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História

A Moema dos anos 60

História de: Márcia Ovando
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/03/2010

Sinopse

Márcia conta sobre sua juventude no bairro paulistano de Moema, sobre suas amizades e brincadeiras e de como conhecia grande parte das celebridades que na época moravam ali. Os anos de ditadura militar foram muito difíceis para ela, pois seu pai foi preso político; fala do drama de sua família e, principalmente, de sua mãe que teve de batalhar muito para sustentar os filhos e tirar o marido da prisão. Mais tarde, conta sobre como foi a luta para se tornar uma mulher independente, em uma época em que os casamentos ainda eram muito conservadores. Hoje, observa como a cidade de São Paulo mudou muito rápido e escreve histórias sobre essa transformação no site São Paulo Minha Cidade.

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História completa

P - Bom dia, obrigada por ter vindo Márcia.

 

R - Obrigada vocês por estarem me recebendo.

 

P - Então, vou começar a nossa entrevista, é meio óbvio, mas vou pedir para você falar de novo o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R - Márcia Ovando. Nasci em São Paulo em 17 de junho de 1949, na Rua da Consolação eu nasci.

 

P - Nasceu em casa?

 

R - Não, nasci na Maternidade São Paulo.

 

P - O nome dos seus pais e o que eles faziam Márcia?

 

R - Meu pai era advogado e a minha mãe costurava vestidos de noiva, ela fazia.

 

P - Como eles chamavam?

 

R - Altivo e Tina. A mamãe fazia vestido de noiva – já tinha eu e a minha irmã – e ela pendurava, ela tinha um gancho no teto, ela pendurava o vestido e na escadinha ela trabalhava no alto pra gente não por as mãozinhas pra não ter o perigo de estragar.

 

P - (risos) E ela tinha um ateliê? Como era isso, era na casa?

 

R - Era mesmo no nosso apartamento que era pequenininho, mas a minha mãe era uma artista, então todo mundo procurava a minha mãe porque ela criava, ela mesma desenhava, fazia. Nesse período a gente ainda morava na Consolação, eu recordo muito pouco porque logo a gente mudou para a Rua 25 de Março esquina na Paula Souza.

 

P - Foi o lugar que você cresceu, passou tua infância?

 

R - Eu passei. Nós vivemos lá até os dez anos. Até dez anos a gente viveu na 25, esquina da Paula Souza. O prédio ainda existe, eu tenho umas primas postiças que se mudaram de lá – acho que faz uns três ou quatro meses – mas viveram lá praticamente até o ano passado.

 

P - O que você lembra dessa região nessa época, a 25 de Março já tinha essa coisa do tecido, como é que era?

 

R - A 25 era um lado só de tecidos, né, uma rua limpíssima, as lojas eram limpíssimas – eram aquelas prateleiras de madeira, com aqueles tecidos dobrados, organizados – e eles tomavam conta da criançada da rua, porque a gente brincava na rua, era normal porque não tinha tanto carro, tanto motorista. E eu recordo assim que a gente... todos conheciam a gente, então todo mês eles davam amostra dos tecidos pra gente – que eram amostras enormes – vinham catalogadas todas numa pasta de couro e ali dentro tinha amostra, mas eram amostras de panos enormes. Então, a mamãe e a tia Sofia – que era uma tia postiça da gente que morava no prédio e ficou muito amiga da mamãe – elas faziam as roupas pra gente, então todo final de semana nós tínhamos roupa nova, todas nós, e era com aquelas amostras que eles davam, eles davam pra gente fazer roupinha de boneca essas coisas. E eles tomavam conta mesmo da gente, qualquer coisa que a gente fizesse de errado, eles batiam o telefone e avisam: “As meninas estão fazendo não sei o quê”, mas era muito tranquilo. De final de semana a mamãe fazia a carne moída temperada e daí era levado na 25 que tinha um lugar chamado “O Forno”...

 

P - Forno?

 

R - Forno. Ia com a bacia aberta, levava a carne prontinha e coisa de 15, 20 minutos eles faziam as esfihas e o kibe, daí a gente trazia prontinhas pra casa.

 

P - Que coisa! Quem que era o seu grupinho de amigos, de amigas, assim, que você conviveu nessa época?

 

R - Então, nós do prédio tínhamos essas primas, que a gente virou primas postiças, a Sandra e Kátia e mais umas dez crianças do prédio – era uma meninada – e nós estudávamos no Grupo Escolar Prudente de Moraes ali na Avenida Tiradentes, que acho que lá do prédio pra lá devia dar uns cinco ou seis quarteirões. Nós tínhamos sete anos, eu sete e a minha irmã oito anos, nós íamos a pé, atravessávamos a Avenida Tiradentes, tinham os guardas que atravessavam a gente, tranquilo, a gente ia e voltava sem perigo nenhum. E nós tínhamos muitos amigos, fizemos muita amizade ali na Prudente de Moraes. A minha mãe sempre foi uma mãezona da porta aberta, então as crianças iam muito almoçar lá em casa, fazer lição de casa, brincavam e depois iam embora. E eu até hoje conservo uma amiga do grupo escolar, a Isolda, que estudou comigo e até hoje nós somos amigas, ela mora no Itaim, até hoje a gente conserva essa amizade. E o Grupo foi uma coisa muito importante pra nós, a minha mãe teve uma participação muito grande no Grupo, da Associação de Pais, então era um grupo muito limpo, muito organizado, minha mãe ensinava as mães a fazerem o tricô, a costurar pra poderem ganhar... Fazer o dinheiro fora e ensinou a fazer a canjica, a sopa que era dada na hora da merenda para as crianças que não tinham posses, então era um grupo que tinha... e isso tudo minha mãe conseguiu, minha mãe era muito participante, então ela conseguiu fazer um Grupo e trazer as mães, que participassem, que a gente mantivesse aquele Grupo sempre limpo, em ordem. É uma coisa muito marcante de viver esse grupo, até fui visitar umas duas ou três vezes ainda passei por lá...

 

P - Ainda há a escola?

 

R - Ainda existe o Grupo lá.

 

P – Olha. E os professores, Márcia?

 

R - Os professores eram queridos demais e até hoje eu tenho os livros que eles me deram no meu aniversário de quinze anos que eu convidei todos, tenho livros escritos por eles. Eram professores queridos demais.

 

P - Tinha algum especial, que você gostasse mais da matéria? Quem que era?

 

R - Era a Maria Aparecida Rangel que é uma pessoa, assim, que nunca esqueci, que foi importante na minha vida. Era uma coisa assim tão tranquila e eram muitos alunos... nós somos em quatro mulheres e o meu irmão é o caçula, né, que quando meu irmão nasceu, a diretora subiu no palco que tinha, no palquinho, pegou o microfone e falou: “Hoje ninguém mais vai ter aula, é só brincadeira porque nasceu Altivo Ovando Júnior”, porque era uma coisa tão esperada por todo mundo, porque eram quatro filhas, então era tudo assim um momento que era celebrado. Então, assim, eu tenho grande recordações do Grupo.

 

P - Tinham muito alunos ou era um grupo menor?

 

R - Eram muitos alunos e tinham pessoas... nós estávamos ali bem perto do bairro dos judeus?

 

P - O Bom Retiro.

 

R - O Bom Retiro. Então tinha muita gente, tinha uma mescla de tudo, árabes, tinham os judeus, era mesclado, mas era um grupo grande com vários alunos. Depois nós mudamos, nós saímos da 25 e fomos pro bairro que chamava Jardim Novo Mundo que hoje é Moema, é um pedacinho pequeno que chamava Jardim Novo Mundo que nunca pode construir prédio, até hoje não pode...

 

P - É só residência?

 

R – Então, daí a gente mudou pra lá para um casa que foi uma tortura, choramos demais, nós fomos pra lá, a rua não tinha asfalto, entendeu, a casa toda demolida, e a gente chorou demais porque era um outro mundo, na 25 a gente era dona do pedaço. Foi uma coisa assim sofrida e eu lembro papai dizendo assim: “Não, a casa vai ficar bonita, nós vamos arrumar, vai ficar tudo”... e lógico que depois de alguns meses a gente já tava apaixonada, adaptada. E a sensação eram os aviões, em cima tinha um terraço e a gente nunca tinha visto avião tão de perto, então cada vez que a gente ouvia o primeiro barulho – que era só de tempo em tempo o avião – a gente subia e era como se passasse perto da gente, né, e logo a gente foi se adaptando e fizemos grandes amigos e daí essa época eu já fui para uma escola estadual na Avenida Indianópolis, o Alberto Levy, fomos pra lá estudar na escola estadual que até hoje também tenho grandes amigos, fazemos festas a cada dois anos, a gente faz festa, reúne o pessoal.

 

P - Vamos voltar só um pouquinho só para entender direito: quando vocês foram para o Parque Novo Mundo, lá em Moema...

 

R - Jardim Novo Mundo.

 

P - Por que vocês foram pra lá? Por que para essa casa que você falou que era meio demolida? O que que aconteceu, Márcia?

 

R - A gente morava em apartamento, aí nós já tínhamos tido o quinto filho. Então meu pai teve a possibilidade de comprar esta casa, de vender o apartamento e ir para uma casa maior com quintal, né, e que nós ficaríamos mais acomodados. E a casa tinha sido, acho que tinha sido alugada durante muitos anos, ou quem morava, o proprietário não cuidava, então era uma casa que estava muito judiada, muito judiada, lembro que foi assim um bom tempo pra gente morando lá e papai fazendo a reforma da casa. E o que mais a gente estranhou foi porque as ruas não tinham asfalto então pra gente era o meio do mato, entendeu, e isso a gente estranhou demais.

 

P - Tinha quintal?

 

R - Tinha um bom quintal e tinha o galinheiro, né, tinha uma horta e depois tinha na lavanderia... eu com 14 anos... com 12, 13 anos eu comecei a alfabetizar as empregadas da rua, então, na lavanderia minha mãe fez um tipo de uma escolinha, uma sala de aula e a noite eu ficava... todo o pessoal do bairro que trabalhava a noite eles iam pra casa. E, paralelamente, tinha um salãozinho que minha irmã fez uma escolinha de criança, de pequenininhos, de maternal, mas todos nós éramos todas novinhas.

 

P - Adolescentes, assim?

 

R - Adolescente. Era um outro mundo. Atrás de casa tem um grupo até hoje, um grupo escolar e eu tinha 14 anos e quando faltava, o pessoal sabia que eu fazia aula de alfabetização, então no dia que faltava professor eles iam lá em casa bater palma, mas era assim batia palma: “Dona Tina a Márcia tá aí? Fala pra ela que a professora não veio”, daí eu ia e ficava fazendo desenho, palavra cruzada, com a classe – era classe de 40 alunos, 20 alunos sei lá – e era uma coisa impressionante, acabava – eu era menina, tinha 14 anos 15 anos – a diretora vinha e me pagava, “olha o seu dia está pago, muito obrigada”. E isso era uma coisa constante assim.

 

P - Olha só! Fala um pouquinho do seu pai, ele é advogado?

 

R - Meu pai é advogado, muito intelectual, engajado politicamente, foi preso político em 64 meu pai.

 

P - É mesmo?

