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História

A menina que gostava de estudar

História de: Josildeth Gomes Consorte
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/04/2019

Sinopse

Quando nasceu, disseram que Josildeth teria vida longa, teria sorte, viajaria muito. Foi o amor aos estudos, a dedicação ao saber, o empenho em fazer que levaram-na longe e permitiram passar por sobre privações e provações. Josildeth fez de suas qualidades o passaporte para ingressar no mundo mais suave, menos sofrido, das conquistas e realizações. Da doença para a pesquisa; do magistério para o trabalho de campo; da expectativa para a frustração. Apesar dos revezes, venceu. Não foi onde queria - não deixaram - mas tornou-se doutora. Não se contentou com o lençol de luzes que viu em São Paulo, foi buscar a estrela mais brilhante em Nova Iorque. Está realizada com o que fez para si; para os outros. E por poder continuar. Pelos filhos, pelos netos.

História completa

Baiana, de Salvador, nasci em 21 de junho de 1930, um momento particularmente significativo de nossa história republicana e como nação. Meu nome poder supor a junção, por exemplo, dos nomes dos pais, mas não é bem essa a explicação. Minha avó foi parteira das filhas, mas diante de eu não querer nascer, convocaram uma umbandista que fez o trabalho incorporada. E o espírito teria recomendado esse nome: Josildeth.


Meu pai era mestre de obras com uma acentuada inclinação a promover a ascensão social da família. Minha mãe bordava sonhos - aprendeu lá na Ilha de Itaparica - e só acalentava um desejo: ter a casa própria. Meu pai não ligava, preferia morar melhor fugindo das mazelas de bairro pobre. Sua indumentária não era condizente com sua profissão: andava de terno, gravata, chapéu de palhinha. Nunca o vi levar marmita. Será que almoçava? Alimentava-se bem? Morreu de tuberculose.


Criança, morava numa vila que saía de uma avenida que, por sua vez, era continuação da Baixa do Sapateiro.


Era uma casa bem à linha do bonde. A vila chamava-se Avenida Madeira, casa número seis. Ali morei até os dez anos. Tinha armazém, açougue, tipografia. Tinha o Alfredinho com asma, tinha também brincadeira de roda.

 

Eu era a mais velha, aí vinha o irmão do meio e o caçula. E eu era a que gostava de estudar. Sempre muito boa aluna. Meu pai queria porque queria que eu fosse médica. Teimei e fui ser professora. Fiz o Normal, o Magistério. Ainda bem. Quando meu pai adoeceu, fomos vendendo as coisas para enfrentar; quando ele morreu, fomos passar temporadas em casas de parentes. Não tinha para o aluguel. E o magistério foi a nossa salvação. E o meu desejo de estudar mais e cada vez mais, que me levou adiante.


No projeto de ascensão social de papai, eu era a filha boa de mostrar para o povo, o cartão de visitas. Sempre que podia me levava para conhecer as pessoas: “(...) essa menina gosta tanto de estudar!”.


Essa menina, que tanto gostava de estudar, terminou o Normal, entrou para a Faculdade, começou a trabalhar. E foi como a família sobreviveu. Lembro de que terminei o primário, fui para o Ginásio Bahia. Era distante, a família mudou, fui para o Normal. Caminho natural, o Magistério. Isso foi se refletir na escolha da faculdade, que nem foi uma escolha: estava restrito à área de Humanas. Aí prestei concurso para o magistério e um problema de saúde impediu a nomeação: uma mancha no pulmão. E a gente naquela dificuldade, morando em casa de parentes. Lembrei de um professor de Antropologia, que era da Secretaria de Saúde: recebi 50 ampolas de estreptomicina, remédio recente. Que, inclusive, poderia ter salvo a vida do meu pai, como salvou a minha. Fui então, ainda em tratamento, para o gabinete do doutor Anísio, significando o início da minha carreira na Secretaria de Educação.


Doutor Anísio estava com aquele projeto que envolvia a Universidade de Colúmbia (...) quatro estudantes que vinham fazer suas teses de doutorado, numa pesquisa no Brasil. Eu cuidei da infraestrutura necessária a essa pesquisa.

