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História

A mudança que há em nós

História de: Eliane Souza Silva
Autor:
Publicado em: 12/01/2021

Sinopse

Entrevista de Eliane Souza Silva. Infância em Serra Branca. Mudança para o Rio de Janeiro. Igreja e Escola. Problemática da pobreza. Percurso escolar. Ingresso na faculdade. Militância. Trabalho da Fiocruz. Paulo Freire. Associação de Moradores da Maré. Concepção do Centro de Estudos e Ação Solidária da Maré. Prêmio Claudia. Parceria Petrobras. Jornal Cidadão. Trabalho. Doutorado. Família. Memória da Petrobras.

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História completa

P/1 – Bom dia!

Queria saber o seu nome completo, local e data de nascimento?


R – Meu nome é Eliana Souza Silva, ai esqueci o que você perguntou.


P/1 – Local e data de nascimento, não tem problema. [risos]


R – Então volta tudo é isso?


P/1 – Pode começar de novo se quiser, o nome completo, local e data de nascimento.


R – Meu nome é Eliana Souza Silva, eu nasci em Serra Branca na Paraíba, no dia 21 de julho de 1962.


P/1 – O nome dos seus pais e a atividade profissional que eles exerciam?


R – O nome do meu pai é João Aleixo de Souza, ele era um pequeno comerciante. O nome da minha mãe é Maria Aleixo da Silva e ela trabalhava em casa como doméstica, só fazia serviços de casa.


P/1 – Recuperando um pouco da sua infância, você nasceu na Serra Branca, morou lá até que idade, como era a vida lá, o que moveu os seus pais a virem para o Rio? Fala um pouco.


R – Eu nasci em Serra Branca e fiquei lá até seis anos e meio, quando os meus pais resolveram vir para o Rio de Janeiro. Na verdade o meu pai veio primeiro, para trabalhar aqui, lá em Serra Branca ele era comerciante, vendia pequenas coisas, trabalhava em bar, mas quando ele veio para o Rio ele trabalhava em obra, como servente. Ele veio primeiro porque Serra Branca é uma cidade que é afetada pela seca do nordeste então as condições de vida lá são muito precárias. Ele veio numa perspectiva de conseguir trabalho aqui e minha mãe ficou lá. Quando foi no início da década de 1970, mais precisamente início mesmo de 1970, ele mandou buscar a família toda porque ele havia ficado doente e a minha mãe veio conosco; veio eu e mais cinco irmãos para cá, para Nova Holanda, que é uma das favelas da Maré.


P/1 – Nasceram todos em Serra Branca?


R – Exatamente. Nascemos todos em Serra Branca e viemos todos para cá, tinha uma irmã que era bebê ainda.


P/1 – Você é a mais velha, como é a irmandade?


R – Não, eu sou a terceira.


P/1 – A terceira.


R - Tenho um irmão, uma irmã e eu sou a terceira. Eu tenho um irmão e cinco irmãos, quatro irmãs  na verdade.


P/1 - Um irmão e...


R – Um irmão e quatro irmãs.


P/1 – Um irmão e quatro irmãs.

Como foi a chegada no Rio, na Nova Holanda, um ambiente muito diferente lá de Serra Branca? Você tem lembrança desse momento, da viagem?


R – A vida lá em Serra Branca apesar de ser uma vida difícil, por conta das condições de falta de trabalho, essa coisa da seca, não ter perspectiva, era uma vida que eu considero boa, no sentido que a casa que eu morava tinha espaço, meu avô tinha sítio, tinha essa coisa da área rural, de plantar, então era uma vida que eu tenho uma boa lembrança. Quando eu cheguei aqui, eu fiquei assim..., depois já adulta às vezes eu me lembro desse momento, que foi um momento meio traumático porque eu vim direto para Nova Holanda, meu pai havia comprado um barraco lá, onde ele tinha um irmão que morava, era um barraco todo de madeira, as condições muito ruins, precárias mesmo, muito pouco espaço. Uma coisa que eu lembro bem dessa situação de incômodo para mim  é que nós seis, os seis irmãos a gente dormia todo mundo numa cama de casal, num cômodo só, porque a casa tinha três cômodos e tinha na frente um "armarinhozinho" que ele fez; porque quando ele ficou doente  não pode mais trabalhar em obra e  abriu um armarinho lá.


P/1 – Foi acidente ou foi doença?


R – Não, ele contraiu úlcera, ficou muito nervoso. Então para mim a chegada aqui, a paisagem muito diferente, não foi uma coisa muito confortável, eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas eu via que as condições eram bem piores do que a que eu tinha lá, inclusive em termos de espaço, principalmente em termos de espaço, porque acabou que nós seis ficávamos muito presos, meu pai criou a gente de uma maneira muito rígida, presa, e lá em Serra Branca não, a gente andava na rua, brincava na rua. Aqui já não foi assim e fora que esse lado mesmo de dormir, de ir ao banheiro, de ir a cozinha, você não tinha esses compartimentos muito definidos e todo mundo ficava muito junto, então foi uma coisa meio que…. eu sinto que isso...


P/1 – Te marcou.


R – Me marcou essa diferença, né, porque vim para cá, um lugar pior, não entendi muito.


P/1 – Quer dizer na sua cabeça…?


R – Porque também ninguém explicava muito.


P/1 – E na sua cabeça de criança de seis anos, a sua vinda para o Sul, não significava uma melhoria de vida naquele momento?


R – Naquele momento eu não entendia o que estava acontecendo, criança, né, mas é uma coisa que me marcou. Fora que esse barraco era em frente a um posto policial, hoje não existe mais, muitas vezes a gente ouvia as pessoas apanhando, aquelas gritarias. Até é uma coisa que durante muito tempo...eu mudei tem nove anos da Maré, só tem nove anos, então quando eu me mudei para Niterói, muitas vezes eu acordava com aqueles...


P/1 – Isso te marcou muito então, foi um…?


R – Esse gemido das pessoas à noite apanhando.


P/1 – Isso lá nos anos 1970?


R – É, mas isso perdurou um tempo, essa coisa das pessoas apanharem. A gente via muita coisa porque a minha casa era de frente ao posto policial, era numa esquina, também não entendia o que acontecia ali, né, criança.


P/1 – Deixa eu te perguntar, a tua infância na Nova Holanda, você falou que veio aos seis anos, chegou ali no final dos anos 1960, comecinho dos anos 1970?


R – Isso.


P/1 – Ainda brincava-se muito na rua? Como era esse convívio com as pessoas da região, do local, apesar que você falou que o teu pai prendia um pouco mais.


R – Eu não tive, como criança, muito convívio na Nova Holanda. O convívio que eu fui ter naquele meio já foi a partir dos 14, 15 anos, porque meus pais frequentavam a Igreja Católica que não era nem lá na Nova Holanda, era numa outra favela do lado. Então a gente ia para a Igreja, participava do grupo de jovens da Igreja e ali se estabelecia algumas relações para além da Igreja, pessoas que moravam perto; mas a minha infância mesmo eu não tive muito convívio de brincar na rua, de sair, isso eu não tive. As minhas brincadeiras, as coisas que aconteciam nesse sentido era na escola, porque eu estudava na escola que também era em frente a minha casa, que era a Escola Municipal Nova Holanda. Meu pai, quando a gente veio, já tinha matriculado a gente na escola, então o meu contato com as pessoas da Nova Holanda na infância se deu muito por conta da escola e depois da Igreja Católica, mas na rua mesmo eu nunca tive, nem meus irmãos, esse convívio muito de brincar. A gente brincava muito em casa, entre nós, num espaço [risos] muito pequeno. Meu pai comprava muito gibi, ele era uma pessoa muito preocupada com a coisa da escola, então ele tentava suprir, tanto que ele comprou televisão logo que pôde, que naquela época não tinha muito, foi mesmo em casa. Levava a gente no Parque Xangai, que era um parque que tem na Penha aqui, levava a gente na praia, mas era muito com ele, não tinha convívio.


P/1 – Eliana, então você chegou, ingressou na escola aos seis anos mais ou menos...


R – É, ia fazer sete, porque faço aniversário no meio do ano.


P/1 – Como era a escola, você tem lembranças do cotidiano da própria escola, dos professores?


R – Eu tenho uma boa lembrança da escola.


P/1 – Fala um pouquinho disso para a gente, como era a escola? Era dentro de Nova Holanda, você falou que era em frente.


R – Era em frente, existe até hoje a escola do mesmo jeito que eu estudei. Eu tenho uma boa lembrança da escola, a escola foi importante, eu estabeleci algumas relações com professores lá e era uma escola, dentro dos limites - eu vejo hoje - que tem normalmente nas favelas, era uma escola até que boa, porque você tinha professores muito comprometidos, professores preocupados com essa questão da educação dos alunos. Era uma outra problemática a coisa da pobreza, do que é hoje, do que era na minha época, mas o meu convívio foi muito bom, eu sempre gostei de estudar então não tive muito [risos] problema em relação a isso. Eu tenho uma boa lembrança da escola e estabeleci muitas relações com professores na escola.


P/2 – Eliana, define para a gente melhor o que você chama dessa outra problemática da pobreza hoje e na época. Como é que você define, na época, pobreza então?


R – Hoje, os professores das escolas públicas…por exemplo, a Maré, hoje, tem 16 escolas; naquela época você tinha no máximo cinco, seis escolas, você hoje tem 16. E o que a gente percebe é que o professor hoje que vai dar aula na favela, de uma maneira geral, ele não tem muita opção, ele vai por uma questão muitas vezes de sobrevivência e de ter um emprego público. Então essa coisa do professor ser uma referência, ser um profissional importante na vida das crianças, isso é muito pouco visto e valorizado hoje, principalmente nesses lugares, nos espaços populares. Então o professor muitas vezes é um professor que não tem uma qualificação, que não conhece aquela realidade. Tem o contexto da violência, então ele vai com muito medo para lá, vai com medo das crianças, tem toda uma representação hoje desses lugares, das favelas, em que ali você tem potenciais marginais, então as pessoas já vão para a escola com esses estereótipos e a questão mais importante que é a questão pedagógica ou estímulo para aprendizagem dessas crianças isso fica em segundo plano, há uma supervalorização da realidade social, esse professor não está preparado para trabalhar com aquela realidade, com os problemas. Você tem crianças que moram sozinhas, você tem crianças que levantam sozinhas, vão para escola, não tomam banho, então o professor não está preparado muitas vezes.  Óbvio que tem professores que não têm esse perfil, mas na sua maioria a escola, hoje, não dá conta disso e aí a questão mais importante da escola, que é a questão pedagógica, fica em segundo plano e não se investe nessas crianças, não se estimula para que essas crianças de repente dêem o salto necessário. Na minha época, havia um investimento dos profissionais muito grande, por conta dessa característica da comunidade, hoje, a comunidade tem esse perfil da violência que acaba definindo tudo, inclusive as relações. E eu acho que muitos profissionais vão com essa visão posta na cidade inteira aqui do Rio em relação às favelas. Então quem mora ou é envolvido com o tráfico ou é uma pessoa potencialmente para se envolver. A gente vê que as crianças têm muito poucas oportunidades de se desenvolver, porque ela já está marcada ali com esses estereótipos. Então é diferente, há uma distorção, a pessoa ser pobre em relação a você ser marginal, tem um contexto muito complicado. Hoje, para se trabalhar, você tem uma escola que de fato cumpre o papel de educar e de desenvolver essas possibilidades de uma criança; a maioria das escolas, elas estão tomadas por essa visão, tanto que um professor que dá aula numa escola particular e esse mesmo professor dá aula numa escola pública ele tem uma postura diferente.


