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História

A música e a linha férrea

História de: José Daniel Amarante
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/02/2021

Sinopse

José Daniel conta sobre sua infância como filho de ferroviário e como sua vocação de músico surgiu dos encontros musicais dos ferroviários. 

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História completa

 

P/1 - Então vamos começar. Bom dia, senhor José Daniel. 

 

R - Bom dia, é uma satisfação conversar com você.

 

P/1 - Minha também. A gente vai começar pelas informações básicas, então primeiro eu quero que me confirme o seu nome completo, local e data de nascimento. 

 

R - É José Daniel Amarante. Nasci em 13 de outubro de 1949 em Cruz Alta.

 

P/1 - Certo. Qual o nome dos seus pais?

 

R - Meu pai é João Pedro Amarante e minha mãe, Iraldina Amarante.

 

P/1 - E o que os seus pais faziam?

 

R - O meu pai era maquinista, era ferroviário, e a minha mãe dona do lar, de casa.

P/1 - O senhor tem irmãos?

 

R - Sim. Nós éramos nove irmãos, quando morávamos no recinto da Viação Férrea. São quatro homens e cinco mulheres… O contrário.

 

P/1 - Quais os nomes deles?

 

R - Luiz Carlos Amarante, Evaldino Amarante, Dinorá Amarante, José Daniel Amarante, Vera Amarante e Joana Amarante - e um que é falecido, Evaldir. Mas teve outros que faleceram também mais... Bem precoce.

 

P/1 - Entendi. E o senhor está onde dentro dessa lista? O senhor é o mais velho, do meio?

 

R - Não, eu sou... Sou lá no meio (risos), tem mais velhos que eu ainda. 

 

P/1 - E os seus pais, eles são naturais da mesma cidade que o senhor ou vieram de algum outro lugar?

 

R - O meu pai é natural de Cruz Alta e minha mãe também de Cruz Alta. Tem um fato interessante, porque eu nasci em 1949 e em 1950 eles vieram, de Cruz Alta vieram embora para Santo Ângelo. Vim praticamente com um ano de idade, em cima de um vagão de trem, onde veio toda a mudança. Como nós morávamos pela.... Nós morávamos numa chácara, então daí veio vaca, galinha, pato, veio tudo no outro vagão, quando nos mudamos de Cruz Alta para Santo Ângelo. Passei praticamente toda minha vida aqui.

 

P/1 - O senhor se lembra da casa onde o senhor passou a infância?

 

R - Ah, com certeza. Minha casa então era localizada no que nós chamávamos recinto da Viação Férrea, então tinha os trilhos e ao lado dos trilhos ficavam as casas dos ferroviários. Nossa casa então ficava numa dessas casas, de várias casas que tinha, ficava ao lado dos trilhos. A gente até via quando chegavam os trens de madrugada, qualquer hora que passava a gente estava ali, eu ouvia todo o apito do trem, barulho das máquinas.

 

P/1 - Como era essa vida no reduto ferroviário? As casas eram todas ocupadas por ferroviários na beira dos trilhos, é isso?

 

R - Isso, todas as casas. Moravam maquinistas, foguistas, guarda-freios. Depois, dentro do quadro da estação em si, tinha o agente, tinha ainda... É uma espécie de uma casa de hóspedes, onde ficavam os maquinistas e foguistas. Quando chegavam em Santo Ângelo eles ficavam nessas casas, que ficavam atrás também. [Tinha] a estação e logo na frente ficava essa casa, que foi construída bem depois. 

Foi uma vida maravilhosa e marcante. Praticamente o início da minha vida foi ali, a minha infância foi ali, caminhando em cima dos trilhos, dos dormentos, que a gente chama, então era interessante. A minha primeira bicicleta, aquela com três rodas, foi praticamente ali, no recinto, que eu ganhei; depois, mais tarde, a bicicleta mesmo, com duas rodas. 

Quando eu comecei a estudar, estudava no colégio Onofre Pires, que ficava distante do quadro da viação, então a gente atravessava a cidade. Eu tô me lembrando do tempo de infância; claro que antigamente chamava-se primeiro grau, mas tinha um ensino que era antes do primeiro grau, e fiz esse curso no colégio Onofre Pires. E me lembro muito bem agora, tô fazendo um filme da retrospectiva: a gente usava o famoso tapa-pó, aquelas roupas brancas. Então a gente ia de conga - [era] guids que chamava. O interessante também, [é] que na época não havia caneta BIC, a gente escrevia com uma... Com nanquim, aquelas tintas, aquela caneta que botava dentro ali [da tinta].

As classes eram grandes. Ficavam três sentados [em uma carteira], no meio ficava aquele buraco, o tinteiro ali pra gente colocar. 

Tô fazendo aqui uma retrospectiva de toda essa época. É interessante. 

 

P/1 - E o senhor ia pra essa escola como? O senhor ia a pé, ia de bicicleta?

 

R - A pé, a gente ia a pé. Aproximadamente dava… Acho que umas oito quadras aqui da estação, porque a estação era uma volta da ‘pêra’, que a gente chamava, que é onde nós estamos, nesse local, atualmente. .

A gente adentrava aqui pelos dormentos, saía aqui na Pernambucana, até a esquina da polícia. Depois da polícia dava mais uma quadra, chegava num... Não me lembro o que era ali na esquina. Não lembro, se eu não me engano era uma loja de autopeças. Chegava na catedral, passava a praça, depois chegava no Onofre Pires, então nessas quadras mais ou menos a gente chegava até lá. Foi onde comecei a estudar, minha alfabetização foi praticamente ali.

 

P/1 - E que recordações o senhor tem dessa escola, desse primeiro ano de estudo? Como foi para o senhor, tem alguma lembrança marcante dessa época?

 

R - Foi marcante mesmo, até foi bom você perguntar. Ali foi o meu novo nascimento, porque aqui na rede, quando a gente morava, a gente... Eu nunca tive a percepção de ter a pele escura. Quando eu fui para o colégio que foi o meu renascimento, aí eu fui ver que eu era preto, até então eu não sabia. (risos) É que não havia distinção de cor. Lá no colégio, sim, a gente já começou a sentir essas... E depois ainda mais, com a história, porque nos livros de história apareciam os escravos acorrentados, então novamente tivemos que nos adaptar a essa nova realidade. São coisas marcantes assim, que foram ficando ao longo da nossa vida.

 

P/1 - E o senhor sentia isso também na sua relação com os outros colegas de escola, com os professores?

R - Com certeza. Como eu falei, foi um novo renascimento, porque até então não sabia, mas à medida... A gente foi aprendendo a se colocar numa posição e saber trabalhar com essa questão.

 

P/1 - Voltando um pouquinho para a questão da sua família, como era o cotidiano da sua família, a convivência… Um dia da sua família quando o senhor era criança?

