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História

A Mulher que Viu as Vidas

História de: Philomena Ricciardi Alves dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/11/2019

Sinopse

Em seu depoimento, Dona Nena relata experiências vividas ao longo de seus 89 anos, explorando histórias de infância com origens italianas, relacionamentos e família, nos deixando conhecer memórias como a cumplicidade que compartilhava com seu irmão mais novo. Sua jornada se entrelaça com a da cidade de São Paulo e acompanha as transformações do bairro de Pinheiros, onde mora e trabalha como cartomante.

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História completa

R - ...cedo também né, com vinte e quatro anos eu tive dois filhos, e eu tinha uma amiga que ela acabou tendo uma outra amiga dela que tirava carta para ela, via na revista e começou a ensiná-la e uma tirava da outra para ver se dava certo, acabaram me ensinando para eu tirar para elas. Eu já era casada, tinha os filhos, não tinha muito tempo também. E outra que depois ficou madrinha da minha filha, eu fui madrinha de casamento dela, ela já faleceu também, era um ano mais nova do que eu, ela falava assim: “Você acerta tudo, ela não acerta”. Eu falava: “Sei lá, acho que é dom que a gente tem, precisa ter dom. Senão, não vai”. E tirava para ela, ela trabalhava em escritório: “Tira para uma amiga minha?” Eu falei: “Meu marido não gosta que eu fico...”, mas eu tirava escondida. Eu não cobrava nada dela. Agora delas eu comecei a cobrar alguma coisa, porque eu falei: “Também eu vou ficar minhas tardes aqui sem fazer nada, trabalhado à toa?” e acertava. “Posso trazer minha prima, posso trazer minha irmã?” e comecei, mas meio escondida do meu marido. Aí ele falava assim: “Você está de sapato novo?” “Minha mãe que comprou.” Não, era eu que comprava, mas eu falava que era minha mãe, para ele não ficar sabendo muito. E foi assim. Depois a mãe dessa minha comadre, o marido dela foi policial, ele era policial, eles iam na casa de macumbeiro naqueles tempos, não podia ter, hoje está meio aberto, mas antigamente não tinha, e eles pegavam os livros, as coisas deles. Ele pegou um livro de São Cipriano, aí ela me emprestou o livro, então eu copiei para minhas cartas e enriqueci, aquilo que eu sabia, eu aumentei, e assim que eu aprendi. E, quando apertou mais a minha vida, que meu marido não trabalhava mais, foi isso que me salvou. Elas falavam: “Posso trazer mais?” “Não, não”. Aí: “Pode trazer quem quiser” e aí ficou. Uma vez veio uma moça, moça ainda, ela era manicure, ia fazer nas casas das pessoas unha, pé e aí: “Posso trazer minhas clientes?” Mas elas trouxeram tanta gente, que até hoje tem lembranças delas ainda. Foi aí que eu comecei e até hoje tenho bastante cliente, se eu quiser trabalho o dia inteiro, é que eu não quero mais, já estou muito cansada, já estou com a idade, mas essa é a minha vida. Com isso que eu sustentei meus filhos, porque meu marido ficou onze anos sem trabalhar, eu sustentei todos sozinha e foi muito difícil, foi muito difícil a minha vida. Não tenho boas recordações, sabe? Recordações é trabalho. Sabe o que meu filho disse para mim outro dia? Que vai por uma placa no meu túmulo: “Nasceu para trabalhar e morreu trabalhando”. É a minha vida. É, não me arrependo de nada que eu fiz, está tudo certo, eu fiz porque eu quis. Me sacrifiquei, trabalhei feito uma doida, porque eu quis. Eu podia ficar uma velha sossegadinha, descansadinha e fazer os filhos me sustentarem, mas eu não gosto disso, não.

P/1 – E ainda sobre a profissão da senhora, tem alguma passagem que 

seja marcante, alguma cliente que tenha te marcado?

R – Se eu escrever um livro vai ser best-seller.

P/1 – Tenho certeza. (risos)

R – Se vai ser! Muitos anos, tem muita coisa, políticos que eu atendi. Minha clientela sempre foi muito selecionada, sempre gente de nível mais alto, muito poucas pessoas de nível mais baixo. Tem uma menina, eu falo menina, mas ela já tem sessenta e poucos anos, conheço desde menina. Essa nunca me largou, eu gosto dela, apesar dela ser uma menina bem simples, eu gosto dela. Então, quando ela era mocinha ainda, eu estava tirando carta para ela, eu falei: “Não namora esse moço, não, porque ele vai morrer.” Ela falou: “Por que ele vai morrer?” Eu falei: “Sei lá, vai morrer.” Mas ela não pediu mais detalhes, eu também passei por cima. Aí diz que fim de semana ela ficava na patroa, eu conhecia a patroa e a patroa é que me trouxe ela e fim de semana ela liga para a casa da família. O rapaz foi falar com ela e ela falou: “Não vou namorar com você porque a senhora que tira carta para mim disse que você vai morrer”. Gente bem simples que fala as coisas. “Do que eu vou morrer?” “Não sei, eu não perguntei”. Ele perguntou: “Será que ela tira para mim?” É um pouco difícil porque homem, normalmente, eu não atendo muito difícil. Ela disse: “Eu vou perguntar se ela quer te atender”. Isso foi numa quinta, no sábado mataram o rapaz. Ele foi separar uma briga de amigos e o mataram. Isso marcou muito, ela falava isso para todo mundo, agora acho que ela nem lembra mais. (risos) Faz tantos anos. Mas marcou para mim, lembro muito. Muitos políticos aí que foram presos avisei antes e acabou indo preso mesmo, é muita coisa assim, muito marcante, muito, muita coisa. Até agora ainda me avisa: “A senhora lembra que me falou isso?” Eu tenho uma memória muito boa, meio fora do comum para minha idade, mas eu sempre tive memória boa. As pessoas ficam, às vezes, um tempo sem aparecer depois: “Você lembra de mim?” “Lembro.” Lembro mais do que elas sabem, do que elas pensam, as histórias todas, mas eu não fico falando. Só depois que eu pergunto: “E tal coisa?” “Ainda a senhora lembra?” “Lembro.” É muita coisa, mas é.

P/2 – A senhora chegou a ensinar alguém a ler as cartas?

R – Eu ensinei minha sobrinha, que você conhece, a Adriana, mas só fez besteira. Então falei para ela: “Não tira mais”. (risos) Só faz bobagem, e a Maria Tereza que é irmã da Márcia, ela também me devolveu as cartas. Eu falei: “Nunca mais, não vou ensinar ninguém mais”. Tem gente que pede, quer aprender eu falo: “Não ensino”. Depois não adianta ensinar, é preciso ter dom para isso, porque as cartas estão marcando alguma coisa, mas você tem que fazer uma história ali, eu não faço história de invenção, eu faço o que me dá, o que eu acho que tem que ser. Por isso que eu acerto e as outras não acertam, porque as outras fazem histórias, ficam inventando bobagem. Então, você começa a inventar besteira, vai falar besteira. Então, não ensino não, não quero saber. Você sabia que eu não tiro para a família, né? Muito difícil. Porque eu acho que eu vou... eu já sei a história deles, então é ruim, só alguma coisa que eu preciso. Por exemplo: quando ia morrer meu marido que estava doente, eu estava tirando sozinha na minha casa como que ele está. Ele vai morrer. Aí chegou a minha nora, ela é crente, não mexe em carta, eu estava nervosa, ela falou: “O que aconteceu?” “Eu estou vendo que ele vai morrer.” “Será, dona Nena? A senhora está tirando sozinha, pode ser que a senhora errou. Olha, eu vou tirar para a senhora, eu não faço isso, mas para saber dele a gente faz.” E, na hora, eu falei: “Ele vai morrer esses dias”. Aí o meu filho telefonou, ela disse: “Sua mãe está chorando porque diz que teu pai vai morrer”. Ele morreu dali três dias. Coisas que eu não gosto de ver de família, prefiro não ver, mas se precisar eu olho alguma coisa, não gosto de me aprofundar. Porque sem querer a gente se envolve, prefiro não. A não ser que é uma coisa muito grave. Quando a minha filha ia ter o primeiro filho, achei que ela estava passando mal, que ela não estava bem. Eu ia com ela no médico, o médico me tratava assim, deve ser um pouco débil mental essa mulher aí. (risos) Eu tive a cabeça muito boa. Então eu falei: “Eu não estou vendo mais o nenê, eu não estou mais vendo o nenê”. Aí eu fui perto de nascer, um dia antes no médico com ela fazer ultrassom, eu falei: “O nenê está muito triste”. O que estava fazendo ultrassom, que era amigo dela, lá do hospital, falou: “Como a senhora está vendo que ele está triste?” Eu falei: “Está triste, o nenê está triste”. Ele morreu aquela noite, na barriga dela. Eu estava cansada de falar: “O nenê vai morrer, não estou vendo mais o nenê”. Quando eu via a carta, sabe, eu não via mais o nenê. E a minha filha também está em perigo muito grande, ela quase morreu, né? Eu cansava de falar, falava para o meu genro, ele não queria saber. É como agora, que eu estava no hospital com a perna, chegava a geriatra... se fala em geriatra, para eu ir em médico geriatra, eu vou matar um. “Como é seu nome, quantos anos a senhora tem?” Todo dia a mesma coisa. Aí, no terceiro dia eu falava: “Já está na ficha meu nome, então a senhora vê, eu não preciso estar falando”. Ela batia palma, sabe, quando eu falava da idade. Aí um dia eu falei: “Eu estou ruim da perna, da cabeça não, né?” Aí chegou o dia de me dar alta: “Eu não vou dar alta para a senhora”. Falei: “Por quê?” “Está na sua ficha que a senhora emagreceu muito em dois anos, emagreceu vinte e quatro quilos, a senhora está com anemia”. Eu falei: “Anemia na minha vida é constante, sempre tive anemia. Melhora, volta”. Eu nunca comi direito. Aquela história: sempre trabalhar muito, então comia de pé, rápido, para fazer minhas coisas, cinco horas eu já estava atrasada, cinco horas da manhã, sair correndo. Eu falei: “Eu vou ter que ficar aqui no mínimo uns dois meses para melhorar um pouco, você acha que eu vou ficar aqui uns dois meses?” Já me enchi da moça, aí vem a minha filha. A minha filha foi falar com a chefe, falou: “De jeito nenhum a minha mãe vai ficar aqui, ela pode pegar uma infecção hospitalar. Ela não tem nada o que fazer aqui”. Aí ele me deu alta. Se você fala em geriatra para mim, pelo amor de Deus. Batendo palma para mim? Então ela notou que eu estava bem da cabeça? (risos) E assim vai a minha vida. Agora estou aqui esperando a morte. Isso que é chato, viu? Esperando a morte, o dia que a morte resolver, esqueceram de mim lá para cima, se é que vai ter lá em cima, né? Então, quanto mais você estuda, quanto mais você aprende, mais você fica sem saber nada, o que vai ser. (risos) Será que tem outra vida? Ponto de interrogação.

P/1 – A senhora gostaria de falar um pouquinho sobre seus filhos, como foi o nascimento?

R – Dos meus filhos, eu tenho dois, um casal. A Vera, minha filha... aquele tempo, aquela história de... a mãe da minha comadre, que era mais minha amiga, esqueci de mencionar isso quando você falou amiga, ela foi mais amiga. Então, eles estavam sempre junto comigo, minha mãe telefonou que a gente estava no hospital. Então ela começa: “Faz força, faz força”, e não era a hora de fazer força, fiquei muito nervosa. Eu sempre vivia sozinha, sabe assim, acontece as minhas coisas sozinha, nada de gente me aborrecendo. Então acabou a criança, disse, que virando, teve que tirar a fórceps, a ferro, né? Mas naquele tempo eles davam anestesia geral, então eu dormi, acordei depois de horas e não vi a nenê. Eu fiquei muito magoada, eu pensava: “Será que morreu?” Porque o médico, o escutei falando com minha mãe: “Se não tirar essa criança logo vai morrer, porque está virada, não sei o que”. Ele quis valorizar o trabalho dele, eu acho, em todo caso... eu falei: “Será que morreu e estão me escondendo?”, mas eu olhava para ver se alguém estava de cara muito triste, mas ninguém estava, então falei: “Então está bom”. Depois de dois dias, mais, quando eu conheci a Vera, viu? Eu falei: “Será que é minha filha, mesmo?” Ela é muito diferente do que eu, é mais com o pai, tem os olhos azuis, é alta, bem diferente. Agora meu filho nasceu dia de Natal, dia de Natal mesmo. A gente brincava assim: “Quando que vai nascer? Vai ser presente de papai Noel”. Mas eu brincava, porque o médico dizia que era fim de novembro. Eu falei: “Não, minhas contas” - eu nunca errei, não errei nem no primeiro, que eu tinha vinte e dois anos – “pela lua, sabe, eu marquei pela lua, vai nascer fim de julho”. Foi o que ela nasceu, vinte e nove de julho. “Não, não ele vai nascer fim de...” Aí eu fiz a mala, depois me enchi de ver a mala e peguei a mala e botei lá em cima. “Mãe, você é louca? Botou a mala lá em cima.” Eu botei a mala lá em cima e nasceu dia de Natal. Eu dizia que era presente de papai Noel e foi, nasceu no dia de Natal, esse nasceu de parto normal, foi bom, achei melhor porque vi nascer, vi ele perto de mim, eu gostei. É o que me dá mais trabalho até hoje. (risos) Agora o meu querido mesmo é o marido dela, o Marcelo. 