P/1 – E a escola de uma maneira geral, ela sofreu uma decadência muito grande na escola pública, dos anos 1970 para cá?


R – Mesmo que não se diga que é isso, mas é isso.


P/1 – [risos] De alguma maneira você se considera privilegiada de ter tido uma possibilidade de uma escola que te ofereceu uma gama de oportunidades? Pelo que você está falando, você acha que os seus estudos te influenciaram na escolha de fazer uma faculdade ou isso era uma pressão de casa, seguir estudando?


R – Tinha esse estímulo familiar, tanto que os meus irmãos todos estudaram também, fizeram universidade pública, todo mundo fez universidade pública, apesar de ter estudado, naquela época, o primário, o ginásio, o segundo grau numa escola pública.


P/2 – Foi na mesma escola?


R – Todos estudamos na mesma escola. Quer dizer, eu saí do primário para uma outra escola municipal, que era do outro lado da Avenida Brasil, que era a Clotilde Guimarães.  Depois no segundo grau fui para uma escola na Ilha do Governador chamado Prefeito Mendes de Moraes e meus irmãos o percurso foi o mesmo. Eu acho que tinha assim uma coisa familiar muito forte, que para mim foi determinante, e tinha um desejo meu, eu sempre gostei de estudar e eu acho que teve esses fatores da escola que ajudaram. Então eu acho que foi um conjunto de questões que favoreceram as redes onde eu me inseri. A própria Igreja, eu sempre recebi muito estímulo nesse sentido de estudar, então dificilmente eu não caminharia por esse caminho, mas eu acho que o fator mais determinante é a família. Tanto que o meu pai tinha esse armarinho e a forma da gente, enfim, sobreviver era que todo mundo trabalhasse lá. Então com 13 anos eu tinha carga horária de três horas, meus irmãos também. Então a gente dividia meio que o horário de trabalho ali e a escola.


P/1 – Aham. E aí você cursou o nível superior, qual foi o curso?


R – Eu fiz Letras, Português-Literaturas e depois mestrado.


P/1 – Fez direto mestrado?


R – Não, eu terminei em 1987, em 1990 que eu entrei para o mestrado.


P/1 – Também em Letras?


R – Não, Educação.


P/1 – Em termos de trabalho, a faculdade te abriu o campo de trabalho?


R – Abriu, dou aula de Redação, trabalho com Língua Portuguesa, trabalho em Redação, mas na verdade eu quis ser professora, não por conta da Língua Portuguesa, porque ela é maravilhosa, mas eu queria muito trabalhar.  Na época que eu escolhi essa carreira, primeiro eu queria ser professora porque eu já adolescente dava aula, já alfabetizava, eu me envolvi em vários projetos de educação de jovens e adultos: na Igreja, nas experiências comunitárias lá na Maré, então eu queria ser professora e depois essa coisa da língua, de você dominar a língua. Depois que eu tomei consciência um pouco da minha situação, da minha condição, da minha realidade, eu achava que era um instrumental importante para estar colocando a minha indignação [risos] em relação a situação que eu vivia, então foi muito uma coisa política, se a gente puder dizer assim, eu poder falar, eu poder escrever sobre essa realidade é uma coisa que eu vou estar dando uma contribuição para além de uma satisfação pessoal de ter uma profissão, então eu fui muito movida por isso. Estudar língua - ah eu quero saber me colocar, quero saber  mostrar a minha indignação, [risos] - e tinha esse desejo de trabalhar com Educação, dar aula, tanto que eu fiz mestrado de Educação, a motivação maior foi essa.


P/2 – Eliana, você formou o seu segundo grau e ingressou a faculdade logo em seguida?


R – Não, eu não fiz vestibular no ano que eu terminei. Aí eu consegui uma bolsa num pré-vestibular, era esse pré-vestibular que é conhecido, Bahiense, na Tijuca, através de uma pessoa que eu já conhecia, ela me falou desse curso na Tijuca, eu fui lá fiz aquelas provas e consegui uma bolsa lá, e eu fiz um ano de cursinho do Bahiense e passei no primeiro ano.


P/1 – Eliana, quando a militância e eventos sociais apareceu na sua vida, qual foi a tua primeira experiência?


R – O primeiro contato com essa realidade mais específica foi na Igreja, porque a Igreja fazia um trabalho de base, essa Igreja que meu pai frequentava. Então no grupo jovem a gente tinha algumas obrigações como: visitar famílias pobres, ajudar, fazer determinadas atividades para juntar alimento e eu participando disso eu fiquei responsável, junto com outras pessoas, de ajudar um determinado grupo da comunidade que era muito pobre, então a gente uma vez por mês tinha que ir lá nessa casa, conversar com a pessoa e dar esse alimento, enfim, só que aí eu fiz isso umas duas, três vezes, na quarta eu fiquei me perguntando: todo mês vir aqui, ficar olhando para essa coisa complicada, porque é uma casa muito pobre, é uma senhora que tinha sete filhos, que o marido tinha abandonado, e aquela situação dela não poder trabalhar porque as crianças eram pequenas, eu ficava me perguntando que sentido fazia eu ir lá uma vez por mês distribuir uma cesta de alimento para ela e os filhos não terem certidão de nascimento, não estarem na escola. Aí comecei a me envolver um pouco com a vida dela e falar: “Por que você não vai tirar certidão de nascimento”, aí eu comecei a ver onde é que tira, como é que tira, porque eu tinha, o quê: 16, 17 anos nesse período, aí comecei a ajudar nesse sentido, estabeleci uma relação maior do que essa coisa só da Igreja, de dar bolsa tal e questionava o padre qual o sentido disso. Essas pessoas deviam de alguma forma se inserir em alguma situação que pudesse melhorar a condição delas, só assistir não adiantava, acabei até saindo da Igreja depois por conta um pouco desses questionamentos, mas nesse período também chegaram alguns profissionais lá na Nova Holanda, eram profissionais da área de saúde, trabalhavam como sanitaristas, a coisa da saúde pública, eles eram da Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz], e eles foram para a Nova Holanda para fazer um trabalho num posto de saúde que existia e aí era uma equipe multidisciplinar, tinha sociólogo, tinha pedagogo, psicólogo, médico e em vez deles chegarem e estruturarem o trabalho, eles saíram procurando pessoas na comunidade para ajudá-los a pensar o projeto de educação lá e aí eles foram na Igreja, foram no Bloco, foram no campo de futebol, enfim saíram atrás.


P/1 – Bloco carnavalesco?


R – É. Mataram o meu Gato o nome do Bloco. [risos] Aí eles foram tentar pinçar pessoas que tinham alguma legitimidade, alguma liderança ali na comunidade, na Igreja eu e outros jovens fomos selecionados para participar desse projeto. A proposta depois que eles constituíram esse grupo, que eram os Agentes Comunitários de Saúde, como a gente foi denominado, o nosso primeiro trabalho é um trabalho de Conhecendo a Comunidade, inclusive foi o momento que eu me dei conta da comunidade, que era a comunidade, que era um trabalho assim, cada um de nós, como agente. A Nova Holanda tinha 33 ruas, estas ruas foram divididas, então eu tinha cinco ruas e tinha que ir de casa em casa perguntar, preencher um questionário: “O que você acha que falta aqui na comunidade”; “O que você acha que pode melhorar”, e além de preencher esse questionário no final do dia a gente convidava esses moradores para uma reunião, onde a gente falava sobre os projetos, sobre a questão do posto e as pessoas externavam o que elas pensavam. Para mim foi uma experiência muito marcante porque foi o momento em  que eu me dei conta um pouco da realidade mais coletiva, das dificuldades e foi muito importante. O projeto era Conhecendo a Comunidade, desse projeto a gente montou como seria o projeto desses profissionais, aí ficou muito claro a necessidade de um projeto na área de saúde, educação, e a questão da saúde ela era discutida de uma outra forma, o médico tinha uma outra postura. Como eu já tinha interesse pela educação eu fiquei nos projetos de educação; a gente fez um trabalho dentro da Escola Nova Holanda. A gente tinha lá turmas de cinco, seis anos, sete anos, as crianças não se alfabetizavam e aí a gente fez uma proposta à escola de trabalhar junto com esse professor, ter outras pessoas interagindo na sala de aula, moradores, como eu, profissionais e foi muito interessante porque foi aí que eu comecei a estudar um pouco essa questão da alfabetização. A gente se formou um pouco com esses profissionais, eles traziam muitas coisas, muitas questões e traziam cursos, conheci Paulo Freire nessa ocasião, conheci pessoalmente, fiz alguns cursos, a gente participou de um com o pessoal da Bahia que trabalhava há muitos anos com Paulo Freire, enfim, eu recebi uma formação muito boa em relação a essa questão da alfabetização. A gente conseguiu fazer um trabalho junto com a professora que alfabetizou essas crianças e aí o meu contato com a comunidade e um pouco o despertar de uma consciência se deu nesse momento.


P/1 – Que ano foi isso? 


R – Isso foi 1978, 1979, 1980, o trabalho acho que durou até 1982.


P/1 – Eliana, me diz uma coisa, pelo momento político mais geral foi um momento de criação das associações de moradores, você participou da criação da Associação de Moradores da Maré e esse grupo tinha também relação com essa criação? Conta um pouquinho isso.


R – Quando a gente está falando da Maré, Maré são 16 favelas, a Nova Holanda, que é a favela que eu fui morar, é uma delas, cada comunidade na Maré na ocasião tinha uma associação de moradores, porque a Maré era toda tomada pelas palafitas e houve um projeto grande na ocasião que tirou essas casas e criaram outras comunidades, por isso que a Maré hoje tem 16 comunidades, na realidade naquela época tinham seis comunidades.

A Maré em 20 anos cresceu de 6 para 16 comunidades.


P/1 – Nossa!


R – E no caso a Nova Holanda era um Centro de Habitação Provisória, que na década de 1960, servia para abrigar moradores da zona sul aqui do Rio de Janeiro em que eram removidas favelas, foi a época do governador Carlos Lacerda e essas pessoas eram removidas para Nova Holanda, assim como para outros Centros que tinham, Ramos, de Habitação Provisória e dali elas iriam para uma outra casa, na verdade era um centro de triagem, quem cuidava dessa passagem era a Fundação Leão XIII, então a Nova Holanda era administrada pela Fundação Leão XIII. E com o passar do tempo, a mudança de governador, essa política de remoção foi sendo esvaziada e um espaço que era para ser provisório virou permanente; na verdade a gente fala assim que a Nova Holanda é uma favela criada pelo governo.


P/1 – Esse nome tem algum significado?


R – O quê?


P/1 – Nova Holanda?


