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História

A Muleta Ficou Incomunicável

História de: Jacques de Oliveira Penna
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/06/2021

Sinopse

Jacques conta com riqueza de detalhes como a cidade de Brasília se transformou ao longo do período de transição conhecido como “Abertura Democrática”. Militante, tem de memória muitos detalhes importantes envolvendo a disputa pelo poder.

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História completa

Projeto Memória Compartilhada – A Luta pela Autonomia Política do DF Realização Instituto Museu da Pessoa. Entrevista de Jacques de Oliveira Penna Entrevistado por Lenir Justo (P/1) e Eliete Pereira (P/2) Brasília, 09 de março de 2009 Código: MDF_HV017 Transcrito por Michelle de Oliveira Alencar Revisado por Valdir Canoso Portásio P/1 – Boa tarde, Jacques. Nós vamos começar com você nos falando o seu nome completo, o local e a data de nascimento. R – Jacques de Oliveira Penna. Nascido em Caratinga, Minas Gerais, em 3 de maio de 1955. P/1 – E qual é a sua formação profissional? R – Eu trabalho desde 1977 no Banco do Brasil. Trabalhei antes em estabelecimento comercial da minha família e tive algum tempo afastado do Banco do Brasil, licenciado trabalhando na Central Única dos Trabalhadores e no governo do Distrito Federal. A minha formação universitária é Administração de Empresas, Administração Pública e História. Tenho diploma de Licenciatura em História, fiz todo o curso de Administração de Empresas e trabalhei como administrador de empresa, como administrador público e no cargo que eu exerço nos últimos anos no Banco do Brasil efetivamente eu trabalho como administrador. P/1 – E qual é a sua atividade atual? R – Eu exerço a presidência da Fundação Banco do Brasil desde março de 2003 na condição de funcionário de carreira do Banco do Brasil. P/1 – E qual foi a primeira vez que você ouviu falar de Brasília? R - Eu nasci numa cidade em Minas Gerais que não é da região próxima do Distrito Federal, mas com certeza desde o momento da fundação da capital que eu ouvi falar de Brasília, né? Tendo nascido em 1955, a partir de algum momento da década de 1960 começamos a ter informação a respeito das coisas, principalmente pelo rádio que era muito forte na época, pelas revistas que circulavam, a revista O Cruzeiro, eu lembro, na minha casa era uma revista que circulava muito, com certeza nessa época aí com sete, oito, dez anos. E mais ou menos nesse período aí de 1968, 1967, muitas pessoas da minha terra natal mudaram-se pra Brasília entre elas minha tia, meu tio. E em função disso as minhas irmãs vieram pra cá estudar, porque as pessoas que moravam no meu bairro, além desses, vieram morar em Brasília. Em decorrência da minha irmã vir morar em Brasília, uma que se formou em Medicina na Universidade de Brasília, depois uma outra que fez jornalismo, eu acabei vindo em função delas e das circunstâncias de ser funcionário do Banco do Brasil e não continuar no interior pra concluir os meus estudos universitários. Em 1970 eu conheci Brasília, quando minha irmã passou no vestibular e eu vim com ela, eu tinha na época 15 anos, ela foi pra casa passar férias e o resultado do vestibular saiu durante o período que ela tava de férias, e aí tinha que vir fazer a inscrição, e eu com 14 pra 15 anos vim pra Brasília pela primeira vez pra minha irmã fazer a inscrição na Universidade de Brasília. P/1 – Quando você decidiu mudar-se e por que Brasília? R – Eu era estudante universitário em Belo Horizonte em 1977, 1976, quando um belo dia correu numa sala notícia vinda do curso de administração da Universidade Católica que tinha uma inscrição para o Banco do Brasil. E aí um “vou fazer”, “vou fazer”, “vou fazer” e vários iam fazer e eu fui fazer também. E fiz o concurso pro Banco do Brasil junto com vários colegas da Católica e isso em 1976. No Banco do Brasil a gente acaba por marcar algumas informações, né? Eu fiz o concurso 035, então é muito comum encontrar um colega de banco: “Você tem quanto tempo de banco?” “Tem tanto.” “Ah, eu sou do concurso 035”. Então eu sou do concurso 035 que com certeza foi em 1976. Eu fui chamado para tomar posse no Banco, fiquei postergando porque eu tava morando em Belo Horizonte, não queria ir pro interior e interromper o meu curso. E aí em 1977 eu já tinha passado no vestibular da Federal e frequentava as assembleias, as passeatas em Belo Horizonte. O ano de 1977 foi riquíssimo, foi o ano da invasão da Universidade em São Paulo com bombas de gás lacrimogêneo do Coronel Erasmo Dias. E assim no Brasil inteiro foi um ano de muitas coisas acontecendo. E naquele ano eu entrei no Banco do Brasil e fui trabalhar em Pirapora, Minas Gerais, e fiquei ávido pra voltar a morar em qualquer grande cidade. Depois de um determinado tempo abriu-se a possibilidade, tinha vaga em Brasília. Então eu cheguei em Brasília no dia 15 de março de 1979, casualmente o dia da posse do General Figueiredo. P/1 – E qual foi a sua primeira impressão de Brasília? R – Eu vim a Brasília ao longo dos anos 1970 até 1977 praticamente todo o ano, né, tendo aqui alguns familiares e as minhas irmãs; eu vinha aqui quase todo ano. P/1 – A sua primeira lembrança deve ser aquela com 14 anos? R - Brasília é uma lembrança assim, né, as primeiras vezes que eu vim a Brasília foram de ônibus, depois vim de carro com meu pai. E assim, né, o interior de Minas onde eu vivia é uma região muito montanhosa, então Brasília com esses grandes campos do Planalto Central é uma marca. E lembro muito até hoje, fixado assim: ônibus entrando no eixão e aquele monte de prédios tudo igualzinho, aquela avenida enorme, né? Assim a lembrança de Brasília. Mas a lembrança de Brasília também é muita poeira vermelha. Brasília tinha uma poeira vermelha do início da cidade e a Asa Norte, na década de 1970 ainda era início de cidade pra ela, a cidade quase como um todo, mas então aquela poeira vermelha quando ventava e às vezes na época que a gente vinha aqui, essa época de final de ano muita chuva e uma lama, né? A coisa bonita que tinha pra gente ver aqui na cidade: tinha uma fonte luminosa aqui bem onde hoje é a rodoviária, que já não existe mais naquele lugar porque fizeram um viaduto, né? São as minhas primeiras lembranças que ficaram de Brasília. P/1 – Aí quando você mudou pra cá, já trabalhando no Banco do Brasil a tua impressão como cidade qual foi? R – Nos primeiros anos eu acho que para qualquer pessoa que mora em Brasília, todos os outros lugares são muito longe. Então você ouvia muito das pessoas: “Você conhece Brasília?” “Não” “Vai lá” “Mas é muito longe?” Então aquela conversa de que Brasília é longe, né? Longe pode ser São Paulo ou Piauí, depende do ponto de vista de quem nasceu e viveu onde. Então assim, essa coisa de que Brasília era longe, né? Uma marca muito forte pra quem chega em Brasília: a força da cultura e da gastronomia, dos hábitos alimentares nordestinos, né? Aqui em Brasília eu fui conhecer o forró, aqui em Brasília eu fui conhecer um monte de coisas que eu quase não conhecia, que são muito fortes em Brasília. Então assim, a cultura, a comida, a gastronomia nordestina são uma marca muito forte pra quem vem do Sudeste, quem vem de Minas Gerais como eu. P/1 – E qual era a tua rotina? Começou a trabalhar no banco aqui? Como foi esse começo pra você? R - Ainda na década de 1970 os funcionários públicos ou de empresas estatais transferidos para trabalhar e que eram estudantes de universidades federais tinham vaga na Universidade Federal de Brasília. Então vim com a minha transferência da Universidade Federal de Minas Gerais, para a Universidade de Brasília. A minha rotina era: eu estudava pela manhã e trabalhava à tarde e um pedaço da noite. Como eu já frequentava atividades do movimento estudantil e já tinha uma formação de leitura na universidade... porque nos meus primeiros anos no ensino superior fiz matérias da área de Ciências Sociais, a formação básica: economia, sociologia, filosofia e eu cheguei em Brasília faltava um ano para a eleição do Sindicato dos Bancários. Nós tínhamos um grupo no Banco do Brasil que era muito forte de pessoas que atuavam politicamente, essas pessoas frequentavam as reuniões do Comitê Brasileiro da Anistia no Clube da Imprensa, e frequentavam atividades culturais, sindicais que eram muito aproximadoras porque nós vivíamos o ano da anistia, foi o ano em que depois do período do golpe, pela primeira vez havia uma política salarial votada no Congresso, nem sequer, até aquela época, havia uma previsão de reajuste dos salários anual. Conseguimos que fosse definido esses aumentos baseados em uma política salarial que ia ser votada no Congresso. Foi o ano em que foi votado o fim do bipartidarismo que foi quando nós deixamos de ter Arena 1 [Aliança Renovadora Nacional] Arena 2, né? Em alguns municípios não tinha sequer o MDB [Movimento Democrático Brasileiro], como na minha cidade: o MDB, a maioria das eleições do período da ditadura nem disputava, era Arena 1 contra Arena 2. Então 1979 foi um ano que voltaram os exilados. Eu me lembro que estava uma vez em um restaurante que não existe aqui mais, o Espanhol, cheguei pra almoçar tava lá doutor Miguel Arraes. Antonio Callado escreveu um livro, Tempo de Arraes, eu tinha lido esse livro há pouquíssimas semanas, cheguei e tava lá o Monstro Sagrado, doutor Miguel Arraes sozinho no restaurante. E assim, por exemplo, eu lembro que em 1979 o ex-deputado do Partido Comunista de Pernambuco, o Bezerra... faltou aqui a memória, daqui a pouco eu lembro dele. Ele veio a Brasília fazer debate, em 1979 foram os anos das bombas nas bancas de revista no Rio e São Paulo pra ameaçar a imprensa alternativa, né, muitas bancas que vendiam O Pasquim, que vendiam O Movimento, que vendiam o Jornal Opinião, acho que já tinha acabado ou ainda existia. Então 1979 foi um ano muito rico, esse foi o ano que eu cheguei em Brasília. P/1 – E você morava então na Universidade? Era uma república? R - Não, eu morava na Quadra 103-Norte. Brasília já se desfez muito disso, mas isso é muito importante na vida da cidade. Quando algum morador mais antigo da cidade falava assim: “Eu tô indo na 305”, eu falo: “Ah, é alguém do Itamaraty." “Eu tô indo na 303.” “Ah, é do Banco do Brasil.” E na 103 era uma quadra do Exército, uma quadra onde na 103 moravam oficiais, e na 102 moravam oficiais-generais. Então eu morava na 103 num prédio da Quadra Comercial que era um apartamento da minha irmã que nós dividimos durante alguns anos. É relativamente próximo