P/1 – É neto?

R – Meu neto, filho da minha filha, tenho quatro netos, mas ele...

P/1 – Posso perguntar por que ele é o querido?

R – Eu também não sei. Ele nasceu, eu sempre agarrada com a minha filha, sou muito apegada com meus filhos. Então, ele nasceu, veio da maternidade, ele olhava para mim e sorria e minha filha: “Impossível, mãe, ele acabou de nascer”. Mas um da eu falei: “Vem aqui no quarto, que você vai ver”. Ele olhava, porque minha filha teve um parto... perdeu o primeiro filho, nasceu morto, foi muito triste, então ela não comprou os móveis para os outros, comprou só depois que nasceu. Porque teve que tirar todos os móveis do primeiro filho. Então, ele foi dormir no carrinho enquanto vinha o berço, a caminha dele. Ele ia ficar com o berço da irmã e a irmã com a caminha. Então, ele estava no carrinho. Eu olhava, ele virava o rostinho e sorria para mim. Ele estava com quatro, cinco dias. Eu falei: “Você está vendo como ele sorri?” Ela falou: “Sorri, mesmo.” Ele virava o rosto e sempre foi agarrado comigo, você vê, até hoje, sempre agarrado comigo. Eu não sei, é coisa da gente, né? Eu gosto muito dele, eu gosto dos outros, é claro, mas ele... eu não tenho vergonha de dizer que ele é o preferido, não estou nem aí se alguém achar ruim. Os outros meus natos acharam ruim, problema deles. Falei: “Quando vocês tiverem filhos” - hoje já tem filhos, todos já têm filhos – “vocês vão saber mais tarde”. A gente não tem culpa de gostar mais de um, eu gosto de todos, sempre presenteei todos. Eu que paguei a faculdade da minha neta mais velha, sempre dei um jeito de ajudar todo mundo, mas ninguém entende a gente, a gente é a gente, né? Cada um é cada um.

P/1 – A senhora tem quantos netos?

R – Eu sonhei uma noite com isso, que os espíritos diziam para mim: “Ninguém te entendeu, ninguém te compreendeu”. Falei: “Está bom”. Mas eu não vou mudar por causa disso, não vou ser aquela velha: “Nenezinha, filhinha”, não sou disso. Quando me dá na cabeça eu xingo todo mundo, brigo com todo mundo, depois... não que eu vivo brigando, não é assim, mas se eu tiver que falar alguma coisa, eu vou falar na cara, se achar ruim, achou, estou sozinha mesmo. Morrer sozinha, nasci sozinha, não nasci grudada com ninguém. Meu filho sempre fala: “A senhora tem essa mania de falar isso”. Nasci grudada com alguém? Não, nasci sozinha, vou morrer sozinha. Alguém vai me acompanhar? Não. Então, não sei. É ruim a gente ter cabeça boa, porque a gente está sentindo que a gente sente tudo que está se passando com a gente. A gente está entendendo, que eu estou perdendo minhas forças, que eu não tenho mais ânimo, sentindo que está acabando, né? A força está acabando. 

P/2 – Dona Nena, com foi para a senhora essa experiência de se tornar avó?

R – Eu queria muito ser vó, queria muito, até quando o Marco casou, ele casou antes da irmã. Eu falava para ele: “Quando você vai me dar...” “Ai, mãe também não é assim, a gente precisa pensar muito para ter um filho” - essa filha dele já tem... a Leticia tem 38 anos, a minha neta mais velha - “a gente não pode ter filho rápido”. Eu falei: “Não, tudo bem” “ A gente precisa pensar muito para criar, não sei o que.” Eu falei: “Se você achar... você é psicólogo...” - ela é professora de Português, fez Pedagogia, a mulher dele - “se vocês acharem tão difícil, dá para mim que eu crio, eu acho que eu não criei tão mal vocês. Não fiz nenhum filho bandido, nenhum vagabundo, nem nada, todo mundo estudou, todo mundo se virou. Então, se vocês estão com medo, dá para mim”. Brincando, né? Nasceu a Leticia, fiquei muito feliz e nervosa também. Você soube o que aconteceu com a Leticia, quando ela nasceu? Quem fez o parto foi a Vera, minha filha que já estava formada, mas estava fazendo residência junto com o professor dela. Eles vieram para minha casa dizendo, de manhã cedo... a Vera tinha ficado de plantão a noite inteira, minha filha, já estava para casar também com o marido. Então eles vieram, telefonaram que ela parece que estava perdendo água. Então, a Vera tinha acabado de chegar do plantão, falou: “Fala para eles virem para cá.” E ela estava tomando café da manhã, que não tinha tomado no hospital, então meu filho: “Vocês tomaram café?” “Não”. “Você não toma nada, não come nada” - falou para minha nora – “você não vai comer nada, você toma café, porque a gente não sabe que horas vai nascer o nenê, porque vai nascer hoje”. Ela ficou toda nervosa, foram para o hospital tudo, nasceu. Ela nasceu muito bonita, a Leticia era muito bonita de nenezinho. Então eles acharam, daí uns dias, que ela tinha um problema no coração, que ela tinha o coração virado, meio virado. A Vera tem igual, a tia tem igual, só descobriu quando já era adulta. Então, se continuasse assim, ela morria, precisa ver como ia acontecer. Eu fiquei muito nervosa, muito angustiada. Até quando ela saiu da maternidade toda a gente estava... ela estava bonitinha, então dizia assim: “Se ela for crescendo normal, tudo, então é sinal que está bem”. Ela, quando mamava, ficava meio roxinha, se engasgava um pouco. Foi até no casamento da Vera. Você viu o álbum do casamento da Vera? Ela estava no colo dela, no meu colo, estava bonitinha, tinha quatro meses, mas já estava grandona e, no dia seguinte, ela fez o último exame. Quer dizer: ela não tinha nada. O coração, assim, nasceu tortinho, mas se conservou assim. Por isso que eu fiquei aflita quando ela nasceu, quando eu soube disso. O Bruno já nasceu melhor. Nasceu a Luciana depois, né? Nasceu o nenê morto, que é da minha filha, que ela quase morreu, depois nasceu a Luciana, depois o Bruno, depois o Marcelo, o último, quatro. E eu tenho treze bisnetos: uma menina já grande, sete anos, uma pequenininha de quatro, que ela é muito grandona e o nenezinho, que tem um ano e pouco, filho da minha neta que também é médica, filha da minha filha, que é cunhada dela. E assim vai, né? Eu já vi aqueles que eu queria ver. O meu marido chegou a ver o Bruno, poucos... acho que nem dois meses ele tinha quando meu marido morreu. Chegou a ver o Marcelo não, Marcelo só nasceu depois. Eu conheci todos e vi todos. Seu Mário viu todos se formarem e viu os pequenininhos. E assim vai. O pequenininho não quer falar ainda, o bebezinho, bebezinho já esta grande, anda correndo, andou batendo na vó dele. A Vera te falou? Na outra noite diz que a mordeu e bateu nela, sem vergonha.

P/2 – Dona Nena, vou mudar um pouco de assunto, porque queria perguntar um pouco sobre o bairro. O que a senhora viu de mudança, o que te marcou?

R – Aqui mudou tudo, a gente...a minha mãe veio morar aqui por causa que tinha bonde aquele tempo, se não ela diz que não vinha. O último terreno que tinha ali meu pai comprou, os parentes dele estavam tudo comprando por aqui e falavam para ele: “Compra também, compra à prestação”. E ela não queria vir porque ela morava, naquele tempo, na Consolação, mas como tinha bonde, ela se animou. Vinha o bonde, virava aqui perto da igreja. Você conhece a igreja de Pinheiros? Ele fazia a volta ali, porque a igreja não era ali, era do lado de cá. Mas era um inferno aquele bonde! Para trabalhar eu tinha que tomar às sete horas, se eu não pegava o ônibus, não entrava no bonde sete horas, eu não chegava às oito na cidade, demorava uma hora. Saía aqueles - era aquele elétrico - cabos que tinha em cima caía e tinha que parar o bonde e colocava. Nossa, trânsito, não era tanto, mas tinha. E o bonde era linha, se passava um carro na frente, pronto, já ia devagarinho, devagarinho. Era muito ruim, mas o bairro foi progredindo. Tinha o Cine Pinheiros, que a gente ia assistir os filmes, os filmes em série, às quartas-feiras, a gente não perdia. Você ia no cinema... olha, a gente tinha paciência aquele tempo, viu? Entrava cinco e pouco da tarde, só saia às dez horas da noite. Tinha dois filmes inteiros, tinha os trailers dos filmes, tinha o jornal, tinha um desenho. Nossa, você ficava o tempo todo e ainda, depois, tinha sessão da dez, que ia saindo, tinha gente, mais um filme, depois, para quem entrasse mais tarde, mas era o divertimento da gente. E o divertimento, fora isso, era fazer os passeios na Teodoro, subir e descer a rua, as mocidades, os moços. Conhecer rapazes para namorar, para se paquerar. Para cima, para baixo. Era difícil eu ir lá. Às vezes ia com a minha mãe, com uma prima minha. Na Garbo, você sabe onde é a Garbo hoje? Ali na Teodoro, depois da Cunha Gago. Então, nós fizemos um alpendre assim e ficava sentada lá, a dona Maria com o marido e os filhos, a gente passava e ficava conversando com ela, a minha mãe ficava conversando. A gente se conhecia, todo mundo nasceu tudo no bairro e ficava lá conversando, depois vinha para casa. Era difícil o dia que a gente ia. Sábado e domingo tinha __________ [24:12] que chamava, né? Acho que era isso, afrancesado. Então, as pessoas passeavam ali. Todo sábado e domingo estava assim de gente. No carnaval ficava lá cantando, carnaval às vezes passava alguém de carro alegórico, não é alegórico, aquele tempo passava aqueles carros com as mulheres penduradas, fantasiadas. E assim a gente vivia, uma vida vazia, achava que era boa, talvez era melhor do que hoje. Não tinha muito... e o bairro foi... não tinha o grupo escolar, o Fernão Dias, não tinha, naquele tempo ainda não tinha, não tinha nada. Ali era a hípica. Sabe o que é hípica? Os cavalos. Hoje acho que está na Vila Guilherme, eu acho. Então, da Pedroso até ali em cima, até a Simão Alvares. Simão Álvares ou Morato Coelho, eu acho, era só deles, estava tudo cercado, porque era deles. Ia toda aquela gente rica, a gente via aqueles carrões, naquele tempo, tinha as corridas dos... eu nunca entrei lá. Quando eu tinha acho que... não, eu ainda não era casada, mocinha, derrubaram tudo e começaram a fazer casas e fizeram o Fernão Dias, o grupo escolar, escola estadual. E o bairro foi crescendo também, né? A rua que eu morava, a Cardeal Arcoverde, era tudo terra, quase todo o bairro, só a Teodoro era calçada, a Pedroso de Moraes era calçada, o resto era tudo, algumas ruas assim, o resto era tudo terra. Então, quando meu pai fez a casa da frente, então foi para o nível da rua, mas depois que passou a calçada a casa ficou mais baixa. Então era um tal de... aqui, quando chovia, ficava terra lá por dentro do jardim, aí que inferno! Eu lavava, encerava o jardim, no dia seguinte eu olhava, aquilo tudo cheio de terra, eu ficava até chorando. Porque ficou o nível mais baixo, aí começaram a calçar as ruas. A Cunha Gago foi a última a ser calçada. Parece incrível, né? Ela sempre estava toda enlameada. Então, para pegar o bonde e tudo, a gente ia pela Pedroso, para ir trabalhar.

P/2 – Dona Nena, dessa região ainda, do Largo da Batata a senhora viu muita mudança?

R – Muita, porque o Largo da Batata eles espalhavam as batatas no chão, os batateiros e tinha um mercado desse lado, não era onde é hoje, era para cá, onde é o metrô, ali era o Mercado de Pinheiros, e os batateiros ficavam ali. Os Vargas, aquele tempo... vocês não sabem quem é, eram os donos do mercado ali. O mercado era municipal, mas quem mandava era eles. Aqui sempre teve... engraçado... sempre teve máfias, né? Sempre teve. Até hoje continua a mesma coisa. Eu sei que eles mandavam naquilo tudo, então nas batatas eles também mandavam. Quem mandava era ele e aquele que era muito amigo do Maluf, que eu esqueci o nome dele, ele morreu de acidente, que depois ele ficou ministro, ministro não... Maluf o botou como batateiro lá, tudo ladrão lá, aquilo não sobrava nenhum. Então, eram aquelas batatas expostas lá. A gente não ia comprar lá, porque aquilo era um atacado, a gente comprava deles no varejo, deles mesmo, eles punham no varejo lá no mercado. Era lá que a gente comprava tudo, então era uma roubalheira danada. Você comprava carne, você vinha...  naquele tempo vinha com osso. Se eles não te conhecessem, eles te davam mais osso do que carne. Ainda mais o patinho, que tem o osso redondo no meio, era mais osso do que carne, as pelancas e tudo. Depois, quando começou vir os supermercados, aí eles melhoraram porque os outros vendiam melhor do que eles, as carnes mais limpas, aí começaram a melhorar. Até hoje já vê que o mercado, sempre o mercado é mais caro. Já estou tão acostumada porque eu tinha primos que trabalhavam lá, donos de coisas lá dentro, parentes, a gente... e roubavam a gente também. (risos) E assim a gente vivia. Até hoje eu sou contra, contra o governo, contra aquilo, sou contra tudo, tudo que eu acho que está errado eu estou ali, contra, brigando, achando ruim, e assim nós vamos, né? E eu não aguento, falo na cara: “Você tem que roubar tanto assim também? Rouba um pouco menos”, mas não adianta. O negocio é não comprar, eu não compro, quando eu acho que está errado também não compro, vocês ficam aí com a mercadoria. Então, umas turquinhas ali, que uma vez estavam vendendo carne, andava cercando os bois, no tempo de Quércia, então a carne estava horrível, cara pra burro, de tanta roubalheira, né? Aí eu chego no mercado, que era meu primo, meio primo de longe, eles me vendiam a hora que eu quisesse carne. Não pense que era mais barato, não, pagava o preço que eles vendiam para os outro, às vezes davam um descontinho, mas muito pouco. E a gente ia comprar, então uma senhora disse: “Vocês têm como vender nesse preço...” Eu olhei assim para ela e ela virou e falou, desculpe a palavra: “Olha aqui, se seu marido caga dinheiro, o meu não caga dinheiro”. E gente de nível. Eu olhei assim, dei uma risada, falei: “Meu Deus, onde estamos?”, mas ela estava certa, porque era muito caro, eles exploravam mesmo. Eu falava: “Você não tem vergonha?” “Ah, Nena, eu compro mais caro também.” “Ta bom, mas não desse jeito.” É muito caro, até hoje você pode ver, você compra uma coisa fora e lá dentro é outro preço, até hoje continua a mesma coisa, só que eu não sei quem são as máfias hoje. Naquele tempo a gente sabia que era os Vargas, não sei o que, a gente sabia quem eram os cabeças lá. Depois veio o Maluf, a turma do Maluf, e o Maluf está vivo ainda, está lá firme. (risos)

P/1 – A casa que a senhora morou na Cardeal ainda existe?

