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História

"A música é minha alma"

História de: Maria Cristina Pires
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/11/2020

Sinopse

Nascimento em São Paulo. Pai agressivo. Infância. Baile. Samba-rock. Participação em roda de samba. Curso de Técnico de Contabilidade. Massagem. Funcionária Pública. Cantora de samba. Projeto de visibilidade para cantoras. Roda de mulheres. Projeto 1000 Mulheres. SEBRAE. Mulher negra empreendedora. Lives. Pandemia. Sonhos.

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História completa

Meu nome é Cristina Pires, sou nascida aqui em São Paulo capital e nasci em 23 do onze de 1961.

 

Eu fui crescendo e tudo mais, e gostava de baile, eu sempre gostei de música, desde criança. Então eu ia pros bailinhos onde ninguém podia entrar, porque eu sempre tive carinha de mais velha, então eu entrava nas matinês que tinham ali perto do Mandaqui mesmo. Fazíamos festas em casa, depois no próprio Mandaqui, mas em outra casa, fazíamos bailes e aprendi dançar samba-rock, através dos amigos da minha irmã. Eu era pequena, mas eles me ensinavam e eu dançava com eles. 

 

Eu gostava de ouvir música. Eu sempre gostei de música e eu cantava, mas eu era criança, cantava com o rádio. Nunca cantei… Eu passei a cantar já depois de velhinha, em 2012, quando eu comecei a cantar profissionalmente. Eu sempre gostei de participar de roda de samba, então no meio da roda de samba, eu sempre ficava de pé, cantando junto com os músicos, mas não cantando profissionalmente, acompanhando na roda. A partir de 2012 que eu comecei a cantar profissionalmente; quando eu fui em um barzinho de um amigo meu e aí tava todo mundo cantando… E o samba, ao invés de ir para cima, o samba estava caindo, estava indo para baixo, eles estavam sentados do lado de fora do bar. E eu falei para ele: “Como é? Vai ficar esse negócio? Tá horrível! O samba, ao invés de estar indo para cima, está indo para baixo!” E aí eu falei: “Desse jeito até eu canto”. 

Ele pegou o microfone e deu na minha mão e eu falei: ”Então vou cantar, e eu não vou ser ameaçada”. Eu peguei o microfone e fui. Não sabia tom, não sabia nada. Fui com a cara e a coragem. Sabia a música e falei para os meninos a que eu queria cantar e quando terminei, todo mundo gostou; bateram palmas, elogiaram e daí para frente eu comecei. Fui buscando aprender a cantar, participei de coral. Hoje eu faço um pouco de violão, cavaquinho, mas estou estudando ainda. Sai do coral por causa de tempo, mas ainda estudo em casa mesmo. Mas eu gosto. A música é minha alma. Tanto que eu to fazendo as lives por causa disso, porque eu fiquei… Quando a pandemia, eu tinha alguns projetos para fazer, eu tinha quatro projetos já agendados, fechados direitinho. E aí a pandemia veio e parou tudo. Eu fiquei três dias em depressão, e eu falei: “E agora? O que eu vou fazer da minha vida?”. Aí eu falei: “Não, pera aí. Eu não posso cair. Se eu não caí até agora, eu vou cair agora por quê? Eu vou começar a fazer lives”.

 

Então, eu comecei profissionalmente em 2012 a cantar e aí em 2014, 2015 ou dezesseis eu recebi uma proposta para fazer um show na CCJ, o Centro de Conveniência da Juventude, e era para ganhar um bom dinheiro. E a pessoa que me levou para fazer esse show... Foi um bom dinheiro, mas essa pessoa ficou com a maior parte do dinheiro. E ai falei: “Bom, fui enganada. O que eu vou fazer? Eu vou abrir a minha empresa de eventos”. Porque eu posso assinar, eu posso tirar as minhas notas e eu posso ajudar outras pessoas que precisam também e eu sei que não vou roubar ninguém”. Então eu abri em 2017 a minha empresa de eventos, mas em 2012 eu já comecei a cantar profissionalmente, então eu fazia de um Projeto Terapia dos Boêmios, fizemos no Bar Brahma, São João, fizemos ali perto do Anhembi também, os dois bares Brahma, que era muito bom, que eram mulheres que cantam. Eu tenho projetos de só mulheres cantam, muito bacana… E aí comecei a ser convidada para outros lugares cantando, alguns remunerados, outros não, mas quem não é visto não é lembrado e todo começo tem sua trajetória de percalços. Então eu tirei isso como uma lição para prestar mais atenção nas pessoas a minha volta, para não ser enganada.