da Universidade, né, a 103-Norte, a Universidade fica na altura da 606, 607-Norte. Eu saía de manhã, ia pra Universidade e almoçava no bandejão ou almoçava no bandejão do Banco do Brasil, e trabalhava no banco. E eu tinha aí do meio-dia até as duas e meia de intervalo de almoço, e trabalhava saindo seis horas do banco. P/2 – Você trabalhava em qual agência? R - O Banco do Brasil... os bancos em geral da década de 1970, 1980 eram muito diferentes de hoje, né. Quando entrei no banco, eu fazia lançamentos de contabilidade e carregava uma barra de ferro que devia pesar uns dez quilos. Descia do andar e botava aquela barra. E nesse ano foram instaladas as máquinas eletrônicas, computador nem existia. Então, assim, eu trabalhava na agência central aqui do Banco do Brasil em Brasília. Era uma agência que tinha aí uns mil e duzentos, mil e trezentos funcionários, e umas 40, 50 dependências diferentes e eu trabalhava na área de compensação, central de documentos. Chamava-se pela sigla CEDOC: CE de central e DOC de documentos. Eu trabalhava nessa área do banco, eu tinha 24 anos e nosso grupo de pessoas eram todas muito jovens, e muitos ali eram alunos da Universidade de Brasília como eu, e alguns desses alunos que ainda eram do período da greve de 1977. E as pessoas que se identificavam umas com as outras por gostar um pouco de conversar sobre política logo aparecia esse assunto da greve de 1977 e minhas irmãs tinham sido militantes políticas na universidade, uma delas foi expulsa na greve, ela e o namorado na época, então eu sabia essa história toda, eu tinha muita informação. E desde 1977, quando eu militava em Belo Horizonte, acompanhei toda a questão. Que a greve da Universidade de Brasília foi um fato muito importante do movimento estudantil, assim como a invasão da Universidade em São Paulo, em Belo Horizonte naquele ano de 1977 houve uma tentativa de fazer o 3° Encontro Nacional dos Estudantes pra reconstrução da UNE [União Nacional de Estudantes]. E nós tivemos um dia inteiro de polícia na rua, em Belo Horizonte, porque eles cercaram os estudantes na Universidade Federal, no campus da Alfredo Balena, onde fica a Faculdade de Medicina e ali prenderam todos os estudantes, prenderam acho que centenas de estudantes, não sei se chegaram a mil, das caravanas que tinham vindo do país inteiro pro encontro e levaram pra Gameleira. A Gameleira era o lugar onde ficavam os cavalos, era o centro de exposições agropecuárias, não cabia tanto estudante em outro lugar então prenderam lá onde guardava os cavalos. Mas é só um detalhe. P/1 – E nesta época como era a vida social aqui em Brasília? R - Brasília tinha essa característica que eu comecei a relatar as quadras militares. Militares da Aeronáutica, da Marinha e do Exército, as quadras atrás, dos funcionários públicos do ministério tal, tal e tal. Do Banco do Brasil, do Banco Central etc. e tal. E Brasília tinha também um pouco da vida social das pessoas muito vinculadas ao que faziam. Então tinha o Clube do Banco Central, o Clube da Caixa Econômica, o Clube do Banco do Brasil, o Clube Asmec [Associação dos Servidores do Ministério da Educação], dos Funcionários do MEC [Ministério da Educação e Cultura] etc. e tal. E havia o Clube da Imprensa. Eu frequentei muito o Clube da Imprensa pelo relacionamento com a minha irmã, e pela relação das pessoas do Clube da Imprensa que tinham a ver com política, com sindicalismo. O Sindicato dos Jornalistas foi um dos sindicatos em que, naquela época quando eu cheguei aqui em 1979, já era dirigido por um segmento da esquerda. No Sindicato dos Jornalistas Carlos Castelo Branco era o grande nome. O Castelinho foi o presidente do sindicato. Então assim, não tinha quem não votava no Castelinho, a esquerda e a direita. Então o Castelinho era o presidente do sindicato e tinha um grupo de jornalistas de esquerda: o Hélio Doyle, uma série deles que depois vieram a militar no PT [Partido dos Trabalhadores] e eram do PCdoB [Partido Comunista do Brasil], PCB [Partido Comunista Brasileiro] que compunham essa chapa, né? E eu sempre gostei muito de futebol, né, joguei muito futebol no Clube da Imprensa, na Associação Banco do Brasil e em outros lugares e a gente ia pra lá jogar futebol e também porque durante a semana tinha reuniões e reuniões. E vida social: nós fazíamos muito forró no Clube da Imprensa pra arrecadar recursos pras atividades políticas, sindicais, partidárias. Durante uns oito anos acho que duas vezes por ano, pelo menos, a gente fazia forró, forró no Clube da Imprensa que lá era fácil, o pessoal alugava sem muita burocracia tal e era simples, não era muito caro, todo mundo sabia onde era, né? Em Brasília, militante de esquerda não tem muita preocupação com vida social sobre determinada atividade não, entendeu? A gente ia ao cinema, ao teatro, ia a debates no tempo que sobrava das reuniões, né? A gente fazia muito mais reunião que qualquer outra coisa. P/2 – Jacques, e como começou a sua militância sindical? R - No local onde eu trabalhava, no primeiro subsolo da agência central, era Central de Documentação, então todos os documentos a serem processados iam pra lá e de lá nós mandávamos pro Centro de Processamento que funcionava no prédio ao lado, e vinha do banco inteiro. E a principal liderança do Partido Comunista na área sindical bancária era um colega do Banco por nome Augusto Carvalho. E o Augusto trabalhava num lugar chamado Infor, na entrada do prédio. E tudo que você pede hoje por computador no terminal, ia lá pra pedir um extrato de conta, informação, o Augusto atendia às pessoas para anotar isso na entrada do prédio. E teve um colega da minha irmã, de militância estudantil, logo nas primeiras semanas que ele ficou sabendo que eu era irmão dela e tal, conversa de política fala: “Eu vou te apresentar uma pessoa, ele vem aqui quase todo dia trazer uns documentos. Eles têm um grupo aqui de oposição sindical”. Eu acho que não deve ter durado mais que dois ou três meses que eu estava aqui quando eu os conheci. Primeiro o Augusto e depois uma série de outras pessoas que eram militantes bancários, militantes sindicais. E nós nos reuníamos no Centro Cultural, que é um espaço cedido pelos padres aqui na L2-Norte. Era lá que aconteciam as reuniões da oposição bancária. Bem, eu com pouquíssimas semanas que estava aqui comecei a frequentar a oposição bancária e comecei a ir a assembleias do sindicato e a ajudar a organizar a oposição bancária e aí tudo foi uma questão de tempo. Depois veio o PT, a CUT [Central Única dos Trabalhadores] e outras coisas e assim eu fui me relacionando no Clube da Imprensa com pessoas que não eram bancárias, e no meio dos bancários com as pessoas do Banco do Brasil inicialmente. P/2 – E como foi a sua trajetória no movimento sindical, Jacques? R - A legislação sindical dos anos 1980 era uma cópia da legislação sindical dos anos 1930 da ditadura do Getúlio Vargas, piorada pela legislação da ditadura militar da década de 1960. Então, assim, existem coisas que hoje quando a gente fala com alguém as pessoas não... Então chegou-se a um ponto em que as atas de uma assembleia sindical só teriam validade se fossem registradas no Ministério do Trabalho. Então, se alguma coisa lá na ata não fosse do agrado deles, eles não registravam e não valia, logo a assembleia também não valia e as decisões não valiam. Era um negócio, né? Quando eu chego aqui em 1979 e começo a participar era assim, como eu relatei. No ano seguinte já teve eleição, mas para ser membro de uma chapa sindical você tinha que estar trabalhando naquela mesma cidade pelo menos há dois anos antes da eleição, e assim foi que eu não pude participar da chapa do sindicato, mesmo sendo muito ativo, militante da oposição bancária, que nós chamávamos de MRS, Movimento de Renovação Sindical, cuja chapa encabeçada pelo Augusto Carvalho, que foi presidente do sindicato por dois mandatos, e depois deputado federal, deputado estadual, atualmente ele é secretário de saúde do governo do Distrito Federal. E várias outras pessoas, né, o Geraldo Magela que é atualmente deputado federal, a Érica só entra nesse movimento lá em meados da década de 1980, porque os funcionários da Caixa não eram bancários. E tem várias outras pessoas que participaram aí desse movimento. Então mesmo não tendo entrado na diretoria da chapa do sindicato em 1980, eu era representante do Sindicato dos Bancários em algum momento da década de 1980 na Frente Intersindical. Aí por volta 1980 pra 1981, que eu não tenho precisão, é criada a Frente Intersindical que na maioria das vezes se reunia no antigo prédio sede do sindicato desde a década de 1960, no edifício Arnaldo Villares, no setor comercial Sul. E lá era, me parece, eu não tenho certeza disso, parece que o Augusto era representante e eu era suplente, se não me falha a memória. Em 1983 eu entro na direção do sindicato, porque aí quando tem a reeleição eu já tinha o tempo que a lei exigia, coisa e tal, né? Tinha um estatuto padrão, todos os sindicatos tinham o mesmo estatuto, porque era o estatuto padrão do Ministério do Trabalho, era uma obrigação por lei. E isso só vai acabar no governo Sarney, em 1986, com a chamada Nova República. E aí os meus primeiros cargos, minha participação com alguma formalidade no movimento sindical. Desde que cheguei aqui e ganhamos o sindicato em 1980, que a gente passou a eleger delegados sindicais, né, eu fui delegado sindical o tempo todo, sempre onde trabalhei era delegado sindical. Então fui delegado sindical nos anos 1980, 1981, 1982; a partir de julho de 1983 eu entro na chapa do sindicato. Em agosto de 1983, no dia 28 de agosto é fundada a Central Única dos Trabalhadores em São Bernardo do Campo e eu entro na direção da CUT representando Brasília. Brasília tinha três representantes efetivos: eu representando o Sindicato dos Bancários, o Chico Vigilante representando o Sindicato, aquela época não sei se já era sindicato ou ainda era Associação dos Vigilantes, e a Maria Laura representando os servidores públicos que naquela época não era sindicato, servidor público não tinha direito de sindicalização até em algum momento da Nova República que eu não lembro direito a data. Então assim, em 1984 a gente cria a Central Única dos Trabalhadores aqui em Brasília com a data que eu não tenho de cabeça. E aí eu entro na direção da CUT como secretário geral. Eu na área sindical, tive no sindicato de 1983 a 1986. Em 1986, concorro à presidência do sindicato numa chapa liderada por militantes do PT, com participação do PCdoB e outros grupos e a gente