Busca avançada



Criar

História

"A minha vida sempre foi uma bússola"

História de: Fabiano Sperandeo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2021

Sinopse

Infância em São Vicente. Descoberta dos armazéns de produtos líquidos do Porto de Santos, ainda criança, no Centro da cidade de Santos. Lembranças da escola. Trabalho, ainda menino, abastecendo as bancas de jornais e como ajudante de pedreiro. Juventude musical. Início do trabalho no Porto de Santos na base do serviço de armazenamento dos produtos líquidos, como auxiliar de operação. Desafios da pandemia. Modernização das operações portuárias. Faculdade de Engenharia. Especialização em Segurança. Trabalho com treinamento de equipes e documentação na área de armazenamento de produtos líquidos no Porto. Paternidade. Rotina. Sonhos.

Tags

História completa

P/1 – Fabiano, pra começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.



R – Sou Fabiano Sperandeo, nascido em Santos, tenho 42 anos, nasci em 24 de outubro de 1979.

 

P/1 – E quais os nomes dos seus pais?



R – Djalma Ramos Sperandeo e Mariângela Joaquim Loureiro.



P/1 – Como você os descreveria?



R – Ah, meu pai é um cara muito bacana. Ele é do ramo artístico, ele vive de música.  Também do Porto de Santos. Meu pai, com dezoito anos, já embarcava em navio de cruzeiro. Com dezoito anos ele já trabalhava nesse ramo. É produtor musical também, já produziu dois CDs. Hoje ele já está praticamente aposentado dessa área e minha mãe já é falecida, mas sempre foi uma mulher muito guerreira, trabalhadora. Meus pais são separados, então eu convivi mais com minha mãe e é isso aí, minha mãe é uma mulher batalhadora, que conseguiu cuidar de mim e dos meus dois irmãos.



P/1 – Você sabe como seus pais se conheceram?



R – Sei, se conheceram em Santos. Meu pai trabalhou também numa repartição pública e eles se conheceram através do trabalho.



P/1 – E como era sua relação com eles na infância, com seus pais?



R – Com meu pai um pouco distante, porque ele viajava muito. Ficava muito tempo fora do Brasil, então não tive uma relação muito próxima devido ao trabalho dele. Foi mais minha mãe e meus irmãos. Hoje, como meu pai já puxou um pouco o freio de mão, agora não, agora a gente já tem uma proximidade maior. Ele não mora em Santos, ele mora no interior de São Paulo, em Joanópolis, mas praticamente todo feriadão, pelo menos uma vez por mês eu tô lá. Vou com a minha esposa e meus filhos pra lá, então a gente se curte bastante.



P/1 – E seus irmãos, quais são os nomes deles?



R – É o Rogério, meu irmão mais velho, é sargento da Polícia Militar, também o tenho como um exemplo, como um pai. E o meu irmão do meio é feirante, trabalha na feira livre, desde os quinze anos meu irmão trabalha na feira livre.



P/1 – E como é a sua relação com eles?



R – É muito boa. A gente sempre que pode se reúne para aquele churrasquinho em família, pra uma confraternização. É muito boa, uma relação muito boa. 



P/1 – E, Fabiano, você conhece a história, um pouquinho, dos seus avós? Você chegou a conhecê-los?



R – Sim, sim. O meu avô por parte de pai é daqui de Santos também, trabalhou também no Porto de Santos, ele era eletricista na antiga, hoje é Codesp, na época era Docas. Então ele trabalhou como eletricista lá, mas também já é falecido. E meu avô por parte de mãe era do Exército, também já faleceu. Hoje, avós eu não tenho mais, eles já faleceram.



P/1 – E todos os seus avós, os quatro são de Santos?



R – O meu avô por parte de pai de Santos. O de parte de mãe, não. Era de Natal, Rio Grande do Norte, só que também minha mãe, antes de casar, rodou o Brasil, morou em vários lugares por conta da profissão do meu avô, que ele era transferido, então minha mãe morou em Natal, no Rio, no quartel ali de São Vicente. Agora, por parte de pai, os bisavós eram italianos. É o que eu sei. Nós temos parentes na Itália, mas eu nunca fui. Meu pai sim, já foi, teve contato com os tios. Eu ainda não tive a oportunidade.



P/1 – E, Fabiano, você tem ideia porque seus bisavós saíram da Itália e vieram pro Brasil? 



R – Não, não tenho essa ideia, não.

 

P/1 – Sem problema. E, me diz uma coisa: vocês tinham ou ainda têm costumes familiares, desde comidas que você lembre da infância, algum cheiro ou datas comemorativas? Sua família tem isso?



R – De comida é mais o que o brasileiro gosta: churrasco. Mas o que sempre une a gente é a música. Sempre que a gente está reunido tem alguma coisa de música envolvida. Música, sim.



P/1 – E tem algum estilo específico que vocês curtem?



R – Ah, MPB, Tim Maia, um pagode, música brasileira.



P/1 – E você sabe a história do seu nascimento e como escolheram seu nome?



R – Então, Fabiano foi minha mãe que escolheu, mas eu não trouxe o sobrenome da minha mãe, porque meu pai bateu o pé que queria só o Sperandeo, que é do meu pai. Então minha mãe deixou e ficou Fabiano Sperandeo, não tem o nome da minha mãe. Aí, ficou um nome curtinho. 



P/1 – E você lembra da sua casa de infância? 



R – Lembro, lembro sim. Era uma casa simples. Uma casa simples porque, como eu disse, minha mãe que nos criou, então era nas condições que ela podia. Era uma casa simples, o quintal não tinha piso, era cimento batido, mas era bacana, nós éramos bem felizes.



P/1 – Onde você cresceu, teve algum bairro específico? 



R – Teve. Eu cresci em São Vicente, próximo ali ao quartel de São Vicente.