 

R - Então, quando nós mudamos pra lá nós sentimos um pouco porque lá na 25 a gente era dono do pedaço, conhecia todo mundo, lá as pessoas já eram assim meio de nariz em pé, então a gente teve uma certa dificuldade... pouca porque os meus pais tinham sempre a casa aberta, então quando se dava festa em casa convidava-se a rua inteira e isso foi aproximando todo mundo e logo a gente ficou com muito amigos. E aí estudando no Levy, que pra gente foi muito marcante também, tive grandes mestres, grandes professores, amigos até hoje...

 

P - E aí vocês passaram a se deslocarem bastante na cidade? Como que era esse deslocamento pela Indianópolis...

 

R - Pela Indianópolis, daí a gente já não tinha... a 25 foi ficando pra trás, o pessoal de lá que vinha pra casa, pra visitar, pra almoçar com a gente, mas a gente já não... a única coisa que a gente ainda mantinha era ir ao Mercadão, que isso já era tão hábito do papai e da mamãe de comprar as coisas lá que com isso durante muitos anos ainda manteve, mas o pessoal de lá que vinha mais visitar. No fim eles acabaram sentindo muito mais a mudança da gente e, a gente, a turma da rua era muito grande, nós ganhamos bicicleta – foi um presente maravilhoso – então a gente pôde desvendar Moema, todo aquele bairro todo, a Avenida dos Bandeirantes tinha uma tábua que gente punha e atravessa com a bicicleta, que era grande aventura pra fazer piquenique do lado de lá.

 

P - Como é que era Moema nessa época? Você falou que a sua rua não era asfaltada, mas...

 

R - Logo asfaltaram a rua. Era um lugar muito tranquilo, muito sossegado, na Avenida Ibirapuera ali a esquina se chamava Vila Helena que era a parada do bonde, onde o bonde passava. Nós fizemos admissão na Vila Mariana e a minha avó ficava esperando a gente, meio dia ela ficava na parada Vila Helena que era ali na Eucaliptos, esperando a gente pra gente descer do bonde. Era um bairro muito tranquilo, tinha muito europeu e casas grandes, muita gente mora lá até hoje no bairro, eu tô sempre lá tomando café num, tomando café no outro, tem muita gente da época dos meus pais que já são falecidos, mas muita gente da época dos meus pais ainda vive no bairro.

 

P - E lugares assim pra sair, essas coisas, tinha já em Moema, ou não?

 

R - Não, não tinha. Depois...

 

P - Era bem residencial?

 

R - Bem residencial, bem residencial. Eu lembro que era uma coisa que de vez em quando a gente ia comer uma pizza, acho que era a 1060 no Brás, a cantina que tinha, mas não tinha nada por lá. Tinha o Windhuk que era um bar típico, que até hoje é um restaurante famoso, mas não tinha. Só depois de muitos anos que foi feito, há alguns anos o Ibirapuera, o Shopping Ibirapuera, mas não tinha assim, era um bairro bem residencial mesmo.

 

P - E Márcia, assim, na sua casa como que era o cotidiano? Esses cinco irmãos, mais a avó que morava junto, como é que era, você disse que ela ia esperar vocês no ponto do bonde. Como é que era esse cotidiano?

 

R - Era uma casa festiva. A gente fez admissão porque pra entrar na escola estadual você tinha que prestar esse exame, né, minha irmã já tinha entrado, que ela era um ano mais velha daí eu tive que esperar porque só tinha 14 anos e tinha que ter 15 anos. A gente foi pro Levy, do Levy não existia condução, então papai quando saía pra trabalhar deixava a gente no Levy, mas depois de algum tempo é que surgiu um ônibus que saía praticamente da Indianópolis e vinha por Moema e subia a Canário, que era praticamente só para os alunos do Levy, alunos e professores. Então, cada ponto ia descendo uma turminha, que era praticamente para os alunos do Levy, porque não tinha uma condução assim. Então, sempre que a gente voltava do Levy a gente voltava com três, quatro amigos, então a casa da minha mãe sempre tinha dez, doze pessoas pra almoçar. Era uma mesona grande, com comida gostosa, feita com muito carinho e sobremesa. Eu tive também primos que vieram de outros lugares: um de Ourinhos que morou em casa, entendeu, prima que veio também de Sertãozinho pra estudar e que morou, então sempre tinha um que morava seis meses, oito meses, era uma casa assim sempre cheia de meninada. Meu pai era muito festeiro, então festinha de formatura sempre a minha casa estava à disposição a gente podia usar, podia fazer as festas em casa. Então era uma casa que sempre tinha muita gente, minha avó não morava junto, mas ela sempre estava quando os meu pais viajavam, ela ficava bastante tempo com a gente... ou vinha passar uma temporada. Foi uma avó presente na nossa vida...

 

P - Mas ela morava aonde?

 

R - Ela morava na Rua Tupã, em Santa Cecília.

 

P - Ela passava essas temporadas (risos)?

 

R - Ela passava um pouco em casa, tinha uma tia que morava na Vila Mariana que também era filha dela e ela morava um pouco lá, então de vez em quando ela ia para dar uma mão, somente em casa que era filho demais então era muito filho, ela vinha ajudar.

 

P - Como que era esse cotidiano dentro da sua casa com esses primos, vocês acordavam que horas, como que era esse almoço gostoso com a sobremesa?

 

R - A gente acordava às seis horas da manhã, cinco filhos pra tomar banho então você imagina, era rapidinho. Os meus filhos até hoje, meu neto, estive em Curitiba e ele falou “Vovó, você toma banho muito rápido”, falo “porque nós éramos em cinco, mais meu pai e minha mãe sete, para tomar banho você tem que ser rápida mesmo”, tomar banho mesmo. Então, já o café da manhã era uma bagunça, era uma brigaiada, já começava com briga porque era filho demais; o almoço era uma coisa muito... porque a gente vinha no ônibus sabendo os dias que tinha comida, né, na terça e na quinta era macarronada, na sexta era o peixe porque era o dia da feira, então a gente sabia, a gente vinha no ônibus já comentando que o almoço era uma beleza e de sobremesa sempre era arroz doce, doce de abóbora, entendeu, e sempre vinha algum vizinho pra tomar um café e acabava comendo a sobremesa. Todo mundo ajudava, ajudava a lavar a louça, ajudava a tirar... minha mãe sempre teve quem ajudasse, mas a gente sempre tinha que colaborar, a gente sempre tinha que ajudar.

 

P - E teve só um irmão?

 

R - Só um irmão.

 

P - E tinha diferença nas tarefas dele para as tarefas das meninas? Ou ele era o principezinho assim da família?

 

R - Não, ele foi muito principezinho, ele só não virou príncipe depois quando ele foi morar em Campinas quando ele foi pra fazer a faculdade que daí ele teve que se virar, mas ele foi principezinho...

 

P - Ele foi o caçula?

 

R - Ele teve, até hoje ele diz que ele teve cinco mães, né? (risos)

 

P - (risos) Vocês tomavam conta dele?

 

R - Tomava. Porque não tinha jeito, a mamãe dizia: “Pode sair pra passear, pode sair pra namorar, pode sair pra ir ao cinema, mas cada uma tem uma tarefa”, uma cuidava, outra fazia não sei o quê, então não tinha jeito; tinha que cuidar, levar na escolinha, levar no parquinho. Então ele foi bem mimado mesmo, foi bem mimado mesmo, bastante. Então a gente viveu assim muitas coisas, assim, vivemos o período que o meu pai foi preso em 64...

 

P - Então, quais recordações que você tem, tinha noção dessa participação política dele, antes dele ser preso, como que é isso?

 

R - Papai sempre teve uma participação política, a gente sempre teve, sempre escreveu em jornal de escola, sempre participou de grêmio. E na época que o papai foi preso foi muito difícil, porque na própria rua a gente teve muito preconceito de pessoas que até deixaram de cumprimentar, né, mas nós tínhamos uma formação, nós éramos muito firmes, né, tivemos uma formação muito boa dos meus pais, e a gente levanta o nariz e saía. A gente era seguido, nós fomos seguidos, íamos para a escola com gente atrás da gente – a gente sabia – telefone grampeado, tivemos problemas na escola também. No Levy, uma professora muito da direita, muito reacionária, uma professora de Francês, e no Levy nós tivemos vários pais de amigos que tinham sido presos também, né, que eram presos políticos, então, na minha classe mesmo acho que nós éramos em nove, e a professora Carmem – acho que durante três ou quatro aulas – ela entrava na classe e ela dizia: “Eu quero que se retirem os filhos desses que estão presos, que não valem nada”, ela fazia um discurso, ela chegou a fazer isso umas três vezes até que a minha mãe foi na escola.

 

P - Você saiu da sala?

 

R - Então, nós saímos as três vezes, nós saímos até que a mamãe foi na escola. Foi na escola e disse que ia chamar o jornal e chamar todo mundo e reuniu todo mundo e daí nunca mais ela pôde abrir a boca pra falar nada. Mas a gente sofreu com essa professora, eu lembro que todos nós sofremos demais, sofremos bastante mesmo. Nós tínhamos, na época eu tinha uma grande amiga, a Cisira, que estudava comigo, que o pai dela foi... ele era aviador e ele foi inclusive morto no próprio ar, puseram uma bomba e ela ridicularizava mesmo na sala de aula. Os amigos não, porque eram pessoas, no Levy estudavam pessoas de cabeça muito aberta muita gente de esquerda, filhos de jornalistas, de advogados, de médicos, então não tivemos problemas com amigos, colega, né, tivemos mais com essa professora e mais uma ou outra, entendeu? E na rua, assim, alguns que nós tivemos problemas, alguns vizinhos, mas que não nos afetaram, entendeu, a gente soube lidar bem com isso e vivemos, foi um período difícil pra todos nós...

 

P - E como que você soube que seu pai foi preso? Quanto tempo ele ficou preso?

 

R - A gente soube porque o papai ligou, né, ligou do escritório, eu lembro que até eu que atendi brincando – porque meu pai ligava quatro, cinco vezes pra saber da gente e falava com todos os filhos – e eu lembro que eu ainda fiquei brincando com ele e ele dizia: “Chama a mamãe porque eu preciso falar sério”, mas eu achando que ele tava brincando e daí foi que ele falou pra mamãe que ele tava sendo preso. Então foi um período pra gente muito difícil, muito complicado mesmo porque alguns amigos do papai já tinham ido, já tinham sido torturados e alguns morreram, alguns advogados, alguns acabaram com a cabeça da pessoa, então foi um período difícil e que a gente teve que enfrentar, a gente acabou amadurecendo mais rápido, entendendo a vida melhor, ninguém ficou com sequelas, entendeu, de nada, mas foi uma época difícil porque a gente era muito menina, né?

 

P - O que o seu pai falava desse período assim da ditadura? Ele falava com vocês?

 

R - Ele falava, a gente conversava bastante em casa, meu pai era um homem politizado então a gente conversava muito, a gente conversava muito sobre política, né... o papai foi advogado de muitas pessoas, da Clara Scharf, de várias pessoas,  então ele defendeu muito as pessoas, então, até foi uma das razões da prisão dele, né? Até que depois, foi feito o movimento de todo mundo, inclusive da Esther Figueiredo de Ferraz que estudou com meu pai e muitas pessoas e papai foi solto – até pela minha mãe. Minha mãe não saía do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social], ela dizia pro delegado: “não adianta porque eu não saio daqui, eu vou começar a morar aqui com os meus cinco filhos”. E foi uma luta mesmo, porque o medo da gente era esse, né, quer dizer tinha o período para tirar o papai, se não tirasse a coisa podia piorar, escapar como aconteceu com muitas pessoas.