perde a eleição pro partidão. O partidão teve hegemonia na direção do sindicato de 1980, quando a direita perdeu o sindicato, até 1992. Então em nesse ano, depois de ter perdido uma eleição em 1986 eu volto à direção do sindicato, anteriormente eu tinha sido diretor, volto como secretário geral do sindicato. E depois em 2001 retornei ao sindicato como presidente. P/2 –Jacques, além do movimento sindical você teve contato com outros movimentos sociais em Brasília nessa época? R – Como estudante da universidade eu participei do movimento estudantil, cheguei inclusive a compor a direção do Centro Acadêmico da Administração de Empresas, da Administração. Na década de 1980 tinha muito isso: sindicato é coisa de trabalhador, estudante está querendo politizar o sindicato, isso era uma conversa interminável por parte da direita e da ditadura. E, bem, a gente não tinha culpa de ser estudante, né, a gente era estudante só que a gente era trabalhador também. Não é que o movimento estudantil não tivesse importância, ou tinha deixado de ter. O fato é que a transição da década de 1970 para a década de 1980 com as greves operárias do ABC, e não só do ABC de São Paulo, as greves de professores em Minas em uma série de outros estados ela traz uma diferença no contexto político: os trabalhadores voltam a conseguir ocupar espaço na cena política. Então era muito mais importante politicamente ser trabalhador do que estudante, né? Não tem aí nenhum juízo contra ou a favor isso, mas por que eu estou colocando isso? Porque às vezes pelo fato da gente ser um pouco jovem e ser estudante queriam descaracterizar o nível de compromisso, de seriedade daquilo que a gente fazia do movimento sindical: “Isso é coisa de estudante! Isso é infiltração de estudante no movimento”, né? Então assim, eu pouquíssimo participava das coisas na universidade. Também o importante de contar a história particular é conseguir fazer a soma do particular pro geral, isso eu acho que é importante no contexto da vida de Brasília. A Universidade de Brasília chocou a sociedade brasiliense numa coisa que era a brutalidade do regime militar. Então ao mesmo tempo em que os estudantes A, B, C, D eram espancados, presos, perseguidos, esbofeteados e às vezes ali no meio tinha filho de general, filho de coronel, filho de parlamentar e filho de seu José, seu Joaquim, entendeu? Então isso quando eu cheguei em Brasília, em 1979, né, as pessoas falavam dos acontecimentos da Universidade de Brasília com, assim, uma coisa muito forte, né? E aquilo ali foi uma escola pra muita gente, muita gente aprendeu ali e a própria ditadura militar foi perdendo força na medida em que não havia mais espaço político no país, e às vezes no mundo, pra que determinadas coisas conseguissem continuar sendo feitas daquele jeito. Bem ou mal entre os militares tinha a linha dura e aqueles que achavam que tinha que ter a abertura. É que abertura é o seguinte: “Eu vou fazer a abertura!” Então a abertura ficou famosa, o lema deles era: “Lenta, gradual e segura”. Então quando o estudante ia pra sindicato e fazia greve, aí greve de trabalhador eles tentavam desqualificar porque o negócio já era mais sério, já era de universidade pra durar uma semana, um mês, mas bastavam ter as primeiras greves de trabalhador em um número cada vez maior de lugares, né? Então assim, essa coisa toda vai acontecendo. Mas voltando ao ponto da sua pergunta, eu tive relação e participação, eu votava, eu fazia campanha, eu participava das greves, eu ia às assembleias do movimento estudantil. Movimento popular de bairro contra carestia de preços de alimentos, houve em muitas cidades os movimentos contra o aumento da passagem de ônibus e esse pessoal vivia nos sindicatos pedindo apoio, pedindo ajuda pra participar de encontro, pedindo ajuda pra rodar um panfleto no mimeógrafo, aquela época ainda nós tínhamos os mimeógrafos pra fazer boletim, né? Então eu tive muito contato com essas pessoas num dos primeiros anos. Nos anos seguintes, após 1981, porque aí eu tive uma opção política sindical clara, enquanto nós não passamos a eleição dos sindicatos eu não me envolvi, até o Sindicato dos Bancários, em julho de 1980 eu não me envolvi no processo do PT, eu só fui me envolver no PT depois da eleição do sindicato. Eu acompanhava tudo, era uma pessoa do PT que nascia. Essa é uma outra discussão de longa data no seio do movimento operário internacional, até onde os partidos vão, até onde os sindicatos têm independência. E quando você é militante jovem e lê a literatura de esquerda, isso é uma questão forte a ser debatida, discutida, né? Até onde os partidos fazem dos sindicatos correia de transmissão? Ou até onde é importante você garantir que é um militante partidário, mas você tem que respeitar aquilo que é discutido nos sindicatos como a vontade da categoria, essa é uma discussão interminável. E naquela época era a época das greves na Polônia, né? Mais uma vez tinha crise do socialismo real, tinha como teve a Hungria na década de 1950, Tchecoslováquia na década de 1960, na década de 1980 teve o questionamento do sindicalismo livre na Polônia. P/2 – Agora Jacques, como era ser militante, estar no sindicato e viver num período militar? R - Olha, sempre que visitava meu pai, eu contava história, saía alguma coisa no jornal, tal, ligava e ele tava com aquela preocupação, né? Porque em 1979 nós estávamos há muito pouco tempo de um período em que operários foram mortos. Isso foi em 1978 em São Paulo, dentro dos porões das estruturas repressivas do aparelho militar. Então tinha muito pouco tempo para que as pessoas sentissem segurança. As minhas irmãs, como eram militantes de grupos clandestinos na universidade, o apartamento delas foi invadido por policiais armados da greve de 1977, até dois anos antes de eu chegar aqui. Então era tudo muito... Mas também era um período de mudança, né? Eu não digo que a gente não tivesse medo. Curiosamente, nunca fui preso, nem sequer detido. Participei de greve de pelo menos uma dezena de categorias diferentes, entendeu? Daquelas de parar a rodoviária e o tempo fechar e o negócio não ficar muito bom . Eu lembro de uma passeata em 1980, 1981, não sei, em Taguatinga em que polícia veio e desmontou a passeata, não podia fazer a passeata, uma passeata de Primeiro de Maio. Na luta política os limites são dados pelos dois lados, né, pela repressão do lado de lá e pela coragem do lado de cá, inclusive de apanhar. Segura os seus radicais que eu seguro os meus. Não sei se foi Petrônio Portela que discutia com alguém do MDB uma conversa que não importa quem, mas o contexto era esse entendeu? Então assim, aquele período ali, tanto que em 1983 quando eles tentam fechar a imprensa alternativa, tem a bomba do Riocentro que eles fazem as últimas lambanças do núcleo duro da ditadura, era uma situação em que mesmo dentro do núcleo do regime militar eles não queriam mais aquilo. Eu lembro de uma passeata de estudantes em Belo Horizonte, em 1977, que foi um caso curioso na minha vida. Nós estávamos em frente à Faculdade de Direito e os estudantes tinham sido cercados lá dentro e viemos estudantes de todas as faculdades pra fazer uma manifestação em frente à Universidade de Direito pra eles soltarem os estudantes que estavam sitiados pela polícia lá dentro. Em frente à escola de Direito, no início da avenida João Pinheiro, avenida Augusto de Lima até o largo onde tem a faculdade de Direito e o General Silvio Frota estava lá esse dia. O General Silvio Frota foi demitido pelo Geisel nesses dias, porque ele era a linha dura do Exército e o Geisel queria fazer a tal da abertura. Eu passei, quando nós ficamos sabendo que o general estava no hotel, aí tem um Galaxie preto com a placa Caratinga, a minha terra, eu falei: “Minha terra não tem esse carro, se tivesse eu conhecia”. Era uma placa fria do Exército que tava servindo pro carro do General Silvio Frota, lá hospedado. Mas voltemos pra Brasília [risos]. (pausa) Então esse é o meu depoimento, né, tem outros que tem outros depoimentos . Mas a frente, no mundo sindical, a Frente Intersindical, alguém me falou, alguns deles vão acabar falando aqui, houve uma organização que eu não participei, eu tinha conhecimento dela. Eu já acabei citando em algum momento, né, a Frente Intersindical, e tem uma outra organização que nos dias de hoje eu diria que é uma ONG [Organização Não Governamental] que é o CEBRAD, o Centro Brasil Democrático, não sei se algum deles já citou, mas com certeza alguém aqui vai citar. Porque as coisas dos estudantes, dos trabalhadores, mas tem outros setores que se organizavam e às vezes as organizações sindicais patronais não tinham talvez uma linha de ação, era um negócio muito mais... Porque as pessoas não queriam se arriscar a fazer movimento de rua, e às vezes não é do estilo de determinado tipo de organização movimento de rua, isso é coisa de estudante, de trabalhador, de movimento social, às vezes alguns segmentos têm uma postura. Uma coisa muito interessante aqui em Brasília também foi o período do colégio eleitoral que houve manifestações contra aquele processo do colégio eleitoral. O período das eleições diretas, né, o período das eleições diretas tem um conjunto de filmagens e gravações feitas por um amigo meu na época que trabalhava com vídeo e cinema, ele nunca terminou esse vídeo, toda vez que eu penso nesse assunto eu falo que vou procurá-lo e depois esqueço, pra ver o material. P/2 – Sobre as Diretas? R - Sobre as Diretas. E ele gravou “n” coisas naquela época, “n” manifestações e comícios que foram feitos naquela época. E tinha um lugar aqui em Brasília onde eram feitas as manifestações que nos últimos anos não acontece nada lá mais. P/2 – Qual? R – A gente chamava de Praça do Povo, em frente às Lojas Americanas, é ao lado do Banco Itaú, onde hoje é o Banco Itaú, ali era o lugar onde aconteciam as manifestações partidárias, sindicais etc. nos anos 1980, 1981, 1982 até não sei quando, né? Eu tinha fotos de lá, mas não tenho mais, mas no Sindicato dos Bancários tem, e nos outros sindicatos tem também fotos na Praça do Povo onde eu lembro, por exemplo, que quando foi fundada a CUT, em agosto de 1983, teve uma data de uma greve, 21 de julho de 1983, que redundou numa intervenção no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, dos Bancários, dos Petroleiros de Campinas, e acho que os Petroleiros da Bahia decorrente desta greve. Neste dia 21 nós fizemos uma manifestação, de julho de 1983, nós fizemos uma manifestação na Praça do Povo e assim houve muitas outras. P/2 – Agora Jacques, qual foi o papel do Sindicato dos Bancários já no movimento pela representação política do DF? R - Os sindicatos ao longo da história da cidade, praticamente da história toda, desde a década de 1960 até a década de 1990 houve alguns que sempre foram importantes. Na década de 1960 o Sindicato da Construção Civil, que nunca mais se libertou de uma orientação extremamente conservadora desde a sua intervenção até hoje, mais lá trás o Sindicato dos Bancários, o Sindicato da Construção Civil, os Comerciários, a Associação dos Professores, que ainda na década de 1980 porque os professores como funcionários públicos não tinham direito à sindicalização, né? Então o Sindicato dos Servidores Públicos que veio a ser forte na década de 1990, na década de 1980 eles não tinham direto à sindicalização, então quando você não tem direito à sindicalização, não tem direito a ter sindicato, às vezes você não consegue ter uma entidade forte. O Sindicato dos Bancários, com a direção de um grupo mais à esquerda, em 1980, era um sindicato que tinha recursos, que tinha sede, que tinha estrutura, o sindicato apoiava o movimento popular, tinha cineclube, fazia debates sobre cultura. Eu lembro de um debate com o Fernando Peixoto sobre teatro que vazou três horas da manhã e o teatro não acabava, né? Lembro certa vez que o Zé Dumont fez um debate sobre O Homem que Virou Suco, e o camarada que tratou de levar o Zé Dumont pro hotel, não sei o que aconteceu que esqueceu, sumiu, nós fomos pro bar tomar uma cerveja e esse cara não apareceu e o Zé Dumont foi dormir lá em casa num colchãozinho assim no canto [risos], no canto onde cabia, né? Então o Sindicato dos Bancários e o Sindicato dos Professores no início da década de 1980 eram os sindicatos de categorias grandes com o maior poder econômico, portanto, com boas condições de contribuir com a luta dos outros segmentos do movimento estudantil popular. Mas igualmente importante era o Sindicato dos Jornalistas, que era um sindicato em termos de estrutura bem menor. E nós tínhamos o Sindicato dos Arquitetos, que era um sindicato pequeno, mas como ele funcionava junto o IAB, Instituto dos Arquitetos, e com uma outra... não sei se Federação dos Arquitetos, o fato é que o Sindicato dos Arquitetos funcionava na L-2 Sul, era um espaço importante. Eles tinham uma sede um pouco maior, nós tínhamos muitos eventos. E nós tínhamos instituições pequenas, mas ativas, né, a Associação dos Sociólogos, Associação de Enfermagem, Sindicato dos Engenheiros. Os sindicatos de categorias mais de classe média no início dos anos 1980, final dos anos 1970 tinham direções mais à esquerda, ou mais de esquerda do que às vezes alguns grandes sindicatos que ainda eram remanescentes de esquemas políticos da ditadura, de intervenções mesmo que ficaram lá e nunca saíram. P/2 – E qual o papel do movimento sindical na luta pela representação política? R - O conjunto de movimentos que tinham pauta, que tinham expressão, que tinham o sentido mesmo de movimento, faziam movimento, faziam abaixo-assinado, faziam manifestação, tinham entidade, estavam à frente. Porque você imagina num período de mais de uma década em que os trabalhadores não tinham data pra terem reajuste de salário. Então o Delfim que determinava o aumento, o Delfim fez um cálculo, ficou famoso esse período aí que houve um cálculo da inflação que houve um expurgo, o Delfim chegou à conclusão de que aquele cálculo não estava feito certo mandou mexer aí teve um expurgo. Então nos anos seguintes a gente queria que aquele expurgo fosse reconhecido, mas diferente de hoje, ou de já há vários anos você não tinha data base porque não tinha política salarial, então como era proibido manifestar, proibido organizar, era proibido qualquer coisa então não interessava ter a data base dos bancários em agosto, chegava em agosto não tinha reajuste nenhum, entrava ano, saía ano, quando chegou em 1979 que foi votada uma lei salarial que tinha que ter um reajuste anual aí nós começamos a brigar; quantos porcentos de reajuste nós vamos ter? Depois de anos teve a primeira política salarial. Então a mesma coisa, os estudantes. Queriam eleger o reitor da Universidade, não queriam mais o capitão de mar e guerra. Os moradores da Ceilândia, e assim foi uma coisa generalizada na cidade, aqueles que deixaram de morar em invasões próximas daqui, em ocupações muito dentro da estrutura antiga da cidade e foram transferidos pra 20, 30 quilômetros: passagem de ônibus, queriam que tivesse linha, queria que o reajuste do ônibus não fosse tão caro, eles queriam asfalto, eles queriam energia elétrica, eles queriam a pauta de união de morador. Então este pessoal aí tinha que fazer um panfleto, onde? Esse pessoal não tem dinheiro, então os sindicatos foram muito importantes, e continuam sendo, pra apoiar essas pessoas e esses movimentos. Então os estudantes queriam meia, essas coisas que estão aí, existem, não saem da pauta 30, 50 elas vão e voltam, né? É aumento de ônibus, é reajuste de trabalhador, é alimentação, reajuste de salário, tudo o mais, eram as coisas. Essa era a importância dos sindicatos. E quando as pessoas começam a reivindicar elas começam a perceber que têm, em muitos aspectos, uma pauta em comum e aí entra numa questão que era aqui: sim, mas Brasília capital federal não tem legislativo, havia uma comissão no Senado Federal que já devem ter dito pra vocês outros depoentes aqui, uma comissão composta por senadores de num monte de cantos do Brasil. Então a questão é, como qualquer outro lugar do mundo, nós queremos é nossa representação política. Se a gente vai votar bem depois, 20 anos depois é outra conversa, o fato é que é o seguinte: aí começa a ter na pauta. Os sindicatos eram muito disputados por grupos vinculados à esquerda, seja do PCB, do PCdoB, do PT criado em 1980, de outros segmentos, PDT [Partido Democrático Trabalhista] que não era exatamente PDT, mas tinha grupos vinculados ao Brizola mesmo depois que ele volta, você tinha uma pauta comum. Então tinha num programa pra eleição do sindicato pelas liberdades democráticas, por liberdade e autonomia sindical, pelo direito de representação política no Distrito Federal. Era um programa de um sindicato, mas você costumava ter esse programa, por quê? Porque significava o compromisso daquela proposta de direção sindical que estava disputando que ela achava que aquilo ali precisava ser discutido, por uma política salarial, né? Que quando eu pensei em procurar foto eu falei: “Eu não preciso procurar foto porque os sindicatos têm fotos” como eu não tenho um arquivo de foto dessa época bom eu tenho um arquivo de documentos que eu, se conseguir daqui até o fim do trabalho eu vou ver se eu pego. Eu tenho lá o programa do sindicato tal, os professores, eu tenho muita coisa de muitas categorias do Brasil, dos Bancários eu tenho, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, do Rio, né, então pode ser que eu consiga encontrar alguma coisa dessa. Você vai ao encontro não sei das quantas em São Paulo, você tem o mesmo item, porque era uma pauta. É por isso que há uma identidade dos diversos movimentos em torno da questão da representação política. Porque é um direito de espaço político, né? P/2 – Jacques, você chegou a participar diretamente como sindicalista, como representante do Sindicato dos Bancários das eleições de 1986 pra Câmara Federal e pro Senado? R – Diretamente como candidato não. P/2 – Apoiou algum candidato? R – Apoiei. Eu, em 1986, naquela época das eleições eu tinha acabado de perder a eleição pra presidente do Sindicato dos Bancários de Brasília, o Augusto Carvalho estava saindo do sindicato, quem ganhou a eleição do Sindicato foi José Sampaio Lacerda Júnior, colega do Banco do Brasil. Eu apoiei naquela eleição pra deputado o Chico Vigilante, candidato a deputado federal. E eu fui candidato a suplente exatamente eu estava aqui me esquecendo disso, fui candidato a suplente de senador na chapa do Lauro Campos, é, não é fato que eu tenha sido candidato, fui candidato a suplente de senador na chapa do Lauro Campos. Que era muito engraçado, eu falei há pouco, no início, né, em 1979 a gente era muito jovem, muito jovem e pra ser candidato a suplente tinha que ter 35 anos, aí quando o pessoal começou a discutir que eu ia ser candidato a suplente, pessoal: “Mas ele não tem 35 anos!” “Tem, tem 35 anos!” Isso foi em 1986, eu tinha exatamente 36 anos. P/2 – Bom, Jacques, nesse mesmo ano, 1986, tem o badernaço, né, logo após as eleições foi considerado badernaço pelo Correio Brasiliense, mas o sindicato teve alguma participação? Você participou daquele momento, desse evento aqui em Brasília? R – Naquele dia não participei . Eu trabalhava até por volta de seis e meia, sete e meia todos os dias e trabalhava aqui muito próximo da rodoviária, o setor bancário Sul. E acho que aquela manifestação ia acontecer convocada pelos sindicatos, e se precipitou no tempo, e na sua dimensão e na violência feita por pessoas infiltradas pelas áreas de segurança e de inteligência. Aí eu não sei te dizer se só dos órgãos do governo federal, ou se também da polícia militar. O fato é que aquele tipo de ação violenta de quebra-quebra, de virar carro, de botar fogo em carro aquilo não é típico das pessoas do movimento sindical e do movimento político que faziam outras manifestações e nunca tinha havido aquilo. Então foi proposital. Quando eu saí a rua, já era por volta aí de umas 19h30, talvez, eu saí a pé e vim em direção ao Conic [Conselho Nacional de Iniciação Científica], e já tinha várias lojas quebradas, várias lojas sendo saqueadas, coisa e tal. Mas o momento mais tenso e intenso, foi quando as viaturas foram incendiadas e isso já tinha passado. O quebra-quebra na rodoviária isso já tinha passado, eu não presenciei, depois eu fui ver isso só em vídeo. P/2 – Jacques, você acompanhou a Assembleia Nacional Constituinte, o Sindicato dos Bancários chegou a participar? R - Eu participei muito do trabalho do movimento sindical junto à Assembleia Nacional Constituinte, mas eu tava morando em São Paulo e trabalhava no grupo de assessoria da Secretaria de Política Sindical da CUT, que era a secretaria responsável por articular a participação dos sindicatos vinculados à CUT. Então tinha um conjunto de propostas que eram discutidas, e propostas que eram encaminhadas pra bancada que compunha a bancada de sindicalistas. O atual senador Paim tinha sido secretário-geral da CUT, era deputado federal. O Presidente Lula era deputado federal. Posso lembrar alguns outros aqui que eram