 

R - A convivência era trabalho. Lembra quando eu falei: quando nós viemos para Santo Ângelo, a gente veio com vaca, galinha, porco. A gente levantava cedo de manhã e já tinha que trabalhar, limpar chiqueiro, cuidar da galinha, dar comida para vaca. Do outro lado [de] onde a gente morava tinha um espaço onde a gente inclusive fez o cultivo de milho e mandioca, para dar tratamento para as vacas e para os porcos também. Praticamente a nossa infância foi... Foi brincando e trabalhando também, aprendemos ali a trabalhar também. 

[Uma] coisa interessante, que até inclusive já havia comentado aqui, [é que] quando a gente morava no recinto não havia carência, havia abundância. Tanto é que todo mês em Cruz Alta, que era a sede daqui de Santo Ângelo, tinha uma cooperativa e nessa cooperativa o pai comprava o... Nós chamávamos de rancho: nesse rancho vinha um saco de arroz, um saco de farinha, um... Lá não havia geladeira, então vinha uma lata de banha e uma coisa que eu nunca vou me esquecer, é uma caixa de marmelada desse tamanho assim. (risos) Outra coisa também que hoje se a gente for comprar é caríssimo: todo mês vinha o bacalhau, é uma coisa fantástica. Por isso que eu digo, são épocas diferentes que a gente vive hoje. Hoje você vai comprar o bacalhau, são cem reais. Quem não quer, gente? É por isso que eu digo, não havia carência, havia abundância.

 

P/1 - E quais as brincadeiras que o senhor gostava de brincar nesse período da sua infância?

 

R - Olha, brincadeira era... Era bolita. Jogo de osso, bilboquê. Nós gostávamos muito de fazer também aqueles trabucos, ver aquelas bolinhas que a gente... Vocês conhecem trabuco? Uma taquara onde se coloca uma bolinha atrás. 

A gente fazia essas brincadeiras todas e ainda mais. Como a gente morava com várias famílias, a gente tinha… Por exemplo, [aos] sábados, a gente se reunia nas brincadeiras para fazer danças de roda. Eu me lembro daquelas brincadeiras de dança de roda, de infância, a gente brincava dessas formas também. E ainda mais, porque na época tinha... Eu digo "tinha" porque dava para ir, é um rio que passa aqui; chamamos de Itaquarinchim - o mais famoso que tem em Santo Ângelo, atravessa todo Santo Ângelo, cuja nascente é lá em Comandaí. O rio tinha peixe, a gente ia pescar também nesse rio, e ao mesmo tempo também ia lá tomar banho, dava para se tomar. Hoje atualmente já não dá mais, nem peixe tem mais, mas na época tinha. Caça também, porque eu me lembro que passavam muitos cidadãos por aqui; na época podia, então se caçava perdizes, preás e outros animais que tinha. Hoje também não tem mais.

 

P/1 - E me conte um pouco mais dessas brincadeiras. Algumas eu não reconheço pelo nome, talvez tenha um nome diferente em outro lugar, aqui em São Paulo. O senhor tinha falado sobre o jogo de osso e outras. Eu queria que o senhor explicasse um pouquinho para gente.

 

P/1 - (risos) Jogo de osso. Bem, o jogo de osso é um osso que se pega do gado... Agora não consigo me lembrar se é da pata do boi, que a gente pega e coloca um metal embaixo dele. Pega um metal, um prego, coloca nele aqui e você joga. No momento que ele cair, ele tem que cair para cima, não pode cair para baixo. É o famoso jogo do osso, que a gente chama, jogava ele pra cima.

O trabuco é aquele que coloca uma bolinha aqui e se coloca... Faz "bup bup", nesse sentido que vem ali. As canções de rodas eu já não consigo me lembrar mais, mas aquele "pai Francisco foi na roda...", mais ou menos essas canções assim. Não vou conseguir agora me lembrar de todas elas, mas são várias canções. 

 

P/1 - E o que o senhor gostava mais de fazer quando era criança? Além dessas brincadeiras, tinha alguma outra atividade que o senhor gostava de fazer?

 

R - Que pergunta! O que eu faço até hoje, que é música. (risos) Gostava muito de música porque o meu avô era acordeonista, tocava gaita. O meu pai também passou a vida toda tentando ser igual ao meu avô, tocar gaita, então a gente aprendeu praticamente porque dentro da família tem vários tios músicos também e isso a gente traz no sangue, praticamente. 

Os meus irmãos também são músicos e a partir dali a gente foi entrando na música, porque a música fazia parte da alegria aqui da viação férrea. Todas as vezes, os aniversários que tinha, quando alguém... Por exemplo, outubro, que era o nosso mês de aniversário da família, dos meus irmãos: começa no dia doze, treze, quatorze, vai até o dia dezoito. Podia se preparar que no mês de outubro quatro ou cinco galinhas iriam sair da família, porque chamava-se surpresa. Todo mundo já sabia, já estava preparado. A família se reunia. Uma noite antes alguém ia lá, pegava as galinhas, depois chegava no outro dia e tinha festa. Quer dizer, fazia de conta que nem o residente sabia que as galinhas eram dele (risos), mas era tudo dali. Era uma festa, uma alegria só. Momentos fantásticos, aqueles. 

 

P/1 - E o senhor já sonhava em ser músico quando era criança?

 

R - Ah, com certeza. Eu vou ter que confessar. O trabalho era intenso, porque o pai, quando saía aqui do quadro da viação, ele mesmo já levava um dormento aqui -  palanque que chamam, que vai nos trilhos. Ele levava e deixava em casa. Praticamente todo dia ele pegava, levava, então ficavam seis dormentos lá para gente... Um ficava numa serra, numa ponta do lado da serra e outro do outro, e ali nós tínhamos que… Pra poder sair o fim de semana, a gente tinha que cortar todos aqueles dormentos, serrar eles, passar o machado e depois guardar toda aquela lenha. 

A gente foi até os dezessete anos nesse trabalho, cuidando de todos os animais. E ainda tinha que fazer horta, plantar alface, plantar repolho, todas as hortaliças; a gente tinha que procurar e fazer também. Nesse sentido, eu vi uma válvula de escape para ser músico e poder sair também. (risos)

 

P/1 - Em relação ao trabalho na ferrovia, do seu pai, o senhor chegou a ir junto com ele fazer alguma coisa? Qual era a relação que o senhor tinha com o trabalho do seu pai, com a própria estação?

 

R - Praticamente... O conhecimento que ele tinha [era] um fato interessante, até. Quando eu estava estudando no Onofre Pires, uma manhã eu saí do colégio e tinha vários livros jogados no chão; nesses livros estava um de Ciências Naturais. Depois, mais tarde, eu fui me formar em Ciências Naturais, mas o que me chamou atenção naquele livro foi justamente o conhecimento que meu pai tinha, porque naqueles livro de ciências naturais tinha prótons, elétrons, nêutrons. Eu disse: "Mas o que é isso?" E ele vinha com palavras assim que... Que não eram do conhecimento da gente, estava muito avançado para o nosso nível de conhecimento. Ele fazia cursos em Santa Maria para aumentar o nível dele dentro da... Como maquinista dentro da Viação Férrea, daí que eu digo que na época o estudo que eles tinham era um estudo bem avançado.