P/1 – E como foi sua infância lá? Quais eram suas brincadeiras favoritas? O que você curtia fazer?



R – Era bem diferente de hoje. A gente vivia na rua. Vivia na rua, brincava de futebol, pipa, carrinho, a gente fazia carrinho de rolimã. Era bem diferente de hoje, a gente não tinha medo de brincar na rua. Era bem diferente.



P/1 – E vocês brincavam com os vizinhos, tinha isso da vizinhança, de ter amigos vizinhos da rua, assim?

 

 

R – Tinha, inclusive eu tenho um amigo, que é interessante a história, que nós estudamos da quinta à oitava série juntos. Aí, depois eu fui pro quartel e ele foi também, porque nós temos a mesma idade. Aí ele foi pra segunda companhia e eu fui pra companhia de apoio e depois do quartel a gente ficou um tempo sem se ver. Aí eu fui trabalhar em vários lugares e quando eu entrei na Ultracargo, depois de trinta dias, exatos trinta dias, ele entrou também. Então é uma amizade aí de mais de trinta anos. Hoje ele não está mais lá, ele foi pra outra empresa. Mas é um cara que é um amigo de infância.



P/1 – E você, nessa época, pequeno ainda, pensava no que queria fazer quando crescesse, com o que você queria trabalhar?




R – Então, na realidade, como eu tenho um irmão que é policial, eu sempre quis ir pra essa área e gosto até hoje, admiro muito a profissão do meu irmão. Apesar do risco, mas eu admiro bastante. Então eu queria ser policial igual ao meu irmão, mas não deu certo. Acabou que não deu certo e eu tenho meus parentes em Santos, morava em São Vicente e sempre que eu ia pra Santos, minha mãe me dava a opção, ela falava assim: “Você quer ir pela praia ou pelo Centro?” Porque nós temos ônibus aqui de ir pela praia ou pelo Centro de Santos. E eu escolhia sempre pelo Centro de Santos, que eu gostava de ir pelo Centro. E andando ali pelo Centro, eu muitas vezes olhava as empresas que trabalham com armazenamento de produtos líquidos e ficava imaginando: “Pô, o que será que esses caras fazem aí? Como será que é o trabalho?” E eu, de verdade, mesmo adolescente tinha vontade, uma curiosidade. Quando eu me vi trabalhando ali, eu me senti um pouco realizado, porque é uma coisa que toda vez que eu vejo o ônibus passando por ali, eu lembro de quando eu era menino e passava com minha mãe, por ali, pelo mesmo caminho. 



P/1 – Que interessante! E, Fabiano, você percebe se teve transformações no Centro de Santos, comparado a hoje? O que você acha que pode ter mudado?



R – Ah, muita coisa! Os armazéns, quando eu era menino, passava pelos armazéns ali e você via um sinal de… um aspecto meio de abandono. Muito sujo, muito precário. E hoje não. Hoje é um dos portos do mundo mais modernos. Os armazéns foram se modernizando, automatizando. Até mesmo ali na parte onde eu trabalho, que é na Alemoa, o acesso à Alemoa era muito difícil. Era rua de terra, tinha esgoto a céu aberto, quase vinte anos atrás, quando comecei a trabalhar lá. Então o acesso era muito difícil, caía chuva, ficava aquela lama. Hoje é um cenário totalmente diferente. Nessa época que eu tô te falando, a gente sempre operou com navio. E como é que você sabe que o navio vai atracar? Então você tinha apenas o contato telefônico, não tinha celular no comecinho, então você tinha o contato telefônico com a gente, então você tinha uma prévia de quando o navio ia atracar, mas muitas vezes o navio atracava e não estávamos prontos pra operar, por falta da comunicação. Hoje não, hoje está bem mais moderno, tem o site, o Santos Pilots, que a gente consegue verificar onde o navio está naquele momento, no mundo, e a gente consegue se programar pra fazer um atendimento mais rápido, mais eficiente. Acredito que toda essa modernização trouxe benefícios pro Porto de Santos, pra nós trabalhadores e pro país, em si.



P/1 – Voltando um pouquinho, queria saber qual a sua primeira lembrança da escola. 



R – Primeira lembrança? Hum… olha, não vou te falar que era de estudo, era de brincar. Era das brincadeiras, dos amigos, que eu sinto falta dos colegas de escola. A primeira lembrança que me vem é disso aí, amizade que a gente construiu.



P/1 – E teve algum professor marcante?



R – Teve, teve sim. Minha mãe sempre nos orientou a respeitar muito o professor. Respeitar o professor, não responder, não ficar de brincadeira em sala de aula, então eu sempre levei isso muito a sério e eu tive um professor de Português, ele já é falecido e ele trabalhou também na Cosipa, em Cubatão. Ele era aposentado lá e ele foi dar aula de Português. Era um cara que eu também gostava bastante dele e marcou, porque ele incentivava o jovem a estudar, a correr atrás da informação. Ele sempre falava: “Eu já sou formado, eu posso enganar vocês aqui e ensinar alguma coisa errada. Vocês têm que correr atrás e ver que o que eu estou ensinando é certo ou não”. Ele era um cara provocativo nesse sentido, então me marcou.



P/1 – E como você ia pra escola?



R – Ah, eu ia a pé, porque eu morava perto. Eu ia a pé, porque eu morava perto da escola, mas que nem eu te falei, nós éramos de uma situação bem humilde. Então eu tinha que esperar meu irmão chegar pra pegar o uniforme da escola e ir com a mesma camisa pra escola. Mas dá saudade de tudo isso aí.



P/1 – Tem alguma história que tenha te marcado nesse período da escola, que você queira contar?