 

Por conta desse projeto, eu vim para São Paulo. Tinha meu salário, meu trabalho, aprendia inglês, possibilitava minha família se manter. Tudo isso, eu em tratamento. Mas alegre como só. Antes mesmo de eu ir para São Paulo, especulava-se sobre eu fazer doutorado em Colúmbia. Inclusive pareceu-me ser essa a razão de ir para lá. Do lado de cá, iniciava-se o estudo de comunidades, a maior novidade da Antropologia de então. Pretendia-se observar a relação escola-comunidade. Fui para o interior, área de mineração, e depois para a Zona do Cacau. Eu era muito bem-vinda, muito requisitada na pesquisa de campo. Em seguida, São Paulo. Logo depois, Nova Iorque. Jovem, mulher, pesquisadora, muito estudiosa, pau para toda obra. Se na pauliceia eu já tive uma sensação assim de “um lençol de luzes”, imagina Nova Iorque, atravessar o Central Park de madrugada, sozinha, de táxi.


Eu me senti em Nova Iorque como Cinderela (...) dois anos realmente maravilhosos. Mas eu não tinha dinheiro, o salário ia todo para mamãe. Me virava com uma bolsa de 150 dólares.

 

Porém, antes de me decidir pela viagem ao exterior, tive um momento de indecisão e angústia. O que me convenceu foi o comentário, sobretudo lúcido, de minha mãe: “Não, minha filha, seu lugar não é aqui”. Aí eu compreendi e fui.


Lá na Universidade fiz todos os exames, passei em todos, fiz os exames finais. Eles me qualificaram - veja só - apta para ir direto para o doutorado. E aí aconteceu. Doutor Anísio deixou o Ministério, a bolsa não foi renovada e eu tive que voltar. Até para não perder a condição de integrante do professorado da Bahia. Para trás ficou o sonho do doutorado. Nem pós-graduação nós tínhamos aqui - no máximo uma Campanha de Aperfeiçoamento, dita CAPES. Daquelas perdas que a gente carrega por toda uma vida.


Vim morar no Rio; afinal era lá que ficava a CAPES - e dentro do sistema educacional vigente era a ela que eu devia satisfações. Recebi do doutor Anísio um convite para trabalhar no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, que estava sendo criado. Pena que o convite veio em meio a uma conversa que eu gostaria de nunca ter tido com ele. Porque o doutor Anísio Teixeira pareceu-me não compreender o significado que teria para mim o doutorado àquela altura. E, o que foi muito pior: confessou-se decepcionado por eu estar “mais interessada nos títulos acadêmicos do que nos problemas do Brasil”. E não era isso. Uma visão distorcida dele. Nossas relações nunca mais foram as mesmas. Mas, enfim, fui a primeira pesquisadora do CBPE e foi nessa ocasião que houve uma aproximação entre Darcy Ribeiro, o grande etnólogo que achava a Educação uma coisa chata, e Anísio Teixeira, o grande educador que não via nenhuma graça em estudar o índio. Só que Darcy era inquieto e andava sonhando, por aquele tempo, com a instituição de um curso de formação de pesquisadores - nós não tínhamos ainda pós-graduação e isso vinha suprir essa lacuna. E justamente Anísio, na recém criada CAPES, era a pessoa que poderia viabilizar esse projeto, do ponto de vista de verba. E aí, hoje, eu percebo o quanto, pelo meu envolvimento com essas áreas, eu conheço Anísio Teixeira. Sua formação, seu pensamento, suas características intelectuais e pessoais. Tanto que, como parte do meu trabalho na PUC, estou preparando um artigo comparando Paulo Freire e Anísio.


Mas justamente voltando ao doutor Anísio,  e ao CBPE, lembro que este foi estruturado em duas áreas: pesquisas sociais e pesquisas educacionais. Refletindo o grande desafio da educação na década de 50 que, para Anísio Teixeira, residia principalmente na escola pública primária - vide sua grande realização, a escola-parque. Ou seja, essencialmente o resgate de uma população considerável de analfabetos, muitos trazendo sequelas do tempo da escravidão, quando havia até proibição de estudar.


Bom, mas aí a vida prossegue, eu me caso em 1959. Um casamento que não tinha a aposta de ninguém praticamente, porque eram mundos diferentes, áreas de interesse quase que opostas: o ator e a antropóloga. E que, no entanto, durou cinquenta anos. Uma prova de muita resistência de parte a parte, equilíbrio, afeto, companheirismo. Haja vista quando tivemos que passar um ano e um mês literalmente “internados” num hospital, face ao gravíssimo acidente aéreo que ele sofreu. Escapou por muito pouco. Mas estávamos lá, juntos.


Eu tenho uma satisfação muito grande por tudo que eu consegui, por tudo que eu cresci, pela contribuição que, de uma forma ou de outra, eu tenho dado para a formação de outros.


 

 

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