 

P - E quanto tempo ele ficou preso? Você tem uma ideia?

 

R - Você sabe que foram alguns meses, eu não sei ao certo, até tentei falar com a minha irmã pra saber, porque é ela que tem a cabeça melhor assim, mas foram alguns meses.

 

P - E como que ficou o cotidiano da casa assim nesse período?

 

R - Ah, ficou complicado, ficou...

 

P - De sustentar a casa, como é que ficou?

 

R - Minha mãe tinha, minha mãe era assim, tinha tudo muito sobre controle, entendeu, e foi muito difícil porque passou a ser tudo controlado, né, o dinheiro, as coisas, a comida, todas as coisas; a minha mãe ausente o dia inteiro, porque minha mãe ia mesmo, atrás de habeas corpus, atrás de ficar lá de manter contato com meu pai, pra não deixar que ele saísse de lá, porque o perigo era sair de lá, né, e daí não se sabia pra onde tinha ido e a gente era muito maduro, então a gente começou a cuidar da casa, a gente que organizava, que cuidava dos irmãos, um do outro, mas foi difícil, foi um período difícil assim...

 

P - Eu imagino.

 

R - Foi bem difícil.

 

P - E quando ele saiu?

 

R - Ah, foi uma festa. Foi uma festa muito, muito grande. Muito, muito, muito, foi muito bom.

 

P - E como que vocês ficaram sabendo? Ele ligou, você estava lá no DOPS? Como é que foi?

 

R - Então, não, ele chegou mesmo em casa, ele chegou mesmo em casa, de surpresa, bem magro, abatido, lógico, chorando muito – viu muita coisa – mas foi assim, foi um dia inesquecível, foi um dia inesquecível pra gente. E que acabou firmando mais a gente, amadurecendo mais até as posições políticas de todos nós.

 

P - Que bacana. E ele conta alguma coisa assim, desse período, ele contou?

 

R - Contou, contou muita coisa. Ele contou bastante coisa, mas como meu irmão vai vir dar o depoimento, eu vou pedir a ele que ele conte essa parte, porque ele também faz parte da política, então eu pedi que ele ficasse com essa parte.

 

P - Mas ele é ativista político, seu irmão?

 

R - Ele já se meteu em muita confusão já (risos). Então, eu falei pra ele falar mais dessa parte quando ele vier.

 

P - E como foi a retomada da vida?

 

R - A retomada da vida, isso foi em 64...

 

P - Ele continuou advogando?

 

R - Ele continuou advogando, perdeu alguns empregos, porque ele era advogado também de sindicato, ele perdeu os Marceneiros e Tecelões, ele perdeu o emprego como... todos eles, o Rio Branco, o papai, o Paranhos, todos eles perderam emprego do sindicato, acabaram ficando com um, dois sindicatos. Meu pai era advogado trabalhista, né?

 

P - Os sindicatos estavam aliados com o Governo, não? Ou não necessariamente?

 

R - Não, porque foi feita uma caça mesmo, né, aos advogados então muitos foram mesmo despedidos, tiveram que ser despedidos. Então daí a vida foi retomando, a gente estudando, tendo mais participação até em coisa de jornal, em grêmio, e a vida continuou. Eu me casei em 71 – acho que eu me casei em 71 – nós fomos nos casando e papai e mamãe ainda viveram na casa até 80, 81, depois a casa ficou muito grande pra eles, né, a mamãe começou a ficar muito triste, muito triste e conversando – acho que com o médico ou alguém da família, não sei – disseram que o ideal seria que eles mudassem mesmo pra uma coisa menor, um bairro com mais comércio, pra mamãe não se sentir tão sozinha e, realmente, foi uma benção. Porque a mamãe já tava numa depressão lá na casa – e o meu pai resistiu muito, ele não queria mudar de lá, lógico tinham as plantas, tinham as árvores era um lugar muito gostoso, mas daí a gente pôs pé firme de mudar e, realmente, pra minha mãe foi ótimo porque ela acabou renascendo, ela foi para o Itaim que era um lugar que tinha de tudo...

 

P - Que rua do Itaim?

 

R - Na Pedroso Alvarenga. Então pra ela foi muito bom ter ido pra lá. A casa da minha mãe ainda existe, uma das minhas irmã ficou com a casa. Lógico, que ela mudou, hoje é uma nova casa, mas ainda é a casa...

 

P - Que altura do Itaim?

 

R - A casa é em Moema.

 

P - A sua irmã ficou com a casa de Moema?

 

R - Com a casa de Moema, então ela modificou a casa, mas cada vez que a gente entra lá é essa coisa que você sabe que... é a casa...

 

P - É o lugar.

 

R - É o lugar.

 

P - Então, vamos falar um pouquinho da adolescência, antes de você conhecer o seu marido. Os lugares que vocês começaram a sair à noite, como que era essa saída de adolescente pra moça e começar a sair à noite, a paquerar, aonde vocês iam?

 

R - Então, papai era uma pessoa assim de cabeça muito aberta, a gente vivia em teatro; vivia em cinema; todas as coisas que existiam de arte e de exposição nós estávamos sempre; Ballet Russo que vinha, os Bailados que vinham de fora a gente tava sempre. Mas o papai não era muito aberto pra gente sair à noite, tinha aquele horário (risos). Tinha que estar em casa às nove horas, então não tinha jeito, a gente ia às oito e às nove tinha que estar em casa – quando eram em casa as festinhas, podia acontecer. Mas a gente não saía muito assim, entendeu? A gente começou a sair assim – e eu tenho impressão, acho que com 16, 17 anos – mas assim, de ir ao cinema à tarde depois do almoço e voltava: ia no cinema, tomava um sorvete e voltava. Não tinha essa coisa de sair e era uma vez ou outra que tinham as festinhas de 15 anos, ou alguma festinha que a gente ia, mas também tinha o horário. A gente tinha uma outra vida: nós tínhamos um apartamento em Santos, então praticamente todo final de semana a gente ia. Era um apartamento pequenininho e até hoje eu não entendo: às vezes a gente se reúne e conversa como que a minha mãe conseguia ficar num apartamento, que era praticamente uma quitinete, com cinco filhos as férias inteiras, inteirinhas. E a gente ia e passava dois meses lá, era um lugar que cabia o fogão, entendeu, tinha a sala, tinha o quarto e não tinha mais nada. E ali ela lavava, ela passava, ela cozinhava, ela ia pra praia com todos nós. Então a gente pensa, a gente diz “não, como que era possível tudo aquilo?”. Então a gente tinha uma vida mais assim, entendeu? Depois, quando – não me lembro porque – não, antes do apartamento... deixa eu pensar aqui... a gente teve um sitiozinho, uma casa de campo em Diadema – que era mato, mato puro – Então, todo final de semana a gente ia, então não fazia muita falta essa coisa que a meninada do Levy, as nossas amigas já saíam e não era também como hoje que sai, era uma coisa mais light, entendeu? Então a gente tinha esse sitiozinho que a gente ia mesmo, plantava, entendeu, e andava descalço, isso era a vida da gente, era isso. Depois, vendeu-se lá e teve o apartamento de Santos, em São Vicente, que foi uma coisa muito curtida pra gente, já era curtida a viagem, porque demorava-se uma semana para poder fazer mala de cinco filhos. Meu pai tinha um desses Fords grandões, então uma semana antes já tinha que organizar a mala de todo mundo pra caber dentro do carro, né. Então, a viagem era tão longa que a mamãe fazia o lanche, entendeu, pra gente, num determinado ponto a gente parava, tomava o lanche e seguia – porque era uma viagem muito longa até São Vicente, era uma coisa muito, hoje a gente dá risada com isso – então a gente tinha muito essa vivência com os meus pais, né, e assim mesmo a gente sempre levava uma ou duas amigas para o apartamento, para o minúsculo apartamento, a gente ainda levava. Foi uma época muito boa essa de São Vicente.

 

P - Como que vocês se organizavam para dormir? Você falou que era um quarto só, dormiam na sala?

 

R - Eu lembro que tinha um sofá-cama, aquele enorme, aquela coisa gigante que nunca mais eu vi desse tipo de sofá-cama que você abria e cabia os seis ali (risos). Então o papai e a mamãe, meu pai vinha de final de semana e dormia o meu irmão no quarto deles e nós dormíamos no sofá, nós dormíamos as quatro, porque era uma coisa muito grande, que você abria aquele monstro, então a gente montava a cama e dormia ali. Era no primeiro andar, então de vez em quando os meninos iam fazer serenata pra gente, quando a gente já tinha uns 14, 15 anos a meninada vinha fazer serenata lá, os meninos amigos da gente. Até hoje eu não sei como que a minha mãe dava conta de fritar peixe, de fazer comidaiada – a gente comia direitinho, não tinha essa coisa de lanche como tem hoje – você toma o lanche – era comida mesmo; quando papai vinha no final de semana, e eu lembro assim da minha mãe, uma época que a gente pegou, assim, acho que foram 15 dias de chuva, chuva, chuva – imagina o apartamento minúsculo – lá embaixo era um lugar pequenininho que juntava toda a meninada, mais brigava do que brincava – roupa não secava, nada e eu lembro da minha mãe abrindo o lençol, colocando toda a roupa dentro, fazendo um nó, entendeu, chamou... naquela época era Zefir o carro que fazia o táxi, ligou para o papai e disse: “Eu tô indo embora com todo mundo porque eu não fico mais aqui ”. E nós viemos embora pra São Paulo, acho que era Zefir que chamava o táxi especial que fazia São Vicente São Paulo.

 

P - Por que não tinha condições de ficar?

 

R – Não, não tinha, era chuva acho que foram 15 ou 20 dias de chuva. Agora me veio, falei do táxi, quando a gente estudou no grupo escolar nós fazíamos o Municipal, eu e a minha irmã, o balé ali no Viaduto que também a gente ia a pé – era uma boa caminhada – a mamãe ia com a gente, nós íamos e depois na volta a gente tomava a lotação – acho que vocês não conheceram a lotação...

 

P - O que era a lotação?

 

R - Então a lotação era aqueles carros, eram aqueles Fords antigos, todos cuidados e a pessoa dizia: “Lotação Vai pra 25, Paula Souza, Avenida Tiradentes”. Então quem fosse para esses lugares iam entrando e você pagava por pessoa, vamos dizer: devia ser... eu lembro que era uma coisa muito barata e todo mundo usava, devia ser uma coisa assim de dois, três reais por pessoa. Você ia sentada, daí você dizia “naquela esquina eu vou descer”, daí ele encostava o carro e as pessoas desciam. Então essa volta, a gente voltava de lotação.

 

P - Oh, Márcia, fala um pouquinho da Escola de Bailado? Como que vocês entraram na Escola, quem foram os seus professores?