 

R – Não. Aquilo ali ficou para nós, os filhos, mas minha mãe nunca considerou isso, era dela, até que ela veio morrer era dela, ela não considerava, era dela e acabou. Eu morava lá, ela dizia: “Pega teus móveis e vá embora, some daqui porque você não paga aluguel.” Eu pagava aluguel para ela, mas quando estava muito difícil, quando meus filhos estavam na faculdade, não dava para pagar aluguel mais, porque eu tinha que sustentar meus filhos na faculdade, Medicina sempre foi muito caro, hoje é caro, aquele tempo também era cara. Dependendo do dinheiro, do peso do dinheiro. Eu falava para ela: “Mãe, mas eu pago. A senhora vive à minha custa: comida, tudo”. Eu que pagava luz, telefone não tinha aquele tempo, pagava o imposto. Tudo, né? Mas ela não se conformava. Então ela sempre foi dona, ela não entendia que metade era nossa por lei, porque meu pai tinha morrido, a metade era nossa e nós pagamos as dívidas, né? Eu e meus irmãos, nós pagamos as dívidas. Aquele empréstimo que fizemos no Banco, nós pagamos quinze anos, mesmo a gente casado, a gente pagava, até terminar. E ficou assim. Ela alugou as casinhas do fundo, ela recebia e recebia o INPS. Quer dizer: ela não precisava de dinheiro, ela tinha o INPS mais o aluguel das casinhas, então ela estava bem, não precisava do meu aluguel e eu sustentava a casa, ela não comprava comida, ela não comprava nada. Depois ela faleceu. Os meus sobrinhos, depois de muitos anos... estava ali alugado muito baratinho, a casa da frente eu não sei porque nunca alugava, eu trouxe até fotografia da casa da frente, não alugava direito. Então, um dia eles chegaram em casa, meus sobrinhos: “Tia, nós temos que vender, afinal de contas só a senhora que ficou.” Meus irmãos já tinham falecido, os dois, estava só eu. Então ele falou: “Só a senhora viva, a única herdeira direta”. Eles eram indiretos, porque eles eram filhos dos meus irmãos, precisava vender. Eu falei: “Tem que vender, não tem mais nada para fazer agora”. Eu tinha dó, meu pai fez aquilo com muito sacrifício, ele era mocinho quando comprou, eu morria de dó daquilo, eu sabia que ele tinha amor naquele terreno. Aí estava vende, não vende, começaram: “Tia, quanto vale? Você mora aqui, você sabe” Eu sabia, mas falei: “Melhor vocês irem no corretor e ver”. Eu não queria me meter muito, sabe? Aí falaram o preço, eu falei: “É, não vai conseguir. É o tal negócio: vale mil, mas precisa ver se alguém vai querer dar o mil”. Aí, o meu sobrinho mais velho, que estava rico, falou assim, o Sergio: “Tia, tem um amigo meu que quer dar X” - naquele tempo - “sem juros e correção, ele paga em um ano”. Eu falei: “Mas sem juros e correção?” Naquele tempo tinha correção alta, eu falei: “Se os outros aceitarem, a única coisa que eu posso fazer é aceitar também, porque não vou ficar brigando por causa disso”. “Ah, tá bom”. Diz que aceitaram, aí eu falei: “Mas sem juros e correção?” “Agora ele concordou, sem juros e correção”. Era ele que estava comprando, sabe? Falei para minha filha Vera: “Ele está comprando, porque eu sabia que meu irmão não queria que saísse da família dele”. Eu falei: “Você tem dinheiro para comprar?” Ela falou: “Tenho”. Eu falei: “Vamos comprar deles? Seria duas partes e a minha três, mas a minha já era minha, então tinha que comprar as duas deles. Vamos oferecer para ele quinhentos e cinquenta”. Era quinhentos que eles tinham oferecido. Naquele tempo valia acho que uns seiscentos, não me lembro mais. Ela falou: “Vamos, mãe”. Então eu falei para ele: “Tem um amigo meu que também quer comprar”, fiz o mesmo jogo dele, eu botei o Vlado na história, o filho dele foi colega dela, ele é judeu, ele tinha dinheiro. Eu falei: “Vlado, posso usar seu nome?” É cliente meu, até antes de ontem ele veio na minha casa, está velhinho, sabe? Acho que é a última vez que vi aquele homem vivo. Eu gostava muito da Marcia, mulher dele, mas ela faleceu. Aí eu falei: “Posso usar seu nome?” Ele falou: “Se quiser, eu assino”.  Eu: “Não, o que é isso? Não, eu só vou usar que você ofereceu quinhentos e cinquenta” “Tá bom, mas se precisar, eu assino um papel que estou oferecendo isso”. Eu falei para eles: “Tem um cliente meu que vai dar quinhentos e cinquenta à vista.” “Vai, tia? Não sei o que. Está bom”. Diz que todo mundo aceitou, os outros irmãos, eu falei: “Todo mundo assinando um papel.” “Tia, mas não precisa”. Falei: “Precisa” - pensei comigo – “vai de vocês resolverem que não, eu vou ficar... não, vai assinar”. Eu tenho até hoje guardado os papeis, todo mundo assinou que aceitava e não sei o que, à vista. Aí ficou o dia de marcar a reunião nossa, eles comigo e com o comprador, que seria o Vlado no caso. Claro que o Vlado não viria, não era ele que ia comprar. Tinha que chegar minha filha, ela estava no consultório: “Não chegou ainda o comprador, tia?” “Daqui a pouco ele chega”. Eles estavam lá sentados, os representantes dos meus dois irmãos que faleceram. Aí chegou a minha filha, fala: “Mãe, fala a senhora ou falo eu?” Falei: “Pode deixar que eu falo”. Falei: “Olha, quem está comprando somos nós. Tem algum problema?” Eles ficaram brancos, os dois. “Não, tia, não tem problema nenhum”. Qual o problema que ia ter? Eu estou pagando, vocês aceitaram, e nós compramos, hoje é nosso, meu e da minha filha. Ela tem uma parte e eu tenho duas partes. Então é nosso. Está alugado para a Kalunga, estacionamento da Kalunga. Então, derrubou as casas. Eu tenho muito orgulho de ter comprado, porque era uma coisa que eles iam jogar fora, eu não quis, sabe? Eu quis ficar na família, então é da família, é meu e da minha filha. Meu filho sempre diz que não quer saber, mas eu falei: “Vai ficar para você, né? Vai ficar para os meus filhos. Quando eu morrer, é deles”. Já é dele, porque eu não... meu apartamento já passei para o nome deles. Esse terreno só não passei porque diz que ia ficar o mesmo preço que se fosse fazer inventário. Eu falei: “Se fica o mesmo preço, não adianta”. Preciso ver direito, que eu quero passar, já, para eles. Vai ficar para eles mesmos. Eu vou levar comigo? Não vou, né? E assim foi o cemitério também. O cemitério São Paulo, quando meu pai morreu, ele falava assim: “Eu quero que vocês me comprem um túmulo, eu não quero ir de graça”. Porque naquele tempo tinha uma parte, a parte de baixo era de graça, e a parte de cima comprava o terreno. Então meu pai falava: “Eu quero que vocês me comprem”. Ele, como estava juntando dinheiro para pagar as dívidas, tinha dinheiro na Caixa Econômica, mas ele pôs em nome do meu irmão, porque naquele tempo... ele era italiano, então tinha os quinta-coluna, que eram os japoneses, italianos e alemães. Então a gente era chamado de quinta-coluna: “Italianinha, quinta-coluna”, aquelas coisas. Então, meu pai e minha mãe, se ela pegasse o dinheiro ela comprava joias, roupas, as coisas, minha mãe era muito vaidosa. Então, ela botou em nome do meu irmão. Então, quando meu pai morreu, meu irmão foi comprar o terreno para o pai, dinheiro que era do meu pai, mas ele muito moleque, tinha só vinte e dois anos, comprou em nome dele o terreno no cemitério. Ele devia ter comprado em nome da minha mãe, porque era dos filhos, mas ele comprou em nome dele. Aí: “Por que você comprou em seu nome?” “Ah porque não sei o quê”. Os cunhados foram juntos, fez uma besteira. E minha mãe: “Você precisa passar em nome dos seus irmãos, afinal de contas o dinheiro era do teu pai”, mas ele nunca passava, nunca passava, nunca passava. Aí chegou, já fazia trinta e tantos anos que meu pai tinha falecido, minha nora trabalhava no IBGE e um amigo dela estava fazendo um bico de vender túmulos em Osasco, eu comprei dois túmulos, lá eles são pequenos, eu comprei dois, minha mãe ainda está lá e a mãe dela está no outro, a mãe dá minha nora, ex nora, né, porque depois eles se divorciaram. Aí meu irmão veio falar para mim: “Poxa, você quis dizer com isso que eu roubei o túmulo?” Eu falei: “Não, eu quero dizer com isso que você passou trinta e tantos anos e você não passou em nosso nome. Então, se não passou, fica para você, agora você tem filhos, fica para você, só que a mamãe tem que ir lá, a mãe tem que ir lá”. Meu irmão mais novo, qualquer coisa... porque meu irmão mais novo ficou muito rico, então ele não precisava daquilo, mas qualquer coisa, o meu irmão tem direito, agora eu já comprei para mim, acabou, não preciso de nada. Mas eu esperava que, quando meu marido morreu, eu esperava que ele falasse para mim: “Você quer pôr no túmulo aí?” Mas ele não falou nada, então meu marido foi para Osasco. A minha filha fala até hoje: “Mãe, a senhora ia aceitar?” eu falei: “Não, eu não ia aceitar”. Eu sou muito orgulhosa, mas ele também não falou, está lá. Depois começaram a vender aqui no São Paulo túmulos abandonados, a prefeitura estava vendendo. Aí eu fui lá saber, me mostraram os túmulos que estavam à venda, um perto do túmulo da minha mãe, que fica assim, fica nessa rua. Nós compramos, eu com a minha filha, um túmulo ali em frente. Tinha até uns lugares melhores, mas minha filha: “Não, eu quero ficar ali, mãe” “Então vamos comprar lá, meio a meio”. Mas quando nós fomos na prefeitura para comprar, eles não aceitam, o nome só de um dono só. Então, a moça falou: “Melhor pôr em nome da sua mãe, porque fica para vocês todos. Se pôr em seu nome, só fica para você, seu marido e seus filhos. Aí foi comprado em meu nome. Então eu tenho aqui no São Paulo, mas quem fez um túmulo bonito foi a minha filha, ela que pagou. Então, hoje eu tenho esse túmulo e aquele lá. Eu preciso tirar a minha mãe de lá e até hoje não tirei, trazer ele para cá. A minha nora falou: “A senhora comprou e como fica minha mãe?” Falei: “Vai ficar lá. Se você tiver alguma dúvida, eu a trago para cá também, para o São Paulo e pronto, boto ela para cá”. Eu gostava da velha. (risos) Depois, tanto faz, uma caixinha a mais, uma caixinha a menos, eu nunca liguei muito. Então, ficou desse jeito. Hoje o túmulo é meu e o túmulo do cemitério é do meu irmão. Aí deu rolo, porque meu irmão morreu, os filhos dele morreram, mas estão todos lá, a Edna está lá, minha cunhada, tudo e meu irmão mais novo ficou lá também, quando os filhos podiam comprar outro, mas não compraram. Não sei também como ficou, porque não me interessa, não quero saber, vocês que se virem, é de vocês, se virem, o meu é meu. Então estamos assim: hoje eu tenho o túmulo e tenho o terreno lá que era do meu pai. Fico muito orgulhosa, porque era do meu pai e ficou para mim, mas eu comprei. E minha mãe me mandava muito embora, mas eu falo para ela: “Viu, mãe, eu comprei o seu terreno”. Fico muito orgulhosa com isso, mas não olho para ele, quando eu passo lá, eu viro o rosto, eu sofri muito lá, não quero olhar, prefiro não olhar. Às vezes eu olho, mas é difícil. Acabou todas as casinhas, tudo, ficou só o terreno para estacionamento. Lugar bom. É aquela história: vale um dinheirão, mas precisa ver se alguém dá. (risos). Aquela história. Mas também não estou a fim de vender, então ficou assim. Assim nós vamos vivendo. Não tem mais perguntas?