R – Deixa eu pensar aqui. Ah, teve, teve sim. Teve uma vez que minha mãe foi na escola e a professora fez uma reclamação e eu, na frente da minha mãe, quis fazer uma graça lá. Então, minha mãe tirou o tamanco na escola e me deu... (risos). Se fosse hoje eu acho que minha mãe ia ser presa, porque hoje em dia não pode. Isso aí me marcou, tanto nas costas, quanto na lembrança (risos).



P/1 – E você ficou nessa escola até se formar, ou foi só o fundamental?



R – Não, eu fiquei ali foi da quinta… não, foi até me formar.



P/1 – E como foi esse período de formação, de ter que pensar, ou começar a trabalhar, ou pensar no que você ia estudar, sair da escola?



R – Justamente, eu comecei a trabalhar muito cedo. Na época tinha um colega que trabalhava comigo e ele entregava leite, entregava em casa e entregava também na padaria. E era muito cedo esse serviço. Ele falou: “Consigo te arrumar, só que é pra jornal”. Então eu muito cedo comecei a trabalhar, eu entregava jornal, era uma kombi e o motorista parava e eu abastecia as bancas de jornal, isso muito cedo. Se eu não me engano, começava às quatro horas da manhã esse serviço e eu trabalhava e depois ia pra escola. E à tarde descansava. Ou era à tarde que eu ia pra escola, alguma coisa assim. Mas eu comecei a trabalhar muito cedo, mas minha mãe nunca deixou eu largar os estudos. Ela falou: “Se você quer trabalhar, tudo bem, mas não vai largar os estudos”. Ela incentivou bastante pra não abandonar os estudos.



P/1 – Durante toda a escola você teve esse trabalho?



R – Não, foi nos dois últimos anos da escola, eu trabalhei entregando jornal. Mas antes desse eu também trabalhei como ajudante de pedreiro. Então tinha um pai de um amigo meu que era pedreiro e sempre que ele precisava de ajuda, eu ia. Eu, de trabalhar mesmo, comecei muito cedo. O que aparecia pra fazer, eu ia.



P/1 – Você lembra da sensação do primeiro dia ou da primeira semana, como foi chegar em casa depois do trabalho? Como era essa sensação?



R – Era bom porque eu conseguia tanto ajudar minha mãe e conseguia ver também um fruto do meu esforço. Agora você foi falando e eu fui lembrando.Teve um cara também que estudou comigo, que é meu cunhado, que eu acabei casando com a irmã dele e desde moleque, ele sempre trabalhou e eu ia com ele. Porque o pai dele que era pedreiro, então ele: “Pô, vamos lá”, eu ia e tal e no começo eu fui mais pela bagunça de estar junto ali, mas depois a gente vê que trabalhar é bom, traz frutos, não me trouxe problema nenhum.



P/1 – E pós escola, na juventude, como foi desenrolando a vida e como você se divertia?



R – Então, questão de música, sempre gostei de música, eu toco saxofone. Então minha diversão era essa, se juntar com a galera que gosta de música, eu tenho alguns amigos que são músicos. Tenho um colega que trabalha em uma plataforma em alto mar e quando ele está aqui em Santos, ele também é vocalista de uma banda e tal e a gente sempre... somos amigos até hoje e a minha diversão era essa: estar envolvido em alguma coisa voltada à música.



P/1 – E você saiu da escola e logo foi pra faculdade, ou não?



R – Não, não, demorou um pouquinho. Aí vai de encontro quando eu comecei a trabalhar nessa área química. Eu fui trabalhar na Ultracargo e logo que eu comecei a trabalhar lá, eu comecei a entender o ambiente onde eu estava e falei: “Poxa, eu preciso dar uma melhorada, preciso melhorar como profissional”. Então eu fui fazer um Curso Técnico em Química, aí eu fiz o Curso Técnico em Química e depois de um tempo, nessa época, logo que eu terminei o Curso Técnico em Química, a minha esposa passou na faculdade também, pública, fez Pedagogia, então eu a ajudei no sentido que ela passou na faculdade e já engravidou. Então eu tive que dar uma força, depois que meu filho nasceu, ia pra faculdade, ficava com meu filho no colo enquanto ela fazia prova e tal, mas então a gente foi se ajudando. E quando ela terminou a dela, eu comecei a fazer Engenharia. Aí fiz Engenharia, não foi fácil, porque é um curso muito difícil e você ser chefe de família, líder de equipe no trabalho e fazer um curso desse foi muito difícil. Mas eu me esforcei ao máximo, minha família me ajudou bastante, me apoiando: “Não desiste, não para”, e tal. Aí eu me formei e depois fiz uma pós em Segurança, que é a área que eu amo, eu gosto muito dessa área de Segurança, segurança de processos, de pessoas.



P/1 – Mas qual foi o caminho que você percorreu até chegar no porto, no trabalho com área química?



R – Eu trabalhava numa empresa que fornecia trabalhos pra Ultracargo, uma empresa terceirizada. Aí um rapaz que trabalhava no laboratório falou: “Poxa, tu não tem vontade de trabalhar aqui?” Eu falei: “Ah, até tenho”. Mas sabe quando você não cria muita expectativa? Eu falei: “Até tenho”. Enfim, ele arrumou uma entrevista pra mim, eu fui selecionado e aí comecei a trabalhar como auxiliar de adequação, é a base da operação. Aí eu comecei a pegar gosto e realmente me apaixonar pelo ramo de armazenagem de produtos líquidos. Aí eu não me contentava só em armazenar o produto, eu sempre quis saber o processo completo, então eu fui me especializar.



P/1 – Queria saber, antes, então, como você conheceu sua esposa, como foi esse encontro?



R – Aí você vai me fazer chorar, pô! (risos). 



P/1 – Fique à vontade, se não quiser comentar... 



