Busca avançada



Criar

História

A "muriquita" que virou Quita

História de: Lourdes Maria Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/03/2020

Sinopse

D. Quita, como é conhecida Lourdes Maria Rodrigues, contou em seu depoimento como sua infância foi difícil por causa de paralisia infantil que a atacou quando tinha três anos. De família numerosa, narra as dificuldades da família, o casamento com Zé Dica e o nascimento dos filhos. Fala sobre a pneumonia que quase matou o filho Rafael, e com grande tristeza relembra a menina que criou entre os nove meses e cinco anos e que ao ser devolvida para a mãe biológica, uma sobrinha de Quita, acabou por falecer.

Tags

História completa

A nossa casa era de chão batido, de tijolos. Minha mãe dormia no quarto da cozinha e nós dormia num quarto assim que entrava na outra porta da cozinha. Meus pais eram Maria Teresa Rodrigues e Vicente Antônio Rodrigues. Nascidos e criados aqui no Mogol mesmo. A terra lá era do meu avô, meu pai trabalhava junto com o meu avô puxando queijo das fábricas pra levar para outras fábricas. Eu não tinha idade de estudar. A Neuza entrou para a escola, eu copiei a moda de vir para a escola com ela. Eu não andava e a Neuza me carregava nas costas porque tinha me dado paralisia. Me deu uma dor no corpo, uma febre danada. Cheguei em casa e já estava tudo encaroçado, não mexia mais com as mãos, nem com as pernas. Toda hora eu queria estar no colo, mas me pegavam e meu corpo estava doendo. Eles me levaram ao médico, mas ele falou que era paralisia porque eu não tinha tomado a vacina. Fiquei paralítica, não punha nem a mão na boca. Minha madrinha de batizado fez um óleo de ovo de pata e passou no meu corpo inteiro, me embrulhou nos cobertores e falou que eu não podia tomar friagem. Fiquei uns três dias embrulhada, trocava minha roupa e voltava a me embrulhar naqueles cobertores. Aí que eu comecei a mexer de novo com as mãos, aí comecei a colocar comida na boca, comecei a andar de novo, arrastando o pé. Meu avô foi e me deu uma bengalinha para ir escorando e ir andando. Eu tinha três anos. Eu lembro, chorava dia e noite. Eu queria sair brincando com os meus irmãos e como é que ia? Eu punha a mão na parede e punha a bengala assim e ia andando. A Neuza me colocava sentada num banco do lado de fora. Na hora em que o professor falava que estava na hora de entrar na escola, ela me pegava no colo e me punha na cadeira. Foi a primeira e única vez que eles me levaram em um benzedor. É por isso que eu tenho esse apelido de Quita, porque a mãe chegou lá no benzedor e, na hora de entrar lá o homem falou: "Oi, dona, pode trazer a muriquita". Ela chegou em casa e foi dar bobeira de contar aos meus irmãos que ele tinha me chamado de "muriquita". Eles ficaram: "Quita", "Quita". E esse apelido ficou até hoje. Lá em Barra Massa meu pai comprou uma tropa, trabalhava puxando umas coisas para os outros. Carvão principalmente. Mas aí a gente tinha mais dinheiro, podia fazer uma compra mais grande, comprar umas roupas para as crianças. Só fazia comida, porque eu aprendi a fazer o almoço e a janta quando estava com sete anos. Não fiquei sem estudar. Todo lugar em que eu morava eu estudava um cadinho. Quando mudava, eu tornava para a escola e estudava. Faz pouco tempo que eu machuquei a minha perna. Eu já tinha o Rafael. Eu já estava lavando as fraldas dele. Aí fui estender as fraldas e bati com meu joelho em cima de um monte de cimento que estava ali com brita. E aí machucou, saiu sangue. Lavei e fiquei curando aquele machucado. Depois de já que passou muito tempo, fui no médico e meu joelho está rachado assim, pataca