sindicalistas, eu vim muitas vezes ao Congresso com os dirigentes da CUT trazendo propostas de votação que envolviam direitos, direito dos trabalhadores na constituinte. Você tem muito material – eu tenho quase certeza de que disso eu tenho, cartilha, alguma coisa guardada em casa. P/1 – E o que você acha que significou pro Distrito Federal a Constituinte de 1988? R – Eu não estou precisando aqui de uma informação, mas me parece que foi na Constituinte que foi aprovado, não foi numa emenda? P/2 – Sim. R – Foi em emenda? Não, foi a própria Constituição, foi da própria Constituinte que foi aprovada a representação política, é isso? Ou não? P/2 – Isso. R – Acho que é, né? Foi na própria constituinte. O Geraldo Campos deve ter falado disso porque ele era parlamentar na época, o Sigmaringa Seixas, não sei se teve aqui ou se virá, ele também era parlamentar na época, eles vão lembrar disso com mais detalhes da tramitação. A gente, os sindicatos à época fizeram abaixo-assinados para entregar. Eram muito comuns os abaixo-assinados que os sindicatos corriam a respeito daqueles assuntos que eram de maior interesse, e esse, se me lembro bem, era um abaixo-assinado que os sindicatos do Distrito Federal trabalharam muito. Neste ano eu não tava aqui em Brasília, mas eu vinha muito aqui, fazia coisas vinculadas aos interesses sindicais no Congresso, mas não como membro do movimento sindical de Brasília. P/2 – Agora, Jacques, como foram as primeiras eleições para governador e pra Câmara do Distrito Federal? (pausa) (FIM DA FAIXA 1) P/1 – Jacques, há um momento na vida política de Brasília, e do Distrito Federal, que é a campanha pelo voto, o fato da cidade e o Distrito não terem nenhum tipo de representatividade política. Isso ainda é anterior ao movimento das Diretas Já. Como é que o movimento social, sobretudo o movimento de articulação sindical, se engaja nessa campanha? E que resultados isso foi apontando no correr do processo? R - Nós tínhamos uma circunstância em Brasília na década de 1980 que como não tínhamos representação política não tínhamos direito de voto, portanto não elegíamos as pessoas, e nós não tínhamos partidos políticos legalizados aqui. Então na passagem da década de 1970 pra década de 1980, com o fim do bipartidarismo, com o fim da clandestinidade dos partidos comunistas, com a criação do Partido dos Trabalhadores, com outra realidade político partidária, Brasília ficou uma anomalia nacional: os partidos existiam, mas não tinham representação legal, nós continuávamos tendo as comissões provisórias dos partidos, porque não tinham representação legal. Aí eu não domino toda a questão jurídica, mas me parece que pelo fato de não ter representação política, as pessoas de Brasília votavam nos candidatos, quando havia eleição nós votávamos nos candidatos dos nossos respectivos estados de origem. Então eu que sou originário de Minas Gerais, tinha meu título de eleitor em Minas Gerais, mesmo morando em Brasília. Muitas pessoas tinham título aqui e esses não tinham qualquer tipo de direito de voto. Essa é uma das questões, né, dentro de toda a questão da cidade querer representação política. Porque quando a gente fala em representação política às vezes as pessoas transferem isso em eleger deputado, eleger alguém, mas é um direito de cidadania, né, que envolve, por exemplo, essa questão da representação formal da existência dos partidos. E aí todos os movimentos que existiam na cidade, e todos numa amplitude bem grande, ou seja, os profissionais, os empresários, os estudantes, os trabalhadores, os movimentos sociais de bairro trabalhavam essa questão, do direito, da autonomia política de Brasília. Como já havia falado, eu atuava muito dentro do Sindicato dos Bancários, dentro da Frente Intersindical, depois na recém criada Central Única dos Trabalhadores na direção nacional representando Brasília e depois na direção local da Central Única dos Trabalhadores. Então nós tivemos “n” movimentos de atos públicos pelo direito pela representação política. Esses atos aconteceram nesse momento da campanha das Diretas, nós somávamos as duas coisas: o direito de eleger presidente da República, direito esse cassado pela ditadura desde a década de 1960, e o direito à representação política no Distrito Federal. Então foram “n” as manifestações, os comícios, os atos públicos em vários lugares da cidade, às vezes em Taguatinga, às vezes na Feira da Ceilândia, às vezes na Esplanada dos Ministérios, às vezes na Praça do Povo, no setor comercial Sul, levantando essa bandeira. P/1 – Isso, contado assim, parece apenas um relato histórico, mas o clima, o momento na capital federal sobre regime de exceção, com uma repressão ainda bastante ativa, era uma coisa meio irrespirável. Como é que vocês transitavam em meio a esse clima de opressão? Olha, eu me lembro muito fortemente de uma situação que quando a frente de entidades... (pausa) P/1 – Enfim, não era exatamente um ambiente de rosas e banquetes, era um ambiente de barra pesada, como é conviver com isso? R - Eu me lembro muito de um ato convocado pela Frente de Entidades, é que agora não me dá exatamente a memória o nome certo da coordenação política, se era Frente de Entidades, ou Comitê Pró-Representação Política, Comitê pelas Diretas, alguma coisa assim. Mas nós temos muitos jornais aí que retratam isso. Foi convocado um buzinaço, esse buzinaço com certeza foi aí provavelmente em março, abril de 1984. Marcado pra ocorrer às 18 horas deste dia, durante a semana, já não me recordo qual dos dias da semana. O fato é que a grande dúvida nossa: qual a capacidade de direção política que nós tínhamos na cidade para aquilo, e era uma frente muito ampla, né, segmentos à esquerda, ao centro-esquerda e determinados setores do empresariado progressista. O fato é que às 18 horas daquele dia, eu trabalhava acho que no 18° andar do edifício sede 1 do Banco do Brasil, no setor Bancário Sul, e como eu era militante sindical, então me recordo muito bem que a turma do meu trabalho falou: “Não vai acontecer, não vai acontecer, não vai ter”. O fato é que houve um buzinaço na cidade aqui no Plano Piloto naquele horário que foi um negócio inimaginável, né? Abriam-se as portas da escada de incêndio do prédio e ficamos todos ouvindo aquele barulhão. Então se nós tivemos em alguns momentos uma unidade política em torno de alguns temas na cidade esse foi muito marcante. E uma das coisas que sobraram dos porões da ditadura muito forte em algumas cidades, e em Brasília era muito grande era essa coisa aí de setores, estou falando de 1984, setores que ainda tinham uma postura muito autoritária, né, com relação à liberdade de expressão. Então nós tínhamos uma infiltração generalizada em assembleias, em reuniões e manifestações. Mas em Brasília, particularmente naquela época, nós tínhamos prisões só quando eram atividades de greves, de manifestações do Primeiro de Maio. E naquele dia, por exemplo, não tinha como prender, eles iam ter que prender a cidade toda porque a classe média aqui do Plano Piloto, os trabalhadores organizados nos sindicatos, foi uma adesão muito grande nesse buzinaço, coisa que seria muito interessante talvez encontrar, nos jornais dos sindicatos com certeza que tem, do nosso Sindicato dos Bancários, o Sindicato dos Professores, Sindicato dos Jornalistas com certeza tem aqueles panfletos da época convocando pro buzinaço. P/1 – E como é que a cidade e a militância reagiram à decretação de medidas de emergência nesse mesmo ano, em 1984? R - As medidas de emergência na verdade, usando uma expressão de hoje, foram um tiro no pé da ditadura, porque algumas atitudes de confronto, algumas atitudes de militância mais acirradas, em geral, começam com grupos de vanguarda. Quando você tem um nível de repressão muito forte que foge a qualquer tipo de questão razoável, de impedir o direito à manifestação. Então aí nós tivemos aqui uma cena muito... pra mostrar o ridículo do que era um general de uma ditadura militar em fim de festa, que era o General Milton Cruz que trabalhava aí num prédio do Estado Maior das Forças Armadas, alguma coisa assim, na Esplanada dos Ministérios e em num desses, não sei se no dia deste buzinaço, ou em alguma outra manifestação daquele período, ele saí de dentro do prédio do Exército com chicote, chicote de chicotear cavalo e começa a chicotear os carros, o ridículo de um general em fim de uma Ditadura em fim de festa, né? Chicoteando os carros, né? P/1 – Isso foi fotografado? R - Isso foi fotografado, isso é uma coisa que ficou. Eu me recordo muito, eu já disse no início do depoimento que ao mesmo tempo que era sindicalista, funcionário do Banco do Brasil, sindicalista e dirigente bancário eu era estudante da Universidade de Brasília. E nós tínhamos e tivemos naquela época greve dos estudantes, greve dos professores, e me lembro de uma manifestação no período das medidas de emergência em que nós tínhamos uma manifestação, uma assembleia, um local histórico, além de outros que eu citei aqui de manifestação, que acho que foi um lugar importante. Até muito recentemente levei meus dois filhinhos lá de três anos e dez anos no Teatro de Arena da Universidade de Brasília, onde se realizavam as assembleias estudantis. Nós saímos em passeata dali, passamos por dentro da Universidade e fomos caminhando pelo campus, até que na saída do campus houve uma assembleia dos professores, que segundo estes, parece que é fato, tinha decidido que iam fazer uma passeata no campus, e os estudantes estavam radicalizando e saindo com a passeata de dentro do campus. O fato é que saímos com a passeata de dentro do campus, e adentramos a L2-Norte e não deu outra: entramos segurando o fluxo de veículos da W3 e aquilo começou a encher, era meio-dia, meio-dia e meia, horário de almoço e aquilo deu um volume. E aí nós estamos ali cantando tal, fazendo a manifestação travando o trânsito e aí desce polícia do Exército, batalhão de choque, tudo, e eles já descem com a sirene ligada e bomba de gás lacrimogêneo e a coisa não foi amigável. E teve um fato muito interessante: uma companheira da Medicina, da Universidade de Brasília, que era até militante do grupo da Convergência Socialista, tinha um problema nas pernas, ela caminhava sempre com o uso de muletas, e na hora que eles chegaram e botaram tudo pra correr nós nos afugentamos dentro do campus, dentro de uma escola pública próxima e correu gente pra tudo quanto é lado, e eu tava bem próximo e me lembro bem, alguém saiu carregando ela no colo e a muleta dela foi presa incomunicável, durante