Depois, mais tarde, conheci um livro que se chamava Bezerrão. Nesse Bezerrão tinha todas as disciplinas, e essas disciplinas todas passavam por eles também, lá em Santa Maria. O conhecimento deles era altíssimo, um nível de conhecimento bem avançado. Conhecimento de física, porque eram praticamente máquinas a vapor, então eles tinham que conhecer todo o mecanismo do vapor. Combustão, porque a própria combustão tem aqueles tempos todos, então eles tinham que ter conhecimento de tudo aquilo ali. E ainda mais: por exemplo, se ocorresse algum problema na estrada de ferro, eles teriam que ter também conhecimento de como fazer. Muitas vezes eu via chegar aqui os trens com dormento amarrado na coisa, mas chegava aqui na estação dele; a prática deles, a técnica, eles tinham para resolver os problemas. 

Teve uma época que ele fazia só a manobra aqui na rede. Eu digo manobra porque o trem chega na estação, aí ele tem que fazer a volta, que nós chamávamos... Chamava "volta da pêra". Com a locomotiva menor fazia tudo isso e jogava, deixava os vagões novamente para poder voltar para Cruz Alta, Santa Rosa ou Ijuí, nesse sentido. Saía daqui da estação, ia até uma caixa d'água que tinha na entrada de Santo Ângelo. Nesse percurso eu trabalhei numa dessas máquinas, inclusive fiz o manejo dela, aprendi a fazer o movimento dela também. Quer dizer, eu tive contato direto, ele me ensinou e consegui, só que não exerci a carreira.

 

P/1 - Quer dizer que o senhor já dirigiu então, digamos assim, um trem?

 

R - (risos) Eu não quis dizer "dirigir" porque eu não me lembro o correto, se era condutor. Houve uma falha aqui na minha mente, mas nesse aspecto, sim. 

 

P/1 - O senhor chegou a ir várias vezes com o seu pai dentro do trem, acompanhando o trabalho dele?

 

R - Ah, várias vezes. E não foi nem uma, nem duas. Várias vezes. 

 

P/1 - O senhor tem alguma história interessante, pitoresca, que aconteceu enquanto o senhor estava ali acompanhando o seu pai?

 

R - Tem (risos). Tem uma bem interessante, foi... Era um dia de chuva até, estava chovendo e o calor dentro da locomotiva é muito forte, por causa da... Tem que estar alimentando a máquina para poder fazer a propulsão dela. Como a chuva penetra ali dentro, você tem que estar com capa de chuva, de proteção. 

Eu falei: "Mas pai, e agora, tá chovendo! Como é que vai?" Ele: "Azar, vai ter que ficar aqui no meio." "Mas aqui tá muito quente!" "Dá um jeito de ficar aqui porque não tem outro lugar." (risos) Daquilo ali nunca me esqueço por causa do calor, porque era muito intenso o calor. E a gente conseguiu chegar até aqui na estação, mas a chuva parou também. 

Aquilo marcou na minha vida por causa do que eles passaram, tanto é que depois ele veio a ficar doente devido a isso, ao choque térmico. Ele teve um problema de insuficiência pulmonar devido ao choque térmico, do calor e da saída ali, [de] pegar outra temperatura. Isso é uma conclusão que a gente chegou - cientificamente, nesse sentido.

 

P/1 - Vamos então um pouquinho mais na sua vida escolar. Depois que o senhor fez essa pré-escola, o senhor foi para o primeiro grau?

 

R - Isso.

 

P/1 - E foi em outra escola?

 

R - Foi em outra escola. Terminando o primeiro grau, tinha que se fazer um exame de admissão. Você tinha que ir para o Colégio Industrial, mas no Colégio Industrial eu não consegui passar. 

Logo em seguida abriu-se um colégio aqui em Santo Ângelo, chamava... Tem inclusive hoje, o Colégio Missões, só que ele não tinha escola, ele não tinha um espaço; só tinha o nome. Fiz essa admissão, entrei nesse colégio. Era no bairro Pippi. 

Para a gente chegar nesse colégio - que não era um colégio, era uma adaptação - cada um tinha que levar sua cadeira. É, cada um tinha que levar sua cadeira, e ali a gente começou a estudar. Depois, com o passar do tempo, outra escola cedeu [o espaço] para o Colégio Missões, aí gente já teve [cadeira] pra ir ao colégio. Depois inaugurou-se o Colégio Missões que tem até hoje. 

Ali passei toda a minha... O primeiro grau e o segundo grau no Colégio Missões. Depois voltei para o Industrial, mas depois eu retornei pro Colégio Missões, onde concluí. 

Terminando ali, queria fazer Direito, mas não passei devido ao inglês, porque eu não sabia inglês. Fui fazer Ciências Naturais, onde me formei. [Fui] professor [por] trinta anos, passei por todas as escolas aqui como professor de... Não sei nada ainda, mas tô aprendendo. Matemática, física, química, biologia e ciências.

 

P/1 - Como foi essa experiência? O senhor tem algum momento marcante da escola que se lembra até hoje? Algum professor que marcou, alguma situação que marcou o senhor?

 

R - Praticamente todos os professores me marcaram. Todos os professores foram incentivadores, foram motivadores; todos eles, praticamente. Por exemplo, lá... Já vamos pegar um pouquinho mais recente, no colégio Missões: o professor Wilson Xereder, professor de português, o professor Babá, de matemática. Geografia, a Enilce. Tinha latim e francês. Também o Professor Jamir… Vários professores, o professor de educação física, Koka. 

Todos os professores eram motivadores, sabiam encantar os estudantes. Para mim, marcaram todos eles. No fundamental e no primeiro grau também, vários professores marcaram bastante, mas praticamente... Lembra que eu falei para você a respeito de nascer de novo? Não foi com professor, foram os próprios alunos que fizeram o meu renascimento. 

 

P/1 - Foi convivência social que o senhor teve com os alunos. 

 

R - Convivência social. Com certeza. 

 

P/1 - Quando o senhor foi chegando na adolescência, quais eram as suas atividades de lazer, que o senhor tinha interesse? Como o senhor explorava a cidade com seus amigos?