R – Tem várias histórias em relação a essa questão do nome: diz que o governador na época que estava fazendo o Centro de Habitação, ele viajou para a Holanda e lá na Holanda, casas de madeira, ele chegou olhou: "Essas casas são tão bonitinhas de madeira não é a Holanda, mas é uma Nova Holanda". São histórias que os moradores contam lá, porque na verdade Nova Holanda foi criada em 1962, exatamente o ano que eu nasci [risos] então eu não morava aqui ainda, mas são as histórias que os moradores contam. O que aconteceu, Nova Holanda por ser administrada pela Leão XIII,  demorou muito para ter associação de moradores porque a Leão XIII não deixava ter organização dos moradores, havia uma tutela em relação os moradores, era horário de chegada, horário de saída, uma coisa mesmo administrada pelo Estado e isso foi um dos problemas e foi uma das coisas que quando a gente foi para a Associação de Moradores a gente teve que acabar com isso, isso não poderia ser assim. Então a associação foi criada em final da década de 1970, início da década de 1980, o presidente foi um presidente aclamado, não foi eleito pela comunidade, foi muito por conta do Projeto Rio de retirada das palafitas e ele simplesmente não fazia nada, era uma pessoa ligada a Leão XIII, que tinha toda uma forma de atuar que não envolvia a comunidade. Então quando a gente trabalhou no posto as questões da comunidade isso ficou muito aflorado, porque os moradores reclamavam muito dessa falta de participação e dessa forma da associação atuar, que na verdade não atuava. Então quando já estava determinado tempo do trabalho do posto houve uma discussão entre o grupo que participava, e eu era uma dessas pessoas, de como que a gente poderia de alguma forma estar interferindo nesse trabalho da associação. E foi aí que a gente montou um grupo, eu fui num cartório peguei o estatuto da associação, comprei, vi que naquele ano, que era 1984, o mandato deste presidente ia acabar e foi justamente aí que a gente aproveitou esse momento para provocar uma eleição. Na época havia uma situação política favorável, o Brizola tinha assumido como governador, estava estimulando muito essa coisa das Associações de Moradores de uma maneira populista, mas no nosso caso foi uma coisa importante o apoio de alguns órgãos do governo contra a própria Leão XIII, para legitimar a nossa eleição e a gente constituiu um grupo, reuniu pessoas da Igreja, pessoas do Bloco, mais uma vez para ver como que a gente podia fazer isso e foi feita várias discussões e foi montada uma chapa, na montagem dessa chapa foi feito uma discussão de quem seria, cada cargo que teria e a gente fez uma eleição interna, nessa época eu ganhei, pelos meus colegas, para concorrer no cargo de presidente da Chapa Rosa, aquela chapa que tinham muitas mulheres.


P/1 – [risos]


R – Então foi assim, um processo que a gente foi de casa em casa, mais uma vez, isso foi em 1984. A eleição tinham quase 2 mil pessoas votando, as pessoas se inscreveram para votar e a gente ganhou de uma maneira bem...


P/1 – Quais eram os desafios no momento e se você puder registrar algumas mudanças ocorridas na época da sua gestão na frente da associação dos moradores?


R – Na verdade eu tive que começar do zero, porque a gente não tinha rede de esgoto, a que existia era muito precária e não atendia a toda a comunidade; a água que a gente tinha encanada era uma água também precária; a parte de energia, eletrificação, você tinha em condições muito precárias, porque os moradores não pagavam a Light e por conta disso muitas vezes a gente ficava dez dias sem..., porque estourava um transformador; você tinha metade ou mais dos barracos todos de madeira, em condições muito precárias, você tinha um aglomerado de casas chamadas duplex numa condição muito ruim, estava tombando para cair; você não tinha creche, a única coisa que você tinha era escola; você não tinha postos de saúde, então assim, na verdade a gente teve que...Nem tinha a sede da associação de moradores. A primeira luta nossa foi conquistar alguns espaços que existiam dentro da Nova Holanda, que abrigavam esses moradores que vinham removidos, que eram galpões enormes, que estavam fechados e a gente conseguiu um galpão para fazer a sede da Associação de Moradores; conseguiu depois um espaço para fazer a creche; então na verdade foi um momento de muita efervescência, a gente conseguia fazer muita assembléia, a gente tirou um representante de rua, que era uma pessoa que estava diretamente ligada à Associação de Moradores; a gente não tinha coleta de lixo, mas foi um período muito importante para essas conquistas de urbanização de infra-estrutura e a gente em três anos - porque o mandato era de cinco anos e eu propus que houvesse uma diminuição nesse mandato para três anos e que a gente pudesse estar renovando dentro de um processo mais participativo - a gente conseguiu a questão da água e do esgoto na ocasião. Com a retirada das palafitas, o Figueiredo, que era o presidente, deixou um relatório quando saiu dizendo que havia retirado as palafitas da Maré e também urbanizado a área consolidada, colocado água e esgoto, o que era mentira. Então eu usei esse relatório, cobrei do BNH [Banco Nacional de Habitação], o BNH acabou no mesmo ano, depois veio a Caixa Econômica e aí a gente conseguiu, não somente para a Nova Holanda, mas para as outras comunidades água, esgoto e a pavimentação. Junto a Light, a gente conseguiu uma eletrificação nova, a gente conseguiu a creche com a Secretaria Municipal, na ocasião de Desenvolvimento Social. Então a gente foi uma mudança, essas coisas dos dúplex, das casas que estavam tombando, a gente depois conseguiu dinheiro para construir essas casas e foi um momento de muita mudança, tanto que os moradores têm um saudosismo em relação àquele período muito grande porque foi um momento de muitos acontecimento, foi uma gestão muito positiva. Percebo que houve uma participação, mas que deixava a desejar por exemplo, isso aí já avaliando depois, até por conta disso que depois a gente vai criar o Ceasm  porque a gente vê que a Associação de Moradores não dá conta, a associação é um organismo político, tem que lutar, cobrar e o morador vê muito a associação como um órgão público da prefeitura, ele não se vê muito num papel de sujeito ativo, entende, isso era uma coisa que me incomodava muito, como é que a as pessoas poderiam se apropriar mais desse poder que eles têm e que abrem mão, muito por uma alienação de não entender o que é aquilo, então eu participei de mais três mandatos.


P/1 – Seguidos?


R – Seguidos, mas não como presidente, eu participava da diretoria e depois eu parei, falei: “ Não a gente já fez muita coisa, mas eu não quero mais ficar nesse dia a dia e nessa coisa estressante de cuidar do esgoto que estourou, do não sei o que”. E foi aí que eu fui fazer o mestrado e depois do mestrado eu comecei a refletir o que a gente podia...porque você via que aconteceu uma mudança muito grande na parte material, física, a qualidade de vida mudou, a gente criou uma cooperativa, acabou com os barracos de madeira, mas ao mesmo tempo chegava período de eleição vinha um político, dizia que tinha feito a creche e o morador que tinha ido a assembléia, que tinha ido na porta do secretário, ele votava naquele candidato. Eu estou dando esse exemplo que era uma coisa que me incomodava muito, esse assédio dos políticos e a gente tinha feito um trabalho de tentar mudar um pouco essa cultura política e a gente via que o trabalho que a gente fazia não atingia esse plano, as pessoas continuavam muito submissas e esperando um salvador para resolver os seus problemas, isso que me levou um pouco a tentar pensar que trabalho a gente poderia tentar fazer na Maré que, de fato mudasse essa perspectiva e essa noção do morador sobre o seu papel. O Ceasm, na minha cabeça, surge já em 1997 dentro dessa perspectiva, como é que a gente pode interferir determinados indicadores, como é que a gente pode tentar melhorar o nível de educação, de cultura...


P/1 – Antes da gente falar mais detalhadamente do Ceasm, eu queria que você falasse sobre o momento de fazer o seu mestrado em educação na PUC [Pontifícia Universidade Católica], o que te moveu a ir fazer o mestrado, eu queria que você falasse sobre o título da sua tese e a sua pesquisa, eu acho que tem relação, pelo menos pelo título bastante evidente com a tua atividade, né?


R – Depois de três mandatos na Associação de Moradores eu comecei a me indagar um pouco o sentido de só ficar fazendo coisas, eu tenho a característica muito de botar a mão na massa de fazer, tal, aí o meu interesse por de repente continuar estudando era um pouco pensar nesses processos, tanto que eu escolhi um mestrado em educação e a linha de pesquisa era em educação popular. Todo o trabalho que eu tentei fazer na associação junto com as pessoas, era um trabalho assim: a assembléia a gente pensava como pedagogicamente determinados assuntos poderiam ser inseridos, a gente fazia pequenos grupos, depois fazia assembléias maiores, então tinha uma preocupação pedagógica na apropriação dessas informações e é impressionante como muitas coisas a gente não conseguia, a linguagem não chegava; então eu quis na verdade fazer um mestrado muito em função dessa perspectiva de pensar esses processos pedagógicos de como é que as pessoas adquirem uma consciência. As pessoas falam: tem que adquirir consciência, o trabalho só é transformador quando adquire consciência, mas o que é adquirir consciência, como é que uma pessoa que tem uma história totalmente desfavorável, uma pessoa que tem que lutar para ter esgoto, uma pessoa que tem que lutar para ter água, uma pessoa que tem que fazer mutirão para limpar a sua rua, como é que uma pessoa adquire uma consciência, porque na verdade as pessoas ali elas não tinham que fazer nada disso, o Estado que tinha que fazer isso. Num bairro comum ninguém varre a sua rua, ninguém coleta o seu lixo, ninguém carrega água igual eu carreguei, então tem um processo que é complicado na história das pessoas que muitas vezes levam a naturalizar aquela realidade e por mais que se lute, por mais que as pessoas cheguem, elas têm uma baixa estima muito acentuada, de modo que não conseguem superar essa questão e atingir uma consciência maior e aí tem toda a questão da escolaridade, do acesso, das possibilidades. Quando eu fui fazer mestrado eu fui muito nessa perspectiva de refletir onde é que a gente, no trabalho que a gente fez, contribuiu na formação de novos agentes e como é que trabalhos como esse, que estão ligados mais a uma questão de educação popular mesmo, como que eles de fato têm esse componente de transformação, então a minha dissertação de mestrado trabalha com a questão política, o processo político e pedagógico do trabalho que a gente fez na Associação de Moradores, na verdade é uma proposta de uma reflexão sobre todo esse processo, onde entrou a questão política, onde entrou essa questão pedagógica e como esses agentes que atuaram, seja o morador, seja o agente externo, seja o diretor da associação, seja os profissionais da creche, como é que esse conjunto de atores interagiram nessa mudança maior. E eu fui nessa perspectiva mesmo de sair um pouco da realidade, estudar um pouco e pensar em novas perspectivas, porque eu sempre tive muito interesse em continuar trabalhando [risos] ali na Maré, então eu não queria sair e nem queria sair com esse sentimento negativo: “Ah, a gente fez tanta coisa, mas o morador continua jogando o lixo na rua, o Estado não”..., entendeu, não queria ficar com esse sentimento porque eu acho que o que aconteceu ali foi muito importante para as mudanças daquela realidade e foi isso. Eu escolhi educação popular, muito por conta de tentar pensar num espaço específico, numa área específica e tentar atingir determinados objetivos que trabalhassem com essa questão da própria consciência que o morador possa adquirir, como chegar a isso, como transformar isso, como tornar isso uma coisa mais palpável, mais concreta para as pessoas.


P/1 – Você fez o mestrado onde e em que período?


R – Eu fiz na PUC, eu entrei em 1990, mas aí eu tive o meu filho, tive problema de doença, não fiquei bem, tranquei, voltei em 1992 em 1995 defendi a dissertação.


P/2 – Como você relaciona o seu trabalho no mestrado, a sua dissertação, com a criação do Ceasm?