vários dias a muleta ficou presa incomunicável! Se a gente procurar nos jornais daquela época a gente acha ridículo, parece que na época o presidente da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], o Maurício Corrêa, é que conseguiu ir lá e libertar a muleta. Então isso são folclores da ditadura. P/1 – Pois é, afinal de contas acabou saindo pela porta dos fundos do Palácio do Planalto, né, tem até quadro. Como é que se deu esse processo, quer dizer, nós estamos vivendo um momento de absoluta decadência da ditadura, a anistia já tinha sido decretada, o movimento social crescendo, quer dizer, a campanha das Diretas-Já começa a ganhar as ruas. Há , digamos, a grande frustração da medida Dante de Oliveira, mas ao mesmo tempo a mobilização já existia. Quer dizer, aí há o refluxo não tinha mais como haver, havia sempre um processo de crescimento. Como é que tudo isso se dá aqui em Brasília? Quer dizer, porque eu volto a ressaltar, trata-se de um universo muito particular: a capital federal da República, uma área de segurança nacional sem representação política, e ao mesmo tempo um movimento social bastante ativo. R – Se nós estabelecermos os comparativos: é a primeira vez em que Brasília tem uma relevância no contexto nacional que tem uma expressão de massa, porque se nós formos retornar à época de 1960, Brasília em termos de população, de expressão popular era muito restrita, ainda que neste período tenham acontecido importantes greves operárias aqui. Mas em termos comparativos de expressão de números de trabalhadores, de setores médios mais conscientes e que se expressavam politicamente esse é um período importante porque nós tínhamos as ações Brasil afora e em algum momento os dirigentes dos partidos, os sindicalistas... (pausa) [15min38s – ENTREVISTA PERDEU O SOM – 15min50s] ...política, e aí a presença massiva dependia de um nível de mobilização do movimento social do Distrito Federal. Por exemplo, no dia votação da emenda, aí se não me falha a memória dia 25 de abril de 1984, a Esplanada dos Ministérios ficou tomada de pessoas, né, tomada de pessoas, foi uma presença de gente de vários pontos do país, uma presença muito grande da base organizada, das entidades, e muito particularmente do movimento sindical. Então na verdade quando o país retoma, creio eu que talvez seja, esse nível de participação popular política partidária pela primeira vez isso tem grande nível de importância em Brasília. E as coisas têm uma sincronicidade, e elas acontecem em função ... (pausa) [16min54s – ENTREVISTA PERDEU O SOM 17min10s] ... Obras da Ditadura pra continuar arrochando o salário dos trabalhadores, e nós tínhamos uma cidade onde, pelo aumento do tamanho da cidade um conjunto de questões se colocavam como pauta de reivindicação: é a educação, é o transporte, é a moradia, é a saúde e tudo isso vai fazer com que as entidades tenham um nível de mobilização que contribuiu para que essa pauta da representação política, que eu queria ressaltar isso tendo dito já ainda pouco. No momento em que você tem alguns pontos de unidade de segmentos que, neste caso, toda a esquerda, e segmentos ao centro e liberais adotam, esses momentos de unidade de políticas às vezes geram uma possibilidade de mobilização muito mais forte de quando está só uma categoria econômica reivindicando o seu salário, ou só segmentos que por ter uma pauta política mais avançada não conseguem gerar unidade e mobilização porque às vezes o nível de percepção de segmentos da sociedade não aderem àquela pauta. P/1 – Mas de todo o modo foram ali dadas as condições objetivas para que no processo da Constituinte a representação no Brasil se tornasse uma realidade. R – O que nós tivemos naquele período, nós tínhamos durante o período útil aí, antes da votação da emenda Dante de Oliveira, debates nas universidades, todas as universidades, mesmo em algumas particulares que até então tinham participações muito frágeis. Então nós tínhamos debate nos sindicatos, debates nas universidades, debates. Isso gera um nível de participação e de autopercepção da nossa realidade, muito forte. E nós sabemos que tudo isso gera o quê? Tudo isso é escola, escola política, isso faz com que nas entidades empresariais, estudantis, sindicais se produzam um nível de participação e de capacidade de liderança que só a luta política de massa faz. P/1 – No caso de Brasília isso conseguiu unir setores muito amplos da sociedade local. R – Nós temos, né, uma participação importante da Associação Comercial, e de outros segmentos, nós temos a participação importante da OAB, mas da OAB como instituição e de um conjunto de advogados, militantes que depois ocuparam cargos importante da República. Nós tivemos a direção sindical, a direção dos partidos políticos, que como eu disse antes, eles não existiam formalmente, e de fato eles existiam, né, e o movimento popular representando aquilo que foi o crescimento de Brasília e essa demanda. Então nós tínhamos plenárias, já não mais intersindicais, mas plenárias da Frente de Entidades que quando chegava uma proposta de mobilização tinha ali centenas de militantes das diversas áreas a trabalhar em torno desse assunto. Assunto que tava na mídia nacional, como os grandes comícios das Diretas, né? E no centro de tudo isso uma percepção nossa de que morávamos em Brasília: da importância da autonomia e da representação política. P/1 – É curioso isso porque a uma situação especial respondeu-se com uma mobilização especial. Esse tipo de articulação eu acho que só teve esse caráter massivo aqui no Distrito Federal, né? R - Nós tivemos essa situação aqui no Distrito Federal, os comícios das Diretas Brasil afora, que esses comícios em todo o Brasil eles foram bastante representativos em termos de participação. É aquilo que eu disse antes: em alguns momentos Brasília era uma caixa de ressonância do que acontecia em outros lugares do país. Tanto que na sequência de tudo isso uma coisa somando pra alavancar as outras, em termos de processo político, nós vamos ter em 1985, já dentro do governo Sarney, na chamada Nova República, um nível de participação política, sindical e de mobilização muito forte. Em Brasília ocorreu a primeira greve da Nova República, que foi a greve dos rodoviários de Brasília em 1985, foi não sei se primeiro de abril, ou primeiro de maio, acho que primeiro de abril a primeira greve da Nova República, quando esse novo regime, chegou houve uma tentativa de consenso em torno do que a época se chamou pacto social, em que havia que esperar, né? E não havia esse consenso. Muita gente achava que os trabalhadores iam se fazer presentes na cena, inclusive aqueles que em todo o período não concordaram definitivamente com a discussão da sucessão de fim da ditadura via colégio eleitoral, aquilo era uma luta contínua, ela não parou. Então, eu estou tentando seguir um raciocínio de continuidade que mostrou nos anos seguintes que o movimento popular de Brasília, foi um movimento sindical – Brasília é uma cidade pequena, Brasília é uma cidade de uma economia que não tem relevância no contexto das grandes economias do país – nós tivemos aqui um nível de participação dos vários sindicatos nas greves gerais que aconteceram aí nos anos de 1985, 1986, 1987, né, e o conjunto de sindicatos que, isso é um processo nacional, mas em Brasília foi bastante marcante de retomada dos sindicatos por dirigentes vinculados nitidamente à esquerda, aos dois partidos comunistas e ao PT, e a segmentos nitidamente mais à esquerda. Todas as chapas para os sindicatos que se pautaram nos programas sindicais daquela época: pela autonomia e representação política do Distrito Federal. P/1 – O que que provocou o chamado “Badernaço” de 1986? O que provocou esse movimento? R - O “Badernaço” ele está no contexto de reação a um dos pacotes que aqui agora não estou precisando exatamente qual deles, mas também está amplamente registrado na mídia. Então como decorrência do pacote um processo de mobilização das centrais sindicais, e particularmente da CUT, havia um grande número de sindicatos vinculados à CUT, que tinham, portanto, uma política mais agressiva, mais combativa do que alguns outros sindicatos, muitas vezes dirigidos por segmentos de esquerda. Mas tinham uma postura um pouco mais acuada, não achavam que era o momento, algumas coisas não era o momento. E o “Badernaço”, na verdade, quando houve o pacote houve uma reação liderada por um conjunto de sindicatos, mas o Sindicato dos Professores cumpriu um papel particular nessa rapidez na reação ao pacote, e aí setores, uma coisa que não ficou 100% esclarecida até hoje, mas pra nós que militávamos a época ficou muito claro, né? Houve uma infiltração de segmentos de inteligência das Forças Armadas, das Forças Policiais, e que aproveitaram o processo de mobilização, porque ali mais uma vez houve um chamado dos sindicatos para manifestação naquele horário, e muitas das vezes as manifestações se concentravam primeiramente na rodoviária, e depois saíam em carreata ou passeata pela Esplanada. Também isso os documentos dos sindicatos registram, né, no momento em que havia a concentração pra manifestação aconteceu o que ficou sendo chamado por “Badernaço”. Claramente uma atitude provocativa de segmentos que queriam dar uma conotação de baderna, por isso que, inclusive, foi a imprensa que criou essa denominação “Badernaço”. A denominação tenta demonstrar que havia um nível de baderna no processo de luta política dos trabalhadores, o que não era a prática, o que não era a prática naquela época. Confronto em muitos momentos acontecem, porque é uma reação à violência que veio de lá pra cá, em geral no mundo inteiro a luta dos trabalhadores sempre foi reprimida. P/1 – É importante essa, na prática, unanimidade em torno da bandeira pela autonomia, né, que vai se refletir num ponto de união entre correntes diferenciadas dentro do movimento social. e como é que isso desemboca na escolha dos representantes pra Constituinte em 1986, na eleição de 1986? R – Nós tínhamos esse processo de representação política e de organização partidária, por motivos óbvios, muito recente, né? Então quando nós temos a (pausa) (FIM DA SEGUNDA FAIXA) P/1 – Retomando a pergunta que você começou a responder, eu pensava, eu dizia a você que se vivia aqui um momento muito interessante pelo fato de ter diversas entidades, diversos movimentos unanimemente, digamos, focados nas lutas específicas, mas também numa luta comum maior que era da autonomia. Como é que isso desemboca, em 1986, na escolha dos representantes