 

R - Então, os meus pais sempre foram muito ligados à arte, a balé, essas coisas, e tinha o exame que você tinha que fazer. Era uma coisa muito concorrida e nós duas, eu e a minha irmã Mê – Mercedes, mas o apelido dela é Mê, e o meu apelido é Mai – a gente quis fazer, a gente pediu para o papai e nós fizemos, nós passamos, logo no primeiro exame a gente passou. Então, enquanto a gente morou na 25 – até os 10 anos – quando a gente mudou, a gente ainda chegou a fazer, mas daí ficava muito longe e nós pedimos para o papai que nós não queríamos mais continuar.

 

P - E quem foi a sua professora?

 

R - Marilena Asaldi, lembro o jeitinho dela. E lembro muito de uma pessoa que ia fazer aula e que é uma figura que não esqueço que é era linda, feminina, que era a Eva Vilma.

 

P - É mesmo?

 

R - Ela ia fazer aula de balé, acho que ela era adiantada ou já tinha feito toda, ela ia ter essas aulas avulsas e ela era muito linda, uma figura que eu não esqueço é a Eva Vilma, muito linda, muito feminina, super bem arrumada, lembro muito dela e um dos professores, um foi o professor Leão, era famoso também. Como que era o primeiro nome? Eu não lembro... e ela a Marilena Asaldi que a gente teve aula com ela.

 

P - Como é que era a aula da Marilena?...

 

R - Eles eram muito rígidos...

 

P - Depois ela foi muito para o moderno... a Escola de Bailado é bem clássica.

 

R - Bem clássica... eles eram bem rígidos. Primeiro que você tinha que saber ler partitura, era um absurdo, imagina hoje não existe, imagina o absurdo... e eles eram bravos porque você tinha que fazer a leitura, eu lembro que eu nunca aprendi aquele lá, tinha uma menina que me soprava. Então eles eram muito rígidos. Usavam aquelas varinhas, entendeu? Era assim uma aula bem rígida, não vou dizer que era uma coisa deliciosa não, mas a gente gostava, a gente tinha aquele sonho... não sei se porque a gente assistia todos os bailados, então a gente achava que a gente ia mesmo, era uma coisa que fazia parte do sonho da gente de um dia ser. Mas eram aulas rígidas, não eram aulas assim gostosas não, eram aulas bem rígidas – lembro que não podia conversar, não podia falar, entendeu, o uniforme tinha que estar impecável...

 

P - Como era o uniforme?

 

R - Era todo preto e se não me engano cada classe – tenho as fotografias depois eu passo para a Isabela – acho que se não me engano mudava o cintinho de elástico, eu acho, conforme a cor.

 

P - Que bárbaro.

(FINAL DE CD)

 

P - As aulas, você falou que eram muito pesadas e difíceis. Eram com piano, você lembra disso?

 

R - Era com piano. Tinha um senhorzinho que tocava e tinha uma senhora também, eles revezavam, cada aula era um que tocava. Era com piano, ao vivo. As salas eram enormes, eram bem grandes as salas... eu lembro que tinha alguma coisa do lanche que a gente levava, que tinha as crianças muito pobres, lembro da mamãe que sempre arrumava dois, três lanches a mais para as crianças – que tinha criança muito pobre – e a mamãe levava, eu lembro bem disso daí. Tinha um lugar onde a gente parava a aula e tomava lanche e – eu lembro disso – que a mamãe sempre levava dois, três lanches a mais...

 

P - E você falou que vocês tinham um sonho de um dia ser bailarina, porque vocês assistiam muito, né? O quê que vocês assistiam, Balé Russo?

 

R - Todos os Balés Russos, todos os Balés Russos que vieram nós assistimos assim, todos. Todas as peças de teatro que tinham nós assistimos, os meus pais levavam a gente, então nós vivemos muito isso daí. E balé no Municipal, as peças de teatro, filmes. Eu lembro como se fosse hoje eu assistindo Vidas Secas com meu pai, A Volta ao Mundo em 80 dias, eu lembro como se fosse hoje: a gente no cinema assistindo, entendeu? Então era muito presente isso. Exposição também, isso era tudo muito presente em casa nós vivenciamos muito tudo isso.

 

P - Tinha algum Balé que você gostava mais assim?

 

R - O Bolshoi era maravilhoso.

 

P - Mas tinha alguma peça específica?

 

R - Não lembro assim. Eu lembro assim que tinha um amigo do papai que eu acho que tinha feito algum trabalho para o Bolshoi e que conseguiu que a gente fosse... ela chamava Raíssa, a principal... e que a gente fosse no camarim conhecer. E eu tenho uma boneca russa que ela me deu até hoje, uma bonequinha russa mesmo até conservo na caixa mesmo. E lembro uma coisa curiosa: porque o papai saía do serviço e marcava com a mamãe no Municipal; eu lembro, de algumas vezes, alguém de dentro do Municipal passando a gravata para o papai – porque você só entrava se você estivesse de gravata e o papai sem gravata – então, alguém lá de dentro que a gente nem conhecia, mamãe pedia a gravata, a gente passava para o papai, o papai punha a gravata pra poder entrar. Era engraçado.

 

P - (risos) Só a prática também devia ser, né, de muitas pessoas?

 

R - Ah, de muitas pessoas. E outra coisa que tinha interessante, o irmão da mamãe, o tio João gostava de desenho animado, mas o adulto só podia entrar no cinema, né, no Centro da cidade, que naquela época era o centro da cidade que tinha o cinema, se tivesse com criança se não, não podia entrar...

 

P - Não?

 

R - Não. Então ele passava a semana inteira “pelo amor de Deus vocês têm que ir, eu compro bala, eu compro chocolate, um de vocês têm que ir”, porque ele adorava, era o mundo dele – ele era adulto e tudo – era o mundo dele era ir. Eu lembro que era a sessão da manhã, era às dez horas da manhã e eu sempre que acabava indo com ele, então ele passava a semana inteira pedindo pelo amor de Deus que alguém tinha que ir com ele, que ia passar Tom e Jerry e ia passar não sei o quê e que ele não queria perder. Mas só entrava se tivesse com criança se não, não entrava...

 

P - Se tivesse acompanhado de criança? Se fosse acompanhante.

 

R - É, se fosse acompanhante, se não, não entrava.

 

P - E que cinemas vocês ali vocês frequentavam, você lembra do nome de alguns?

 

R - Não lembro... na São João tinha um que era bem famoso, mas não lembro o nome. Eu lembro que era São João porque meu tio chamava João e toda vez ele dizia que se chamava João e que estávamos na São João, acho que lá tinha um cinema grande...

 

P - Tinha.

 

R - Então nós tivemos uma vida muito assim de livraria, desse tipo de eventos todos, de muita participação disso da vida cultural. Bibi Ferreira... o Paulo Autran trabalho com o meu pai no IAPI [Instituto de Aposentadoria e Pensões de Industriários]. Eu lembro também da gente indo a todas as peças do Paulo Autran, inclusive Édipo Rei, lembro que quando acabou a peça, ele se referiu: “Estou com um grande amigo Altivas Pimpolhas”, ele dizia, depois a gente foi para o camarim. Então todas essas peças a gente...

 

P - Você estava falando de Moema como um bairro que morava também muitos artistas.

 

R - Então, a gente ali era rodeada: ali na esquina de casa tem a praça grande que morava o Arrelia, morou a vida inteira lá, entendeu?

 

P - Pra quem é mais novo, vamos caracterizar: quem é o Arrelia? (risos)

 

R - Pra mim foi o palhaço mais famoso (risos) acho que era ele o Piolin, tinha mais alguns, mas ele era assim, ele tinha o Cirquinho do Arrelia que passava no domingo, acho que era domingo, acho que todas as famílias que hoje provavelmente assistem esses programas aí assistiam o Arrelia, o Cirquinho do Arrelia. Então, o Arrelia era famosíssimo, era uma pessoa querida do bairro, ele tinha o horário que ele saía a tarde e era uma coisa que a gente juntava dos dois lados e ele passava e a gente gritava “palhaço, palhaço, palhaço”, a rua inteira, ele ia atravessando a rua e a meninada gritando “olha o palhaço, olha o palhaço”. Daí nós tínhamos na Catuiçara, quase esquina ali na nossa rua, o Hervé Cordovil, que foi maestro, que tem músicas lindas, lindas e uma das músicas famosas dele é com o... com o sanfoneiro, como é que chama?

 

P - O Luiz Gonzaga?

 

R - O Luiz Gonzaga. Ele tem músicas lindas, então o Hervé foi pai do Ronnie Cordi, pra quem não conhece o Ronnie Cord foi da Jovem Guarda, cantou a música que era Ana Maria, o Biquíni... Ana Maria e o Biquíni de Bolinha Amarelinho e outras músicas... Rua Augusta. O Ronnie Cord nessa época já cantava, era um sucesso, era um rapaz lindo, então era uma casa sempre muito cheia de gente – o Hervé era um compositor famoso com piano e tal, ali sempre tinha gente esses cantores, entendeu? A Isaurinha Garcia morava ali na Ibirapuera também, era amiga do Hervé Cordovil, então a casa do Hervé Cordovil sempre tinha alguém tocando piano, alguém cantando, né? Na rua de baixo, depois de um tempo morou a Elza Soares e o Garrincha com todos os filhos, então era assim um acontecimento no bairro, porque uma vez por mês parava o caminhão da Cantareira, lá da Rua Cantareira, que era a rua dos cereais, que vendia, e deixava o saco de arroz, o saco de feijão porque ela tinha não sei quantos filhos, né, então tinha aqueles sacos enormes de comida. Morava a Nair Bello na Jalma Peri, então era um bairro assim de muita, muita gente, entendeu, da televisão. Perto, próximo dali morava na Quarto Centenário, mas que a gente tava sempre ali, o Golias. E tinha aquelas gincanas da Record que a gente participava, então como a gente conhecia toda essa turma, quando a gente precisava de autógrafos ou de fotografia com algum famoso então a gente tava sempre ganhando pontos porque a gente conhecia toda essa turma. Então era um bairro assim, muito alegre, era um bairro de... a família do Hervé Cordovil eles eram todos os meninos musicais demais, todos tocavam e cantavam, então em qualquer festa eles eram sempre convidados, a irmã deles que foi a menor cantora do Brasil, a Regininha Cordovil, que fez muito sucesso e não continuou a carreira política, até hoje a gente é amiga ainda – não se sabe porquê – ela fez muito sucesso, a Regininha, foi a primeira criança a gravar, entendeu, a ser assim prodígio de cantar mesmo, então era uma casa muito alegre que todo mundo quando fazia alguma festa eles estavam sempre presentes, né? A Dona Dirce, que é a viúva do Hervé Cordovil vive até hoje, está viva, os meninos morreram, o Ronninho morreu, o Júnior também morreu, mas que era da minha turma era o Júnior, né, a Regininha também é viva e amiga da gente. Então era um bairro assim muito alegre, você passava na Jalma Peri a Nair Bello lavando louça, lavando a janela com o tamanco nas grades, lavando com a mangueira, ela usava um lenço amarrado, se não me engano ela saiu de lá acho que quando o filho dela morreu, não sei se foi de moto – algum desastre – aí foi quando ela saiu de lá do bairro. Então era assim um bairro muito alegre: a gente fechava a rua umas quatro horas, bom primeiro porque carro não tinha – passava um ou outro – mas praticamente depois das quatro horas a rua ficava fechada porque todos os dias a gente brincava geralmente até umas sete horas, então era perna de pau, barra manteiga, amarelinha era direto, direto, direto aquela meninada e tal, só na nossa quadra nós éramos em cinco, do outro lado era uma família que tinha cinco filhos, um pouco pra frente ela tinha seis filhos, então só no nosso pedaço devia ter 30 crianças no nosso quarteirão. Todo mundo da rua, mesma faixa assim,né? Então aquilo era uma bagunça, era direto ali... de brincadeira, tinha patinação no gelo na Record, daí a gente também juntava todo mundo e a gente ia um cuidando do outro pra patinar lá no gelo...