R – Na verdade na época que eu fiz a dissertação não relacionei, não teve uma relação direta, não, eu sabia que eu queria fazer outra coisa, não sabia muito bem o que eu queria fazer, eu já não acreditava mais que a associação pudesse fazer esse papel de transformador, no sentido do que eu acredito que seja transformar, mas estudar foi um instrumental importante para eu adquirir essa outra consciência que tinha que fazer o trabalho.

O nascimento do Ceasm vem dentro desse conjunto de reflexões que eu estava fazendo e me perguntando o que fazer, como fazer, não queria ficar sem ter algum trabalho comunitário e essa questão política da consciência foi o que me motivou e eu busquei outras pessoas, que talvez tivessem as mesmas inquietações, lá na Maré, pessoas com quem eu convivi na Igreja, pessoas da Associação de Moradores e o Jailson, que é o meu marido. Na época ele estava fazendo doutorado, ele é militante de muitos anos, não de militância comunitária, mas desde a fundação do PT [Partido dos Trabalhadores] e ele tinha muitas questões em relação a esses processos que aconteciam, a experiência dele ampliou um pouco essa minha questão em relação à vida das pessoas ali. Então, o Ceasm nasce um pouco com essa conformação de pessoas que já atuaram em determinados movimentos, seja partidário, seja comunitário, seja de Igreja e aí a gente se junta, quatro pessoas, para estar pensando que trabalho político, inicialmente o trabalho tinha essa conotação política, não política partidária, mas política num sentido mais amplo, a gente queria assumir que a gente queria transformar e mudar essa consciência das pessoas. A Maré já tinha essa conformação de 16 comunidades, então a gente queria fazer um trabalho não mais localizado numa comunidade, mas nas 16 comunidades, a gente queria fazer um trabalho que valorizasse o que a Maré tem de bom. Na ocasião a gente fez um levantamento e viu que menos de 0,5% da Maré tinham chegado a universidade, num universo de 130 mil pessoas e a gente na verdade era esse menos de 0,5%, porque a gente chegou a universidade e outras pessoas ali não chegaram. Em cima dessas indagações a gente cria o Ceasm, o próprio nome fala isso, a coisa do Centro, centro no sentido de ser uma referência central nesse conjunto de favelas, de Estudos porque a gente pensa que não adianta só fazer coisas como a gente fez na associação: conquistar água, esgoto, escola, além de fazer coisas a gente tem que estudar sobre essa realidade, tem que entender como essa realidade está conformada, isso implica você ver o número de crianças que estão fora da escola, ver o número de pessoas que estão sem certidão de nascimento, ver a questão da população, ver a questão da pobreza, então estudo no sentido de você pensar essa realidade a partir de dados concretos, Ação, Centro de Estudos e Ações, porque ação é fundamental também, você estuda para que, você elabora para que? Para poder responder a uma questão específica daquela realidade, também não adianta só estudar, não adianta mudar a curva, Centro de Estudos e Ações Solidárias. Solidárias porque todas as pessoas inicialmente tinham uma formação na Igreja e a gente trabalhava muito nessa perspectiva de que não adianta você querer construir um mundo melhor se você não é solidário, se você não é generoso, então ali não era só um espaço profissional, não era só um espaço de luta política, é um espaço em que a gente vai estar tentando trabalhar a diversidade, as diferenças e a gente vai estar tentando ser o mais solidário um com o outro, o mais possível, a questão da solidariedade é muito importante para você ajudar outras pessoas e da Maré, porque a gente acredita que se houver uma mudança qualitativa de vida na Maré, isso tem um efeito no Rio de Janeiro inteiro. A Maré é cortada pela avenida Brasil, uma das principais vias de chegada do Rio de Janeiro, você tem a Linha Vermelha, você tem a Linha Amarela, você tem o Aeroporto Internacional, você tem a maior universidade do Brasil e tem toda essa problemática da violência, se você conseguir construir projetos ali em que você diminua essa problemática, em que a questão social seja vista de outra forma isso pode ser um modelo para as cidades. Então todo o nosso investimento, toda a nossa energia vai ser canalizada para a Maré, a gente não vai se dispersar, por mais que a gente faça o projeto mais lindo e maravilhoso [risos] nós vamos ficar na Maré, até porque a Maré, pelo tamanho, é uma cidade de médio porte do Brasil, mais de 80% das cidades no Brasil não têm o tamanho da Maré. É maior que Angra dos Reis, que Barra do Piraí. Então você imaginar a Maré por aí você vai pensar que a política pública para lá tem que ser de outra forma, é uma opção radical, não é uma coisa de bairrismo, mas é uma opção radical por um lugar que tem a ver com a nossa história, com a nossa vida, com o que a gente é. 


P/2 – Então vocês quatro sentaram em 1997 e criaram o Ceasm.


R – Na realidade a gente começou esse movimento em 1996 e a gente chamou várias pessoas lá na Maré e a nossa tentativa era uma reunião por mês para a gente estar discutindo o que ia fazer, desse grupo inicial, que a gente chegou a reunir 15 pessoas, 20 pessoas, só ficaram quatro, foram os que resistiram.


P/1 – Quais são as principais atividades do Ceasm, fala um pouquinho da sua experiência na presidência e do Rede Educação, o que é?


R – A partir da identificação desse dado de que menos de 0,5% da população da Maré tinha chegado à universidade a gente pensou que o primeiro projeto que a gente ia fazer era um pré-vestibular comunitário, para tentar ampliar o acesso das pessoas a universidade. A gente acreditava e acredita que a universidade tem um componente importante que é ampliar o horizonte cultural das pessoas, não só você ganha uma profissão nova, não só você consegue se inserir melhor - ou não [risos] - no mercado de trabalho, mas você tem uma experiência cultural diferenciada, então era importante ir para universidade, quem quisesse, essa coisa de aumentar o horizonte das pessoas ali, porque poucas pessoas terminavam o Ensino Médio, ir para a universidade era menos ainda, então o primeiro projeto foi o pré-vestibular comunitário, que foi importante no sentido de que a gente agregou um conjunto de pessoas da Maré que também tinham terminado como nós a universidade, então os professores do pré-vestibular inicialmente eram pessoas da Maré eram pessoas como nós que a gente saiu atrás: “Vem cá, você está a fim de fazer um projeto diferente?” E a partir do pré-vestibular que no primeiro ano a gente só teve ele, durante 1997 a gente pensou o projeto, 1998 foi a primeira turma de pré-vestibular. No primeiro ano a gente fez uma seleção, selecionou 130 alunos, desses 130 ficaram 90. A gente tinha duas turmas, desses 90 a gente aprovou 41 para as universidades públicas e PUC do Rio de Janeiro, que a gente tem um convênio. Então foi muito boa a aprovação, isso deu um gás muito grande e aí já no ano seguinte a gente já começou a ter outras possibilidades.

Depois de sete anos e meio, que é o que a gente tem hoje, a gente trabalha com três áreas, que são: educação, comunicação, cultura; dentro da rede de educação, que é uma das redes que eu acompanho você tem um conjunto de projetos de educação que a gente desenvolve, dentro da rede de cultura você tem um conjunto de projetos ligados à cultura e dentro da rede de comunicação a mesma coisa. Dentro da educação você tem o curso pré-vestibular, você tem o preparatório para o Ensino Médio para os alunos que estão na oitava série na escola pública. Eles recebem uma formação no último ano da escola, estudam de manhã na escola, de tarde conosco e a ideia é que eles tentem Pedro II, Capes, escolas técnicas aqui do Rio de Janeiro. Você tem o preparatório para a quinta série, são crianças que estão na quarta série, que estão numa situação muito complicada, principalmente a coisa da leitura e escrita. Então eles recebem um reforço, um estímulo, porque a nossa maior questão lá é que as crianças não parem de estudar, evasão escolar é muito grande. Então um dos nossos objetivos é esse, inclusive o projeto da Petrobras, a razão de ser é essa [risos], aí você tem o  programa de criança o Petrobras na Maré dentro da rede de educação, você tem o Observatório da Maré, que é da rede de educação; você tem os cursos de línguas, você tem o projeto Nenhum a Menos, que depois que o Observatório fez um censo a gente descobriu que tinham 1.200 crianças fora da escola. Então a gente fez todo um trabalho de retorno dessas crianças à escola, só que a maioria dessas crianças já tinham ido a escola, então elas evadiram. Então a gente tem todo um trabalho mais social junto às famílias dessas crianças para que elas permaneçam na escola. A gente tem uma Biblioteca, tem um Laboratório de Informática, tem um Laboratório Didático, tudo isso dentro da rede de educação e temos na cultura um conjunto de oficinas culturais que é teatro, dança, música, interpretação, enfim, artes visuais... tem a Escola de Dança da Maré que tem o Corpo de Dança da Maré, que tem toda uma formação em dança, que faz os espetáculos; tem a Rede Memória, que está dentro da rede cultura, que é um projeto de resgate da história de ocupação das comunidades, muito por conta dos conceitos que a gente inicialmente no Ceasm trabalha, que é a questão da identidade, a questão de pertencimento à região, é um trabalho mesmo de pesquisa em memória e aí tem um conjunto de atividades, tem os Contadores de História da Maré, tem o pessoal que trabalha com arquivo, tem o pessoal que trabalha com documentação, tem as Oficinas de Imagem e Comunicação, que trabalham com vídeo, fotografia, também todos dentro dessa perspectiva de formação do jovem que está no ensino médio e tem a rede de comunicação que tem um jornal chamado Cidadão, que é um jornal que tem 20 mil exemplares produzido todo ele por jovens da Maré mais dois jovens que estão na faculdade de comunicação, foram do pré-vestibular, que é distribuído de casa em casa, a ideia é ser um jornal da comunidade, um jornal de bairro.


P/1 – Eliana, como foi para você receber o Prêmio Ashoka 2000, em termos pessoais mesmo?


R – Foi quase como esse ano eu recebi o Prêmio Cláudia. [risos]


P/1 – [risos] Cláudia é essa revista?


R – A Editora Abril tem um prêmio já há nove anos, que eles anualmente escolhem mulheres em determinadas categorias, negócio...


P/2 – Você recebeu em 2005?


R – Eu recebi em 2005 pela categoria projeto social, aí é um monte de coisas [risos] que acontecem, é uma coisa bonita, é uma festa, é um reconhecimento bacana. O da Ashoka achei bem interessante, porque a Ashoka trabalha com essa coisa de investir em empreendedores sociais, eu não conhecia e o que eu acho interessante é que há realmente um investimento no sentido de possibilitar você estar atuando da melhor forma dentro dessa opção, que para mim não é só uma opção profissional, você acaba se qualificando muito com esse trabalho, eu digo muito isso, que a minha questão maior tem a ver com a minha história, com a minha vida, acho que eu vou estar sempre fazendo essas coisas que eu faço, o que de certa forma me credencia para profissionalmente trabalhar com isso também, mas a minha motivação maior não é essa. O que eu acho interessante desse Prêmio da Ashoka é que você pode trabalhar esses dois lados, você pode plenamente satisfazer um desejo de militante e você pode, se quiser, se tornar um bom profissional, porque eles te oferecem um conjunto de possibilidades, de instrumentais para você se qualificar como empreendedor?


P/1 – O quê, cursos? Fala um pouquinho.