 

Eu sempre estive nesse meio. Eu acho que é uma coisa que estava dentro, mas eu não buscava, porque para mim era só um divertimento estar presente, fazer parte. “Ah, vou desestressar, vou pro samba”. “Ah, vou pro samba”. Eu sempre gostei. “Ah, vou pro samba”. E aí quando eu tive esse desafio, eu fiz e deu certo, eu falei: “Opa, pera aí”, a luzinha fez (estalo). “Vamos embora”, mas aí foi o que eu falei, eu não sabia tom, não sabia nada e aí tive que procurar aprender. Ainda mais para mulher, é muito difícil em uma roda de samba, onde a maioria, quem impera é homem, se fazer presente… É preciso se fazer presente. Não da para fazer a meia boca da presença, senão simplesmente você é retirada. Já teve gente que fez cara feia... Tem uma panela, tem um jogo aí também, mas isso não me afeta, porque eu sei o que eu quero. Nós estamos em 2020, vai fazer oito anos de carreira né? Eu fui tirar minha carteira da ordem, fui participar de coral, para eu poder... Fui aprender violão, fui aprender cavaquinho para ter uma noção de tonalidade, comecei a compor, porque sou compositora também. Gravei as minhas músicas. Tenho um CD ai com doze músicas gravadas, participa de festival… Então assim, para mim é currículo, não só currículo musical, mas currículo de vida, porque nunca me imaginei, voltando àquela época lá de criança, que eu seria uma cantora. Eu ia ser professora de educação física, como a contabilidade, ficou lá atrás. Hoje eu sou a massagista também? Sou, porque está dentro de mim. E outra, é uma fonte de renda que você pode fazer um ganho, mas a música está muito mais dentro de mim. É o que eu falo, o dinheiro eu não tenho, mas pelo pequeno andar da carruagem da minha carreira eu acho que estou no caminho certo, porque hoje estou sendo mais vista, chamada para algumas coisas, alguns eventos que eu não era. 

Estou tentando aí um PROAC, um PROMAC da vida para poder fazer, porque eu tenho projetos. Um projeto que se chama “Samba D'Marias”, que são só mulheres que cantam, que é um dos projetos que foi afetado por conta da pandemia. E o outro projeto se chama “Samba do Santo”, que é feio na garagem da minha casa. Segundo domingo do mês, a roda de samba com compositores autorais, novos cantores, novos músicos, para dar a oportunidade que eu não tive. E por conta disso eu tenho contatos de rádios que fazem com autorais, que é a rádio de samba, que trabalha com autorias… Então eu já estou na Bahia, estou no Sul, fora do país, porque elas levam a música para vários lugares. Então acho que estou caminhando né? Devagarinho, mas estou caminhando.

 

Mas é aquele negócio: mulher e negra, entendeu? É tudo desafiador. Para a gente é um pouco mais difícil: a valorização, a remuneração, é tudo mais complicado. E para o novo, que é meu caso, porque eu sou nova, dentro da música eu sou nova. Você ter as pessoas que ouçam o seu trabalho, que prestem atenção no seu trabalho e valorizem o seu trabalho… Só que o apoio muitas vezes não é só o dinheiro, porque eu vou falar o seu nome e você o meu; você está me ajudando. 

 

Então, aí criei o meu negócio, abri a minha microempresa e depois eu conheci o SEBRAE. Eu abri primeiro e depois eu conheci o SEBRAE, onde eu fui buscando as orientações para estar cada vez mais interada no que eu estou fazendo, que é a parte de eventos, que é a parte que eu estou me dedicando atualmente. Nessa parte de eventos, de música e tudo mais… De alavancar um pouquinho mais a minha carreira, buscando meios, porque assim, mesmo com a pandemia hoje, eu fui obrigada… 

Então, o Projeto “1000 Mulheres” foi muito bacana, porque ele me trouxe outra visão do meu negócio, porque é o que falo, hoje eu sou a cantora, a produtora, a pessoa do marketing, eu sou a pessoa que vai buscar, eu sou tudo, tudo em um. Foi muito bom o “1000 Mulheres”, porque me mostrou outro horizonte, me mostrou onde eu estava falhando, me mostrou o problema, me mostrou a solução. E é o que eu estou buscando fazer, eu acho que estou indo, por estar sendo mais vista, mais curtida, outras pessoas estão me chamando de outros locais que eu nem imaginava, como vocês mesmo. Eu nem imaginava fazer parte dessa maravilha.

 

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