 

P - E aonde que era a patinação?

 

R - Então, era na Record ali na... como é que chama aquela avenida que embaixo passa a 23 de Maio? Bem ali, seria uma travessa da Avenida Indianópolis...

 

P - Ah, tá

 

R - Era ali que era a Record.

 

P - E vocês iam até ali pra fazer a patinação.

 

R - Nós íamos pra fazer a patinação, acho que uma vez por semana que a gente pegava a mesada – não era uma coisa barata, então não era uma coisa que dava pra fazer toda hora – e o Júnior, esse que era do Cordovil, ele era o que sabia patinar, então ele que ensinava todo mundo a patinar. A minha frustração foi perna de pau, porque eu nunca consegui andar em perna de pau e a rua inteira andava de perna de pau e eu não conseguia andar de perna de pau e foi a grande frustração na minha vida. Mas a gente fazia piquenique: todo mundo juntava as coisas, era piquenique mesmo com toalha, com as coisas todas...

 

P - E aonde eram os piqueniques? Você falou que...

 

R - A gente atravessava a Bandeirantes, porque do lado de lá – do lado de cá também tinha mato, era mato só com mamona que a gente fazia guerra com mamona (risos) e do lado de lá também era mato, mas não era uma coisa perigosa, não tinha perigo nenhum, não tinha perigo nenhum.

 

P - Ia só a criançada?

 

R - Ia só a criançada, só a criançada. As mães diziam assim: que a tantas horas nós tínhamos que tá, e isso era sagrado mesmo, mas era só a criançada que ia, só a criançada que ia, não tinha adulto, não tinha esse perigo, não tinha essa coisa...

 

P - De tomar conta...

 

R - De tomar conta, de mexer, não tinha perigo, entendeu? Eu não lembro nunca de ter havido alguma coisa, assalto, algum problema, nunca nós tivemos nada de... as casas ficavam abertas, porta aberta, entendeu, vinha o vizinho e dizia “oi” e já ia entrando, não tinha esse perigo de se andar na rua, de mexer, sei lá, não tinha essa coisa.

 

P - É bem diferente. E uma das transformações do bairro foi a construção do shopping, que você estava falando?

 

R - Foi a construção do shopping que daí já começou a movimentar, nessa época eu já tinha... muita gente com carro, né, apesar que esse pedaço da nossa rua, são quatro ruas, essa continuam ainda, daí lá é só residencial, mas a Eucaliptos, que era a residencial, hoje já tem bastante comércio, já tem bastante comércio que é a rua que sai no shopping. Daí começou a movimentar mesmo ali.

 

P - Isso é que época mais ou menos, você tem ideia? Década de 70.

 

R - O shopping acho que tem 30, acho que é isso, né? Acho que tem 30 anos.

 

P - Maravilha. Você falou que casou em...

 

R - Eu casei em 71, acho que foi em 71 que eu casei.

 

P - E como você conheceu o seu marido?

 

R - A gente andava de bicicleta e nós íamos até a Vila Nova Conceição. A gente tinha uma turma, né, e pelo meio do caminho ia se juntando os amigos, então a gente se conhecia com 11, 12 anos, ele era amigo mesmo meu e a gente acabou casando. Não deu certo o casamento (risos) depois de alguns anos, muita gente da minha turma não deu certo o casamento, os da minha idade (risos), porque na época a gente... casamento pra gente era você se tornar independente de pai e mãe, então você achava que era a grande salvação, mas você saía das garras de um e caía nas garras do outro, então muita gente da minha época se separou, né, muita gente.

 

P - Como que ele chama?

 

R - Arthur

 

P - E você: casou, teve filhos?

 

R - Tive, casei, tive três filhos...

 

P - Você ficou morando em Moema?

 

R - Não, não. Nós casamos e fomos morar no Sumaré. Daí eu passei três meses chorando, porque o Sumaré pra mim era como se eu tivesse mudado pra sei lá, pra Fernando de Noronha – imagina, eu nunca tinha saído – pra mim era um outro lugar e eu chorava, eu ligava pra minha mãe e dizia: “Mãe isso aqui é horroroso, só tem subida e descida” (risos), eu dizia: “Eu não quero ficar aqui”. Chorava todo dia, eu chorava, até que o meu sogro falou: “Não, essa menina vai ficar doente; só chora, só chora”. Meu sogro tinha mudado pra um apartamento e ele tinha uma casa na Vila Nova aqui, que eles moraram a vida inteira e daí nós fomos pra lá, morar lá.

 

P - Aí, ficou mais perto?

 

R - Ficou mais perto, ah, daí ficou super perto. Então eu tive os meus filhos ali, mas sempre muito em Moema, porque eu ia praticamente todo dia pra minha mãe. Meu mundo era ali em Moema, apesar de ser tudo pertinho, mas era ali mesmo, né? E vivi ali até me separar, depois eu me separei, depois voltei pra Moema, morei muito tempo na casa do meu irmão, na Canário, algum tempo, até que depois morei no meu canto. Mas eu tive três filhos, meninos que curtiram muito a casa da minha mãe ainda, as festinhas deles de primeiro, dois, três anos eram tudo na casa da minha mãe que tinha um quintal gostoso, né? O que mais? (risos)

 

P - Como era a Vila Nova Conceição? A Vila Nova Conceição é um bairro bastante movimentado também...

 

R - A Vila Nova Conceição também era um bairro muito simples, muito simples demais, entendeu? Hoje da gente pensar: meus filhos nasceram que onde é a praça principal, a Pereira Coutinho que hoje é o metro quadrado mais caro de São Paulo. Mas a gente, ninguém, entendeu? Eu tenho contato até hoje com algumas pessoas que eram de lá, amigas e conhecidos, a gente nunca imaginou, entendeu, porque a Vila Nova era um lugar simples mesmo, era um lugar muito simples de pessoas que moravam lá há muito anos, entendeu, que nem conseguiram fazer dinheiro porque acabaram vendendo a casa antes de virar esse boom, entendeu? Então, era um bairro que não se imaginou que fosse virar isso daí, né? Os meus filhos, hoje eles passam lá de vez em quando e dizem: “Bom, a gente foi dono dessa praça aqui. Todo mundo tem que obedecer a gente, porque a gente foi dono desse pedaço aqui” (risos). E era mesmo, era o mundinho da gente, porque eram as pessoas antigas do bairro, né, até tinham muitos feirantes, porque lá tem a feira famosa, que eles tinham as casas ali, moravam ali, eram casas simples, moravam ali na Vila Nova, hoje virou acho que o bairro, um dos bairros mais valorizados, a Vila Nova.

 

P - É perto ali da Santo Amaro, né?

 

R - É perto da Santo Amaro. Ela dá bem ali naquele pedaço da Afonso Brás, onde tem a faculdade, que também não é longe dali daquele pedaço de Moema pra nós: a gente vinha de bicicleta e não tinha esse movimento, não tinha muito asfalto, então era rapidinho e a gente zanzava de um lado para o outro. Ali na esquina da Santo Amaro com a Eucaliptos tinha aquele laboratório, acho que era Welcome, que a Rainha veio visitar, né, e a gente lembra que ela – hoje, acho que são cinco prédios e tem um pedaço que ficou da Prefeitura que os prédios mantém – e então, era uma coisa enorme que pegava a Eucaliptos assim, acho que uns dois quarteirões e quando a Rainha veio a gente...

 

P - A Elizabeth?

 

R - É, a gente foi ver porque tinha dia marcado, hora marcada que ela ia. E uma coisa que impressionou: porque eles estenderam da Avenida Santo Amaro, esses dois quarteirões, até chegar dentro do laboratório, lá do Welcome, era o tapete vermelho pra ela passar. Era um laboratório – depois eles saíram de lá e foram para o interior – mas era uma coisa enorme, tanto que são quatro ou cinco prédios nesse terreno...

 

P - E vocês viram a Rainha?

 

R - A meninada toda do bairro foi porque ali... era assim antigamente: alguém casava, todo mundo ia ver (risos), entendeu, nós não tínhamos ainda uma igreja – quando eu sai do bairro que eu me casei que foi feita a Nossa Senhora da Esperança – então, a gente ia na Igreja de Moema, então quando alguém ia casar a meninada ia toda pra Igreja de Moema só pra ver a noiva, ficava todo mundo na praça ali pra ver a noiva. Então era qualquer coisa que tinha de diferente, o dia em que o bonde se despediu...

 

P - Você lembra? Foi pela Avenida Santo Amaro, né?

 

R - Então, eles fizeram ali na Vereador José Diniz. As minhas irmãs, a Marta e a Fernanda, ainda fizeram a última viagem com toda a turminha do bairro, a gente ainda até tinha essas fotografias, mas depois, alguém ainda acho que fez um livro alguma coisa, pediu e se perdeu essas fotos, que foi a última viagem que o bonde fez ali, né, que se chamava Parada Vila Helena, ali na Eucaliptos.

 

P - Foi o último bonde que circulou em São Paulo?

 

R - Foi a última, pelo menos daquele pedaço, foi a última viagem que fez, daí acabou o bonde ali naquele pedaço, não tinha mais. Eu tenho a impressão, eu não sei, ali na Vila Marina se ainda conservou, mas o que saía que vinha da Vila Mariana passava e fazia toda aquela volta e passava pela Ibirapuera toda, ali daí acabou, não tinha mais.

 

P - Você lembra que não foi isso mais ou menos?

 

R - (pausa)

 

P - 70, por aí?

 

R - Você sabe que eu escrevi um artigo para o São Paulo Minha Cidade que eu tenho a data, mas eu não vou saber agora...

 

P - Mas tranquilo.

 

R - Eu lembro que faço referência que foi a última vez que o bonde passou. Até tenho a data no que eu escrevi, eu pus a data.

 

P – O, Márcia, assim e o nascimento do meninos?

 

R - Dos meus filhos?

 

P - É. Como eles se chamam, como é que foi isso?

 

R - Imagina os meu filhos nasceram no Nove de Julho, então era assim você ia, entendeu, meu sogro foi junto, a gente foi bem antes, que daí você chegava na portaria e dizia; “Olha a médica disse que o dela é isso, do anestesista é isso e aqui no Nove de Julho quanto é que sai?” e daí você punha o dinheiro no bolso, você tirava e você pagava. Isso era possível para todas as pessoas, era uma coisa possível de você fazer, não tinha ainda essa coisa de convênio médico, não existia isso...

 

P - E também não era nada exorbitante assim?