do Distrito Federal na Constituinte? R – A participação em torno do tema da autonomia, da representação política do Distrito Federal de fato gerou um nível de unidade de plataforma política bastante importante. Então nós tínhamos, como já havia afirmado antes, uma participação dos trabalhadores, de maneira geral, através dos sindicatos, do empresariado, das entidades empresariais, dos estudantes, universitários em particular, mas também dos estudantes secundaristas. E se nós formos ver a composição da Câmara Federal, porque em Brasília nós primeiro tivemos a eleição para os representantes na Câmara e no Senado, em 1986, mas foi só em 1990 que nós vamos ter a eleição da Câmara Distrital. Mas vamos ver a composição ao longo dos dois, três primeiros mandatos, particularmente a representação da Câmara Federal e do Senado, nós vamos ver que tem um nível de representação de segmentos diferentes da sociedade: Geraldo Campos e Augusto Carvalho eram lideranças que vinham de representação dos trabalhadores. Geraldo Campos foi durante muitos anos líder dos servidores públicos, Augusto Carvalho líder de uma categoria com uma certa expressão numérica, e um certo poder de formação de opinião que eram os bancários, Sigmaringa Seixas um advogado muito presente na representação institucional dos advogados na OAB e na luta pelos Direitos Humanos, na defesa. Sigmaringa foi advogado dos estudantes presos e expulsos da Universidade. Nós vamos ter a presença, obviamente, daquelas pessoas que estavam na estrutura do aparelho de Estado como administradores públicos, o caso da Maria de Lourdes Abadia, empresários, né, como Francisco Aguiar Carneiro parece que foi da primeira gestão, né? No Senado uma coisa que acontece Brasil afora com muita frequência, né, Meira Filho que era um radialista de programas populares. Nós tivemos Mauricio Correia líder que ficou muito em evidência na condição de... Maurício Corrêa na verdade foi um nome que tinha forte presença na mídia como presidente da Ordem dos Advogados do período das medidas de emergência. O nosso senador jornalista Pompeu de Souza, um tipo da classe média, de setores que os jornalistas foram, não o Sindicato dos Jornalistas, mas os jornalistas como categoria profissional independente daqueles que não necessariamente tinham militância sindical, mas participação política importante, tudo nesse contexto desses anos precedentes da representação política. Isso vai se refletir na bancada, não lembrei o nome de todas, mas de quase todos, isso vai refletir na bancada. Eu falei de Maria de Lourdes Abadia, mas Valdir Campelo ele vinha de ser administrador regional de várias cidades satélites, né? Então os segmentos que se fizeram presentes nessa luta política e que estavam à frente como nomeados pelo governo do período até de então, tiveram a sua representação de volta. O que não era muito comum no Brasil até então passa a acontecer na década de 1980, nós só tínhamos isso antes do golpe, de representantes dos trabalhadores, lideranças sindicais, presidente de sindicato se elegerem para o Congresso Nacional. P/1 – No momento dessa eleição dos representantes de Brasília havia unanimidade entre a bancada em torno da autonomia política, né? Quer dizer, todo o processo da Constituinte foi também visando a conquista da autonomia política, confere? R - Com certeza. A unidade política que existia nos setores sociais, nos partidos políticos, ela se expressou, né? Eu não tenho notícia de qualquer um dos parlamentares à época tivessem, com certeza todos eles defendiam essa bandeira. P/1 – Certo. Quer dizer, aí foi, digamos, o grande passo pra que a Constituição de 1988 contemplasse a ideia de autonomia política do Distrito Federal. R – Sem dúvida. Até porque aquilo que não é difícil de se concluir é uma anomalia. Era uma anomalia ter uma parcela dos brasileiros que não tinham os mesmos direitos de que brasileiros de outros lugares. Então era assim meio insustentável que isso não tivesse trânsito na Assembleia Constituinte. P/1 – É o que o Tancredo chamava de cidade cassada, né? R – É. P/1 – Bom, com a conquista da autonomia o que é que isso, mais imediatamente, mudou na vida dos cidadãos e cidadãs dessa cidade, desse distrito? R – Eu acho que os setores organizados conseguiram se fazer representar politicamente, eleger pessoas a eles vinculados, e tiveram espaço de debate, de apresentação das reivindicações. Eu já estive na administração pública e às vezes seria muito enfadonho aqui elencar. Mas vamos falar de alguns grandes interesses. Interesse imobiliário, como é que se administra uma cidade onde todo o poder de decisão do plano diretor da cota dos edifícios, se eles têm X ou Y andares, tudo isso na mão de um só poder? Há uma discussão que aí transcende à questão da autonomia do Legislativo, do papel do Legislativo, da força do Legislativo. Agora, discussão nem haveria se tudo tivesse na mão do Poder Executivo. Aí não é questão de eu gostar ou não gostar, em termos ideológicos, filosóficos, é o modelo que nós temos é um modelo tradicional da democracia burguesa dos três poderes, né, e onde não há um dos poderes você peca desde o início. Aquilo que seria de um dos poderes passa a se concentrar em algum deles. Obviamente no executivo. E com certeza uma comissão do Senado Federal não conseguiria ser espaço de debate do conjunto de coisas que uma cidade tem, uma cidade que naquele momento já deveria ter aí um milhão e alguma coisa de habitantes. Então não se justifica, né, que você não tenha. O que foi que isso trouxe pra vida do cidadão, né? Eu acho que ficou um pouco mais aberto, um pouco mais transparente como um conjunto de interesses que por natureza na sociedade são controversos, às vezes antagônicos, eles vão se fazer presentes num espaço que tem as suas regras. Eu posso não concordar, mas ele tem lá suas regras, né, ele existe. Então você tem pra onde direcionar as questões do reajuste da passagem de ônibus, da concessão, da fiscalização e mesmo do poder de denúncia, o Legislativo, se quiser, tem como fazer fiscalização de acompanhamento das ações do poder executivo. Eu acho que a cidade ganhou isso. Agora, se eu for fazer uma avaliação das bancadas diante da minha visão político partidária, da minha visão de como a sociedade funciona, aí eu estou falando de outra coisa, né? P/1 – Tá certo. De todo modo, trazendo mais pro seu plano pessoal, você acabou tendo uma experiência na administração pública como um administrador da Samambaia, não é? Quer dizer, aí você, o militante político que se imbuiu de uma responsabilidade, digamos, mais concreta, ali no tratamento com as pessoas, como é que foi isso? R - Por exemplo, essa é uma questão emblemática e às vezes polêmica na vida, na história de Brasília. Não sei se recupero os números corretos, mas, se me recordo, foi o seguinte: alguém disse que esta cidade, ou melhor, somos ou não somos uma sociedade? Mas o Distrito Federal foi planejado pra ter 500 mil habitantes. Em algum momento da década de 1980 um governador que não era eleito, que não tinha Câmara pra aprovar o seu orçamento e as suas leis, decidiu pôr um incremento numa política de doação de lotes, circunstância única no país, por que que eu digo única? Porque se nós formos a qualquer outro estado do território, qualquer outra unidade do território você não tem a maior imobiliária pública do Estado de São Paulo, a maior imobiliária dos estados dos 26 entes da Federação, unidades da Federação, em nenhuma delas a maior imobiliária é pública. Joaquim Roriz resolveu distribuir, parece que inicialmente distribuiu 35 mil lotes, se isso tivesse que passar pela Câmara Legislativa o que que aconteceria? Não sei, poderia ter passado. Mas mudou, de certa forma, a história da cidade. Brasília acabou por se transformar na década de 1980 e 1990 num dos três ou quatro centros de migração do país. E, talvez em algum momento, até ser o segundo centro de migração do país. Isso mudou, né, isso mudou a história da cidade, uma cidade que, em tese, foi programada para ter 500 mil habitantes, que já se aproximava a ultrapassar um milhão. Hoje nós temos um entorno de quatro milhões de pessoas. Então eu não afirmo que isso seria diferente se a Câmara Legislativa tivesse sido criada no início dos anos 1980, mas pelo menos, com certeza, esse é um assunto que teria sido fortemente discutido, porque foi a política. Ao mesmo tempo, o ex-ministro do STF [Superior Tribunal Federal] cassado pelo regime militar, Victor Nunes Leal, escreveu um livro chamado Coronelismo, Enxada e Voto, durante muitos anos eu dizia que aqui nós tínhamos coronelismo, lote e voto, né? Então assim, dá uma conversa de muitas horas. Por que é que isso foi feito assim? Que tinha de aprovação de um plano diretor e de uma política que fosse mais amplamente discutida, se era isso que deveria ter sido feito? Na verdade, tinham direito os brasileiros que para aqui vieram à moradia e habitação, mas só aqui o estado tinha o poder e isso na mão totalmente do poder Executivo. O Poder Executivo decidiu iniciar aqui um processo que nas políticas habitacionais, nos processos de mais amplo acesso à moradia no resto do país não tem esse negócio onde o estado dá o lote. P/1 – E aqui foi feito sem mediação e sem discussão. Bom, de todo modo a sua experiência na Samambaia foi, digamos, “osso duro de roer” porque ali era um problema grave, uma das ocupações mais ostensivas, digamos, dessa política que você acaba de relatar. R – A cidade de Samambaia, a região administrativa é... Samambaia tem uma parte do projeto que era uma expansão de Taguatinga bem limitada, ainda no governo Zé Aparecido, e depois é que vem essa experiência que talvez quintuplique o tamanho de Samambaia no governo Joaquim Roriz. Quando eu falo coronelismo, lote e voto, porque esse tipo de ação muito fisiológica, paternalista reproduz o que há de pior em termos de herança cultural da prática política do Brasil, é uma coisa que retroage ao Brasil colônia, né, o capitão donatário é dono de tudo e ele decide. Então, por exemplo, nós tínhamos os escândalos que houve aí no ICS de contratação, os contratados da Nova CAP. Eu quando cheguei na administração de Samambaia tinha uma lista de quase 400 pessoas que recebiam e não trabalhavam, eram as tais lideranças contratadas pelo contratado da Nova CAP, como pedreiro, como marceneiro. Eu me lembro de um com quem, como ele tinha sido candidato a deputado, tinha tido mil e poucos votos e ele achava que era uma liderança que tinha força. Com todo respeito pelos votos, e por tudo, a