R – Não, não, não, não. A gente se conhece desde criança. Vou tomar água. Essa questão de família me toca porque, como meus pais foram separados, eu sempre valorizei muito a família. Eu conheci minha esposa [quando] nós éramos adolescentes, porque eu estudei com meu cunhado, com o irmão dela, que hoje é mais que um irmão. Então a gente se conheceu desde criança e eu trabalhei com meu sogro, que meu sogro era pedreiro, eu trabalhei com ele e tal. E quando eu fui trabalhar no porto, olha que interessante, fazia uns dois anos que eu não via meu cunhado, que tinha estudado comigo, o Marcos. Aí eu cheguei na agência que estava fazendo entrevista e ele era o primeiro da fila, o primeiro da fila, aí encontrei com ele e falei: “Poxa!” e ele : “O que você está fazendo aqui?” Eu falei: “Ah, vou fazer entrevista”. Ele falou: “Ah, eu também. Ah, fica aqui” e a gente ficou ali conversando e naquele momento ele me falou que o pai dele tinha falecido há uns quinze dias mais ou menos, no máximo. Aí a gente se abraçou e chorou. E o pessoal que passava falava: “Pô, esses caras estão precisando mesmo do emprego, estão até chorando aí, na fila” (risos). Mas não era, era por causa da perda. Enfim, aí ele pegou e falou: “Ah, vamos lá em casa, minha mãe vai gostar de te ver, não sei o quê”. Eu falei: “Vamos, vamos sim!” Aí eu fui na casa dele e foi lá que eu reencontrei a família, reencontrei minha esposa, irmã dele, na época. A gente voltou a ter contato e tal, aí aconteceu tudo. A gente começou a namorar, casamos, temos dois filhos, eu sou padrinho do filho do meu cunhado e foi mais ou menos isso aí o resumo da…



P/1 – E como foi o casamento de vocês?



R – Ah, foi simples, porque não teve nada de luxo, mas a base do nosso casamento, que é o respeito, a confiança, o amor, foi muito bom. Sou muito feliz, nós já estamos juntos há dezesseis anos, então sou muito feliz, foi muito legal, o casamento foi muito bom, fez muito bem pra mim como pessoa, como profissional. Eu acredito que se eu não tivesse casado com ela, eu não teria conseguido chegar até aqui e estar conversando com você.



P/1 – Fabiano, então me explica uma coisa, só pra eu ver se eu tô entendendo, você saiu da escola e você logo entrou no porto, ou você chegou a fazer outros trabalhos?



R – Não, fiz outros trabalhos, como te disse, sempre trabalhei. Trabalhei no Sesc Santos, tem o Sesc, você conhece? Tem o Sesc Santos. Trabalhei ali um ano e meio, logo que eu saí do Exército fui trabalhar no Sesc. E tenho amigos até hoje lá. Aí trabalhei no Sesc, trabalhei em uma empresa que prestava serviço pro porto também, questão de documentação, de container e tal.



P/1 – Como foi a experiência no Exército?



R – Olha, não foi muito boa, não (risos). Não gostei muito, não. Mas é o que eu te falo: meu irmão sempre foi policial, então eu sempre quis, aí quando tive a oportunidade do Exército, eu falei: “Eu vou”. Mas não gostei muito, não. Mas não foi tão sofrido, por quê? Porque, como eu já tocava, então eu fui pra banda, eu fiz o teste na banda, então eu fui pra banda, então não foi tão puxado, não, mas eu não gostei muito, não.



P/1 – Você ficou quanto tempo?



R – Ah, eu saí na primeira baixa, se não me engano nove meses, oito meses. Porque tem primeira, segunda e terceira baixa. Então, eu não cheguei a ficar nem uma gestação lá, eu saí bem...



P/1 – E como foi essa volta?



R – Não entendi.



P/1 – Como foi esse retorno, sair do Exército e voltar para as atividades do dia a dia, como foi?



R – Então, aí, quando eu saí, você fica meio perdido, você fala: “Caramba, o que eu vou fazer agora?” Eu nunca quis viver de música, eu nunca quis, é um hobby, apenas um hobby, mas eu nunca sonhei. Eu tenho colegas que vivem de música, mas eu nunca quis, então, realmente, quando eu saí do Exército eu fiquei preocupado, eu falei: “O que eu vou fazer? Vou trabalhar no quê?” Então o que vinha aparecendo, eu fui fazendo, mas realmente eu me encontrei quando eu fui trabalhar no porto. Foi onde realmente eu me encontrei.



P/1 – E você ficou sabendo desse serviço através de um amigo, é isso?



R – Na realidade foi um vizinho, ele falou: “Olha...”, foi um vizinho meu e nós fomos lá e foi lá que eu reencontrei meu amigo, que é meu cunhado.



P/1 – E aí o emprego do Porto você começou como auxiliar de operação?



R – Isso. O auxiliar de operação é a base da operação, é um serviço 90%, 70% braçal. É um serviço puxado, perigoso, por se tratar de produto químico líquido. É um serviço detalhista também, você tem que estar muito atento aos detalhes, então comecei na base ali do armazenamento dos produtos líquidos.



(35:39) P/1 – Você sempre esteve envolvido com essa questão dos produtos líquidos, é isso?



R – Sim, já tive uma experiência com granéis, com container, mas foi rápido, não durou muito tempo. Agora, o irmão do meu pai, o meu tio, sim. Meu tio trabalha com container até hoje, desde novinho. Às vezes a gente se encontra e troca experiências. Você vê que o porto, ele vem… a minha família praticamente toda trabalha no porto. Tenho dois tios que trabalham com container, diretamente com container.



P/1 – Isso que eu ia te perguntar: como você ficou sabendo da existência do porto? Isso era corriqueiro, vocês conversavam sobre isso na sua família? Você lembra quando você ficou sabendo que existia o porto?