 

R - Não, não era assim uma coisa exorbitante, não era uma coisa exorbitante, entendeu, o médico cobrava tanto, o anestesista tanto e ali, o hospital era tanto. Era uma coisa que era possível, era uma coisa possível gente, é muito louco isso. Como era quando as pessoas compravam carro, era uma coisa que era possível, tanto que você tirava o dinheiro do bolso pra você pagar um carro que era uma coisa possível de você comprar de esforço; ninguém era rico, em casa ninguém era, entendeu, nós tínhamos uma vida de gente que trabalhava, que lutava, mas que era possível a gente ter as coisas. Então eu lembro, era uma coisa muito marcante esse negócio: que não existia essa coisa de convênio médico, entendeu? Os meninos nasceram, o meu mais velho é Arthur, depois tem o Thiago e o Fábio, três homens – eu devia ganhar uma aposentadoria maior, né, eu acho (risos)...

 

P - Eles deram muito trabalho?

 

R - Com a falta de homem hoje em dia eu tinha que ganhar algum (risos) um extra. Não é?

 

P - É o Arthur, o Thiago...

 

R - Arthur, Thiago e Fábio.

 

P - Fábio. E como que era a convivência dos três, a escadinha?

 

R - Era escadinha, eles têm um ano e oito meses, imagine a coisa era de pegar fogo ali, eles brincavam, eram terríveis, né. Eu morava bem na altura do São Luís, eu lembro que teretetê eu estava no Hospital São Luiz, eu tinha uma amiga que tinha uma boutique grudada em casa que tinha um Volkswagen, teretetê nós estávamos dentro do Volkswagen... Eu lembro que ela atravessava – imagina que loucura – em vez de dar a volta, era muito longe pra dar a volta e entrar no São Luiz, ela atravessava em cima do canteiro da Santo Amaro, porque eu sempre tinha um sangrando que eu precisava ir levar pra dar ponto. A vizinha tocava sempre “oh, não é por nada, mas tem um que tá em cima do muro, no muro lá de trás”, eles eram bem levados – eram três da mesma idade – eles eram bem levados. E tinha uma turminha assim no bairro também da idade, né, que juntava a turminha e não era fácil, não. Não era fácil, mas viveram assim, ainda aproveitaram a rua muito, muito, muito, entendeu, de bicicleta, de brincar na rua...

 

P - Eles pegaram isso?

 

R - Pegaram isso, coisa que meu neto já não tem mais isso. Meu neto tem dez anos, enquanto viveu em São Paulo não teve isso; depois eles foram para Rio Claro, ele viveu mais livremente; agora eles estão em Curitiba. Mas não tem essa liberdade como os tios tiveram, os pais tiveram de brincar na rua, de não ter perigo; pedia pra alguém, alguém atravessava e não tinha perigo nenhum.

 

P - E eles estudaram aonde?

 

R - Eles estudaram na Móbile que era uma escolinha pequenininha atrás de casa, entendeu, quando eles foram já estava ali em Moema, acho que era na Canário com a Macuco, quando eu pus os meninos na escola eu fui fazer estágio em várias escolas fui no Pueri Domus, fui em várias escolas...

 

P - Conhecer?

 

R - Conhecer, que eu queria... fui no Lourenço Castanho que era a escola da moda, num sei o que, pá pá pá... e o pediatra dos meninos que sempre foi guru nosso, até hoje  ligo pra ele pra tudo que eu preciso, os meninos também. Eu liguei e ele disse: “Oh, tem uma prima minha que tá fazendo uma escola que elas têm a cabeça boa, saíram do Bandeirantes”. E daí eu fui conhecer: era uma escola pequenininha e daí, então, foi o Arthur, depois o Thiago, o Fábio. Até houve uma época que eu trabalhei... era uma escola muito pequenininha, a maioria das mães trabalhavam fora, foi criado o período integral, então eu trabalhei nesse período integral. Eles faziam a lição de casa na escola, iam pro Hobby, foi feito um convênio com o Hobby pra fazer aula de futebol, então essa atividade da tarde, desde a comida, assim, as brincadeiras, eu participei, eu trabalhei nesse período na escola. E hoje é uma das maiores escolas de São Paulo, é a Móbile. É uma escola enorme que pra você entrar lá precisa de não sei o que, vivem me ligando “pelo amor de Deus me dá seu nome porque eu preciso ter referência” que é uma escola que ficou difícil...

 

P - De ingressar?

 

R - De ingressar, ficou uma escola muito boa, entendeu? Os meninos estudaram, é o tempo todo, e hoje virou um escolão, uma coisa enorme, mas era uma escola pequena que os pais davam palpite, entendeu, era uma escola assim, muito... por um bom período foi uma escola bem pequenininha, foi.

 

P - Oh, Márcia, você falou que nesse período você trabalhava na escola. Você trabalhava antes, como é que era isso?

 

R - Não, olha, quando casei eu tinha passado no vestibular e na minha época era assim, não tinha: você casava e os caras eram todos quadrados você não tinha muita liberdade. Antes de me casar eu trabalhei ali na CECAP [Caixa Estadual de Casas para o Povo]...

 

P - O que é a CECAP?

 

R - Que construía as casas populares; que era o Artigas, era um dos arquitetos.

 

P - O Vilanovas Artigas.

 

R – Então, era na Brigadeiro e eu fui trabalhar na CECAP, acho que eu fiquei uns dois anos debaixo de brigas e brigas e brigas na época que eu já estava para casar, porque era um absurdo, “imagina trabalhar” “que coisa”...

 

P - Não precisava (risos).

 

R - Aquelas coisas e eu parei de trabalhar, tive os meninos. E quando eu comecei com essa coisa de separa, de já querer separar, foi quando eu fui para a Móbile. Eu tentei várias vezes voltar pra faculdade, prestei exame, entendeu, passei, mas, não consegui frequentar porque ele era contra, achava um absurdo, então eu desistia. Só fui voltar a trabalhar quando eu me separei que daí eu fui pro PROCON [Programa de Proteção e Defesa do Consumidor], fui trabalhar no PROCON.

 

P - E quanto tempo você ficou casada, mais ou menos, só pra gente ter uma ideia?

 

R - Fiquei casada, acho que deu, deixa eu ver, acho que 14 anos, 13 anos.

 

P - 13, 14 anos.

 

R - 13, é.

 

P - E aí você foi trabalhar no PROCON?

 

R – Não, daí eu fui trabalhar no Santa Maria...

 

P - Que era o que, uma escola também?

 

R - Uma escola, antiga ali dá – como é que chama ali? - não é Interlagos, mas é indo para Interlagos, tem o nome aquele bairro ali, Jardim Marajoara – não sei direito o nome – e eu tinha que começar por algum lugar, entendeu, eu li no jornal que o Santa Maria estava precisando de biblioteconomia, de uma bibliotecária à noite. Eu fui, cheguei lá, tinham 30 meninas que tavam fazendo...30 formadas em biblioteconomia só eu que não era formada. E daí, fiz a entrevista e falei: “Olha, não trabalhei. Escrevo, meu pai tem uma biblioteca do tamanho dessa casa aqui, entendeu, conheço tudo de livros e eu tenho uma vantagem sobre todas as meninas que estão aí”, então ela me disse: “Qual é a vantagem?”, eu falei; “Eu tenho a vivência que nenhuma tem”, ela disse: “Então, o emprego é seu”. Daí eu comecei a trabalhar das seis às onze horas da noite e foi um trabalho muito legal porque era com o pessoal da alfabetização. Então, você indicava os livros e tinha a parte dos filmes também, uma vez por semana a gente passava o filme, entendeu, dava uma pesquisada o quê que tava....um filme bom, um filme que daria para eles entenderem, então foi um período assim muito legal.

 

P - E como que você fez pra articular com seus filhos?

 

R - Foi um guerra, porque é lógico...

 

P - Você estava recém-separada...

 

R - Separada ainda brigando judicialmente, porque ele não aceitava a separação – então foi uma briga ferrenha – e eu não tinha muito. Eu fiz amizade com a minha vizinha que tinha dois filhos e eu dizia pra ela “você vai em casa duas, três vezes e eu te ligo pra ver se está tudo bem” – porque eu saía e os meninos já iam deitar às seis horas; eu dava o lanche pra eles, eles subiam e eles logo dormiam, porque eles acordavam cedo pra estudar – e ela via duas, três vezes pra mim os meninos, eu ligava, ela dizia “tá tudo bem”. Eu chegava em casa umas onze e meia eu chegava. E daí, eu tive a oportunidade, acho que depois de dois anos de ir para o PROCON, tinham acabado de fazer o PROCON na Angélica, entendeu, e daí eu tive a oportunidade de ir para o PROCON e fiquei alguns anos no PROCON.

 

P - Tava começando o serviço no PROCON?

 

R - Tava começando. Era a Marilena Lazarino ela tinha sido chamada pra começar mesmo o órgão e daí logo teve essa oportunidade que ela me conhecia e eu fui pra lá. Passei por vários setores: técnico, vários setores... Todo tipo de serviço eu fiz lá dentro. Depois a gente mudou para o Itaim, e essa época foi uma época muito difícil, porque a minha briga com o meu ex-marido foi ferrenha... Então, a pensão que caberia a mim, eu não quis nada pra mim, entendeu, achava um absurdo a mulher ter que receber dinheiro, eu não quis, mas eu queria aquilo que era justo para os meu meninos. E lógico que eu perdi o meu processo, entendeu, foi muito difícil. No Santa Maria, eu trabalhava feito louca à noite, de dia dava conta ainda, dava conta de tudo e daí eu pensei muito, muito, muito e daí eu resolvi chamar meu ex-marido e dizer “já que você conseguiu, entendeu, provar n coisas que você é um simples funcionário e que não sei o que, e não sei o que, nós vamos mudar o jogo: você vai ficar com os meninos e eu vou ter os meninos nos sábados e domingos ”. E lembro que foi uma revolução, menina, foi uma revolução com todo mundo. Uns diziam que eu era louca, outros diziam que não era louco e eu lembro que eu cheguei a ir no...fui conversar com o Flávio Dicovatti na época, conversei com algumas pessoas porque se eu estava louca ou se eu não estava louca, porque naquela época isso não acontecia...

 

P - Era muito diferente.

 

R - Era muito diferente. Eu me lembro até que o juiz da separação, quando a gente teve que fazer a coisa da guarda e tudo das crianças, ele falou pra mim “eu espero que daqui pra frente muitas mães tenham a coragem que você tá tendo, só assim que o jogo vai começar a mudar”, ele ficou desesperado. Eu falei “agora eu quero o bem bom do sábado e domingo pra mim, daí eu vou trabalhar, vou poder levar os meninos pra passear, eu vou poder estar com eles com a cabeça legal e não como está sendo”. E os meninos eu nunca escondi nada, a gente conversou muito, entendeu, isso, lógico, foi sofrido pra eles, foi sofrido pra mim, entendeu? Eu chegava na Móbile às seis e meia da manhã e ficava esperando os meninos chegarem, ficava com eles até as aulas começarem; depois eu conseguia na hora do almoço, correndo, tinha – ele voltou a morar com a mãe, então os meninos moravam com a avó e o pai – na Lorena tinha uma casa de suco que na hora do almoço eu ia pra casa de suco, eles levavam a lição de casa, enquanto a gente tomava um suco, fazia a lição de casa com eles, que era os momentos que eu podia estar, tudo que eu pude estar com eles eu tentava estar, entendeu? Foi sofrido sim pra gente, mas eu achava assim: que eu tinha aberto mão da vida boa que eu tinha, eu, mas os meninos não tinham feito essa opção, entendeu, então que eles tinham que continuar sim, a ter a vida que eles tinham na escola boa, na escola de inglês boa, com o futebol que eles tinham, com as regalias que eles tinham, porque eu que tinha aberto mão de tudo isso, não os meninos.