 

R - Bem, conhecendo praticamente a cidade, porque a gente morava aqui no recinto. Aqui perto tinha um grupo de escoteiros, os Chavantes; hoje não existe mais, agora chama-se Medianeira. Inclusive nós estamos perto aqui da sede, que era a casa do escoteiro, aqui em cima, e ao lado nós temos a sede do escoteiro Medianeira. ,

Foi em 1968 que eu ingressei nos escoteiros e foi ali que comecei a ter uma outra visão da cidade, que eu não conhecia, praticamente. Sempre estava localizado aqui no recinto da Viação Férrea, mais o colégio, e voltava para a gente ter nossos afazeres. Eu tinha outras tarefas também, que estava esquecendo agora: pela parte da manhã, quando o trem chegava, às oito horas da manhã, a gente tinha que pegar o leite. Se não pegasse... Vinha o leite de uma outra cidade próxima, do interior aqui, e a gente tinha que pegar, senão o leite voltava para outro lugar. 

Pela parte da manhã a gente pegava o leite e levava para casa. Depois a gente tinha outras tarefas para fazer também, além de entregar o leite. Fui vendedor, vendedor de abacaxi, entreguei jornal, verduras, verdureiro também. 

As tarefas todas a gente procurou fazer, para ter... Porque o lazer nosso era [no] fim de semana, era cinema. A gente ia no cinema ou ia num local… Sorvete junto com grapette (risos), era o nosso... O que a gente podia fazer era isso aí, sorvete junto com grapette e ir ao cinema. Para [ir ao] cinema, tu tinha que dar um jeito de buscar o dia do troco, então seria mais uma etapa da vida da gente, nesse sentido. 

 

P/1 - E tinha vários cinemas em Santo Ângelo nessa época.

 

R - Ah, com certeza. Na época tinha o Cinema Municipal, que tinha o dia do troco, Cinema Avenida. Antes tinha um outro, mas já tinha encerrado, que era o Cinema Apolo. [Eram] praticamente esses dois. Depois que vieram os outros cinemas, Cinema Cisne, Belvedere, mas estão extintos esses cinemas hoje. Tem mais outro na rodoviária que eu não consigo me lembrar o nome, que é mais atual também. 

 

P/1 - E o que vocês assistiam, qual era a programação? O senhor tem uma ideia, se lembra de que tipo de filme vocês assistiam?

 

R - (risos) Interessante. Qual é o tipo de programação? O tipo de programação dos anos 60, na rádio. Era rádio valvulado ainda, aqueles rádios que tinha que ligar, um rádio do tamanho de uma caixa. A gente escutava rádio, não tinha outra programação. 

Quando surgiu a televisão, quando nós saímos do recinto da Viação Férrea, o pai comprou outro... Nós iríamos sair daqui da rede. O pai comprou uma casa e nessa casa compramos uma primeira televisão, preto e branco, e geladeira também, porque na época não tinha. 

A nossa casa com aquela televisão, era... Ia gente para assistir, uma coisa interessante que eu me lembro; eram várias pessoas na sala assistindo à televisão preto e branco. Uma imagem que fica registrada na gente, bem... Que coisa, fui me lembrar disso agora.

 

P/1 - Mas era um hábito mesmo da época, porque nem todo mundo tinha, né?

 

R - Sim, com certeza. Na nossa quadra, onde nós morávamos, foi a primeira televisão. Imagina, a primeira televisão na época. Hoje... Sem comentário, né? (risos) hoje já é... Como é? 5G. 

 

P/1 - É, evoluiu muita coisa.

 

R - Com certeza. Eu ainda continuo analógico, mas já tem uma de 5G. (risos)

 

P/1 - E quando vocês mudaram, saíram do recinto, o seu pai continuou trabalhando como maquinista ou ele estava já se aposentando?

 

R - Ele já estava perto de se aposentar. Foi interessante, porque [depois que] ele se aposentou não durou dez anos, ele acabou falecendo. 

Outra característica que eu noto são as pessoas da época do meu pai. Eu já sou bem mais velho que meu pai. Meu pai faleceu com 63 anos; o aspecto dele era de uma pessoa de 90 anos, eu não consigo entender isso. Todos aqueles tinham aspecto de envelhecimento precoce, bem precoce mesmo. Não sei se era devido ao trabalho, forçado, no sentido de calor, mudança de clima. Vários partiram bem precocemente. 

 

P/1 - E o senhor usava também, a sua família, usavam o trem também para lazer? Quero dizer, pra viajar pra outra cidade ou algo nesse sentido?

 

R - Com certeza. Por exemplo, nós tínhamos ... Cada um na família tinha direito a um... Nós chamávamos de passe. Era uma passagem, cada um tinha o direito de passe. Chegava o fim de ano e a gente sabia, estava certo que [durante] trinta dias a gente ia sair, viajar, porque os meus parentes moravam em Porto Alegre, Cruz Alta e Passo Fundo. A gente já sabia que só ia viajar de trem. 

A gente saía de Santo Ângelo, ao meio-dia estava em Cruz Alta. À noite, [estava] em Santa Maria. No outro dia de manhã, oito horas, nove horas, estava em Porto Alegre. Ou Cruz Alta, que era bem mais perto, [em] questão de quatro, cinco horas, nós estávamos em Cruz Alta, ou Passo Fundo, que era um pouquinho mais longe.

Eram viagens que a gente fazia, e eu achava interessante. As outras... Eu não sei porque que eu me reservava e a minha família também [se] reservava de contar essas histórias de nossas viagens. Por exemplo, no tempo do colégio, lá no Onofre Pires, [em] que eu estava fazendo essas primeiras séries, as pessoas vinham e contavam de viagem; a gente não contava. Pra nós era uma coisa tão natural que a gente... Eles contavam e para nós era tão natural, porque a gente já fazia essas viagens. Imagina eles fazendo essas viagens também. Eu não consigo entender, até hoje não consigo entender o porquê. 

 

P/1 - Como eram essas viagens que o senhor, como criança… Conte uma história de uma viagem que o senhor fez e alguma coisa aconteceu. 

 

R - Era fantástico (risos). Hoje chama-se de "banha-fria". A gente já levava quando saía da... Por exemplo, [íamos] daqui a Porto Alegre, então a gente fazia galinha farofada, banana; o próprio melado a gente levava também, goiabada... Era um piquenique. 

Havia duas classes, a primeira e a segunda classe. E ainda havia uma classe especial. A gente sempre viajava de segunda classe, mas ali era bem mais à vontade do que a outra classe. E onde a gente viajava os bancos eram todos almofadados, já na outra classe era madeira, madeira pura. Mas era tudo [no] mesmo trem. 

Eu era pequeno ainda, isso quem conta são as minhas irmãs. Estávamos viajando para Porto Alegre e lá pelas tantas elas deram falta de mim. Começaram a procurar, me encontraram; eu estava no outro vagão, sentado no banco de uma outra senhora. Elas acharam estranho, ficaram até com medo daquela senhora estar ali comigo. "Não, ele é meu irmão", daí pegaram... Dizem que eu saí, me levaram.  Esse é um fato interessante. (risos) Dava pra gente caminhar dentro do trem, mas com todo aquele perigo que tinha... Vai saber do perigo que tinha?