R – Sim, sim, o porto sempre esteve vivo ali na minha família, porque o irmão do meu pai sempre trabalhou com container, meu outro tio também, por parte de pai, sempre trabalhou nesse ramo. Eles são, vou dizer que são especialistas no armazenamento de containers, então sempre em encontros familiares, sempre o assunto era porto, meu avô foi eletricista na Codesp, que era a antiga Docas, então o assunto sempre era voltado ao porto. Acho que a única pessoa, os únicos que não vivem do porto, é meu irmão, que é o mais velho e o do meio, que é comerciante. Mas também o ponto da feira onde ele trabalha é no Valongo, que também é perto ali do porto, então...



P/1 – E você lembra de alguma história que os seus tios ou seu avô comentavam, do porto? 



R – Ah, as dificuldades, as dificuldades. Fila pra descarregar container, demora no atendimento. Então às vezes a gente estava tendo uma confraternização de família e às vezes um ou outro tinha que ir lá pra ajudar a resolver. Hoje não, hoje está mais organizado, está mais rápido o processo. Mas eu lembro disso aí, em vários encontros familiares, até Natal e Ano-Novo, eles terem que sair pra resolver alguma coisa do serviço.



P/1 – E, Fabiano, você lembra da sensação de quando você começou lá no porto? Essa sua experiência não mais prestando serviço, mas atuando mesmo, você lembra como foi esse momento?



R – Lembro, lembro sim, de realização, de conquista, porque quando você presta serviço, você não está trabalhando diretamente e eu queria trabalhar diretamente. Então é uma sensação de conquista. Eu trabalhei dezoito anos em turno rotativo.Trabalhava semana de manhã, semana à tarde, semana à noite. Trabalhei muito Natal, Ano Novo, aniversário, então, mas isso eu não falo com tristeza, não, é com alegria mesmo, porque minha família sempre teve muito orgulho do meu trabalho. Às vezes eu não passei muito Natal e Ano-Novo em casa, eu estava trabalhando e meus filhos nunca viram eu sair de casa reclamando que estou indo trabalhar, eles nunca vão ter essa memória: “Ah, meu pai está indo trabalhar agora e está chovendo, meu está indo trabalhar e saiu reclamando”. Nunca, eles nunca viram, porque de verdade eu nunca reclamei do meu trabalho. Quando você faz o que você gosta, o fardo fica mais leve.



P/1 – E como você se encantou pela área química? O que te levou a querer aprender mais, a desenvolver?



R – A questão da segurança foi o que me despertou essa vontade de aprender mais sobre reação química, sobre riscos e perigos. Foi justamente essa questão da segurança que me fez estudar e mergulhar nesse mundo de armazenagem de produto químico.



P/1 – Se você puder explicar um pouquinho pra gente como funciona o trabalho, qual a importância da segurança, o que pode acontecer.



R – Sim. Nós armazenamos produtos químicos em fase líquida. E os tanques não são cativos, nós alugamos o espaço e então esse espaço, sempre você está trocando o produto, então é feita uma adequação química, uma lavagem no tanque. A gente trabalha muito visando família de produtos, reação, então tem toda essa preparação na questão de segurança em primeiro lugar, segurança dos ativos, de pessoas e da qualidade do produto. A gente tem que manter a qualidade do produto. Vamos supor, acabei de operar o navio agora com álcool. Álcool de abastecimento de veículo. E nesse mesmo circuito eu vou passar álcool numa qualidade alimentícia ou hospitalar, então eu preciso adequar todo o circuito, os equipamentos, pra que não tenha, nessa parte, contaminação.



P/1 – Quais são os produtos que você trabalha?



R – Ácido fosfórico, soda cáustica, álcool, gasolina, diesel. São mais de quarenta produtos hoje, armazenados no terminal, são mais de 167 tanques, a Ultracargo hoje é a maior empresa de armazenamentos de produtos químicos privada, só perde pra Petrobras e em Santos o cenário é esse aí. A gente opera por ano mais de 1300 carretas. 



P/1 – Então você realmente realizou um sonho, você falou que você passava no ônibus do centro histórico, vendo os armazéns líquidos e foi trabalhar justamente nessa área.



R – Sim, sim, realizei um sonho. Que nem você me perguntou sobre minha experiência no quartel, não gostaria que os meus filhos passassem, eu não gostaria. Agora, na área em que eu trabalho, eu já gostaria. Eu já gostaria que eles seguissem trabalhando na mesma profissão que eu atuo.



P/1 – E quais são os momentos mais desafiadores, pensando na sua trajetória profissional no porto?



R – Ah, com certeza, sem sombra de dúvidas foi a pandemia. Foi um momento muito difícil, muitos funcionários ficaram afastados por causa da contaminação. Eu tive dois colegas bem próximos que foram pra UTI. Um voltou, o outro também voltou, só que a esposa acabou falecendo, infelizmente. Teve um que foi ele e a esposa e a esposa faleceu e graças a Deus eu continuei trabalhando no auge da pandemia, não fui… fiz o teste e a princípio não fui contaminado. O número de funcionários no auge da pandemia deu uma abaixada, então o trabalho continuou e eu acho que foi um momento bastante desafiador. O Porto de Santos não para. Que nem eu te falei: Natal, Ano-Novo, Dia das Mães, o porto não para. Faça chuva ou faça sol, ele não para. O porto movimenta praticamente 67% do PIB nacional, então na pandemia, se eu não me engano agora, no mês de maio, mesmo com a pandemia, o porto está quebrando recorde de movimentação. São mais de quarenta mil funcionários no Porto de Santos, diretos e indiretos, então o povo santista é um povo trabalhador, que ama o que faz, ama o porto, vive do porto, então foi um momento bastante desafiador essa pandemia, esse momento que a gente ainda está passando.



P/1 – Vou aproveitar o gancho e perguntar: e na sua vida, pensando em aspectos pessoais e de família, como a pandemia influenciou a sua vida?