P/1 – Agora eu gostaria de perguntar: você gostaria de falar mais alguma coisa sobre a sua vida, sobre o bairro?

 

R – Tem meus filhos, eu falo dos meus filhos, porque eu os adoro, eu morro por causa deles. Eu sou daquelas mães que brigam, xingam, qualquer coisa, mas se tiver que matar alguém por causa dos meus filhos, eu sou capaz de matar. Eu falo muito para os outros: “Vocês podem gostar dos filhos igual a mim, mais não”. Sou muito apegada a meus filhos, meus netos, morro por causa deles. Mesmo a Luciana, com aquele geniozinho esquisito dela, eu gosto muito dela. A minha neta, (risos) que é cunhada dela, aquela tem um gênio, mas eu gosto muito dela. Brigo com ela, mando ela para uns lugares feios quando ela me enche, (Risos) mas gosto dela. Eu criei, né? Viviam mais na minha casa do que na casa delas, eu que dava banho. Pergunta para o Marcelo. Ele gosta de falar assim: “Quem me deu o primeiro banho foi minha avó”. Que é o marido dela. Quando ele foi batizado, ele era pequenininho, eu precisei me esconder na igreja, tanto que ele gritava que queria a “bobó”, precisei me esconder dele lá, não queria nem o pai nem a mãe, nem a madrinha que era tia dele, irmã do pai, ele queria eu. Tudo sempre ele queria eu. Se passava... eles iam para um restaurante, por exemplo, domingo, se passava na minha casa para me olhar, ele já não ia mais, já ficava lá. “Quero ficar na...” “Marcelo, você vai comer melhor no restaurante, comida mais diferente” “Não, mas eu quero comer com você”. E não adiantava, queria comer comigo. Um dia fui para a casa dele - eu moro a duzentos metros da casa dele, na mesma rua - eu fui lá cedo, sempre domingo eu faço um doce, alguma coisa e vou levar para ele. Eu tinha feito um molho de macarrão e o macarrão - eu faço macarrão em casa, que é tipo italiano - mas eu tinha aberto com o rolo, em vez de abrir com máquina e deixei pronto ali, para quando eu voltasse cortar e pôr na panela. Então, estava falando para minha filha: “Hoje eu fiz macarrão diferente, vou cortar com a faca, não fazia com o rolo, fiz com rolo”. Ele ficou escutando, ele falou: “Vó, eu vou almoçar com você”. Eu falei: “Você vai para o restaurante com teu pai, tua mãe” “Não, quero almoçar com você, será que eu vou gostar desse macarrão que você fez, vó?” Ele tinha acho que uns sete anos. Eu falei: “Acho que vai, é igual aos outros, só que...” Então quando foi embora: “Mãe, posso levar o Miojo?” Eu falei: “Você pode levar, mas você não vai fazer, vai comer a comida que eu tenho na minha casa”. Ele ficou meio assim: “Então, você não vai me deixar...” Falei: “Não, eu tenho comida, por que você vai fazer Miojo? Depois, Miojo não sustenta nada”. Comeu dois pratos de macarrão. (risos) Era igual aos outros, só que eu cortei, fiz na mão. O Marcelo sempre ficava comigo, dormia comigo, de manhã eu o levava para a escola. A Luciana já é um pouco mais... ficava comigo, claro, mas ela falava: “Minha mãezinha não vem?” “Você não está bem com a tua vovó?” “Estou, mas eu quero a minha mamãezinha”, ela falava. O Marcelo não ligava, não, estava muito bem comigo, não falava nada. A Luciana sempre: “Eu quero a minha mamãezinha. Vovó, eu gosto muito de você, mas eu gosto mais da minha mãe”. Falei: Está bom, tem que gostar mesmo é da sua mãe”. (risos) A Luciana sempre foi rebelde. Agora o Marcelo, sempre comigo. A Vera o levava. Quando ele era bebezinho, a Vera foi viajar lá para a terra do marido, lá para o Mato Grosso, levou a Luciana, o Marcelo ficou comigo, mas nem ligava, ficava comigo bem feliz, estava lá ligando para a mãe e o pai dele, estava bem com a vó dele. Então, eu vivia assim, para eles. Fiquei viúva com cinquenta e três anos, mas nunca mais quis saber de ninguém, ninguém interessa. Era a minha vida, minha casa, meus netos, meus filhos. Meu filho tem o gênio meio esquisito, assim como eu, mas ele está sempre comigo, sempre está atrás de mim. Adivinha se daqui a pouco ele não telefona para minha casa para saber se eu já voltei, porque ele sabe que eu estou aqui. (risos) “Mãe, quem vai levar?” “A Bruna” “Então tá bom”. Ele não deixa sair sozinha, imagina, e justamente agora, no hospital, uma senhora que estava... “A senhora vai dançar no fim de semana?” Eu falei: “Eu, dançar? Nem sei o que é isso.” (risos) Ele ficou horrorizado: “O que, minha mãe dançar? Imagina, minha mãe nem sabe dessas coisas, isso aí não existe na nossa família, na nossa casa”. Ele ficou horrorizado com a mulher falar isso comigo. (risos) Parece que deram um soco na cara dele. Ele é psicólogo. Logo que eu fiquei viúva, minha filha falando assim para mim, sentada assim na sala, ele lendo jornal: “Mãe, eu não admitia a senhora casar de novo, não gostaria de ter outro pai.” Eu falei: “Mas se eu casar de novo, você não ia ter outro pai. Mãe é uma só e pai também é um só. Eu ia ter outro marido, não você ter outro pai” “Ai, mãe, não admitia”. Ele virou: “O que foi a conversa aí”? Eu falei: “Tua irmã diz que não admite...” “Mãe, a senhora é senhora dos seus atos” - psicólogo, ele é psicólogo - “A senhora é senhora do seus atos, dona da sua vontade, pode fazer o que quiser da sua vida, só que tem uma coisa: a minha cara a senhora não via mais”.  Desse jeito. Então para ele eu sou a “ídola” e o pior é que ele me compara com as namoradas e elas sempre saem perdendo, né? (risos) Mas não pode comparar, eu estou velha, é diferente a cabeça, né? (risos) Ele quer que a Rose, essa namorada que ele está, faça comida, faça as coisas que eu faço, mas não faz. Apesar que ela já tem mais de sessenta anos, mas não... (risos) Cada um tem os seus modos de viver, eu fui criada assim. Apesar da minha filha ser médica, ela faz tudo, né, Bruna? Minha filha faz comida, faz doce, faz tudo. Ela aprendeu, assim, comigo, o modo de viver, mas não sei se é bom, não. Acho que não é muito bom ser muito escrava da casa, mas cada um é cada um, cada um pensa do seu jeito.

P/1 Eu acho que a gente teve uma boa conversa, dona Nena, queria agradecer por você ter contado sua história.

R – Obrigada, você.

P/1 Se você puder deixar uma última impressão, tipo o que significou para a senhora ter contado essa história, o que você achou de ter passado por essa experiência?

R – Significou que pude falar o que tive vontade, ninguém forçou a nada, pode perguntar mais, se você quiser, estou aqui para isso, falei o que eu quis e vocês não interferiram em nada. Eu gostei, fiquei contente. (risos)

P/1 – Que bom.

R – Eu gosto de falar, conversar, eu falo muito, aí meu filho fala assim para mim: “Está doendo a perna, está doendo o braço, a senhora já limpou o teto, o teto acho que ainda não está muito limpo”.  - porque eu tenho mania de limpeza, eu limpo tudo as paredes - “mas a língua está boa”. Falei: “Se eu não tivesse a língua boa, eu não ganhava dinheiro, meu caro. Eu sustentei vocês porque tinha boa língua. (risos) Precisava conversar com as clientes”. Agora que eu estava doente elas ficaram todas, vinham me buscar na casa da minha filha e me levavam na minha casa, me carregando quase, para eu tirar cartas para elas, porque na casa da minha filha ela não admitia, na casa dela é a dela, a minha é a minha, nada de misturar as coisas. E elas me pegavam, me traziam, me levavam. Agora que estou na minha casa, está tudo feliz. Andaram procurando outras e diz que acharam terrível as outras, que andaram falando besteiras para ela. Tem gente que fica inventando bobagem, eu falo aquilo que eu vejo. Eu falo: “Se vocês saírem chorando daqui o problema é de vocês, porque eu vou falar o que eu vejo.” Também se eu vejo que ela vai morrer não vou falar para ela, mas tem mentiras que precisam ser ditas, serem feitas também. Como que a gente fala? Para não magoar tanto as pessoas. Mas tem coisa que tem que falar, tem que falar, agora inventar não, se eu errar problema meu, eu não sou Deus, erro também. Eu tenho tantas passagens. Uma vez veio um alemão, foi indicado por pessoas que vinham muito na minha casa, o alemão veio todo imponente, eu já não gosto de homem na minha casa, atender gente imponente eu já não... tá bom, vamos lá ver o que esse homem quer: “Quanto por cento a senhora acerta?” Falei: “Eu nunca pensei nisso, não me interessa. Eu não procuro ninguém, as pessoas é que me procuram, não interessa” “Cinquenta por cento?” “Eu acho pouco cinquenta por cento, eu acerto mais.” “A senhora acerta mais? Mas é bastante cinquenta por cento” “Eu não acho, acho que é mais” “Quanto?” “Talvez uns setenta, não sei e também não me interessa. Se acertar, acertei; se não acertar... se a pessoa não gostou não vem mais, para mim tanto faz, porque não chamei ninguém aqui, vem porque quer.” Aí quando ele foi embora, ele falou: “A senhora é impossível, a senhora é terrível, acertou mais de noventa por cento da minha vida” Falei: “Que bom que o senhor ficou satisfeito”. Mas não fico puxando o saco de ninguém, porque não gosto, nunca fui disso, eu não sou de ficar agradando as pessoas. Você quer vir você vem, se não quiser vir, eu não te chamei aqui. Umas coisas meio esquisitas. Quando eu levava a Vera, minha filha, para a faculdade, eu levantava quatro e pouco da manhã, o ônibus dela saía cinco e pouco da rodoviária. Toda segunda-feira eu a levava para a rodoviária. Eu fiz isso cinco anos, o sexto ano ela fez aqui no Matarazzo, aquele tempo tinha o Matarazzo, um ano e pouco ela fez aqui em São Paulo. Então eu a levava para a rodoviária, os moços já me conheciam, os choferes, porque eram sempre os mesmos. Eu entrava no ônibus, botava a mala dela lá e ficava na janelinha de fora conversando com ela, até o ônibus sair e a gente brincava, dizia: “Tchau, meu prêmio Nobel”. (risos) A gente via outras meninas lá, os pais todos lá, meio aflitos, eu falava: “O prêmio Nobel do outro, né?” Prêmio Nobel dos pais. Um dia vi um rapaz muito bonito, ele estava no lugar dela, porque ela sempre comprava na janelinha. Ela falou: “Dá licença”, ele sentou para cá, bonito, um dos moços mais bonitos que eu vi na minha vida, o Álvaro, não esqueço o nome dele, a minha memória é muito boa. (risos) Ele ficou olhando assim para ela, eu falei: “Esse cara vai paquerar a minha filha até chegar lá”. Tudo bem. Ele todo, assim, olhando. Está bom. Aí, no fim de semana, quando ela voltou, eu falei: “E aquele lá?” “Ele ficou me paquerando, é agrônomo, trabalha numa fazenda ali perto”. Uruguaio ele era. Aí começou a ir na cidade, porque ele guardava o carro dele lá, ele chegava de ônibus ali, pegava o carro e ia para a fazenda trabalhar. Depois ele voltava, deixava o carro ali e pegava o ônibus, ia para São Paulo, a família dele estava morando aqui, mas não sabendo se ficavam no Brasil. Aí ficou querendo namorá-la, aí eu falei para ela: “Não namora, porque ele tem noiva na terra dele, tem namorada, então não se prenda não, não vá ser trouxa” “Ah, mãe, disse que não, que ele não tem”. Ele pode dizer para você que não tem, mas ele tem. Sabe, eu sei as coisas, quando eu quero saber mesmo, modéstia a parte, mas eu acerto, tanto que eu tenho cliente até hoje. Pude comprar casa, pude comprar... sustentei meus filhos, tudo, me orgulho de ter feito sozinha, com meu dinheiro, meu trabalho. Aí ele vinha toda semana, os colegas dela fizeram amizade com ele, ele era muito educado, muito fino, escreveu música para ela, deu umas lembranças para ela, mas ela na dela: “Eu não vou namorar com você, porque você tem namorada lá”. Ele disse: “Imagina, que besteira” “Eu sonhei” (risos) “A cigana te enganou”, brincava com ela. Ele não sabia nada que eu tirava carta e eu o via toda semana lá, mas eu não dava confiança. Ele, às vezes, tinha outro lugar e pedia depois para mudar de lugar com ela. Quando passou uns meses ele fez aniversário, ela deu uma canetinha para ele e mandou gravar o nome dele. Ele tinha dado uns presentinhos para ela. Ele falou assim para ela que ele ia na terra dele, porque ele ia ganhar uns terrenos, não sei, como agrônomo, sei lá, não sei, até hoje eu não entendi direito, mas não me interessava, ele ia para lá e voltava. Eu falei: “Ele foi ver a noiva e marcar casamento”. Ele sempre dizia que não, não tinha ninguém lá, falava da família, dos irmãos, não sei o que lá. Quando ele voltou, ele falou: “Você quer casar comigo imediatamente?” Ela falou: “Não, imagina, estou fazendo faculdade” “Você faz lá, eu te transfiro para lá, a gente dá um jeito”. Ela falou: “Não vou casar, imagina, nem te conheço direito, nem conheço a tua mãe, tua família” “Não, a gente se conhece... Vera, eu quero que você sempre se lembre que você não quis casar comigo, eu te pedi em casamento”. Ela falou: “Mas eu não vou casar com você, assim, às pressas”. Aí ele foi embora outra vez e voltou de novo: “Você continua com a mesma ideia?” Ela falou: “É”. “Eu te pedi em casamento, você não quis casar comigo”. E foi embora. Eu falei: “Ele foi casar”. Pelas cartas que eu via. Aí passou as férias, porque era férias de fim de ano, começou as aulas. Eu vi ele ali com uma moça, assim como você, não muito alta. A Vera, a minha filha é mais alta. Com uma moça. Eu falei: “Ele casou, agora ele está com a moça”. Ela ficou meio assim, falei: “Acho que é ele, acho que é isso”. Ela mais moreninha, né? Sei que depois ele veio na cidade e foi conversar com ela: “Eu quis casar com você, você não quis, eu largava tudo por causa tua, você não quis, eu estava com essa moça há muitos anos...” Contou tudo que eu já sabia, contou para minha filha. A minha filha: “Tá”. Aí, quando ele vinha na cidade, vinha procurar por ela. Eu já estava “P” da vida. Sabe aquele meu gênio italiano?  Uma semana ele estava lá, a mocinha não estava. Eu pedi um papel... a Vera já estava dentro do ônibus, para alguém ali... eu faço umas loucuras, sempre fiz muita loucura. Falei: “Você tem um papelzinho, tem uma canetinha?” “Se você continuar procurando, andando atrás da minha filha, você não vai passar de um canalha” e dei para ele. Não, a moça estava, passei: “Toma” e fui embora. Nunca mais procurou a minha filha. Aí passou uns tempos, passou um tempo, quase um ano, mais, acho. Um dia um casal que vinha muito na minha casa, ele era uruguaio: “Dona Nena, atende um amigo meu, atende um amigo meu?” “Você sabe que eu não gosto de atender homem, mas está bom, amigo seu, vem”. Ele é um senhor muito simpático, muito bonitão, falando nos filhos, tem quatro filhos homens, não sei o que, a esposa dele não sei o que lá, uma porção de coisa. Me deu um clic na cabeça: “Ele é o pai do fulano”, pensei comigo. Eu falei: “O seu filho mais velho por acaso chama Álvaro?” “Chama” “Ele gostou de uma moça no Brasil?” “Eu parece que soube que ele gostou, quase que ele largou a noiva.” Eu falei: “Essa menina que ele descreveu é a minha filha”. Então contei para ele que escrevi o papelzinho. “Mas meu filho se portou como um cavalheiro com sua filha”. Falei: “Não tenho queixa nenhuma.” Eu chutei ele logo. (risos) Então, tudo bem. Aí começou vir a mulher dele, ela até deu um presente para a Vera de casamento, um prato, não sei se ela tem lá na casa dela, acho que tem, se não me engano na sala de almoço, que ela pintou, não sei o que. Aí veio o irmão e me contava: “Meu irmão gostou muito da sua filha, ele queria largar tudo por causa dela”. Ele contou para a mãe: “Meu filho pediu a sua filha em casamento, ela que não quis”. Eu falei: “Eu sei que ela não quis”. Então você vê as coisas, como o mundo é pequeno, está vendo? E eu já tinha descoberto toda essa história antes. Quando a Vera precisa de alguma coisa, ela vem correndo comigo, eu que escapo, mas eu não quero, eu não quero dizer, a vida tem que correr. Às vezes tem que acontecer aquilo, não adianta. Você dá um conselho, não quer. Eu sempre falo para o pessoal lá: “Olha, se conselho fosse... o meu não é de graça, eu cobro, só que eu estou falando para você fazer, não quer, problema de vocês, eu avisei. Eu aviso, só que eu estou sendo paga” - eu falo para ela – “quando é bom, é de graça, mas não é de graça”. Então, assim eu fui vivendo. E as minhas clientes foram muito boas para mim, muito boas, porque elas eram muito ricas, então elas me ajudavam muito: “Nena, você precisa cobrar mais, senão não dá para você pagar a faculdade das crianças”. Elas mesmo aumentavam, elas me davam a mais, tinham dinheiro. Para você ver, a Tânia até hoje está atrás de mim, ela é milionária. Ela era menina quando começou a vir na minha casa, ela tinha uns 17 anos, nem dirigia ainda carro, ela ficou milionária. Eu fiquei doente, ela me mandou o chofer dela e um monte de coisa para eu comer, levou para minha casa. Sempre tem bastante coisa lá na minha casa, me mandam isso, me mandam aquilo, é bolo, é isso, é aquilo. Eu vivo a minha vidinha. Então, estou aqui velhinha, mas estou fazendo falta para elas, dizem que faço, não sei. Eu já não estou fazendo falta para ninguém mais, nem para mim mesma. Essa noite mesmo eu não dormi quase, acho que eu fico um pouco excitada quando tenho que fazer alguma coisa, ir em algum lugar, eu já não durmo. O Marcos sabe disso, ele me telefona: “Mãe, a senhora está bem?” O meu filho: “Fica descansando”. Eu falo: “Descansando com serviço para fazer, então não posso ficar descansando. Quem vai lavar a louça, limpar a casa, tirar o pó?” “Que mania de pó, não tem pó nenhum”. Mas tem né? Então. o negócio é limpar.