 

P/1 - Depois então, passando então pelo seu primeiro grau, segundo grau, o senhor disse que chegou a fazer uma escola e depois o senhor voltou para aquele colégio. Era um curso técnico, exatamente o que era?

 

R - Era um curso técnico. Só que esse curso técnico nós vamos deixar de lado,  senão a minha esposa vai me cobrar até hoje. Ela me cobra até hoje. (risos) Nesse curso técnico… Eu sou formado em fazer móveis, mas não quero nem chegar perto (risos). Só o [trabalho] diário [faz o gesto de parafusar algo]... Para fazer em casa. Ela me cobra: "Ah, mas tu não é formado?" (risos)

 

P/1 - E como o senhor decidiu fazer um curso superior de Ciências Naturais?

 

R - Devido àquele... 

 

P/1 - Foi pelo conhecimento que o senhor já tinha?

 

R - Não, foi devido àquele livro que eu encontrei, que eu falei, lembra? Que eu havia encontrado na rua, que me chamou atenção. A partir dali entrei e comecei a fazer então, e... Fui gostando e exercendo a profissão.

 

P/1 - O senhor fez em Santo Ângelo, a faculdade era aí mesmo?

 

R – É, aqui em Santo Ângelo. Chamava-se Fundames, hoje chama-se URI [Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões].

 

P/1 - E como foi essa etapa para o senhor lá? Entrar na faculdade já é outro tipo de estudo, outro tipo de convivência. Como foi essa experiência para o senhor?

 

R - Novamente, outro renascimento. (risos) Por que eu digo novo renascimento? Porque na universidade a única pessoa de cor que tinha era eu. E a nossa região é bem heterogênea, nós temos alemães, italianos, poloneses que eram alunos. Eu era uma característica praticamente... Como é que é? O único negro, praticamente, dentro da universidade, fazendo aquele curso.

 

P/1 - Para o senhor, era uma experiência que dificultava alguma coisa? O senhor sofreu algum tipo de preconceito?

 

R - Eu digo que você tem que aprender. Dificuldade eu não tive por que, porque  sempre fui músico e sempre fui artista, então a gente sabe dominar situações. (risos)

 

P/1 - E o senhor começou a dar [aulas] enquanto estava no curso superior ou só depois que terminou a faculdade?

 

R - Eu comecei antes. Antes de concluir a universidade, eu já estava dando aula. Quatro anos depois eu já estava dando aula.

 

P/1 - E como foi essa experiência? Essa foi a sua primeira atividade profissional oficial ou teve alguma antes?

 

R - A minha experiência...

 

P/1 - Além daquelas outras. 

 

R - A minha experiência foi fantástica. São casos assim, que acho que pouca gente sabe. Por exemplo, eu estava fazendo o curso, mas jamais tinha pensado que eu ia ter a profissão de professor. Estava fazendo o curso por me encantar, por aquilo que eu gostava mesmo - por exemplo, química, física, a própria matemática em si, mas jamais imaginei que ia ser professor. 

Quando fui fazer o meu estágio, disseram: "Olha, tu vai ter que fazer o estágio na tal escola." Eu disse: "Mas pra que eu vou fazer estágio lá?" "Não, tu vai ser professor.  Prepara tua aula que tu vai ter que dar aula lá." Eu disse: “Mas até então eu não sabia que ia ser professor." (risos). Tô falando isso depois de trinta anos.

 

P/1 - Foi um susto, então?

 

R - Pra mim foi um susto. (risos)

 

P/1 - O senhor se recorda como foi entrar numa sala de aula com uma aula pronta? Como o senhor se sentiu na primeira aula?

 

R - Eu me lembro como se fosse hoje. (risos) Eu encontro ainda alunos daquela época, que hoje já são pessoas adultas; me reconhecem e vêm falar comigo, e aí eles contam. 

Nessa escola… Também havia esquecido: a minha irmã era professora e dava aula nessa escola, só que eu não sabia que iria fazer estágio justamente na escola onde ela estava. Chegando lá que eu disse: "Olha, eu vim aqui trabalhar com vocês." "Mas como?" "Sei lá, nem eu tô sabendo." "Ah, então vamos lá." (risos) 

Minha irmã também era professora - é, quer dizer. Também é aposentada, é viva também. Os outros meus irmãos… [Um é] militar, outra minha irmã é enfermeira. Dois seguiram na música profissionalmente também, dentro do quartel, são militares.

 

P/1 - Então sua irmã deu uma ajuda pro senhor no início?

 

R - Deu, com certeza. (risos) Deu uma baita ajuda, né?

 

P/1 - O senhor chegou a servir o Exército?

 

R - Sim, servi em 68 e 69. Era pra eu ter ficado no quartel, mas é que não... Não servia para mim, acabei saindo. 

 

P/1 - O senhor já começou a dar aula antes de terminar a faculdade. O senhor teve que fazer esses estágios e depois disso já seguiu como professor ou não?

 

R - Aí eu abracei a causa, não larguei mais. Até três anos passados.

 

P/1 - Conte então a respeito dessa questão da música na sua vida, paralelamente à sua vida como professor. O senhor foi se envolvendo, se aprofundando nessa questão da música? Conte como isso aconteceu.

R - Bem, aí vamos ter que voltar novamente no tempo. 

Como escoteiro... Nos escoteiros a gente ia acampar, tinha todo fim de semana, isso bem antes de eu entrar no quartel. Quando chegava a Semana da Pátria alguém tinha que pegar uma corneta e tocar o que eles... Clarim, durante a semana, naquela... No desfile. Eles me escalaram também para tocar corneta. Como já havia um pouco de conhecimento de percussão, fomos introduzindo esta nos escoteiros também. 

Como escoteiro e tocando corneta, fui me introduzindo na sociedade de Santo Ângelo. A partir dali, tive conhecimento com outros rapazes da minha época também; formamos grupos musicais. Desses grupos musicais, a gente passou por vários nomes, desde Blue Star, Os Legais, Faixa Nobre… Tivemos o mais recente, Grupo Elo Portal, então teve vários... É uma trajetória. 

Teve uma época que eu tinha que me decidir: permanecer definitivamente na música ou seguir como professor. Como matemático, comecei a pensar: “Bom, vou chegar com setenta anos como? Eu vou estar com filho, como é que eu vou sustentar a minha família? Então eu vou optar, vou ficar como professor.” É o que eu estou fazendo hoje. Esperando o auxílio Aldir Blanc.

 

P/1 - Não saiu ainda?

 

R - Não, mas vai sair. (risos)

 

P/1 - Torcendo. 

 

R - Vai sair, vai sair. (risos)

 

P/1 - E me conta um pouco sobre esses grupos em que o senhor tocou. Quais instrumentos o senhor tocava, além da percussão?

 

R - Tocava pistom, bateria e os outros instrumentos de percussão - pandeiro...

 

P/1 - E que tipo de música vocês tocavam?

