha mãe cantava no coral da igreja. Eles se conheceram na igreja. Quando ela casou, ela tinha 19, meu pai tinha 27. Em casa somos sete meninas e um menino.

Eu lembro bem de relance da casa da infância, porque antes a gente morava numa casa de aluguel que ficava em São Paulo, ali em Pirituba, quando eu era bem pequenininha, acho que eu tinha uns dois, três anos, porque eu tenho foto, mas eu tenho relance de algumas coisas. Eu fui a quinta filha, a que teve mais distância, de cinco anos. Porque nós somos uma carreirinha. A primeira escola também ficava tudo ali perto de Pirituba mesmo, porque era a Escola Liberato Bittencourt. No 15. A gente a chamava de 15. E eu estudei lá o prezinho, porque tinha pré na época, eu fiz o prezinho e fiz a primeira série. Mas eu tinha muita dificuldade pra entender. Eu tinha problema pra entender. Eu não entendia nada. Eu lembro que a minha mãe ficava no meu pé: “Não, filha...”. Eu tinha dificuldade pra ler. Minha mãe subiu na escola, eu reprovei por causa de falta, porque eu ia embora, falava que não tinha aula. E minha mãe sempre envolvida na igreja, e meu pai trabalhando. Minhas irmãs não ligavam. Eu chegava a casa, dormia, ficava lá dormindo. Daí reprovei de novo a primeira série. Minha mãe me trocou de escola de novo, voltei para o 15. Depois que eu reprovei a segunda vez, eu consegui entender a matéria e consegui passar de ano. Depois disso nunca mais eu reprovei. Eu mudei da Vila Iório e fui morar um pouquinho mais pra frente, então tive que mudar de escola. Como eu já tinha dois anos perdidos, eu comecei a trabalhar com 14 anos. Então eu mudei para o Joaquim Silvado, onde eu fiz a oitava, primeiro, segundo, e o terceiro eu fiz aqui em Mauá.

Uma amiga da minha mãe que morava de frente, ela disse que tinha essa empresa pequenininha que estava pegando menor para trabalhar. Fomos eu e minha irmã. Eu tinha 15 e a Cibele tinha 14, nós fomos trabalhar. Eu fazia bijuteria: anelzinho, pulseira, colar. Na época o meu pai estava endividado, eu dei meu salário para meu pai pagar o moço. Eu dei tudo pra ele, ele pagou o moço lá. E quando eu era menor, acho que eu sofria de depressão. Depois eu saí e fui trabalhar numa empresa que era terceirizada com a Melhoramentos. Eu fazia dicionário, índice de Bíblia, fazia Bíblia, tudo nessa minieditora que a gente trabalhou. Eu trabalhei registrado, acho que eu tinha uns 16, 17 anos.