P/1 – Dona Nena, obrigada pela sua participação.

R – Vamos ver os objetos ou deixa para outro dia?

P/1 – Vamos. A senhora está com energia para a gente fazer? A gente pode fazer. 

R – Eu sou assim: às vezes eu entrava no porãozinho, eu trabalhava no porãozinho quando morava na outra casa, às sete horas da manhã, eu saía, às vezes, quase meia noite, sem pôr nada na boca, nem água. Trabalhava o dia inteiro, não sentia canseira, só depois que me dá canseira, mas eu não costumo ter canseira fácil. Mas agora já estou velhinha, mas ainda estou, ainda.

P/3 – Só tem uma pergunta que a gente faz no final, que é: tem alguma história que a senhora gostaria de contar, que a gente não perguntou? 

R – Pode ser que eu lembre depois, mas agora... (corte) Pinheiros, depois teve o cine Brasil. Tinha o Cine Pinheiros, no carnaval tinha os bailes lá e a gente não ia, imagina. Mas uma vez, de tanto eu encher minha mãe: “Deixa ir no festival da criançada, bem mocinhos, no cine Pinheiros, à tarde”. Meu irmão ia, né, para tomar conta de mim, minha prima e o irmão, o Chico, parecia uns urubus em cima da gente, e as meninas eram todas tratadas assim. E não sei porque, um deles, um dos meninos, até hoje não sei direito o que aconteceu, de repente eu vi meu irmão, que era danado, junto com o Chico, na pancada com os outros, tinham mexido nas irmãs dele, acabou a festa. (risos) Eles tinham a coisa de acabar com as festas, eles acabavam. Aí vinha os amigos deles, os donos do bairro, aqui chegava os meninos novos que vinham morar, então eles davam um banho de... tiravam as calças deles e batiam neles, esse era o banho deles, pra entrar na turma. Depois eles jogavam bola, ele era o goleiro, porque goleiro ninguém queria ser. Então, os meninos, para pôr eles na turma, tinha que ser esse o batismo deles. (risos) Era aquela loucura, mas se davam, todo mundo se dava, todo mundo era amigo. Se batiam, se faziam, daqui a pouco era tudo amigo. Aí meu irmão, às vezes, vinha lá com a camisa toda rasgada, a minha mãe: “O que foi, você está brigando?” “É porque se desentendeu...” Depois estavam todos lá na minha casa. Ele era líder, apesar de ser mais novo que os outros, era o líder. Então eles vinham todos lá na minha casa atrás dele. E meu pai trazia aquele monte de fruta, porque ele ia para o interior comprar as plantas para o __________ [01:04:34] e trazia muito fruta, muita fruta, ele trazia caixa de mexerica. Mexerica, hoje tem ponkan. Naquele tempo não existia ponkan, era mexerica, desse tamanho. As laranjas baía eu comia só o umbigo, o umbigo era desse tamanho, a laranja era desse tamanho, uma beleza de fruta. Frutas que hoje nunca mais eu vi, fruta parecia creme por dentro, com a casca preta, acho que deve ter por aí. Não sei. Meu pai trazia umas frutas, eu não sou, nunca fui de comer muita fruta, mas dessas eu gostava. E os meninos iam comer fruta na minha casa, acabava estragando se não comia. Então eles passavam à tarde lá, às vezes, comendo tudo lá no quintal. Meu irmão gostava muito de fruta, meu irmão mais novo. Então, eles comendo laranja, mexerica, melancia era só listada, desse tamanho, comprida e listada, hoje você nunca mais viu isso, é redonda. Era um doce aquele tempo. Abacate meu pai trazia sacos, trazia de sacos. Pera, tinha planta de pera na minha casa, caqui também era de monte. A gente passava, assim, tempos, muita fruta, muita coisa, muita verdura, muita coisa que meu pai trazia. Precisava dar para os vizinhos, porque se não estragava tudo, minha mãe dava lá para os vizinhos. Eu ia contar outra coisa... depois eles fizeram o Cine Brasil, que era desse outro lado. Sabe onde tem aquele predinho na Teodoro, depois daquela rua estreitinha perto do Crist? Onde está o mercado, naquela rua do lado, num prédio alto, ali era o Cine Brasil naquele tempo, então acabou o Cine Pinheiros. Então vinha os filmes. A Carmem Miranda, naquele tempo, quando começou aquelas filas para ver os filmes, aquelas palhaçadas. E eu ia lá com meu marido, eu tinha carinha de menina, então às vezes me barravam na porta, filme de dezesseis anos, aí viam que eu estava grávida e me deixavam entrar, não pediam documento. Eu já era casada, então eles deixavam entrar, mas eu já tinha idade, casei com vinte e dois anos, mas eles achavam que eu tinha menos. Eu queria tanto assistir os filmas da Shiirley Tample aquele tempo, mas eu nunca assistia, porque não tinha dinheiro para pagar. Aquele tempo era assim: as meninas não tinham direito a nada, já os meninos tinham direito. Eles iam no cinema. Agora eu, menina não, só ia com a minha mãe, mas aqueles filmes que eu queria assistir mesmo, com a minha mãe de noite. Assistia os filmes lá com a minha mãe. Assistia dois filmes, hoje a gente não assiste nenhum e já dorme. (risos) Antigamente assistia dois, o trailer, o desenho, assistia um monte de coisa, o jornal que passava... tinha a guerra aquele tempo, quando eu era pequena. Acabou quando eu tinha... o dia que o Japão pediu armistício, foi o dia que meu pai morreu, onze de agosto. Jogaram as bombas atômicas. Todo mundo fala em Hiroshima, mas ninguém fala em Nagasaki, que foi três dias depois, jogaram duas bombas. Meu pai morreu no dia que Hirohito armistício e a gente era quinta-coluna. “Quinta coluna”, “Italianinha” e a gente, quando achava ruim, ia no tapa. Eu já, naquele tempo, as meninas falavam de brincadeira, agora meu irmão saía brigando com todo mundo, o mais novo, ele era briguento, nossa Senhora! Mas foi querido, sabe, querido no bairro. Era briguento, mas era querido, todo mundo gostava dele. Meu irmão brigava, mesmo. Quando nasceu Antônio Carlos, meu sobrinho mais velho, ele saiu do trabalho - nós começamos a trabalhar muito cedo - e pegou o bonde para visitar o sobrinho que tinha nascido no Hospital São Paulo, que era lá na... como chama aquela rua dos bichas, que tem o shopping, ali travessa da Paulista, Frei Caneca. Tinha o hospital lá, hoje não tem mais, a Maternidade São Paulo. E no bonde diz que um rapaz estava paquerando ele, ele tinha quinze anos aquele tempo, e o rapaz estava paquerando ele e ele louco da vida, porque o rapaz estava paquerando. Quando desceram do ônibus se pegaram de soco. Aí ele chegou no hospital todo machucado. (risos) Eu falei: “O que aconteceu?” Olhei para minha mãe: “O que aconteceu, você está todo machucado?” “Aconteceu isso” Eu falei: “Então você apanhou, né?” “Está me vendo, vai ver a cara do outro como está”. Ele deve ter dado muito no outro. Ele brigava mesmo, meu irmão, estava todo machucado e o outro ele diz que estava muito pior, mas ele batia, eu sabia que ele batia mesmo, ele ia a soco e pontapé, ia para cima dos outros. E o Chico do mercado, que era nosso parente, entrava nas brigas e é claro que ele batia nos outros, era mais velho e quando ele passava de bicicleta jogava pedra nele, eu e meu irmão. (risos) Eu acetava bem, tinha boa pontaria. Agora a gente já era velho e tudo, ele falava: “Essa aí me jogava pedra, ela me batia”. (risos) Aí eu: “Você batia no meu irmão, eu te batia, claro, você batia no meu irmão, meu irmão era mais novo, eu batia em você, o que é, está pensando o quê?” Mas tudo amigos, parente. E morremos amigos. Eles morreram, né, porque eu estou aqui ainda. (risos) Meu irmão morreu muito cedo também, ele levou um tiro no coração quando ele tinha quinze anos, isso me marcou muito também. Ele estava brincando com um amigo, na casa do amigo, mostrando uma garrucha, saiu o tiro no coração. Naquele tempo saiu no jornal, primeiro caso na América do Sul, operado do coração. Ele ficou dois meses no Hospital das Clínicas, quase que ele morreu, ficou muito ruim. Depois, quando foi mais velho, ele morreu de infarto. Amanheceu morto, não teve doença nada, e assim foi a vida dele. Meu irmão era muito esperto, tanto que ele ficou muito rico, ele estudou pouco, estudou até o ginásio só, depois ele não estudou mais nada. Então estava nos documentos dele: Administração de Empresas. Nós falávamos: “De que empresas, a sua?” Era dele a empresa, era administrador de empresas na empresa dele. Ficou muito rico, deixou os filhos que você pode ver que até hoje eles estão todos ricos, os filhos dele. Mas ele trabalhava assim, só... ele falava assim: “Quem trabalha não ganha dinheiro, a gente precisa mandar os outros, precisa mandar para a gente ganhar dinheiro”. Então ele que mandava. Mas ele não saía de casa antes das onze horas, só trabalhava a hora que ele queria. Corte ... meu marido assim, com uma cara de tonto, falava pras meninas: “Não pode, você brigou com ela, não pode, estava pegando docinho dela, não faça isso”. Aí eu falei: “Você sabe que nós estamos parecendo dois palhaços se metendo nas coisas das meninas?” Eu falei para ela assim: “De agora em diante, se você apanhar das meninas, vai apanhar o resto em casa. Puxa seu cabelo, você puxa o cabelo dela; ela puxa tua saia, puxa a saia dela;  mete uns tapas na cara dela que assim elas param de fazer isso que elas estão fazendo, roubando seu docinho, não sei o que” e parou, porque ela começou... mas ela não é de briga, mas ela começou a revidar, parou, pronto, acabou a briga. Só uma vez, que ela já tinha uns quatorze anos, eu ainda ia buscar na escola, estava no Machado de Assis, ela tinha medo de atravessar a Teodoro sozinha, então eu ia buscar. Quando estava saindo assim eu vi que a minha filha [01:12:51] “poft, poft” na cara da outra. Falei: “O que é isso? A minha filha fazer isso, que ela é tão quieta, até hoje é muito quieta”, muito diferente da mãe dela. Então falei: “O que aconteceu?” “Mãe, ela vem me enchendo há um tempo...” - porque minha filha não é de falar muito, contar as coisas - “faz tempo que ela vem me enchendo, hoje eu resolvi bater nela”. E bateu, mesmo. A Vera é forte, era “poft” na cara da menina. “Tá bom, você tinha alguma coisa para resolver”. O meu filho também era meio, mas não de briga, eu não os ensinei brigarem, eu ensinei se defender, é outra coisa. Ele ia na escola, os meninos o chamavam: “Ô, Marta Rocha”. Aquele tempo da Marta Rocha que foi Miss Brasil, aquela coisa toda, ela tinha os olhos verdes, meu filho tem os olhos verdes, eu também tenho, meio esverdeados. “Marta Rocha, Marta Rocha.” Ele falou: “Mãe, aquele menino está me chamando de Marta Rocha, não sei o que, as meninas já estão me chamando de Marta Rocha.” (risos) Estava nervoso e não podia bater, porque os meninos eram grandes. Repetia, aqueles meninos que só repetem, aí fica lá grandão. “Você não pode bater?” “Não, ele vai me bater, mãe, eu vou apanhar.” Falei: “Tá bom, deixa ir lá”. Fui lá: “Vem aqui, menino, por que você chama meu filho de Marta?” “Porque ele tem olhos verdes”, tudo dando risada. Eu falei: “Olha, vamos fazer uma coisa, ele não pode ser chamado de Marta Rocha, porque é nome de menina, aí eles vão chamar ele de menininha e vai ficar mal para ele, então não pode fazer isso. Então vamos parar com isso? Vamos fazer o seguinte, se você não parar, se você brigar com ele, ele vai apanhar, porque você é grande e ele pequeninho, ele vai apanhar. Então vamos fazer o seguinte, eu venho aqui, seguro você e ele bate em você. Se não adiantar, eu venho aqui e te dou uma surra, se não adiantar ainda eu vou mandar o pai vir aqui e te dar uma surra. O que você vai resolver?” “Não...” “Então não o chame mais de Marta Rocha, se não você vai ter.” Ele parou. ___________ [01:14:47] Um dia eu cheguei lá e encontrei o meu filho batendo no outro, sabe quando sai da escola? Pararam assim, eu falei: “Pode continuar”. As mães: “Imagina”. “Claro, tem alguma desavença, não sabe conversar e sabe brigar, então vamos brigar, deixa eles” “Não, imagina, nunca vi uma mãe deixar o filho brigar”. Eu falei: “Eu pouco estou ligando, deixa eles brigar”. Pararam, até hoje eu não sei porque eles brigaram. Só que eu ensinava assim para eles: “Não deixa ninguém passar a mão em você”. Você entende, né? Parece que foi por isso que ele brigou com o outro. “Se passar em você, mete a mão”, eu falava para ele. Então tudo certo, não precisava brigar todo dia, você mete a mão nele e acabou, mas eu ensinei assim. Você vê, ninguém é briguento. O Marcelo, uma vez, o marido dela, eu fui buscar na escola, snifffffffffff, eu falei: “O que foi, Marcelo?” Ele era pequeno, acho que tinha dez anos, sei lá: “O menino me deu uns pontapés”, que estavam jogando bola. Falei: “Por que você não bateu também, deu uns pontapés?” “Se não o professor me expulsava do jogo.” “Ele te bateu e o outro não viu?” “Não viu.” Eu falei: “Então você dá discretamente igual ao outro, seja discreto, mete o pontapé nele discretamente.” (risos) Depois não sei o que aconteceu, vai ver ele foi discreto. (risos) Ele também não era de briga, o Marcelo, a turma não é de briga. A Luciana que é mais danada, você não conheceu, deve ter conhecido, um que foi colega dela, que morava no prédio, esqueci o nome dele agora, ele tinha as pernas toda machucada, de tanto que a Luciana dava pontapé nas pernas dele. Um dia ele falou: “Tia, vê as minhas pernas aqui, tudo roxa dos pontapés da Luciana”. Quando ele falava alguma coisa que ela não gostava, ela paft nas pernas dele, pontapé. A Luciana sempre foi mais danada. Um dia cheguei lá também, ela estava batendo no menino, falei: “O que é isso, Luciana?” Ele tinha roubado uma canetinha do Marcelo, que é mais novo do que ela. E ela: “Devolve para o meu irmão”. E dava na cara dele. Ele tinha roubado as canetinhas do irmão, então ela tirou dele a tapa. Essas coisas assim que a avó dela _________ [01:16:57] dando uns conselhos. Uma vez a Luciana me veio com um ursinho da escola, fui buscar ela na escola: “Luciana, quem te deu esse ursinho?” “Foi meu pai que deu”. Falei: “Teu pai?” E não deu nada para o Marcelo, só para você”? “É” “Essa história está mal contada”. Aí cheguei em casa, a Vera falou: “Quem deu esse ursinho?” Quando eu não estava: “Foi minha avó.” “Tua avó não dava nada para você sem dar para o Marcelo alguma coisa”. Bom, tanto fizeram... ela roubou de uma menina, tinha uns quatro, cinco anos. Por que eu falei: “Mas você tem tanto ursinho, até uns que falam, que rezam”. (risos) “Mas esse eu não tinha” “Então você vai devolver amanhã e você não vai falar nada, porque se não vou eu falar e vai ficar pior, então devolve para a menina”. Porque aquele ela não tinha. Nunca mais ela fez isso. A gente ensinou: “O que é isso? Nunca mais você faz isso, não é seu. Você só tem o que é seu”. Ela tinha um monte de ursinho, mas ela não tinha aquele ursinho. (risos) As coisas que a gente precisa ensinar, não precisa brigar, bater, você ensina: “Não pode pegar nada que não é teu, tem que pegar só o que é teu”. Porque tinha dia que elas levavam brinquedos, porque eram pequenas. Aquele ursinho ela gostou tanto que levou para casa. (risos) Enganando, vê como ela era danada, dizendo que era o pai, depois falou pra mãe que era eu que tinha dado. Vocês são solteiras, você também é, não tem filhos, né? Ninguém tem filho?

P/3 – Eu tenho.

R – Você tem?

P/3 – Tenho um de três, terrível.

R – Que idade?

P/3 – Três.

R – Três, ainda está pequenininho, mas a gente já vai ensinado. Agora ir na escola e apanhar, pelo amor de Deus, vai aprender se defender. Não vai brigar com ninguém, mas se bater, bate também, pronto, acabou. Não precisa mais do que isso. Vai deixar um filho meu vir chorando, apanhar do outro. Quem é o outro, melhor que você? Sabe, eu sempre ensinei: ninguém é melhor do que ninguém, são iguais. Então, se defende. “Ele é mais forte do que eu” “Problema teu, você bate nele, nada de apanhar, apanhar nada. Eu nunca tive medo de ninguém, eu vou para cima. Se tiver...” Eu não dei naquela mulher? (risos) Não faz muito tempo eu bati nela, eu a joguei para lá, ela foi empurrar o meu filho, eu toquei nela, joguei ela para o lado. A namorada do meu filho: “A senhora partiu para cima dela”. Eu falei: “Ela empurrou meu filho. Ninguém pode mexer nos meus filhos”. Eu fui para cima da mulher, a mãe do síndico, eu fui para cima dela, está pensando o quê?

P/3 – Que história é essa?

R – Se eu tiver uma vassoura na mão, eu vou com a vassoura. Não estava com nada na mão, fui com a mão, mesmo. Ela é grandona.

P/1 – O que aconteceu nessa história, dona Nena?