 

P - E eles compreenderam?

 

R - Eles compreenderam e foi sofrido pra todo mundo, entendeu, e depois quando eles começaram a trabalhar, daí eles começaram a vir “não, agora a gente tá trabalhando mãe, agora a gente vai vir”, então entendeu, foi uma coisa sofrida. Lógico que eu acho que eles tiveram assim, uma parte deles eu acho que foi complicada isso, mas que a gente sobreviveu e que eu acho que foi a melhor maneira de ter sobrevivido, porque eu acho que senão a coisa tinha ficado feia porque eu não estava dando conta...

 

P - Em termos financeiros, da logística toda...

 

R - Nada, nada. É tudo, imagina: eu vivia nervosa, irritada, cansada. Então, foi uma história diferente, né, que até hoje eu não conheço ninguém, que eu conheci ninguém, às vezes eu conto para as pessoas e as pessoas ficam assim, bom foi a melhor maneira que eu achei, entendeu, deles... porque eu sabia que os meninos ficando comigo, porque ele falou pra mim “tudo que eu puder fazer pra ficar difícil, vai ficar”, então ele primeiro cortou o futebol, depois ele cortou o inglês dos meninos, entendeu?

 

P - Enfim, no fim os meninos ficaram penalizados.

 

R - Os meninos vão pagar uma coisa que eu quis, então eu não acho justo.

 

P - Aí eles foram morar com o pai?

 

R - Com o pai e a avó.

 

P - Com a avó e aí voltou o futebol, o inglês, foi voltando tudo?

 

R - Ah, sim. Aí eles tinham, viajavam, faziam passeios maravilhosos, viajavam sempre para lugares lindos, voltou até a vida que eles tinham antes... que eu achava que eu não tinha esse direito de lutar por eles, no dia que eles quisessem, entendeu, voltar e abrir mão, brigar com o pai ou alguma coisa que daí ia ser deles.

 

P - É bem diferente mesmo. E qual foi assim a retaguarda do teu pai, tua mãe te deram?

 

R - Me deram, me deram a retaguarda sim, meu pai alugou a casa que eu morei com os meninos e tudo durante muito tempo, até as coisas melhorarem, entendeu, sempre com mercado, mesmo os irmãos sempre ali me dando retaguarda no que precisasse, de ajudar com as crianças, tive bastante retaguarda.

 

P - E nesse meio tempo você trabalhava no PROCON?

 

R - Eu trabalhei no PROCON.

 

P - Quanto tempo você ficou no PROCON, Márcia?

 

R - Eu fiquei no PROCON, acho que deu 15 anos, 14 anos uma coisa assim que eu fiquei. Depois a gente foi mandado embora, teve uma mudança de diretoria grande que era o pessoal que queria aquilo lá. Eu, por ter um vínculo com a Marilena, fui despedida por essa razão, porque eu tinha o vínculo com a Marilena Lazarine, então não me queriam lá, mas eu fiquei bastante tempo – foi um período interessante. Meu irmão também trabalhou lá, então a gente trabalhou assim, foi um período muito, muito bom que fizemos muita coisa, criou-se muita coisa no PROCON. Depois quando eu fui mandada embora, é dificil, né, depois dos 40 e poucos anos é difícil, muito difícil, porque eu tive uma vida interrompida, né, vocês não, porque já vieram com outras cabeças, as minhas noras sempre trabalharam, espero que nunca deixem de trabalhar, então, mas a minha geração muitas tiveram essa coisa que parou no tempo, né? E daí, tentei algumas coisas não consegui e disse: “Bom”... minha mãe foi uma pessoa que fazia de tudo; ela desenhava, ela bordava, ela costurava, minha mãe era uma artista que se tivesse sido encaminhada ela teria sido, entendeu, porque ela fazia de tudo, ela olhava pra você e ela desenhava aquilo e fazia e você nem experimentava que aquilo...

 

P - Tava perfeito.

 

R - Então, daí eu falei: “Bom, o que eu sei fazer, que eu faço desde menina é: bordar, costurar, fazer tricô, fazer crochê que eu sempre fiz” e eu falei “vou meter as caras, abrir minha máquina de costura” e comecei sozinha a tentar fazer o patchwork, entendeu? Daí eu comecei a fazer e faço isso daí, entendeu, trabalho com isso daí e com tudo que aparece; alguém precisa de alguma coisa, entendeu, vou fazer uma festa eu tenho uma amiga que é diretora de um clube de campo em Valinhos, então quando tem festa ela sempre precisa de mais gente e tudo que aparece eu faço, entendeu?

 

P - Mas por que você escolheu patchwork, assim pra trabalhar?

 

R - Porque eu sempre mexi com costura com coisa e o patchwork é lindo, né, é muito lindo o patchwork. E eu comecei porque eu queria fazer uma colcha... pro Thiago, que é o segundo, e essa colcha ficou linda, que é mesmo aquela colcha de retalho que eu quis fazer com as coisinhas dele e tudo, e daí eu fui me apaixonando. É difícil, a aula é cara, dizia “não dá pra fazer a aula, eu vou fuçar”, comprava as revistas e fui comprando material e fui, então hoje eu faço, eu trabalho com bolsa, com nécessaire, com as coisas e tudo que for preciso, tudo, entendeu? Qualquer coisa assim eu tento fazer, mas eu chego lá...

 

(FINAL DE CD)

 

P - Você tava falando do patchwork, que você começou sozinha com revistas essas coisas...

 

R - E fui metendo as caras, fui metendo a cara e fui fazendo. Eu tenho muita facilidade, assim, de desenhar, de proporção que são as minha aulas de desenho do Alberto Levy, do meu professore Hermes – que era super rígido – mas essa noção de tamanho, de perspectiva e tudo que eu aprendi, então eu tenho muita facilidade de ver uma coisa, entendeu, e daquilo transformar e fazer. E eu meto as caras mesmo, eu preciso de um vestido pra mim eu faço, do jeito que eu sei fazer, eu vou metendo as caras e eu tenho essa facilidade de criar, entendeu? Eu tenho essa coisa de criar. Então eu vou de tudo quanto é lado, eu consigo ir para todos os lados nos trabalhos manuais.

 

P - E a sua freguesia, como que você foi...?

 

R - Foi de boca em boca mesmo. Eu nunca pus nada em loja, mas é de boca em boca, as minhas irmãs que compram que dão e que daí, entendeu, uma conhece a outra conhece então é mais o pessoal... um vai dizendo para o outro, né? Eu tenho um filho que mora nos Estados Unidos, já vai fazer 18 anos, ele morou no Canadá...

 

P - Qual deles?

 

R - O Fábio. O Fábio foi com 17 anos. Ele sempre jogou muito bem bola e um olheiro viu o Fábio participando de um campeonato de jogos aí da meninada, e disse que precisava de alguns meninos para o basquete e para o futebol. O Fábio prestou exame no Alumni, era pela Alumni de inglês, do College e tudo, ele foi pra lá, foi para o Canadá . Ele fez o College, ele jogava bola, depois quando ele vinha embora ele teve oportunidade de ir pra uma cidade perto de Seattle fazer a universidade. E assim, ele foi ficando, foi ficando...

 

P - Sempre jogando?

 

R - Daí ele voltou, há uns cinco anos ele voltou para o Brasil, os irmãos “não, volta, vem volta, imagina, vem embora, vem embora”, ele veio, mas não conseguiu mais ficar no Brasil. Ele ficou um ano... e ele nem ficou em São Paulo, os meninos estavam em Rio Claro e ele falou “não, vou para Rio Claro que é mais quietinho”, mas ele não conseguiu ficar. Ele estranhou, achou todo mundo muito estressado, a vida muito maluca. Daí, ele foi embora e hoje ele vive em Oregon, nos Estados Unidos, casou o ano passado e é um lugar muito lindo – no ano passado eu fui – Oregon eu não conhecia. Liguei isso, porque eu fui ao festival que estava tendo de patchwork que é de enlouquecer, de enlouquecer, de enlouquecer. Mas eles têm o espírito que aqui no Brasil não se pegou esse espírito: eu conheci várias pessoas, então elas trabalham mesmo juntas, aquelas pessoas que se aposentaram; então que a tua filha vai casar, todas fazem aquela colcha maravilhosa juntas e te dão de presente, elas se reúnem e fazem, entendeu, que é o espírito que pra nós não pegou. O pessoal de patchwork aqui é muito individualista, entendeu, ninguém mostra pra ninguém o que tá fazendo de medo de alguém copiar, eles não pegaram o espírito do pessoal de fora tem.

 

P - Que é algo coletivo.

 

R - É coletivo. Quando eu fui para o Canadá, também, o Fábio morava lá. O Fábio morava numa região de fazendas, daí eles me chamaram pra participar desse grupo que uma das filhas ia se casar e todas estavam fazendo a colcha, era linda, eram 50 mulheres, entendeu, todo mundo fazendo um pedaço de um trabalho maravilhoso e é uma coisa, que isso o Brasil não pegou. Ninguém faz essa coisa em conjunto...

 

P - Coletiva?

 

R - Coletiva. Então eu fui lá nesse festival, tive a oportunidade que tava sendo nessa época, os trabalhos maravilhosos, né, trabalhos maravilhosos você fica enlouquecida de ver: “Será que algum dia eu vou fazer algo parecido” (risos), é muito lindo. Então daí eu tava lá e o frio estava começando, lógico que quem trabalha com essas coisas você não consegue ficar parada, né, daí a minha norinha conseguiu que a amiga tinha uma máquina de costura, conseguiu, me emprestou a máquina e comecei a fazer e até que a mãe de algum amigo do Fábio falou “a loja que eu trabalho elas ficam loucas pelas pessoas que fazem os biquinhos nos cueiros”, e daí eu fiquei dois meses fazendo biquinho de cueiro...

 

P - É difícil encontrar alguém que faça isso?

 

R - Ninguém faz, ninguém faz...

 

P - É mesmo?

 

R - Ninguém. E eles te pagam assim, muito bem, entendeu?

 

P - Aquele crochezinho?

 

R - Aquele crochê. Eles já mandavam a flanela cortada e o bico todo de crochê, né, do jeito que eu quisesse eu fazia. Daí eu passei, porque já tava esfriando demais eu dizia “Fábio, eu não vou aguentar esse frio, não vou aguentar esse frio”, daí passei lá esses últimos meses que eu fiquei fazendo os cueiros, entendeu?

 

P - Mas ainda usa cueiro?

 

R - Lá usa, porque é muito frio, começou o frio e eu já vim embora, mas é muito frio, agora é frio de... faz dois meses que é frio direto. A semana passada mesmo, o Fábio falou “desci”, porque ele mora em lugar alto e ele falou “nós tivemos que ficar na minha sogra porque o carro não subiu” era só neve e não subia, então é uma região que usa bastante ainda o cueiro. Mas então, eles dão muito valor pra esse trabalho, qualquer trabalho manual que você faça, qualquer trabalho. Falei pro Fábio “agora quando eu voltar eu já vou mais organizada (risos) porque eu não fui organizada, agora eu já vou mais organizada” , levar minhas coisas, porque eu falei “vou fazer bastante coisa aí”.