 

R - Todos os ritmos, desde valsa, samba, xote... Nós não temos especificamente uma linha só, são várias linhas musicais que a gente tem. Inclusive, erudita também, mas para ouvir.. 

 

P/1 - Existia um espaço em Santo Ângelo onde vocês se apresentavam?

 

R - Nos clubes. Clube Gaúcho, Clube Comercial, Clube 28, e depois na região toda aqui. Fizemos viagem também para o Uruguai, Argentina, Paraguai, a gente viajou bastante. Só não chegamos com o grupo em São Paulo, mas eu tive oportunidade agora de chegar, uns quatro ou cinco anos atrás, de ir a Palotina, em São Paulo - quer dizer, toquei em São Paulo. Toquei em São Paulo! (risos)

 

P/1 - Essa realização o senhor já destacou da lista. (risos)

 

R - Toquei em São Paulo. Paraná, Santa Catarina, todo o Rio Grande do Sul praticamente a gente conhece, trabalhou nele todo ele também. Em São Paulo a gente foi até a divisa, quase ali, como é que é? Quatro Barras? É isso, né? Eu não sei se é Quatro Barras, bem na divisa que tem Paraná e Santa Catarina.

 

P/1 - Enquanto isso, o senhor permanecia também na sua carreira de professor. 

O senhor é casado, né? Como o senhor conheceu [sua esposa] e quando, nesse meio tempo?

 

R - Ah, agora sim. Vamos entrar pro sentimental. (risos)

Bem, a minha esposa, eu conheci ela num festival [em] que nós estávamos tocando. Até foi um festival que eu fui um dos criadores, chama-se Fapop. Tem um festival aqui na cidade, onde apresentava cantores e grupos musicais. 

A minha irmã, que é mais nova do que eu, estudava no Missões. E a minha esposa, que eu não conhecia ainda, também estudava no Missões. A minha irmã convidou minha esposa para cantar uma música nesse festival. Elas cantaram uma música que se chama Ai, moreno

Eu disse: "Opa, olha aí." Deu aquele "dim dim". Passamos a conversar, foi e acabamos nos casando.

 

P/1 - E qual é o nome dela?

 

R - Maria Roseli.

 

P/1 - E o senhor tem filhos?

 

R - Tenho, tenho quatro filhos. Dois filhos e duas filhas.

 

P/1 - E quais os nomes deles?

 

R - Kleber, Ricardo, Daniele e Pâmela. E tenho neto também, Rafael. 

 

P/1 - Eles moram também em Santo Ângelo?

 

R - Os meus filhos moram em Santa Catarina, um mora em Camboriú e o outro mora no Biguaçu. As minhas filhas moram comigo ainda. Tem uma delas que está fazendo Veterinária. 

(PAUSA)

 

P/1 - Bom, vamos para a segunda parte da entrevista. A gente vai voltar exatamente para onde a gente parou. O senhor se recorda do dia do seu casamento?

 

R - Com certeza. (risos)

 

P/1 - Conta um pouquinho pra gente.

 

R - O dia do meu casamento tem que voltar a um dia antes, porque é a despedida de solteiro. Aqui perto tem o Hotel Avenida e nós trabalhávamos no Hotel Avenida de segunda... Minto, terças, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos. Fiz uma amizade muito grande com o proprietário do hotel, onde foi realizado o meu casamento, no hangar de cima. Ajeitamos todos lá, foi feito meu casamento. 

Mas antes desse dia do casamento teve a despedida de solteiro. O meu padrinho, que era o dono do hotel, mais os músicos do grupo que eu tocava, que era Os Legais, resolveram fazer a despedida de solteiro lá no hotel. Quando eu cheguei estavam todos eles lá, no hotel. Disseram: "Agora nós vamos subir, você tá vendo todas essas garrafas lá em cima, lá? Você vai ter que tomar todas, vai ser a tua despedida de solteiro." (risos) 

Imagina, no dia do meu casamento, eu no maior porre do mundo! Meu casamento era às onze horas da manhã; às dez horas da manhã eu estava dormindo ainda. (risos) A minha esposa estava na igreja me esperando e eu não chegava nunca,  porque eu estava ainda em outro mundo. . 

Eles abusaram comigo em termo de me fazer beber tudo aquilo lá. No outro dia chegaram, me largaram na frente de casa, todo mundo foi embora, e me deixaram lá, sabendo que eu ia casar aquele dia. Foi bem interessante, mas foi... 

Eu vou encontrar as fotos do casamento. Na saída do casamento tem as escadarias; eu levantei o pé, se não é a minha esposa me segurar, eu ia cair lá embaixo. Eu ainda estava embriagado. (risos) Eu disse que não, que não era. (risos) 

 

P/1 - Não escorregou no arroz não? (risos)

 

R - (risos) Não cheguei a cair porque ela me segurou, senão eu ia cair. Eu ia cair lá embaixo, com toda certeza eu ia cair. E o meu casamento era de manhã porque à noite nós tínhamos que tocar em uma cidade que fica a oitenta quilômetros daqui. Nós tocamos no baile, ficamos... A minha esposa foi junto comigo também, e a nossa noite de núpcias foi... Terminou o baile e nós ficamos fazendo a nossa viagem de núpcias. 

 

P/1 - Pro senhor, como foi a experiência de ser pai?

 

R - Ah, foi maravilhoso porque a gente vai aprendendo com eles, cada... Cada um tem um estilo de vida, cada um tem uma maneira. 

Eu nunca fui assim... A minha esposa criou mais meus filhos do que eu criei, porque eu estava dando aula e nos fins de semana estava viajando, tocando, então praticamente ela que criou. Eu tinha que saber entender eles, todas as maneiras deles também.

 

(PAUSA)

 

P/1 - E como o senhor chegou no seu trabalho atual com música? A gente tem a informação de que o senhor é presidente de uma Associação Afro de Santo Ângelo.

 

P/1 - Bem, dentro da... É que a gente tem que saber colocar as coisas no lugar. Por exemplo, na etnia, que nós chamamos de etnia afro-brasileira… A característica da etnia afro-brasileira é o samba. E lá no norte é axé, reggae, funk, só que essas músicas aqui no Sul não têm tanta adaptação, não tem tanta aceitação, então a gente trabalha mais dentro do samba. 

Temos um grupo musical que trabalha só com samba de raiz, inclusive o nome é Viva Samba. Tem o tecladista, a bateria e mais um percussionista, que é meu irmão também. E o Clóvis, que é tecladista, faz parte desse grupo. 

Nós temos outro grupo em questão de região, que está dentro do grupo gaúcho. Agora nós tivemos a Semana Farroupilha, tivemos que fazer live dentro do grupo, na tradição gaúcha também. A gente tem várias escalas. 

 

P/1 - E isso faz... Qual é o trabalho dessa Associação Afro? Além das bandas existe uma sede, existem eventos?