R – Porque ele é síndico do prédio. Quer dizer: ele não é síndico, síndico é o irmão, são dois irmãos bichas, mas como eu falo, não interessa ser bicha, o que interessa é ter caráter, você ter caráter, bicha não tem importância nenhuma, como o corpo, não tem importância nenhuma, o que vale é a pessoa. Aí estava lá, me aprontaram uma, meu filho ficou sabendo e foi tirar satisfação, falou: “Você ofendeu minha mãe? Ofende minha mãe perto de mim”. Meu filho é maior do que ele, meu filho falava assim: “Me agride, me agride, eu quero que você me agride, porque eu quero te quebrar a cara, me dê motivo, me dê motivo” - meu filho falava – “me dê motivo para te quebrar a cara”. E ele [01:20:31] medo, homem já fica com medo e ela foi e empurrou meu filho, a mãe, mas ela é grandona e quando eu vi empurrar meu filho, eu fui para cima dela, a joguei para longe. Eu sei que eu senti duas coisas moles, peguei os peitos dela, a joguei, se ergueu outra vez, eu “poft” nela, aí eles foram embora para a rua. (risos) Eu, velhinha, posso apanhar, não faz mal. Porque vou apanhar dela, se ela quiser ela me dá um tapa e me joga longe. Eu sei que foi essa história. Então, uma vez, isso aí acho que também nunca te contei: tinha assistido uns filmes, a gente ficava lá cansada, a minha mãe saía dormindo do cinema, (risos) eu tinha acho que uns dezessete anos, dezoito anos, não sei, garota ainda. Saí do cinema, a gente era muito conhecida no bairro, até hoje eu sou muito conhecida, agora eu sou a mãe da doutora Vera, antes ela era a mãe da dona Nena, agora eu sou a mãe da doutora Vera. Eu sei que a gente sempre conhecida no bairro tudo, antigos. Então eu saio do cinema, passou dois moços e pegaram no meu peito, e eu não aguento desaforo, voltei para trás e fui para cima do moço. O que aconteceu? Ele me deu um safanão e me jogou no chão. Aí os meninos: “É a irmã do Ângelo” e foram para cima dos dois. A minha mãe foi para cima de um deles, (risos) quando eu fui ver, a minha mãe estava __________ [01:21:59] (risos) e os meninos apanhando. (risos) Tudo porque eu era a irmã do Ângelo.” A irmã do Ângelo, a irmão do Ângelo”. Mexer em mim e eu ficar quieta, só se eu fosse louca, eu fui para cima dele e bati nele. Apanhei também, porque ele me jogou no chão, mas eu não me incomodava de apanhar, eu batia. Acabou. Fazia alguma coisa para mim eu ia para cima, eu não ficava quieta. Então, aquele tempo era mais assim mesmo, a gente se defendia. Hoje o pessoal é covarde também, tudo covardão, tudo medroso. Também matam, né? Aquele tempo não tinha disso, não, era muito difícil. E acabava ficando amigo. Você brigava, naquele tempo, por causa de futebol, achou que o gol não foi certo, aquelas coisas, se pegava a tapa no campo. E a gente chamava. Você vê o Michel, tudo, foram amigos até morrer, do meu irmão, né? Michel, turco, se eu falava turcos ele me matava, eles eram sírios. Cada vez que a gente encontrava... éramos muito amigos, vivia na minha casa, ele falava assim: “Nena, já te contei aquilo?” “Não”. Fazia de conta que não, mas eu já sabia. “Um judeu e um árabe se encontraram e um falou para o outro: “Vamos tomar alguma coisa?” O outro falou: “De quem?” (risos) Ele sempre me contava a mesma coisa. Então ele falava assim para mim: “Nena, admiro muito vocês, viu? Vocês ficaram sem pai muito cedo, se viraram, o seu irmão é um gênio”. Porque meu irmão mais novo era considerado um gênio. Muito inteligente, muito esperto, ele ficou rico a custa dele, do trabalho dele, ele foi sempre muito dinâmico. O mais velho estudou bastante, então ele ficou bem porque ele estudou, depois acabou perdendo praticamente tudo. “E você, com as tuas cartinhas, se virou muito bem, criou teus filhos, educou, eu considero vocês uma família muito inteligente”. Ainda bem! E ele era rico, eles tinham tudo ali, a esquina da Cardeal com a Cunha Gago era tudo deles, até hoje ainda é da família deles, ele já morreu. A gente fica muito triste porque... ele queria casar com uma moça que era do interior e o pai não queria, queria que casasse com uma árabe aqui, filha de turco deles lá, sírios. Eu sei que o pai não queria o casamento de jeito nenhum, a mãe não queria. A minha mãe: “Mas seu Camilo, deixa o coitado casar”. Ele vinha na minha casa e chorava, contava para nós que o pai não queria e chorava, debruçava, chorava, saiu de casa, aí quando viu que o filho saiu de casa, o pai foi correndo e fez o casamento. Então ele falava: “Dona Rosa, eu gosto muito da senhora, não quero inimizade, então não fala mais nessa moça, porque meu filho não vai casar com ela”. No fim casou. (risos) E a gente sempre junto. Quando meu marido morreu, ele veio correndo na minha casa, antes dos meus irmãos: “Nena, você precisa de alguma coisa? Faz de conta que sou teu irmão, eu sou teu irmão. Você precisa de dinheiro, precisa de alguma...”. Eu tinha acabado de mudar para o apartamento, estava sem dinheiro nenhum, mesmo. Eu falei: “Não, mas os meus filhos vão se virar, eles vão pagar o...”.  Também ninguém ofereceu nada, nem meus irmãos ricos, nada. Falar: “Você precisa de alguma coisa?” Ninguém falou nada. Mas eles sabem que sou muito orgulhosa. Até quando a minha filha se formou, meu irmão mais velho foi junto na colação de... não foi colação de grau, foi a missa de formatura, que foi lá onde ela estudava. Meu irmão que levou a gente, ele falou assim... quando ela entrou no palco, eu estava chorando de emoção, meu irmão me abraçou e falou assim: “É, minha irmã, você conseguiu, com todo esse orgulho que você tem, você nunca pediu nada para ninguém, você conseguiu”. Eu falei: “Se alguém quisesse me ajudar, não precisava esperar eu cair no chão para ajudar. Ninguém quis me ajudar, eu também fiz sozinha, não precisei de nada de ninguém e tenho muito orgulho disso”. Uma japonesa que morava... você sabe que eu adoro japonês, quero vê-los tudo estrupicado, não gosto de japonês. (risos) A japonesa, um dia, falou para mim: “Teus filhos não têm vergonha da senhora tirar carta?” Eu falei: “Eu acho que meus filhos têm orgulho, porque a mãe deles trabalhou para sustenta-los e formá-los, não fez nada de errado. A mãe deles não fez nada errado e ganhou dinheiro honestamente, então acho que eles têm orgulho de eu ter tirado carta e os formado com esse dinheiro”. Ainda me falou isso, a velha, a mulher. Eu falei: “Eu não fui mulher de rua, catando homem na rua”.

P/1 – A senhora enfrentou muito preconceito, dona Nena, por causa das cartas ou não? 

R – Não, até que não. No bairro era tudo amigo, e quem vieram, a gente não dava muita bola, para quem veio. Sabe assim quem vem, veio depois? Então, a gente não dá muita atenção. É o que eu falo para o meu zelador... no meu prédio aqueles cretinos lá, aqueles lá e nada é a mesma coisa, porque são sem vergonha, ninguém gosta deles... então, para mim, o pessoal todo gosta de mim, tudo passa: “Dona Nena, não sei o que lá”, vão atrás de mim. Também, se tiver, eu pouco estou ligando. Você acha que eu vou me incomodar se alguém está com preconceito? Não estou nem aí. Eu acho ruim quando o Marco... o marido dela é muito cheio de coisa de frescurinha: “É porque não sei o que...” Eu falo: “Deixa de ser besta, não que interessa o que os outros pensam, interessa é a gente, o que a gente faz”. Eu não dou motivo para nada, se eu fizesse alguma coisa errada, né? Por exemplo: a mãe desses bichas que eu quase joguei no chão sempre... pergunta quem é ela. Ela sempre foi mulher à toa, mulher de rua. Ela casou com o pai deles já tinha filho. Não é porque tem filho que é à atoa, mas é que ela era à toa mesmo, ela pegava os homens na rua. Então, quer dizer, é diferente, todo mundo sabe... se alguém perguntar... agora pergunta de mim, tirar carta não é nada de ruim. Acho que não. Também, se for, não me interessa, não me interessa nada. _________ [01:28:08] quando ele veio morar: “Vem uns carrões aí na sua casa, queria proibir”. Ele queria proibir, falei: “Quem é você? Você não é nada, você não passa de um merda”. Porque eu falo assim mesmo, sabe? “Você não passa de um merda. O que você é? Você é alguma coisa na vida? Não é nada, o que você vai proibir aqui? Faça o favor, vá tratar da sua vida, que eu trato da minha”. Aí que começou as encrencas, ele roubando, roubando e roubando e eu falo que ele é ladrão sem vergonha e assim vai. Não aguento ver a cara dele, sabe? Olho para a cara dele... eu falei: “Se Deus existe, você vai ter câncer na língua, de tanta mentira que você fala”, porque ele mente, sabe? Mente, assim, na cara dura. Eu peguei, dei um tapa nele uma vez, na frente de um policial. Paft nele. Eu falei: “Eu vou esperar que Deus exista”. Eu estou ficando descrente de Deus, porque ele ainda não teve câncer na língua. Eu sou geniosa. Eu não gosto de desejar mal para os outros, mas ele que me fez isso, ele foi o culpado. Ah vá, fica lá, não posso nem olhar para a cara dele. Sabe quando a gente tem nojo de uma pessoa? Ele já tem cara