R – A minha sogra eu a tenho como uma mãe também, eu tenho um relacionamento maravilhoso com ela e ela foi, na época da pandemia, há pouco tempo, fazer uma cirurgia de retirada de pedra na vesícula. A cirurgia foi um sucesso, deu tudo certo, mas ela teve covid. Então ela foi pra UTI três vezes e voltou, foi um momento muito difícil pra toda família. O meu cunhado, que eu tinha comentado dele com você, é enfermeiro padrão, a irmã dele, da minha esposa, também é enfermeira, na Santa Casa de Santos, então eles acompanharam de perto a mãe ali, mas foi bastante dolorido. 

 

(Pausa)

 

(48:09) P/1 – Fabiano, aproveitando o gancho, eu vou te perguntar como a pandemia impactou a sua vida, pensando nos aspectos pessoais, mesmo. 



R – A minha sogra foi fazer uma cirurgia de retirada de pedra na vesícula e foi um sucesso a cirurgia, deu tudo certo, mas ela acabou infectada pelo covid. Então, ela foi pra UTI três vezes e hoje ela ainda tem sequelas, se sente muito cansada e foi um momento muito difícil pra toda família. E meu cunhado e minha cunhada, os dois são da área da Saúde, são enfermeiros e acompanharam de perto, lá, foi um momento bastante difícil, mas graças a Deus ela está bem, mas foi bastante difícil. O meu cunhado também trabalhou... a base aérea do Guarujá montou um hospital de campanha e ele acabou indo pra lá e isso mexeu também com ele, porque muitas vidas foram perdidas ali, na batalha contra o covid e isso mexeu bastante com a gente, mas nos traz uma reflexão.



P/1 – Queria saber se você se lembra de alguma história marcante no trabalho, ou de algum sufoco, ou alguma história engraçada, ou de algum colega...



R – Sim, teve uma situação que me marcou. Na noite de Natal... não, era Ano Novo e nós estávamos com um navio de soda cáustica, recebendo soda cáustica. E toda operação é feita em uma linha do tempo. Momento da conexão, início da operação e início da chegada do produto no terminal, vinda do navio no terminal e, por incrível que pareça, isso me marcou. A soda cáustica entrou no tanque meia noite, era Ano-Novo. E eu tinha do lado um colega e a gente tem que registrar todo esse processo da operação e eu falei no rádio HT, eu falei: “Meia noite, chegada do produto no tanque”. Então ficou registrado no timelog essa chegada aí e eu olhei pro colega e falei: “Feliz Ano-Novo!” Então a gente passou o Ano-Novo ali, trabalhando, mas isso me marcou. Não esqueci isso daí.



P/1 – E, pensando desde o começo, desde a época que você entrou no porto, quais transformações você pôde perceber e pôde ver de perto, desde o momento que você entrou, até os dias de hoje, nessa área?



R – Com certeza a modernização, o jeito que a gente operava há anos atrás e a forma que estamos operando hoje. A gente brincava que atracava um navio fantasma. Porque a gente não sabia, a gente tinha uma noção do dia que o navio ia atracar, mas não tinha o horário, então: “Ah, o navio está atracando”, então a gente tinha que correr pra preparar os equipamentos, pra operar, porque a hora do navio parado é bastante cara. E hoje não, hoje a gente consegue acompanhar o navio em tempo real, o deslocamento dele, a gente consegue preparar as nossas operações com bastante antecedência, com aproximadamente 48 horas antes a gente já consegue deixar o circuito todo pronto pra essa operação, pra qualquer tipo de operação. Então, câmeras no porto também, o monitoramento, o acesso ao Porto de Santos hoje é mais seguro.



 P/1 – E, Fabiano, como foi o momento de começar as suas especializações, desde o curso técnico, até passar pela engenharia, que não foi muito fácil, como você mencionou, e também a pós. Como foi começar a se envolver e se especializar mesmo, quais foram os aprendizados e os desafios?



R – Então, na formação de engenharia eu acumulei bastante DP. Tinha muita matéria de DP e eu comentei com um antigo gestor meu - ele também não está mais na empresa - eu falei pra ele: “Cara, acho que eu vou parar, eu não estou conseguindo”. E ele me deu uma orientação, naquele momento ele falou: “Não, não faça isso! Se fosse fácil, todos seriam”. Foi o que ele falou. Não tô dizendo que as pessoas não são capazes, pelo contrário, todos conseguem, basta você ter força de vontade, determinação, apoio, porque ninguém faz nada sozinho. Só pra acrescentar. Se eu tenho esse tempo todo de porto, então eu não criei essa história sozinho, estou aqui representando centenas de trabalhadores ali, que atuam junto comigo, estou aqui representando também a minha família, que sem ela eu, com certeza, não conseguiria estar onde eu estou. Então essa parte do estudo também, não é fácil você pegar um trabalho de escola e se trancar no quarto, meus filhos pequenos, querendo atenção, querendo brincar e você, sabe: “Espera aí, daqui a pouco”, E você estuda, vai dormir e aquele ‘daqui a pouco’ não chegou. E então… mas é necessário e é o que eu tento passar pra eles hoje, eu falo: “Estudem o quanto antes, não deixa pra... nunca é tarde, mas não deixe passar muito tempo”.



P/1 – Queria saber como foi esse momento de se tornar pai, o que a paternidade representou na sua vida?



R – Uma realização. Foi uma programação também, meus dois filhos foram programados, nós estávamos ‘preparados’. ‘Preparados’ entre aspas, porque o meu mais velho tem treze anos, está na fase da adolescência, então quando você acha que está preparado, você tem que estar se atualizando junto com eles. Mas foi uma realização, foi uma realização, eu vivo pra eles. Eu amo meus filhos, então foi, realmente, mais do que tudo que eu conquistei no sentido de educação e de trabalho, o que eu tenho de mais valioso são eles.