Eu vim em 97 pra Mauá. Porque meu pai é pastor e meu pai dirigia uma igreja lá em São Paulo, ele foi transferido pra cá. Eu tinha 18 anos. E o trabalho era em Pirituba. Então pra gente chegar lá no horário certo, a gente tinha que pegar o trem dez para as seis. A empresa faliu, nós paramos de trabalhar, veio todo mundo pra cá, eu entrei na Fundação das Artes pra estudar violino, fiquei lá três semestres, depois saí pra faculdade. Nisso eu já dava aula de violino.  Meu pai é musicista, ele tocava na banda quando ele era solteiro. Então em todas as igrejas que meu pai passava, ele queria ter uma banda, ele queria ter uma orquestra na igreja, porque ele gosta. Quando nós viemos pra cá, meu pai falou: “A gente vai montar uma orquestra”. E como tem bastantes filhos, né? “Vocês vão tocar. Vocês precisam tocar alguma coisa.” Então eu fiquei com o violino, a minha irmã Cilene toca sax, o Elias toca trompete, toca bateria, a Adriana toca clarinete, a Silvana toca sax, a Selma canta e a Suzana toca violão. Então todo mundo na minha casa toca. Quem me falou das aulas foi um amigo meu, que hoje é meu professor de violino, ele já tocava também... Nós começamos muito junto, mas como ele começou na antiga ULM, então ele sabia mais do que eu. Ele falou: “Si, tem na Fundação das Artes, que tem também aulas de violino, que tem cursos pra violino lá”. Eu falei: “Ah, é? Mas é difícil?”. Eu estudei, passei lá no teste. Eu estava apavorada, porque eu sou meio medrosa. Eu toquei um Minueto de Bach, e acho que tinha 30 vagas, eu passei em sexto. Fiquei meio descontente, porque eu poderia ser mais pra cima. Estudei lá, mas meu professor era muito ruim, não sei, ele me travava. Eu não conseguia desenvolver com ele. Meu pai veio, falou comigo, que eu não podia ser assim, que a vida não era desse jeito, eu teria que aprender muito. Eu peguei o violino de novo e minha irmã ficava no meu pé, a Cibele: “Simone, vai fazer faculdade de Música. Vai fazer”. Eu falei: “Não, Cibele. Que eu não vou passar tudo que eu passei na fundação, não. Não aguento”. Mas ela falou: “Não, eu pago pra você tudo. Você só vai lá e faz o vestibular”. Ela pagou tudo, só falou: “Olha, esse é o dia pra você ir lá”. Ela fez minha inscrição, ela fez tudo. Eu fui lá fazer a prova e passei, já fiquei morrendo de medo. Mas quando você entra na faculdade é totalmente diferente. Eu fiz Faculdade Paulista de Artes, que fica na Brigadeiro. Eu fiz licenciatura. E eu fiz uma faculdade de Artes, de Educação Artística, que ainda colocam lá, mas não tive nada de Educação Artística. Nada. Só foi música mesmo. Só tive aulas teóricas mesmo de música. Não aprendi outra coisa a não ser música. Eu já dava aula na escola de música dando violino. Na igreja eu também dava aula. Mas em 2010, eu comecei a trabalhar aqui na Casa Mateus.

A Marlene começou a trabalhar aqui, ela é professora de canto e coral. Ela falou assim: “Simoninha, lá na ONG, nós vamos escrever um projeto pra ter aula de violino lá”. Eu falei: “Nossa, que bacana” “E você topa dar aula lá?”. Eu falei: “Ah, Marlene, será que, sei lá, eu sou capaz de dar aula assim pra muitas crianças?”. Porque é diferente você dar aula pra um aluno e você dar aula coletiva. E falei: “Então está bom, eu vou ver. Se eu não conseguir, eu peço as contas” – eu falei pra ela. Ela: “Não, você vai conseguir, menina”. Eu vim aqui, conversei com a Luciana, ela falou do projeto que estava apoiando a gente. Eu comecei aqui, o projeto era registrado, tinha que ser registrado, porque senão o projeto não ia pagar as pessoas que não fossem registradas, tinha que ser registrado. Eu entrei aqui dia 16 de novembro de 2010.

Eu conhecia o bairro, mas nunca tinha ouvido falar da Casa Mateus. Nunca tinha ouvido falar. Eu vim aqui, conversei com a Luciana e comecei e trabalhar aqui.  Eu fiquei meio assustada, porque, sei lá, a história de vida de muitas crianças aqui é meio difícil. E eu nunca tinha entrado numa favela antes. Nunca entrei, foi a primeira vez aqui quando me levaram ali na pedreirinha ali embaixo, que eu entrei, fiquei meio assim de cortar meu coração. Algumas casas são de cortar o coração com muita criança. Mas assim, fiquei meio assustada, mas depois logo eu falei: “Não, eu vou fazer meu trabalho, vou tentar mudar a história dessas crianças”. Porque eu com toda a minha idade, eu nunca passei um terço que muita criança passa. Então fiquei meio assustada, mas depois passou.  Graças a Deus que vieram crianças sem problema na música. Nenhuma assim. Eu consegui introduzir a música com elas e elas conseguiram desenvolver bem. E eles gostavam do curso. O curso de violino aqui na casa não tem faltas. Não tem faltas. Ou as crianças não entram, ou quando entram não tem faltas. Eu comecei com quatro crianças. Eu tinha quatro turmas. Eu trabalho dois dias aqui e tinha quatro crianças em sala. Porque eu falei pra Luciana: “Eu não sei se eu dou conta. Porque um aluno é totalmente diferente de um monte”. Hoje em dia, na minha sala pode ter dez, eu dou conta dos dez. Como desse projeto que nós fizemos, eu entrei em novembro, em março eu tinha que fazer uma apresentação para as pessoas que apoiaram. Então foi uma correria, a gente não parou em janeiro. Então eles vinham ensaiar. Mas eu marcava qualquer hora, de sábado, nós marcamos ensaio, estavam todas as crianças aqui.