R – São cursos, são oficinas, são intercâmbios, são possibilidades, ele te coloca numa rede mundial com pessoas que têm o mesmo desejo seu de estar transformando o mundo e fazem isso na sua vida cotidiana, óbvio que receber um reconhecimento é bacana e essa possibilidade eu achei interessante de poder..., eu ainda não usufruo o que eu poderia porque a Ashoka oferece muita coisa e eu participo de poucas porque não tenho muito tempo, mas foi super importante para a minha vida pessoal mesmo, porque também o processo de seleção da Ashoka é um processo que faz você repensar também a sua atuação como pessoa, como indivíduo no mundo, então isso é uma coisa muito legal, de te colocarem diante de questões: “Ah, que você quer fazer daqui a dez anos, como você se vê nesse processo” e realmente faz você parar para pensar, então mais que o reconhecimento pelo prêmio é essa coisa de colocar você nessa situação de prestar atenção em você. Normalmente quando a gente trabalha com coletivo acaba que a gente esquece um pouco desse lado, acho que eles enfatizam muito essa coisa do indivíduo, que eu acho muito bacana.


P/1 – Falando do Programa de Criança Petrobras, queria que você falasse do momento quando esse programa foi implantado e se ele é o único programa que tem apoio mais direto da Petrobras nesse conjunto de programas e atividades que são executadas na Maré?


R – O Programa de Criança chegou na Maré em 1999, segundo semestre de 1999, Programa de Criança Petrobras na Maré, a gente teve na Petrobras, não por conta do Programa de Criança, a gente procurou a Petrobras, tem uma pessoa na Maré que é o Marcelo, ele é artista plástico, universitário da Maré e ele também foi uma pessoa que teve muito proximidade com a fundação Ceasm, foi uma pessoa importante também nesse processo, ele trabalhava num Programa de Criança que funciona em Duque de Caxias e ele sempre falava: ‘A Petrobras tem um Programa de Criança, porque que a gente não tenta trazer isso para cá para a Maré”, mas na verdade a gente não procurou a Petrobras, quando a gente foi lá no Cenpes, que fica no Fundão ao do lado da Maré. Quando a gente procurou o Cenpes [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello] a gente procurou para pedir apoio para o pré-vestibular comunitário da Maré, foi logo no início 1988, eu procurei a Petrobras em 1988, então procurei a comunicação do Cenpes, eles marcaram uma reunião, a gente foi lá, eles explicaram que eles não apoiavam projetos, demandas que chegavam, que eles tinham uma atuação na área social a partir dos Programas de Criança e eles me apresentaram o Programa de Criança. O  Marlucio e o  Nagib na ocasião me apresentaram o Programa de Criança, como é que funcionava no Cenpes: as crianças vinham da Ilha do Governador, ficavam no clube da Petrobras, elas tinham aula de arte, iam a piscina, me apresentaram e falaram que não tinham condição de apoiar o curso pré-vestibular, mas ao mesmo tempo eles gostaram do nosso papo, não sei, e falaram: “De qualquer forma a gente quer conhecer vocês, porque a gente está querendo se envolver em alguma atividade na Maré, porque o Cenpes está do lado e a gente acha que tem que ter alguma atração na Maré, a gente não sabe qual, pré-vestibular não dá, mas vamos ver”. Aí eles marcaram de ir lá na Maré, de conhecer o Ceasm, na verdade a gente começou o Ceasm usando a Igreja, conseguiu espaço e começou a fazer obra, então a gente não tinha um espaço definido, estava muito incipiente ainda, então eles visitaram a gente, conversaram com a gente, a gente passou meio que um ano em contato, eu ligava, não tem como doar cadeira, não tem como..., e não acontecia nada. Depois de quase um ano eles me chamaram lá e falaram comigo que no ano seguinte, que era final de 1988, 1998 para 1999, que eles estavam pensando em mudar o Programa de Criança, que estava sendo gerido pela Associação de Funcionários da Petrobras e queriam fazer uma proposta, se o Ceasm não poderia assumir a gestão desse programa. Aí eu perguntei a ele se daria para a gente fazer uma proposta, a gente pode mudar a forma hoje como está sendo feita, a gente pode ter uma proposta nossa, tem como atuar somente na Maré, porque a gente não tem interesse pela Ilha do Governador. Aí fui perguntar a ele, porque eu não tinha o interesse de pegar um projeto só para gerir o projeto e ter dinheiro, a questão era se esse projeto tinha a ver com a gente também. “Vocês façam a proposta, porque a gente quer mudar tudo mesmo, a gente está querendo fazer uma coisa diferente”. A gente fez uma proposta, que é a proposta inicial do Programa de Crianças da Maré: primeiro atenderia somente as crianças da Maré, não tenho nada contra as crianças da Ilha, elas precisam também, mas não teria a ver dentro da proposta que a gente tinha, então primeiro atender só a Maré; segundo o projeto não aconteceria dentro do Cenpes, aconteceria dentro das escolas, a proposta era que o programa fosse para dentro das escolas. Aí a gente fez um projeto escrito, com essas ideias, levei esse projeto para ele, passamos um tempo conversando, discutindo como é que seria, eles aprovaram no início de 1999, mas só consolidou mesmo o contrato no meio de 1999. Inicialmente o programa começou atuando em quatro escolas, porque atuar dentro da escola...por que atuar só dentro da Maré, qual a justificativa para isso? Primeiro a gente já tinha um levantamento da evasão escolar na Maré, que era muito grande, então um dos objetivos desse programa era diminuir a evasão escolar, fazer com que a criança aprendesse a gostar de estar na escola, o programa deveria contribuir para melhorar esse ambiente escolar, como é que aquela paisagem poderia ser uma paisagem que a criança quisesse ficar, esse era um dos objetivos, um objetivo importante, aquela coisa da criança gostar da escola e ela não evadir da escola. Segundo a gente trabalharia com linguagens que a escola não trabalha, então a questão das artes seria uma coisa muito trabalhada no sentido de atuar junto com o conteúdo da escola para sofisticar mais e a criança poder se desenvolver mais ____________________________tem um conjunto de linguagens que essa criança não tem acesso na escola e que ela teria pelo programa, teria um trabalho muito forte junto aos professores no sentido de  trazê-los para estar pensando junto com o programa, como é que eles poderiam se apropriar dos recursos que o programa tem para melhorar a questão pedagógica. Então os nossos profissionais, todo o nosso planejamento, teria que ser um planejamento que reforçasse o planejamento da escola, a gente não está ali para substituir a escola, mas a gente pode ser um parceiro importante no sentido de estar repensando esse fazer pedagógico. Então a parceria do professor, a turma que o Programa de Criança atende, o professor teria que saber o que a gente está fazendo lá e a gente teria que saber o que o professor faz, para a gente reforçar esse trabalho. E a outra questão era que a gente tentaria fazer um trabalho muito grande na questão de leitura e escrita, porque há uma defasagem muito grande nessa questão e a gente pegou isso como uma bandeira importante. 

Você não vai desenvolver consciência, você não vai ser um ser crítico se você não tiver essa habilidade resolvida, então é importantíssimo, não adianta um menino que toca bem, se ele não sabe ler e escrever e não sabe se expressar, né, então isso é um componente importante do programa. O outro componente importante é o trabalho com os pais, tem os grupos de pais que atendem nas escolas, com assistente social e psicólogo em que a gente ajuda a escola nesse processo de relação com os pais, tem escolas que nunca reuniam os pais, hoje você tem grupos de pais, os pais se reúnem de 15 em 15 dias nesses grupos e é feito todo um trabalho de formação, de uma maneira ampliada e dependendo do interesse dos pais, por exemplo tem escola que os pais manifestaram o interesse de aprender a ler, porque uma boa parte não sabe, então a gente montou uma turma de alfabetização só de pais, e aí vai. Temas como a mulher, a questão da mulher, a questão da relação, como é que a família se insere nesse processo pedagógico da criança, tem todo um conjunto de atividades que são voltadas para os pais, tem um trabalho grande do programa em relação a questão do acompanhamento dessa criança, uma criança que entra no programa a gente não quer largar até chegar à universidade, esse era um dos objetivos, fazer com que ela permanecesse, chegasse a universidade e aí tem todo um instrumental de monitoramento e avaliação para onde essa criança vai e perfil dessa criança, tem um conjunto de demandas materiais que a gente tenta articular a partir do programa para suprir. Então a gente fez uma parceria há dois anos com uma outra ONG, que só trabalha com questão de exame de vista, com essa questão oftalmológica, a gente conseguiu, por exemplo, fazer exame de vista em todas as crianças do programa.


P/1 – Quantas são? 


P/2 - __________


R – Hellen Keller, nome da ONG Hellen Keller


P/1 – Quantas crianças vocês atendem em média?


R – 2 mil crianças.


P/1 – Por ano, ou é...


R – Por ano, aí algumas vão para o ensino médio, vão para o preparatório.


P/1 – Tem limite de idade para participar desse programa?


R – Atualmente não, no início tinha, mas atualmente a gente está pegando as crianças na alfabetização, as nossas atividades estão junto com as crianças que estão se alfabetizando, então você tem atividades na alfabetização, você tem atividade no terceiro e quarta série, você tem atividade na quinta, na sétima e na oitava, dependendo da escola.

Hoje a gente atende oito escolas, quando a criança vai para o ensino médio ela passa pelo preparatório do Ceasm, porque todas as atividades são coordenadas com o que o Ceasm tem e essas crianças, muitos deles eu dou aula, inclusive, para alunos que foram do programa pré-vestibular, então a gente vê que a gente atingiu esse objetivo de que as crianças não evadissem.


P/1 – Como é a resposta das crianças, dos jovens a essas ações do programa, como é que você percebe isso?


R – É uma resposta muito positiva, o programa vai fazer 5 anos e a gente recebe das escolas…. tem esse aspecto da escola que a gente a cada a ano vê que a escola está entendo mais...


P/1 – É receptivo?


R – A gente percebe a cada ano que as escolas estão entendendo mais essa parceria, percebem que não é uma coisa para competir, que é para agregar, não é um trabalho muito fácil, porque muitos professores se vêem ameaçados, porque a gente tem muito planejamento, tem muita discussão e uma exigência para isso é a pessoa estar disposta para isso, mas as direções, de uma maneira geral, elas são muito envolvidas e o programa tem uma receptividade muito boa. Junto aos pais é excelente, muitos pais botam a criança naquela escola porque é onde tem o Programa de Criança e em relação às crianças eu acho que é uma coisa muito positiva. A gente fez uma Brinquedoteca, eles têm acesso a muita coisa, durante o ano eles fazem muitas saídas, visitam muitos locais, não tem como a criança não gostar, é até lugar comum, porque elas estão recebendo muito estímulo, o programa propicia um estímulo muito grande, que é o que a gente quer, naquela paisagem ter coisas sofisticadas e ter coisas interessantes. É muito bom, eu vejo que o programa faz a diferença hoje em algumas escolas e ele faz a diferença na vida de muitas crianças. 


P/2 – O que você acha de uma empresa como a Petrobras estar apoiando projetos sociais como esse?