de nojo, você o conhece, o bichoso lá. “Ela fala que eu sou bicha.” Eu falei: “E você não é? Todo mundo sabe que você é. E também é defeito ser bicha? Defeito é não ter caráter” - eu falo para ele – “você não tem caráter, isso que é ruim, canalha sem caráter, não passa de um canalha. Gente que mente, gente que enrola. Pô, você tem que fazer três orçamentos para me dar. Não, inventa de reforma e não sei o que, é dinheiro, é dinheiro, é dinheiro”. Desde que eles entraram lá é sempre mil e tanto. Um prédio pequeno. O apartamento é grande, é bom, mas não tem nem garagem, prédio antigo, pagar mil reais de condomínio, mil e tanto, sempre inventando. Agora não está inventando nada e mesmo assim pago quase oitocentos reais de condomínio e a gente sabe que não é tudo isso, só tem um funcionário. Agora estão dizendo que vão vender o prédio. Tá bom, vão vender, agora eu não vou vender por qualquer preço, eu vou pedir um preço que não existe, que também não é, mas eu estou... eu vou falar para meu... o Marco diz que estou sempre... o Marco não... é, meu filho Marco, eu chamo o Marcelo de filho também, tudo é filho lá. “Mãe, a senhora fica inventando muita coisa na sua cabeça, porque a senhora está doente” É claro, eu me defendo sozinha, apesar de que eu dei o apartamento para eles, mas enquanto eu viver é meu. Eu vou falar pra eles: “Eu chamei vocês na minha casa, eu pus placa de vende-se? Não, você veio me procurar para comprar meu apartamento. Se você me procurar para comprar meu apartamento, vai seu o preço que eu quero”. Claro que eu não vou pedir um exagero, porque também não sou louca. Eu não posso morar num lugar caro, porque também não vou poder pagar o condomínio, mas eu quero equivalente ao meu, só isso que eu quero. A outra vez aconteceu a mesma coisa: iam vender, iam vender, aí duas japonesas lá que estão cheias de dívidas estavam com o apartamento penhorado, não puderam vender. Eu tinha falado para o moço. O moço chegou lá, muito educado, entrando ali, meus filhos sentados ali quietos. Então eu falei: “Meus filhos, não sei o que”. Então o Marco virou e falou assim: “Nós estamos fazendo companhia para a mãe, para dar apoio moral para minha mãe, porque ela sabe muito bem o que ela quer e ela resolve sozinha. Nós só estamos dando apoio moral para ela”. Ficaram os dois quietos. Eu falei: “Você não vem falar a proposta que você falou para os outros, você nem fala, nem abre a boca para falar, porque eu não vou aceitar, eu vou te por daqui para fora. Então você não fala nada, não dá proposta nenhuma. Vem aqui”. Fui lá nos quartos, mostrei os quartos. “Eu já conheço” “Mas eu quero você veja o meu, está bonitinho, está arrumadinho, está limpinho, as paredes, tudo arrumadinho. Eu quero que você me dê um apartamento igual, só isso que eu quero. Aí onde eu moro, perto do metrô, porque estou morando aqui, não estou pedindo para você vir comprar. Então eu quero morar por aqui, preciso morar perto da minha filha, perto... estou ficando velha” - aquele tempo eu era mais moça - “então, só quero isso”. Aí ele vinha com proposta, ver o apartamernto... “Mas nem vou olhar” - eu falava para ele – “nem vou olhar porque é um lugar horrível, feio, eu não vou querer, não sei o que. Quantos apartamentos você vai fazer em cima do meu?” - porque tem cento e vinte metros meu apartamento – “quantos apartamentos você vai fazer em cima e dentro do meu?” - eu sabia que era de quarenta metros, então já dava três, fora os que vai fazer por cima – “então, só quero que você me dê um equivalente a esse” “Não sei o que” “Se vira, procura”. E cada vez que telefonava: “Não vou aceitar” “O que a senhora quer?” “Um apartamento no prédio da minha filha” “Mas é caro”. Eu falei: “Problema teu, não é meu, eu estou sossegada na minha casa, não estou te chamando aqui”. Aí não pode comprar por causa das outras lá que estavam todas penhoradas, acabou a história. Agora eu vou fazer a mesma coisa, dizer: “Me compra, tudo bem, eu não estou te chamando aqui”. E não vou querer que ninguém se intrometa, eu vou falar sozinha com ele: “Não quero saber, quem chamou vocês aqui? Eu não quero mudar, vocês que querem comprar meu apartamento, você quer comprar, você compra. Eu não vou te pedir dois milhões, não vou pedir isso”. O zelador me falou assim, meio escondido, que os lá querem muito dinheiro, os bichas lá. Eu falei: “Eles têm razão, oras”. Quer dizer: eles querem muito dinheiro, também não, não vale. A gente também precisa ter um pouco de senso, de não ser sem vergonha. Não vai valer. Não sei quanto que eles vão pedir, não sei, não me interessa, o meu eu resolvo sozinha. Também não quero... se fizerem alguma reunião, eu não vou, falar comigo sozinha, na minha casa. Eu tenho essas coisas, os outros acham ruim, que sou meio durona, mas tem que ser, né? Se eu não fosse durona, eu não criava meus filhos sozinha, como eu fiz. Quer dizer: com meu marido, a gente nunca se largou, ele morreu depois. Ele falava para mim: “Você não merecia isso”. Só isso ele falava para mim, meu marido: “Você não merecia ter sofrido o que eu... você não merecia...” Eu falei: “Agora já está pensando assim, mas não pensava antes”. A minha filha, quando veio com o diploma, veio chorando, sabe, na colação de grau. Ela veio: “Mãe, é seu, a senhora que trabalhou para me dar”. Ele também estava chorando, ele falou: “É, minha filha, eu não fiz nada para você, quem fez foi sua mãe”. Fiquei contente, foi eu que fiz, fiz porque quis, eu podia ter me acomodado e não fazer nada, cada um que trabalhasse e se virasse. Ela não ia ser médica, mas eu falei: “É isso que você quer? Então eu vou te ajudar”. E ajudei, consegui, a formei, a casei como ela queria. Eu tinha... sabe, eu sou esquisita. Ela estava falando outro dia que o tio a chamou de lado, antes dela ir estudar fora, o primo estudava Odontologia lá, meu outro sobrinho, o outro fez Medicina em outro lugar. A chamou e falou assim: “Você vai morar sozinha, vai para um lugar sozinha e vão te oferecer drogas, vai ter muita coisa, então você seja sempre quem você é, uma menina séria, você toma bastante cuidado”. Ela estava me contando outro dia, eu já sabia, mas outro dia ela estava relembrando. E ela foi sempre uma menina muito séria, minha filha é muito séria. Eu falei pra ela: “Vou te fazer uma coisa, eu vou te dizer uma coisa: vou trabalhar muito para te formar, vai ser muito duro, vai ser muito difícil. Eu só quero uma coisa de você: que você seja honesta, séria, um dia quero ver você entrando de noiva na igreja e merecendo o vestido”. Só falei isso para ela. Ela mereceu o vestido, ela casou séria. O meu genro falou um dia para mim: “A senhora pode se orgulhar de ter casado uma filha virgem”. Eu falei: “Sorte tua”. “Também, se não fosse assim, eu não casava com ela”. Eu falei: “Você é muito antigo, você é besta”, porque sempre foi besta mesmo, mas cada um tem sua cabeça. Foi o que eu falei com ela, pedi, ela fez. Não pedi nada, nada em troca. Uma vez veio uma cartinha dela, ela falou: “Mãe, manda...”. Um amigo dela tinha estudado junto, mas ele estava estudando em outro lugar, também Medicina. Estava descolando, ela falou: “Cola e põe no correio para mim”. E estava meio aberta, acabei lendo a carta, mas a minha mãe viu, eu falei: “Não conta para ela que eu li, mãe”. Mas a minha mãe é a mesma coisa de dizer: “Conta para o mundo”. Aí estava escrito que ela estava muito aborrecida porque: “Eu exploro a minha mãe” - ela dizia - “a minha mãe se mata de trabalhar para me sustentar”. Porque além de você pagar a faculdade, tinha que pagar livros. Ela teve poucos, porque ela estudava com as amigas. Teve que pagar comida, república, elas alugaram uma casa em quatro meninas, a gente tinha que pagar aluguel, água, luz, tudo, empregada, tudo. Os quatro pais, a gente que assinava o contrato. Foi muito difícil. E ela ia e voltava todo fim de semana, eu dava um dinheirinho para ela, ela não gastava um tostão a mais do que aquilo que ela tinha que gastar para condução, nem uma bala ela comprava, eu dava as coisas, eu comprava para ela levar, nem a unha, nada, ela que fazia, eu que cortava as pontas de cabelo, ela usava cabelo comprido. Foi muito difícil as coisas. E ela foi sempre assim muito, muito... não gastava dinheiro em nada, só aquilo ali. Foi tudo muito difícil, mas a gente conseguiu, né, isso que é importante. Conseguimos, eu tenho muito orgulho disso, consegui. Meu irmão falou: “Você contou do seu orgulho?” Eu sou muito orgulhosa mesmo, sou e vou ser até morrer, eu quero morrer sozinha. O Marco: “Vai morrer sozinha, não sei o que”. Se der. Agora eu precisei de todo mundo, né? Eu dei banho em todo mundo da família, (risos) todos ficavam doentes eu que dava banho, eu que corria. Agora precisaram me dar banho, eu não gostei disso. (risos) A minha filha, né, que me dá banho. A Luciana até queria, uma vez ela me deu banho, a minha neta, mas eu prefiro que não, eu tomo banho sozinha até hoje.