O apoio do Criança Esperança foi o ano passado. Ela falou pra gente que a casa estava passando por uma situação meio ruim financeira aqui, ela tinha comentado que se não tivesse o apoio de outro convênio, não teria mais as oficinas, as de instrumentos. Ela falou: “Não, eu vou escrever...”. A cozinheira até falou: “Ah, escreve para o Criança Esperança”. Ela falou: “Não, eu vou escrever um projeto para o Criança Esperança”. Ela falou: “Gente, fica na torcida, que nós vamos escrever um projeto, e se for aprovado, a gente vai estar salvo”. Ela fez todo o processo lá, falou que a gente tinha sido contemplado. Nós ficamos muito felizes e as crianças mais ainda, porque eles já sabiam que tinha probabilidade de não ter mais a oficina. Então estava todo mundo na torcida e todo mundo ficou muito feliz quando foi aprovado, ainda mais as crianças. Ficou todo mundo muito contente aqui. Mudou muita coisa aqui, porque o projeto, ele ajuda muito. E tudo na parte cultural. As crianças tiveram muito passeio, eles foram para o Parque da Xuxa, muitas crianças aqui que nem sonhavam com isso, tiraram foto com ela. E eles todos contentes. E também tivemos apresentação, tivemos o dia da esperança aqui também. Foi em agosto. Que tivemos o Dia da Esperança, então nós mobilizamos todo mundo, ensaiamos. E tinha oficina de teclado aqui também, que foi apoiado pelo Criança Esperança. Então todo mundo se mobilizou pra gente fazer o Dia da Esperança. Enchemos isso daqui de pais, um monte de gente veio pra ver. Porque o nome da instituição, a gente não acreditava que acontecia. Porque as pessoas inventam tanta coisa, que quando a coisa é pra acontecer mesmo, a gente fica meio descrente. Então quando nós falamos para as crianças, para os pais, que nós íamos ser apoiados pelo Criança Esperança, o povo falava: “Meu, então é verdade. Que a gente pensava que era mentira isso, que o dinheiro ia não sei pra quem, ia pra Globo, sei lá”. Mas ninguém acreditava mesmo. Nem o pessoal da minha casa. Quando eu falei pra minha mãe: “Mãe, nós fomos contemplados, o Criança Esperança vai ajudar a Casa Mateus”. Ela: “Mas isso é verdade mesmo?”. Eu falei: “É verdade, mãe”. Nem eu acreditava, sinceramente. Não acreditava mesmo.

A Luciana chegou e falou: “Gente, tenho uma surpresa pra vocês”. Ela falou duas surpresas, que ela estava na reunião pedagógica. Ela falou que eu ia fazer um curso pela Sala São Paulo, ia fazer porque eu sempre pedi, pra levar as crianças pra ter vivência em orquestra, como eles nunca tinham visto. Ela falou que eu fui aprovada pra fazer o curso lá, porque eu tinha que ir pela ONG, que a ONG que tinha que encaminhar e eu fui aprovada. Ela falou: “E tem outra, nós vamos ser apoiados pelo Criança Esperança”. Nossa, a reunião assim que foi muito boa, bacana mesmo. Eu acho que você pode mudar seu futuro com a música. Sei lá. Porque você não ver hoje, mas o amanhã você consegue. É passinho de formiguinha. Você vai fazendo, você fazendo e vai conseguindo crescer. Mas ninguém tem paciência pra ver crescer. Ninguém. Ninguém tem paciência. Ou tem que ser agora, ou tem que ser agora. Mas a música pode transformar muita gente. Pode transformar. Porque a música traz uma paz, traz um sonho, tem muita coisa que você pensa que não vai pra frente, mas com a música você consegue ir pra frente. Porque ela te traz um retorno tão natural, eu não sei explicar. Eu acho que sou mais humana. Mais humana. Totalmente.

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