R – Eu acho fundamental, primeiro pela natureza da Petrobras, é uma empresa estatal. Eu acho que é dever da Petrobras fazer isso, acho fundamental que ela encontre uma forma de diminuir essa dívida social que existe no Brasil, eu acho que ela tem um papel importante no sentido de tentar interferir nisso. Mais do que alguma coisa que melhora a imagem da empresa eu acho que devem fazer parte das atividades da empresa, alguns profissionais da empresa deveriam estar atuando nesse sentido de interferir nesses processos sociais e assim como a Petrobras é uma empresa que pensa essa coisa de ponta, de tecnologia, a questão social, pelo investimento que ela faz, ela pode desenvolver essa tecnologia, esse conhecimento e pode ser um diferencial para ela, não só competitivo, não só por conta desse aspecto, mas no aspecto mesmo de ser uma empresa que cumpre o seu papel, que se coloca com essa possibilidade.  Eu acho super importante e penso que esse tipo de trabalho deveria receber um monitoramento para que a cada ano ele pudesse ser aprofundado e melhorado e que não tivesse essa contingência da política, que muitas vezes define esses trabalhos. Acho que tem que ser um conhecimento que vai se acumulando na empresa, que é tão importante quanto o que a empresa faz, porque essa empresa é brasileira, porque é dos brasileiros, [risos] eu penso que é muito importante esse trabalho que a Petrobras faz junto aos projetos sociais.


P/1 – Como é que você vê a parceria com a Petrobras, não tem contrapartida, como é a relação com a Petrobras, ela só dá o dinheiro, enfim um pouquinho?


R – Não, no nosso projeto a gente acabou estabelecendo uma relação, talvez pela proximidade que a gente tenha com o Cenpes, uma relação muito positiva no sentido de aprendizado, no sentido que a gente aprende muito com os profissionais que acompanham esse projeto, são pessoas muito dedicadas a entender e muito respeitosas a realidade. Então uma coisa que a gente gosta muito nessa relação é que há um respeito ao que a gente produz, ao que a gente propõe e ao mesmo tempo, eles propõe questões e coisas que estão dentro desse âmbito, que é a empresa. É uma relação boa, sempre foi muito boa desde o início, o Cenpes sempre destacou uma pessoa para acompanhar o projeto, no início do ano a gente apresenta um planejamento do que a gente vai fazer, discute esse planejamento, presta contas, não só através dos recibos, dessa parte contábil. O Marlucio, o Nagib eles vão nas reuniões, a gente tem reunião toda sexta-feira com todos os profissionais, então volta e meia eles estão nesse processo junto com a gente e a gente vê que é uma relação muito boa, eu diria que talvez se eles tivessem mais tempo para se dedicar à essa questão, talvez essa troca de conhecimento seria muito maior, mas ela é uma relação mesmo de troca, eu digo que eu conheço um pouco da empresa por conta do trabalho que eles fazem e eu sei que eles conhecem um pouco do trabalho que a gente faz por conta da relação que estabeleceram no Ceasm. Não é uma relação apenas de dinheiro, isso nunca foi uma coisa nem mais importante para eles, porque eles batalharam muito para garantir o recurso e a gente sabe que fez muito por onde para conseguir ter esse trabalho de qualidade que a gente tem.


P/1 – A comunidade percebe essa parceria com a Petrobras?


R – Percebe. O jornal Cidadão, no final do ano passado, fez uma pesquisa em que a gente perguntava ao morador, na verdade a ideia era saber se o jornal atingia, chegava aos moradores, mas aí aproveitou e fez umas perguntas tipo: “Você conhece algum projeto do Ceasm?”, “Você conhece alguma empresa que apóie o Ceasm?” E a Petrobras saiu em primeiro lugar na pesquisa e o objetivo não era nem saber do Programa de Criança, mas como tem essa relação com os pais e são mais de 700 país que atuam nesses grupos de pais, você vê que a comunidade... Também a gente faz muita propaganda no sentido de que é um projeto que está dentro da escola, porque o apoio da comunidade é fundamental, não só pela propaganda, a gente quando divulga, a gente divulga no sentido de: “Olha só, a gente tem uma coisa que é importante que acontece aqui e é fundamental o envolvimento de vocês para garantir que esse trabalho dê certo, para que tenha resultado, para que seja eficiente, eficaz”. A gente trabalha muito assim.


P/2 – Vocês começaram o Ceasm com quatro pessoas, hoje em dia são quantas trabalhando?


R – 312 [risos]


P/1 – [risos]


P/2 - Você está exercendo algum cargo?


R – A gente começou com um formato tradicional, com: presidente, vice-presidente, tesoureiro, o  ano passado a gente fez uma mudança na estrutura institucional, então hoje você tem um conselho chamado Conselho Institucional, tem o Conselho Gestor, então as pessoas que eram da antiga diretoria foram para o Conselho Institucional, como são pessoas que fundaram, pessoas que trabalharam nesse processo inicial, a gente funciona muito com essa coisa da representação e muito no sentido de estar formando. Por exemplo, o Conselho Gestor, que é quem está no dia a dia, porque antes eu ficava desde a vassoura que acabava até, sei lá, a reunião com o presidente da Petrobras.


P/1 – [risos]


R – Agora não, agora eu estou trabalhando mais nessa questão estratégica, de buscar recursos, de fazer projetos, de elaborar melhor os projetos que a gente faz. Esse grupo institucional está muito nesse papel de dar respaldo e você já tem universitários, pessoas já formadas por nós, trabalhando no Conselho Gestor.


P/1 – Que são pessoas da Maré?


R – Da Maré.


P/1 – Nesses 312 tem um número significativo de pessoas...


R – Tem, mais de 90 desses 300 são universitários, porque a gente não tem funcionários, todo mundo que trabalha no Ceasm ou faz um curso ou é universitário.


P/2 – É um trabalho voluntário?


R – Não. A gente desde o início não queria fazer trabalho voluntário porque tinha toda uma questão de ter continuidade, criar raízes e tem também uma coisa de investimento na questão profissional das pessoas da Maré. Então todo o recurso que o Ceasm recebe, por exemplo, a Petrobras a gente tem uma taxa administração, esse dinheiro é para investir em bolsas para universitários, para poderem estudar de dia, por exemplo, e eles dão uma carga horária de trabalho ou na infra-estrutura que o Ceasm tem, administrativo: luz, água. Todo o nosso recurso é para gerir essa possibilidade do morador da Maré estar estudando, no Programa de Criança, por exemplo, você tem 12 universitários que atuam junto com profissionais que são contratados.


P/1- Eliana, para a gente já começar a encaminhar para o final da entrevista, eu queria que você falasse um pouquinho o que você acha que mudou na Maré depois que esses programas foram iniciados e entre as tantas ações implementadas e realizadas, se tem alguma que tenha te marcado, te dado uma satisfação, uma alegria em particular?


R – Em relação a esse conjunto de atividades que acontecem na Maré hoje, a gente percebe que em 10 anos houve um crescimento muito forte de trabalhos realizados por ONGs, normalmente isso é uma coisa que você não tinha muito no início da década de 1990, 1980,  então houve um crescimento na oferta desse tipo de atividade, que por um lado é bom, por outro tem algumas questões e aí eu acho que no caso do Ceasm, o Ceasm cumpre muito um papel de estar qualificando esses trabalhos. Como a gente tem um compromisso muito forte com a qualidade desse trabalho, com essa mudança política maior, na verdade a gente fala isso hoje - o nosso objetivo não é fazer pré-vestibular, não é fazer Programa de Criança, não é prestar serviços os mais interessantes possíveis, quando a gente faz essas coisas elas são instrumentos para a gente estar colocando foco numa questão que é essa questão de nas favelas você não ter essas possibilidades. Então a escola na favela normalmente é ruim, a creche normalmente é feita com material de péssima qualidade e a gente tenta contrapor isso tudo. Se você for no Ceasm as instalações são muito boas, a tinta que é colocada lá é uma tinta boa, a sala de aula é uma sala de aula decente: clara, bonita, com as cadeiras bonitas, a gente tenta trabalhar essa coisa estética, visual, porque a gente quer criar um outro paradigma em relação ao que é feito...


[fim da fita]


R – Porque a gente quer criar um outro paradigma em relação ao que é feito em termos de trabalho nas favelas, as pessoas oferecem o menos [risos] porque é para a favela, a gente vê que o nosso trabalho acaba influenciando uma outra visão sobre essas políticas ou essas iniciativas que vão para a favela. Para mim, uma coisa importante desse trabalho não é só essa questão estética, obviamente, mas é o que está por trás disso e é muito importante que a gente consiga trabalhar essas representações e vencer alguns desses preconceitos que a gente percebe muito claramente na sociedade e que os moradores da favela sofrem muito. O Ceasm cumpre um papel muito importante nesse sentido de estar colocando foco nessa questão e de estar dizendo assim: “Olha a gente faz isso aqui, isso aqui é bom, mas a gente não é coitadinho, a gente sabe dos nossos direitos e o que a gente quer é dignidade e oportunidade”. Então isso é um aspecto que eu acho importante; o outro é que hoje você tem mais de 140  instituições atuando na Maré, seja do poder público, privado, organizações não governamentais, comunitárias e aí seria muito importante que a partir desse processo de reflexão sobre a Maré ou de identificação deste diagnóstico da realidade a gente pudesse pensar como aquela região poderia se desenvolver. A gente tem o desejo de um dia construir com essas instituições um Plano de Desenvolvimento Local para a Maré, não um Plano de Desenvolvimento Local que considere apenas a questão econômica, mas que leve em consideração a questão social, a questão ambiental, a questão dos direitos, a questão da participação e a questão econômica, que é fundamental para sobreviver também, esse é um dos desejos que a gente quer e que a gente está trabalhando para isso e o Ceasm, nesse caso, fez um catálogo de instituições. A gente está lançando agora um caderno sobre as empresas da Maré, então quando a gente toma essas iniciativas a gente percebe que a gente está criando um outro conceito e uma outra forma de se trabalhar ali na região, o mais importante é isso. A gente já tem 450 jovens na universidade, nesses 7 anos, ótimo, mas além disso a gente precisa, além da questão individual pensar nessa questão coletiva que é a mudança no bairro como um todo. Em relação a essa questão de projetos que eu acho importantes, o pré-vestibular é um projeto para mim muito importante porque quando o aluno chega no pré-vestibular ele toma consciência um pouco da vida dele - a gente tem essa proposta, a gente trabalha assim - e da realidade onde ele vive, então é onde a gente trabalha essa perspectiva dele se inserir não só no desejo individual de ir para a universidade e conseguir um bom trabalho, mas é um momento que você coloca para ele outras possibilidades e a gente tem um retorno muito positivo disso, a gente vê que hoje você tem jovens da Maré que pegaram creches que estavam fechando e estão dirigindo essas creches, criaram uma outra ONG e são um filósofo, uma pedagoga, uma nutricionista, uma psicóloga, são moradores ali da Nova Holanda, que pegaram esse desafio de gerir uma creche que estava fechando, isso é resultado do nosso trabalho. O pré-vestibular tem essa possibilidade de muito rapidamente dar um retorno a comunidade, isso é muito estimulante, você perceber esse processo que acontece, aqueles grupinhos de jovens hoje indo para a biblioteca, indo para o cinema, para o teatro, você vê que tem uma conformação acontecendo ali, que a médio prazo, isso vai trazer uma mudança, que talvez seja aquela mudança que eu pensava inicialmente que só fazendo a parte física não dava, então é um projeto muito estimulante para mim, que dá força aos outros todos, porque hoje essas pessoas trabalham nos outros projetos.


P/2 – Eliana, além dessas suas funções que você tem em termos de militância você dá aula em universidade e está fazendo o seu doutorado, fala um pouco dessas duas experiências para a gente.