P/3 – E hoje a senhora tem algum objetivo assim, algum sonho ainda?

R – Quando a gente para de sonhar, a gente vai morrer. Você pode ver que você é um jovem, quantos anos você tem?

 

P/3 – Trinta e quatro. 

 

R – Trinta e quatro é um menino ainda, perto de mim é um menino. Você sempre sonhou. Quando a gente para de sonhar é porque a gente está no fim, então não sonha mais nada. 

 

P/3 – Qual o sonho da senhora agora?

 

R – Agora nenhum, agora é esperar a morte, só. Como será? Será que vai ter outro lado? Esperando nada, esperando não machucar, não ficar doente, é isso que eu... gostaria de não, morrer de repente sem... eu tenho muita falta de ar, muita canseira, sento na cama de noite dá falta de ar, _________ [1:39:22]. Se eu morrer sozinha, está bom. Quando eu fui anestesiada agora, na perna, a minha filha entrou lá na sala de cirurgia e o médico explicando para ela que ia ter dois tipos de anestesia: uma na coluna e a outra não sei o que, que eu não entendi aquele nome lá que ele falou. Ela, como médica, entendeu lá. Eu pensei assim: “Podia morrer dessa anestesia, não era bom? Já ia de uma vez, quietinha, sem alarde, sem nada, sem sentir dor, nem nada”. “Tudo bem?”, o médico falou. “Está tudo bem” “A senhora está bem?” Isso porque eu estava quase dormindo, eu sentia que estava indo. Falei: “Bom, tomara que eu não volte mais”, mas voltei. (risos) Daqui a pouco eu já senti... quer dizer, já tinha passado umas horas, mas eu não sabia. Eu falei: “Poxa vida, estou acordando”. Tinha um negócio no meu rosto, queria tirar, mas com a mão amarrada, não podia tirar, me tiraram. Aí uma moça veio me dar coisa na veia, aquela moça me machucou tanto a minha mão, ela não pegava as veias. Falei: “Menina, você está me matando. Pega aqui, pega ali, larga isso, não faz mais nada” “Não, mas eu tenho...” “Mas você não sabe pegar, chama alguém, eu tenho veias tão boas”. Nossa, como me judiou, tinha acabado de sair da anestesia, eu estava... mas eu sarei depressa até, no dia seguinte já fui para a UTI, no dia seguinte já estava no quarto, levaram para o quarto, até que foi rápido.

P/1 – A senhora quer deixar um recado para alguém, para sua família, futuras gerações, para a gente poder encerrar?

R – Me deixem em paz. (risos) A mensagem: me deixem em paz, não se intrometam na minha vida. Eu preciso deles, claro que eu preciso, estou idosa. Outro dia fiquei muito magoada com a Luciana. Eu te falei, né? Ela falou assim... nós fomos no supermercado e minha filha estava segurando a minha bolsa, estava com uma bolsa maior, que foi a Bruna que me deu, eu falei: “Segura porque eu, com a bengala e segurando, fica um pouco difícil, me cai”. Pensei que minha filha ia botar na bolsa dela, mas ela pôs dentro do carrinho, eu falei: “Vera, não se põe dentro do carrinho, que alguém passa e leva”. Mas eu pensei que ela tinha pegado, mas ela não pegou. Aí cadê o carrinho, cadê o carrinho? O carrinho sumiu, mas o carrinho estava lá no outro canto, alguém pensava que era de outra pessoa. Eu falei: “Pega outro carrinho, mas não lembrei da bolsa e ela também achou que eu tinha pegado, mas eu não ia pegar, onde eu ia pôr? Segurar? Depois, na hora de pagar as coisas, as minhas coisas, eu falei: “Cadê minha bolsa?” “Não está com a senhora?” Eu falei: “Não. Você não deixou a bolsa no carrinho, então?” Depois ela procurou e achou o carrinho lá com a minha bolsa. E a minha neta virou e falou: “A senhora precisa parar de ocupar muito minha mãe”. Eu não falei nome feio para ela porque estava no supermercado. Mas quando chegou lá dentro eu a xinguei, falei: “Menina, você chama tua...”. Ontem de noite a Vera falando comigo no telefone: “Ai, mãe, eu vou lá na casa da Luciana que ela vai tomar banho e eu preciso tomar conta do nenê”. Eu falei: “O nenê não pode...”, o menino já é grande. “Não porque fica a incomodando, chamando”.  Incomoda a mãe até para tomar banho e eu não chamo, é difícil, não chamo para nada. Ir no Banco, eu não posso sair da minha casa, ir pagar o condomínio, pagar... eu não posso andar sozinha na rua, o Banco é mais longe. E meu filho só vem no fim de semana. E às vezes precisa ir no supermercado, às vezes eu vou com elas, falo: “Você me compra tal coisa?” Agora não vou pedir mais nada, porque ela nunca pega o dinheiro, então eu não vou querer mais nada, eu já falei para ela: “Eu não quero mais nada. Eu vou com meu filho no fim de semana e compro as coisas”. Mas eu não a ocupo para nada. Ela me rega as plantas que estão em cima, tem muita planta na minha casa e eu não posso subir escada ainda. Até a que me faz fisioterapia: “A senhora está falando “ainda”?” Eu falei: “Sim, porque mais umas duas semanas, eu já estou subindo escada”. “E se a senhora cair?” “Problema meu, caio, arrebento outra vez, sei lá o que vai acontecer”. Mas hoje eu vou subir, porque não quero chamar para regar as plantas, vou regar sozinha, mais um pouco. E ela fala isso, eu falo: “Escuta, menina, você vai...”, a mandei para um lugar bonito, a xinguei. E acho que ela não vai falar mais nada, depois dessa. A Luciana é muito bocuda. Imagina, a criei, dava banho, cuidava, comida. Meu genro está com Alzheimer, ele está tendo derrame, até ele reconhece as pessoas, ele conhece você, né? O meu neto ele não conhece, ele chama de Toninho até hoje. Toninho é o irmão dele, que já faleceu. Não conhece o filho. Um dia ele falou assim para mim, já faz acho que mais de dois anos: “Sogra, não existe dinheiro que pague o que você fez pra mim. Você cuidava dos meus filhos, fazia comida, limpava minha casa, dava banho nos meus filhos, ficava com eles, cuidava deles”. Eu falei: “É, e quantos pontapés você me deu?” ele falou: “Não, sogra, imagina, eu gosto tanto da senhora”. Eu falei: “Você já esqueceu, então tudo bem, fica esquecido, porque não adianta mais nada, mas você aprontou muito”. Eu bati duas vezes nele, meti a mão nele. Ele tem um gênio bandido, eu também tenho, então meti a mão nele e ele esqueceu. E você vê que ele não lembra de ninguém, eu ele lembra. (risos) Outro dia um cuidador dele o levou na minha casa, ele ficou tão feliz de entrar na minha casa. Você lembra aquela vez que ele não queria ir embora, que lá era a casa dele, a minha casa era a casa dele. Ele gosta da minha casa, sei lá. Me explorou muito, porque eles iam fazer as cirurgias e eu ficava com as crianças e dormiam e ficavam lá, eu cuidando. E, às vezes, no fim de semana eu também queria ir na casa do meu outro neto e não podia ir, porque iam fazer cirurgia. E um dia era aniversário do meu neto lá, eu prometi para minha nora fazer umas coisas, eu tenho que fazer, não posso ficar... eu estava desde sexta-feira com as crianças: “Eu não tenho nada a ver com seus netos lá”. Eu falei: “Eu também não tenho nada a ver com seus filhos”. Toda minha vida eu trabalhava todo fim de semana, eles ficavam comigo”. Ele me encheu, eu pof na cara dele. “Não tem nada a ver com o meu, eu também não tenha nada a ver com teus filhos. Você quer mandar na minha vida, em mim, você não manda em mim”. Eu pof na cara dele, assim foi. Agora eu morro de dó dele, mas eu prefiro ficar na minha casa, porque eu vejo ele daquele jeito, eu fico nervosa. Aí o cuidador, quando eu ia embora, falava: “Dona Nena, eu não quero que a senhora vai embora, fica aqui, não sei o que, não queria que a senhora fosse”. Eu falei: “Tá bom, você quer que eu fique aqui porque você fica na outra sala vendo celular, dormindo e eu ficando tomando conta do Valter e você fica lá sossegadinho. Não, eu vou embora e você fica tomando conta, teu trabalho é esse. Eu quero ficar na minha casa”. Nunca pedi nada para ele fazer para mim. Ele fala: “A senhora não pede nada”. Eu falo: “Não, você não trabalha para mim, trabalha para minha filha e para ele lá, para mim não”. Não peço, já falei que sou muito orgulhosa, não peço nada para ninguém. Só o excepcional, senão não peço, não. Nasci sozinha, não nasci grudada com ninguém. Então, as pessoas têm que pensar nisso: se vira, você não nasceu? Se vira. Quem manda nascer? Não nascesse. (risos)

P/2 – Maravilha, dona Nena, obrigado por compartilhar com a gente. 

R – A minha vida é meio... não tive uma vida feliz, não. Eu queria que meus filhos fossem felizes, e eu acho que não são.  Eu fico muito triste. Um dia a Vera veio na minha casa, eu estava com os olhos vermelhos. Eu não sou de ficar chorando, não, porque não sou de ficar... não gosto dessas coisas, mas aquele dia eu estava angustiada. “Mãe, o que foi que a senhora está com os olhos vermelhos?” Eu falei: “Porque eu fico pensando que eu lutei tanto para vocês não serem como eu, terem uma vida mais feliz e não tem” “Ah, mãe e por que isso, eu estou bem?” Eu falei: “Você está muito bem, finanças, mas isso não é felicidade. Felicidade é ser feliz. Dinheiro não traz. Traz uma felicidade gostosa, mas não é isso que a gente quer. E teu irmão também” “Ai, mãe, não é assim, não”. Eu falei: “É assim, sim, é isso que eu vejo. Então, fico triste. Eu quero o quê? Que esses netos todos sejam felizes, é isso que eu quero. Daqui a pouco eu vou embora, lá estou me incomodando”. Uma vez o Marcelo falou assim para mim, que é o marido dela: “Vó, seu apartamento é bonitinho, você não quer dar ele para mim”? Falei: “Não, não vou dar para você porque já dei para teu pai, tua mãe e para teu tio, então é deles. “Eu queria ele para mim”. Eu falei: “Não, eu não vou dar, não. Esse aqui não é teu, não. Eu gosto muito de você, mas não é teu”. Às vezes ele fala assim: “Você fala que gosta tanto de mim e me xinga”. Eu falei: “Eu gosto muito de você, mas gosto mais da sua mãe, que é minha filha, saiu da minha barriga. Então eu posso gostar muito de você, mas gosto mais da sua mãe. Se você responder mal para tua mãe, você leva”. Eu o xingo mesmo, mas ele é agarrado comigo. Outro dia me trouxe lasanha, outro dia me trouxe pastel, fica me trazendo. Ele fala: “Vecchia, o que você quer? Você está bem, vecchia? Você quer vou te trazer não sei o quê”?” “Tá bom”. Ele que cozinha, ele cozinha, os dois cozinham, ele faz a comida dele, deles, né?

P/1 - Obrigada, dona Nena!

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