P/1 – Queria saber como foi o primeiro momento logo após o nascimento do seu primeiro filho, que a sua esposa estava na faculdade, você comentou que tinha que acompanhá-la, ficar um pouco com ele, como foi esse primeiro momento, mesmo?  



R – Foi muito legal, porque eu tive que ajudá-la. Ela ia pra faculdade e às vezes meu filho chorava, precisava mamar, essas coisas. Então eu ia pra faculdade com ela, já cheguei a assistir aula segurando-o lá, os professores deixavam e até prova. Prova também eu ficava do lado de fora com ele, quando ele chorava, ela vinha e tal e eu acabei pegando uma amizade com a turma dela, que fez o curso de Pedagogia. Então nós temos um grupo e parece que eu fiz o curso também, mas eu não fiz. Mas a gente pegou uma amizade bacana. E a gente tem amizade, tem encontros do grupo da faculdade dela até hoje, então foi bem marcante. Quase que eu fiz o curso de Pedagogia, eu e meu filho. Porque a gente ia pra faculdade sempre. Mas foi muito bacana, muito legal. Aí quando minha esposa terminou o curso, aí ela fez uma faculdade pública, né? Eu a inscrevi no curso de Pedagogia, sem ela saber e aí avisei: “Coloquei lá”. E ela foi fazer a prova. E ela passou e fez o curso. Aí depois eu a inscrevi num concurso público e falei: “Ó, te inscrevi num concurso público”. Ela falou “Caramba!” Beleza. Ela fez a prova e esqueceu. Só que até hoje eu tenho a mania de ficar lendo o Diário Oficial, eu sempre leio o Diário Oficial da minha cidade, eu gosto. E eu vi que ela tinha passado no concurso, ela não sabia também. E aí ela estava no quarto e eu falei: “Prepara os documentos aí que você passou no concurso”. E ela falou: “Não acredito!” Enfim, hoje ela é professora na Praia Grande, mas a história foi assim, mais ou menos assim.



P/1 – E o seu segundo filho, veio em que momento da vida de vocês?



R – O segundo também foi programado. O Murilo, que é o mais velho, já estava de três pra quatro anos, aí: “Vamos tentar mais um?” Aí foi programado, ela já estava trabalhando e eu também, só que na época que ele nasceu ela trabalhava na área da Saúde, porque a família dela todo mundo é da área da Saúde, só que ela trabalhava em laboratório, na área da Saúde. E aí foi nessa época que ela engravidou, ela trabalhava num laboratório bastante conhecido aqui na Baixada e depois que ele nasceu, ela foi pra área da educação.



P/1 – Qual é o nome da sua esposa?



R – Maiara.



P/1 – E do seu filho caçula?



R – Miguel. Murilo, Miguel e Maiara, três Ms (risos).



P/1 – E, Fabiano, quais foram - assim, pensando, tentando fazer um avanço - seus aprendizados ao longo da sua trajetória profissional, pensando em tudo que também vai costurando na vida profissional e na vida pessoal, mas desses momentos, desses anos todos?



R – Com certeza a resiliência. A minha vida sempre foi uma bússola, só que não essa moderna, que você digita o local que você quer ir e vai. A minha sempre foi aquela que você tem que parar e ajustar. Então em vários momentos da minha vida, tive que parar e ajustar a minha caminhada, a minha trajetória, em vários momentos da minha vida.



P/1 – E você, pensando nessa relação porto/cidade e acho que não só na cidade de Santos, mas em toda região, porque você comentou que é isso, o porto movimenta o Brasil também. Você recebe essas influências, os impactos do porto nas cidades próximas e quais seriam eles?



R – Sim, o Porto de Santos, no governo, na época que o Temer estava na presidência, teve uma paralisação dos caminhoneiros e eles fecharam as principais entradas do Porto de Santos. A cada dia parado, não vou lembrar em números, mas foi um prejuízo considerável a greve. Eu me lembro que eu cheguei a ir onde os motoristas estavam fazendo a greve, pra gente tentar negociar a passagem de caminhão de nitrogênio, só de nitrogênio, porque os caminhões de nitrogênio abastecem os hospitais também. Foi a única coisa que a gente conseguiu, foi deixar a passagem livre pra caminhões de nitrogênio. O Porto de Santos tem um impacto considerável, não só na Baixada Santista, mas no país inteiro.



P/1 – Fabiano, eu queria saber, como é o seu dia a dia?



R – Levanto por volta das cinco e vinte, cinco e meia da manhã, porque dá pra eu acordar um pouquinho mais tarde, mas eu sou um pouco antecipado. Então levanto por volta das cinco e vinte, cinco e meia, vou me arrumando com calma, ouvindo as notícias, minha esposa também, em seguida já levanta, a gente toma café e saímos juntos pra trabalhar, ela vai pra escola e eu venho pro porto. Aí hoje eu estou trabalhando mais voltado a treinamento de equipes e documentação, então minha rotina é revisar procedimentos de operações marítimas, transferências entre tanques, então reviso os procedimentos e, dentro da agenda, encaixo as turmas para serem treinadas, tanto os operadores que já estão na ativa, quanto os novos que estão sendo contratados. Não sou só eu nessa equipe, tenho mais dois colegas que trabalham comigo, fazendo essa atividade. Participo também de auditorias internas e externas. Final do dia retorno pra casa e aí dar atenção pros filhos. Eles gostam muito de videogame, com toda criança, adolescente. Mas a gente impõe alguns limites. Ainda mais que a minha esposa é professora. E eles gostam de leitura também, então a gente tira duas horas ali, no comecinho da tarde, pra fazer leitura. Cada um está lendo um livro lá e, quando a gente termina, a gente faz uma resenha do que leu. O pequeno lê mais gibi, ele gosta muito de gibi. Agora, o mais velho, não. O mais velho, quando ele foi pra escola, ele já foi na fase do letramento, porque minha esposa, em casa, já foi, então… e final de semana é praia, aí eu gosto muito também de ir pra casa do meu pai, no interior, eles também amam ir pra lá. A rotina praticamente é essa. 