R – Trabalhar na universidade para mim sempre foi uma coisa um tanto fora da minha...eu me sentia um pouco deslocada, o termo é esse, um certo desconforto, apesar de eu estar na universidade desde 1987 e ser um espaço que eu sempre tive muita liberdade de trabalho, sempre fui muito respeitada, mas eu investi pouco nesse caminho acadêmico para dentro da universidade, a minha energia, eu seria falsa se eu falasse outra coisa, a minha energia sempre foi muito canalizada para trabalhos dentro de favela, de espaço popular e para trabalhar com aquela clientela, ficar dando aula para filhinho de papai, isso nunca foi o meu desejo, tanto que eu trabalho hoje na Pró-Reitoria de Extensão com projetos ligados a favela, [risos] fazendo projetos ligados à favela.


P/1 – [risos] De alguma maneira voltou para o seu foco de interesse.


R – Trabalho de pesquisa e trabalho de intervenção para a favela.


P/2 – Em qual universidade?


R – A Federal do Rio de Janeiro. Então essa experiência para mim é uma experiência importante dentro daquele campo que é um lugar que eu também posso chegar se quiser, então tem uma coisa de satisfação pessoal no sentido que muita gente tem medo de chegar na universidade, daquela coisa acadêmica que aquilo representa.


P/1 – Você entrou para dar aula na universidade, aí foi...


R – Não. Eu estudei na UFRJ, comecei a trabalhar depois que eu terminei. Eu entrei para a UFRJ como estudante, terminei a faculdade em 1985 e dois anos depois que eu comecei a trabalhar. Mas o que eu falo é que é um espaço ainda muito distante das pessoas, é um espaço que as pessoas não se sentem muito identificadas e eu não sou exceção nesse sentido, mas para mim sempre foi um espaço muito acolhedor, sempre me senti muito bem, porque é um espaço de aprendizagem importante, mas como eu sempre tentei fazer o que eu gosto em qualquer lugar; em algum momento na universidade eu fiz menos porque eu estava muito envolvida fora. Agora me ofereceram um cargo para trabalhar com favela, com espaço popular, com formação de universitários que são de espaço popular, são jovens que chegam à universidade e têm toda essa problemática para se inserir naquele mundo acadêmico, então eu estou fazendo o que eu gosto, também dentro da universidade. Agora, assumir aquela coisa de professor de ir para a sala de aula e lidar só com a coisa da pesquisa, longe da prática mesmo, isso não me caracteriza, eu nunca me dispus a isso, tanto que várias vezes eu pensei em fazer outra coisa, tal, mas hoje eu faço o que eu gosto lá e para o doutorado eu também fui numa perspectiva de dar uma parada, depois de Ceasm, de ter trabalhado bastante, para estudar e dar um outro rumo, talvez agora eu pense um pouco em conformar melhor essa questão da academia, de escrever mais, eu estou num caminho, por isso fui para o doutorado, porque agora eu tenho que escrever um pouco mais.


P/1 – Mas a tua pesquisa tem relação com essa prática, com essa tua experiência com movimentos sociais?


R – Tem a ver com a Maré.


P/1 – [risos]


R – Tem a ver com a Maré e tem a ver com essa questão das instituições da Maré.


P/2 – Você está fazendo doutorado onde?


R – Na PUC do Rio.


P/2 – Desde quando?


P/1 – Qual departamento?


R – Serviço Social e eu comecei agora, a primeira aula foi antes de ontem, estou novinha.


P/1 – Me diz uma coisa, só porque você falou que a PUC tem um convênio com o pré-vestibular da Maré, como é que você se sente vendo os alunos da Maré dentro da PUC, te dá uma satisfação especial, você se sente um pouquinho responsável, eles se integram bem, como é que é?


R – Se integram, nos primeiros anos alguns tiveram problemas, um certo choque com aquela realidade, tudo muito fácil para quem está lá e tal. Ontem eu estava lá tomando um café com uma amiga da minha sala, chegou um menino bateu nas minhas costas: “Ah, Jonathan!”. O Jonathan era do Corpo de Dança, tinha sido um menino de uma escola, nem sabia, tinha passado para administração e estava lá, me viu e veio falar comigo. Eu: “Olha, que legal, eu vou estar aqui segunda e terça. E aí até quando ele saiu a menina falou: “Poxa, que legal, né, ver uma pessoa que é lá da Maré”. Aí eu fiquei pensando assim: “Nossa, eu vi esse menino criança, agora está aqui na PUC estudando”.  É uma sensação muito boa essa, legal que o nosso trabalho de fato ele tem resultado, né, resultado concreto nas pessoas. Sem dúvida é uma satisfação muito grande de ver isso e de pensar: “Poxa, eu contribuí para isso.”


P/1 – Eliana me diz uma coisa, você hoje é casada, tem filhos?


R – Casada, tenho um filho, João...


P/1 – Um só?


R - Tem 14 anos.


P/1 – O que você faz nas horas de lazer? 


R – Horas de lazer?


P/1 - Se é que as tem [risos] É tão pouco.


R – Não, tenho sim, [risos], tem poucas horas de lazer, mas eu gosto de ler, gosto de ir ao cinema - isso eu faço bastante -, vejo muito filme em casa, o que mais...


P/1 – Tem algum projeto que você gostaria de ver realizado?


R – Ah, tem, eu gostaria de me envolver com a cidade que eu nasci, Serra Branca [risos].


P/1 – Você voltou lá, não?


R – Volto sempre lá.


P/1 – Ah, volta sempre.


R – Janeiro mesmo passei um mês lá, houve a mudança da prefeitura e o prefeito que entrou lá é uma pessoa que eu conheço, é amiga, e estava  há cinco mandatos tentando ganhar a gestão, porque lá é aquela coisa de coronelismo mesmo. Eu tinha muita vontade de ajudar esse problema da seca, é uma coisa que está na minha cabeça ainda, acho que volto para lá.


P/1 – Como última pergunta, eu queria que você comentasse o que você acha da Petrobras estar fazendo um Projeto Memória da Petrobras e se você gostou de ter participado desse projeto, de ter nos dado esse depoimento?


R – Eu acho interessante, memória sempre [risos] é uma coisa bem interessante, [risos] registrar as coisas acho que é uma coisa interessante. E a questão em relação ao projeto de memória é como é que as pessoas vão se apropriar, a sociedade, desse projeto de memória. Então mais importante que fazer, é como é que as pessoas vão se apropriar disso e aí como uma pessoa que tem uma ligação, que tem um projeto na Petrobras, que a gente pudesse um pouco se apropriar dessa história para estar trabalhando nesses projetos que a gente faz. Acho importante isso, acho um investimento importante, porque muitos brasileiros não têm noção da importância dessa empresa, muitos brasileiros não sabem dessas ações que a Petrobras faz e por isso que é tão importante pensar o que esse material vai produzir.

Eu queria deixar esse depoimento de que seria importante estar pensando, além de alguma coisa na Internet, estar pensando alguma coisa que pessoas que não têm acesso a Internet pudessem também se apropriar disso. Os programas que a Petrobras apoia...eu trabalho com 2 mil crianças, sei lá, um conjunto de pais, como é que a gente poderia de alguma forma estar trabalhando essa história e as razões porque a Petrobras tem obrigações de fazer isso, que faz em relação a questão social e acho importante essa oportunidade de falar. Acho que é uma outra voz, que não é de dentro da Petrobras, mas é alguém que lida com a Petrobras de alguma forma e que também se sente inserida nessa empresa a partir desse trabalho, como pessoa, como brasileira. É uma empresa que eu tenho orgulho dela existir, se eu puder de alguma forma com o meu trabalho estar divulgando e falando eu vou estar sempre fazendo, não só por causa do meu projeto, acho que a Petrobras tem uma importância que vai muito além do que a gente percebe, do que a gente vê, acho que a coisa da memória é importante por isso, pela questão histórica que a Petrobras tem no nosso país de importância.


P/1 – Muito bom, muito obrigada, tem alguma pergunta que você queira?


P/2 – Obrigada.


R – Nada.


------------------------------------------------- Fim da entrevista ------------------------------------


[fim da fita]

Marlucio – apresentou a Eliana o Programa de Criança


[Início - Cd 02/02)]


P1: Eliana, pra gente já começar a encaminhar aí pro final da entrevista, eu queria que você falasse um pouquinho o quê que se acha mudou na Maré, depois que esses programas foram iniciados. E entre as tantas ações implementadas e idealizadas, se tem alguma que tenha te marcado, te dado assim uma satisfação, uma alegria em particular.


R: É, em relação a esse conjunto de atividades que acontecem na Maré hoje, a gente percebe que, primeiro assim que [em] dez anos houve um crescimento muito forte de trabalhos realizados por Ongs. Normalmente, assim, isso é uma coisa que não tinha muito, no início da década de noventa, oitenta, isso não tinha. Então houve um crescimento na oferta desse tipo de atividade, né. Que por um lado é bom, por outro tem algumas questões, né. Aí eu acho que no caso do CEASM? O Ceasm cumpre muito o papel de tá qualificando esses trabalhos. Como a gente tem um compromisso muito forte com a qualidade desse trabalho, com essa mudança política maior, né, na verdade, a gente fala isso hoje assim, nosso objetivo não é fazer pré-vestibular, não é fazer Programa de Criança, não é prestar serviços, os mais interessantes possíveis. O que a gente queria, quando a gente faz essas coisas, elas são instrumentos pra a gente tá colocando foco numa questão que é essa questão de nas favelas você não ter essas possibilidades, né. Então a escola na favela normalmente é ruim, a creche normalmente é feita com material de péssima qualidade. E a gente, na verdade, tenta contrapor isso tudo, então se você for no Ceasm as instalações são muito boas, a tinta que é colocada lá é uma tinta boa, a sala de aula é uma sala de aula decente, né, clara, bonita, com as cadeiras bonitas. Quer dizer a gente tenta trabalhar essa coisa estética, né, visual, por que? Porque isso, porque a gente quer criar um outro paradigma em relação ao que é feito em termo de trabalho nas favelas, né. As pessoas oferecem menos porque é pra favela. Então isso a gente vê que o nosso trabalho acaba influenciando uma outra visão sobre essas políticas ou essas iniciativas que vão pra favela. Então pra mim uma coisa importante desse trabalho, não é só essa questão estética, obviamente, mas é o que tá por trás disso né e, é,que é muito importante que a gente consiga trabalhar essas representações, né, e vencer alguns desses preconceitos que a gente percebe muito claramente na nossa sociedade, né, e que os moradores de favela sofrem muito. Então o Ceasm cumpre um papel muito importante nesse sentido de tá colocando foco nessa questão e de tá dizendo assim “olha, a gente faz isso aqui, isso aqui é bom, mas a gente não é coitadinho, entendeu. A gente sabe dos nossos direitos, e o que a gente quer é dignidade, enfim, e oportunidade”. Então isso é um aspecto que eu acho importante. O outro é que hoje você tem mais de 140 instituições atuando na Maré, seja do poder público, privado, organizações não governamentais, comunitárias, enfim. E aí seria muito importante que a partir desse processo de reflexão sobre a Maré ou de identificação desse diagnóstico, né, da realidade, a gente pudesse pensar como aquela região poderia se desenvolver. Então a gente tem desejo de um dia construir com essas instituições um plano de desenvolvimento local pra Maré. Não um plano de desenvolvimento local que considere apenas a questão econômica, mas que leve em consideração a questão social, a questão ambiental, né, a questão dos direitos, né, questão da participação, e a questão econômica que é fundamental, né, pra sobreviver também. E aí esse é um dos desejos que a gente, é, quer e que a gente tá trabalhando pra isso. E eu acho que o Ceasm nesse caso, a gente fez um catálogo de instituições, né, lançou um catálogo, a gente tá lançando agora um caderno sobre as empresas da Maré. Então quando a gente faz, toma essas iniciativas, a gente percebe que a gente tá criando um outro conceito e uma outra forma de se trabalhar ali na região, né. Então eu acho que o mais importante é isso. A gente já tem 450 jovens na universidade nesses sete anos, ótimo, mas, além disso, a gente precisa, além da questão individual, pensar nessa questão coletiva, que é a mudança no bairro né, como um todo. E em relação a essa questão de projetos, acho que o que eu acho importante, é assim, o pré-vestibular é um projeto pra mim muito importante, porque quando o aluno chega no pré-vestibular, ele toma consciência, um pouco, da vida dele. A gente tem essa proposta, trabalha assim, e da realidade que ele vive, né. Então é aonde a gente trabalha essa perspectiva dele se inserir não só no desejo individual de ir pra universidade, conseguir um bom trabalho, mas é o momento que você coloca pra ele outras possibilidades. E a gente tem um retorno muito positivo disso, né. A gente vê que hoje você tem jovens da Maré que tão, que pegaram creches que estavam fechando e tão dirigindo essas creches, criaram uma outra ONG e são, é um filósofo, uma pedagoga, uma nutricionista, uma psicóloga, são moradores ali da Nova Holanda que pegaram esse desafio de gerir uma creche que tava fechando, né. Isso é resultado do nosso trabalho. Então o pré-vestibular, ele tem essa possibilidade de muito rapidamente dar um retorno à comunidade, né. Então, isso é muito estimulante, você perceber esse processo que acontece, né, aqueles grupinhos de jovens hoje indo pra biblioteca, indo pro cinema, pro teatro. Você vê que tem uma formação acontecendo ali, que a médio prazo isso vai trazer uma mudança e talvez seja aquela mudança que eu pensava inicialmente, que só fazendo a parte física não dava. Então, é um projeto muito estimulante pra mim, e que dá força a outros todos. Porque hoje essas pessoas hoje trabalham nos outros projetos, né.


