Busca avançada



Criar

História

A mulher no candomblé

História de: Lúcia Maria Crispiniano da Silva (Mãe Lúcia)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/03/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Lúcia Maria Crispiniano aborda sobre sua infância e a relação de seus pais, sendo a mãe católica e o pai do candomblé. Fala sobre sua vida como parteira e a luta contra o preconceito por meio dos projetos sociais com os quais está envolvida, ensinando e fortalecendo a cultura do candomblé, assim como os eventos de música que organiza com outros. Conta também sobre o curso de Direito que está cursando, um sonho antigo que só agora se realiza.

Tags

História completa

Meu nome é Lucia Maria Crispiniano. Nasci no dia 20 de abril do ano de 46 em Recife. Fiquei nesse bairro até os meus sete anos, depois mudamos para a Água Fria onde fiquei até a puberdade. Depois Arruda, e já moça feita, trabalhando, vim para Olinda, então de Olinda só saí agora, há 14 anos quando a minha mãe fez a grande viagem dela. Então vendi a casa e fui para outro local!

 

Meu pai se chamava Claudionor Crispiniano da Silva, era carpinteiro e tinha uma pequena loja de móveis, trabalhava com móveis de encomenda e tinha móveis para vender. E a minha mãe era uma mulher maravilhosa, de uma força sem tamanho, sem muita cultura porque estudou muito pouco, mas de uma sabedoria inigualável. Chamava-se Maria de Lourdes Crispiniano da Silva.

 

Por parte da minha mãe, pessoas católicas e, por parte do meu pai, um pessoal com uma raiz muito forte africana, todo mundo de candomblé! Então me tornei candomblecista aos 13 anos, em busca das minhas identidades, da vivência.

 

Eu sempre quis, e não entrei aos 13 anos porque o meu pai me segurou. Então fiquei como espectadora, mas assim que me formei, que terminei o meu curso de Enfermagem, pela Universidade Federal, eu entrei no candomblé. Tinha 18 ano, e estou até hoje. Só vou sair depois de morta.

 

Nós estudamos em colégio de Estado, que chamava-se Escola Industrial do Recife só feminina, até eu terminar Enfermagem, hoje eu estudo terminando Direito em escola particular. Mas tanto eu como todos os meus irmãos, a gente vem de ensino público, e na época o ensino público era tudo de bom! Depois fiz o técnico, depois eu fiz instrumentação cirúrgica, fiz obstetrícia e me tornei circulante de bloco cirúrgico como cirurgia especifica de coração, de cabeça, neurologia e cirurgiã plástica!

 

Nós mudamos de Arruda para Olinda e toda a juventude que convivia com a gente foi morar na nossa casa! Então a nossa casa virou um albergue com mais seis homens morando que chamavam a minha mãe de tia e a gente de irmã e as mães acharam maravilhoso se livrar porque eles davam um pouco de trabalho e a minha mãe era a única pessoa que eles atendiam.

 

A casa era uma casa muito simples, e apesar de ter muita gente tinha apenas dois quartos e a gente dividia os quartos só para as mulheres e os homens botavam beliche em um corredor longo que tinha. E nós brincávamos de tudo! Inclusive de subir nas árvores e levar uma porção de lapadas da mãe da gente porque a gente ia para as árvores e quando ela nos procurava estava todo mundo feito macaco nas galhas mais altos a se balançar. E quando descia o pau cantava (risos), porque não era para subir e a gente fazia exatamente o contrário. No nosso tempo já tinha algumas restrições quanto a ser mulher. Então a gente não podia correr de bicicleta porque era mulher, não podia empinar pipa porque era mulher, não podia jogar bola de gude porque era mulher e não podia jogar peão, e nós fazíamos tudo isso só com a família da gente. Eu que sou a mais velha junto com meus irmãos. Então a gente fazia de tudo, tudo que era proibido lá fora. Dentro da nossa casa, nós fazíamos.

 

Eu tive uma infância normal. Feliz, feliz, sem o medo da droga que existe hoje, sem o medo de perder os irmãos. Eu tenho quatro irmãos mais duas irmãs, nós viemos aprender a beber já tínhamos uns 25 anos! E tem dois que nem bebe, nem fuma e brinca carnaval, e dança, e dança forró e dança tudo e não toca álcool, nem cigarro!

 

E comecei a estudar: por que perseguem tanto? Então descubri primeiro porque é coisa de negro, primeiro que é coisa que veio da África, então o conceito que o coronel tinha era que o negro era ruim, mas o negro era muito forte! Então vamos começar cortar-lhe as pernas, o conhecimento, ceifar a palavra! Então candomblé, até a década de 50 foi perseguido por lei! Eu sou de 46, então tinha muita coisa que a minha avó falava, de culto que tinha que ir para dentro da mata para poder realizar, não é? E isso me deixava meio louca e eu dizia para mim mesma: “Eu vou crescer, vou abrir um candomblé para mim. Eu vou colocar dentro desse candomblé, a maioria toda militar!” Era a minha vingança contra eles, contra o sistema, e na realidade hoje eu tenho um candomblé e a maioria dos meus filhos são militares, do Exército, da Marinha, Aeronáutica, Polícia Civil e Militar (risos).

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+