P/1 – Eu só ouvi: “No final de semana a gente vai pra praia”.



R – É, a gente gosta muito de praia e esqueci: tem também o cachorrinho. A gente tem o cachorrinho, que faz parte da família, eu chego em casa, ele já vem pulando, que quer descer, aí desce eu e meu filho pra levá-lo. Tem o cachorrinho também.



P/1 – Hoje em dia você não trabalha mais de turno?



R – Não. Hoje em dia, não. Hoje em dia eu trabalho no horário ADM. Mas trabalhei muito tempo de turno, muito tempo, dezoito anos de turno.



P/1 – Como foi essa mudança, pra você?



R – Então, no começo, você toma meio que um choque, porque o teu corpo, tua mente, você está acostumado aquela… mas eu sou uma pessoa que eu me acostumo muito fácil, muito rápido com as coisas. Eu não tenho essa dificuldade. Está tocando samba, agora é rock, eu, graças a Deus, tenho essa facilidade de me adaptar. Então teve um impactozinho, mas foi coisa de dez dias, no máximo, até o corpo se acostumar.



P/1 – E o que você gosta de fazer, nas horas de lazer?

 

R – Estar com a minha família. É o que eu mais gosto, gosto muito de estar com eles, gosto muito de conversar com meu filho mais velho, de treze anos, a gente conversa muito sobre série, sobre livros, videogame. Videogame eu tô perdendo um pouco a paciência, porque eu perco muito dele, então eu tô… mas eu gosto muito de estar com eles, é o que eu…



P/1 – E, Fabiano, hoje em dia você trabalha com pessoas, fazendo treinamento, né? E como é isso, pra você? Quais são os desafios e os aprendizados de ter esse contato direto com pessoas? Como funcionam esses treinamentos de equipe?



R – Ah, eu gosto muito de estar nessa parte de treinar pessoas, porque quando você está ensinando a atividade pra aquela pessoa, ou revisando a atividade, você está aprendendo mais do que a pessoa que está ali, te ouvindo. E eu gosto muito da parte prática, então eu faço as duas partes: a parte teórica, em sala de aula, mas eu gosto muito de ir na prática, porque na prática é diferente. Você pegar a receita de um bolo e: “Olha, você põe a farinha, você põe água, não sei o quê”. Você colocar a mão, você aprende mais. Então, eu gosto muito do que eu faço, muito.



P/1 – O que o Porto de Santos representa na sua história?



R – Ah, minha vida, conquista, né? Tudo que eu tenho, material, coisas materiais e conhecimento, veio do porto. Tudo, tudo. O porto realmente representa minha vida e a vida da minha família. Tenho certeza que quando meus filhos passarem ali pela área onde eu trabalho, eles vão mostrar pros meus netos: “Olha, meu pai trabalhou aqui, meu pai fez a vida dele aqui”. Eu tenho certeza.



P/1 – Hoje você não mora em Santos, né?

 

R – Não, hoje não. Já morei em Santos, quando eu era solteiro, mas hoje eu moro na Praia Grande.



P/1 – Todo dia faz essa viagem?



R – Todo dia. É, tem a pista. São vinte minutos. É, eu venho pela pista e dá vinte minutos, mas mesmo assim acordo muito cedo (risos).



P/1 – E quais são as coisas mais importantes pra você, hoje?



R – Mais importante é a família e o desenvolvimento deles, né? Desenvolver e ajudar no desenvolvimento da minha família.



P/1 – E os seus sonhos, quais são?



R – Hummmm, tudo que eu te falar, assim, eu vou estar sempre falando neles. O meu sonho é que eu consiga deixar um legado bom pros meus filhos, que eles possam seguir os meus passos, os corretos, porque nem tudo… com certeza eu errei e reconheço que devo ter errado em alguma parte dessa trajetória e meu sonho é que eles aprendam com os erros que eu cometi e com os acertos. E um dos erros que eu cometi, que eu vejo, foi ter me preparado na parte de estudo um pouco mais tarde. Então meu sonho é que eles aprendam com os erros, que eu falei.



P/1 – A gente está caminhando pro fim, antes eu só queria te perguntar se você gostaria de contar alguma passagem da sua vida, que eu não tenha perguntado, alguma história de qualquer momento da vida ou deixar alguma mensagem. 



R – Espera aí. Vou tomar uma água, espera aí. Vamos lá? A minha mãe, né? Eu gostaria muito que a minha mãe tivesse visto o meu filho mais novo, tivesse visto eu me formar (choro). É isso. Desculpa. Minha mãe foi uma pessoa muito guerreira e ela lutou muito com um câncer, na cabeça. E infelizmente ela não pôde ver algumas conquistas que não só eu, como meus irmãos conseguiram. Então é algo que infelizmente eu gostaria que ela tivesse visto, mas não deu tempo.



P/1 – E como foi pra você ter dividido um pouco essa história aqui com a gente, ter lembrado desses momentos, desde a infância, até hoje?



R – Ah, foi bacana, muito. Me sinto honrado de estar aqui com vocês. Como eu disse, eu não me sinto sozinho aqui, estou representando alguns colegas que eu tenho certeza também que, se estivessem aqui, poderiam até estar se expressando melhor que eu, mas alguns gestores também, que passaram pela minha vida profissional e contribuíram bastante. Não só gestores, como professores. A minha família, que eu já disse, e pra mim foi uma honra conhecer vocês e estar aqui batendo esse papo.



P/1 – Fabiano, muito obrigada! Foi muito gostoso te conhecer um pouquinho mais, saber mais sobre o porto, porque é isso: a gente acaba aprendendo muito sobre a importância do porto, tudo que ele representa, através da vida das pessoas que o fazem acontecer, o fazem movimentar.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+