de joelho. Aí fui ao doutor Ramon e pedi para operar meu joelho. Ele falou: "Ah, não, agora pode ficar assim mesmo". E assim mesmo está até hoje. Perdi a força do nervo da perna, porque a pataca do joelho, rachou no meio assim aí eu fiquei sem força, do joelho para baixo eu não tenho força na perna. Eu andava por esses matos aí caçando lenha com os meus meninos. Eu ia tirando lenha e eles iam carregando. Agora é que eu não tenho força mais na perna, já tem uns seis anos. Aí eu vou andar, fico em pé assim, se bobear o joelho sai fora do lugar assim é um tombo de costas. E aí eu até apanhei medo de ficar em pé em algum lugar sem segurar numa coisa, porque é perigoso quebrar um osso, o quadril, um braço, a perna mesmo. Aí fico com medo. E eu andava só com a mão assim. Quando eu estudava, andava com a mão na perna assim, depois eu comecei a andar com o bambu. O bambu até rachou, apertou a minha mão e deu uma baita de uma bolha d'água. Aí eu fiquei puxando assim, mas não acabava de jeito nenhum. Depois, um homem que morava lá perto de casa, um tal de Bastião Cândido falou: "Ah, não, vou trazer um pau para você escorar assim e ir andando". Aprendi a andar assim e andei muito tempo. Depois fui na cidade e um homem lá de Juiz de Fora me viu andando com aquele pau e falou: "Você não tem medo de cair com esse pau, não?". Eu falei: "Não, ando com ele há muito tempo. Agora que está ficando velho, vou ver um outro mais novo". E ele falou, "Não, vou trazer uma muleta para a senhora". Aí trouxe. Mas se eu tivesse aprendido a andar de muleta quando eu tinha mais força na perna, eu andava para todo lado. Depois que já estava sem força na perna, não adiantava nada de muleta. Fui trabalhar em Juiz de Fora com 22 anos. Trabalhei em umas cinco casas. Trabalhei na casa de uma mulher, mas a mulher era ruim. Ela tinha um casal - uma menina e um menino. Eu tinha que pôr as fraldas da menina no balde rosa com os pregadores rosas; do menino, um balde azul com os pregadores azuis. Tinha tanta laranja, mas não podia chupar nenhuma. Para chupar uma laranja, tinha que esperar ela sair. Era um campo assim, de pura laranja. Se comesse uma laranja, ela fazia a gente pagar. O marido dela era um boiadeiro, só vinha em casa só de mês em mês. Eu dei sorte que ele estava lá e falei com ele. Estou trabalhando e está me enchendo o saco" (risos). Dinheiro nenhum paga o sossego da gente. Lá na Luísa era bom, porque era só ela e o marido dela. Ela era dentista e o homem trabalhava na farmácia, tinha duas farmácias e ficava para lá o dia inteiro. Quando fui trabalhar na Luísa, foi a última. Depois, vim passear em casa e o ‘seu’ Zé falou: "Bora comigo?" Eu o acompanhei e estou com ele até hoje. Ele morava em cima e eu morava ali, olha. Todo dia um via a cara um do outro. A Dona Dica e o Sr. Valdemar não gostavam de mim eles ficava me amolando que não era para eu ficar na família dele. Eles me botou até o apelido de "mula manca", mas graças a Deus, estou trabalhando até hoje. Ia fazer pré-natal, montava no lombo de um cavalo e ia parar lá na porta da Santa Casa. Quando a barriga apertava na cabeça do arreio, eu jogava ela pra arriba e ia embora. A primeira filha foi a Janaína. Eu gostava de comprar roupa para ela toda branca. Esse Rafael mesmo teve ruim. Porque ele estava com pneumonia nos dois pulmões e não podia nem encostá-lo assim na gente. Ele não tinha nem um mês. Aí levou para a cidade no outro dia, chegamos de madrugada na Santa Casa. De madrugada, o médico chegou e falou: "Ah, eu não vou dar vida a esse menino até 11 horas". Eu tenho muita fé com Nossa Senhora da Aparecida. Eu fiquei com ele