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História

A metodologia que encantou

História de: Walquíria Barboza Ribeiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/11/2021

Sinopse

Walquiria Barboza Ribeiro relata coisas boas da infância, como a família - pais e irmãos - as brincadeiras e a escola. Dona Alice, a primeira professora, ficou como referência pela rigidez e em diversas ocasiões esteve presente na professora firme que Walquiria sempre foi. O restante dos estudos fez fora - com dez anos foi para Salvador fazer o ginásio, que completou em Santo Amaro da Purificação, depois novamente Salvador, onde colou grau no Magistério. Ensinou o primário e o ginásio em Terra Nova, como professora leiga - como muitos e muitas na época - e foi para Salvador buscar a formação superior. Acabou formando-se em Letras. Trabalhando na Secretaria de Educação, encontrou o Telecurso, cujo propósito e principalmente a metodologia a conquistaram. Foi uma união até a aposentadoria, e retomá-lo hoje seria, na sua visão, realizar um sonho. Um sonho forte. Pelo que representou para muita gente, inclusive para ela como educadora.

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História completa

Minha mãe dizia que o que me trouxe ao mundo foi um parto relâmpago: eu “espirrei” na cozinha, que não deu tempo de chegar no quarto. Foi em 13 de setembro de 1941, em Terra Nova, bem próximo a Salvador. Cidade aconchegante, cativante, onde as pessoas vão e sempre querem voltar. A escola pública onde fiz o primário e as brincadeiras na rua e com os irmãos são algumas das lembranças de uma infância alegre.

 

Se era verdade ou não, mas foi uma história que ela contou, que deu a vontade de parir e não deu tempo de ir para o quarto, então ali eu “espirrei”.

 

Fiz então o primário em Terra Nova, e o que mais marcou foi dona Alice, primeira professora, combinando rigidez e um carinho por mim. Era época de bater com régua e de botar ajoelhada no milho, mas eu fui poupada. Com apenas dez anos, fui para Salvador fazer admissão, que era necessário na época, e ginásio. Primeiro em casa de amigos, depois num convento, onde era mimada e não aprendi a ser prendada. Só depois eu vi que havia sido um tempo bom. Acabei por terminar o ginásio em Santo Amaro da Purificação - “um ano que valeu por quatro” - e voltei para Salvador, para cumprir o ensino médio. Desta feita meu pai alugou uma casa e mainha levava a feira - passava o fim de semana conosco, quer dizer, eu, meu irmão e minha irmã. Durante a semana, nós mesmos cuidávamos. E estudávamos. Diversão só quando voltávamos para Terra Nova, nos feriados e dias de festa.

 

E, em termos de estudo, de colegas, foi uma turma… Para lhe dizer, eu fui colega de Caetano Veloso.

 

Fiz o Magistério, me formei professora. Lembro, com um quê de arrependimento, que fui sozinha - aliás, sozinha não, apenas com meu noivo, que eu já era noiva nessa ocasião - para a colação de grau. Achei que não precisava levar a família não, porque foi no colégio mesmo, sem pompa nem circunstância. E daí passei a lecionar - professora primária - lá em Terra Nova mesmo. E eis que dona Alice, a primeira professora, durona que só ela, era diretora da escola. E insistiu para eu substituí-la, até se zangou porque eu não quis. Mas eu não quis porque ela era de muita rigidez e eu estava só iniciando no magistério - faltava experiência.

 

Hoje estou convencida de que, no fundo, dona Alice sempre esteve ali perto de mim, me acompanhando na carreira e na firmeza que sempre demonstrei, exigente que sempre fui. Assim… rígida, porém humana. E fui, inicialmente, professora de terceira a quinta séries. Considero que, em geral, tive bons estudantes que gostavam de mim - muitos gostam até hoje e demonstram isso quando me encontram. Depois, quando chegou o ginásio em Terra Nova, fui dar aula de Matemática. Naquela época, por sinal, éramos todos professores leigos - sem formação superior - mas que, naquele momento e naquelas circunstâncias, funcionou. Principalmente porque vivíamos nos reciclando, fazendo curso em Salvador, aperfeiçoando.

 

Aí, depois de um desentendimento interno - abençoada circunstância, cuja razão nem me lembro mais, porque me levou a Salvador, à Universidade e à Secretaria de Educação, de onde não saí mais, até a aposentadoria. Só teve uma consequência: resolvi fazer Português e não Matemática, com medo de não passar e ter que voltar para Terra Nova. Bom, mas aí houve, depois que me graduei em Letras, uma inadequação às escolas que apareceram, e talvez à disciplina, porque eu me identificava mesmo era com Matemática. Por isso a ida para a Secretaria, onde - quis o destino - acabei num oportuno encontro com o Telecurso.

 

Nos primeiros contatos, escolhidas as escolas piloto e transmitidas as diretrizes, sobressaiu-se a metodologia, que a todos conquistou - especialmente a mim. Então, os interessados apropriaram-se dessa metodologia que, realmente, encantava, assim como entraram em contato com o material disponível e conheceram os módulos - Português e Ciências; História do Brasil, História Geral e Geografia; Matemática e Inglês. E essas etapas foram então detalhadas aos professores; estes receberam da equipe do Telecurso as orientações necessárias, sob a forma de um curso de formação. O público alvo era composto, basicamente, de estudantes que:

 

(...) não alcançaram o seu objetivo de estudo (...) porque trabalhavam, porque tinham a idade avançada, então escola nenhuma queria aceitar.

 

Agora, havia uma condição para a aceitação deles: que tivessem, ao menos, uma noção de leitura. Mas os resultados eram surpreendentes: com um ano e três meses de curso eles concluíam o fundamental, tornando-se aptos a prosseguir. Os que pararam por aí já tiveram uma perspectiva de crescimento, de melhoria no trabalho. E os que ousaram mais terminaram o ensino médio e fizeram vestibular - uns passaram, outros não. Mas não importa: aprenderam a aprender, aprenderam a ouvir, aprenderam a melhor se relacionar com as pessoas, cresceram como gente. E esse foi o grande legado do Telecurso. Como ficou expresso, por exemplo, na cartinha que um dos estudantes de uma turma organizada para a formação educacional dos garis fez para mim, agradecendo por todas essas conquistas, um gesto e uma iniciativa maravilhosos em se tratando de alguém que havia chegado apenas sabendo fazer o nome.

 

O fato é que a repercussão do Telecurso foi tal que chegou à Universidade. Fui convidada a detalhar o método e lembro-me de ter tido a oportunidade de orientar uma professora - que havia sido minha aluna - que estava levando a metodologia para o meio universitário. Daí que não considero exagero associar minha aposentadoria, minha saída de cena, ao esgotamento do projeto. Costumo dizer que eu era uma espécie de sargento, daqueles que exigem da tropa/equipe e de si mesmo, batendo de frente para que as coisas aconteçam e se realizem adequadamente. Aquela história da dona Alice, que nunca saiu de mim, ou seja, sempre fui um pouco dona Alice, no sentido de exigir, de adotar posturas rígidas, que era o que mantinha de pé o projeto.

 

E hoje, ciente de que muitas das transformações por que passei como professora, e mesmo o lugar a que cheguei na educação, devem-se, essencialmente, ao Telecurso, eu digo que retomá-lo seria um sonho forte.

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