situação concreta é que ele era contratado como pedreiro e ele me dizia que eu estava querendo humilhá-lo porque eu tinha dado ordem pro diretor da divisão de obras que pra chamar as pessoas e fazê-las trabalhar segundo a ocupação em que eles estavam contratadas, ou o cara dizia que não queria trabalhar, nós íamos devolver para a Nova CAP para demissão. E aí ele me procurou e disse que eu tava querendo humilhá-lo, que eu queria fazê-lo trabalhar como pedreiro. Eu falei: “Tá lá escrito, você está contratado como pedreiro, né?” Mas aí... P/1 – Mas isso dá bem a exata ideia desse tipo de política clientelista, né, que... R – Assim, nós temos situações, né? A cidade do Rio de Janeiro, a Guanabara, o estado da Guanabara por alguns anos se caracterizou como um espaço de posicionamento político, né, de organização social, operária. Então assim, a capital da República tem algumas características que podem fazer dela um espaço de qualidade política melhor. Sempre achei um absurdo nós termos na capital da República esse tipo de prática, ela é absurda em qualquer lugar, mas na capital da República onde o estado é dono da maior imobiliária da região., é pior. P/1 – Isso não cria uma deformação na própria ideia da representação política? Isto é, qual a avaliação que você faz hoje da representação política do DF, havia esse novo eleitorado que acaba surgindo com essa farta distribuição de terras, com essa política, digamos, mais paternalista? R – Esse é um processo nacional, né, o baixo acesso das classes populares, principalmente à educação, o alto grau de concentração nas mãos de alguns poucos grupos normalmente vinculados a interesses políticos dos meios de comunicação, acho que são as duas matrizes que originam esse nível de baixa qualidade política que nós temos Brasil afora, né? Então a manipulação dos meios de comunicação e a utilização deles pros interesses de classe, pros interesses econômicos, pros interesses daquele segmento que é dono dos meios de comunicação. E o baixo acesso das classes mais populares à educação constrói uma ampla massa de pessoas no país que são massa de manobra de políticas fisiológicas. Até não entro no mérito da composição da Câmara Legislativa porque é reflexo, né, é reflexo naturalmente, que aí você... E eu acho que isso tem avançado no Brasil nos últimos anos, assim, mais cobrança, mais denuncia, mais visibilidade da corrupção como um fato de que hoje tá mais exposta. Uma evolução nas estruturas de controle do estado pra dar visibilidade a denúncias, o acompanhamento daquilo que é a gestão do Estado. Agora, tem uma série de coisas que a gente nunca pode esquecer: nós viemos de uma sociedade extremamente conservadora, filha de 400 anos de monocultura, latifúndio e escravidão, entramos no século XX com não mais que 15, 20 anos de surgimento de uma opinião pública de setores médios urbanos e fomos atropelados. A Revolução de 1930, dentro dela vem as manobras autoritárias de Getúlio Vargas e o que transformou o regime numa ditadura, um período liberal e logo em seguida uma ditadura. Então assim, né, a nossa história não podia produzir muitas outras coisas, porque por mais que estes anos após o fim da ditadura, marcando isso como 1985, nós temos agora um período em que mal ou bem nós temos um processo que você vai acumulando experiência. Não tenho dúvidas que aquilo que foi feito naqueles dez, quinze, vinte anos, principalmente depois que o regime militar já não tinha tanto controle da sociedade no final da década de 1970, foi uma política acertada pra buscar, ter uma estrutura de funcionamento da sociedade mais democrática, mais justa. Agora... P/1 – Eu não vou lhe pedir nenhum exercício de futurologia. Mas com toda essa experiência acumulada, essa história que você viveu e protagonizou, como é que você enxerga no futuro? Quer dizer, o que que tá posto no horizonte de Brasília e do Distrito Federal? R - Eu acho que o Distrito Federal cada vez mais é um centro importante, um dos centros do país. no último censo nós nos transformamos no terceiro maior pólo populacional do país, São Paulo, Rio e o Distrito Federal, nós ultrapassamos Belo Horizonte, região metropolitana da capital de Minas Gerais. Do ponto de vista populacional, do ponto de vista da renda, que não é só atividade do setor público, mas o setor público ainda tem importância, mas já tem uma atividade econômica que gira em torno, inclusive, da prestação de serviço pra condição de capital que o Distrito Federal tem, né? Então assim, Brasília já não é mais a sede da burocracia que não tem qualquer outro tipo de importância. Do ponto de vista do eixo do trânsito aéreo do país, Brasília, já há muitos anos, ganha importância. Acho que hoje, se Carlos Lacerda estivesse vivo talvez não discordasse mais, né, que JK estava certo. O país ganhou com Brasília. P/1 – A ocupação do Centro-Oeste. R - A ocupação do território brasileiro e um vetor. Então essa região com a abrangência que vai a Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Bahia você tem um centro, eu não sei se esta região do Triângulo Mineiro, essa região aqui do Alto Paranaíba, toda a região Sul, Centro Sudoeste de Goiás com certeza não teria a importância econômica, demografica, política que tem se a capital federal não tivesse aqui, entendeu? Brasília é um dos fenômenos do crescimento brasileiro, não tem dúvida, entendeu? Não tem como você questionar isso. Então cada vez mais a cidade vai ganhar importância, e ganhou importância no contexto do papel dela de capital federal. Era muito comum anos atrás, e ainda hoje acontece isso, e às vezes é desconhecimento, ou um preconceito contra a política – quem tem todo o direito de ter – você olha Brasília: é a terra dos corruptos! Brasília tem um enorme contingente de pessoas que moram aqui, não vivem da política, não se relacionam com a política, não se informam da política, e não tem qualquer vínculo da sua vida com a política com o fato da cidade ser capital federal. Tem muita gente que mora em Taguatinga, que é uma grande cidade, que passa meses e meses sem vir aqui, e nada tem às vezes com a nossa condição de capital federal, entendeu? P/1 – A sociedade tornou-se mais complexa. R – Muito mais complexa, e muito mais. Brasília é um grande centro de prestação de serviço na área da saúde pra milhões de brasileiros, milhões. Com certeza deve haver dados sobre isso, né? Quantos milhões de brasileiras nos Estados circunvizinhos têm Brasília, como polo de saúde, educação, cultura e toda a importância que o Distrito Federal tem, que o Centro-Oeste tem na área do agronegócio tem Brasília uma... Tanto que está neste momento em discussão, né, a discussão de um aeroporto exclusivamente pra cargas. Então assim, é um centro econômico de logística, né? P/1 – Sim sim, pela própria localização, né? Pra encerrar eu queria que você, por favor, fizesse uma avaliação, digamos, mais focada nesse nosso trabalho. Como é que você avalia esse esforço de recuperação da História da Autonomia Política de Brasília, do Distrito Federal? Que importância tem isso? R - Eu acredito que a História política da fundação da cidade tá registrada. Por que é que eu julgo importante o registro? Registro inclusive na sistematização de informações, na coleta de depoimentos, na seleção de documentos. Pra você formar um acervo, além de tantos outros que porventura estejam formando, mas sem direcionar aí pra esse foco, pra que você possa ter uma material que possa ser material de pesquisa pro futuro, né? Eu estou com 54 anos, convivi com a geração de pessoas 20 anos mais velha que eu, 30, 25. Pessoas que estão com 70, 80 anos. Então a importância de fazer esse trabalho, neste momento, do ponto de vista histórico talvez seja um pouco cedo. O trabalho, creio eu, que também não terá um fôlego tão grande a ponto de construir uma série tão grande de interpretações. Mas além daquilo que ele conseguir desenvolver, em termos interpretativos, vai ser uma importante fonte de... Nós vamos armazenar aquilo que nós teremos aqui de história oral, de depoimento e de interpretações dos próprios líderes, das pessoas que virão aqui dar depoimento. Além do próprio trabalho de vocês, porque a escolha de alguns temas é em si uma forma de interpretação, a escolha de alguns fatos, de alguns depoimentos é em si uma forma de interpretação. Tudo isso acho que vai colaborar para que nos próximos aí 20, 30, 50 anos esse trabalho seja uma fonte de pesquisa e roteiro para pesquisa em outras fontes onde aqui hoje nós estamos. E eu acho que também tem um outro aspecto, além desses que eu já disse: ele vai valorizar a existência de alguns acervos, e alguns arquivos que são às vezes institucionais, e outros pessoais e servir para uma reflexão sobre a vida da cidade dentro da limitação que nós temos aqui, né, espero que ao final com os produtos que vão estar consolidando o trabalho a gente possa, também produzir uma atividade onde as pessoas possam se rever, se reencontrar, nós temos pessoas que fizeram algumas coisas interessantes e importantes há 30 anos, que hoje em dia não se encontram. Brasília não é mais a cidade de até meados da década de 1980, Brasília é uma cidade muito grande hoje e que você já não encontra mais as pessoas por acaso, você não tem mais aqueles quatro ou cinco bares, ou dois ou três cinemas onde as pessoas se encontravam, né? Você raramente se encontra por acaso a cidade ficou bastante grande. P/1 – É o que a gente espera com essa memória última, exatamente contribuir para que esse futuro seja melhor aqui, né? E o que lhe pareceu que você achou de ter dado esse depoimento pra nós? Como é que você se sentiu? R – Não só a condição de militante que veio para cidade, ficou na cidade, construiu sua vida na cidade. Mas eu tenho um viés pelo meu não exercício da profissão de historiador, tendo sido formado em História na Universidade, eu tenho muito interesse pelas coisas, tenho costume pela leitura, tenho costume pelas informações históricas de qualquer cidade que eu vou procurar ler, conhecer, saber as coisas. Então, além de revisitar a memória, esse gosto por saber que uma série de informações, que podem estar perdidas na memória das pessoas, vão estar presentes a partir deste trabalho. P/1 – E você pode ter certeza de que nos ajudou bastante, que a tua memória está afiadíssima, você está contando as histórias como se tivesse ocorrido anteontem. Muito obrigado pelo seu depoimento. R – Ok, eu que agradeço, um abraço. P/1 – Muito obrigado. --FIM DA ENTREVISTA--
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