nove dias lá na Santa Casa, e o médico falava comigo: "Esse aí não tem vida, não. Ele está gelado já". E eu falava: "Nossa Senhora da Aparecida vai me ajudar, que ele vai sarar". Ele pôs só no soro. Nada parava no estômago dele. Depois de nove dias, o médico falou que podia ter alta. Tinha missa aqui, pedi carona com o padre e vim embora com ele. No dia que fez oito dias que eu estava aqui, ele tornou a adoecer e lá fui eu de novo, fiquei mais oito dias. Minha vontade era de sair doida com ele assim para algum lugar que não tinha nem barulho e ficar com ele sempre no colo. Ele no berço e eu a noite inteira olhando ele com medo de eu acordar e ele estar morto. Eu fiz promessa. Mandei até uma foto dele com a roupa de batizado lá nos pés de Nossa Senhora da Aparecida. Eu criei uma menina de nove meses até cinco anos. A mãe dela era minha sobrinha. Pareceu com essa criança. A menina chorava a noite inteira. Eu falei: "Miriam, essa menina está com fome". E ela: "Não, tia Quita, está com fome nada". O ‘seu’ Denaro benzeu e o corpo da menina ficou lisinho, aqueles caroços acabou tudo. Falei: "Não, me dá essa menina, deixa eu pôr ela aqui para ver se ela vai dormir a noite inteira". Dei banho, coloquei ela no meu quarto, dormiu a noite inteira. Criei ela desde os nove meses até os cinco anos. Aí, um dia, eu fui com ela na cidade e a mãe dela falou: "Ah, Tia Quita, a senhora podia deixar a Rejane aqui comigo"? A menina falou: "Mãe…" – ela me chamava de mãe, e a mãe dela ela chamava de Miriam. "Mãe, a senhora não deixa eu ir embora junto com a Míriam não porque eu vou morrer". A menina falou assim comigo. Ela falou: "Só vou te levar porque o Conselho Tutelar vai lá em casa, depois eu te trago, no sábado". Tinha um baile aqui, “eu trago a menina no sábado”. Não trouxe mais nada. No dia em que fez três meses que ela tinha levado a menina, a tia Zolina chegou e falou: "Comadre, a Regiane está passando mal". Falei: "Tia, fala que a menina morreu de uma vez". Pois se eu estava de manhã, quando eu desci da cama, ela estava com o vestido que comprei para ela, um vestido branco, que está até por aí, até hoje. A menina passou assim perto de mim assim e eu a vi direitinho passando perto de mim. Eu a encarei assim, ela olhando para o lado da sala e eu só vi a sombra saindo na porta da sala. Veio se despedir de mim porque ela morreu naquele dia. Depois, o irmão dela – da menina que morreu –, falou que tinha sido a mãe dela que tinha dado umas cacetadas com cabo de vassoura na cabeça da menina, porque a menina pediu comida. Ele falava assim: "A mãe que matou a Regiane, ela deitou o cacete na cabeça da menina com o cabo de vassoura". Tomei raiva da mãe dela também. De vez em quando ela liga. Fiquei uns quatro meses sem comer nada, mas eu ficava assim… Era de uma janela a outra, só olhando para ver se ela voltava com a menina. Nunca mais vi a menina (choro). Me arrependo de ter deixado a menina ir embora acompanhar aquela cachorra, sem vergonha. Ela não tinha que ter tirado a menina da minha mão para matar não. Deve ter uns dez anos já que a menina morreu. Quando ela saiu daqui da minha companhia, ela estava com cinco anos. Quando eu pego os retratos dela e olho, eu não acredito. Eu não devia ter deixado ela levar, mas ela era mãe e eu ainda não tinha registrado os papéis no meu nome e nem nada. Aí eu não podia falar: "Não leva". Porque senão, ela iria na Justiça dizendo que eu tinha tomado a menina dela à força. Mas arrependimento eu tenho. Se arrependimento matasse, eu já tinha morrido. Eu nem gosto de mexer lá nas fotos dela.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+