 

P - Que legal. Márcia como é o seu cotidiano hoje?

 

R - Hoje, eu trabalho há um ano e pouco numa locadora de livros, também tem em Moema, mas daí ela foi vendida pra uma outra pessoa e ela achou que com o salário que ela me pagava ela pegava umas três estagiárias, duas, né, duas estagiárias segundo ela do segundo, primeiro ano, então ela me dispensou. Mas eu trabalhei esse um ano e pouquinho numa locadora de livros que existe há muitos anos em Moema, é uma coisa bem diferente, bem legal, mas que nós estamos achando que não vai vingar porque a pessoa que comprou não... ela é funcionária da Câmara, ela comprou aquilo acho que pra investir dinheiro, não pegou amor, entendeu, e é uma coisa muito querida em Moema essa locadora, é uma coisa muito querida, porque é uma coisa que reúne as pessoas de idade, muita gente de 80 anos que vai alugar livro mas vai pra conversar, entendeu? Então é um lugar assim que é um lugar muito querido em Moema. Era de uma amiga minha, depois ela vendeu e nós não sabemos se vai pra frente, porque já trabalhava uma que já estava há sete anos, que ela mandou embora, foi a primeira que ela mandou embora. Depois ela ainda ficou comigo um ano e pouquinho, mas também me dispensou. Mas o meu dia-a-dia mesmo lá, continuava a costurar à noite e faço nhoque, de domingo faço nhoque, porque meu nhoque lá é meio famosinho, lá em Moema, então eu faço para as pessoas que já sabem, que me ligam...

 

P - Você tem uma freguesia já certa?

 

R - Eu faço de tudo, mesmo porque primeiro por causa do dinheiro e segundo que os meninos estão longe, então quer dizer você também tem que fazer alguma coisa. Eu ando muito a pé, isso é sagrado. Eu acordo seis, seis e pouco, ando na praça onde a gente viveu, eu ando ali todos os dias e uma vez por semana eu vou para o Ibirapuera. Eu tomo o ônibus, desço na Brigadeiro, atravesso e daí lá eu ando , ando depois filosofo, entendeu? Adoro ler, leio muito, muito; gosto demais de filme; gosto mais de escrever , escrevo muito para o São Paulo Minha Cidade; e trabalho, faço os meus trabalhos, né? Então eu procuro fazer muita coisa pra tá sempre em atividade e manter a cabeça boa, né...

 

P - Você falou que os seus filhos estão em Rio Claro?

 

R - Então os meninos moraram algum tempo em Rio Claro, depois um foi...

 

P - Por que eles foram pra lá?

 

R - Porque eles foram meio que... eles queriam um lugar mais tranquilo. E daí acabaram indo pra Rio Claro, mas daí ficaram lá algum tempo, acharam também parado demais pra trabalho. E daí surgiu uma oportunidade do Thiago ir pra Curitiba, ele foi pra Curitiba. E daí o Arthur que ainda ficou em Rio Claro faz um ano também que falou “não, mãe”, a Lúcia, minha norinha, tinha sido mandada embora, ele falou “já que é pra procurar emprego, nós vamos pra Curitiba também”, e daí foram. Tem o meu neto de dez anos, o Enrico, daí eles foram, gostam demais de Curitiba, as pessoas não porque são muito fechadas, né, mas realmente o lugar é muito tranquilo, ainda é um lugar sossegado, né, e eles estão lá e acho que não voltam mesmo mais, né?

 

P - Eles trabalham em que área?

 

R - Agora eles estão fazendo de tudo pra eu ir pra lá, pra eu ir pra lá (risos). Tenho pensado ainda, não sei, vamos ver mais pra frente, por enquanto não. Mas eles se adaptaram bem lá em Curitiba, sentem muita falta porque as pessoas são fechadas. Mas isso são mesmo, meu irmão morou lá acho que há 30 anos e já reclamava que não ficava lá por causa disso, mas eu digo pra eles “cada um tá com a sua mulher, vocês moram perto, então vocês vão fazendo”. E o Enrico estando na escola é mais fácil já, né, porque com o tempo a criança já é mais fácil de você fazer amizade...

 

P - Nos grupos, né?

 

R - E fazendo os grupos, né?

 

P - E a chegada do neto, como é que foi? Do Enrico quando ele nasceu?

 

R - Foi maravilhosa, foi muito bom, é muito bom ser avó. E pra mim foi muito bom, porque eles moravam ainda em São Paulo, então durante um ano, um ano e pouco o Enrico ficava comigo; o Arthur ia trabalhar e o Enrico já vinha cedinho nenezinho, então ele ficava comigo o dia inteiro e só ia embora no final do dia. Eu continuava fazendo minhas coisas, mesmo com o Enrico, mas sempre continuando a fazer minhas coisas. É muito bom neto, neto é um coisa... tem essa coisa de ser muito bom, é um pedaço do seu filho, né, um pedacinho do seu filho, mas tem essa coisa que eu acho fantástica que o Enrico tem dez anos, então ele me ensina tudo, tudo ele me ensina, entendeu? (risos). Então eu acho assim, bárbara essa convivência: é muito bom, é bom demais. Eu fui agora no Natal, então ele “vó, você pede pro meu pai, vamos assistir Cilada que dizem que Cilada é bom”, que é com o filho do... da televisão, do Chico Anysio, o Bruno Mazzeo. Eu não sei se vocês assistiram...

 

P - Eu não assisti.

 

R - Umas enquetes que eles faziam, umas coisas pequenininhas e daí nós assistimos juntos, e daí é bom demais porque ele é muito vivo, muito. Então esse é o primeiro aprendizado, essa troca é muito legal. É muito legal essa troca, boa demais, então eu espero ter bastante aí. O Thiago não se anima muito, o Fábio vai ter, o dos Estados Unidos, vai ter, ela tá grávida. O Arthur só quis um, o Arthur e a Lúcia só quiseram um, o Enrico. Então, essa troca, essa convivência com os amiguinhos eles vão, sabe, e eles são muito espertos hoje, né? Bom, eu nunca tinha mexido em computador, falava que jamais iria passar perto, até que o Enrico começou “você tem que mexer, eu vou te dar aula”, aí eu dizia pra ele “então faz assim: você me dá aula, mas eu te pago, porque assim eu posso reclamar, pode exigir”, aí ele dizia pra mim “vovó, mas é a quinta vez que eu te explico, não é possível. Vamos combinar também: eu só te explico três, quatro vezes, depois eu não explico mais de novo” (risos). Então, eu passei a gostar do computador por causa do meu neto, isso é maravilhoso, maravilhoso. Eu nunca imaginei, entendeu, eu tô fazendo um blog sobre Moema, sabe, eu nunca pensei em escrever para São Paulo Minha Cidade, entrei no livro, minhas histórias entraram no livro, eu nunca imaginei isso, só por causa do meu neto, entendeu? E que me dá aula constantemente, porque a coisa é novidade em cima de novidade, então eu tenho aula constantemente com ele...

 

P - Você tem que se atualizar?

 

R - É muito bom, demais essa coisa assim; ele que me ensinou, ele que foi em casa, que pôs o Skype, que me ensinou com a câmera, como é que eu falo com eles, como é que eu falo, então isso tudo é muito bom. Essa convivência, como as minhas sobrinhas – elas têm 18, não...têm 15, 16, 17, 18 e 20 anos, é mais ou menos isso, então é muito bom isso. Eu fiz 60 anos agora e eu falei “não, eu quero comer pizza com as minhas sobrinhas”, todo mundo ficou emburrado, mas “com as minhas sobrinhas, sobrinhas e com os namorados”, porque é muito bom isso, isso é muito bom, essa troca. A minha sobrinha a Maíra, que é mais ligada comigo, domingo ela esteve em casa então pra contar que tá namorando, entendeu, porque hoje já não se namora mais como na minha época, na minha época você escolhia os meninos, né, você tinha aquela fila de rapaz que você dizia “esse eu quero, aquele não quero”. Hoje não, hoje as meninas não têm namorado, não têm, é uma coisa impressionante. Então ela veio em casa contar que ela tá namorando que faz dois meses e não sei o que, que não sei o que... isso é bom demais, nessa convivência é muito bom, com o jovem. Deixa a cabeça da gente boa.

 

P - E com suas irmãs hoje, como é que é a convivência?

 

R - Então, as minhas irmãs a gente conviveu muito, muito mesmo, a gente foi muito juntas. E depois que o papai e a mamãe faleceram algumas confusões surgiram e hoje meio que tá... eu me dou com todas, mas todas não se dão com todas. Então, eu vejo todos, procuro estar com todas, entendeu, mas não somos mais como nós éramos, que é uma judiação, porque nós éramos muito unidas. Espero que um dia isso possa voltar, não sei se tem retorno, mas...

 

P - As coisas mudam também, né?

 

R - As coisas mudam muito. É uma judiação, é uma judiação.

 

P - Tem mais alguma coisa, Márcia, que precisa falar que a gente não perguntou?

 

R - Não, acho que eu falei tudo, né?

 

P - Você tem alguma questão?

 

P - Acho que não.

 

R - Acho que eu falei de tudo.

 

P - Foi tão gostoso, tão bom ouvir.

 

R - Falei, acho que falei de todas as coisas.

 

P - Maravilha. E o que você achou assim, pra gente terminar, o que você achou de ter vindo aqui, ter deixado a sua vida aqui, registrada essas percepções todas, essa história tão bonita sobre Moema?

 

R - Adorei, adorei. Acho isso importante, porque isso é história de um povo, isso é história de uma cidade, é história de um bairro. E a gente tem que preservar essas coisas para os que vierem, para os meu netos pra todos que... isso é história mesmo, né, senão a gente não sabe. Eu ainda consegui há poucos meses tirar fotografias de algumas casas de Moema antes delas serem derrubadas, então porque tudo isso é história, né? Eu fiquei muito feliz, espero que muitas, muitas pessoas deem o seus depoimentos, porque para que outros possam saber como é que foi um bairro, como é que foi a vida, né? E eu gostei demais de conhecer vocês, de ver que tem tanta gente jovem trabalhando aí, é muito legal isso daí. E eu procuro participar, eu entrei no São Paulo Minha Cidade também assim...

 

P - O que é o São Paulo Minha Cidade, conta pra gente essa atividade que você faz?

 

R - Então, é um site que tem que você escreve sobre a sua vivência de São Paulo. E isso há dois anos o governador fez um livro, virou um livro, o prefeito, eles fizeram um livro mesmo, escolheram algumas coisas escritas, eu participei. E o site continua, você entra e você escreve. Agora a gente tá batalhando para saírem outros livros e, além disso, a gente se reúne a cada três, quatro meses, entendeu, a gente vai pra uma pizzaria. E é muito bonito porque nós temos jovens de 20 e poucos anos e nós temos pessoas de 85, 90 anos que escrevem para o blog contando a vivência, as coisas do bairro e eu acho que é importante essa participação de todo mundo, dos jovens também que têm o que falar, né?

 

P - Maravilha. Obrigada.

 

R - Mas eu gostei demais de ter vindo.

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