P2: Eliana, além dessas funções que você define como de militância, você dá aula em universidade e tá fazendo seu doutorado. Fala um pouco dessas duas experiências pra gente.


R: É trabalhar na universidade pra mim sempre foi uma coisa assim, é, um tanto... fora do, da minha..., assim eu me sentia um pouco deslocada, na verdade. O termo é esse, assim, um certo desconforto, apesar d’ eu tá universidade desde oitenta e sete, e ser um espaço que eu sempre tive muita liberdade de trabalho né, sempre fui respeitada. Mas assim, eu investi pouco nesse caminho acadêmico pra dentro da universidade. Meu desejo, minha energia, eu seria falsa se falasse outra coisa. Minha energia sempre foi muito canalizada pra trabalhos dentro de favelas, espaço popular e pra trabalhar com aquela clientela, ficar dando aula pra filhinho de papai, isso nunca foi o meu desejo. Tanto que eu trabalho, hoje eu trabalho na Pró-Reitoria de extensão, é, com projetos ligados à favela. 


[risos]


R: Fazendo projetos pra favelas.


P1: De alguma maneira voltou aí pro seu foco de interesse.


R: É, tanto o trabalho em projetos de pesquisas e trabalho de intervenção pra favela.


P2: Mas é em qual universidade?


R: Federal do Rio de Janeiro. Então, é, então essa experiência pra mim, é uma experiência importante dentro daquele campo de que é um lugar que eu também posso chegar, se eu quiser. Então tem uma coisa de satisfação pessoal, no sentido de que muita gente tem medo de chegar na universidade, né, aquela academia, aquela coisa acadêmica, do que aquilo representa.


P1: Você entrou pra dar aula na universidade? Aí foi...


R: Não, não. Na verdade, estudei na UFRJ, depois fui, comecei a trabalhar depois que eu terminei. Entrei pra UFRJ como estudante né, depois que eu fui trabalhar. Eu terminei a faculdade em oitenta e cinco, e depois, dois anos depois que eu comecei trabalhar. Mas assim, o que eu falo é que assim, é um espaço ainda muito distante das pessoas, né. É um espaço que as pessoas não se sentem muito identificada, e eu não sou exceção nesse sentido. Mas assim, pra mim sempre foi um espaço muito acolhedor, sempre me senti muito bem, porque é um espaço de aprendizagem, né, importante. E, mas como eu sempre tentei fazer o que eu gosto em qualquer lugar, em algum momento na universidade eu fiz menos porque eu tava muito envolvida fora, agora me ofereceram um cargo pra trabalhar com favela, com espaço popular, com formação de universitários que são de espaço popular. Então, são jovens que chegam na universidade e têm toda essa problemática pra se inserir naquele mundo acadêmico. Então, eu tô fazendo o que eu gosto também na universidade. Então isso eu gosto. Agora, assumir aquela coisa de professor, de ir pra sala de aula e lidar só com essa coisa da pesquisa longe da prática mesmo, isso não me caracteriza, né. Eu nunca me dispus a isso. Tanto que várias vezes eu pensei em fazer outra coisa e tal, mas, hoje eu faço o que eu gosto lá, e pro doutorado, também assim, foi numa perspectiva de dar uma parada mesmo agora, depois do CEASM. de ter trabalhado bastante pra estudar e dar outro rumo assim, talvez agora eu pense um pouco em conformar melhor essa questão de, da academia de escrever mais, tô num caminho mais assim, por isso fui pro doutorado. Porque agora eu acho que tenho que escrever um pouco mais.


P1: Mas a tua pesquisa tem relação com essa prática aí, com sua experiência nesses movimentos sociais?


R: Tem a ver com a Maré.


[risos]


R: Tem haver com a Maré, e tem haver com essa questão das instituições lá da Maré.


P2: E você tá fazendo doutorado onde?


R: Na PUC do Rio.


P2: Desde quando?


P1: Qual departamento?


R: Serviço Social, e eu comecei agora. Primeira aula foi anteontem.


P1: É?!


É?!


R: Tô novinha lá.


P1: Me diz uma coisa, eu sei que, você falou que a Puc tem um convênio com o pré-vestibular da Maré, né.


R: Isso, isso.


P1: E como é que você se sente lá vendo os alunos da Maré pela Puc? Você sente uma satisfação especial, um pouquinho responsável? 


R: Até ontem eu tava lá...


P1: Eles se integram bem? Como é que é isso?


R: Se integram. Alguns tiveram problemas, nos primeiros anos alguns tiveram problemas assim de, um certo choque, né, com aquela realidade, tudo muito fácil, né, pra quem tá lá e tal. Mas ontem aconteceu até uma coisa, eu tava tomando um café com uma amiga lá, da minha sala, chegou um menino bateu nas minhas costas e disse assim “ah, Jonantham”. Jonantham era do corpo de dança, era um menino de uma escola tal, “ah, se tá fazendo”, eu nem sabia, ele passou , tinha passado pra administração e tava lá, me viu e veio falar comigo assim, tal. Eu fiquei “olha que legal, não sei o que, tal, eu vou tá aqui segunda e terça”, aquela, né. E aí até quando ele saiu a menina falou “poxa, que legal né, ver uma pessoa que é lá da Maré”. Aí fiquei pensando assim, eu vi esse menino criança, agora tá aqui na Puc estudando. É uma satisfação muito, bom uma sensação muito boa, né, poxa legal que o nosso trabalho de fato, ele tem resultado, né. Assim, resultado concreto nas pessoas, né. Sem dúvida é uma satisfação assim muito grande assim, né, de ver isso e pensar “poxa, eu contribuí pra isso, né”. Mas, enfim.


P1: Humhum. Eliana me diz uma coisa, você hoje é casada, tem filhos?


R: Casada, tenho um filho, João. Tem quatorze anos.


P1: Um só. Humhum. E o quê que você faz nas horas de lazer?


R: Horas de lazer?


P1: Se é que as tem.


R: Eu quase não tenho.


P1: Então pula.


R: Não, não tenho assim, tenho poucas hora de lazer.


[risos]


R: Mas eu gosto de ler, gosto de cinema, né. Isso eu faço bastante, vejo muito filme em casa, né. E que mais? 


P1: Tem algum projeto que você gostaria de ver realizado?


R: Ah tem. Eu gostaria de, eu gostaria de me envolver com a cidade lá que eu nasci, Serra Branca.

[risos]


P: Você já foi lá?


R: Vou sempre lá. Esse mês de janeiro mesmo eu passei lá.


P: Humhum.


R: Houve a mudança da prefeitura e agora o prefeito quer. É uma pessoa que eu conheço, que é amiga e que tava assim, há cinco mandatos tentando ganhar lá a gestão, né. Porque lá tinha aquela coisa de coronelismo mesmo. Então eu tinha muita vontade de ajudar esse problema da seca. Uma coisa que tá na minha cabeça ainda, acho que ainda volto pra lá.


P1: Humhum. Então como última pergunta, eu queria que você comentasse o quê que você acha, né, da Petrobras tá fazendo um Projeto Memória da Petrobras? E se você gostou de ter participado desse projeto, né, de ter nos dado esse depoimento?


R: Ah eu acho interessante. Memória é sempre uma coisa muito interessante. [risos]. Registrar as coisas, né, acho que é uma coisa interessante. E a questão em relação ao projeto de memória, assim, como é que as pessoas vão se apropriar, a sociedade, desse projeto de memória. Então, mais importante que fazer, assim como é que as pessoas vão se apropriar disso, e aí como uma pessoa que tem uma ligação, né, que tem uma coisa com um projeto da Petrobras, que a gente pudesse um pouco se apropriar dessa história, é, pra tá trabalhando nesses projetos que a gente faz. Então, acho importante isso. Acho um investimento importante, é, porque muitos brasileiros não têm noção da importância dessa empresa, muitos brasileiros não sabem dessas ações que a Petrobras faz, e por isso que é tão importante pensar o quê que esse material vai produzir, né. Então, eu queria deixar esse depoimento que seria importante tá pensando além de alguma coisa na Internet, alguma que, pessoas que não têm acesso à Internet, pudessem também se apropriar disso. Então, os programas que a Petrobrás apóia, eu trabalho com duas mil crianças, sei lá, um conjunto de pais, um, como é que a gente poderia de alguma forma tá, é, trabalhando essa história, e, as razões, porque a Petrobras tem razão de fazer isso que faz, né, em relação à questão social. E acho importante essa oportunidade de falar porque é uma outra voz, que não é de dentro da Petrobras, mas que a gente sabe que lida com a Petrobras de alguma forma, e que também se sente inserida, é, nessa empresa a partir desse trabalho, assim como pessoa, como brasileira. É uma empresa que eu tenho orgulho dela existir, se eu puder, de alguma forma com meu trabalho tá divulgando e falando, eu vou tá sempre fazendo, assim. Não só por causa do meu projeto, eu acho que a Petrobras tem uma importância que vai muito além do que a gente percebe do que a gente vê, né. Então, eu acho que essa coisa da memória, acho que é importante por isso, pela questão histórica que a Petrobras, é, tem no nosso país, assim, de importância.


P1: Humhum. Tá bom. Muito obrigada. Tem alguma pergunta que você queira...


P2: Obrigada.


R: De nada.

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