 

R - Ah, o nosso grupo já existe há 31 anos. A gente vem... Esse grupo cultural, Negras Raízes, nasceu em 1989, [com] o professor Mário Simon, que criou um evento aqui em Santo Ângelo que se chamava "Encontros de Pátrias". Nesse Encontro de Pátrias, onde surgiu a etnia em termos de grupo… A etnia italiana, a polonesa, o grupo afro também e ainda o árabe. Se não me engano, tinha mais umas duas outras etnias também, não consigo me lembrar bem se era suíça e francesa, ou portuguesa, não consigo lembrar de todas elas. 

Foi dentro de um pavilhão, onde foram reservados espaços para cada etnia demonstrar a sua gastronomia e ainda a parte de dança. Cada uma delas teria que buscar apresentações para ser numa determinada data, a cada dia um evento seria responsável por cada etnia. E ainda tinha o evento maior; nesse evento eu era um dos responsáveis por ir buscar em campo as apresentações.

Nesse primeiro Encontro de Pátrias surgiu o grupo cultural Negras Raízes, que vem nessa formação. Até o ano passado nós não tínhamos a nossa casa e a partir de uma ementa parlamentar do senador Paim, que transferiu [um local] para nós,  conseguimos então construir a nossa casa. Agora estamos trabalhando para colocar todos os móveis dentro da casa para poder desenvolver mais eventos, mas durante todo esse trajeto a gente realizou vários exemplos, como escolha de rainhas, jantares com as nossas culinárias, [em] que as pessoas vão em busca de degustar a nossa comida, que é bem conhecida. A gente vem todos esses anos desenvolvendo esse trabalho.

 

P/1 - E quais são esses pratos de culinária que vocês servem nesse jantares?

 

R - Ah, bom, aí tem o amalá... Vai perguntar a receita? (risos)

 

P/1 - Não, não. Só pra ter uma ideia de como é o prato. (risos)

 

R - Senão eu vou ter que me preparar aqui. (risos) Tem amalá, tem bobó de camarão... Ai, ai, tem várias comidas, mas o tradicional mesmo é o bobó de camarão e o amalá. Tem o acarajé também, petiscos que são feitos também. 

 

P/1 - A gente vai começar a se encaminhar para as perguntas finais, a última parte da sua entrevista. Atualmente o senhor disse que se aposentou, não está mais dando aulas. O senhor está se dedicando agora à música?

 

R - Sim. Como... Agora não, porque nós estamos nessa pandemia. Para mim me traz recordações tristes, porque na outra pandemia... Quer dizer, epidemia. 

Em 2009 eu fazia parte um outro grupo que se chamava Banda Portal, e dessa banda nós passamos para o Grupo Elo. Nós estávamos tocando aí perto, no Paraná, quando começou a epidemia, aquela H1N1, agora não consigo me lembrar bem. A gente teve uns problemas financeiros sérios, inclusive tivemos que deixar esses grupos devido a... Porque a gente começou a se endividar muito. E agora, com essa pandemia, vai acontecer a mesma coisa. Muitos grupos irão fechar ou ficar com dívidas seriíssimas, vai levar muito tempo para responder e saldar essas dívidas.

 

P/1 - E pessoalmente, além do seu trabalho com música, como está sendo esse período de pandemia, de isolamento social? Além do senhor não poder se encontrar com seus amigos para poder tocar e fazer esses eventos, o que mais mudou na sua vida?

R - O que mais mudou é que a gente tá cuidando da vida, a gente tem que cuidar e cuidar de outras pessoas também. Não é fácil. Para quem depende do público, para quem convive com o público… Onde está o público você tem que estar ali para cantar, então é uma dificuldade muito grande. Tudo que a gente faz é através do celular, através do computador, ficar se comunicando para poder superar, porque não é fácil. É uma clausura.

 

P/1 - Era para estarmos conversando frente a frente. 

 

R - Frente a frente, é verdade. (risos)

 

P/1 - Essa entrevista é um exemplo do que acontece na pandemia. 

 

R - Mas é bom porque a gente fica aprendendo, a cada dia a gente tá aprendendo. E a tendência acho que vai ser essa. A tendência vai ser essa aí, temos que nos preparar muito bem. 5G (risos).

 

(PAUSA)

 

P/1 - Quais são as coisas mais importantes para o senhor hoje em dia?

 

R - As coisas mais importantes para mim? É permanecer vivo. E que todas as minhas famílias, meus amigos, permaneçam vivos frente a esse biopoder, bioeconomia, biopolítica. Bio, bio, bio… Falando como professor de Biologia, né? 

 

P/1 - E quais são os seus sonhos para o futuro?

 

R - O meu sonho para o futuro? É poder viver até os 120 para poder fazer palestras. Já estamos fazendo, né? Dentro da história da África e [dos] afrodescendentes. 

 

P/1 - Tem alguma história que eu não cheguei a perguntar que o senhor gostaria de contar - alguma das histórias como músico, por exemplo? Algum fato pitoresco que tenha acontecido nessas suas viagens, nessas suas apresentações?

 

R - Eu gostaria só de voltar no tempo na questão da Viação Férrea.

 

P/1 - Sim. 

 

R - Eu nasci em 1949. Se eu não me engano, questão de datas que eu não tenho... Mas vamos chegar em termos de dez anos. [Em] 1959 a Viação Férrea pertencia ao estado do Rio Grande do Sul, era a Viação Férrea do Rio Grande do Sul. Era uma malha ferroviária praticamente de todo o Rio Grande do Sul, [tinha] vários espaços onde não havia malha ferroviária. Não sei por que, depois da Rede Ferroviária Federal vendeu-se, ou terceirizou; não sei o que aconteceu, foi extinta.

Eu não vejo por que que no Brasil acontece isso. Se nós formos ver, Santo Ângelo praticamente cresceu em cima da malha ferroviária, cresceu aqui ao redor e foi expandindo a cidade. Hoje as cidades têm as suas características ainda, a zona norte aqui da nossa cidade pertencia aos imigrantes, tanto os alemães… E a zona sul [pertencia] aos brasileiros. Quer dizer, nós praticamente ficamos no meio dessa divisão da cidade, que foi antes de... 1949… 1928, acho que começou a existir... Não, aqui foi bem antes. [Em] 1800 acho que veio para cá. Não tenho bem certeza em questão de datas, mas...

 

P/1 - A linha ferroviária em Santo Ângelo chegou em 21.

 

R - Chegou em 21? É, então é isso, 1921 então. Mas em 1928 houve alguma coisa também? Com Augusto Pestana, parece que houve uma... Era um político, houve alguma coisa em questão também da rede ferroviária de Santo Ângelo. Eu tenho que fazer essa pesquisa para ver porque alguma coisa parece que tem referência ao nome Augusto Pestana, [em] 1928.

 

P/1 – Essa informação eu não tenho, mas o que a gente sabe é que tem também a questão do Luiz Carlos Prestes, que acabou também… Por isso que tem o memorial...

 

R - Ah, com certeza. Ele foi praticamente… Houve essa vinda da Viação Férrea para nossa região aqui, é bem mais história da questão... Mas eu quero voltar nessa questão da pujança. Praticamente Santo Ângelo se desenvolveu em torno da malha ferroviária. Eu não sei, eu sempre falo: por que na Europa se perpetua trens? Se vai na Europa, vai na... Por exemplo, na Alemanha, pega um trem, vai lá pra Itália… E aqui no Brasil, por que? Não consigo entender isso. Não é saudosismo, é uma questão de realidade. 

Outros países, como a Rússia, também usam trem. Os Estados Unidos também têm trem. Não sei por que, qual é o desinteresse na questão da malha ferroviária.

 

P/1 - E foi cedo, né? Desativou-se em 69 o trem de passageiros em Santo Ângelo.

 

R - É, em 69. 

 

P/1 - O senhor chegou a ver isso acontecer? O senhor se lembra como foi essa... O impacto dessa desativação?

 

R - Lembra que eu falei que era Viação Férrea do Rio Grande do Sul? No momento que houve essa transferência para a rede federal, parece que já havia o encaminhamento, que seria... Não sei, parece que a gente sentiu na época. Quando deixou de ser Rio Grande do Sul e passou a ser federal, a gente sabia que ia terminar. Por que eu digo isso? Porque o movimento ferroviário era muito forte. Era o Estado e ferroviário. Tem que se fazer um estudo nesse sentido também. 

Quando paralisava o trem, parava a economia, determinada região parava. Como houve agora, se eu não me engano no ano passado, que os caminhoneiros pararam; não parou a economia? A mesma coisa acontecia com a viação férrea, então era a segunda força, era o Estado e a viação férrea, era uma força grande de movimento de economia. Tem que ser repensado isso.

 

P/1 - E em relação a essa questão da carreira como músico, que eu tinha comentado antes, o senhor tem alguma história para contar para a gente, dos seus shows ou algo que aconteceu que eu não tenha perguntado?

 

R - Eu vou contar só uma história de um repórter, não sei se você vai entender. Um repórter em Santo Ângelo, uma tarde me chamou, me convidou. Disse: "Vamos fazer uma entrevista?" "Vamos, não tem problema." "Mas eu só quero que você me conte dos bastidores que acontecem no baile." Eu disse: "Então olha, não vamos ter entrevista." (risos) Nos bastidores a gente não sabe nada, a gente não enxerga nada. (risos)

 

P/1 - Eu não digo na verdade histórias de bastidores, mas eu digo, por exemplo, histórias de alguma coisa que aconteceu no baile. Alguma coisa fora da banda, por exemplo, acabou a energia (risos), aconteceu alguma coisa imprevista e o show aconteceu, ou algo assim. 

 

R - Aí tem várias histórias. (risos) 

 

P/1 - Que o senhor possa contar…  

 

R - Tem várias histórias que nem dá pra contar. Todas elas são fantásticas. Nós vamos escrever um livro. 

 

P/1 – (risos) É muita coisa, né?

 

R – É muita coisa. (risos)

 

P/1 - Tá bom, vamos encaminhar então pro final da entrevista. A última pergunta, não comprometedora. (risos). O que o senhor achou de dar o seu depoimento, de contar a sua história de vida pra gente?

 

R - Eu achei fantástico porque essas histórias devem ser contadas. Nós temos que ser contadores de história para as gerações que vêm terem conhecimento, senão não vão ter. Não têm conhecimento dessa época, como viviam, como se conheceram, como era a convivência no dia a dia. Vai ficar no esquecimento, então isso deve ser… Todo mundo deve contar a sua história, tem que ser contador de história. Mas não aquela história do repórter. (risos)

 

P/1 - Essa é uma memória, né? 

 

R - É. (risos)

 

P/1 - Bom, tá certo então. Então eu só tenho a agradecer.

 

R - Só vou contar uma. 

 

P/1 - Tá bom.

R - Isso aconteceu há pouco tempo, vai fazer o quê? Acho que oito anos, mais ou menos. Nós estávamos tocando num baile de chopp em... Santiago. E nesse baile de chopp, a gente acabou esquecendo que chopp não é água. Acabamos tomando bastante chopp e quando vínhamos voltando de Santiago para Santo Ângelo, paramos no posto e nesse posto tinha aquele Lango Lango. Conhece o Lango Lango, né? 

Eu desci do ônibus. Como eu estava bem alegre, cheguei no Lango Lango: "Aí, fulano, como é que vai?" Essa é uma das histórias. (risos)

 

P/1 - Estava alegre. Porque não é água, como o senhor mesmo disse.

 

R - Bastante água. (risos) Mas foi só aquele dia. 

 

P/1 - Fica tranquilo, não foi comprometedora essa história. 

 

R - Não, não. Essa não. (risos)

 

P/1 - Bom, tá certo. Então a gente encerra a nossa entrevista com essa sua história, eu agradeço muito em nome do Museu da Pessoa e da Rumo também, que está patrocinando esse projeto de memórias da linha férrea de Santo Ângelo. Mas não é só sobre isso também, a gente quer saber em que medida a história de vida das pessoas se cruzam com a história da ferrovia, por isso a gente entra em outros aspectos, afinal, somos o Museu da Pessoa. O que importa também são as histórias de vida das pessoas, o que elas viveram, o que elas passaram.

A sua história vai fazer parte agora do acervo do Museu da Pessoa, para que as pessoas possam acessar a sua história e possam conhecer também um pouco da sua cidade, da sua vivência. Então agradeço muito pela sua entrevista, muito obrigado. 



R - Eu que agradeço. 

Voltando só à questão… Você falou em questão de vida. Até o Luciano tinha me falado a respeito. 

Quando eu dava aula num determinado bairro em Santo Ângelo, chama-se Indubrás, ainda havia pela malha o movimento do trem. Uma certa manhã o ônibus que vem aqui da cidade, indo para o colégio que eu dava aula, ia passando e eu não sei o que aconteceu com o maquinista. [Ele] não viu o trem e o motorista do ônibus também não viu. Houve um acidente, perdeu-se vida devido à falta de atenção, tanto do motorista como do maquinista do trem. Mas sabendo-se que ali tem uma passagem de trem, o ônibus deveria ter parado, houve pessoas que acabaram perdendo a vida. 

Vários outros acidentes também aconteceram, de pessoas dormirem assim… Quando vê o trem pegou. Aconteceram fatos trágicos também, mas teve mais coisas alegres do que coisas tristes nesse percurso todo.

 

P/1 - Tá certo. 

Muito obrigado pela entrevista. Agradeço pela sua presença, pela sua disponibilidade de contar sua história para a gente.

 

R - Estamos à disposição. Pro que precisar, estamos aí também. Obrigado.

 

P/1 - Obrigado.

 

R - Obrigado a todos vocês.






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